sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13923: Notas de leitura (652): “Quatro Rios e um Destino”, por Fernando Sousa, Chiado Editora, 2014 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Novembro de 2014:

Queridos amigos,
É um livro, a vários tipos, raro. Raro pela confidência, raro pelo filtro que o autor se impõe quanto ao sujeito da memória: a infância, a recruta, a especialidade que culmina, praticamente, com a convocatória para a guerra.
Não se sabe porquê, desembarca em Luanda e é direcionado, de supetão, para a Guiné, viaja até Bedanda.
Não se perde em considerandos nem faz crónica da guerra, regista estimas e chega depois a hora do sinistro que o transfigurou, até hoje. Impressiona quando escreve sobre os guineenses, captou-lhes a ternura, o gosto pela música, a afabilidade.
Temos aqui um livro que é também um grito de revolta, é alguém que superou o pesadelo e não o esconde. É um livro raro, encontrou um caminho inesperado depois da agonia de se ver sem duas pernas, venceu o destino.

Um abraço do
Mário


Quatro rios e um destino

Beja Santos

“Quatro Rios e um Destino”, por Fernando Sousa, Chiado Editora, 2014, é um registo de vivências singular, onde se cruzam o enaltecimento de valores e o grito de protesto pelas desumanidades que experimentou no Anexo do Hospital Militar, após o grave sinistro que teve na Guiné.

O enaltecimento de valores arranca logo com a descrição da sua infância, um texto singelo, carregado de amor familiar e telúrico, tudo contado sem arrebiques, com o gosto de confidenciar:

“Aos sete anos, já acompanhava o meu pai na colocação de armadilhas para apanhar caça, sobretudo coelhos e perdizes, que por ali havia em abundância. Porque, naquela terra, longe de tudo, era importante aprender a sobreviver (…) Aos seis anos, já calcorreava todos os caminhos e veredas que conduziam às várias propriedades da família, tendo como companhia nestas andanças uma burra, que tudo levava e tudo trazia, e muitas vezes agarrado ao rabo dela, para a poder acompanhar naquelas caminhos pedregosos, repletos de altos e baixos”.

Lembra-se das férias que passou na colónia balnear infantil de O Século, Lisboa deslumbrou-o, foi cidade que o marcou para sempre. Salta destas recordações de infância para a sua entrada no RI 14, e passar de mancebo a instruendo militar, estávamos em Outubro de 1969. Não gostou das carecadas nem das outras praxes. O comandante de pelotão é tratado como ratazana de esgoto:

“Por pura vingança desmedida, procurava os sítios onde houvesse mais água e lama, dentro e fora

do quartel, para obrigar todos a rastejar e rebolar, até que ficassem completamente encharcados e cobertos de lama, para, de seguida, se rir e gozar. Todos nós passámos um sacrifício tremendo com aquele pulha”.

Em Janeiro de 1970, veio a caminho do RI 2. Em Março, é chamado
Fernando Sousa.
Entrou para a Tabanca Grande 
em 6/8/2014
a secretaria e informado quetinha sido mobilizado em rendição individual. Vai despedir-se dos seus a Bebeses, concelho de Penedono. Serão tempos dilacerantes, despede-se com um “até um dia destes”. Em Maio, está a caminho de Luanda, a viagem deixou-lhes as piores recordações. A experiência luandense também não foi muito feliz. É aqui que recebe guia de marcha com destino para a Guiné, paragem na ilha do Sal e depois Bissau.

Para ganhar uns cobres, desata a colorir fotografias a preto e branco. Mandam-no de viagem a Bambadinca, vai acompanhar material que foi metido num batelão. Durante a viagem ao longo do Geba, foi surpreendido por um instrumento musical que desconhecia, o korá:

“Fiquei na dúvida se seria uma cabaça redonda cortada ao meio, onde fixaram uma pele de cabra ou de outro animal para mim desconhecido. Numa das metades da dita cabaça, as cordas que serviam de fixação dessa mesma pele, da qual se repercutia o som, eram também tiras talvez desse ou outro animal, sabiamente cortadas e de forma harmoniosa fixas para manterem a pele principal devidamente esticada, onde tudo batia certo e estava perfeito, menos as cordas de produzir o som que eram fio de náilon habitualmente usado pelos pescadores, que prendiam na cabaça em algumas dessas tiras de pele ainda com pelos do animal, de forma inteligente, e no outro extremo, fixos na ponta de um bambu, como que feito à pressa, e mal conseguiam manter a tensão necessária para que o som produzido tivesse qualidade”.

Ia atento às belezas que avistava nas margens do Geba. Viu um crocodilo a apanhar sol e um pássaro às bicadas no meio dos dentes. Feita a descarga regressa a Bissau e dão-lhe como destino a CCAÇ 6, em Bedanda, ia atormentado e a viagem foi uma tormenta. Já conhecia dois rios, o Tejo e o Geba, agora vai a caminho do Cumbidjã, dali seguirão para o rio Ungauriuol, este com curvas muito apertadas e estreitas, em que os barcos quase roçavam no tarrafo.

Faz estimas, logo com o Furriel Ribeiro e o 1.º Cabo Leito, apreciou as qualidades do capitão Ayala Botto. Todas as suas descrições deste teatro de operações serão sincopadas, enxutas, fala dos seres humanos que o cativaram, caso do marido da lavadeira que o convidou para almoçar. Está polarizado os maus momentos que se seguem, aquela manhã igual a tantas outras manhãs, na encruzilhada entre o Cumbidjã e o Malamba, será ali que toda a sua vida se transfigurou, ao princípio não sentiu nada depois despertou no meio de chamas a arder:

“Ardia sobre o meu corpo retalhado, num buraco que a própria explosão cavou. Ali mesmo reconheci que já não era mais eu! Vejo que uma perna tinha pura e simplesmente desaparecido, restando dela farrapos de carne pendurados! Da outra, apenas via um osso completamente descarnado, espetado naquele chão ardido, e ao lado uma bota com um pé nela metido, pendurado por um tendão, agarrado àquele osso lambido, que, outrora, tinha feito parte integrante do meu corpo”.

Inicia-se o calvário dos tratamentos no Hospital Militar em Bissau. Ao ganhar consciência do sucedido, com todas aquelas dores como facas cravadas, amaldiçoa a sua sorte. Pede ao sargento de enfermaria para lhe pôr termo à vida. Tomba os frascos indispensáveis ao seu tratamento, é amarrado à cama. O 1.º Cabo Sousa chora copiosamente. Era um homem de fé, um homem que rezava, agora está enraivecido, aquele tempo marcou-o para sempre:

“Ainda hoje me dói o arrancar das ligaduras, das compressas, daquela carne dilacerada e queimada! O tormento de acordar de cada anestesia!”.

E passa a confrontar-se com as dores dos outros naquele espaço que ele designa por antecâmaras da morte. Um dia ganha coragem e escreve à família, carta tranquilizadora, levava 22 dias de sofrimento atroz. Suavizou-o a visita da mais velha das cinco mulheres do seu colega de Bedanda, que tanto estimava. Está impaciente para partir para Lisboa, esse dia acabou por chegar. E em Lisboa vai viver tempos terríficos. Odeia que lhe digam coisas como “Sabes meu filho, tu até tiveste muita sorte!”. Há uma atmosfera de tragédia ali à volta: “Era desgraçadamente ali que muitas namoradas, noivas e madrinhas de guerra sofriam a maior desilusão das suas vidas, ao encararem com o que restava das suas paixões, tornando seus sonhos em pesadelos!”.

Toda a sua escrita ressuma cólera não contida pelo que viu e viveu no Anexo do Hospital Militar Principal, lugar maldito, só ao fim de oito meses que cederam uma cadeira de rodas. Livro profusamente ilustrado, e escreve a legenda, estamos em 1972, vemo-lo passivo, desalentado, numa cadeira de rodas:

“A total decadência. O passar uma tormenta. O viveu num inferno. Um condenado. Um sobrevivente. Um nascido do nada. Um irreverente. Um inconformado. Um renascido para a luta. Mas sempre eu, consciente de mim, do que fui, do que era e do que teimosamente ambicionava ser”.

Aprende a outra dimensão da autonomia, a depender, com todas as suas forças de si mesmo, cria novas convicções. Volta a Bebeses, descobre que não tem ali lugar, refugia-se na cidade, transforma-se no homem que é hoje. Irá até cais de Alcântara para prestar homenagem a si mesmo, como sinal de que tinha regressado e estava vivo.

Hoje assume-se como não-crente, basta-lhe acreditar em si e em todos os homens de bem, confessa que terminou a última parte das suas recordações com dificuldade. Quer que o leitor não duvide dele: “Porque de verdade tudo isto que passei vos relato foi real. Foi mesmo assim”.
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13905: Notas de leitura (651): 1 de Novembro de 2014, na Feira da Ladra (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P13922: Manuscrito(s) (Luís Graça) (50): O tempo que faz em Imbecilburgo




Guiné > Zona leste >Região de Bafatá >  Setor L1 > Bambadinca > 1969 >  CCAÇ 12 (1969/71) > O fur mil arm pes inf Henriques junto ao cais fluvial de Bambadinca, na margem esquerda do Rio Geba Estreito (ou Xaianga)... Atracado ao cais, um dos típicos "barcos turras" que demandavam aquelas paragens, transportando pessoas e mercadorias, de e para Bissau... Não me parece que seja o "Bubaque", a antiga Lancha de Patrulha, LP4, que esteve ao serviço da Marinha, entre meados de 1963 e o 1º trimestre de 1964, antes de virem as Lanchas de Desembarque (LM)... Soube ontem, através do Manuel Lema Santos, que essas embarcações, antigas traineiras de pesca (!), eram conhecidas como as "enviadas"...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados.

[Agradeço ao Jorge Canhão ter-me limpo" a foto, que estava com uma cor esquisita: "Luís, esta foto tua no blogue está com uma cor um bocado esquisita, com o tempo elas vão ficando avermelhadas, mas passando por um programa de edição de imagens fica com uma cor mais natural, Abraços".]


O Tempo que Faz em Imbecilburgo


Senhores e senhoras, 

respeitável público
do Circo de Imbecilburgo:
este homem não é um homem,
é um palhaço, 
é um soldado, fardado, 
de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência cumpre ordens,
às vezes com coragem, 
outras com lúcido medo,
é isso que lhe dói, 
neste cenário.
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme 

com o Regulamento de Disciplinar Militar:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem nenhum herói da resistência,
nem muito menos do 10 de junho:
saiu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus 'nharros',
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas dos senhores de Bambadinca,
que dormem na cama, 
em lençóis lavados,
fazendo p’la sua vidinha
.

Voaste há dias, ai!,
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões,
mas estás vivo, ó 'tuga',
graças talvez à 'mezinha'
que te deu um 'mauro', um 'marabu',
em Sinchã Mamadjai...
E que melhor prenda de anos,
meu grande safado,

poderias desejar
do que estar vivo, 
aos vinte meses de Guiné ? 

Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro,
contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça
de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente
mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como reles miliciano.


Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que 'import-export'
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo 
(se o houver).

Tu até podias acreditar numa 'Guiné Melhor',
no 'Her' Spínola,
nos teus 'nharros',
esses patriotas guinéus que lutam a teu lado,

ou, do outro lado, 
no Cabral, 
que já foi teu herói, revolucionário,
romântico 'ma non troppo',
ou no 'Nino', teu 'turra' de estimação,
vestido à 'cow-boy'  
e armado de RPG
no delirante imaginário dos 'tugas'.
Podias mesmo acreditar na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado, glorioso, perdido,
sabendo-se que o dinheiro 

e as armas compram tudo
exceto o direito à eternidade,
e muito menos à liberdade.


Se te portares bem,
meu velho,
aos vinte e um meses de Guiné,
na reta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição individual,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,

- ah!, que ironia! - 
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o escriba-mor
da história... da tua companhia.


Bambadinca, 29/1/1971

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Nota do editor:

Último poste da série > 20 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13919: Manuscrito(s) (Luís Graça) (49): Homenagem à Magnífica Tabanca da Linha

Guiné 63/74 - P13921: Agenda cultural (359): Convite para a apresentação do livro "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: um Roteiro", da autoria de Francisco Henriques da Silva e Mário Beja Santos, dia 26 de Novembro, pelas 18h30, na Livraria Barata, em Lisboa

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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13911: Agenda cultural (358): Lançamento do 15.º livro da colecção Fim do Império "O General Ramalho Eanes e a História Recente de Portugal", de Vieira Pinto, dia 25 de Novembro de 2014, pelas 15h00, no IASFA/CASOeiras, Auditório Princesa Benedita (Manuel Barão da Cunha)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13920: Blogoterapia (263): O Homem entre o Amor e a Guerra (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 13 de Novembro de 2014:

A adolescência é uma fase difícil da vida, em que o homem procura construir uma identidade com bases sólidas que lhe dêem segurança para o futuro. Nesse tempo sofri bastante sobretudo por duas causas: Sendo o tempo de despertar para o amor e para o sexo e eu como a maioria dos rapazes do meu tempo estava mal preparado para enfrentar esse choque originado pela transformação física e psíquica que ocorre. A atração súbita pelo outro sexo vai alterar toda a nossa rotina de vida de conversas, pensamentos e passatempos que vínhamos mantendo com amigos e colegas, sem sobressaltos desde meninos. Até esse despertar as raparigas eram-nos indiferentes pois elas tinham outras brincadeiras e outros interesses.

Pouco habituado a ter conversas com elas e cheio de preconceitos e tabus, fruto da sociedade conservadora, patriarcal, autoritária, religiosa e obediente a todas as regras proclamadas pela Igreja Católica quando senti urgência em me aproximar delas não sabia muito bem como o fazer, pois elas sempre me pareceram pertencer a outro mundo.

Essas paixões platónicas pelas raparigas paralisavam-me e dificultavam-me uma abordagem descontraída sobre esses temas mesmo quando por alguns sinais eu suspeitava que elas estavam à espera duma iniciativa nesse sentido. Cheguei a criar ilusões numa ou outra rapariga com declarações que em tom brincalhão lhes fazia, com todo o à-vontade, pois por essas não sentia atração. Nesse tempo vivi eu e muitos outros, segundo me parece, em silêncio, paixões arrasadoras. Também é verdade que no geral as raparigas, bastante tímidas e reservadas, não davam qualquer ajuda, lançavam uns olhos meigos ou brilhantes que nos incendiavam as noites os dias e era tudo. Nesse tempo vi olhos muito lindos e faiscantes, os olhos das raparigas brilham mais.

Quando me despedi em Vila Real da minha mãe, irmãs e irmãos, que estavam lá a estudar, levei comigo na memória para a Guiné além das lágrimas da minha mãe e dos meus irmãos, uns olhos verdes, duma colega duma irmã minha. Olhos tão verdes e tão lindos como Almeida Garret esse escritor romântico descobriu no vale de Santarém, nas Viagens da Minha Terra.

"Olhos verdes!...

"Joaninha tem os olhos verdes.
"Não se reflete neles a pura luz do céu, como nos olhos azuis.
"Nem o fogo - e o fumo das paixões, como nos pretos.
"Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque a flutuação e a transparência do mar...
"Tudo está naqueles olhos verdes.
"Joaninha, por que tens tu os olhos verdes? " 

Almeida Garrett"

Porém fui para a Guiné, cansado de amores intocáveis e à distância, não quis deixar namorada, correspondente ou madrinha de guerra. Na altura, já numa fase mais racional da minha vida, achei que uma fidelidade tão longa seria demasiado exigente, como longos e exigentes são em amor, envolvimento e carinho os vinte anos de ambos os sexos.

A curiosidade intelectual revela-se no homem pouco depois de começar a falar e acentua-se nos primeiros anos da meninice. É a idade dos porquês, que todos os pais conhecem. Quando chega a adolescência, o homem já com mais conhecimentos e uma inteligência mais desenvolvida, na solidão da sua mente, faz perguntas mais elaboradas e com outro alcance que têm a ver com os mistérios da existência, da morte, da terra do universo etc.

Tantas duvidas tantas perguntas, algumas que se repetem tanto, noite e dia numa intermitência capaz de enlouquecer qualquer ser bem pensante. Até a um termo em que a terra acaba e o mar começa e ficamos sós e pensativos entre a imensidão dos céus que nos cobrem e o abismo do mares profundos que se alargam em horizontes sem fim. Sós perante as perguntas primordiais. PORQUE? PARA QUÊ? É um caminho dialético e difícil, que cria em nós essa ilusão que sendo superiores em inteligência aos outros animais, tão próximos dos deuses que nos criaram, seremos capazes de decifrar os grandes mistérios da vida. No final ficamos perdidos e sós entre esse céu e esse oceano que nos esmagam pela sua imponência e que não nos dão um tratamento diferente do que dão às aves ou aos peixes

Como romeiros pelas estradas de Santiago, chegamos a Compostela levados por essas estradas da terra e da mente já cansados e doridos no corpo e na alma e depois dessa longa caminhada descobrimos que só nos resta a fé para nos salvarmos do vazio a que nos conduziu a nossa longa caminhada. Como num sonho confuso não sabemos se devemos recolher-nos na Catedral de Santiago ou caminhar pelo mar na esperança que algum Deus separe as águas para nos salvar ou que nos deixe dormir em paz sob esse grande lençol de água imenso, tão liquido e aconchegante como o ventre da nossa mãe que nos deu a vida.

A minha santa mãe, durante muito tempo pensei que era a melhor do mundo, já tarde apercebi-me que as mães dos outros também eram as melhores. Mãe que me ensinou a rezar e que tinha uma crença religiosa mais sólida do que as largas paredes da igreja da paróquia não me conseguiu transmitir essas verdades.

Nunca consegui resolver essa equação tão difícil que reside entre o mistério da vida e da morte. Nascemos do nada? Morremos para voltar a esse nada?

Revi recentemente num canal de televisão as batalhas cruéis que se desenrolaram tanto na 1.ª como na 2.ª Guerra Mundial, em que milhões de jovens, dum lado e do outro do conflito, foram empurrados para uma morte certa, como se fossem carne para canhão.

Pensando no mistério da vida da morte, eu, um não crente, apiedado por tantos mortos, tão jovens e transbordantes de energia e entusiasmo, sou quase levado a crer, como alguns muçulmanos, que eram esperados nos céus por 30 virgens

No final das guerras há sempre conversações para restabelecer a paz e dividir as riquezas das nações, com prejuízo naturalmente para os beligerantes derrotados. Depois do renascimento, do século da luzes, do aufklarung alemão, depois da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, porque é que os países não discutiram as formas de evitar essas guerras terríveis em que o homem deixa de ser um ser humano civilizado para passar a ser a besta do Apocalipse. Desde a 2.ª Guerra Mundial até hoje, os setenta anos já passados, são muito pouco tempo em termos históricos para haver uma alteração de mentalidade do homem.

Na opinião de outros não há cultura, tratados ou proclamações de direitos que curem o homem do seu instinto guerreiro e destrutivo, pois esse instinto reside na parte mais antiga e funda do seu cérebro que a razão não consegue dominar. São tempos terríveis em que o homem se transforma na fera que terá sido nos primórdios da sua existência, e semeia a morte e destruição à sua volta.

A harmonia do universo, essa verdade proclamada por alguns teólogos e filósofos, no que concerne ao planeta Terra, é desmentida pelo espectáculo de devastação, destruição e morticínio que aconteceram um pouco por toda a Terra nas duas últimas grandes guerras. As guerras são uma constante histórica de todas as civilizações se fizermos um estudo do passado do homem.

A Bíblia, que é uma história da humanidade, segundo alguns bastante fantasiada, que usa muito a parábola, ainda antes de Jesus Cristo, que foi um mestre no uso dessa figura de estilo, conta a morte de Abel por seu irmão Caim por ciumes, quando a terra imensa, ainda era só deles. Se quisermos ser pessimistas e olhar para a História pelo seu lado mais negro, chegaremos à conclusão que o homem é o mais bruto e selvagem de todos os animais, pois as guerras por toda a terra têm-se sucedido a um ritmo impressionante.

Será a guerra inevitável? Iremos morrer todos numa 3.ª guerra mundial?

Está provado que o homem tem aprendido pouco com a História e estão sempre a surgir loucos destruidores e sedentos de sangue.

Segundo alguns, na idade moderna os políticos que declararam as guerras e os generais que as comandaram, no geral ficavam sempre protegidos na comodidade dos seus luxuosos gabinetes na retaguarda, o que terá provocado um maior número de mortos. Esses generais e políticos davam aguardente, rum ou zurrapa aos soldados para mais alegremente morrerem por uma pátria, por uma bandeira, onde eles afinal não passavam de escravos ao serviço dos grandes senhores.

A minha homenagem a todos esses jovens condenados e sacrificados, dentre eles aos 7000 portugueses que morreram na Flandres na 1.ª Guerra Mundial.

"Nos campos da Flandres crescem papoilas
Entre as cruzes que, fila a fila,
Marcam o nosso lugar; e no céu
As cotovias, ainda corajosamente a cantar, voam
Escassas, fazendo-se ouvir entre as armas abaixo.

Nós somos os Mortos.
Há poucos dias atrás
Vivíamos, sentíamos o amanhecer, éramos amados; agora repousamos
Nos campos da Flandres.

Tomem a nossa guerra com o inimigo
A vós entregamos, das nossas mãos moribundas,
A tocha; que seja vossa, para que a mantenhais ao alto.
Se traírdes a nossa fé, dos que morremos,
Jamais dormiremos, ainda que cresçam papoilas
Nos campos da Flandres."

John McCrae

Um abraço a todos
Francisco Baptista
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13582: Blogoterapia (262): Algo de estranho e sinistro (Amado Juvenal, ex-1.º Cabo Cond Auto do BCAÇ 3872)

Guiné 63/74 - P13919: Manuscrito(s) (Luís Graça) (49): Homenagem à Magnífica Tabanca da Linha


O petisco: arroz de marisco... Cinco estrelas.. do mar!


O António  Fernando Marques, o Mário Fitas e o António Graça de Abreu


O "secretário" da Tabanca da Linha. de pé,m centro... Se não erro,  está a falar com o seu camarada, da CCAÇ 2679 (Bajocunda, 1970/71), que era furriel enfermeiro e veio de propósito de Brejos de Azeitão. Incentivei-.o a aparecer pela Tabanca Grande,


Em primeiro plano, o nosso João Martins


Em primeiro palbo, à direita o Luís R. Moreira, um dos magníficos tabanqueiros que joga em casa... Para a semana, estará no almoço de natal da Tabanca do Centro, em Monte Real.


A Irene, esposa do Virgínio Briote, à esquerda; a Maria Helema, esposa do Mário Fitas, à direita


 A Alice Carneiro


Alice a falar com o seu amigo do Faceook, o Veríssimo Ferreira... Ao centro, o Carlos Silva


Joaquim Nunes Sequeira e esposa


Outro dos nossos grã-tabanqueiros, o Francisco Palma


Três homens que foram professores na mesma escola, a Gama Barros, no Cacém: o António Silva, o Jorge Pinto e o Luís R. Moreira


Da direita para a esquerda, Virgínio Briote, o Jorge Pinto, e um camarada que esteve na CCAÇ 3 (já nos anos 70).


O António Graça de Abreu com um fã do seu livro "Diário da Guiné" (2007). o Crux que esteve no Cachil, depopis do José Colaço,  também presente neste evento


Camaradas vamos a contas, diz o régulo, Jorge Rosales (à direita),  ladeado pelo Veríssimo Ferreira e o Mário Fitas


O patacão é com o régulo...


De regresso casa...

 Cascais > Estrada do Guincho > Oitavos > Almoço-convívio de Natal, da Tabanca da Linha. Reunui 55 convivas, o dobro que é habitual. Sem publicidade,. sem alardes. O pestisco foi arroz de marisco. O sítio é encantador,  rodeado de verde, de mar e de chuva... Ao fim da tarde, o sol aparecu, a dar um ar de sorriso... natalício. São as primeiras fotos. Há muitos camaradas que eonhecem o blogue mas ainda tiveram o clique para entrar... O caso do Manuel Macias, por exemplo, que esteve comigo em Contuboel e que pertenceu à CART 2479 / CART 11...  Nesta seleção, focamos algumas caras mais conhecidas... Espero que o Manuel Resende, o fotógrafo privativo da Tabanca da Linha, me mande a sua seleção.


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados.


Homenagem à Magnífica Tabanca da Linha


É uma espécie em extinção,
Mas já foi raça danada,
Sem saúde nem patacão,
Quer apenas ser lembrada.

É malta, não é gentinha,
È feita de sangue, carne e osso,
São a Tabanca da Linha,
Uns pró fino, outros pró grosso.


Calcorreando montes e vales,
Pois é régulo e comandante,
A malta segue o Rosales
E mais o seu ajudante.

Dois rapazes dos Estoris,
Que vieram ao mundo p’ra sofrer,
O mais reguila é o Dinis,
E o mais pisco p’ra comer.

Dois cavaleiros andantes,
Qual Quixote e Sancho Pança,
Andaram sempre a penantes.
Na Guiné espetaram lança.

De Bissau a Buruntuma.
De Porto Gole a Bissá,
Perderam-se os dois na bruma,
Mas têm tabanca cá.

É uma tabanca real,
De pura e nobre linhagem,
Onde Guiné e Portugal
Fazem sua mestiçagem.

Em nome da Tabanca Grande,
Saúdo os Reais Tabanqueiros
Que, sem que ninguém lhes mande,
São bravos e leais companheiros.

Almoço-convívio de Natal
Oitavos, estrada do Guincho, Cascais,

Luís Graça
20/11/2014

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Nota do editor:

Último poste da série > 14 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13890: Manuscrito(s) (Luís Graça) (48): Rua Cor de Rosa...

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13918: (Ex)citações (249): Quando os barcos chegavam ao porto fluvial de Bambadinca: fotos de Jaime Machado e legendas de Beja Santos


Foto nº 1 A 


Foto nº 1 


Foto nº 2 A


Foto º 2 


Foto n~º 3 A


Foto nº 3

Guiné > Zona leste > Bambadinca > c. 1968/69 > Bambadinca e o seu porto fluvial [Fotos nº 1 e 2];  vista parcial de Bambadinca, rio Geba e bolanha de Finete, a partir do cima da rampa de acesso ao aquartelamento e posto administrativo.  A partir de 24 de novembro de 1969, a administração do porto de Bambadinca passou a dispor dum autogrua mais potente, a Galion, que veio substituir a auto grua Fuchs (que se sê na foto nº 1 A). Na história do BCAÇ 2852, lê-se que no dia 25/11/1969, o 2º comandante do BENG 447 visitou a sede do batalhão, visita essa que só pode estar relacionada com a entrega da autogrua Galion, permitindo melhorar as operações de carga e descarga no porto fluvial de Bambadinca.

A autogrua Galion veio de LDG de Bissau até ao Xime, e depois foi escoltada pela CCAÇ 12 até a Bambadinca, numa viagem cheia de peripécias que nos obrigou a dormir no mato, devido a um enorme atascanço a meio do troço (,ainda não havia estrada alcatroada!)... Nessa dia, 24 de novembro de 1969, o nosso querido camarada e amigo Tony Levzinho  celebrou as suas 22 com a companhia infernal da mosquitada,.. (LG)


1. Bambadinca, mesmo quando o porto do Xime ganhou projecção, a partir de finais de 1969, era o escoadouro de mercadorias do Leste, manteve durante a guerra um papel de primeira grandeza no aprovisionamento de todos os aquartelamentos [. Foto nº1 ]. Consigo distinguir o Ismael Augusto [, ex-alf mil manut, CCS/BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70], respondia por tudo quanto fossem viaturas e peças. É o primeiro à esquerda [Foto nº 1 A]. 

Hoje tudo desapareceu, restam umas estacas.

Um outro ângulo do porto de Bambadinca, em tempo de azáfama [Foto nº 2]. Tanto era possível aqui chegar um batelão que levava mancarra, como embarcações com passageiros e carga (foi o que me coube, numa viagem de 10 horas, de Bissau até aqui, passando meteoricamente por Porto Gole, em 2 de Agosto de 1968), como vários comboios de carga ou LDP ou LDM com equipamento militar [, e até LDG, pelo menos até 1967]

A partir de Outubro de 1969, a situação mudou com as obras do porto do Xime que o tornaram mais atractivo para o transporte de material militar e tropas. E com o alcatroamento [,mais tarde, em 1971/72] e a capinação abundante das bermas, entre o Xime e Amedalai, reduziram-se substancialmente os riscos de emboscadas e mina.

Esta Bambadinca a caminhar para o rio Geba já não existe [Foto nº 3]. Esta estrada graciosa transformou-se num caminho cheio de capim, nas bermas agonizam edifícios que há 40 anos fervilhavam de vida, com comércios de todo o tipo. São verdes com que hoje não se captam imagens, era o verde da Fuji.

Ao fundo, do lado direito, o Bairro Joli e Santa Helena [, Foto nº 3 A]; no fundo, do lado esquerdo, sente-se o porto de Bambadinca e, mais adiante ,a bolanha de Finete. 

Vivi este ambiente que o Jaime Machado captou do extremo do quartel, num amplo balcão. Como gosto desta minha Bambadinca.


Fotos: Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70)  [, foto atual à direita]

[Edição: LG]

Legendas:  Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70)
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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de novembro de  2014 > Guiné 63/74 - P13914: (Ex)citações (248): Ainda a embarcação "Bubaque", antiga LP4, antiga traineira de pesca algarvia... Comprada como sucata à Marinha, foi a embarcação da carreira regular Bissau-Bambadinca- Bissau (Ambasciatore Manuel Amante da Rosa)

Guiné 63/74 - P13917: Meteorologia na Guiné (Jorge Teixeira - Portojo - ex-Fur Mil do Pel Canh S/R 2054)

1. Mensagem do nosso camarada Jorge Teixeira (Portojo), (ex-Fur Mil do Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70), enviada no dia 18 de Novembro de 2014 a propósito do recente falecimento do meteorologista Anthímio Azevedo:

Amigo Carlos,
Ao ler a história de vida do meteorologista Anthímio de Azevedo falecido ontem, lembrei-me dos meteorologistas que passaram por Catió. Também o Anthímio passou pela Guiné entre 67 e 71, aonde regressou já depois da revolução, entre 76 e 77. Ver o artigo da autoria de Teresa Firmino no jornal Público

Cruzei-me durante a comissão com vários meteorologistas ligados à Força Aérea, que faziam medições de humidade e outras coisas a partir de um aparelho localizado no "aeroporto" de Catió.

Embora me tenham explicado o quanto eram importantes essas medições, agora já não me recordo delas, das explicações, mas lembro que nos ríamos fazendo perguntas do tipo, se formos atacados os Fiat's não saem porque a tua leitura meteorológica dá nuvens negras ou muita chuva para o sector?. Ou calor que derrete as chapas dos bichos? Imagina estarmos a levar na corneta e só porque mandaste uma mensagem negativa sobre o sector e estares aqui connosco a aguentar sem ajuda dos céus. Os abrigos são só para os das transmissões, não dão para todos.
Enfim, aquelas cenas com que o pessoal do mato atrofiava a cabeça dos senhores de Bissau vindos para passar uma temporada connosco.

Um dia experimentámos o Cabo Mendes, Meteorologista da Força Aérea e as suas investigações meteorológicas. Estava no final a comissão da CCS do BART 1913. Uma malta que nunca esquecerei.
Resolvemos ir mijar no recipiente que recolhia a humidade ou lá que era do aparelhómetro colocado no aeroporto. O Mendes ia dando em maluco porque não poderia haver tanta humidade que enchesse o "cantarinho". Não sabia o que fazer para mandar a mensagem diária.
Já não me lembro como tudo acabou. Mas ele deve ter aldrabado os registos.

Estas lembranças são porque morreu um senhor comunicador e cientista, Ahthímio de Azevedo, Açoriano.

Madrugada da despedida da CCS do BART1913: Da esquerda para a direita: Ernesto, nome próprio, Ché Guevara, apelido; Eu; Cabo Mendes meteorologista da FA e Quim Mendes, Artilheiro.

Nesta foto: De costas e à esquerda, dois meteorologistas da FA - os nomes esqueci. Os outros jogadores são o Quim Mendes da Artilharia; também esqueci o nome do outro jogador, um sapador. Os assistentes são o André e o Arménio Almeida.

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Guiné 63/74 - P13916: Perfil da CCAÇ 1498 / BCAÇ 1876 - "Os Vagabundos" (Armando Teixeira da Silva, ex-Soldado Atirador)

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano Armando Teixeira da Silva, ex-Soldado Atirador da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876, que esteve em Có, Jolmete, Bula, Binar e Ponate, com data de 8 de Novembro de 2014:

Camarada Carlos Vinhal:
Dando sequência à minha primeira iniciativa - após a qual decorreu uma eternidade – penso na frase que me dirigiste: “sê bem-vindo a esta Tertúlia de ex-combatentes”.
Foi simpática a maneira de receberes o “periquito”. Agradeço essa tua generosidade. Sinto pouco à vontade a tratar-te por tu. Mas, como é timbre do blogue e como, tão bem, recomendaste… assim seja!
 “Muitos não seremos de mais para relatar as memórias e deixar testemunhos fotográficos da guerra da Guiné”. – Tentarei fazer deste teu lema a minha divisa.
Assim:
Começo por fazer a apresentação - à laia de “Bilhete de Identidade” - do perfil da COMPANHIA DE CAÇADORES 1498 – “Os Vagabundos”.

Para ti e para toda a Tertúlia
Um forte abraço
A. Teixeira da Silva


 COMPANHIA DE CAÇADORES 1498 – “Os Vagabundos”


 A CCAÇ 1498 é uma Sub-Unidade do BCAÇ 1876 pertencente ao RI 2 - Regimento de Infantaria n.º 2 de Abrantes.

Embora abrantina foi em Santa Margarida que fez a IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional) com vista à Guerra Colonial.

- Embarcou no dia 20/JAN/66, com destino à Guiné, na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, no navio motor Uíge, o qual lançou âncora, nas águas do Geba, cinco dias depois.

- Desembarcou às primeiras horas do dia seguinte e, sem ver Bissau - acontecimento invulgar com tropas recém-chegadas - partiu para o mato sob escolta fortemente armada;

Em João Landim, na margem esquerda do Rio Mansoa, sofre a primeira decepção. Viu-se fraccionada em três grupos autónomos, em cumprimento da missão que lhe haviam destinado. Cambou o rio, numa geringonça ladeada por bóias de bidões de gasolina vazios, ao encontro de veteranos a caminho da peluda. Deles adquire armamento - G3 e munições - num ritual enfadonho, sob a inclemência de sol escaldante, ao ritmo pachorrento de dois escreventes, que as desarriscavam e arrolavam numa e noutra lauda;

Disseram-lhe que ali era a fronteira da guerra. Com armas apontadas a um inimigo imaginário, chegou aos locais que a esperavam. Có (onde assentou comando e secretaria), Jolmete e Ponate.

Afastada do seu Batalhão de origem, subordina-se ao BCAV 790, sediado em BULA, de que é comandante Henrique Calado, Tenente-Coronel de Cavalaria;

Em 02/FEV/66 - com 8 dias apenas - é baptizada pelo IN, na mata de JOL, ao participar numa Operação com o seu Grupo de Ponate;

Em 01/FEV/67 - com 12 meses de comissão - reagrupou-se em BINAR, ficando, então, dependente do seu Batalhão de origem (BCAÇ 1876) entretanto chegado a BULA para render o BCAV 790, cuja comissão havia terminado;

Em 19/SET/67 - com 20 meses de mato - chega o momento de conhecer Bissau. Despede-se de BINAR entregando a missão à CART 1647;

Volta a cambar o Mansoa. Aquartela-se no QG, em Santa Luzia (vulgo seiscentos) aguarda o Uíge e regressa à Metrópole;

Em10/NOV/67 desembarca em Alcântara com a missão cumprida.


CONTACTOS COM INIMIGO
- 48 Em Golpes de Mão, Emboscadas ou Flagelações;
- 10 Ataques ao Quartel;
- 03 Minas anti-carro;
- 01 Mina anti-pessoal;


MORTOS E FERIDOS EM COMBATE 
- 06 Mortos;
- 21 Feridos;


PUNIÇÕES - 11 
- Três com 5 dias de prisão disciplinar
- Um com 8 dias -
- Cinco com 10 dias -
- Um com 15 dias
- Um com 20 dias.


LOUVORES E CONDECORAÇÕES 
- 38 Louvores
- 08 Condecorações
- 03 Cruzes de Guerra


CITAÇÃO HONROSA

“Este comando (CTIG) felicita a CCAÇ 1498 pela valentia de que deu provas nas operações “Buldogue” e “Balear”. 
- Ao fim de 18 meses consecutivos no mato, parte dos quais num aquartelamento sujeito a numerosos e fortes ataques do IN, a sua recuperação moral e física mostram bem quanto vale a força de vontade quando com elevado espírito patriótico se sabe querer".


LOUVOR COMANDO TERRITORIAL INDEPENDENTE DA GUINÉ 

LOUVOR
- Louvo a C. Caçadores 1498/RI 2, porque sendo uma Companhia que passou toda a sua comissão no interior da Província, logo desde o início sofreu as contingências da guerra, a inclemência do clima e o choque das primeiras baixas provocadas pelo IN, entre as quais o seu Comandante de Companhia.
E ainda porque sendo uma Companhia considerada pelo Comando do Batalhão a que esteve de reforço, e com razão uma Sub-Unidade cansada, soube, uma vez regressada ao seu Batalhão orgânico e depois de reagrupados os seus Pelotões, ressurgir completamente e evidenciar-se pela sua vontade, energia, determinação e agressividade que vem patenteando no combate, caça e perseguição ao IN onde quer que ele se encontre. E tão extraordinário é o rejuvenescimento desta Companhia que, apesar de desfalcada de alguns dos seus elementos, quer por doença, quer devido à mudança de situação, com os que ficam, não hesita em lançar-se em operações mesmo em dias consecutivos como já aconteceu, sempre que detecta a presença do IN em qualquer zona do seu sector, dando-lhe caça, capturando alguns dos seus elementos, perseguindo-o, capturando material, etc., e estando sempre pronta a voltar à carga sempre que o IN se revele.
Pela sua actuação em combate e pelas consequências sofridas pelo IN, tem-se este encarniçado contra o seu Aquartelamento em ataques violentos, sem que, contudo, tenha feito esfriar o entusiasmo de todos os Oficiais, Sargentos e Praças da Companhia, antes porém parece contribuir para lhes estimular a determinação, a vontade e o querer, na luta enérgica e sem tréguas que sempre lhe move.
Destacam-se entre as muitas operações que realizou, as Op. «Banidor, Biqueirada, Buganvília, Bengala, Bravura, Buldogue, Balear, Brusca, Bonaparte, Bastidor e Balroa», que merecem referências especiais pelos resultados obtidos, quer em baixas causadas ao IN, na vontade e apego postos na luta, no material capturado e muito especialmente nos documentos capturados na Op. «Buldogue» que se revelaram de extraordinária importância para o CTIG.
Por tudo, e porque é uma Companhia com a qual se pode contar, sem contestação até ao último minuto da sua permanência na Província, pelo seu espírito de corpo fundamental numa tropa, pela coesão dos seus Oficiais, Sargentos e Praças que vibram em uníssono, se comportam com a mesma determinação, a mesma valentia, o mesmo querer, merece bem a C. Caç.1498 ser apontada e justamente considerada como uma esplêndida Sub-Unidade do Batalhão, que muito prestigia ao mesmo tempo que muito honra o Exército a que pertence e que luta intransigentemente pelos ideais da Pátria e integridade do solo Português em África.

BISSAU, 12 DE Outubro de 1967

O COMANDANTE MILITAR
Victor Novais Gonçalves Briga

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Guiné 63/74 - P13915: Álbum fotográfico do Victor Neto, ex-fur mil, CCAÇ 557 (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) > Cachil: parte III: A Lancha LD4, que fazia a "carreira" Catió-Cachil... [A ligação de Cachil, na margem esquerda do Rio Cobade, a Catió fazia-se de barco, pelo Rio Cobade e depois pelo seu afluente, o Rio Cagopère em cuja margem direita se situava o porto exterior de Catió]


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) > Foto nº 7 > A lancha do Cachil, que vinha de Catió,,, A ligação de Cachil (na margem esquerda do Rio Cobade) a Catió fazia-se de barco, pelo Rio Cobade e depois pelo seu afluente, o Rio Cagopère (em cuja margem direita se situava o porto exterior de Catió)]

Foto do álbum do ex-fur mil Victor Neto, da CCAÇ 557, enviada pelo incansável José Colaço, nosso grã-tabanqueiro.

Foto: © Victor Neto / José Colaço (2014). Todos os direitos reservados [Edição : LG]


1.  Mensagem de José Colaço, em resposta ao nosso pedido de fotos e outras informações sobre a embarcação "Bubaque" (*):

Data: 18 de Novembro de 2014 às 18:37
Assunto: Lancha LD4.

Luís,  envio foto do álbum do camarada Victor Neto (**): trata-se da lancha LD4 que navegou nos anos 1964 a 68 no rio Cagopère,  de Catió para o Cachil,  para o abastecimento de,  entre vários mantimentos,  o precioso líquido,  a água.

A ideia que eu tinha é que era esta lancha, a  LD4, que foi adaptada,  depois de ser abatida ao contingente da  marinha,  para o barco de passageiros Bissau-Bubaque... Errado ? (**)

Um abraço
José Colaço

[ex-sol trms,  CCAÇ 557,
Cachil,Bissau e Bafatá, 1963/65]


2. Comentário de L.G.:

Zé,  obrigado. O barco que está aqui em casa é o "Bubaque" que fazia a carreira Bissau-Bambadinca (e viceversa)... e não Bissau-Bubaque. O Manuel Amante diz que ela, enquanto LP 4 [ Lancha de Patrulha, e não de Desembarque], terá participado na Op Tridente ou batalha do Como (Jan-mar 1964)... Teve uma vida efémera na Marinha (de junho de 1963 a março de 1964)... O pai do Manuel Manuel adquiriu à Marinha uma LP4 e uma LP3... Abraço grande do LG.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 19 de novembro de  2014 > Guiné 63/74 - P13914: (Ex)citações (248): Ainda a embarcação "Bubaque", antiga LP4, antiga traineira de pesca algarvia... Comprada como sucata à Marinha, foi a embarcação da carreira regular Bissau-Bambadinca- Bissau (Ambasciatore Manuel Amante da Rosa)

(**) Últimpo poste da série > 8 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13707: Álbum fotográfico do Victor Neto, ex-fur mil, CCAÇ 557 (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) > Cachil: parte II: tempo de lutar, tempo de folgar, tempo de rezar

Guiné 63/74 - P13914: (Ex)citações (248): Ainda a embarcação "Bubaque", antiga LP4, antiga traineira de pesca algarvia... Comprada como sucata à Marinha, foi a embarcação da carreira regular Bissau-Bambadinca- Bissau (Ambasciatore Manuel Amante da Rosa)


Guiné > s/d > s/ l >  A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma  traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa,  hoje embaixador da República de Cabo Verde em Roma.

Foto: © Manuel  Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. 8Edição: LG]


1. Comentário de L G. 

Manuel: Como vês, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!...

Aí tens o teu barcco, o Bubaque [, foto nº1] (*)... Presumo que a foto seja de 1972... O Jorge Araújo foi depois para Mansambo nos primeiros meses de 1973... É seguramente foto anterior ao ataque do dia 1/6/1973, às 1h30h da manhã, que tu dizes ter acontecido... por engano.

De qualquer modo, houve dois feridos graves entre a tripulação e o teu pai poderia ter morrido... Os feridos devem sido atingidos por RPG (LGFog), disparado da margem direita do Rio Geba Estreito, em São Belchior, antes de chegar a Bambadinca...

O PAIGC já não podia atacar no Mato Cão porque havia lá um destacamento das NT... No meu tempo, patrulhávamos o Mato Cão sempre que havia passagem de barcos civis... Qualquer que fosse a hora de passagem... Geralmente a desoras, porque as marés é que mandavam...

Um dia assisti ao espetáculo único (e insólito), do leito do Rio Geba Estreito vazio... Depois veio o macaréu, com um barulho característico (medonho...) e tapou de novo o leito do rio... Nunca mais esqueci...

Obrigado pelo recorte do Diário da República... Tudo indica que estas LP (Lanchas de Patrulha) foram uma solução de emergência por parte da Marinha... Estiveram ao serviço menos de um ano!...

Não há fotos da LP 4!... Talvez o Manuel Lema Santos nos possa dar mais pistas sobre estas misteriosas LP... que faziam parte da Marinha.. pobre, como tu ben dizes...Nem devem fazer parte da história da nossa gloriosa Armada...

E já agora quanto é que o teu pai deu pela sucata ? E quanto era o bilhete de viagem ? Já não me lembro... Os militares não pagavam ? Ainda te recordas ?

E o teu pai tinha lucro ? ...Era o negócio dele, da família... Vocês tinham mais barcos ?...

Buona sera, ambasciatore... LG

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Guiné 63/74 - P13913: Parabéns a você (818): Mário Migueis da Silva, ex-Fur Mil Rec Inf (Guiné, 1970/72)

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Nota do editor

Último poste da série de 16 de Novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13901: Parabéns a você (817): José António Viegas, ex-Fur Mil Art do Pel Caç Nat 54 (Guiné, 1966/68)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13912: (Ex)citações (247): A embarcação "Bubaque", da carreira Bissau-Bambadinca-Bissau (Manuel Amante / Jorge Araújo / J. F. Santos Ribeiro)



Foto nº 1 > Rio Geba > c.- 1973 > Uma canoa em primeiro plano, e ao fuindo, o Xime e um braco de transprote de passageiros que, segundo o Manuel Amante, é(era) o seu "Bibaque"...A voto é tirada da margem direita, do aldo do Enxalé

Foto: © Jorge Araújo  (2014). Todos os direitos reservados [Edição: LG]


Foto nº 1-A


Foto nº 2 > O "barco turrra", segundo a expressão usada pelas NT...

Foto: © J. F. Santos Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados [Edição: LG]


Foto nº 3 > 1967 > Bissau > Porto > Estivadores

Foto: © João José Alves Martins (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.

Foto nº 4 > 1967 > Rio Geba > Ponta Varela, na margem esquerda, antes de se chegar ao Xime >  Viagem de LDG a caminho do leste


Foto nº 5  > 1967 > Bambadinca > Porto fluvial >  Aproximação de LDG >


Foto nº 6 > 1967 > Bambadinca > Porto fluvial >  Aproximação de LDG > Fotos [3, 4, 5, 6] do álbum do  João Martins [, ex-alf mil art, BAC1, Bissum, Piche, Bedanda, Gadamael e Guileje, 1967/69 ]

1.  Mensagem enviada pelo correio  interno da Tabanca Grande, esta manhã:

Amigos e camaradas: a conversa sobre a "nossa" Guiné é como as cerejas... Conversa puxa conversa e lá vamos dar ao nosso querido "Bubaque", o barco de passageiros onde muitos de nós, rapaziada do leste, íamos  de Bambadinca [, fotos nº 5 e 6] até  Bissau [, Foto nº 3], para ir de férias (via TAP) ou fazer uma escapadela...

Viagem memorável, de dia ou de noite, que implicava passar por pontos temíveis do Rio Geba Estreito (Ou Xaianga) como o Mato Cão e, à saída do Xime, a Ponta Varela [, Foto nº 4]...

Quem tem recordações dessas viagens ? E sobretudo fotos, nomeadamente do "Bubaque" (,. atacado em 1/6/1973, às 1h30, ao que parece por erro de identificação ? (*)...

O "Bubaque", a "Bor" e outros barcos civis (também conhecidos por "barcos turras") fazem parte do nosso património de memórias,,, A Tabanca Grande agradece... Saudações. Luís Graça

2. Respostas imediatas:

(i) Manuel Amante [ex-fir mil, BINT, Bissau, 1973%74]

Meu Caro Luís,

Tenho uma [foto] ue te poderá servir. Envio mais logo porque esta no Ipad.

Mas das minhas pesquisas sobre as Lanchas Patrulhas da Marinha Pobre (traineiras de madeira algarvias de popa redonda transformadas em lanchas patrulhas) descobri a Portaria das LP.
E vai em anexo. 
Abraços. Manuel



(ii)  Jorge Araújo [ex-fur mil op esp, CART 3494, Xime, Enxalé e Mansambo, 19723/74]

 Caro Luís,

Ontem iniciei a elaboração de uma nova narrativa [efeméride] sobre a actividade operacional da CART 3494. agora no Enxalé. Como depois de almoço sigo para Portimão (ISMAT), só lá para 6.ª feira é que estará concluída.

Entretanto, uma das imagens que vou utilizar para enquadrar o texto é a que anexo [Foto nº 1, acima].
Será que se trata do Bubaque? Não sei... É a resposta, possível, ao presente apelo.

Boa semana e um abraço, Jorge Araújo.


Junto envio foto no chamado barco "turra" [, Foto nº 2]....De Bissau até Bafatá em 1971 (1º cabo trms, CCS/BCaç.2912, Galomaro, 1970/72)...

(iv) Manuel Amante:

Este não. [Foto nº2].

O anterior sim [Foto nº 1].
.
A casa de leme do Bubaque era à proa e tinha um toldo a quase todo o cumprimento.

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 18 de novembro de  2014 > Guiné 63(74 - P13909: História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) (António Duarte): Parte XVII: junho de 1973: dois ataques à navegação no Rio Geba Estreito, sendo o mais grave contra a nossa conhecida embarcação "Bubaque", propriedade do empresário Amante da Rosa, e que fazia o trajeto regular Bissau-Bambadinca.Bissau

(**) Ùltimo poste da série > 5 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13850: (Ex)citações (246): Ainda o rebentamento de uma granada no meio da população de Ganturé, durante um batuque (Mário Vitorino Gaspar)

Guiné 63/74 - P13911: Agenda cultural (358): Lançamento do 15.º livro da colecção Fim do Império "O General Ramalho Eanes e a História Recente de Portugal", de Vieira Pinto, dia 25 de Novembro de 2014, pelas 15h00, no IASFA/CASOeiras, Auditório Princesa Benedita (Manuel Barão da Cunha)


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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13906: Agenda cultural (357): Apresentação do livro "Nós Enfermeiras Paraquedistas", dia 26 de Novembro de 2014, pelas 18h00, no Estado-Maior da Força Aérea, em Alfragide (Miguel Pessoa)