domingo, 23 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8938: Em busca de ... (174): Henrique Paulino Serrão, ex-Marinheiro Fuzileiro Especial do DFE10, procura informação sobre a localização dos seus camaradas


1.   O nosso Camarada Henrique Paulino Serrão, que foi Marinheiro Fuzileiro nº 763/65, no DFE 10, enviou ao Luís Graça uma mensagem com o seguinte apêlo.
  
Amigo e camarada Luís Graça,

Já há algum tempo que procuro saber do paradeiro dos camaradas, que estiveram entre 1967-1969 no meu Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 10, mas até ao momento os resultados têm sido nulos.

Depois de dar mais umas voltas ao cérebro, resolvi apelar para o vosso/nosso blogue.

Embora ainda não seja membro da tertúlia, passo muitas horas a navegar por aí.

Assim, peço se é possível publicar a mensagem com os nomes que envio a seguir.

Procuro camaradas
DESTACAMENTO DE FUZILEIROS ESPECIAIS Nº 10
(1967-1969)

Solicito a publicação dos números e nomes de ex-camaradas que procuro. Infelizmente não disponho de outros dados, senão os seus números e nomes.

É meu desejo, e dos restantes companheiros, trazê-los de volta ao nosso convívio.

São eles:

Sub-Ten - João António da Silva Leite
6576 - Cabo FZE – Simão Rebola
5012 - Cabo FZE – Acácio Marmelo
4798 - Mar FZE – Alexandre Rodrigues
9211 - Mar FZE – Amadeu Fernandes
824/64 - Mar FZE – Manuel dos Santos Serra
2042/64 - Mar FZE – João de Sousa
563/65 - Mar FZE – Mário Peres
921/65 - Mar FZE - José Júlio
1014/65 -  Mar FZE – Casimiro da Costa Gomes
1092/65 -  Mar FZE – José Ribeiro
1106/65 -  Mar FZE – Marcelino Machado

Os meus contactos são:
Tlm – 936654878

Com os meus melhores cumprimentos,
Henrique

__________
Notas de MR:

1. Amigo Henrique do teu destacamento, no nosso blogue, apenas temos notícias do Rui Ferrão, com a única informação que vive em Vendas Novas, no poste:


30 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P6073: Ainda o desastre do Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (7): Dos 47 afogados foram resgatados 11 cadáveres pelos fuzileiros (Rui Ferrão, 10º DFE, 1967/69)



2. Amigo e Camarada Henrique Paulino Serrão, em nome do nosso Camarada Luís Graça e demais tertulianos desta Tabanca Grande, registo aqui um convite para te juntares a nós.


Já só falta que nos envies uma foto actual e nos contes, pelo menos, uma história da tua passagem pela Guiné, acompanhada de fotos que eventualmente guardes no teu álbum de memórias daquele tempo.

Em nome de todos, envio-te um abraço Amigo e os desejos que continues nesta busca, que, creio bem mais dia, menos dia, dará os seus frutos.

Vd. o último poste desta série em:


sábado, 22 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8937: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (15): Os desenfianços no Colégio Militar

1. Mensagem do dia 19 de Outubro de 2011, o nosso camarada Belmiro Tavares (ex-Alf Mil, CCAÇ 675, Quinhamel, Binta e Farim, 1964/66), enviou-nos mais uma das suas histórias e memórias.


HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE BELMIRO TAVARES (15)

ESSA ESTÁ MUITO BOA!
O COLÉGIO MILITAR!... OUTRA VEZ.

Os alunos do C.M. eram todos (serão ainda?) internos. Passavam apenas o fim de semana em casa com os pais ou com os encarregados de educação; regressavam ao colégio no domingo, até às 22h00.
Durante a semana viviam em autêntica “clausura”; não podiam receber chamadas telefónicas nem eram autorizados a comunicar com o exterior.
Com certa frequência, porém, os alunos mais velhos desenfiavam-se durante a noite; iam até Carnide ou Benfica ou, por vezes, aventuravam-se a viajar até à Baixa da cidade. Cada um tinha os seus motivos e objectivos para dar o salto: namoro, lavar os olhos, o prazer de infringir a Lei, confortar o estômago, etc.
No último caso o petisco mais frequente constava de ovos com chouriço e, certamente, um copo de tinto... ou branco.

Uma das incumbências especias do oficial de dia era impedir que os alunos saltassem os muros depois de jantar ou depois do toque a recolher – tarefa extremamente ingrata de cumprir ou.. praticamente (quase) impossível.
Falhada esta obrigação, o oficial de dia devia tentar averiguar se algum aluno se ausentara indevidamente e tudo fazer para surpreender o(s) faltoso(s) no regresso às instalações do C.M.
Quando apanhados em flagrante – o que raramente acontecia - os prevaricadores eram punidos com três dias de privação de saída durante os fins de semana – pena aparentemente pesada – até porque durante sete ou oito anos – máximo – o aluno não podia ultrapassar quinze dias de castigo; se atingisse este limite, o aluno era automáticamente expluso.

Também era coagido a abandonar o C.M. o aluno que “chumbasse” duas vezes; o mesmo acontecia a quem fosse atribuida duas vezes a nota de “MAU”... em comportamento durante todo o curso.
Estes castigos podem até parecer, nos dias de hoje, fruto de legislação draconiana... mas não era tanto assim.

Entre os alunos do Colégio Militar a camaradagem não era palavra vã; acontecia permanentemente.
Sempre que um aluno cometia uma falta punível com privação de saída e já se encontrava muito perto do limite, logo outro aluno com “cadastro” limpo, ou com folga suficiente, se apresentava como sendo ele o infractor para que o companheiro não fosse expluso. Era uma maneira simpática de aliviar o fardo da disciplina para com os menos bem comportados.

Muitas vezes tínhamos a convicção (ou até a certeza) de que o aluno que se acusava não era o prevaricador... mas se ele “jurava” que era... nada mais a operar que aplicar-lhe o castigo proporcional correspondente à falta que alegava ter cometido.

Colégio Militar de Lisboa
Foto de Carlos Fidalgo, retirada do site Panoramio, com a devida vénia.

Um dia eu estava de serviço e conversei longamente com quatro alunos do 7ºano (graduados) que eram os comandantes das quatro companhias de alunos; veio à baila o “peso” exagerado ou não dos castigos por fuga nocturna; os “graduados” entendiam que o rigor das penas era excessivo. Eu defendi o contrário e justifiquei:
- Em primeiro lugar temos de ter em conta que mais de 90% dos transgressores (fugitivos) não são apanhados e, consequenetemente não são castigados; os restantes são detectados apenas porque tiveram azar ou porque foram burros. Se o aluno tem azar, quem aplica a Lei nada pode fazer para além da aplicação do castigo determinado; se o aluno é burro (ou pensa que os outros o são), deve ser severamente punido e consequentemente expluso se atingir o limite legalmente estipulado, porque no C.M.... não pode haver vagas para atrasados mentais.

Os alunos entenderam bem a segunda parte da minha exposição; perguntaram, no entanto, o que eu entendia por “azar”. Respondi com um exemplo dum caso recente e notório:
- Azarado foi o nº X; vigiou cuidadosamente os movimentos do oficial de dia; teve a certeza que naquele momento o oficial de serviço não conseguiria detectá-lo; aproximou-se “distraidamente” sorrateiramente da porta que dá acesso à parada; correu perpendicularmente em direcção à Estrada da Luz; lançou as mãos ao cume do muro (mais de 2 metros de altura) que separa o C.M. daquela via, saltando para o exterior; por pouco não “aterrou” em cima dum oficial que casualmente por ali passava àquela hora. Aquele oficial “laçou-lhe a luva” e foi entregá-lo ao oficial de dia. Não foi castigado... porque fez um bom planeamento da sua actuação... apenas não contou com o azar que quase o tramava. Além disso era um aluno bem comportado, o que pesou na decisão de não castigar.

Um dia, estando eu de serviço, um bom bocado depois do toque a silêncio e apagada a iluminação, entrei numa camarata dos alunos mais velhos; havia apenas a luz de presença, as “vigias”; esta iluminação foi sufuciente para me aperceber que em determinada cama havia um “boneco”. Os alunos usavam o travesseiro e por vezes até o capote para fazer o “boneco”, tentando ludibriar o oficial de serviço. Aquele boneco até estava mal feito o que não abonava a favor do transgressor.

Esperei uns minutos! Fui até à sala de leitura; havia ali uma janela aberta por onde alguem teria eventualmente saído. Aguardei ali cerca de meia hora! Ninguém apareceu! Deitei-me no lugar do “boneco”!

Um pouco mais tarde ouvi alguém sussurar fora da camarata:
- Passa agora! Caminho livre!

Logo quatro alunos entraram eufóricos na camarata, convencidos do sucesso da sua aventura. Um deles, ao chegar junto da cama e, apercebendo-se que eu a ocupava, exclamou:
- Essa está muito boa, meu Tenente! Mas os ovos com chouriço... ninguém nos tira! O resto logo se verá!

Neste caso também não houve castigo; fiquei pela reprimenda, aquilo que os alunos ouviam com muita atenção (fingiam) mas que, habitualmente, entrava por um ouvido e velozmente saía logo pelo outro, sem qualquer efeito prático; tive em conta que um deles estava no limite da explusão e ninguém poderia assumir aquela culpa, porque foram apanhados em flagrante; o tal que corria risco até nem era mau rapaz; estava prestes a concuir o 6ºano.

Como se depreende, embora as punições parecessem duramente rigorosas... na prática não eram tanto quanto pareciam.
Uns tinham boa sina para escapar incólumes; outros sendo surpreendidos, contavam apenas com o apelo ao coração e à benevolência de quem os interceptava. Havia muitos dias de sorte!

Belmiro Tavares
Ten. Mi. Inf.
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Nota do Editor:

Vd. último poste da série de 26 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8821: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (14): Soldados não viajam em 1.ª classe

Guiné 63/74 - P8936: Agenda cultural (167): Programa Sobreviventes: reportagem sobre os ex-prisioneiros portugueses do PAIGC em Conacri, entre 1971 e 1974... SIC, 2ª feira, 21h (Cristina Freitas)




SIC > Programa Sobreviventes > 2ª feira, 24/10/2011, 21h >  Sinopse da reportagem... O programa Sobreviventes é apresentado nestes termos, no sítio da SIC:

"Série de oito programas de informação sobre portugueses que caíram em situações limite e conseguiram dar a volta e recuperar a vida. E conseguiram-no graças à sua determinação e à união de muitas vontades: a força da família e a presença dos amigos, o profissionalismo de equipas de socorro e a dedicação dos profissionais de saúde, o saber do médico e o sorriso do filho"...

Coordenação: Lúcia Gonçalves.


1. Em 6/7/2011, a jornalista Cristina Freitas, da SIC, contactou-nos nos seguintes termos:

O meu nome é Cristina Freitas e sou jornalista da SIC. Neste momento estou a trabalhar numa reportagem sobre prisioneiros da guerra colonial, em concreto sobre 8 portugueses que estiveram nas mãos do PAIGC, na Guiné Conacri, entre 1971 e 1974.

Tenho visto no seu blog várias publicações sobre o tema, nomeadamente sobre António Baptista, que ficou conhecido pelo "morto-vivo".

O que me leva a contactá-lo é o facto de estar a ter algumas dificuldades em encontrar imagens, preferencialmente em vídeo mas também em fotografia, de cenários da guerra colonial, nomeadamente da Operação Mabecos e do ataque a Saltinho. 

Penso que dado o seu blog poderá ajudar-me a entrar em contactos com alguns militares que tenham porventura esse material. É possível passar-me o seu contacto telefónico para falarmos um pouco melhor ?

Agradeço desde já pelo o seu tempo.

Cumprimentos, Cristina Freitas


2. Resposta do editor L.G.:

Cristina:  Aqui tem o meu telemóvel (...).. Ou telefones, do gabinete e de casa (...). O Álvaro Basto, [da Tabanca de Matosinmhos,] já me tinha falado do vosso trabalho... O caso do "morto-vivo do Quirafo" é um espanto... Tenho um vídeo sobre ele, consegui pô-lo a falar descontraídamente... Mas ele não é um "entrevistado" fácil, e tem problemas de saúde... Disponha. Farei o meu melhor para a ajudar. Saudações. Luís Graça

PS - A Operação Mabecos Bravios... Retirada de Madina do Boé, que acabou em tragédia (6 de Fevereiro de 1969)... é essa a que se refere ? Ataque ao Saltinho ou emboscada do Quirafo (Abril de 1972) em que esteve envolvido o Baptista ?


3. Nova mensagem da jornalista da SIC, com data de 19/7/2011

(...) Peço antes de mais desculpa por ter demorado tanto tempo a responder. Agradeço a sua disponibilidade.

Já conseguimos contactar o sr António Baptista e já gravamos entrevista com ele, bem como com mais 3 ex-prisioneiros.

Quanto às imagens que lhe pedia, encontrei-as por outros meios. De qualquer modo, agradeço o seu tempo.

Se quiser ver, a reportagem irá para o ar em Setembro/Outubro, no Jornal da Noite na SIC; no âmbito de um nova rubrica que se chamará Sobreviventes.

Obrigada, Cristina Freitas

 

4. Há dias recebemos uma 3ª e última mensagem da Cristina Freitas:

(...) Deverá estar recordado, contactei-o a propósito da minha reportagem sobre os prisioneiros de Conacri. Em anexo segue um vídeo promocional da reportagem. Se quiser partilhá-lo no seu blog, bem como a data de emissão da reportagem, está à vontade.

Envio-lhe email para lhe dar conta da data da emissão da reportagem. Se estiver interessado em ver, vai passar na 2ª feira, dia 24, no Jornal da Noite da SIC, pelas 21h00.

Obrigada e até uma próxima!

Cristina Freitas
SIC Porto

5. Comentário de L.G.:

O nosso blogue pode e deve ser uma fonte de informação e conhecimento para a comunidade, mais alargada, a quer pertencemos, desde os investigadores aos jornalistas. Congratulamo-nos pelo facto de histórias de "sobrevivência" como as do António Baptista ou do José António  Almeida Rodrigues possam chegar ao conhecimento do grande público, através da televisão. Tarde de mais ? Espero bem que não: programas como este não servem apenas um propósito de entretenimento, resultam de um trabalho de jornalismo de investigação. Vamos ver, na 2ª feira, a seriedade e a qualidade do trabalho da Cristina Freitas, desejando que o jornalismo televisivo possa também, de algum modo, ajudar à reparação, pelo menos moral, de um dívida que a sociedade portuguesa tem em relação a todos os antigos combatentes da guerra colonial/guerra do ultramar, em geral, e àqueles de nós que conheceram a amargura da prisão, em especial. Embora a guerra colonial (e a neste a caso a prisão em território inimigo) seja aqui vista apenas como mais uma situação limite, se não mesmo um fait divers.
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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de Outubro de 2011> Guiné 63/74 - P8918: Agenda cultural (166): doclisboa2011, IX Festival Internacional de Cinema, Lisboa, 20 a 31 de Outubro: a África, os africanos, e a história recente de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique em destaque: retrospetivas: (i) Jean Rouch; (ii) 'Movimentos de libertação' (Luís Graça)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8935: Notas de leitura (289): Ultramar - 1968: Quando Américo Thomaz percorreu livremente a Guiné (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Setembro de 2011:

Queridos amigos,
Tirando um aspecto trágico-cómico da propaganda do regime, este número da revista Ultramar dá informação por vezes de grande qualidade, nomeadamente no campo histórico, religioso, antropológico e etnográfico. E obriga-nos a reflectir, pela diferença, como os anos 60 foram muito mais pobres que a década anterior no impulso editorial, no empenho da investigação, no surto literário, entre outros.

Há sempre a pairar o fantasma desse turbilhão que foi Avelino Teixeira da Mota e as missões científicas de altíssimo coturno do final dos anos 40 e de toda a década de 50. Afinal, Amílcar Cabral fez o recenseamento agrícola da Guiné entre 1952 e 1954. Lê-se este número e dá para comparar as oportunidades perdidas naquele período de guerra, não houve imaginação para mais.

Um abraço do
Mário


1968: quando Américo Thomaz percorreu livremente a Guiné

Beja Santos

A revista Ultramar (propriedade do Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa) dedicou o número do segundo semestre de 1968 à visita que o Presidente da República fez à então Província da Guiné. No prefácio, Joaquim da Silva Cunha, ministro do Ultramar escreve a propósito dos resultados da viagem:

“Desmentiu redondamente o boato gerado por certa imprensa estrangeira de uma parte, maior ou menor, do território da Guiné portuguesa ser controlada e dominada pelos terroristas. O Presidente da República percorreu livremente os caminhos do interior sem haver encontrado impedimento ao entusiasmo das multidões”.

Nada melhor de ver, de acordo com o que ficou escrito na revista, o que foi a visita à Guiné. Desembarcou do paquete Funchal em 2 de Fevereiro, passou revista uma guarda de honra, recebeu a chave da cidade de Bissau, dirigiu-se à Sé (houve Te Deum) e daqui segui para o Palácio do Governo. Os discursos multiplicam-se. Houve depois banquete e à noite grupos de Fulas, Futafulas e Fulas Pretos, Balantas e Manjacos, Mandingas e Saracolés, Felupes, Grumetes e Bijagós exibiram as suas danças e as suas músicas de fronte do Palácio. Houve amnistia e perdão para vários delitos.

No segundo dia, visitou o gabinete militar do Comando Chefe, esteve no cemitério de Bissau, no hospital civil, no hospital militar, no Museu Biblioteca de Bissau, no Bairro da Ajuda, no Asilo de Bor. À noite banquete na Associação Comercial de Bissau.

No terceiro dia, deslocou-se de avião a Nova Lamego, seguiu para Bafatá, entregou medalhas e espadas, recebeu chefes religiosos e conversou com o ourives Al-Hadje Cheik. Pelas 12 horas já estava a caminho de Bissau. Na Praça do Império presidiu a uma cerimónia de entrega de condecorações.

No quarto dia, visitou a Sacor, em Bissau, esteve no ilhéu do rei, inaugurou a Escola D. Gertrudes Rodrigues Thomaz e visitou a Feira do Livro na Praça do Império. Em 6 de Fevereiro visitou Bolama e Bubaque.

Na manhã do sexto e último dia, Américo Thomaz homenageou na Praça do Império os heróis das Forças Armadas e, por fim, visitou uma exposição de material de guerra na fortaleza de S. José de Bissau. E daqui partiu para Cabo Verde. Dito cruamente, que Guiné percorreu Américo Thomaz?

Mas fora as tiradas da propaganda, este número da revista Ultramar tem artigos de leitura obrigatória: Uma história breve da Guiné, por António Alberto de Andrade, trabalho meticuloso e irrepreensível; um ensaio de Teixeira da Mota sobre a visita de António Velho Tinoco à Guiné em 1575; um texto de análise antropológica sobre a Guiné e Cabo Verde, de António Carreira; um estudo de cultura religiosa de Fernando Rogado Quintino, entre outros. Há ainda a destacar um trabalho sobre a subversão na Guiné e outro sobre a acção das Forças Armadas.

Do significativo trabalho “História breve da Guiné portuguesa”, António Alberto de Andrade questiona o problema de civilização, tendo em conta que o ideal português estava informado pela Concepção cristã da vida, pelo estabelecimento de relações de amizade e, sempre que possível, a aceitação de vassalagem por parte daqueles povos que faziam parte do comércio euro-africano-asiático. O autor destaca várias dificuldades no que respeita a Guiné, aqui não havia um Estado organizado, mas povos agrupados em tribos, o islamismo já tinha um papel preponderante.

A Guiné começa por ser preponderante na esfera dos negócios, é ali que são deixados os lançados ou tango-maus, empurrados para o interior africano, isto sem minimizar a presença frequente dos cabo-verdianos; ainda hoje não há acordo sobre toda a área dos rios da Guiné frequentada pelas naus portuguesas, mas os relatos a partir de Álvares de Almada falam de uma costa da Guiné que em termos actuais vai desde o alto do Senegal até às fronteiras da Guiné-Conacri até à Serra Leoa.

Indiscutivelmente se criaram núcleos populacionais em Cacheu e em Bolama, na actual Guiné-Bissau e a partir do século XVI houve várias tentativas do estabelecimento de missões, praticamente todas elas falharam. Não é por acaso que a religião católica é minoritária, independentemente dos resultados por vezes extraordinários do seu proselitismo, da indiscutível importância que ocupa no sistema educativo, na ajuda humanitária e nos cuidados de saúde.

Este número da revista Ultramar passa a pertencer ao blogue.
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Nota do Editor:

Vd. último poste da série de 17 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8915: Notas de leitura (288): Pami Na Dondo, A Guerrilheira, de Mário Vicente [, o nosso Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Esp, CCAÇ 763, Cufar, 1965/66] (Mário Beja Santos

Guiné 63/74 - P8934: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (3): Buba, Tite, Bolama, Guiledje e Cassacá (de 2 a 14 de Maio de 2011)

A nossa expedição à Guiné
Escrito por Tina Kramer

Para a minha tese sobre as memórias da Guerra Colonial/Luta de libertação eu fui para a Guiné no mês de Fevereiro até Junho em 2011

3 - Buba – Tite – Bolama – Guiledje – Cassacá (de 2 a 14 de Maio 2011)

Durante uma terceira viagem fomos ao sul do país e parámos entre outros em Saltinho, Buba, Tite, Bolama, Catió, Guiledje e Cassacá. Para mim o sul foi a região ainda mais quente do que o resto da Guiné. Além disso o mato é muito denso e a maioria das estradas estão numa condição deteriorada. Pelo menos o rio em Buba traz um bocado de vento e frescura à noite.

Depois de dois dias em Buba com visitas na câmara, no aquartelamento e com algumas conversas com antigos combatentes, fomos a Tite. Quando tínhamos chegado lá alguns polícias que estavam a fazer sesta indicaram-nos para Sintchã Lega, uma tabanca pequena perto de Tite, para falar com um combatente que participou no primeiro ataque em Tite. Antes de ir lá visitámos ainda o antigo aquartelemento de Tite, que está abandonado. Dentro nas paredes há pinturas interessantes dos portugueses, mas mal compreensíveis. O antigo combatente em Sintchã Lega contou-nos do Capitão Curto, do primeiro tiro da luta em Tite e da sua desilusão com o desenvolvimento da Guiné depois da independência.

O antigo aquartelamento português em Tite, 5 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Opiniões sobre futebol no muro do antigo quartel em Tite, 5 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Pinturas do exército português na parede do antigo quartel em Tite, 5 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Pinturas do exército português na parede do antigo quartel em Tite, 5 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

No mesmo dia decidimos continuar o trajecto até à ilha Bolama e ficámos a noite lá. No dia seguinte visitámos a cidade e eu estava impressionada com os prédios abandonados e as ruínas, todos resíduos dum passado completamente diferente. Bolama parecia como uma Lisboa miniatura e ainda hoje pergunto-me porque a gente não utiliz ou não restaura estes prédios. Quem reina a ilha são os morcegos que estão activos nas mangueiras mesmo durante o dia. Desfrutámos ainda a praia -infelizmente cheia de lixo – mas a água estava limpa e com as palmeiras parecia um paraíso.

Bolama, 6 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Bolama, 6 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Dias depois, com a indicaçao do Carlos Schwartz (Pepito), visitámos Guiledje e o museu impressionante ao pé do antigo aquartelamento. Tem um guarda simpático e inteligente que nos mostrou a exposição e que sabe muito sobre a história da guerra. Espero que o projecto vá continuar e incluir mais a população de Guiledje, porque os antigos combatentes que falaram connosco em Guiledje ainda nunca foram ao museu.

A antiga entrada do aquartelamento de Guiledje, 8 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

O museu ao lado do antigo aquartelemento de Guiledje, 8 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Mais tarde continuámos para Cassacá, onde aconteceu o primeiro congresso do PAIGC de 13 a 17 de Fevereiro 1964. O sítio no mato era sagrado e reservado para ceremónias tradicionais dos Nalus, mas foi cedido a Amílcar Cabral a pedido dele. Os anciões garantiram que o congresso podia acontecer sem que fosse descoberto pelo exército português. Só depois foi bombardeado pela aviação portuguesa durante oito dias. Hoje é um lugar histórico e ainda sagrado.

Sítio do primeiro congresso do PAIGC em Cassacá, 9 de Maio de 2011
Foto ©: Tina Kramer


Missirá

Várias vezes fomos a Missirá, a tabanca onde o Abdu nasceu e onde o Mário Beja Santos foi estacionado durante a guerra. Visitamos a família do Abdu e o irmão do Abdu mostrou-me a aldeia e os sítios históricos da guerra (o pouso dos helicópteros, antigas emboscadas, o antigo alojamento do Mário). Gostei muito dessa aldeia, da sua tranquilidade e da sua vida muito mais relaxada do que na Europa.

Largo de Missirá, 3 de Março de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Meninos de Missirá, 2 de Junho de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Esturrar o cadju em Missirá, 2 de Junho de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Preparar o cadju em Missirá, 2 de Junho de 2011
Foto ©: Tina Kramer

Até aqui só podia falar um pouco da nossa viagem. Ainda temos que organizar as notas e as impressões na cabeça e analizar os dados.

Mais uma vez quero agradecer ao Mário Beja Santos, ao Abduramame Serifo Sonco, à família dele e a todos os camaradas e às famílias deles em Portugal e na Guiné-Bissau que me ajudaram durante a minha pesquisa.
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Nota de CV:

Vd. postes de:

19 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8928: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (1): Gabu - Lugadjole (de 28 de Março a 7 de Abril de 2011)

18 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8930: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (2): Bula e Cacheu (de 12 a 18 de Abril de 2011)

Guiné 63/74 - P8933: Memória dos lugares (158): Cufar e o porto do rio Manterunga, extensão do inferno na terra : 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)



Guiné > Região de Tombali > Cufar >   Sábado, dia 2 de Março de 1974, "dia do diabo"   

Entre Cufar e o porto do rio Manterunga, afluente do Rio Cumbijã, numa picada que não teria mais de cem metros, batida milhares de vezes pelos jipes e demais viaturas militares,  o IN deixou lá  uma potente brinquedo de morte: uma vulgar mina anti-carro, reforçada por uma bomba de um Fiat que não tinha explodido...

Um jipe do pelotão da Intendência, o PINT 9288, anteriormente comandado pelo Alf Mil João Lourenço (membro da nossa Tabanca Grande), acionou o engenho, a meio da tarde. Os cinco ocupantes, dois militares, brancos (o Fur Mil Pita e o Sold Santos, de alcunha O Jeová), e três civis, estivadores, guineenses, encontraram aqui a morte...

Mais à frente, outra mina, enterrada no lodo do rio, provocou ao fim da tarde a explosão, em cadeia, de batelões atracados ao cais e carregados de bidões de gasolina... 

Mais dezasseis estivadores guineenses,  civis, perderam a vida, num cenário dantesco de horror..."Vi coisas nunca vistas e que nunca mais quero ver", escreveu o António Graça de Abreu no seu Diário da Guiné...

(...) "O rio Cumbijã passa a dois quilómetros de Cufar, mas existe o rio Manterunga, um pequeno afluente, melhor um braço de rio que chega quase até à nossa povoação. A quinhentos metros daqui construiu-se um pequeno pontão, um cais de abicagem noManterunga.

"É aquilo a que chamamos o 'porto interior', utilizado por barcos de pouco calado que chegam carregados de Bissau e descarregam neste porto. Quando a maré está cheia, os batelões sobem o rio e ficam ancorados lá em baixo. A maré desce e os barcos pousam em cima do lodo do leito do rio que é mole e não lhes danifica o casco. Voltam a aproveitar uma maré-cheia para regressar a Bissau. São batelões pequenos, uma espécie de barcaças com motor que trazem para aqui muitos produtos de que necessitamos todos os dias, sobretudo gasolina para abastecer os aviões e helicópteros.

"Entre Cufar e o porto do rio Manterunga existe uma picada de terra batida com umas centenas de metros. Até ontem circulava-se nessa estradinha com o maior à vontade, considerava-se a estrada como fazendo parte dos caminhos de Cufar. Já passei por lá dezenas de vezes conduzindo os jipes e é um dos trajectos que costumo utilizar nos meus crosses" (...).


Fotos: © António Graça de Abreu (2011). Todos os direitos reservados.
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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de Outubro de 2011 >  Guiné 63/74 - P8925: Memória dos lugares (157): Empada, região de Quínara, by air (António Graça de Abreu)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8932: As músicas pop/rock anglo-americanas mais em voga em 1972/73 e que eu ouvia no mato (Parte I) (Luís Dias)


Guiné > Zona leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 (1971/74) > Janeiro de 1974 > Dulombi > O Alf Mil Dias,  à porta do quarto de oficiais


Guiné > Zona leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 (1971/74) > 1972 > Comissão de Recepção ao General Spínola, na inauguração do Quartel do Dulombi, em 27 de Abril de 1972: da esquerda para a direita, Alf Mil Dias,  Cap Mil Pires e
Pires e Alf Mil Farinha


Fotos (e legendas): © Luís Dias (2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.



AS MÚSICAS POP/ROCK ANGLO-AMERICANAS MAIS EM VOGA EM 1972/73 E QUE EU OUVIA NA GUINÉ  (Parte I)

por Luís Dias (*)



Todos os que me conhecem sabem do meu amor pela música, em especial pela música rock e que ao longo da vida tenho acompanhado sempre este tipo de música e as suas variantes. Cheguei a dar uma aula sobre as origens do Rock´n´roll, seus principais intérpretes e as implicações sociais que produziram.

Ainda hoje, em que por indicação médica efectuo pelo menos três caminhadas por semana de cerca de 60 minutos, em passo largo (sem olhar para as montras), levo sempre comigo o MP4 que me foi oferecido pelo meu filho com diversas músicas, desde os primórdios do Rock´n´roll até 2011.

Este meu amor musical iniciou-se nos princípios dos anos 60, em resultado do surgimento do twist (ao que me lembro tinha mesmo muito jeito para esta dança) e tinha como ídolo Victor Gomes e os Gatos Negros (que venceu um concurso no Teatro Monumental, em Lisboa, tendo sido apelidado de rei do twist), tendo eu participado num espectáculo por ele dado no Coliseu dos Recreios, onde dei o gosto à perna dançando com muita malta a acompanhar o ritmo imposto pelo Victor.

Fui sempre acompanhando as músicas que se iam fazendo lá fora, em especial a anglo-americana, e frequentava os bailaricos das sociedades lisboetas e as festas de finalistas dos estudantes. Assim lembro-me de ver e ouvir o Quarteto 1111, Quinteto Académico, Plutónicos, Ekos, Sheiks, Fernando Conde, Diamantes Negros, Demónios Negros, Daniel Bacelar e os Gentlemen, Claves, Vodkas, Pop Five Music Incorporated, Objectivo, Sindikato, etc.

Outra fonte muito importante para mim era a rádio. E programas como a 23ª Hora,  da Rádio Renascença (Joaquim Pedro, João Martins), a Página Um, também na Rádio Renascença (José Manuel Nunes, Adelino Gomes), "Em Óbitra", do Rádio Clube Português (Pedro Soares Albergaria) e a Rádio Universidade tinham em mim um ouvinte sempre atento.

A música levou-me a conhecer a repressão em Agosto de 1970, aquando de um concerto que iria ter lugar no Colégio dos Salesianos, no Estoril, onde esperávamos, segundo o cartaz do festival: "Quarteto 1111 ",  os "Chinchinlas" e os "Sindikato".

 José Cid integrava o "1111", Jorge Palma o "Sindikato" e o Filipe "Mendrix" Mendes, os "Chinchilas". Também para este festival estavam anunciados os nomes de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e tinha havido esperança na participação da banda internacional do momento – Chicago (Transit Authority). 

No Estoril, uma multidão de jovens aguardavam o inicio do Festival, o que não chegou a acontecer, pois em vez da música surgiu uma violenta carga da polícia de choque com cães sobre uma multidão jovem que, em pânico, fugiu ao longo da marginal do Estoril. Eu e um amigo refugiámo-nos numa loja de venda de óculos, junto da estação de comboios, após ter sido perseguido por ter tirado uma foto aos polícias.

A paixão pela música levou-me a Vilar de Mouros em 1971, estando de licença militar do RI2, para ouvir os ingleses Elton John e  Manfred Mann, entre outros grupos portugueses.
Em 2005 o meu filho tocou também com a sua banda (ASIDE) naquele mítico local, com Joss Stone, Joe Cocker, Robert Plant e Peter Murphy.

Quando fui mobilizado para a Guiné [, foto à esquerda], não sabia o que ali me esperava, mas tinha de ir acompanhado de boa música, essencialmente de música rock. Adquiri um gravador de bobines, de quatro pistas,  e toca de gravar álbuns diversos (Moody Blues, Yes, Beatles, Jethro Tull, Rolling Stones, Deep Purple, Doors, Led Zeppelin, etc.) e até música de intervenção portuguesa de José Afonso, Luís Cília, Sérgio Godinho, José Mário Branco e Adriano Correia de Oliveira).

Recebia também mensalmente a revista inglesa New Musical Express, através de assinatura feita pelo meu pai na Livraria Bertrand, cassetes com músicas que iam saindo nas nossas rádios e que estavam na "berra" na altura, que me eram enviadas pela namorada e amigos (comprei, já na Guiné, um leitor de cassetes, sem grande qualidade, mas que serviu para ouvir as gravações que me enviavam da metrópole).

Isto era para mim uma forma de me descontrair e de manter o contacto com este tipo de música. Deste modo, para além dos livros que lia, a música constituiu ao longo da comissão uma forma de compensação e de paliativo para o tempo que andava sim, mas de forma lenta, num devagar muito próprio, muito africano.

Antes do regresso livrei-me dos gravadores (vendi-os aos piras), porque necessitava de espaço para trazer outras coisas.

A chegada à Guiné deu-se ainda em 1971, na véspera de Natal, e o regresso já foi em finais de Março de 1974, mas falo, essencialmente, das músicas surgidas nos anos 72 e 73 e que alcançaram os tops e foram importantes e conseguiram também o sucesso comercial.

No entanto, ainda ouvia e muitos dos meus camaradas as fantásticas músicas dos anos 60, em especial aqueles temas mais conhecidos quer:



(i)  dos Beatles (um largo leque e muito variável, mas onde pontificavam: Yesterday, Eleanor Rigby, Yellow submarine, Come together, Back in USSR, With a little help from my friends, Lucy in the sky with diamonds, Penny lane, When I´m sixty four, Get back, Across the universe, etc.),




(ii) e dos Rolling Stones (I Can´t get no - satisfaction, Honky tonk women, Jumpin´Jack flash, Lady Jane, Let´s spend the night together),

(iii() mas também dos  Animals (The house of rising Sun),

(iv) Beach Boys (Good vibrations, Surfin´USA, I can hear music, Sloop John B, Barbara Ann),


(v) Bee Gees (First of May, I´ve got to get a message to you, Words, I Started a joke, To love somebody),

(vi) Byrds  (So you want to be a rock´n´roll star, Mr. Tamborine Man, Turn!Turn!Turn!, Jesus is just allright, the ballad of easy rider), Procol Harum (Whiter shade of pale, Conquistador),

(vii) Bob Dylan (Like a rolling stone, Lay lady lay, The times they are a-changing),

(viii) Creedence Clearwater Revival (Susie Q, Bad moon rising, Down on the corner, Proud Mary, Fortunate son),

(ix) Chicago (25 or 6 to 4, I´m a man, Make me smile), Cream (The sunshine of your love, Crossroads e White room), Doors( Hello I love you, Light my fire, Break on through),

(x) Herman´s Hermit´s (There´s a kind of hush, No milk today), Hollies (Bus stop, He ain´t heavy he´s my brother), 

(xi) Manfred Mann (Ha ha said the clown, Mighty Quinn),  

(xii) Jimi Hendrix (Purple haze, Hey Joe), 

(xiii) Steppenwolf (Born to be wild), 

(xiv) Santana (Black magick woman, Samba pa ti) e tantos e tantos outros que seria moroso estar aqui a enumerar.

Nos programas de discos pedidos na Guiné ouviam-se ainda algumas músicas francesas (Adamo, Christophe, Michel Polnareff), italianas (Gianni Morandi) e brasileiras. Uma constante era uma música dos anos 60, dos norte-americanos Rightous Brothers – Unchained melody – que traduziam como a "Melodia do desespero".

Outra que estava na berra e, não sei porquê, me irritava solenemente era um tema brasileiro "Mãe-Ié (O Tonico me bateu), de Sérgio Mallandro, com esta "linda" letra:  

Mãe-iê sabe o que me aconteceu?
Mãe-iê o Tonico me bateu
(Ma ma ma ma ma ma ma mãe-iê sabe o que me aconteceu?
Mãe-iê o Tonico me bateu)
Roubou meu saco de pipoca
Meu pirulito e picolé
E ainda por cima mamãezinha
Deu uma pisada no meu pé
Ai, ai, ai.


(Continua)


Capas: Imagens do domínio público, selecionadas por L.D.
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Nota do editor:

(*) Luís Dias, ex-Alf Mil  da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872 (Dulombi e Galomaro, 1971/74); webmaster do blogue  Histórias da Guiné 71/74 - A CCAÇ 3491, Dulombi; reformado da Polícia Judiciária

Guiné 63/74 - P8931: Antologia (72): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (5): Ilha do Como, 8 e 12 de Fevereiro de 1964



Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > Op Tridente (Jan/Mar 1964) > Uma  LDM da Marinha nas praias do Como...


Foto: © Mário Dias (2005-2011) / Blogue Luís Graça & camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


















Fonte: © Armor Pires Mota (1965-2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.





1. Continuação da publicação de Tarrafo; crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed., Aveiro, 1965. Parte 2 (Ilha do Como, Jan / Mar 1964), pp. 65-67. (*)


Começámos, a partir de 14 do corrente, a publicar as crónicas do Tarrafo, relativas à Op Tridente, na Ilha do Como (15 de Janeiro a 15 de Março de 1994), recorrendo para o efeito a um exemplar, fotocopiado, da primeira edição do livro (pp. 47 a 85).  

Publicamos hoje mais duas crónicas, relativas aos dias 8 e a 12 de Fevereiro de 1964.  Estas duas situações passam-se quase  um mês depois do Alf Mil Cav Mota ter desembarcado no Como, juntamente com o resto da sua subunidade, a CCAV 488, integrado na Agrupamento B.

 2. Paralelamente estamos a seguir a crónica de outro combatente do Como, o nosso querido amigo e camarada Mário Dias, hoje sargento comando reformado. Em relação a este período (1ª quinzena de Fevereiro de 1964), selecionámos o seguinte excerto (o resto pode ser lido na I Série do nosso blogue, aqui):


(...) Em 4 de Fevereiro [de 1964], em mais uma incursão na mata de Cauane, o grupo de comandos [,comandado pelo Alf Mil Saraiva,] ficou emboscado após a retirada das outras forças (CCAV 489). Surpreendemos elementos avançados do IN a quem provocámos 3 feridos. (Não sei se terão morrido mais tarde.)


Boas notícias. Vamos passar a ter uma refeição quente por dia: o almoço. Já não era sem tempo. Como estávamos instalados junto ao 8º Dest de Fuzileiros [, comandado pelo 1º ten Alpoim Calvão, ] com quem nos dávamos extraordinariamente bem, tanto no aspecto operacional como no convívio diário, resolvemos também “juntar os trapinhos” na confecção da comida.

À vez, à volta dos caldeiros de campanha, armados em cozinheiros, lá íamos mostrando os nossos dotes. E, acreditem, tudo correu maravilhosamente. E nem sequer faltava marisco para petiscarmos. Quando a maré vazava e não estavamos em operações, era só ir até à linha de baixa-mar onde colhíamos grandes quantidades de combé que por lá abundava. Para quem não conhecer, combé é um bivalve parecido com o berbigão mas muito maior e de casca bastante grossa. Uma delícia. Atendendo à situação, claro.

No dia 6 de Fevereiro, o grupo de comandos com o pelotão de paraquedistas, embarcou na LDM  ao fim da tarde com destino a Curcô para, a partir desse local, atingir Cachida tentando surpreender o IN pela retaguarda. Chegamos a Curcô onde estava instalada a CCAV 489 [, comandada pelo Cap Cav Pato Anselmo]. Aí pernoitámos, aguardando a madrugada para iniciar a progressão.

(...) Partimos, em silêncio como convinha, e embrenhámo-nos na mata. Olhos e ouvidos atentos, mão firme nas armas, prontos a reagir. Tudo vimos com cuidado, explorando indícios e tentando descobrir onde se acoitavam. Trilhos bem pisados pelo uso, mas as poucas palhotas que fomos encontrando estavam abandonadas, algumas recentemente, outras há semanas. Contacto, nenhum. Nem vê-los. De vez em quando soava um tiro isolado, talvez de aviso, e nada mais. Ao fim da manhã atingimos Cachida, que se encontrava abandonada, e derivámos em direcção à picada que liga Cassaca a Cachil.



Infografia: © Mário Dias (2005-2011) / Blogue Luís Graça & camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados



(...) Desde a manhã que nessa zona da mata de Cachil o 7º Dest de Fuz [, comandado pelo  1º ten R Pacheco,] estava fixado por um grupo de cerca de 50 guerrilheiros, bem armados e municiados, que os flagelava a partir da orla da mata de Cassaca. Uma secção dos fuzileiros  chegou a estar isolada e cercada cerca de 45 minutos.

Conseguimos chegar ao local e detectamos a retaguarda do IN que atacámos causando-lhes baixas. Como a reacção não foi grande, deduzimos - ingenuamente como em breve viríamos a verificar - que se tinham posto em fuga e iniciámos a travessia de uma zona descampada, lisa como um campo de futebol e de capim muito rasteiro, com o intuito de nos juntarmos aos fuzileiros que nos aguardavam do outro lado. Ainda não íamos a meio quando estalou a fuzilaria vinda de um ponto mais a oeste da orla da mata que acabávamos de deixar.

Chão… rebolar…responder ao fogo… procurar alguma abrigo… não há nada, tudo liso como a careca de um careca. Eles não paravam o fogo, nós também não. Mas estávamos a descoberto, alvos fáceis.

O alferes Godinho gritando para o Saraiva:
- Porra, que estamos aqui a fazer? Vamos embora. - E fomos. Em lanços, uma equipa correndo em zigue-zague, as outras cobrindo, a equipa instala-se, outra se levanta e a ultrapassa, instala-se, outra faz o mesmo e assim conseguimos percorrer os 200 metros daquela maldita clareira, debaixo de cerrado fogo, sem qualquer arranhão, juntando-nos aos fuzileiros.

Quando recordo este episódio, lembro-me sempre do logro em que fiz cair um guerrilheiro e que me salvou a vida. Faltando-me alguns metros para atingir a orla da mata onde teria abrigo seguro, vi no chão os impactos de uma rajada mesmo junto aos meus pés. Bom, esta não é à toa, é mesmo apontada para mim. De imediato, nem sei mesmo como me ocorreu tal estratagema, armei-me em artista de cinema quando atingido por disparos e, abrindo os braços, mandei um salto deixando-me cair de costas desamparado. Remédio santo. A rajada que me era dirigida parou. Fiquei no chão alguns instantes, quietinho, e de repente, ala que se faz tarde. Alcancei a segurança da mata onde já estavam quase todos os elementos do grupo. Os restantes não tardaram a juntar-se a nós.

Os paraquedistas [, 1 pelotão,] tiveram menos sorte. Como vinham atrás de nós, ao ouvir o tiroteio que nos atingia na clareira, resolveram atravessá-la um pouco mais a leste. O resultado foi terem demorado mais tempo permitindo a reorganização do IN que lhes dificultou seriamente a travessia da clareira. Tiveram um morto e um ferido grave.

Juntas todas as tropas, caminhámos até Cachil, onde estava em construção uma espécie de quartel para uma companhia que lá ficaria instalada, ocupando e patrulhando a ilha, uma vez terminada a Op Tridente. Era uma construção sui generis pois não passava de uma enorme paliçada feita com troncos de palmeira a pique para servir de abrigo. Parecia um cenário de filme de índios contra a cavalaria americana.

No rio esperava-nos uma LDM que nos trouxe de volta à base. Oh praia, lá vamos nós. (...)

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Nota do editor:


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