segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6839: A galeria dos meus heróis (7): Furriel Carvalho, ou melhor, Car...rasco, o homem do 'tiro de misericórdia' (Luís Graça)

Mais uma história da série A galeria dos meus heróis, onde qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência... 

Foto do autor, à esquerda, em Contuboel, Junho de 1969 (LG).

Foto (e texto): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados


1. Chez Toi


Conheci-o no Chez Toi, em Bissau. Ou melhor, reconheci-o, de Tavira, do CISMI. Pertenceremos, ambos, à Companhia de Instrução,  comandada por essa figura impagável que era o tenente Esteves (**).

Em Bissau, eu estava hospedado naquela espelunca, de paredes de tabique, que à noite funcionava como boite. Tinha um drôle de nom, chique, sedutor, Chez Toi… Para mais em francês, comme il faut… Convidativo ao voyeurismo: entra, senta-te, pede o que quiseres, estás em tua casa…

Para os gajos do mato, desenfiados em Bissau, de tomates inchados e bolsos cheios de pesos, que não viam há meses um pedaço de carne de fêmea, branca, o Chez Toi devia ter um especial encanto que eu nunca consegui descortinar… Devia trazer-lhes algumas reminiscências das não menos quentes noites de Lisboa, Porto e Coimbra, que o resto era paisagem no Portugal de então, tão maneirinho, tão chato, tão piegas, tão púdico, tão beato…

Não sei como lá fui parar, ao Chez Toi… Publicidade enganosa, decerto. Mas para o caso não interessa. Andava desenfiado em Bissau, antecipando o gozo do início das férias na Metrópole. Aguardava o avião da TAP para Lisboa. Eram as primeiras férias pagas da minha vida, pagas pela Pátria, com o soldo do soldado… (Devo dizer que não tive problemas de consciência nem devolvi, à Pátria, o dinheiro, sujo, de mercenário, saudação a que tive direito à chegada, num dos primeiros grafitos que me lembro de ver, naquela época,  num dos muros do quartel da Avenida de Berna, em Lisboa…).

Estávamos em plena época das chuvas, em Junho ou Julho de 1970, já não me recordo bem ao certo. A atmosfera em Bissau era asfixiante. E eu deixava para trás um ano de intensa actividade operacional. Nessa noite fui dar uma volta ao bas fond, como estava na moda dizer-se. Intelectualóide que se prezasse, falava francês, ou pelo menos usava expressões coloquiais em francês, como o vachement bête, ou emmerder, copain, copine… (Ecos serôdios e longínquos do Maio de 68 em Paris). Mas o bas fond em Bissau era, para a malta da tropa o Pilão.

Por azar, logo na primeira noite, alguém arrombou a porta do meu quarto, forçou o cadeado da mala de cartão e fanou-me uma Dimple. Duas ou três garrafas de uísque, velho, era toda a riqueza que eu levaria a bordo para a Metrópole, para além de algumas peças, baratas, de quinquilharia e artesanato, que ainda tencionava comprar no Taufik Saad.

Nessa mesma noite,  tive uma conversa (desagradável) com o gordo do gerente do Chez Toi, sebento, empertigado na defesa da honra e do bom nome da casa.

As suspeitas recaíram logo num dos rapazes, papel do Biombo, se não me engano, que fazia o serviço de quartos. Ali não havia criadas, só criados, como no resto de África. Alguns clientes, à civil, mais exaltados, de copo de uísque na mão, juntaram-se a nós, a mim e mais o meu parceiro do Pilão. E aí, às tantas, o clima começou a ficar propício à pancadaria e ao linchamento. É a famosa lei de Gresham do conflito, a bola de neve que amplifica o conflito e faz perder de vista o pomo da discórdia e os protagonistas iniciais.

Eu e o sabujo do gerente já tínhamos chegado a um arremedo de acordo de cavalheiros, e o ladrãozeco de uísque suava por todos os poros, ao ver que não tinha nenhum buraco no chão para se enfiar. Foi quando alguém mandou um copo ao chão e berrou, alto e bom som, um chorrilho de asneiras:
- Filhos da puta de nharros, cambada de barrotes queimados, turras de um cabrão!... E anda aqui um gajo a foder o coirão no mato para lhes proteger as costas em Bissau!...

O garnisé que cantava de galo àquela hora da noite era um gajo, branco, seguramente militar,  trajando à civil, de estatura meã, mais baixo do que eu, mas mais entroncado. Estava visivelmente embriagado, out of control.

Tive então a infeliz ideia de responder à sua provocação:
- O camarada vai-me desculpar mas a conversa não é consigo, nem o assunto lhe diz respeito… Além disso, eu estou numa companhia de africanos, lá no mato, no leste, e não gosto de ouvir expressões como nharros ou barrotes queimados, porque são racistas, ofensivas para com…

O tipo não me deixou sequer completar a frase, saltou como um leopardo  de garras afiadas, direitinhas à minha carótide… Foi a primeira (e única) cena de porrada em que eu me vi envolvido no teatro de operações da Guiné, com luta corpo a corpo… De facto, nunca tinha sentido o inimigo tão perto, olhos nos olhos…

Providencialmente foi nessa altura que ele apareceu, fardado... Com divisas de furriel, segurando o energúmeno com autoridade e classe, e salvando-me daquela situação de embaraço e apuro.

Escusado será dizer que o meu agressor também era militar e, ao que parece, estava em Bissau, de férias, noutra pensão rasca, ali ao lado. Os amigos, de ocasião,  que o acompanhavam, tiveram o bom senso de o levar até ao Geba apanhar o cacimbo da madrugada, antes que aparecesse a ramona… Quando me dei conta eram três da madrugada…

Ele, o meu salvador, que por sinal também estava hospedado no Chez Toi, era nem mais nem menos do que o meu conhecido de Tavira, com quem de resto eu ainda tinha umas velhas contas por saldar…

Resumidamente, aqui a vai a minha versão dessa história que me estava atravessada e que remontava a 1968, em Tavira:

Numa das sessões de treino de boxe, que fazia parte da nossa instrução, levei dele uns socos valentes nos queixos. Eu tinha adoptado uma atitude claramente passiva de quem não estava disposto nem a aleijar nem a ser aleijado… Esperava que o meu parceiro, com mais cabedal do que eu, 12 cm mais alto do que eu, entrasse no jogo do faz de conta… Ele assim não o entendeu (ou não quis). Pelo contrário, assumiu logo de início uma postura viril, de combate. Sabia que estava a ser observado pelo instrutor e que aquilo era um teste de agressividade. Estava obcecado com a ideia de vir a poder ser um dos cinco melhores do curso, e assim, eventualmente, livrar-se de ir parar ao Ultramar, gorada a hipótese de ter ido para a Polícia Militar…

Devo confessar que fiquei-lhe com um pó dos diabos!... Não tinha grandes razões para me lembrar dele como um dos bons camaradas de tropa, bem pelo contrário!... Acabei por perdê-lo de vista, até ao dia em que o Niassa levou as nossas duas companhias para a Guiné (ou ele ia em rendição individual, já não me recordo).

2. (In)confidências

Voltei a reencontrá-lo quarenta anos depois, num encontro fortuito de antigos combatentes… Fui eu que o reconheci, mas ele já sabia da minha existência, por portas e travessas. Eis o teor, resumido, da sua longa conversa, de um homem precocemente envelhecido, solitário e amargurado:

Não acreditas, mas já devo ter começado uma boa meia dúzia de diários da Guiné.  Lá,  e depois ainda cá, nos primeiros anos… Havia coisas que queria esquecer mas não consegui, não consigo…

Sem surpresa, vejo agora que afinal toda a malta tinha o seu… diário secreto. Do cabo ao alferes, um tipo com o qual, de resto, nunca fui à bola… Porquê ? Ia-me matando com uma granada de dilagrama… Talvez um dia te conte essa história triste, miserável, que acabou com mortos e feridos graves, mas que foi branqueada pelo capitão no relatório da operação e na história da unidade…

Mas,  voltando aos diários secretos, soube da sua existência o ano passado, por ocasião do almoço anual da malta. Achei piada, havia vários camaradas que trouxeram os seus, alguns escritos em aerogramas, outros em agendas de merceeiro, outros ainda em simples cadernos com linhas… E ainda diziam (dizem!) que éramos uma geração de iletrados.

No meu caso, são simples notas, apontamentos, esboços, rabiscos, até recortes e alguns desenhos. Tinha a mania de ilustrar algumas situações, emboscadas, ataques e flagelações, operações, cenas da vida das tabancas por onde andei… Uma forma de passar o tempo e de fazer o gosto ao dedo.

Muitas dessas notas são hoje ilegíveis ou quase. Acreditas que já não sou capaz de decifrá-las ? Como a minha letra mudou, camarada, como o mundo mudou! E sobretudo, eu próprio, como e quanto eu mudei!...

Retomar a escrita é qualquer coisa de desafiante, sobretudo agora que estou reformado e tenho todo o tempo do mundo (ou penso que tenho, enquanto não me der nenhuma macacoa)…Mas também é muito penoso.

Tento voltar à escrita, mas a mão está perra. Escrevo pouco e sempre à mão. Não, não uso computador. Podes pensar o que quiseres, chamar-me analfabeto, infoexcluído ou outros mimos. Faço até gala nisso. Nunca poderia fazer parte do teu blogue, sobre o qual, de resto,  já ouvi críticas (algumas) e elogios (muitos). Não acreditas, mas não tenho email. Toda a gente tem pelo menos um, quando não dois ou três … Mas isso não me impressiona nem me intimida. A única concessão que faço é o telemóvel. Não por mim, mas por terceiros…

Mas antes que me perguntes porquê, eu adianto-te algumas explicações. Em primeiro lugar, odeio ecrãs de visualização. Foram muitos anos na banca, no front office. Foram muitos anos de trabalho na banca. Escravizado. Robotizado. Por agências de província a aturar os caprichos de gente mal educada, sem valores, deslumbrada com os sinais exteriores de riqueza que os fundos comunitários e outro dinheiro fácil trouxeram a este desgraçado país. E os cabrões dos chefes a dar-te cabo da mona, a obrigar-te a impingir ao cliente tudo e mais alguma coisa, desde fundos de pensões, seguros de saúde, boas e más acções, quinquilharia da Vista Alegre, títulos da dívida pública, cartões de crédito, papéis, papéis e mais papéis…

É uma fobia, uma alergia, não imaginas! Dá-me urticária só de tocar num teclado de computador. Não tenho, aliás, computador em casa. Quando preciso, o que é raro, cada vez mais raro, vou à Biblioteca Pública Camarária. Vivo numa cidadezinha idiota do meu distrito natal, Bragança. Bom filho à casa torna. A província tem coisas boas e coisas más, como tudo na vida. Mas eu não suportaria viver numa grande cidade. Lisboa, por exemplo,  deprime-me.

Pois é, voltei à folha de papel A4, ao caderno de linhas, como na 4ª classe. Escrevo num bloco notas, de argolas. Desses baratuchos. Adoro arrancar, com vigor, as folhas do meu caderno de argolas quando me engano ou arrependo do que escrevi. Adoro amarrotá-las, fazer uma bola e lançá-la para o cesto dos papéis. Sou um frustradíssimo jogador de basquete, tal como um não menos candidato frustrado a Polícia Militar.  Ser PM era o meu sonho, não sei se te lembras. Mas não cresci para lá dos meus 1,84 metros. A partir dos 15 ou 16 anos, estagnei.

Ainda tenho a minha velha máquina de escrever. Ou melhor, dactilografar. Era assim que se dizia no meu tempo. Ainda trabalhei com um conhecido advogado de província, um sacana que depois haveria de chegar a deputado por um dos partidos do poder. Eu fazia a biscatagem de solicitador. Bati centenas e centenas de requerimentos em papel selado…

Ainda te lembras do papel selado ?!... Quando o Chico do sorja da minha companhia queria lixar alguém (só se metia com os desgraçados dos cabos e dos soldados ou dos milícias), ameaçava com um “Vou-te embrulhar em papel selado!”…

Pois eu, como ajudante de solicitador, recebia um santo antoninho, vinte paus, por cada requerimento batido à máquina… Ainda te lembras da notinha, esverdeada ?!

Mas agora acabou. A minha velha máquina de dactilografia está arrumada a um canto. Como eu. Foi das primeiras máquinas, portuguesas, a aparecer no mercado. Não me perguntes a marca. De qualquer modo, o problema é que não encontro fita para ela, a fita preta e vermelha.

Ainda tive a veleidade, a pretensão ou, melhor, a ingenuidade, de tentar escrever um livro sobre a Guiné, os meus quase dois anos de vida na Guiné… Não me perguntes porquê, não te saberia responder. É um problema cá comigo, um certo ajuste de contas com o passado. Um certo passado de um certo jovem que passou demasiado depressa para a idade adulta.

Tenho hoje a sensação de que nos roubaram a juventude. Não sei se se passa o mesmo contigo… Ajuste de contas comigo, com o meu fado. Não, não  é nada contra ninguém. Não sou daqueles que invectiva os outros, um mal tão tipicamente português. Os outros não sei quem são, não ando à procura de álibis, desculpas, pretextos ou bodes expiatórios. O outro sou eu, ponto final parágrafo.

Nasci em 1947 - como tu, suponho, somos da mesma colheita – num país à beira mar plantado, mar que aliás eu só vi quando fui para a tropa, não tenho vergonha de dizê-lo… A mobilidade era reduzida, o carro era um luxo. Um país governado por um velho celibatário e a sua criada. Ah!, e o Cerejeira!... Lembras-te do Cerejeira ?... Foi o tempo e o lugar que me calharam na rifa, foi o meu fado. Não fiques à espera que eu me lamente, chore baba e ranho, ou que arranque os cabelos. Sou o que sou, ponto final.

Não, não sinto raiva, desejo de vingança, vergonha, culpa, nada disso em que possas estar a pensar. Porque haveria eu de sentir culpa ? Não matei, não torturei, não violei, não roubei, não desejei a mulher do próximo (se desejei alguma, era a mulher do régulo,  que tinha muitas)… Enfim, julgo ter cumprido os 10 mandamentos da lei de Deus que me ensinaram os meus pais. Tive uma educação cristã, como tu, como toda a gente. Fui igual a centenas de milhares de jovens da minha, da nossa geração. Nem cobardes nem heróis. Uma geração a que tenho orgulho de ter pertencido! (Podes apontar aí).

Matei, não matei ?... Se matei, Deus já mo perdoou.. Há gente que pode não concordar comigo. Na realidade, matei, mas apenas por razões humanitárias....Matei para abreviar o sofrimento de um homem ferido de morte. Explicar-te-ei isso melhor, mais à frente.

Medo ?, perguntas tu. Vamos lá ao medo... Sim, cheguei a ter medo, muitas vezes. Fora do arame farpado. Nunca dentro. Em colunas, em emboscadas, em operações no terreno do IN. O medo é próprio de qualquer animal e faz parte da maneira como avaliamos (e lidamos com) os riscos… Julgava-me bem preparado, física e mentalmente, para enfrentar o difícil teatro de operações da Guiné. Como sabes, fui logo de início parar à Região de Quínara e a pior humilhação que tive foi uma desidratação que sofri, num patrulhamento ofensivo à Foz do Corubal… Ainda era periquito e não soube gerir o esforço e sobretudo os dois cantis de água que nos eram distribuídos… Fui helievacuado para vergonha minha e gáudio de alguns sacanhas da companhia, meias- lecas, como o valentaço do meu alferes.

Mas depressa recuperei a minha autoridade dentro do grupo. E a primeira situação foi quando, lá para os lado de Gampará, apanhámos um pequeno grupo do PAIGC, a caminhar na nossa direcção, na orla da bolanha. Uma bazucada deixou o gajo da frente sem pernas, à beira da morte… Os nossos maqueiros fizeram o que puderam, mas a vida daquele homem, um corpulento balanta, da minha estatura, estava por um fio… Chamar um heli, nem pensar, foi a palavra do capitão, miliciano, que estava visivelmente nervoso e deu ordens para uma rápida retirada do local… E o turra ali a agonizar num pavoroso sofrimento… O capitão pediu um voluntário para lhe dar o tiro de misericórdia… Ninguém se ofereceu.

Silêncio sepulcral. Na mata até os bichos se tinham calado. A cigarra, a gralha, o macaco-cão calaram-se face ao espectáculo de violência dado pelos seres humanos. A malta do meu pelotão olhava, constrangida,  ora para o capitão, ora para o alferes e para mim, à espera de um sinal, um gesto, uma ordem. Ainda periquitos,  com dois ou três meses de Guiné, nenhum de nós estava preparado para decidir o que fazer num caso destes. O dilema era abandonar o prisioneiro moribundo ou abreviar-lhe  o sofrimento. Nunca ninguém tinha dado um tiro de misericórdia. Lembro-me apenas de ter andado a brincar com a baioneta da mauser a espetar sacos de areia, em Santa Margarida.

Eu próprio ponderei as várias hipóteses: o capitão, antigo seminarista, era uma pessoa com princípios cristãos, dificilmente aceitaria deixar um homem, mesmo inimigo, a agonizar no mato, entregue aos abutres e às formigas carnívoras; àquela hora da manhã, o comando do batalhão estava incontactável e o PCV  (era assim que se dizia ? ) nem sequer ainda estava no ar; um tiro denunciaria ainda mais a nossa posição; restava a catana do guia (que não era de grande confiança) ou a nossa faca de mato... Acabar de sangrar o desgraçado como o porco da minha aldeia era uma ideia que me repugnava...

Nos olhos do balanta pareceu-me ler uma última súplica:
- Depressa, tuga... E que o teu deus te pague!

Fui tocado por aquele olhar de humanidade. Não, não era um animal ferido  que estava ali à minha frente, o porco do mato que eu abatera em Fulacunda há dois meses atrás, numa caçada nocturna. Era um homem que estava a morrer, igual a mim, excepto na cor da pele, na Kalash que empunhava, na farda verde-oliva, esfarrapada, que vestia, nas sandálias de plástico que calçava... Não sentia qualquer ódio por aquele homem, até há pouco meu inimigo, e que certamente me mataria, se eu fosse a presa e ele o predador. Deitado no chão, de braços estendidos, sem pernas, gemendo, numa poça de sangue, só me podia inspirar horror e compaixão... E num ápice pus a G3 em posição de tiro a tiro, rodei o corpo dele com a minha bota de modo a ficar de bruços, encostei o cano da espingarda à nuca e disparei... Uma única bala, um som breve, abafado, pôs termo ao sofrimento brutal daquele homem, tão ou mais jovem do que eu...

Seguimos a corta-mato, o Destacamento A,  a caminho da LDG que nos esperava no Rio Geba, para nos recolher... E até lá os nossos grupos de combate seguiram, em passo estugado, mas em total silêncio. A minha companhia, que era independente,  regressou a Bissau, para mais tarde ser colocada no leste. Durante uns dias, os olhos vidrados do balanta não se saíram da mente. Ganhei a alcunha, sádica e injusta, de Furriel Car...rasco. (Como eu gaguejava um pouco, chamavam-me inicialmente Car...valho, os meus camaradas milicianos). Até mesmo os homens da minha secção passaram a olhar-me de outra maneira, com um misto de admiração, de respeito e de terror...

É uma estranha sensação. Nunca tinha morto um homem. Como sabes, naquela guerra raramente se via a cara do inimigo. C'était une guerre pas comme les autres. Só vias a cara dos prisioneiros ou dos guerrilheiros abatidos junto ao arame farpado... No mato eles tinham quase sempre tempo de arrastar ou de ocultar os cadáveres... Era por isso que a malta fantasiava com os números das baixas causadas ao inimigo em combate, arredondando sempre para cima.

Em todo o caso, sempre estive e continuo a estar bem comigo. Não fui, não sou, nenhum assassino, ajudei apenas a humanizar a morte de um semelhante... Tornei-me imprescindível na companhia: o capitão voltou a solicitar os meus serviços mais uma outra vezes. Mas nessa ocasião,  recusei-me, obrigando-o a mandar evacuar, para o Hospital Militar de Bissau, um roqueteiro, beafada, do PAIGC que aprisionámos, com ferimentos graves... Soube mais tarde que tinha sobrevivido, e que se integrara na vida civil, regressando à sua terra natal, ao abrigo da politica do Spínola. E isso dei-me uma algum consolo.

Não, eu nunca usaria a faca de mato, se é isso que queres saber. Preferi o tiro na nuca. Estou-te a falar disto, pela primeira vez, a ti que eu considero  um verdadeiro camarada da Guiné, um camarada que eu conheci de Tavira, e a quem eu peço perdão pelo uppercut  que te ia pondo KO... (Mas instrução era instrução, era guerra a brincar, era reinação... Na Guiné, era guerra, guerra a sério, e guerra era guerra... E se calhar até me estás hoje agradecido pelos reflexos  que tiveste de desenvolver para te saberes defenderes...). Em resumo, sei que hoje és capaz de me compreender sem me julgar nem condenar. Confio em ti.

Nunca falei nem falarei disto aos meus filhos. Um deles até é magistrado, ainda pior.  Eles nunca entenderiam, e provavelmente eu até correria o risco de os perder... Como não invoco nem comento estes episódios, cruéis, da nossa guerra, nos convívios anuais da minha companhia... Hoje tratam-me pelo meu apelido (Carvalho, sem gaguejar nem gracejar), não sou mais o Furriel Car...rasco. Pode ser que o façam nas minhas costas, não tenho a certeza, mas espero bem que não.

Deu-me alguma tranquilidade ler, muitos anos depois, essa obra-prima do Miguel Torga, meu conterrâneo, O Alma Grande, da colectânea Novos Contos da Montanha, se não me engano... De alguma maneira eu fui também essa portentosa figura do abafador, a que na aldeia se recorria para apressar a morte dos entes queridos em agonia... Numa época em que não havia médicos nem cuidados de nenhuma sorte, muito menos paliativos... E em que só se chamava o médico... para passar o atestado de óbito!

Despedimo-nos com um Alfa Bravo apertado... E eu, confesso, fiquei por um por de horas com um nó na garganta, não menos apertado...

Luís Graça

_______________

Notas de L.G.:

(*) Vd. postes da série:

21 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4849: A galeria dos meus heróis (6): O Renoir de Montemuro, nascido no ano zero da idade atómica (Luís Graça)

(...) Tinha nascido no ano zero. 1945. Lembro-me de teres escrito isso, muitos anos depois, no catálogo da minha primeira exposição de pintura no SNI (Lembras-te, em 1966 ?!... Ainda pensámos em dar o salto até Paris, éramos vagamente existencialistas, anticolonialistas e anti-imperialistas, eu sonhava com Montmarte, enquanto tu devoravas o Camus e o Sartre!... Não conseguimos convencer o nosso gestor de conta a financiar o nosso inconsistente projecto de aventura). (...)

Tinha nascido no ano zero. 1945. Lembro-me de teres escrito isso, muitos anos depois, no catálogo da minha primeira exposição de pintura no SNI (Lembras-te, em 1966 ?!... Ainda pensámos em dar o salto até Paris, éramos vagamente existencialistas, anticolonialistas e anti-imperialistas, eu sonhava com Montmarte, enquanto tu devoravas o Camus e o Sartre!... Não conseguimos convencer o nosso gestor de conta a financiar o nosso inconsistente projecto de aventura).

1 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1014: A galeria dos meus heróis (5): Ó Pimbas, não tenhas medo! (Luís Graça)


(...) 'Ó Pimbas, estou aqui, não tenhas medo!'' terá sido a expressão, patética, gritada pelo major, o segundo comandante, de Walther em punho, o rosto iluminado pelo clarão das explosões, ao comandante do BCAÇ 2852, o tenente-coronel Pimentel Bastos, que rastejava em trajes menores no corredor do edifício do comando, naquela noite em que o céu desabou sobre o aquartelamento de Bambadinca (…)

1 de Agosto de 2006  > Guiné 63/74 - P1011: A galeria dos meus heróis (4): o infortunado 'turra' Malan Mané

(...) Malan Mané. Vinte anos ? Menos de vinte ? Talvez da idade dos nossos soldados mais novos. Temos alguns com dezasseis ou dezassete. Não tenho qualquer jeito para advinhar a idade dos africanos. Mas ele próprio não saberia responder. Aqui ninguém tem certidão de nascimento, cédula pessoal, bilhete de identidade, passaporte, boletim de vacinas, caderneta militar, um papel que seja, a dizer quem tu és, de quem és filho, quando e onde nasceste. Para a tropa, do recrutamento local, é-se escolhido a olhómetro: altura, peso, massa muscular… A idade não conta. Experiência de combate, quase todos a têm, os fulas desta região, ou pelo menos algum treino como milícias (...).

12 Janeiro 2006 > Guiné 63/74 - CDXLIV: A galeria dos meus heróis (3): A Helena de Bafatá

(...) Como um cão apanhado na rede – repetia eu, nessa manhã de 2 de Junho de 1969, no fundo da LDG Bombarda, entre fardos de colchões de espuma, cunhetes de munições, Unimogs novinhos em folha e velhas malas de viagem atadas com cordões, enquanto os fuzileiros, hercúleos, heróicos, em tronco nu, de garrafa de cerveja na mão, assustavam bichos e homens com tiros de morteirete próximo da temível Ponta Varela, exorcizando os diabos negros que infestavam o tarrafe e os cerrados palmeirais que circundavam as margens do Geba, ao mesmo tempo que um solitário T-6, protector como um anjo da guarda, sobrevoava a foz do Corubal, ronceiro, sob um céu de chumbo (ou de bronze incandescente ?), em círculos concêntricos como o voo do sinistro jagudi - que fareja a morte, dizem os guinéus, a quilómetros de distância -, acabando por alijar a sua carga mortífera lá para longe, talvez a norte, em Madina/Belel, talvez a sul, no Fiofioli – após a nossa chegada a bom porto (...).

 14 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLII: A galeria dos meus heróis (2): Iero Jau (Luís Graça)

(...) Aguerra.

Essa coisa tão primordial que é a guerra.
Que estaria inscrita no teu ADN,
Segundo dizem os sociobiólogos.
A guerra é a continuação da evolução
Por outros meios,
Dirão os entomólogos,
Especialistas em insectos sociais,
Para quem a morte de um
Ou de um milhão
De formigas ou de seres humanos,
É-lhes totalmente indiferente.
Desde que triunfe o ADN,
Um projecto de ADN
Musculado.

13 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXXVIII: A galeria dos meus heróis (1): o Campanhã (Luís Graça)
 
(...) - E no fim quem levou a taça foi o capitão!... Quer-se dizer, mais uns galões, mais graveto ao fim do mês…

- Mas, ó Campanhã, era a vida dele, a carreira dele! – atalhou o ex-alferes Pimentel, transmontano, que nada tinha perdido do seu espírito de subserviência em relação a todas as hierarquias deste mundo.

- E depois nós éramos milicianos, estávamo-nos nas tintas para as divisas e os galões! – atalhei eu, tentando sem jeito deitar água na fervura.

- E, nós, soldados do contingente geral! – ripostou o Campanhã.

- Estávamos todos metidos no mesmo barco, essa é que essa! - opinou o Pimentel.

- Mas mesmo assim havia diferenças, carago! No meio daquela merda toda – desculpem lá a expressão! – vocês até eram uns fidalgos: tinham patacão, graveto; tinham messe, bar, bebidas estrangeiras; iam matar a malvada a Bafatá; comiam umas garinas, brancas ou verdianas de vez em quando, em Bissau; vinham de férias, na TAP, à Metrópole (...).


(**) Vd. comentário de L.G. ao poste de 30 de Maio de 2010  > Guiné 63/74 - P6496: Controvérsias (79): Os nossos instrutores militares não tinham experiência de contra-guerrilha (Manuel Joaquim)

 (...) De quem me lembro, [em Tavira,] foi do Tenente Esteves, que era o comandante da minha companhia (estava a tirar a especialidade de Armas Pesadas de Infantaria), e do parvo de um alferes miliciano, lateiro, que nos dava instrução, no campo da feira (adorava, o sádico, pôr-nos a rebolar em cima da bosta de boi, enquanto ele passava o tempo a "namorar" à janela, uma das meninas ou coironas lá da terra....). Era algarvio, com sotaque, nunca pusera os pés em África... Deve ter apodrecido nos CISMI...

O que é que eu aprendi com um homem, boçal, como este, que me tenha sido útil na Guiné ? Nada...

Do Esteves recordo-me apenas a sua lengalenga patrioteira e já gasta, lembrando-nos, a propósito e a despropósito, que "nós éramos a fina flor da nação"... Nós: emendávamos, entre dentes: "a fina flor do entulho"...

E, claro, não posso esquecer o inefável comandante do CISMI que me proibiu, a mim e mais um camarada, a inauguração de um exposição documental sobre a II Guerra Mundial (que estamos a organizar, na caserna, e estava praticamente pronta...) com o argumento, mesquinho, safado, de que "para guerras já bastava a nossa"...

Mário Pinto e Manuel Joaquim, ora aqui está um tema, divertidíssimo, para a gente filosofar até aos 100 anos...

Admito que houve gente expcionalmente bem preparada para fazer a guerra... Não foi o meu caso. (...)

Guiné 63/74 - P6838: As minhas memórias da guerra (Arménio Estorninho) (14): Buba, Operação Larga Passada

1. Mensagem de Arménio Estorninho* (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70), com data de 8 de Agosto de 2010:

Camarada e Amigo Carlos Vinhal,
Saudações guinéuas “corpi di bó jámetum.”

Da História da Unidade CCaç 2381 “Os Maiorais,” relativamente aquando colocada em Buba, Região de Quinara, e onde constam os factos mais importantes das actividades e ocorrências, no período que mediou de 04/Janeiro/69 a 01/Maio/69. A partir desta data fora fraccionada em três Destacamentos, em que o Comando da Companhia + 02 GRCOMB deslocaram-se para Empada, permanecendo 01 GRCOMB, Destacamento “Alfa,” que dirigiu-se para Mampatá e 01 GRCOMB, Destacamento “Bravo,” continuando em Buba e ficando adido à CCaç 2382 até à missão desta no local.

Conforme digitalização extraída de parte da História da Unidade, embora de pouca qualidade foi a possível, podendo estas páginas serem trabalhadas pelo co-editor a fim de ser possível a leitura.

Conjugando o tempo antes mencionado com outro seguido e findo em 03 de Dezembro/69, nesta data deu-se o regresso definitivo dos 02 GRCOMB a Empada e reunindo-se a Companhia pela primeira vez desde que fora para o Sul da Guiné.

Clicar nas imagens para as ampliar

Posteriormente o Destacamento “Alfa” voltara a Buba e agrupando-se ao Destacamento “Bravo.” Conquanto do período de 01 de Junho/69 a 03 de Dezembro/69, não consta relatório das actividades destes 02 GRCOMB e provavelmente devido a estarem a dar apoio a outras Unidades Militares, onde esses registos contam como somente fazendo parte destas.

Com cordiais cumprimentos “mantenhas,
Arménio Estorninho
Ex-1.º Cabo Mec. Auto Rodas
CCaç 2381 “Os Maiorais de Empada”
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 29 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6655: Convívios (173): 10 de Junho de 2010 (Arménio Estorninho)

Vd. último poste da série de 5 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6538: As minhas memórias da guerra (Arménio Estorninho) (13): Três acontecimentos com impacto na Guiné - Março/Abril de 1970

domingo, 8 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6837: Blogpoesia (79): Saudades daquele tempo, ou Quisera eu... (6) (Manuel Maia)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Maia (ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, 1972/74), com data de  6 de Agosto de 2010:

Caro Carlos,
Com um abraço amigo, envio mais umas oito sextilhas que reflectem o meu estado de espírito depois de um sonho bom.
Se entenderes por bem, edita na segunda-feira ou até domingo (sei que estás a juntar o dinheiro das horas extras deste trabalho (onde ganhas que te fartas...) para comprares um avião que nos leve a todos de volta à Guiné.
Em duas viagens, iremos todos.
Manuel Maia


QUISERA EU... (6)

Um dia, tive um sonho emocionante,
cerrando breve os olhos, curto instante,
qual flash fotográfico a reter...
Vi silos, vi tractores, placas solares,
artesianos furos, luz nos lares,
e muitas outras coisas a saber...


Vi pratos, vi talheres, toalhas, pão,
panelas cozinhando num fogão,
vi camas, vi colchões, casas de banho...
Vi redes, aparelhos, anzóis, corda,
vi barcos com motores fora de borda,
vi peixe já na fase do amanho...

Vi arcas frigoríficas, conserva,
vi peixe ser guardado p`ra reserva,
vi caça, dìgual modo ser tratada...
Vi hortas tão bonitas de viçosas,
vi gentes radiantes e formosas,
vi fácies de alegria bem estampada...

Vi feiras, armazéns, lojas do povo,
de artigos recheadas, como um ovo,
vi gentes a comprar e a vender...
Vi roupas e calçado em profusão,
nos corpos e nos pés do nosso irmão,
Guinéu, já tão cansado de sofrer...

Vi risos de criança rumo à escola,
os livros e a bola na sacola,
às costas pela alça pendurada...
Cantina para todos é paragem,
crescidos e também a miudagem,
que ali faz refeição equilibrada...

Vi gente trabalhando em suas terras,
liberta dos terrores, medos das guerras,
na usina ensaiando ocupação...
Vi braços já treinados em mesteres,
ignotos para homens e mulheres,
até servirem como ganha pão...

Vi olhos curiosos, perscrutantes,
de saber ansiosos, indagantes,
à cata do que é novo, que absorvem...
Vi gente mãos vazias, resignada,
com pressa de ver dias de abalada
no seu livro da vida, caos, desordem...

Quem espera desespera, diz ditado,
e o tempo dessa espera está esgotado,
sei bem, na afirmação nada é já novo...
Insensatez, supera o razoável,
estupidez opera o impensável,
nas lutas p`lo poder, quem perde é o povo...
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 3 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6819: Blogpoesia (78): Saudades daquele tempo, ou Quisera eu... (5) (Manuel Maia)

Guiné 63/74 - P6836: Memórias de Um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (4): Casado em 1956, vereador em 1957, em Bolama, regressa a Bissau em Novembro de 1960, como convicto nacionalista


Continuação da publicação das memórias de Cadogo Pai (*)... O documento, de 26 páginas, que me chegou às mãos, tem por título: Memória de Carlos Domingos Gomes, Combatente da Liberdade da Pátria: Registos da História da Mobilização e Luta da Libertação Nacional. Recordar Guiledje, Simposium Internacional, Bissau, 1 a 7 de Março de 2008.

II Parte > Excertos (pp. 1-5)

"1. Casei-me a 8 de Setembro de 1956, viajei para Dakar, a 12 de Setembro de 1956, de ambulância, de Lulula para Zinguinchor. Era condutor um amigo e colega de infância José Bapote, que ainda vive. 

De Zinguinchor segui para Dakar, onde passei um mês na companhia da esposa e do Djack, Jacinto Gomes, meu sobrinho que eduquei desde os dois anos e meio, após a morte da mãe.

"2. A primeira reunião que decidiu a fundação do PAIGC, realizou-se na Rua Severino Gomes de Pina, a 19 de Setembro de 1956, com as presenças de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Inácio Júlio Semedo e Elisée Turpin.

“O documento elaborado é de oito artigos. O Art 3º diz que o Partido trabalha no sentido de unir todos os africanos, de todas as etnias e de todas as camadas sociais. Consta da primeira edição do Jornal Nô Pintcha, artigo esse que mandei publicar. Citei o artigo mencionado para esclarecer que tinha ligações com o PAIGC, quando Luís Cabral tentou impedir a minha candidatura às primeiras eleições legislativas realizadas em Bissau, após a independência.

“Esta declaração provocou o interesse do Dr. Vasco Cabral, que não me largou até o fornecer e ao camarada Nino Vieira. Refiro-me ao texto completo que me foi fornecido após o meu regresso de Dakar em 1956.

"3. Após o meu casamento, em 1957 fui eleito vereador da Câmara Municipal de Bolama, palco dos meus primeiros confrontos com o poder colonial, que marcaram bem a minha vida de luta e experiência.

“Foi onde comecei a interessar-me pela interpretação da leis, por que a luta era árdua, de confrontos de interesse do município e dos colonialistas. Era secretário Abeilard Vieira, presidente Camilo Monte Negro (administrador), Olívio Pinto Pereira, funcionário administrativo, testemunho válido das lutas travadas que as actas assinalam.

"4. Não completei o mandato, porque começou a repressão colonial, após a fundação do PAIGC a 19/9/1956 e os acontecimentos de 3 de Agosto de 1959 no Cais do Pinjiguiti. Tive que viajar para Portugal em Junho de 1960, porque corria enorme risco de ser preso. As actividades atrás citadas – visitas de excursões de rapazes de Bissau a Bolama – geraram uma situação que abalou totalmente a confiança que levou os Portugueses a convidar-me para a Câmara Municipal de Bolama como vereador.

"5. Regressei de férias em Novembro de 1960, directamente para me instalar em Bissau, dadas as notícias que recebia das prisões e mortes de presos em Tite.

“Depois de me instalar em Bissau, transferi os stocks de Bolama para Bissau, a seguir às operações de Fulacunda, Junqueira, cessando a minha actividade em Bolama e zonas de Tite, porque eram perigosas.

"6. Antes de partir de férias, os meus contactos eram muito notórios. Aos fins de tarde, reuníamo-nos habitualmente na marginal, mesmo em frente aos Armazéns da Alfândega e o chamado Porto das Canoas, eu, Carlos Domigos Gomes, com os amigos Aristides Pereira, Alcebias Tolentino, Adelino Gomes, Barcelos de Lima e Alfredo Fortes, nomes já mencionados na primeira parte deste trabalho.

Aristides Pereira deixou Bolama, a pretexto de concorrer a um concurso nos Estados Unidos, afinal [seguiu] para as fileiras do PAIGC. (…).


Estas ligações eram tidas como suspeitas. No livro do Aristides Pereira, Guiné-Bissau e Cabo Verde,uma luta, um partido, dois países, na página nº 79, ele refere a nossa amizade e faz uma observação em relação à minha pessoa como nacionalista convicto, já na altura, no decurso dos nossos contactos.

“Voltei a encontrar o camarada Aristides Pereira em Madina do Boé. Foi na altura do 1º Aniversário da nossa Independência Nacional. Conduzi uma delegação de Bissau até Gabú. Era comandante da zona o sr. Honório Chantre que nos recebeu à chegada a Gabú. Após se inteirar da nossa intenção de irmos assistir às comemorações do 1º Aniversário da nossa Independência, mandou-nos procurar alojamento e aguardar a resposta à comunicação que ia mandar para a base.

“No dia seguinte, logo pela manhã, mandou-me chamar a mima e aos companheiros a fim de dar a resposta prometida. Da autorização recebida, só eu podia entrar para a base, escolhendo uma pessoa para me acompanhar. A delegação era composta por 14 nacionais e um português, de nome António Augusto Esteves, ex-comerciante bem conhecido, já falecido, radicado há dezenas de anos na Guiné-Bissau. Posso testemunhar a sua dedicação, bem coberta a causa da Independência (como o testemunham os bens implantados).

Foi ele então a pessoa escolhida para me acompanhar. Foi deslocado um helicóptero da base de Madina Boé a Gabu para nos transportar. A minha escolha causou mal estar na caravana que teve de regressar a Bissau.

A chegada à base que acolheu a manifestação, fomos recebidos pelo então Comissário do Comércio, o camarada Armando Ramos, que a seguir às manifestações, recebeu ordens para nos conduzir a uma sessão especial, onde encontrámos, reunido, todo o elenco dirigente do Partido, entre eles com a toda a surpresa o camarada Aristides Pereira que me acolheu de braços abertos, com uma abertura desconhecida no seu semblante, sempre fechado. Disparou-me a seguinte pergunta:
- E as nossas conversas em Bolama ?

Respondi comovido, só descobri os fundamentos dos nossos encontros após a sua partida dita para os Estados Unidos.

Fecho solenemente este episódio com uma declaração: nunca mais esqueci o abraço deste encontro, para testemunhar que os efeitos de Aristides Pereira, em prol dos trabalhos de mobilização, merecem muito mais do que o silêncio do seu n ome que nos tem chegado. Aproveito esta oportunidade para agradecer a menção do meu nome no seu livro atrás citado.

[ Revisão / fixação de texto/ excertos / digitalizações / título: L.G.]

(Continua)

________________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores:

30 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6807: Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (1): Encarregado de uma empresa francesa, em Bissau e depois Bolama (1946-1951)

2 de Agosto de 2010 > 
Guiné 63/74 - P6815: Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (2): A elite guineense nos anos 50


5 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6828: Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (3): Estabelecido por conta própria em 1955

Guiné 63/74 - P6835: (Ex)citações (89): As elites e a formação dos movimentos nacionalistas (António Rosinha)



Angola > 1961 > Desfile de tropas > O António Rosinha, furriel miliciano, aparece aqui em primeiro plano, assinalado com um X... Depois de ter o CSM, em Nova Lisboa, foi chamado de novo às fileiras do exército, para combater os "terroristas" da UPA no norte de Angola...  Repare-se no tipo de armamento das NT: pistola-metralhadora FBP, para os graduados; espingarda Mauser, para as praças...Farda: caqui amarelo... Capacete de aço...

Foto: Foto: © António Rosinha (2006). Direitos reservados


1. Comentário de António Rosinha, com data de 2 do corrente,o Poste P6815

Como habitualmente, quando lemos as poucas coisas que escrevem os participantes da formação dos movimentos nacionalistas nas várias ex-colónias, aparecem sempre em número reduzido.

Refiro-me ao que seria o PAIGC, FRELIMO e MPLA, ou seja, aqueles movimentos com gente mais preparada.

Se na Guiné haveria pouca gente mais preparada, mas creio que todos os guineenses e lusodescendentes (mestiços) tinham ideias nacionalistas, no caso de Angola eram muitos e em grandes cidades.

Com muitos fiz o curso de sargentos milicianos (CSM) em Nova Lisboa. E o primeiro classificado do meu pelotão, luandense, gente boa, com ideias iguais às dos outros, já foi vítima das catanas da UPA.

Quando fui reconvocado como furriel para combater "os terroristas", fomos contar quantos éramos e faltava esse jovem, Patricio de seu nome.

Eu fiz esta guerra, julgando que lutava do lado certo,  pensando que era o mal menor para toda a gente, principalmente para esses angolanos mais preparados.

Exatamente, porque estive sempre acompanhado, por um grande número desses angolanos... e caboverdeanos. Eles viam aquela guerra duma maneira mais abrangente que nós,  tugas. Eles tinham mais consciência, apesar de jovens, o que representavam internacionalmente as riquezas africanas, "que o Salazar queria esconder".

Alguns desses nacionalistas não quiseram tomar parte nas guerras que se seguiram nas ex-colónias e vieram para Portugal e Brasil.

Dizia mais tarde um desss nacionalistas revoltado: «Agora alguns ficaram com uma ferida na Tchetchénia».

Esse nacionalista era Raul Indipo,  do Duo Ouro Negro.

Antº Rosinha (*)

_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 6 de Agosto de 2010  > Guiné 63/74 - P6831: (Ex)citações (71): Futebol e nacionalismo nos anos 50/60 (Nelson Herbert)

Guiné 63/74 - P6834: Parabéns a você (137): Henrique Martins de Castro, ex-Soldado Condutor Auto da CART 3521 (Editores)

1. No dia 8 de Agosto de 1950, nasceu Henrique Martins de Castro que em Dezembro de 1971,  aos 21 anos, partiu para a Guiné onde se manteve até Março de 1974.

O nosso camarada que foi Condutor Auto na CART 3521 e que se apresentou na nossa Tabanca em Junho de 2008, comemora hoje o seu 60.º aniversário que lhe dá direito a entrar no requintado grupo dos SEXAS.

Bem-vindo companheiro, junta-te a nós nesta luta diária a caminho do degrau acima, os SEPTA, onde, para além do respeito, somamos a experiência de vida adquirida, os filhos já com algum cabelo branco e os netos maiores do que nós. Nessa altura já ninguém se vai acreditar que fomos novos como os demais, mas aí ficam as fotos para o comprovar.

A ti camarada e amigo, queremos deixar-te os nossos melhores votos de que tenhas, já que é domingo, toda a família junto de ti, assim como aqueles amigos que mais consideras.

São também nossos votos para ti, uma longa vida, plena de saúde e alegria, testemunhado por aqueles que mais amas e te amam.

Por perto terás este numeroso grupo de camaradas e amigos da tertúlia, atentos à tua felicidade.

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6823: Parabéns a você (136): Coronel Reformado Rui Alexandrino Ferreira (Editores / Miguel Pessoa)

sábado, 7 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6833: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (23): José Brás, há muitos anos, elemento activo do Grupo de Forcados de Vila Franca

1. Mensagem de José Brás* (ex-Fur Mil, CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68), com data de 5 de Agosto de 2010:

Camarada
Carlos Vinhal
Não tem nada a ver, eu sei, a não ser... que...
Bem!
Poderá ter, se tivermos em conta que haverá um montão (palavra muito usada no Alentejo) de camaradas no centro do... centro de que vou falar, provavelmente interessados no que irei dizer.

Falo de Leiria. Falo da Praia de Vieira.

Claro! Falo da Tabanca do Centro. Falo do Joaquim e dos outros todos que se armam de centristas (e uns são e outros não) para o cozido em Monte Real.

É que o meu Grupo de Forcados, o Grupo onde dei o coiro antes e depois da Guiné, vai pegar lá, na Praia de Vieira, numa corrida de toiros, no próximo Domingo, 22 de Agosto.

E eu lá estarei, não sei ainda se fardado ou não, mas presente com o Grupo e pronto para o que der e vier.

Vai daí, imaginei que alguns dos camaradas do Centro, pudessem vir a interessar-se pela informação e aqui estou a perguntar-te se cabe no blogue tal coisa.

A verdade é que lá estarei para dar um abraço a quem aparecer.

A ti to envio agora, Carlos
José Brás

Grupo de Forcados de Vila Franca. Na fila de trás, terceiro a partir da esquerda, distingue-se o nosso camarada José Brás.

Cartaz da corrida de toiros marcada para o dia 22 de Agosto na Praia de Vieira, Leiria.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 30 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6809: Controvérsias (100): O que é que o País pode dar aos ex-combatentes? (José Brás)

Vd. último poste da série de 24 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6641: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (22): José Corceiro, um bom filho, um melhor pai, um avô babado

Guiné 63/74 - P6832: Convívios (264): Festejar a vida em Santa Luzia, Ourique (Felismina Costa)

1. Mensagem da nossa amiga tertuliana Felismina Costa com data de 4 de Agosto de 2010:

Boa-noite Amigo Carlos Vinhal
Queria partilhar convosco um almoço a que assisti na minha terra no passado dia 25 de Julho.


FESTEJAR A VIDA

A organização presidida por ex-combatentes, promove o encontro de naturais da minha freguesia, nos últimos três anos, dando prioridade aos nascidos em 1943, mas sucessivamente alargados os convites, a familiares e amigos, e, é na qualidade de convidados, que me apresento com meu marido, meu filho mais velho, nora e neto.

Penso que já vos disse, que sou alentejana, natural de uma freguesia do Concelho de Ourique, chamada Santa Luzia. A partir dos anos sessenta, quase todos nós deixamos as nossas terras e fixámo-nos nas periferias das grandes cidades, tentando mudar o rumo da vida, tentando melhorará-la.

O trabalho do campo, mal remunerado, e cada vez mais escasso, mercê das novas tecnologias agrícolas, fazia com que, principalmente os jovens saíssem à procura de dias melhores, e foi assim que a minha aldeia, tal como tantas outras, viu partir os seus filhos: o êxodo dá-se ao mesmo tempo que acontece a guerra do ultramar, e os próprios ex-militares que regressam, depressa saem também, tentando melhores condições de vida. Muitos alentejanos fixaram-se na margem sul, (sempre pensei, que por se sentirem mais próximos do seu torrão Natal). O certo é que as aldeias, foram ficando despovoadas, poucos jovens permanecem, e os menos jovens vão partindo para a viagem final.

Contudo alguns resistem, decidem ficar, e aos poucos os que saíram vão regressando reformados:

O chamamento da terra é algo muito forte!

E ei-los que voltam! E os que voltam querem trazer mais, e querem reunir os que há muito partiram e nunca mais se reuniram, e organizam-se, fazem-se contactos a nível escolar, e são convocadas turmas inteiras da escola Primária, porque era o único estabelecimento de ensino, e a terra enche-se de gente. No café do Zé Capela, um dos organizadores do evento, e no recinto do Clube local, os encontros de quem não se via há 40 anos são verdadeiras demonstrações de alegria e saudade. Quem és tu? E tu quem és? São perguntas constantes, e os sorrisos e as lágrimas, e os beijos e os abraços, e o recordar famílias, e situações divertidas, e dramas, e os rostos que já não vimos nunca mais, e as casas em que vivemos transformadas, modificadas por novos ocupantes, tudo isso gera emoções quase impossíveis de caber no peito. Fiz questão de falar a todos os habitantes que vi, como sempre fiz, percorri a aldeia inteira acompanhada pela meus, para mostrar ao meu neto os lugares onde cresci e onde vivi as histórias que sempre lhe contei, onde feliz e amada por todos, donde trouxe as melhores recordações da minha vida.

O almoço foi espectacular, na maior camaradagem, na maior alegria!

Que alegria me deu a minha gente!

Depois do almoço, cantamos o nosso encantador canto alentejano, havia vozes magnificas, e as menos boas faziam-se ouvir na mesma. Éramos todos um. A mesma alegria e a mesma emoção.

Os meus amigos da organização fizeram questão de me dizer: - Obrigados por teres vindo e teres trazido a tua família, tu és nossa, não queremos que faltes nunca. Vem sempre e trá-los também. Chorei, distribuí beijos e abraços aos meus irmãos e irmãs de infância, que à despedida me diziam: - Não vás, fica cá.

Li alguns poemas meus, um intitulado Santa Luzia, numa homenagem à terra que nos viu nascer e crescer.

Havia convidados ex-combatentes que prestaram serviço em Angola com os nossos conterrâneos e que ficaram amigos para a vida, e um deles me disse que se sente como se fosse um dos nossos.

Gostei de tudo, da alegria, da saudade, da emoção, para a qual tenho pedido ajuda ao Lexotan, e sobretudo de constatar que a minha gente tem os mesmos valores, a mesma maneira de ser e agir, que o berço, mesmo pobre, lhes incutiu.

Porque é grande a minha emoção, quis partilhar convosco, homens da guerra, habituados que estão a estes
encontros e a sentir estas emoções. Eu, também vivo as vossas, como se minhas fossem.

Obrigada
Felismina Costa

Felismina Costa entre dois amigos. De frente, o filho e a nora

Nesta foto: marido, nora, Felismina e o neto
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 16 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6746: Tabanca Grande (230): Felismina Costa, madrinha de guerra de Hélder Martins de Matos, ex-1.º Cabo Escriturário, Bafatá, 1963/64

Vd. último poste da série de 23 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6775: Convívios (178): Encontro do pessoal da CCAÇ 4740 (Armando Faria)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6831: (Ex)citações (88): Futebol e nacionalismo nos anos 50/60 (Nelson Herbert)


Guiné-Bissau > Bissau > s/d (pós-independência > Campo de jogos de Bissau (antigo estádio Sarmento Rodrigues) > Um jogo de futebol, sob a bandeira da nova República, duas equipas locais, com equipamentos de clubes portugueses (Benfica e Sporting). Foto de autor desconhecimento.

Imagem: Gentilmente cedida por Nelson Herbert / Maria da Conceição Silva Évora


1. Comentário, com data 2 do corrente,  do Nelson Herbert,  ao poste P6815 (*):

"Apareceram também clubes de futebol como o Sport Lisboa e Benfica, 'por iniciativa de alguns nomes conhecidos da sociedade portuguesa, Gama das Construções [Gama] Lda, Pimenta do Cadastro, Casqueiro, etc.' e o Sporting Club de Bissau, 'sob a égide de Eugénio Paralta, irmão Zé Paralta, Chico Correia'... A UDIB já existia, diz-nos Cadogo Pai. No entanto, o desemvolvimento do futebol, 'trouxe mais um bafo de rivalidades, olhando a situação dos jogadores caboverdianos , importados pelo Benfica, que, para os atrair, os adeptos bem colocados, tinham que lhes oferecere bons empreegos. Bons rapazes, no fundo, Antero, os sinais [?] Tcheca, Marcelino Ferreira (Tchalino), etc." (1ª Parte, p. 6).

Caro Luis

A origem das equipas de futebol da Guiné é, por sinal,  uma das tematicas que há meses vinha eu já ensaiando propor a "debate" e [pedir] contribuições ao blogue...Sobre esta temática tenho eu recolhido alguns testemunhos, por incentivo do meu próprio progenitor... por sinal da leva dos futebolistas caboverdianos que povoaram o meio desportivo guineense da época. Alias, modalidade-rei, com a qual os caboverdianos estavam em certa medida familiarizados, através dos ingleses, que pelas passagens pelo Porto Grande da Ilha de São Vicente, introduziram o futebol e o "cricket"...Quanto a este último facto curioso, nos demais territorios "ultramarinos" de Portugal, foi o único onde a modalidade pegou e conserva ainda alguns resquícios da sua práctica.

Dessa "hegemonia" de futebolistas caboverdianos - Antero, Marcelino (Gazela),  Armando Lopes (Búfalo Bill , meu pai), Tcheca, Júlio Almeida (referenciado como um dos fundadores do PAIGC), na sua maioria atletas do Sport BISSAU e Benfica e da UDIB (caso do meu pai que,  "importado" de Cabo Verde, inicia a sua carreira na UDIB,transferindo-se anos mais tarde para o Benfica de Bissau), houve na época a necessidade de se contrabalançar...essa então "primazia" de futebolistas das ilhas, pelas razões  já expostas acima... 

E seria pois com base nesse pressuposto que nasceria o Sporting Club de Bissau (clube de que fui futebolista junior, apesar da minha paixão clubística pela UDIB)...outrora Império... e na qual militaram numa primeira fase da sua fundação, e na sua quase totalidade, futebolistas originários da Guiné. 

"Caboverdianos" do Sporting viriam depois... e entre os nomes sonantes dessa época, cito aqui o nome de "Djinha" Almeida...

Por iniciativa dos irmãos Paralta,e de mais um lote de futebolistas, de novo, na sua maioria caboverdianos, que,  na época do defeso do campeonato provincial, praticavam o ténis nos adstritos courts do então estádio Sarmento Rodrigues, nasceria a ideia de fundação estariam envolvidos do Tenis Club de Bissau...

Eis pois aqui uma proposta de "debate" e de recolha de testemunhos de que o Blog...tem sido proficuo...
Por exemplo, que papel teve a "tropa" na sustentabilidade do futebol na Guiné, pelo menos a nivel das equipas do interior do pais, algumas que com inicio da guerra deixaram de ser parte do campeonato provincial da Guiné.

Entretanto, relativamente à participação das equipas do futebol guineense, incluindo a própria selecção provincial, nas competições regionais africanas da época... Bobo Keita, um hist+rico comandante da guerrilha e talentoso futebolista guineense, entretanto ja falecido, recordou em tempos,  em entrevista por mim conduzida, o seu primeiro contacto com a ideia da necessidade da emancipação do homem africano...Aconteceu pois aquando de uma digressão da selecção provincial da Guiné ao Ghana de Kwame Nkrumah...

Mantenhas
Nelson Herbert
USA 

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(**) 4 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6827: (Ex)citações (70): O direito de um velho colon a ter um ponto de vista um tanto reaccionário (António Rosinha)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6830: Em busca de... (138): Procuro o ex-Fur Mil Carvalho ferido numa emboscada, em meados de 1965 no Gabú (Rogério Cardoso)

1. Mensagem de Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), com data de 3 de Agosto de 2010:

Amigo Carlos Vinhal
Muitos anos se passaram sem poder encontrar um amigo do HMP, ferido na Guiné e companheiro de quarto.
Assim, gostava de ver publicado o seguinte;

Procuro o ex-Furriel Mil. Carvalho, ferido numa emboscada quando uma granada de RPG atingiu o Unimog que transportava a sua Secção.

O local julgo ter sido o Gabu, mais ou menos em meados do ano de 1965.

Segundo ele me contou, toda a Secção foi aniquilada, ao cair da noite. Como se tratava de uma única viatura, ele, o Carvalho, ficou toda a noite gravemente ferido no terreno. O IN, julgando-o morto retirou.
Só de manhã foram socorridos em virtude de não haver efectivos na altura para a ajuda.

Sei que ele era de Lisboa, do Alto do Pina, estava na Enfermaria 2, nas urgências da Infante Santo.
Nunca mais o vi, era um bom amigo, por isso o meu interesse neste pedido.

Um abraço
Rogério Cardoso
rmcardoso1941@gmail.com


2. Comentário de CV:

Pesquisando no Livro I - Guiné, Tomo II - Mortos em Campanha - 8.º Volume da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), encontrei 3 mortos em Gabu (Nova Lamego), por ferimentos em combate, no dia 4 de Julho de 1965, pertencentes à CCAÇ 727.

Face a estes dados, há hipótese de o camarada Carvalho ser um dos feridos naquela emboscada do dia 4 de Julho de 1965.

Como é costume, solicita-se a quem conheça o Carvalho ou tenha conhecimento mais preciso do acontecimento, o favor de contactar o nosso camarada e tertuliano Rogério Cardoso.
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(*) Vd. poste de 14 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6731: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (25): O meu Irmão Álvaro

Vd. último poste da série de 30 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6664: Em busca de... (137): Procuro informações sobre Fernando Labaredas Torrão, Alf Mil da CCAÇ 461

Guiné 63/74 - P6829: Efemérides (50): Acontecimentos de 3 de Agosto de 1959 no cais do Pindjiguiti, Bissau (3) (Leopoldo Amado)

III (e última) parte do texto do Leopoldo Amado, historiador guineense e membro da nossa tertúlia (publicado igualmente no blogue Lamparam II, em poste de 21 de Fevereiro de 2006):

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Destaque para o último parágrafo deste importante e oportuno texto, cujo leitura e análise se recomendam aos membros da nossa tertúlia:

" (...) Para lá da obrigação que temos de preservar e partilhar os legados da nossa História comum, é natural e compreensível que subsistam – porventura, subsistirão sempre –, perspectivas interpretativas dissonantes, estas últimas, talvez decorrentes dos novos paradigmas que actualmente consubstanciam o devir das ex-colónias (hoje, países independentes que procuram legitimamente um lugar no contexto africano e no concerto das Nações) e de antiga potência administrante (hoje, um país que se pretende moderno, com uma democracia consolidada e que, legitimamente, aspira a um lugar igualmente digno no contexto europeu e no mundo)".
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Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - III (e última) Parte (*)

Reportando-nos agora ao Pindjiguiti enquanto tal, acontecimento ocorrido na sequência da greve dos trabalhadores do cais de Bissau (Pindjiguiti), a 3 de Agosto de 1959, não nos parece nem relevante, nem curial e nem sensato, atiçar uma estéril polémica acerca do número de trabalhadores mortos ou feridos.

Infelizmente, certamente porque nunca atribuí importância acrescida a questão do número de mortes, não fotocopiei e nem guardei as referências (cotas) de um ou dois relatórios circunstâncias feito então pela PSP que cheguei de manusear e ler nos Arquivos da PIDE/DGS, na Torre do Tombo. No entanto, da leitura desse relatório, fiquei com uma vaga ideia de que os números de mortos aí descritos roçam a casa dos vinte e poucos, não atingindo assim os 50 que tradicionalmente a historiografia oficial do PAIGC assinala. Porém, não se podendo negar a ninguém o interesse em apurar exactamente o número de mortos e feridos de Pindjiguiti, em que ficamos então? No quantitativo que nos é sugerido pela historiografia oficial do PAIGC, do brilhante depoimento de Mário Dias ou da suposição numérica que eu próprio introduzi?

Nos trilhos da procura da verdade, abstendo-nos sempre de emitir qualquer juízo de valor, convenhamo-nos de que persistem ainda questões pertinentes e legítimas a colocar, as quais, entre inúmeras outras plausíveis, podíamos assim tentar alinhavar:

(i) Mário Dias apenas refere-se ao quantitativo dos mortos contados localmente, não se referindo ou ignorando os que eventualmente vieram a morrer na sequência dos ferimentos registados?

(ii) Mário Dias refere-se aos mortos contabilizados na sua presença ou ao quantitativo aferido pela versão que lhe teria chegado ao conhecimento?

(iii) O quantitativo de mortos que alude a historiografia do PAIGC será um caso típico de propaganda?

(iv) Mesmo supondo que o relatório a que me refiro (a existente nos Arquivos da PIDE/DGS) situa, de facto, a ordem de grandezas na casa do vinte e poucos mortos, será que o(s) quantitativo(s) ali estampado(s) correspondem na realidade à verdade dos factos?

Como quer que seja, para lá da veracidade ou não desses números e sem iludirmos com a possibilidade imediatista de virmos a depararmo-nos de forma mágica com toda a verdade, importa sobretudo tomar as declarações dos contendores com cautelas redobradas, seja pela via da confrontação de entrevistas e depoimentos realizados ou a realizar (inclusive com o máximo de sobreviventes ainda vivos e testemunhos presenciais possíveis), seja pela via da prova de autenticidade heurística aplicada ao fenómeno, através de uma aturada investigação que privilegie a confrontação cruzada do teor da documentação disponível com o das entrevistas ou de testemunhos presenciais.

Acresce ainda, já o referimos, a necessidade de adoptarmos uma postura de humildade perante as naturais dúvidas metódicas que imensos aspectos e episódio relativos à guerra colonial versus guerra colonial suscitam, em virtude de ser um acontecimento recente que se reporta ao campo da chamada História imediata, que, por isso mesmo, ainda não criou, naturalmente, a necessária estandardização historiográfica susceptível de o conferir um maior grau de sistematização e visibilidade, aliás, razão porque nos seus meandros abundam “zonas cinzentas” cujo grau de verosimilhança ou de distorção, têm ou podem ter diversas e prováveis explicações que vão desde a necessidade de incrementar a investigação que melhore o estado actual dos conhecimentos sobre a matéria, simples desconhecimento metódico, motivações de natureza política, segredo e/ou interesse de Estado, razões de índole “propagandística” ou de deliberada falsificação, tout court.

Os poucos exemplos que a seguir daremos, muitos deles conhecidos do grande público, são ilustrativos do quanto se disse. Nos finais de 1970 em que aludia a 2600 baixas nas forças do PAIGC durante os anos de 1969 e 1970, assim repartidas:

1969 (1038)
Mortos......................614
Feridos.....................259
Capturados................165
Total......................1038

1970
Mortos......................895
Feridos.....................449
Capturados..................86
Desertores.................132
Total......................1562

Vê-se claramente que estas estatísticas obedeciam a outros desígnios de propaganda ou da guerra, pois de forma nenhuma podem corresponder a verdade dos factos, na medida em que um exér­cito de guerrilha em que o contingente máximo seria de 5000, tinha perdido, em dois anos de guerra, 2600 combatentes, sem que a luta tivesse diminuído de intensidade, antes pelo contrário. Isto não pre­cisa de comentários.

To­mando em conta os relatórios se­cretos do Estado-Maior português, as forças do PAIGC sofreram entre 1963 e 1966 as seguintes perdas, «entre outras perdas»:

1963
Mortos....................1497
Feridos.....................240
Capturados................287
Total..................... 2006

1964
Mortos.................1589
Feridos..................448
Capturados............1492
Total...................3592

1965
Mortos.................1153
Feridos..................397
Capturados............1761
Total...................3311

1966
Mortos................1125
Feridos.................256
Capturados............700
Total...................2081

Como não possuímos dados re­ferentes a 1967 e 1968, iremos con­siderar, para estes anos, a média dos anos anteriores. Assim, teríamos, para cada um deles:

Mortos ................1336
Feridos .................335
Capturados ...........1010
Total...................2681

O que totalizaria, compreen­dendo as pretensas perdas em 1969 e 1970, um total de 18.889 perdas entre os efectivos do PAIGC no decurso dos 8 anos de luta armada. Se considerarmos as ditas «outras perdas», podemos arredondar este número para 20 000.

Mesmo o observador mais distraí­do ou o menos favorável à causa da libertação por que o PAIGC dizia bater-se, con­cluirá que estes números são a melhor propaganda. Na realidade, numa guerra como que decorreu na Guiné entre 1963 e 1974, e nas con­dições concretas da Guiné, um movimento de libertação que tenha sofrido 20 000 perdas e que conti­nuava com sucesso o combate contra forças numérica e materialmente bem superiores, realizaria um feito singular, senão um milagre.

Na altura da publicação desses números de nada serviu uma entrevista do Governador Militar de Bissau à Televisão portuguesa, na qual afirmou: “No caso particular da Guiné, dos seus 550 mil habitantes, um número que não atinge os 80 000 abandonou o ter­ritório nacional ou encontra-se re­fugiado no mato».

Ora, sabe-se que, segundo os números apre­sentados pela ONU na altura, cerca de 60 mil habitantes da Guiné estavam refugiados, só no Senegal. E como 80 000 menos 60 000 é igual a 20 000, devemos concluir que, segundo os números oficiais dos balanços portugueses, secretos ou tornados públicos, eles teriam já matado, ferido ou capturado todas as pessoas que, na Guiné, esta­riam refugiadas na floresta.

Um outro exemplo que ilustra o quanto se disse, prende-se com a espectaculosidade com que os serviços de informação e propaganda do PAIGC (sem dúvida, de longe o melhor e com maior audiência africana e internacional de todos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas) reivindicou em Julho de 1970 o derrube de um helicóptero que transportava uma importante delegação parlamentar portuguesa na Guiné, quando, na verdade, o aparelho não teria resistido a um forte tornado que acabou por vitimar todos os seus ocupantes.

Aliás, bastaria uma varredura comparativa dos Comunicados de Guerra do PAIGC ou os relatórios escuta das emissões radiofundidas do PAIGC (existentes no Arquivo da PIDE/DGS) com os informes militares do Exército Português na Guiné (Intrep’s, Sitrep, Supintrep’s, etc.,) para darmos conta que a propaganda entre os contendores desencadeava frequentemente uma verdadeira atmosfera guerra de comunicados e que tanto de um lado como doutro, porque compreendiam justamente que a propaganda era uma importantíssima dimensão da guerra, faziam tudo para que os mesmos obedecessem a estratégias militares, mas igualmente a desígnios político-diplomáticos, para além da acção psicossocial.

De resto, esses comunicados tinham também um denominador comum: não raras vezes, eram elaborados com base numa torrente de factos cuja verosimilhança mantinha uma relação de base com o real acontecido, mas apenas como ponto de partida para a partir daí ampliar-se ou amputar-se de forma mitigada os desenvolvimentos ipso factu provenientes do teatro das operações, obviamente, com artifícios e/ou subterfúgios que reforçam a propensão de confundir desde o mais neutral, céptico ou atento observador.

Com efeito, à montante do ciclo fechado da guerra colonial versus guerra de libertação, não é mais possível obliterar-se o direito que assiste a todos de qualificar este ou aquele episódio como um embuste político ou militar ou uma monstruosa mentira, apesar de termos de reconhecer que, do ponto de vista estritamente da investigação histórica, ganhar-se-ia qualitativamente muito mais em procurar indagar as fontes disponíveis e tentar compreender e se possível interpretar as pretensas ou as aludidas distorções, oficiais ou oficiosas que sejam, ao invés de sobre elas se tecer juízos de valor que só aparentemente se nos apresentam como axiomas, quando frequentemente ressentem-se de uma assaz descontextualização factual, nas sua imbricadas conexões e bifurcações.

À distância dos anos da guerra, confidenciou-me um ex-elemento dos Serviços de Informação e Propaganda do PAIGC das circunstâncias em que foi mais ou menos redigido o Comunicado de Guerra que reivindicou para o PAIGC o derrube do helicóptero que então vitimou os deputados portugueses que nele viajavam. Com efeito, disse-me ele que quando abordou Amílcar Cabral, indagando-o se apenas devia no Comunicado noticiar a morte na Guiné de uma importante delegação parlamentar portuguesa, este respondeu-o: “Olha, a verdade é que, de facto, nada tivemos que ver com o sucedido, mas estamos em guerra. E em guerra, acontecimentos desses não caem do céu sem que dele tiremos os dividendos possíveis”.

Assim, pois, o PAIGC elaborou o Comunicado a que se deu a maior difusão internacional. Quanto a real dimensão do sucedido, não obstante os desmentidos vários das autoridades militares portuguesas, os mesmo não colheram provimento nos areópagos internacionais da altura, tanto mais que o PAIGC já tinha granjeado enorme prestígio em matéria de organização político-militar e contava já, no seu palmarés, inclusivamente, com o derrube confirmado de algumas importantes aeronaves da FAP (Força Aérea Portuguesa).

Mas voltemos ao Pindjiguiti, afinal, objecto principal do comentário que nos propusemos escrever, e que já vai longe, a propósito do texto de Mário Dias. Em primeiro lugar, ocorre-nos rebater a ideia redutora de que Pindjiguiti teria apenas sido uma mera reivindicação laboral cujos contornos escapou ao controle das autoridades que, em consequência, viram-se na obrigação e na contingência de usar da força. Se por um lado demostramos já que à jusante do processo libertário guineense Pindjiguiti circunscreve-se como um elo importante na cadeia de acontecimentos directa ou indirectamente a ele relacionados, pelo que não é e nem pode ser tomado como um acontecimento isolado, pontual ou circunstancial, por outro, ocorre questionar, como normalmente se faz em situações de tumultos, se na decorrência de Pindjiguiti teria havido, de facto, real necessidade de uso da força das armas por parte das autoridades coloniais? Por outras palavras, será que a resposta das autoridades coloniais teria sido proporcional à gravidade e a suposta violência gerada pelos grevistas?

Porém, se relativamente ao enquadramento histórico de Pindjiguiti nos posicionamos inequivocamente do lado da tese que aponta para a necessidade de sua contextualização histórica, já em relação as circunstâncias guindaram esta mera ou complexa contenda laboral que, estranhamente, apenas se saldou em mortos num dos lados da contenda, em lugar de aqui e acolá conjecturar com base em juízos de valor, preferimos por agora manter uma postura de dúvida metódica e aguardar serenamente que se faça mais luz sobre o estado actual dos conhecimentos sobre a problemática, se assim o podemos chamar, na media em que, muito para além das prováveis ou reais lacunas existentes na historiografia de um e outro lado, é iniludível do nosso lado a convicção segundo a qual Pindjiguiti representou e representa (com paralelismo português talvez similar ao alcance simbólico que engendrou o sequestro do “Santa Maria” por Henrique Galvão), com a toda a sua carga simbólica, um importante factor de consciencialização e um ponto de viragem decisivo no processo libertário da Guiné-Bissau.

Esta interpretação e esta percepção, independentemente da forma como foi depois objecto de tratamento por parte da historiografia oficial do PAIGC, teve-a avant la lettre Amílcar Cabral, com a clarividência e a capacidade peculiares de antever as situações que sempre o caracterizaram.

Quando a XVª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sua reunião plenária de 14 de Dezembro de 1960, aprovou a resolução 1514, mediante a qual estabelecia os princípios para a concessão da independência aos territórios sob domínio colonial e proclamava solenemente “a necessidade de eliminar, rápida e incondicionalmente, o colonia­lismo em todas as suas formas e manifestações”, Amílcar Cabral e os nacionalistas das ex-colónias reunidos à sua volta (primeiro na CEI (Casa dos Estudantes do Império) e depois no Centro de Estudos Africanos e no MAC, convieram em 192 da necessidade de uma acção espectacular com vista a chamar à atenção da comunidade internacional sobre a situação das colónias portuguesas, particularmente os de África.

Nesse sentido, Amílcar Cabral e Mário de Andrade deslocaram-se várias vezes a Londres entre 1959 e 1960, pelo que datam dessa época as primeiras denúncias internacionais do colonialismo português, os quais foram sobretudo feitas pelo escritor e africanista britânico Basil Davidson, secundados também com conferências de imprensa que aqui e acolá Abel Djassi (pseudónimo de Amílcar Cabral) e Mário de Andrade foram dando em Londres e que acabaram por servir de antecâmara a grande conferência de imprensa que os nacionalistas das colónias portuguesas realizaram depois em Dezembro de 1960.

Assim, escolhida a cidade de Londres, por razões óbvias, obtido o apoio de certos círculos hostis ao colonialismo português e redigido em língua inglesa uma brochura que Amílcar Cabral intitulou Facts About Portugal's African Colonies, o caso que agora nos interessa, realizou-se uma concorrida conferência de imprensa apresentada por parte de cada um dos representantes das colónias portuguesas, versando todos eles sobre a situação das mesmas, dando ênfase ao massacres, (pelo PAI: Amílcar Cabral e Aristides Pereira, pelo MPLA: Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Américo Boa Vida e pela Goa League: João Cabral) (29).

É nessa brochura da autoria Amílcar Cabral faz no plano internacional a primeira denúncia de Pindjiguiti, de resto, texto esse que apresentou como o primeiro relatório perante o Conselho especial da ONU em Junho de 1962 e a 12 de Dezembro de 1962, desta feita, quando prestou declarações perante a 4.ª Comissão da ONU.

Tratava-se, claro está, de conquistar a adesão, desavisada ou não, dos círculos londrinos e da comunidade internacional, pelo que não se difícil aferir-se ou excluir a hipótese de que a descrição desses massacres teriam sido ou não alvos de excessivo empolamento, tanto mais que no intróito do Facts About Portugal's African Colonies Amílcar Cabral foi incisivo ao espelhar os objectivos subjacentes: “ (...) é preciso conhecer e dar a conhecer os objectivos do inimigo para melhor o combater – tarefa que urge realizar não só junto dos militantes directamente engajados, como junto da opinião africana e internacional, ainda mal informada e muitas vezes iludida pela ideologia colonial portuguesa (...)”.

Porém, é importante referir-se que as denúncias internacionais de Pindjiguiti e que – catalisaram em medida considerável a sua interiorização e longevidade no imaginário colectivo guineense – foram posteriores ao “Memorandum” e “Nota ao Governo Português” endereçados por Amílcar Cabral ao Governo português, o que demonstra que desde cedo o PAI optou sempre por enquadrar e mesmo legitimar o seu substracto ideológico, pelo menos em termos de enunciado, identificando-a com os princípios da legalidade internacional, mormente com o postulado das Nações Unidas e dos Direitos Humanos.

No fundo, o objectivo que Amílcar Cabral perseguia perante o silêncio das autoridades coloniais portuguesas era a obtenção da legalidade e atmosfera internacionais propícias ao desencadeamento da guerra, segundo o postulado que ele próprio definiu como “supremo recurso”, e que acabou de certa maneira por se incorporar no Direito Internacional, ou seja, o direito de recurso a todos os meios possíveis, inclusivamente os violentos, para erradicar o colonialismo. Aliás, não foi por acaso que no dia 25 de Junho de 1962, foi atacado a vila de Catió (destruição da jangada de Bedanda e cortes de fios telefónicos e estradas com abatises), marcando-se do lado do PAIGC à passagem a acção armada, pois a luta armada em só começaria no ano seguinte como ataque ao quartel de Tite, a 23 de Janeiro de 1963.

Daí que, para além das denúncias de caracter económico, político ou humanitário, Amílcar Cabral tivesse também apelado no Facts About Portugal's African Colonies “(...)para todas as forças democráticas e progressistas do mundo, para os povos e para os Governos anti-colonialistas, para as organizações sindicais, da juventude, das mulheres e dos estudantes, para as organizações jurídicas internacionais e, em particular, para os Governos dos países africanos e asiáticos, para que um auxílio concreto e imediato seja concedido ao nosso povo em todos os planos, com vista à libertação dos patriotas presos e ao desenvolvimento da nossa luta de libertação nacional. (...)”. Em particular, renovava “ (...) o seu veemente apelo às Nações Unidas para que, em defesa do seu próprio prestígio aos olhos do mundo, se decidam a tomar, sem demora, medidas eficazes para acabar com os crimes dos colonialistas portugueses no nosso país e obrigar o Governo de Salazar a respeitar o direito do nosso povo à autodeterminação e à independência nacional. (...)”.

Ora, para lá do provável ou mesmo real empolamento de Pindjiguiti ou da justeza ou não das formas e conceitos, sempre discutíveis, sobre a forma como Pindjiguiti foi etiquetado (contenda laboral, massacre ou carnificina) ou ainda do quantitativo de mortes que se saldou na decorrência do acontecimento enquanto tal, temos para nós que o que se afigura importante é o reconhecimento da importância e o alcance históricos que o mesmo teve, à jusante e à montante da guerra colonial/guerra de libertação, no contexto do processo libertário do povo guineense.

Aliás, não foi por acaso que depois de Pindjiguiti o PAIGC logrou atingir uma assinalável mobilização que permitiu o desencadeamento da luta armada de libertação. Também, não foi por acaso que no decorrer da guerra colonial/ guerra de libertação, invariavelmente, o PAIGC normalmente assinalava a efeméride com ataques simultâneos a várias localidades, inclusivamente os centros urbanos, sobretudo a partir de 1968.

Não foi igualmente por acaso que em 1962, os vários partidos e movimentos de libertação que pululavam em Dakar e Conakry (mais contra o PAIGC do que contra o colonialismo português) decidiram criar a 3 de Agosto desse mesmo uma frente de luta, a FLING. Por fim, não também por acaso que Spínola, por ironia do destino, mas com objectivos claramente à vista, procedeu, no âmbito da sua política da “Guiné Melhor”, a 3 de Agosto de 1969, a uma espectacular libertação de cerca de uma centena de prisioneiros políticos, dos quais Rafael Barbosa, Ex-Presidente do PAIGC, bem como todos os que se encontravam na colónia penal de Tarrafal em Cabo Verde, e no Forte de Roçadas, em Angola, em pleno deserto de Moçamedes.

Para fechar este texto – que inicialmente apenas tinha o propósito de tecer um comentário em torno do texto de Mário Dias ­ –, mas que acabou por se alongar demasiadamente, pois comporta(va) a preocupação de subsidiariamente ir dando vazão ao repto lançado por Luís Graça no sentido de trazer à colação elementos disponíveis dos Arquivos. Como dizia, para fechar este texto, direi apenas que, mesmo não subscrevendo algumas ideias expressas por Mário Dias, as quais não obstante procurei rebater com a devida lisura e respectiva contra-argumentação de que me fui valendo, tanto na minha tese de doutoramento como em outras investigações, afirmo e reitero a importância de que se reveste o texto de Mário Dias, de resto, uma contribuição extraordinária para o actual estado do conhecimento sobre a matéria, na justa medida em que, muito para além da importância narrativa e historiográfica que encerra, voluntária ou involuntariamente, quebra o tabú de abordagem sobre um passado recente (a guerra colonial/guerra de libertação) com o qual, talvez por razões compreensíveis e atinentes a uma lenta e demorada catarse ainda não reconciliou com o mesmo os actores passivos dessa mesma guerra, mas também por se afigurar como mais um testemunho presencial, privilegiado, é certo, a juntar-se a muito poucos existentes (30).

Pese embora as normais diferenças de leitura do événementiel, fundado este último em distintas interpretações que se nos opõe relativamente a interpretação do mesmo sujeito histórico (o que é salutar), e ainda as naturais reservas que me suscitaram o importante testemunho presencial de Mário Dias (tanto mais que parte do mesmo reporta-se a uma situação de retransmissão do que lhe foi transmitido (a chamada e imprescindível Oral History tem dessas armadilhas) e porque também, estranhamente, não se referiu a presença no cais de Pindjiguiti, de soldados africanos Domingos Ramos (seu conhecido) e outros como o Constantino Teixeira, vulgo Tchutchú Axon – futuros comandantes da guerrilha do PAIGC (31), do meu lado não restam dúvidas relativamente a preocupações ou motivações que a ambos move – e nisso estamos conversados! –: alertar para a necessidade de uma cada vez maior necessidade de desmistificação e clarificação das naturais “zonas cinzentas” (as “meias-verdades ou mesmo “inverdades”, certamente existentes) que ainda conspurcam a novíssima abordagem histórica da guerra colonial/guerra de libertação, em ordem à reposição, tanto quanto possível, da(s) verdade(s) histórica(s) a que legitimamente todos aspiram e, a não menos importante constatação, no sentido em que ninguém é detentor de toda a verdade histórica sobre a guerra colonial/guerra de libertação e qualquer que ela(s) seja(m), não pode(m), pelo menos por agora, não pode pretender ser única e nem axiomática, tanto mais que, para lá da obrigação que temos de preservar e partilhar os legados da nossa História comum, é natural e compreensível que subsistam – porventura, subsistirão sempre, perspectivas interpretativas dissonantes, estas últimas, talvez decorrentes dos novos paradigmas que actualmente consubstanciam o devir das ex-colónias (hoje, países independentes que procuram legitimamente um lugar no contexto africano e no concerto das Nações) e de antiga potência administrante (hoje, um país que se pretende moderno, com uma democracia consolidada e que, legitimamente, aspira a um lugar igualmente digno no contexto europeu e no mundo).

Leopoldo Amado
Fevereiro de 2005
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Notas do autor:

(29) Marcelino dos Santos estava no grupo mas não participou

(30) Ocorrem-me presentemente apenas os testemunhos presenciais de Upadai Gomes, ex-marinheiro sobrevivente de Pindjiguiti, entretanto já falecido, e de Carlos Correia, ex-Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau, que presenciou os acontecimentos a partir das imediações e cercanias do cais de Pindjiguiti) os quais, salvo o erro, foram publicados, há pelo menos dez ou mais anos, no Jornal “Nô Pintcha”, em jeito de evocação histórica da efeméride (3 de Agosto é feriado nacional na Guiné-Bissau

(31) Entrevista de Rafael Barbosa a Leopoldo Amado.
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Notas de CV:

(*) Vd. postes de:

3 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6821: Efemérides (46): Acontecimentos de 3 de Agosto de 1959 no cais do Pindjiguiti, Bissau (1) (Leopoldo Amado)
e
4 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6826: Efemérides (47): Acontecimentos de 3 de Agosto de 1959 no cais do Pindjiguiti, Bissau (2) (Leopoldo Amado)

E ainda postes de:

15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXV: Pidjiguiti, 3 de Agosto de 1959: eu estive lá (Mário Dias)

18 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLVII: Antologia (36): o massacre do Pidjiguiti (Luís Cabral)

21 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXIII: Pidjiguiti: comentando a versão do Luís Cabral (Mário Dias)

26 de Fevereiro de 2006 >Guiné 63/74 - DLXXXIX: Pidjiguiti: resposta do Mário Dias ao Leopoldo Amado

2 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4452: Controvérsias (15): O 'massacre do Pidjiguiti', em 3 de Agosto de 1959: o testemunho de Mário Dias

27 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6793: Notas de leitura (136): Invenção e Construção da Guiné-Bissau, de António Duarte Silva (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P6828: Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (3): Estabelecido por conta própria em 1955



Continuação da publicação das memórias de Cadogo Pai (*)... O documento, de 26 páginas, tem por título: Memória de Carlos Domingos Gomes, Combatente da Liberdade da Pátria: Registos da História da Mobilização e Luta da Libertação Nacional. Recordar Guiledje, Simposium Internacional, Bissau, 1 a 7 de Março de 2008.

Excertos da 1ª Parte, Pág. 7-9 


"17. Foi a fase em que surgiu Amílcar Cabral, [em 1952, o qual ] jogou um papel importante, inteligente, em que organizou a sociedade, fazendo serenar os ânimos [exaltados devidos às ] rivalidades, e levando os adeptos a uma camaradagem que se impunha, e a um convívio em paz. E unidos, no sentido de organizar o combate ao único inimigo da Pátria, o nefasto colonialismo.

“Amílcar organizou os contactos, restritos. Para defesa da confidencialidade necessária”: Elisée Turpin, Inácio Semedo, Fernando Fortes, Luís Cabral, Aristides Pereira, Epifânio Soto Amado, Júlio Almeida, guarda-redes da UDIB, etc.

"18. Os colonialistas, em vez de corrigirem, incentivaram mais os motivos das rivalidades e dos reparos dos guineenses: Liceus em Cabo-Verde, bons empregos, salários desiguais, etc.

"19. Vinha de Bolama, as reuniões eram no quarto de Elisée Turpin, [,em Bissau,] que ficava situado atrás do salão onde se pratica hoje o judo. Vinham conhecidos dele do Senegal e os encontros eram ali e também na messe do B.N. U. [, Banco Nacional Ultramarino,] com os cabo-verdianos, empregados do B.N.U. que passaram a dar uma contribuição válida, Lima Barber, Júlio Simas, Eanes, Cézar, Lomba Nascimento, etc., sendo os últimos de S. Tomé.

“Após as reuniões, o camarada Luís Cabral, invariavelmente, mantinha-s eno passeio do B.N.U,, a passear. Ao chegarmos à esquina da empresa francesa NOSOCO (hoje Henrique Rosa), o Elisée dizia-nos:
- Um momento, para eu dar uma fala ao Luís Cabral.  

"Mas nunca dizia o que ia tratar com ele"... 









Cópia da 1ª Parte, pág. 8 (em cima)... Transcrição da página 9 (a seguir):

"razão do meu constrangimento e propôs-me uma transferência para Paris, dada a confiança que ganhei em toda a organização, a exemplo de muitos colegas que foram transferidos na altura para Ziguincgor, Dakar, etc. 

"Avisou-me que o vento da Independência iniciada nos países vizinhos (Conakry, Senegal, etc.) chegaria à Guiné-Bissau e aconselhou-me que, se ficasse na Guiné, iria passar mal, como passei.

"Após esta reunião, decidi adiar a minha decisão, era altura da campanha, mas com o constrangimento a que éramos obrigados nas compras dos produtos, voltei à carga com a decisão. Foi assim que me estabeleci por conta própria a 5 de Setembro de 1955.

"Fim da 1ª Parte".

[ Revisão / fixação  de texto/ excertos / digitalizações / título: L.G.]

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Nota de L.G.:

 (*) Vd. postes anteriores da série:


2 de Agosto de 2010 > 
Guiné 63/74 - P6815: Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (2): A elite guineense nos anos 50


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Guiné 63/74 - P6827: (Ex)citações (87): O direito de um velho colon a ter um ponto de vista um tanto reaccionário (António Rosinha)

1. Comentário de 29 de Julho último, assinado por António Rosinha [, foto à esquerda,  em Pombal, 2007, de L.G.], ao poste P6802:

 Beja Santos, esta tua capacidade e força para publicares e analisares tudo o que se escreve sobre a Guiné, enriquece imenso este blogue. Com a vantagem de deixar campo para cada leitor fazer a própria análise.

E, no caso deste livro, que não dá muitas novidades mais que outras leituras, é aquela dúvida se seria exactamente o PAIGC de Amílcar e Luís Cabral, que os guineenses queriam.

Atenção,  que eu assisti ao 14 de Novembro de 1980, em que Vasco Cabral (não era da família),também foi baleado à porta de casa por «uma bala perdida».

E o facto de alguns guineenses ficarem satisfeitos com a nova constituição, o povo em geral também não teve opinião. Porque aquilo não foi mais do que um tiro no próprio pé do PAIGC.

Será que a grande preocupação do povo seria mesmo uma nova "constituição"? É que aqueles que se diziam membros do PAIGC apregoavam que o golpe nos «bormelhos» foi justo, porque tanto a distribuição dos lugares bons, assim como a distribuição dos automóveis, tinha ido parar às «mãos erradas».

Era um bom motivo para um golpe de estado, visto do PAIGC;  do PAICV, nunca li grandes comentários.

Mário e Luís, o facto de eu ser um velho «colon»,  também tenho direito a analisar de um ponto de vista um tanto reaccionário.

Faço votos que a democracia imposta pelos FMI, ONU, Banco Mundial, e Igreja, e umas tantas ONG, substitua um dia a droga e a corrupção, e fixe os guineenses mais preparados na sua terra. Caso contrário, com o tempo desaparece a nossa velha Guiné.

2. Outro comentário (ao poste P6807) do camarada do nosso querido amigo António Rosinha, a quem desejamos saúde  e longa vida:

Luís Graça, deve ser interessantíssimo publicar na íntegra as memórias do Cadogo Pai, que provavelmente vai permitir, simultaneamente,  ficarmos com uma ideia sobre Cadogo Filho, 1º ministro e talvez o maior empresário guineense pós-independência.

Se o pai não seria histórico do PAIGC?

Podia não ser, mas Luís, nos anos 50,  todos os guineenses letrados, chamemos-lhe assim, (não indígenas), tipo Luís Cabral, da Casa Gouveia, dos Correios,  tipo Aristides, ou o Cadogo, de uma casa comercial, todos eram nacionalistas.

Tanto do PAIGC em Bissau, como do MPLA e outros de Angola, todos eram nacionalistas.  Antes de Março de 1961, não se preocupavam muito em esconder o que pensavam e até o manifestavam entre amigos e colegas metropolitanos.

O que confundia muitos, era essa ligação política ao comunismo, e veio a ver-se,  depois de Março de 1961, as ligações aos americanos através das missões evangelistas em Angola.

Daí haver milhares que, sendo nacionalistas, nunca aderirem aos movimentos. Daí  também se contarem pelos dedos os pouquíssimos dirigentes (letrados) do MPLA e do PAIGC.

É que,  quando lemos tudo o que há escrito sobre os movimentos, principalmente do PAIGC, que secou os outros em volta, são sempre um pequeno grupo.

No entanto todos eram nacionalistas, desde os que foram Cabos, Furriéis e Alferes do nosso exército,  lado a lado connosco, como os que foram colegas de trabalho.

O Cadogo, incompreensivelmente aos olhos de um tuga, tinha sucesso como empresário, em plena implantação do comunismo mais ortodoxo em Bissau de Luis Cabral.

Cumprimentos.
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Nota de L.G.: