sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1314: Estórias de Bissau (8): Roteiro da noite: NPR Orion, Chez Toi, Pilão (Paulo Santiago)



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Sinchã Sambel > Fevereiro de 2005 > A viagem de todas as emoções, começada pelo Paulo Santiago em Fevereiro de 2005, continua no nosso blogue... Hoje, reconstituindo, por exemplo, um raide nocturno ao Pilão... Uma noite de copos em Bissau era um dos poucos luxos que um tuga , a caminho do mato, se podia permitir: não eramos santos nem heróis, também não eramos meninos de coro nem escuteiros... Tínhamos vinte anos, muita adrelina, muita vontade de viver e nenhuma de morrer... Em Bissau, longe do Vietname, como eu costumava escrever...no meu Diário de um Tuga (*).

1. Na minha companhia (a CCAÇ 12) tínhamos uma espécie de acordo tácito, nós, os milicianos e o sargento Piça, que nos arranjava a guia de marcha.

Todos os pretextos era bons, médicos ou não médicos, para se fugir do Vietname: o mais vulgar, era ir a Bissau mudar o óleo (sic), tratar dos dentes, arranjar os óculos, ir a um consulta hospitalar, marcar a tão sonhada viagem de férias à Metrópole, beber uns copos, comer umas ostras e uns camarões, enfim, espairecer as ideias… De quem andava por Bissau, assim sem destino, dizia-se que estava ou era desenfiado... A verdade é que não havia muito mais sítios para um gajo fugir à merda da actividade operacional...

Obrigado ao Paulo por esta estória de copos - que felizmente acabou em bem (afinal, eramos todos bons rapazes e não nos comportávamos como ocupantes...) - e sobretudo por nos reconstituir o roteiro de Bissau by night... Na Orion, nunca pus os pés, mas a chungaria do Chez Toi e a tabanca grande do Pilão tive que as conhecer... Aliás, para além das ostras, dos copos e das verdianas, o que é que havia mais em Bissau ? (1)... Seguramente, que muito mais: nós é que não tivemos tempo (nem imaginação) para o descobrir...

Os protagonistas desta estória são o Paulo e os seus amigos: o comandante Rita, da Orion; um tenente da reserva naval, Alves da Silva; o Martins Julião, nosso tertuliano, alferes da CCAÇ 2701; mais o Cap Tomás, ajudante de campo do Com-Chefe...

 Se quisermos, devemos ainda acrescentar à lista mais três figurantes: o automóvel da D. Helena (Spínola); um alferes em fim de comissão, o Domingos; mais um tenente dos comandos, o Oliveira... Como amigos que são (ou eram) do Paulo, não são (ou não eram) gente de cerimónia... Além disso, são pessoas públicas e o Pilão era o mais público dos sítios públicos de Bissau... Enfim, uma estória que, naquela época, bem se poderia ter passado em Lisboa, entre o Cais do Sodré e o Bairro Alto... Uma estória, em todo o caso, digna de figurar numa antologia (portuguesa) das crónicas dos bons malandros... (LG)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Campo de futebol > 1971 > "Na foto junta, eu e o Tomás estamos bem direitinhos... era de manhã" (PS)... O Cap Tomás, de pingalim, está atrás de Spínola, a quem o Paulo Santiago bate a pala.

Foto: © Paulo Santiago (2006). Direitos reservados.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Campo de futebol > 24 de Dezembro de 1971, vésperas de Natal > O Caco - alcunha por que era conhecido o Com-Chefe - passa revista. O Alf Santiago segue atrás com o Cap Tomás, ajudante de campo do general Spínola.

Foto: © Paulo Santiago (2006). Direitos reservados.




Guiné > Região de Tombali > Rio Cacine > 1971 ou 1972 > NRP Orion > O comandante Rita, "um grande homem, um grande comandante", na opinião de Pedro Lauret, oficial imediato da LFG Orion (1971/73). Na foto, vemos os dois na ponta do navio, a navegar no Cacine. O Cmdt Rita está em segundo plano. O Lauret segura os binóculos.

Foto © Pedro Lauret (2006) . Direitos reservados.


2. Continuação da série Estórias de Bissau (**)

Uma ida ao Pilão

por Paulo Santiago


Foi aí por volta de 30 ou 31 de Março de 1972 que os acontecimentos se passaram. Estava eu em Bissau, de passagem, para mais um mês de férias na Metrópole, embarcava no avião da TAP em 2 de Abril.

O NRP Orion (***) foi onde jantei naquela noite, a convite do Comandante Rita, sendo também convidado oTen RN [reserva naval] Alves da Silva, conhecido entre nós pelo petit-nom de Eduardinho. Não me lembro da ementa, mas foi excelentemente acompanhada pelos belíssimos néctares existentes na garrafeira daquele navio.

O Martins Julião estava em Bissau a chefiar a comissão liquidatária da CCAÇ 2701 [, Saltinho, 170/72]: sabendo que me encontrava a bordo da Orion, apareceu no fim de jantar, ainda a tempo de beber uns uísques.

Por volta da meia-noite, ou ainda mais tarde, resolvemos ir ao Chez Toi, um cabaré chungoso, o que se chama agora casa de alterne. Apanhámos um táxi no porto e lá seguímos para a má vida. O Rita, como habitualmente, ainda poderia beber mais uma garrafa nas calmas, eu, o Alves da Silva e o Julião já estávamos um pouco mal tratados. O cabaré estava repleto, já não cabia mais ninguém. Convencemos o empregado a trazer-nos uma Old Parr, mais quatro copos e ali ficámos encostados ao muro a dar conta da garrafa.

Subitamente chega um carro em alta velocidade, Peugeot 404 preto, que faz uma travagem maluca ali em frente, e donde sai o Cap Tomás, ajudante do Caco. Vinha bastante encharcado, mas deitou a mão à nossa garrafa bebendo uma boa golada. A única pessoa que ele conhecia bem era o Rita. Queria ir para as gaijas, não sei fazer o quê, naquele estado. Convenceu o Comandante e lá entrámos os quatro para o 404, era o carro da D. Helena [Spínola], onde o único meio sóbrio era o meu amigo Rita.

Seguimos em direcção ao Pilão, com o Tomás a fazer uma condução à maluca. Falou numa cabo-verdiana que nenhum de nós conhecia, que ficaria perto da casa da Eugénia, essa conhecia eu bem. Corremos imensas ruas e ruelas do Pilão, eram tantos os saltos que o carro dava que o Rita já dizia estar a apanhar mais pancada que numa tempestade no mar. A determinada altura, uma das rodas do carro cai num buraco com grande violência, ouve-se um barulho de latas e ficamos com menos luz. O Tomás pára o Peugeot e símos para verificar o sucedido. Com a pancada, um dos faróis saltara do encaixe, ficando virado para o solo, preso pelos fios de ligação.

Nenhum problema, continuamos às voltas, à procura das gaijas que nenhum conseguia dizer onde ficavam e o farol acabou por cair, ninguém soube onde. Aí pelas três da manhã, chegamos a um local do Pilão onde se encontrava um grande aglomerado de pessoas, em estado de grande exaltação. Paramos, saímos do carro e vemos no meio daquele maralhal o Alf Mil Domingos, de braço engessado ao peito, prestes a levar, na melhor das hipóteses, uma grande carga de pancada.

O Comandante Rita, graças à sua estatura, vai furando, connosco atrás até chegarmos
ao Domingos, também de cabeça perdida. O que se passara?
- O caralho do Oliveira trouxe-me para aqui, bateu à porta daquela gaja, ela diz que está ocupada, o cabrão manda um pontapé na porta, rebenta-a, a tipa grita, começa a juntar-se este maralhal e o gajo deixou-me sózinho.

Foi complicado acalmar aquela gente mas conseguiu-se. Foi mais um passageiro para o maltratado 404. O Tomás ficou no Palácio e, nós os cinco, viemos beber mais um copo ao Orion. O Domingos embarcava nessa manhã para Lisboa, em fim de comissão.

PS - O Oliveira era Tenente dos Comandos. Pertencera à 26ª e estivera em Fá com o Miquelina Simões a formar a 2ª CCA [Companhia de Comandos Africanos]. O Domingos fora Fur Mil na 4ª CCmds em Moçambique e Alf na 26ª, até apanhar uma porrada e ser transferido para Teixeira Pinto onde teve um acidente do qual resultou um braço partido. Tive com ele várias histórias.

Paulo Santiago
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(...) "Decididamente não queria falar-te de mulheres (e, muito menos, das brancas que, aqui, no cu do mundo, povoam os nossos delírios palúdicos)… Mas como não, se elas são o único antídoto contra a angústia da morte ?!... As paredes das nossas casernas no mato estão forradas de posters de gajas nuas, loiras, de olhos azuis, formas esculturais e pele acetinada, que é “para um gajo não se esquecer da carne branca” (sic)…
"Em contrapartida, a pomada antivenéria (e, claro, a penicilina, em doses de milhões) é o que mais se gasta nos nossos postos de caserna. O bordel é talvez a única instituição castrense verdadeiramente respeitável… Mas se os franceses mandavam para a Argélia putas de campanha juntamente com os seus legionários, nós, tugas, não temos esse problema: fornicamos sem preconceitos raciais, ou não fossemos “um país, muitos povos, uma só Nação”! (...).
18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1290: Estórias de Bissau (7): Pilão, os dez quartos (Jorge Cabral)

(***) Sobre a LFG Orion, vd. os seguintes posts:

31 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1267: Estórias de Bissau (2): A minha primeira máquina fotográfica (Humberto Reis); as minhas tainadas (A. Marques Lopes)


22 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1202: Ganturé, Rio Cacheu, Maio de 1973 (Pedro Lauret)


5 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1151: Resposta ao Manuel Rebocho: O papel do Orion na batalha de Guileje/Gadamael (Pedro Lauret)


4 de OUtubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1150: Carta a Pedro Lauret: A actuação do NRP Orion na evacuação das NT e da população de Guileje, em 1973 (Manuel Rebocho)


2 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1143: Parabéns, comandante Pedro Lauret, é uma honra tê-lo a bordo (Paulo Santiago)


1 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1137: Do NRP Orion ao MFA: uma curta autobiografia (Pedro Lauret, capitão-de-mar-e-guerra)

Guiné 63/74 - P1313: Estórias cabralianas (14): Missirá: o apanhado do alferes que deitou fogo ao quartel (Jorge Cabral)

Guiné > Zona Leste > Estrada Xime- Bambadinca > 1969 > O Cap Carlos Brito, da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71). Era uma um homem afável e civilizado no trato. Com os seus 37 anos, e três comissões no Ultramar, foi tão explorado pelo comando do Sector L1 como os seus milicianos e os seus soldados da CCAÇ 2590/CCAÇ 12. No final da comissão, lá ganhou, com justiça, os galões de major. Em Fevereiro de 1971.

Foi ele - o "bom do major Brito" - que avisou, no Xime, o Alf Mil Jorge Cabral, do Pel Caç Nat 63, da chegada do novo comandante do BART 2917, militarista, aconselhando-o a cortar as suíças farfalhudas que trazia das férias em Lisboa... Carlos Brito é hoje coronel: espero que ele esteja bem de saúde e que um dia destes ainda possa aparecer por aqui na nossa tertúlia... Revi-o apenas em 1994, em Fão, Esposende .(LG)

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.
Mais um short story (1) do nosso amigo e camarada Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71.


Calores femininos, fogo em Missirá

por Jorge Cabral

Julgo que aconteceu em Março [de 1971]. O dia decorrera em Alegria. Chegara a Missirá uma arca frigorífica a petróleo, oferta do Movimento Nacional Feminino (2), e cedo começaram as libações.

Seriam três ou quatro da manhã, sou abruptamente despertado. Tiros (?). Rebentamentos (?). Fogo! Saio do abrigo nu, e deparo com meio quartel a arder.

Ataque nunca podia ser! O Tigre já estava na Metrópole, Missirá era agora um oásis de paz, vigorando um tácito pacto de não-agressão (3).

Tinha sido a arca… Incendiando-se, provocara a explosão das latas de conserva e das garrafas, e por simpatia, das munições e das granadas, que se encontravam na arrecadação, contígua à cantina.

Alvoraçou-se Bambadinca. Recebi logo uma mensagem a prometer ajuda. E respondi: "Intensidade dos calores femininos arrasaram sólidos e líquidos. Reforços sim, mas bebíveis”. Não sei o que terá pensado o Polidoro Monteiro (4).

Creio, aliás, que uma empatia mútua se havia estabelecido, quando nos conhecemos, em Fevereiro [de 1971].

Chegara de férias e no Cais do Xime, o bom do Major Brito (5) avisara-me:
- Temos um novo Comandante, muito militarista. Não se apresente assim.- É que eu deixara crescer umas farfalhudas suíças que se uniam ao revirado do bigode. Por precaução fui ao quartel do Xime rapar a cara.

Entretanto a Coluna partiu…Meti-me ao caminho a pé, de farda de passeio e com uma mala na mão. Depois de Amedalai, encontrei um ciclista transportando uma velha e duas galinhas, a quem pedi boleia. E assim, tal como na história do velho, do rapaz e do burro, nos fomos revezando, entrando porém em Bambadinca todos na bicicleta, mais as galinhas, cena que foi presenciada pelo Polidoro, que já havia sido alertado para o meu desaparecimento.

Julgo que o Comandante, naquele momento, terá concluído pela impossibilidade de me recuperar, mas o certo é que o meu bizarro comportamento durante os últimos seis meses, foi por ele sempre tolerado.

... O impacto do ataque e do fogo, ou a estranheza da mensagem, chegou a Nova Lamego, e logo na manhã seguinte poisou em Missirá um helicóptero. O Coronel, Comandante do CAOP 2, vinha inspeccionar. Perguntou-me quanto tempo levava de comissão, na altura vinte e dois meses, se tinha problemas com as cargas, e afiançou-me ser impossível uma arca incendiar-se. Claro que instaurou o competente processo de averiguações e o boato correu: havia um alferes tão apanhado que deitou fogo ao quartel.

A minha inocência era, porém, óbvia!

- Apanhado, sim e sempre, mas nunca irresponsável - concluiu mais uma vez S. Polidoro.

Jorge Cabral

______

Nota de L.G.:

(1) Vd. último post da série,28 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1128: Estórias cabralianas (13): A Micá ou o stresse aviário (Jorge Cabral)

(2) Sobre a história do Movimento Nacional Feminino (que era muito gozado pela tropa), vd. depoimento da sua fundadora e líder, a Cecília Supico Pinto.

(3) Tigre [de Missirá]: referência à alcunha do Alf Mil Beja Santos, comandante do Pel Caç Nat 52, que regressou à Metrópole, depois de acabada a su comissão, antes de finais de 1970. O Pel CaçNat 63, comandando pelo Jorge Cabral, esteve em Missirá posteriormente.

(4) O último comandante do BART 2917 , sedeado em Bambadinca (1970/72). Spinolista, era considerado um oficial superior que gozava de respeito e prestígio entre os milicianos e as praças... Infelizmente já não está entre nós, ao que me disseram alguns membros da nossa tertúlia.

(5) O "bom do major Brito", em Fevereiro de 1971, só podia ser o antigo capitão Carlos Brito que comandou a CCAÇ 12 durante a nossa comissão (Maio de 1969/Março de 1971)... Ele foi promovido a major ainda no nosso tempo, - penso que justamente em Fevereiro, na altura da chegada, ao BART 2917, do tenente-coronel Polidoro Monteiro - e provavelmente ficou mais uns tempos em Bambadinca. Nós, milicianos e especialistas, fomos todos rendidos individualmente... De facto, não tenho ideia de o Major Carlos Brito ter embarcado connosco, no Uige, no regresso da casa...

Guiné 63/74 - P1312: Ponte dos Fulas: Estão ali uns gajos que me querem matar (Joaquim Mexia Alves, CART 3492)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > Destacamento da Ponte dos Fulas > CART > 1970 > Uma coluna logística, vinda de Bambadinca, passa pela Ponte dos Fulas, sobre o Rio Pulom, a caminho do Xitole (CART 2716, 1970/72).

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.













Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > Destacamento da Ponte dos Fulas > CART 3492 > Março de 1972 > Aqui viveram o Alf Mil Mexia Alves e os homens do seu Gr Comb durante várias semanas... Este como muitos outros destacamentos e aquartelamentos na Guiné seguiam um plano de construção e manutenção incrementalista: que cada unidade que por lá passava ia acrescentando um bidão, uma vala, uma fiada de arame farpado, um telhado de zinco, uma mesa, um banco... Este destacamento era uma espécie de guarda avançada do posto administrativo, tabanca e aquartelamento do Xitole, bem como da ponte sobre o Rio Pulom, imprescindível para manter operacional a estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho. (LG)

Fotos: © Joaquim Mexia Alves (2006)


Texto enviado em 10 de Outubro de 2006, pelo nosso camarada Joaquim Mexias Alves, ex-alferes miliciano de operações especiais, que no período de Dezembro de 1971 a Dezembro de 1973 foi pertencendo sucessivamente à CART 3492 (Xitole / Ponte dos Fulas), ao Pel Caç Nat 52 (Bambadinca, Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e . por fim, à CCAÇ 15 (Mansoa ).


Caro Luís Graça: Anexo umas fotografias da Ponte dos Fulas (1), destacamento do Xitole.

Numa delas vê-se o torreão, à entrada da ponte, onde ficava sempre uma secção do Pelotão a montar segurança 24 horas.

Fui o primeiro da CART 3492, logicamente com o meu Pelotão, a ocupar este destacamento em Março de 1972.

Ao que sei, foi ali o primeiro ataque que o BART 3873 sofreu na Guiné, precisamente nesse mês de Março.

A coisa não teve muita importância, nem consequências, mas lembro-me de ter tido um pensamento estranho, mas muito realista, qualquer coisa como isto:
- Afinal é verdade! Estão ali uns gajos que me querem matar!!!

As condições de vida eram excelentes, como com certeza atestaram muitos dos nossos camaradas que por lá passaram.

Lembro-me sobretudo da bolanha em frente, com umas árvores, que me davam sempre a insegurança de saber que seria o local óptimo para uma flagelação ao destacamento.

Junto ao destacamento, do lado esquerdo da estrada, no sentido para Bambadinca, e para dentro da mata, tive uma forte emboscada que contarei noutra oportunidade.

Abraço do
Joaquim Mexia Alves

_________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVI: De Lisboa para o Xitole, com amor (Humberto Reis)

(...) "Desde Novembro de 1968 a Agosto de 1969, o itinerário Bambadinca-Xitole esteve interdito. Nessa altura, uma coluna logística do BCAÇ 2852, no regresso a Bambadinca, sofrera duas emboscadas (uma das quais, a primeira, com mina comandada), a cerca de 2 km da Ponte dos Fulas, na zona de acção da unidade de quadrícula aquartelada no Xitole (CART 2413). A coluna prosseguiu com apoio aéreo.

"Nove meses depois, a 4 de Agosto de 1969, a CCAÇ 12 participou na reabertura desse itinerário, que era absolutamente vital para as NT (aquarteladas em Mansambo, Xitole, Saltinho...). Na Op Belo Dia, participou o 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o pelotão do Humberto Reis e do Tony Levezinho) com forças da CART 2339 (Mansambo) - a que pertencia o Carlos Marques dos Santos - formando o Destacamento A. Nessa operação, não foram encontradas minas nem abatizes no itinerário mas o IN emboscou 1 Gr Com do Dest B, constituído por forças da CART 2413 do Xitole, na Ponte dos Fulas, quando as NT estavam a reabastecer-se de água (...).

Comentário do David J. Guimarães (ex-furriel miliciano da CART 2716, aquartelada no Xitole (1970/1972), e pertencente ao BART 2917, sediado em Bambadinca, cometado uma das fotos do Humberto Reis:

" (...) Efectivamente lá ao fundo da fotografia vê-se bem o Fortim, junto à ponte, e em cima dela pelo que vejo é a primeira viatura militar que está na foto.

"[Essa] fotografia foi tirada do ponto mais alto do destacamento da Ponte dos Fulas. Quem tirou a fotografia [o Humberto Reis] tinha um abrigo à sua esquerda e mais atrás o local onde comíamos, reuníamos, limpávamos armas, conversávamos, etc. Era um coberto ao ar livre...

"(...) A estrada passava pelo meio deste acampamento onde nós só estávamos para guardar a ponte sobre o rio Pulom (Ponte dos Fulas). Era um local isolado. Tínhamos um bem: não saíamos em patrulhamento.

"Tínhamos montadas duas Metralhadoras Pesadas Bredas .. Uma dentro do Fortim e outra bem cá em cima junto ao coberto acima referido ... Essa estava apontada para a zona do Xitole, que distava 3 Km dali....

"Foi aqui que comecei a minha comissão no mato, pois o 3º Grupo de Combate a que eu pertencia, foi por sorteio o que calhou ir para ali ao 3º mês... De notar que os Morteiros do Xitole também protegiam aquela zona, estando perfeitamente com orientações para aquela direcção - bem mas isso era com os tipos das armas pesadas. Nunca tivémos ali nenhum ataque e ainda bem, senão tenho a sensação de que estaria aqui a contar outra história ou como ex-prisioneiro ou então... estaria com o Cunha, agora, no outro mundo...

"As colunas para nós eram um espectáculo mesmo (2)... Não mais que isso, pois nada fazíamos senão vermos a passar os carros todos para um lado e, depois ao fim da tarde, para o outro ... Até ao próximo mês... E lá ficavamos nós na Ponte dos Fulas... No meio do silêncio da savana. A beber uns copos, claro...

"Diariamente do Xitole deslocava-se lá um Pelotão que nos ia levar géneros ao almoço e ao jantar... Note-se que tinhamos a noção exacta de que a área circundante e a zona entre o Xitole e a cerca deste destacamento - eram terra de ninguém onde o IN andaria mais ou menos à vontade...

"O único civil que lá recebíamos era o Mamadu, um pescador, bom homem, bem alto ... e que já morreu".

(2) Vd. posts de:

20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho (Luís Graça)

11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CLXX: As heróicas GMC e os malucos dos seus condutores (CCAÇ 12, Septembro de 1969) (Luís Graça)

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1311: Um hotel de muitas estrelas chamado Mansambo (Carlos Marques dos Santos / Henrique Cardoso, CART 2339 )

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Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Mansambo > CART 2339 > Abril de 1968 > Fase de construção do aquartelamento (que o PAIGC, através da rádio Conacri, chamava campo fortificado de Mansambo) (1)...Os Alferes Milicianos Cardoso e Rodrigues apanham banhos de luar...
Foto: © Henrique Cardoso / Carlos Marques Santos (2005)

1. Texto de Carlos Marques dos Santos
Citando L.G.:

Não me fales em PCV (Posto de Comando Volante) que eu tenho más recordações desses objectos voadores não-identificados...Tenho sempre a sensação que os turistas que iam lá em cima, no bem-bom da DO27, se riam de nós que nem uns perdidos, da tropa-macaca que andava cá por baixo, aos ziguezagues como baratas tontas... (2)

Luís:

Em relação a esta tua nota, tenho a dizer que, e ainda bem, houve um comandante da minha Companhia, a CART 2339, que ignorava liminarmente tudo o que viesse do ar. Bem bastavam os turras saberem que nós lá estávamos, por causa daqueles PCV (pseudo comandos voadores).

Cá em baixo era outra guerra e tu sabe-lo bem.

Ficção!... A realidade, dura e crua, foi a nossa juventude perdida.

2. Alferes Cardoso e Rodrigues, num hotel de muitas estrelas chamado Mansambo...

A propósito!... Sabem onde foi tirada esta foto?

Em Mansambo, a céu aberto. Camas de ferro nos fossos que iriam ser o aquartelamento fortificado de Mansambo. Data: Abril de 1968.

A foto é do Henrique Cardoso, alferes da CART 2339 e seu comandante.

Os 3 Capitães, que comandaram a Companhia anteriormente estiveram sempre doentes !!! Ele assumiu o comando. Era miliciano e responsável.

Podes publicar, se quiseres. O Cardoso autorizará. Tenho o seu aval.

CMSantos
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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:
28 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - CCCXCIX: Mansambo, um sítio que não vinha no mapa (1): a água da vida (Carlos Marques dos Santos)

(...) "Temos mais um tertuliano, na recta final do ano de 2005: é o Marques dos Santos, de Coimbra, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/70) , afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Esta unidade foi rendida pela CART 2714 (1970/72)" (...).

29 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - CD: Mansambo, um sítio que não vinha no mapa (2): as CART 2339, 2714, 3493 e 3494 (Manuel Cruz / Carlos Marques dos Santos)

(...) No post anterior, de 28 de Dezembro último, publicámos duas fotos relativas aos trabalhos de construção do aquartelamento de Mansambo, a cargo da CART 2339 (1968/70). Essas duas primeiras fotos são um hino à vida: (i) a abertura de um poço e a instalação da motobomba; (ii) os chuveiros e a alegria da água correndo sobre os corpos sedentos e sujos" (...).

30 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - CDI: Mansambo, um sítio que não vinha no mapa (3): Memórias da CART 2339 (Luís Graça / Carlos Marques dos Santos)

(...) "Excertos do Diário de um Tuga (L.G.): Mansambo, 17 de Setembro de 1969: Uma clareira aberta no mato a golpes de catana e de motosserra, guarnecida de arame farpado, artilharia e abrigos-casernas à prova de canhão sem recuo, eis Mansambo.
"Os guerrilheiros chamam-lhe campo fortificado mas como este aquartelamento de mato há muitos – dizem-me – sobretudo no sul, e que são verdadeiros abcessos de fixação" (...).

(2) Vd. post de 23 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1306: Meia Onça, Meia Operação (Carlos Marques dos Santos, CART 2339)

Guiné 63/74 - P1310: Postais Ilustrados (12): Ponte-Cais de Bissau e estátua de Diogo Gomes (Tino Neves / Carlos Fortunato)

Guiné > Bissau > Ponte-Cais > 1969 > Postal Ilustrado, edição Foto Serra.


Foto: © Tino Neves (2006).

Giné > Bissau > 1969 > Estátua do Navegador Português Diogo Gomes, junto à ponte-cais. Foi através do sítio do Carlos Fortunato - CCAÇ 13, Leões Negros - que descobri de quem era a estátua postada frente ao cais... Pela pose só poderia ser de um navegor português... Neste caso, Diogo Gomes...


Foto: © Carlos Fortunato (2006) (com a devida vénia...)

Continuação da série Postais Ilustrados (1).


Desta vez, foi o Tino Neves (Nova Lamego, 1969/71) (2) quem me mando, entre outras imagens, este postal ilustrado da Ponte-Cais de Bissau (Edição Foto Serra, Bissau, 1969)...

Sobre Diogo Gomes, pode ler-se o seguinte no Portal da Marinha Portuguesa > N. E. Sagres > Na rota de Álvares Cabral:

"Diogo Gomes era moço da câmara do infante D. Henrique e foi também seu navegador. Para além de uma viagem à Madeira, terá participado, com Gil Eanes e Lançarote, na expedição militar à ilha de Tider.

"Numa navegação efectuada em 1456 esteve na embocadura do rio Grande (actual rio Geba, na Guiné) e terá, no regresso, subido o rio Gâmbia até Cantor, onde obteve as primeiras informações sobre as explorações mineiras no Senegal e Alto Níger, bem como acerca das rotas saharianas do ouro e do importante entreposto comercial que era Tombuctu.

"Provavelmente, no regresso desta viagem, acompanhado pelo navegador genovês Antonio da Noli, terá descoberto e desembarcado nas ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde, como ele próprio afirma na sua Relação. Em 1459/60 voltou à Guiné e explorou a região do rio dos Barbacins. No regresso de uma destas viagens poderá ter descoberto as ilhas Selvagens".

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 13 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1273: Postais Ilustrados (11): Um típico e colorido mercado onde as mulheres é quem mais ordenam (Beja Santos)

(2) Vd. post de 3 de Outubro de 2006:Guiné 63/74 - P1146: Constantino Neves, ex-1º Cabo Escriturário da CCS do BCAÇ 2893 (Lamego, 1969/71)

Guiné 63/74 - P1309: Verdi a régulo do Cuor, já! (Torcato Mendonça)

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Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá > 1970 > Pelotão de Caçadores Nativos 54... "Antecipo o que naquela noite, lá pelas duas horas, aconteceu. Um deslumbramento. Ouve-se forte barulho de vozes, de cânticos. Levantam-se os militares. Com olhares extasiados (...)" (TM)


Foto: © Mário Armas de Sousa (2005). Direitos reservados


Escreve-me, o fim da tarde de ontem, o Torcato Mendonça esta nota, com bonomia, sabedoria e humor:

Luís Graça:

Leio certos textos e, apesar de gostar, sinto que... não foi aquela a minha guerra.

Comento com o C. M. dos Santos, por telemóvel ou escrito. Há dias ele pedia-me para eu falar de certos assuntos. Curiosamente respondi-lhe:
- Só falado...

E o Beja Santos escreve aquele e-mail. De facto nem tudo se diz (1). Mas a História tem que ser feita: Em verdade. Os cronistas do reino finaram-se.

Li a visita do Ten-Cor Pimentel Bastos ao Cuor (2). Em Mansambo foi recebido como as imagens documentam. Dissemos-lhe:
- Viver assim é muito duro! - As imagens atestam-o.

Dedilhando a tecla, sem interesse nem intenção de enviar, acabei por escrever esse texto em anexo... Não é crítica a nada nem a ninguém. A vida da [CART ] 2339 foi dura para todos nós...

(i) Foi a intervenção – conhecíamos bem o Mato Cão e Enxalé e a última operação foi a poucos dias do embarque;

(ii) Foi a construção do quartel...

(iii) Foram as autodefesas...Foi... E ponto final.

Leio textos de gente que passou bem pior. Era a guerra!

Depois escrevo.

Um abraço,
Torcato Mendonça

Verdi a Régulo do Cuor

Antecipo o que naquela noite, lá pelas duas horas, aconteceu. Um deslumbramento.
Ouve-se forte barulho de vozes, de cânticos. Levantam-se os militares. Com olhares extasiados, a que assistem?

Vestidos de deslumbrantes fatos, seis escravos - Fulas claro - com os corpos reluzentes pelos finos óleos neles passados. Seguram, apoiando nos fortes ombros, um doirado andor. Escravas fulas, belas nos seus trajes, ladeiam-no, seis de cada lado. Seguram varas de rico pálio, em damasco e debruado a oiro. Verdi, sentado naquele andor, sorri deslumbrado.

O Régulo do Cuor segue á frente de enorme séquito. A ladeá-lo virgens empunhando archotes. Jovens cantores entoam cânticos em honra de Verdi.

A tudo, de cuecas, a maioria, assistiam atónitos os militares.

Pára o séquito. Rebentam cascatas de luz – género S. João do Porto (visto do lado de Gaia).

Acordo e grito:
- Que raio de guerra é esta? Eu nunca lá estive.

Os Deuses devem estar loucos. Nunca! Eles nunca estão loucos. Eu é que estou. O que li não está escrito. Sonhei ou, na minha loucura, não leio lendo. Melhor, junto letras e fantasio textos.

Calmamente sinto que vou adormecer. Lá muito ao fundo, ouço acordes de La Traviatta. À volta do leito, duas de cada lado, quatro escravas empunham enormes leques de plumas de Aves do Paraíso. Uma suave brisa envolve-me.

Eunucos… Paro…

- EU NÃO ESTIVE LÁ !!!

Grito:

- VERDI A RÉGULO DO CUOR JÁ!

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 23 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1308: Doces mentiras, amargas verdades (2): as nossas (in)comunicações (Beja Santos)


(2) Vd. post de 22 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1304: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (21): A viagem triunfal do Pimbas a terras do Cuor

Guiné 63/74 - P1308: Doces mentiras, amargas verdades (2): as nossas (in)comunicações (Beja Santos)

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Guiné-Bissau > Cacheu > Barro > 1968 > Feliz Natal..."Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Aerograma:"Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

Foto: © A. Marques Lopes (2005)


Texto do Beja Santos:

Caro Luís, caros tertulianos, só a título excepcional é que contamos uma versão integral, sincera e cabal de acontecimentos, em contexto bélico ou fora dele. Todos nós recebemos instruções para nunca falar da guerra, a quem quer que seja. O aerograma era só para mandar cumprimentos e expressar seráficos estados de alma.

Nunca respeitei esta fórmula e desobedeci através de inúmeros expedientes. À minha namorada contei sempre tudo e quase diariamente. O tudo era a meus olhos aquilo que a podia interessar quanto a uma vida que não se podia acompanhar. Daí falar-lhe de um quartel que ardia e se reconstruía, do estado de saúde dos outros, das vitórias em alcançar bem- estar para a comunidade, etc. Eram um tudo a meus olhos genuíno e que, compreensivelmente, só pedia a contrapartida afectiva.

Este diário é tão importante que sem ele se teriam perdido episódios que hoje me catapultam para escrever a realidade/ficção Operação Macaréu à Vista (1). Reduzi ao limite as doces mentiras e as meias verdades: nunca dilatei a descrição das flagelações, emboscadas, minas, mortos, estropiados e feridos ligeiros. A minha comunicação era a melhor relação possível sem sobressaltar até à dor irrepremível quem me lia, fosse qual fosse a graduação do afecto. Aliás, nós precisávamos do nosso quinhão de doces verdades e doces mentiras, era o embalo para os melhores dias de que todos suspirávamos. Ninguém projecta o dia de amanhã sem algumas ilusões e quimeras.

Obviamente que fui mais cuidadoso com a minha Mãe e outros familiares. Com os amigos, joguei sempre na autenticidade, mas procurando não os consternar com matérias que para eles eram totalmente incompreensíveis. Quando o meu querido amigo Carlos Sampaio foi para o Norte de Moçambique, em 1969, as nossas cartas eram bem verdadeiras, ali não havia nada que eu quisesse esconder, exigia a interlocução frontal. O mesmo procurei fazer com os meus antigos soldados da CCAÇ 2402, a que pertenceu o Raúl Albino (2). Mas conheci sádicos, ou talvez pessoas muitíssimo doentes, que pormenorizavam todas as situações ou, pior ainda, falavam de um mundo que não existia, refugiando-se na banalidade de um quotidiano em algodão de rama.

Considero que a nossa correspondência é fundamental para a história da guerra colonial e porventura mais significativa que a maior parte dos relatórios das operações, onde tantas vezes se mentia deliberadamente ou se atribuia importância ao insignificante . O essencial no nosso correio, como diria o poeta, era dizer: Meu amor estou bem e, acima de tudo, tu estás a receber uma carta de quem precisa do teu carinho.

Cumprimentos do
Mário Beja Santos.
__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. último post, de 22 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1304: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (21): A viagem triunfal do Pimbas a terras do Cuor

(2) Vd. post de 15 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1282: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (1): duas baixas de vulto, Beja Santos e Medeiros Ferreira

Guiné 63/74 - P1307: Doces mentiras, amargas verdades (1): Estou bem. Até ao meu regresso (Carlos Vinhal)

Guiné > Bissau > Telegrama, enviado pelo Carlos Vinhal, à sua chegada, e recebido em Matosinhos, pelos seus pais, em 20 de Abril de 1970 (1)

Foto: © Carlos Vinhal (2006). Direitos reservados.

1. Há tempos lancei mais uma prov(oc)ação ao pessoal da nossa tertúlia:

Amigos & camaradas: Quais eram as doces mentiras, as meias-verdades, as falsidades, inocentes, abertas ou veladas, que mandávamos, por aerograma ou carta, aos nossos pais e familiares, às nossas namoradas ou mulheres, aos nossos amigos ? ... Para os tranquilizar, para que eles não tivessem que viver o nosso pesadelo... Alguém quer pegar neste mote ? O Carlos Vinhal deu o pontapé de saída...


2. Mensagem do Carlos Vinhal, com data de 6 de Outubro de 2006:

Caro Luís:

Se quiseres aproveitar para os nossos arquivos, junto envio o telegrama que deu a notícia aos meus pais de que eu tinha chegado bem (!) à Guiné.


Ex-Fur Mil Art Minas e Armadilhas
Nº Mec 19551569
CART 2732
Mansabá, 1970/72
Leça da Palmeira
Matosinhos
__________________

Nota de L.G.:

(1) Vd post de 18 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXI: Breve historial da CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

(...) "A CART 2732 foi constituída em 23 de Fevereiro de 1970, tendo como Unidade Mobilizadora a BAG 2, sita no Pico de S. Martinho, no Funchal, Ilha da Madeira (...).

"A maior parte do seu pessoal era originário da Ilha da Madeira, com excepção dos Oficiais, Sargentos e Praças Especialistas. Em 7 de Abril de 1970, a CART2732 recebeu o seu Estandarte.
"No dia 13 de Abril realizou-se no Cais do Porto do Funchal a cerimónia de despedida da Companhia. Ao acto estiveram presentes o Governador do Distrito Autónomo do Funchal, Coronel Braancamp Sobral e o Comandante Militar da CTI da Madeira, Brigadeiro Nascimento.

"(...) Sob o comando interino do Alf Mil Art Manuel Casal, embarcou nesse mesmo dia, cerca das 12H00, no navio Ana Mafalda (2), que largou pouco depois com destino à Guiné. No cais ficou uma multidão de populares, familiares e amigos dos militares, que ali se deslocaram para assistirem à cerimónia de despedida, embarque e partida da Companhia.

"A CART2732 desembarcou no cais de Bissau pelas 16H00 do dia 17 de Abril de 1970, ficando alojada em tendas de campanha no Depósito de Adidos" (...).

Guiné 63/74 - P1306: Meia Onça, Meia Operação (Carlos Marques dos Santos, CART 2339)

Guiné > Fá Mandinga > 1968 > Depois do ataque a Bambadinca, a 28 de Maio de 1968, o Gr Comb do Fur Mil Santos - Os Solitários - é destacada para defender a Ponte do Rio Undunduma (que o IN tentara dinamitar); lá viveu duas semanas em tendas de campanha; mais tarde é destacado para reforçar Fá Mandinga. Ei-lo aqui, em diligência...

Foto: © Carlos Marques Santos (2005)


Texto do nosso camarada Carlos Marques dos Santos, coimbrão, que foi furriel miliciano, de artilharia da CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69:

A Operação Meia Onça, que foi referida pelo Beja Santos (1).... Aqui vai o descritivo dessa operação inscrita no Historial da CART 2339


Operação Meia Onça
Iniciada em 13 de Outubro de 1968, às 18h00.
Duração: 2 dias.
Finalidade: atacar e destruir objectivos na região de Buruntoni – Baio.
Efectivos:

CART 1746 (Xime)
CART 2339 (Mansambo)
PEL CAÇ NAT 52 (Missirá)
PEL CAÇ NAT 53
1 Gr Comb CCAÇ 2401
4.º PEL ART

Desenrolar da acção:

A CART 2339 saíra de Mansambo em viaturas em 13 de Outubro de 1968, tendo recebido o PEL CCAÇ NAT 52 e o Gr Comb CCAÇ 2401 em Bambadinca.

AS NT seguiram para Taibatá onde se iniciou o movimento apeado às 23h00.

Os guias, logo de início, mostraram-se receosos, por causa do possível armadilhamento dos trilhos. Conduziram o Destacamento a corta-mato, mostrando-se confundidos e, em 14, às 2h30, o comandante da CART constatou que estava junto a Dembataco.

Instigando os guias, reiniciou-se o movimento constatando-se que às 4h00 se estava junto a Taibatá, ou seja, no ponto de início...

Esperou-se pelo nascer do dia e enviou-se um Grupo de Combate a Taibatá. Com uma mensagem para transmitir através de AN/GRC-9 deste destacamento em que se comunicava o sucedido.

Às 5h00 reiniciou-se o movimento.

Às 9h15 entrou-se em contacto com o PC no Xime, tendo informado do seu atraso. O PCV passou às 10h30, tendo-se ouvido a sua chamada mas não se obtendo resposta.

O PC deu ordem para continuar a marchar em direcção ao objectivo, o que se fez.
Às 13h15 as NT receberam ordem para regressar, chegando a Taibatá às 16h30, depois de terem constatado que não chegaram à nascente do Burontoni., mas sim do Gundagué.

O Destacamento foi recolhido em Taibatá, por viaturas, chegando a Bambadinca às 2015h.

PS - Não participei nesta operação pois tinha saído para férias, na Metrópole, a 4 de Outubro de 1968. Viajei no Boeing 707 – Algarve. Regressei a 10 de Novembro de 1968. A 11 houve uma operação à Ponte dos Fulas com muito, mas muito barulho. Também não estava lá ainda. Regressei a Mansambo a 13.

Comentário de L.G.:

Carlos: Quantas centenas - ou até milhares de quilómetros - não palmilhámos nós, nos penosos 21 meses de comissão ? Quantas dezenas de operações e de acções não fizemos nós, tão ineficazes e frustantes como a Op Meia Onça ? Quantas noitres, quantos dias ?... Infelizmente, operações mal planeadas, mal conduzidas!

Não me fales em PCV (Posto de Comando Volante) que eu tenho más recordações desses objectos voadores não-identificados...Tenho sempre a sensação que os turistas que iam lá em cima, no bem-bom da DO27, se riam de nós que nem uns perdidos, da tropa-macaca que andava cá por baixo, aos ziguezagues como baratas tontas...

Não me fales no Baio-Buruntoni, camarada... Ou melhor: diz-me que tudo isso não passou de um pesadelo, e que nunca aconteceu, e que nomes como Xime, Ponta Varela, Ponta do Inglês, Poindon, Gundagué Beafada, Biro, Galo Corubal, Seco Braima, Satecuta, Fiofioli, Mina, etc., nunca existiram, não existem, a não ser nas velhas cartas dos serviços cartográficos do exército colonial do tempo dos soldadinhos de chumbo e dos generais de opereta...

Obrigado, Carlos, por me teres lembrado que o Baio/Buruntoni fazia parte dos nossos percursos turísticos nos regulados do Xime e de Bissari, os pedaços de terra do Império que nos coube em sorte... (LG)
___________
(1) Vd. post de 14 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1276: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (20): A (má) fama do Tigre de Missirá em Bambadinca

"O Almeida [, cmdt do Pel Caç Nat 63,] respondeu descontraído:- Pá, eu não vou nada para Mato de Cão, eu vou para Missirá e tu vais para o Burontoni.
"Assim era, embora eu nada soubesse. Partimos para Missirá, alojei o pelotão do Almeida depois de lhe apresentar os meios de defesa, preparei 35 homens e nessa tarde apresentei-me em Bambadinca, tendo imediato pedido uma entrevista ao novo Major de operações, de nome Viriato Pires da Silva. Era um oficial extrovertido e com vozeirão:-Ah, quer saber o que vai fazer ao Burontoni, não é? Não se preocupe que daqui a um bocado vou fazer a apresentação da operação, espere um pouco. (...)
"Por volta das 6 e meia da tarde, teve lugar a apresentação da operação. Recordo que o Burontoni foi apresentado como um santuário quase inexpugnável, dotado do melhor armamento, bem posicionado dentro de uma floresta, o Baio, entre vários rios. Sei que ia dentro do destacamento A, seis pelotões, parámos em Amedalai, e em Taibatá partimos a corta-mato acompanhados por dois guias.
"Primeira surpresa: os guias informaram que não sabiam entrar na mata à noite, estavam desorientados. Irrompeu entretanto uma chuva torrencial, lá fomos a passo de caracol, de madrugada fez-se um alto para repouso e ao amanhecer continuámos a progressão. Talvez aí pelas 9 horas chegámos perto de um rio, o nosso guia disse que não podíamos passar não só porque o rio era profundo como tínhamos em frente uma ampla bolanha, havia que a flanquear dentro da mata.
"É precisamente quando estamos a entrar na mata do Baio que toda a floresta é sacudida de explosões. Parecia que uma aviação invisível lançava tapetes de bombas a 10 Km de distância. Pela rádio procurámos saber o que se passava e pouco depois a notícia chegou, estarrecedora: Mansambo estava a ser severamente flagelada. Ora toda a companhia de Mansambo estava nesta operação, o aquartelamento ficara entregue a milícias e à população civil. O estado de espírito da tropa era de cortar à faca. Do comando, por via aérea, chegou a ordem de retirar para Taibatá, o que veio a acontecer, e lá fomos a patinar na lama e depois regressámos a Bambadinca.
"Ainda hoje me interrogo sobre a forma como se preparou esta ida ao Burontoni, independentemente do triste acaso da flagelação a Mansambo, que marcou a corrente do jogo" (...).

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1305: Blogoterapia (3): não fugi, não emigrei, ainda cá estou (João Carvalho)


Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5 - Os Gatos Pretos, Canjadude, 1972/74) com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando um kalash...

Foto: © João Carvalho (2006)

Mensagam do João Carvalho, com data de hoje, que já circulou por e-mail através da tertúlia:

Olá a todos.

Peço desculpa pela a minha ausência na tertúlia. Espero voltar ao convívio.
Tenho cerca de 350 e-mails atrasados, ainda por ler.

Este e-mail destina-se só a avisar que ainda não desapareci.

Abraços para todos.

João Carvalho

Wikipedia - Guerra Colonial Portuguesa

Comentário de L.G.:

O João Carvalho é o nosso grande...wikipedista! Ele é um grande fã da Wekipédia, a enciclopédia livre, a maior enciclopédia do mundo. E está a fazer um trabalho notável, chamando a si a difícil missão de actualizar e enriquecer a entrada sobre a Guerra Colonial. A nossa Guerra Colonial. Em Português (1).

É um trabalho de formiga, de milhões de formiguinhas, em dezenas de línguas, incluindo a nossa. Não posso saber qual é contribuição específica do João, mas encontro nesta entrada sobre a Guerra Colonial algumas das suas marcas, incluindo fotos suas (2).

O João - nascido em Lisboa, a 23 de Junho de 1950, farmacêutico, de profissão - já chegou a administrador da Wiki.pt (que já tem cerca de 200 mil artigos!)... Como se pode ler lá no sítio, Administradores são wikipedistas que têm "direitos de operador de sistema (sysop)."

A Wikipédia atribui esse acesso "liberalmente a qualquer utilizador que tenha sido um contribuidor da Wikipédia durante algum tempo e seja geralmente encarado como um membro da comunidade conhecido e digno de confiança".

Os Sysops não gozam de nenhum privilégio especial, "são iguais a todos os outros em termos de responsabilidade editorial". Na prática são "utilizadores da Wikipédia a quem foram levantadas restrições de segurança e desempenho" relativamente a alguns funções do software, tendo já dado provas de confiança e idoneidade...

A entrada sobre a Guerra Colonial (ou outros temas relevantes da nossa história) espera o contributo de mais tertulianos... Aqui fica o índice do texto que está em permanente construção (mas que já faz parte da lista dos melhores artigos da Wikipédia em português):


1 Contexto político-social
1.1 Oposição
2 Antecipação casual
3 Conflito armado
3.1 Angola
3.2 Guiné-Bissau
3.3 Moçambique
4 A Organização de Unidade Africana
5 O fim da guerra
6 Consequências
6.1 Custos financeiros
6.2 Os veteranos de guerra
6.3 O 10 de Junho
7 Nas artes
7.1 No cinema
7.2 Na literatura
8 Ver também
9 Ligações externas
10 Bibliografia

... As únicas ligações externas (links) que, por enquanto, vêm no final do artigo são:

(i) o sítio do nosso amigo e camarada Jorge Santos (Guerra Colonial);
e (ii) os nossos Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (1963-1974) > Tertúlia

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXVII: Pedido do João Carvalho, o nosso wikipedista

(2) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

Guiné 63/74 - P1304: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (21): A viagem triunfal do Pimbas a terras do Cuor

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Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Cuor > Missirá > 1968 > O Tigre de Missirá, mais alguns dos seus homens do Pel Caç Nat 52, no famoso burrinho (o Unimog 411), com que reabriu a estrada Missirá-Enxalé antes da visita do comandante do novo batalhão (BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70).

Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados

Fotos alojadas no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.






Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1968 > O comandante do BCAÇ 2852, tenente-coronel Manuel Pimentel Bastos, assinalado com um círculo a verde, numa das suas primeiras visitas a uma das suas unidades de quadrícula (neste caso, a CART 2339, Mansambo, 1968/69).




Fotos: © Torcato Mendonça (2006). Direitos reservados.


Texto enviad0 em 25 de Outubro de 2006. Continuação da publicação das memórias do Mário Beja Santos, como alferes miliciano, comandante do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1).

Caro Luís, tens que fazer das tripas coração para ilustrar este texto: não tenho fotografias de Enxalé, mas pode ser que possas pôr Mato de Cão. Tudo o que fotografei nesta época ardeu. Tens aí em teu poder uma fotografia em que estou a dar aulas, há outra em que estou com o Quim, o Adão e outros mais. Não tenho fotografias do Pimentel Bastos. Vê o que podes fazer. Estarei em Roma até Domingo à tarde. Na terça feira de manhã, oiço aqui o Queta Baldé para ver se ele me refresca a memória. Depois será a vez do Fodé Dahaba. Por todo o cuidado que tens tido nesta odisseia recebe o reconhecimento do Mário.


A viagem triunfal do Pimbas ao Cuor
por Beja Santos

Entre Outubro e Novembro de 68, Manuel Maria Pimentel Bastos, Comandante do BCAÇ 2852 (ternamente conhecido na caserna pelo Pimbas, ao que consta o seu nome poético) (2), decidiu visitar os diferentes quartéis do sector, começando em Xitole e Mansambo, passando por Xime e Galomaro, depois Missirá e também Demba Taco e Taibatá e algumas tabancas em autodefesa.

O novo Comandante de Bambadinca, seguramente por decisão do Comando-Chefe, procedia a auscultações dos régulos da região a que não era alheia o fenómeno do reagrupamento de populações e o reforço das tabancas em autodefesa. Notificado da visita ao Cuor, após consulta dos Furriéis, do régulo e dos comandantes de milícia de Missirá e Finete, tomei as seguintes disposições para aprimorar o programa:

(i) visita a Finete e recepção do régulo que acompanharia o Comandante na visita ao aquartelamento e tabancas, destacando a importância estratégica e a debilidade do sistema defensivo;
(ii) montagem de patrulhamentos entre Missirá e Finete para permitir uma progressão rápida entre quartéis;
(iii) recepção em Missirá, cerimónia do içar da bandeira, visita aos melhoramentos e ao sistema defensivo, seguindo-se uma reunião com régulo e furriéis, bem como os comandantes das respectivas milícias;
(iv) depois da pernoita do comandante em Missirá, trazê-lo de volta a Bambadinca na manhã seguinte, montando os mesmos dispositivos de segurança na estrada até Finete, desde o amanhecer.

Em meados de Outubro, o Pimbas informou-me que se faria acompanhar do David Payne Pereira (3), o médico que começava a ganhar aura de santidade entre as nossas populações civis. Os preparativos incidiram sobre a limpeza das moranças civis e abrigos, metais brunidos, bota luzídia e farda a condizer. Doutor e Umaru Baldé estagiaram na messe de oficiais para conhecer os gostos gastronómicos do ilustre hóspede, procurando reproduzi-los à justa medida. Estava lançado um plano de azáfama, arranjos urgentes, reparação de móveis e alguns toques de estilo.




Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Dezembro de 1969 > A equipa de futebol de oficiais de Bambadinca que acabara de jogar contra uma equipa de sargentos. Na fotografia aparece, na segunda fila, de pé - devidamente assinalado com um círculo a azul - o médico David Payne (já falecido), tendo a seu lado, à direita, o major Cunha Ribeiro, 2º comandante do BCAÇ 2852 e, à sua esquerda, o capitão Brito, comandante da CCAÇ 12. O Payne acompanhou o Pimbas na visita ao regulado do Cuor.



Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados.


Um homem culto, um melómano,


Pimentel Bastos era um homem de cultura, loquaz até à exaustão, um comunicador habituado aos salões, vivendo longe das vicissitudes do nosso teatro de guerra. Nos primeiros encontros que travámos descobrimos rapidamente afinidades que tanto passavam pelo Jorge Amado e Carlos de Oliveira como por Bizet, Verdi e Brahms no tocante a música coral, ópera e sinfonia. Logo comecei a idealizar seja um concerto de música por mandingas seja um serão musical, em Missirá. Quando o sondei, abriu-me os olhos com cupidez e perguntou-me:
-Ouve lá, tu não sabes como eu gostaria de ouvir ópera no mato profundo, deixo o programa ao teu critério. Só com uma ressalva, não me vais obrigar a ouvir uma ópera do Wagner por inteiro. O resto é à tua discrição.

É exactamente neste período de azáfama que uma manhã, pelas 5 e meia, acordando e estando em ângulo recto na cama a olhar os pés inchados e besuntados com Lauroderme, ganhando energia para mais uma viagem a Mato de Cão quando os meus olhos caíram na minha mais que apodrecida carta de 1:50000, juntei-lhe a carta do Enxalé e disse para mim:
-E se voltássemos a abrir a estrada, indo com as viaturas, picando cuidadosamente de Saliquinhé a São Belchior e daqui a Enxalé?

Querendo medir a insensatez da temeridade, e verificar se a hipótese era concretizável, chamei os três cabos mais antigos do pelotão, o Paulo Ribeiro Semedo, o Domingos Silva e o Zé Pereira, gente educada em Bissau, formados em Bolama, em 1964, e já conhecedores do Enxalé. Quando lhes falei da possível visita, trataram o possível acontecimento com a maior das naturalidades:
-E porque não? No passado, quando viemos de Porto Gole para Enxalé, fazíamos regularmente a estrada. Depois começaram as minas e as emboscadas e o nosso alferes Zagalo desistiu. Devíamos era ir pelotão e meio, mais gente a picar, deixávamos depois em Mato de Cão meio pelotão em patrulhamento, picávamos bem até lá e vínhamos depois a correr para impedir qualquer emboscada.

São Belchior, o mais importante entreposto do Rio Geba, depois de Bissau


Do imaginado ao realizado a distância foi curta. Todos pareciam voluntários, pois a maioria do pelotão tinha passado por Enxalé, onde igualmente habitavam fulas e mandingas. Houve imediatamente pedidos da população civil e num ápice apareceram sacos à cabeça, gente com Mausers, vontades adormecidas de comerciar e trocar. Os Unimog estavam reparados e atestados, juntou-se combustível suplementar à cautela. A louca viagem ia começar. E, quando em Mato de Cão passou um comboio de três embarcações onde os tripulantes olhavam surpresos aquele estranho aparato, já um grupo de seis picadores se lançava a espiolhar as condições da estrada.

Saliquinhé tinha sido uma ponta com boas moradias e muito terreno lavrado. Atravessámos um grande palmeiral e depois a extensa bolanha junto do rio de Ganturandim. A seguir, avistámos os vestígios imponentes do que fora S. Belchior. Quem já estudou a história da Guiné do séc. XIX, sabe que S. Belchior foi o mais importante entreposto do Rio Geba depois de Bissau, foi mesmo o limite da presença portuguesa, já que o território a seguir andou permanentemente em litígio até Teixeira Pinto. Tudo em ruínas agora, mas não escondendo o bulício e os negócios de envergadura do passado.

Uma hora depois avistámos copas frondonsas de bissilões e Quebá Soncó, o irmão do régulo, que seguia imponente levando o seu chapéu à turca com estrela de prata, anunciou a proximidade do aquartelamento. Fomos recebidos em Enxalé com muita cortesia e não menos surpresa. Não se duvide que eu estava em transgressão, ultrapassar o meu sector, o alferes do Enxalé começou por suspeitar que se tratava de uma rendição ou operação conjunta, até à despedida tomou esta visita como uma rematada loucura que ele premiou com um almoço de galinha frita regada com vinho do Dão.

Regressámos a toda a brida, as viaturas roncando em estradas completamente esquecidas do que é presença humana e juncadas de restos de viaturas e os mais diversos sinais de civilização abandonada. Resta dizer que, quando ao anoitecer entrámos em Missirá com a alegria estampada do inédito da aventura e o fim dos temores de quem nos esperava, começaram a troar rebentamentos das forças de Madina/Belel [, base do PAIGC, a noroeste].

Seguramente que os sentinelas advertiram de Sinchã Corubal, os de Madina ficaram alarmados julgando tratar-se de uma coluna militar se deslocava a partir do Enxalé, sabe-se lá para onde. Mais tarde, Madina voltou a advertir que estas incursões não eram desejadas: Missirá e Finete serão flageladas, a primeira ao de leve, a segunda para deixar pesadas feridas. Depois falaremos destes acontecimentos.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Missirá > Pel Caç Nat 52 > 1969> A nova mesquita local. Era também aqui, em Missirá, que vivia o régulo do Cuor.

Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados


O que interessa agora dizer é que numa manhã cheia de luz, a tropa escoifada e com expressão festiva acompanhou o Comandante de Bambadinca na cambança do Geba, uma viagem de burrinho pela bolanha de Finete, onde teve lugar uma recepção onde não faltaram reverências das mulheres grandes dos Soncó e dos Mané. Pelo caminho ocorreram acidentes como Ussumane Baldé, que ia num brinco, e caiu desamparado dentro da água lamacenta.

O Pimbas sorria, de vez em quando pedia uma garrafa de água, fazia exclamações, estava excitado com aquela pequena mas tocante apoteose. A viagem até Missirá nunca mais a esqueci, pois falámos de tudo menos de guerra., como dois cavalheiros num clube. Quando lhe falei das ruínas monumentais da Aldeia de Cuor, o Pimbas, acicatado pela curiosidade, quis lá ir. Fui peremptório na negativa, sugerindo que tínhamos ali um aliciante para a próxima visita.

Na porta de armas, foi tratado como uma marechal de campo que viesse em visita aos mais destemido dos exércitos. Passeou-se e deslumbrou-se com os elementos de conforto como a messe, o balneário, os arranjos à volta da mesquita, a progressiva segurança dos abrigos. Mas não ignorou a fragilidade, a falta de electricidade, a incapacidade de sermos uma força ofensiva, pondo o inimigo permanentemente a respeito.

A tarde finava-se, o Pimbas preferiu uma bonita alocução aos militares e aos civis. Na messe, conversou com todos, tudo perguntava, parecia que tudo era completamente novo e digno de curiosidade naquele ermo do mundo. Seguiu-se o inacreditável jantar, e ainda hoje pergunto se é verdade que o Umaru serviu com luvas brancas, entregando um trinchante aos convivas, servindo o vinho, a água como se estivesse habituado a banquetes em Missirá (mal sabia o Pimbas que nesse dia faltaram bandejas e outras peças da baixela a Bambadinca...).

Antes do serão musical mostrei-lhe a morança onde ele ia dormir, perguntando se estava tudo a seu gosto. Como não sabia, nem ninguém me explicou se um Comandante no mato faz as suas necessidades como qualquer mortal, mandei comprar um penico no estanco do Zé Maria. O David Payne também foi instalado noutro abrigo, e pareceu-me satisfeito com aquele precário serviço de hotel.

O insólito: A Aída e a Traviata em Missirá

Chegámos agora ao clímax. Proponho em primeiro lugar ouvir árias por vozes sublimes: Maria Callas, Elena Suliotis, Regine Crespin, George London e Giuseppe Di Stefano. No intervalo, enquanto suas excelências beberricavam uísque puro, anunciei o Requiem de Mozart. A proposta foi aprovada com entusiasmo. E quando eu julgava que não teria sentido pelas 10 horas da noite convidá-los aos 4 actos da Aída, os ilustríssimos convidados mostraram a excitação ao rubro. Entrávamos na noite de ópera, como se estivéssemos no Scala ou no Convent Garden.
Ouviu-se a Aída com volume de som desmesurado, duvido que alguém pudesse estar a dormir com o Franco Corelli a protestar amor eterno à escrava etíope.

Encurtando razões, quando os heróis estão agonizantes no termo do 4º Acto, sendo já meia noite, na perspectiva de uma noite em vigilância, propondo ao Pimbas que se recolhesse de acordo com a sua condição, então não é que o David Payne que remexia no vinil e estava esgazeado com La Traviata , cantada por Joan Sutherland, Carlo Bergonzi e Robert Merrill, num elenco de nomes gigantescos, numa versão que ainda hoje continua no top das execuções sublimes, me pediu com aquela delicadeza que lhe era peculiar:
-Não te importas que quando o nosso Comandante se for deitar vamos ouvir a Traviata - Pedi-lhe que tivesse dó por um desgraçado que ia iniciar o turno da noite. Ele conformou-se e ouviu La Traviata sozinho. Pela hora do almoço, despedi-me do Pimbas na outra margem do Geba e ele exclamou para quem o quisesse ouvir:
-Menino, foi uma noite de estalo, quero que se repita por muitas e boas!

O Pimbas só voltará a Missirá nas circunstâncias dramáticas da Op Anda Cá, quando a sua estrela caminha para o ocaso. Foi uma noite tão boa e tão vibrante que quando há tempos eu ouvia o noticiário da Antena 2 que dava notícia da morte da Birgit Nilsson, a Aída daquela noite, não resisti a ir buscar o velho vinil e examinar o disco referente ao 4º Acto todo riscado por me ter levantado bruscamente quando uma morteirada caiu em cima do meu abrigo, lá para Setembro de 1969.

Entretanto, há prodígios que devem ser contados. Por exemplo, o Furriel Casanova vai tomar conta de uma criança, o Braima que morre à fome, comprando biberão e leite de fórmula, vigiando as mamadas e levando a criança ao David Payne. O Casanova que chegara cabisbaixo a Missirá, quase que renasceu com esta imprevista incumbência. Eu tenho que vos falar de Braima Mané e de uma operação em que ele recuperou alguma mobilidade num braço que parecia morto por estilhaços. Vou continuar a fazer patrulhamentos e emboscadas nocturnas. Irei a Salá, onde, do outro lado do rio, ouvirei tiros isolados de caçadores das populações civis de Madina.

Uma dessas manhãs, o Paulo Ribeiro Semedo, que estudou na missão católica de Bissau, irá perguntar-me se podermos ir à missa da capela de Bambadinca. Aproxima-se o momento de ir a Chicri e nesse dia haverá fogo de morte. Nesse dia igualmente irá surgir o primeiro dos 21 feridos graves da minha comissão. Vou procurar controlar as emoções para fazer o relato de tudo isto, do que leio, do que escrevo, dos sonhos realizados e por realizar. Quero que fiquem a saber uma coisa muito importante: estou a ler e permanentemente a reler O Delfim, do José Cardoso Pires. Exijo que partilhem comigo uma das leituras de toda a minha vida.

__________

Notas de L.G.:


(1) Vd. post anterior, de 14 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1276: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (20): A (má) fama do Tigre de Missirá em Bambadinca

(2) Sobre o tenente-coronel Pimentel Bastos (nickname, Pimbas), pode ler-se os seguintes posts:

28 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1124: Fotos falantes (Torcato Mendonça, CART 2339) (2): A vida boa de Bambadinca, no tempo do Pimentel Bastos

30 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1041: O Pimbas e os outros (Jorge Cabral)

16 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1035: Ainda sobre o Pimbas, com um quebra-costelas para o Beja Santos (Paulo Raposo)


4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1025: Tenente-coronel Pimentel Bastos: a honra e a verdade (Luís Graça)

4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1028: O Pimbas que eu (mal) conheci (Jorge Cabral, Pel Caç Nat 63)

1 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1012: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (3): Eu e o BCAÇ 2852, uma amizade inquebrantável )

1 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1014: A galeria dos meus heróis (5): Ó Pimbas, não tenhas medo! (Luís Graça)

14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal (Luís Graça)

(3) Sobre o Alf Mil Medico David Payne ver os seguintes posts:

28 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1219: Fotos falantes (Torcato Mendonça, CART 2339) (5): Um médico e um amigo, o Dr. David Payne Pereira

2 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1238: David Payne Pereira, um gentleman luso-britânico e um grande médico em Bambadinca (Beja Santos)

2 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1237: Lembranças do David Payne (Torcato Mendonça / Beja Santos)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1303: Blogoterapia (2): Convite ao António Rosinha, que viveu em Angola, de 1951 a 1974, ex-fur mil em 1961, e antigo topógrafo da TECNIL na Guiné-Bissau (1979-1993) (Luís Graça)




Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Trabalhos de construção da estrada Bambadinca-Xime, a cargo da TECNIL... Nas duas fotos, vêm-se os trabalhos na orla da vasta bolanha de Bambadinca, sobranceira à qual se erguiam, numa pequena elevação, as instalações civis e militares (posto administrativo e Comando + CCS/BART 2917, 1970/72). A CCAÇ 12, já nos últimos meses da comissão dos seus quadros metropolitanos, fez muitas horas de segurança aos trabalhos de construção da nova estrada, de importância estratégica para a ligação do litoral com toda a Zona Leste (compreendo as actuais Regiões de Bafatá e de Gabu).

Fotos do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados.


Mensagem do editor do blogue que foi enviada, em 4 de Outubro de 2006, ao António Rosinha (ex-furriel miliciano em Angola, em 1961, e antigo topógrafo da empresa TECNIL, na Guiné-Bissau, no pós-independência, de 1979 a 1993), com conhecimento ao Amílcar Mendes (38ª CCmds, 1972/74):

Amigo Rosinha, camarada Mendes:

1. Agradeço os comentário sobre o blogue (que tanto um como o outro fazem) e faço um convite ao Rosinha para se juntar a nós: temos em comum a vivência da Guiné e porventura a mesma amizade para com aquele povo e aquele país, independentemente da desgraça que tem sido a sua governação…

Em 1970 e 1971, a minha unidade, a CCAÇ 12 (uma companhia de africanos dos regulados de Badora e Cossé, sobretudo), fez segurança à TECNIL que estava a construir a nova estrada Bambadinca-Xime. Houve mortos e feridos entre os seus trabalhadores. O Rosinha veio depois, já em 1979,  mas também é um amigo da Guiné, que como tal pode e deve pertencer à nossa tertúlia, se ele assim o entender…

2. Sou eu (e apenas eu, por enquanto) que faço a moderação dos comentários: Não sou (nunca tive vocação para) censor. Tenho publicado os comentários do Rosinha que são previamente sujeitos à minha apreciação. Desde que não sejam insultuosos ou não violem as nossas regras de convívio (que são mínimas), são sempre publicados. Se escapou algum, o Rosinha que volte a reenviá-lo… Mas o melhor é passar a fazer parte da nossa tertúlia, o que lhe dá o direito de escrever regularmente no blogue.. Faço questão de apadrinhar a sua admissão…

3. Neste blogue, conta sobretudo a partilha das nossas experiências na Guiné, como militares ou civis, quer tenhamos sido tugas, nharros ou turras… Em 1979 e anos seguintes o Rosinha ouviu muitas estórias e deu-se conta das sequelas do período antes e depois da independência… Ele próprio as viveu e essas estórias também nos interessam.

Há um crescente número de civis, guineenses ou portugueses, a interessar-se por esse período e que querem partilhar, connosco, o seu conhecimento sobre (e a sua experiência vivida de) a Guiné… A exposição pública dos nossos pontos de vista, das nossas estórias, etc., obriga-nos a ter mais cuidado com a linguagem, com a forma, com o conteúdo… Não se trata de enfeitar as coisas, cada um tem o seu estilo (de escrever, de apresentar) e quem mentir, deturpar ou falsear a realidade está sujeito a ser desmentido e desmascarado em público… Por isso, procuramos ser rigorosos no que diz respeito á verdade dos factos, à publicação de documentação, à fundamentação de pontos de vista, etc. O problema é que a realidade é complexa e tal como a moeda há um verso e um reverso

Que fique claro, em contrapartida, que não há nenhum dono (nem donos) do blogue… Há um gestor editorial do blogue que sou eu… E há também pessoas que escrevem mais do que as outras… O blogue resulta da colaboração de todos, uns mais assíduos e mais activos do que outros…

Procuro fazer uma gestão equilibrada e oportuna do que me vai chegando por e-mail… De facto, não publico tudo: há coisas que só circulam por e-mail, por exemplo, assuntos relacionados com a organização e funcionamento do blogue, comentários curtos, pequenos esclarecimentos. Questões fora do âmbito do blogue também não são publicadas… Por exemplo, comentários ou opiniões sobre a actualidade política da Guiné-Bissau, o que é diferente de notícias que tenham a ver, directa ou indirectamente, com a guerra no nosso tempo, com os combatentes africanos, com a história e a cultura da Guiné, com a preservação da nossa memória comum, etc.…

4. Rosinha: Para ser admitido no Blogue, faça-me um breve apresentação da sua pessoa (a mensagem que mandou ao camarada A. Mendes serve perfeitamente, já que contem alguns elementos autobiográficos) e duas imagens digitalizadas de duas fotografias suas: uma do tempo em que esteve na Guiné, na TECNIL, e outra mais recente…Está de acordo, Rosinha ? Se entrar para a nossa tertúlia, passaremos a tratar-nos por tu, que é o tratamento usado entre camaradas (e amigos) da Guiné…

5. Obrigado ao Amílcar por me ter encaminhado esta mensagem do Rosinha.

Mantenhas para os dois.

L.G.

Guiné 63/74 - P1302: Blogoterapia (1): Palmas para o Amílcar Mendes, o Beja Santos e o Victor Tavares (António Duarte, CART 3493 e CCAÇ 12)

Lisboa, Belém, 10 de Junho de 2006 > 13º Encontro Nacional de Combatentes > O António Duarte (CART 3493 e CCAÇ 12, 1972/74), assinalado com um círculo a vermelho, na nossa mini-tertúlia dos amigos e camaradas da Guiné:

(i) na primeira fila, eu próprio, Luís Graça (CCAÇ 12, 1969/71), à esquerda, e a meu lado o Carlos Fortunato (CCAÇ 13, 21969/71);

(ii) na segunda fila, a contar da esquerda para a direita: o Jorge Cabral (Pel Caç Nat 63, 1969/71), o já citado António Duarte, o Mário Dias (CCmds, 1963/66), o José Martins (CCAÇ 5, 1968/70), o Francisco Baldé (1ª, 2ª e 3ª Companhia de Comandos Africanos, 1969/74) e o João Parreira (CART 730 e Comandos, 1964/66).

Foto: © Luís Graça (2006). Direitos reservados.

Texto do António Duarte, datado de 25 de Outubro de 2006:


Terapia através da escrita. Vamos editar um livro ?
Caro Luís Graça:


Durante estes últimos anos pouco tenho falado sobre a guerra colonial com terceiros, excepto com amigos mais chegados. Reconheço que tenho (ou tinha) alguma dificuldade em abordar o tema, já que sentia alguma responsabilidade por nela ter participado (1). Claramente teria preferido não ter lá estado, já que quando embarquei não tinha grandes dúvidas sobre a quem é que interessava a dita cuja. Considero-me patriota, mas percebia que a História não estava com a postura do governo da época.

Vem esta minha lengalenga a propósito dos escritos, de altíssimo interesse, que os nossos camaradas vão escrevendo, constituindo por si só uma óptima terapia espiritual, que nos ajuda a viver com as nossas consciências. Permite-me que te diga que fico esmagado.

Pedindo desculpa a todos, gostaria de referir a qualidade e a serenidade dos textos do Beja Santos do Pel Caç Nat 52, a emotividade transmitida pelo Amílcar Mendes da 38ª CCmds e do VictorTavares da 121ª CCP, transmissão só possível por quem viveu / sofreu os factos terríveis relatados na primeira pessoa.

Por fim, e voltando a repetir-me, acho que se justifica que façamos algo no sentido de promover e perpetuar o nosso blogue através de livro. Se te parecer oportuno, lança a ideia e a caserna que emita opinião.

Um abraço para todos os membros da tertúlia.


António Duarte
Ex-Fur Mil Atir
Cart 3493 e CCAÇ 12
(Mansambo e Xime, 1972/74)

______________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de António Duarte:


18 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXI: Um periquito da CCAÇ 12 (António Duarte / Sousa de Castro)

20 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXVIII: Notícias da CART 3493 (Mansambo, 1972) e da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1973/74) (António Duarte)

11 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLV: Ex-graduados da CCAÇ 12 também foram fuzilados (António Duarte)

17 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P966: O Mexia Alves que eu conheci em Bambadinca (António Duarte, CCAÇ 12, 1973)

24 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P984: Ainda a tragédia de Quirafo: o 'morto' que afinal estava vivo (António Duarte)

Guiné 63/74 - P1301: O cruzeiro das nossas vidas (4): Uíge, a viagem nº 127 (Victor Condeço, CCS/BART 1913)





Companhia Colonial de Navegação > TT Uíge > Viagem nº 127 (Bissau - Lisboa) > Bordo, 2 de Março de 1969 > Ementa do jantar e programa das distrações... Por curiosidade, a ementa desse dia era: Crème Conchita; Peixe au Meunier, Batata à Parmentier; Contre-Fillet à Maître d'Hôtel, Batata Boulanger, Alface; Bábás com Rhun; Fruta; Chá, Café...

Era caso para pensar que fomos para (e viemos de) a guerra, com chef de cuisine française atrás!... Enfim, não se pode dizer que a Pátria, através da Companhia Colonial de Navegação, não tratava bem de nós... E no programa social, não faltavam os jogos de salão, as sessões de cinema, o jantar de despedida!... Só faltou o baile de máscaras, nesta farsa carnavalesca!... Àparte isto, pergunto-me o que terão comido nessa noite os desgraçados das praças que iam no porão...

O serviço a bordo na viagem nº 127 do Uíge, nos princípios de Março de 1969, na classe turística (a dos sargentos!), era seguramente bem melhor que aquele a que iremos ter direito, no mesmo navio, dois anos depois, em Março de 1971: eu, o Tony Levezinho, o Humberto Reis, o Sousa, o Abel Rodrigues, o Fernandes e os demais camaradas (metropolitanos) da CCAÇ 12... A avaliar pelas ementas, os ladrões roubaram-nos as batatas à Parmentier e o fillet mignon a que tínhamos direito! (2) ...

Do programa social já não me lembro... Aliás, quando pus os pés no Uíge eu só queria esquecer a Guiné (3)... De qualquer modo, a degradação do serviço no Uíge era um sinal dos tempos: a guerra agravava-se, metade do Orçamento Geral do Estado ia para o esforço de guerra em três frentes, Portugal continuava cada vez mais isolado no seio da comunidade internacional, a Academia Militar estava às moscas, batiam-se recordes na saída da população portuguesa para o estrangeiro, o Uíge não chegava para as encomendas, e o cozinheiro francês deve ter esgotado o stock de batatas Boulanger, a pachorra e a imaginação...

A propósito dessa nossa viagem de regresso (tudo menos triunfal) a Penates, em 17 de Março de 1971, eu escrevi:

"Regressávamos da guerra, com a morte na alma e mazelas no corpo, num navio da marinha mercante da Companhia Colonial de Navegação (uma empresa, fundada em Angola em 1922, para assegurar os transportes marítimos das colónias portuguesas com a Metrópole, sendo o paqueteVera Cruz o seu navio mais emblemático, e que não teve tempo de fazer o branqueamento do seu nome, já que o termo colonial não era politicamente correcto no início dos anos 70...).

"Como se tudo continuasse como dantes e a vida corresse normalmente, contra os ventos da história (como então se dizia), nessa viagem de regresso à pátria servia-se a bordo, na classe turística (reservada aos sargentos) uma sopa de creme de marisco, seguido de um prato de peixe (Pescada à baiana) e um de carne (Lombo Estufado à Boulanger)... sem esquecer a sobremesa: a bela fruta da época, o bom café colonial, o inevitável cigarro a acompanhar um uísque velho, antes de mais uma noitada de lerpa ou de king" (3)... (LG)

Fotos e texto: © Vitor Condeço (2006)

Camarada Luís Graça,

Em primeiro lugar deixe-me cumprimentá-lo e elogiar o seu muito digno e meritório trabalho que tem conseguido levar por diante no blogue.

Ter já conseguido fazer deste blogue um referencial histórico de um período da história de Portugal, escrito pelas pessoas que fizeram essa própria história, não é obra fácil.

Que tenha a saúde, a disposição e a disponibilidade de tempo suficientes para poder continuar a sua obra e que não faltem as colaborações dos nossos camaradas e amigos da Guiné.

Sou assíduo frequentador desde Março de 2006, altura em que, procurando por mapas da Guiné, me deparei com este excelente sítio. Raro é o dia que o não visite, já li também a grande maioria dos postes mais antigos, onde recordei ou fiquei sabendo de acontecimentos que já não lembrava ou nunca soubera.

Já ando há tempos para lhe escrever, tem-me faltado a coragem mas, ao ler há dias o Post 1271 e hoje o 1296 sobre O cruzeiro das nossas vidas (1) , achei que devia contribuir com algo que este blogue teve a virtude de me ajudar a redescobrir a minha velha mala de porão que não era aberta há talvez trinta anos, e que foi-o de novo.

O material digitalizado que junto em anexo, pode ajudar a ilustrar esses mesmos cruzeiros e o Luís usará como lhe aprouver se neles reconhecer algum interesse.

Trata-se da ementa do primeiro jantar de regresso da Guiné a bordo do NM Uíge e do programa de distracções para os cinco dias previstos da viagem, que afinal acabaram por ser seis.

Os passageiros eram os militares dos BART 1913 e do BART 1914.

São portanto, recordações desse cruzeiro, iniciado a 26 de Abril de 1967, quando na Rocha do Conde Óbidos embarquei no Uíge com destino à Guiné.

Já tinha quase vinte meses de tropa, já nem contava de ser mobilizado, mas fui, infelizmente todo o pessoal do meu curso foi contemplado com um destes cruzeiros.

Sou um velho combatente (63 anos feitos ontem, dia 18 de Novembro), estou aposentado, meu nome é Victor Manuel da Silva Condeço, ex-Furriel Miliciano 00698264, do Serviço de Material – Mecânico de Armamento e, por isso mesmo, sem grandes histórias de guerra para contar. Este blogue teve a virtude de me despertar recordações, umas boas, outras menos boas, mas que nem por isso deixam de ser uma forma de reviver um passado de há quase quarenta anos.

Participei na Guerra da Guiné por obrigação, como aliás quase todos nós, desde 1 de Maio de 1967 a 3 de Março de 196, fazendo parte da CCS do BART 1913 que era constituído também pelas CART 1687 (Cachil e Cufar), CART 1688 (Bissau e Biambi) e CART 1689 (Fá, Catió, Cabedú e Canquelifá).

Estive na região do Tombali na Vila de Catió, Comando de Sector, pertencente ao Comando de Agrupamento de Sectores de Bolama. As unidades deste sector eram: Bedanda, Cabedú, Cachil (i), Cufar e o destacamento de Ganjola (i), por todas passei em serviço.

Desembarquei em Catió a 2 de Maio de 1967, os vinte e um meses de comissão foram aqui cumpridos, até 20 de Fevereiro de 1969, data em que regressei a Bissau.

Um abraço Luis, por hoje é tudo.
Victor Condeço


Comentário de L.G.:

Meu caro Victor:
Julgo que tu és o primeiro especialista mecânico de armamento que aparece por estas bandas. E não penses que é uma especialidade de 2ª classe: pelo contrário, se a G3 encrava ou se o canhão sem recuo não recua, estamos todos fritos... Humor à parte, nenhum de nós vem aqui exibir o seu cardápio de roncos, o seu currículo de horrores ou o seu estojo de cruzes de guerra... Todos estivemos lá, todos somos camaradas da Guiné... É isso que nos une. Sê, portanto, bem aparecido e, quando te der jeito, manda duas chapas tuas para a fotogaleria... A gente gosta de conhecer a cara dos camaradas e de os ouvir falar dos sítios fantásticos por onde andaram e da gente simples e boa, guineense, com quem conviveram... Fala-nos de Catió, e de como eram as coisas no teu tempo... A Catió que era gozada nos programas de rádio a fingir, para a plateia da caserna: E agora um disco pedido, pelo Embaló, que tem um primo em Catió!....

Um dia destes, encontramo-nos por aí, para dar um abraço uns aos outros e beber um copo... Obrigado, pela teus recuerdos da viagem nº 127 do Uíge, a caminho de casa, depois de mais de quarenta longos meses de tropa (120o e tal dias!!!)... Ah, e já agora, um abraço de parabéns do tamanho da nossa tertúlia pelos teus belos 63 anos! (LG)
_________

(i) Estes aquartelamentos foram desmantelados e abandonados pelas NT a meio do segundo semestre de 1968, em virtude da adopção de novas estratégias pelo então Brigadeiro Spínola, Comandante Chefe do CTI da Guiné (4).
_________

Nota de L.G.:

(1) Vd posts

21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1300: O cruzeiro das nossas vidas (3): um submarino por baixo do TT Niassa (Pedro Lauret)

21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1299: Antologia (54): Transporte de tropas, por via marítima e aérea (CD25A / UC)

19 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1296: O cruzeiro das nossas vidas (2): A Bem da História: a partida do Uíge (Paulo Raposo / Rui Felício, CCAÇ 2405)

12 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1271: O cruzeiro das nossas vidas (1): O meu Natal de 1971 a bordo do Niassa (Joaquim Mexia Alves)

(2) Vd. post de 9 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXV: Amigos para sempre (Tony Levezinho, CCAÇ 12)

(3) Vd. Blogue-Fora-Bada... e Vão Dois (Luís Graça) > post de 8 de Dezembro de 2005 > Blogantologia(s) II - (22): Esquecer a Guiné

(...)

Esquecer a Guiné... por uma noite!
O sabor a sangue e a merda
Que a vida aqui tem,
Aos vinte e três anos,
Já feitos.
A merda da Guiné.
A merda que te cobre o corpo e a alma.
É mais do que a merda toda
Das bolanhas, das lalas e do tarrafo.
Podes lavar-te todos os dias
Que essa merda
Nunca mais te sai.
Nunca mais te sairá do corpo e da alma.

(...)

(4) Em Ganjolá morreu um primo meu, o soldado José António Canoa Nogueira, natural da Lourinhã, em 1965. Já aqui transcrevi uma das suas últimas cartas: vd. post de 8 de Setembro de 2005 (Guiné 63/74 - CLXXXI: Antologia (18): Um domingo no mato, em Ganjolá ).

Sobre o destacamento do Cachil, diz o oficial da Armada Marques Pinto:

(...) Percorri várias vezes o Rio Cobade, frente á Ilha do Como, lá recebi o meu primeiro abonanço de morteirada, felizmente sem consequências para o pessoal embarcado e lá fiz algumas entregas logísticas para o infelizmente célebre e tão martirizado destacamento do Cachil, que segundo me contaram pessoalmente alguns soldados tinham de fazer escolta armada para percorrerem os 300 a 400 metros que os separavam da água" (...)

Vd. post de 29 Outubro 2006 > Guiné 63/74 - P1221: Lembranças de mais um marujo (Marques Pinto)