sexta-feira, 15 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19588: Notas de leitura (1159): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (77) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2018:

Queridos amigos,
Aqui se faz menção da derradeira documentação avulsa constante do Arquivo Histórico do BNU.
São papéis que referem a pretensão de criar uma delegação do BNU em Bafatá, o processo iniciou-se em 1970, nunca foi concretizado, naturalmente se abandonou a ideia com a independência. Fala-se também das expetativas depositadas na CICER - Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné, um empreendimento industrial que recebeu o entusiasmo de muitos, desgraçadamente acabou no charco. Fala-se em dádivas do BNU para a construção do busto de Amílcar Cabral e para o monumento aos mártires do colonialismo, em 1975; consta no processo o parecer dado por Lisboa sobre o pagamento da contribuição industrial e imposto complementar do BNU em Bissau. E por fim aqui se refere a notícia de que a Sociedade Comercial Ultramarina estava a ser nacionalizada, o mesmo já acontecera com a Casa Gouveia e com a empresa Barbosa e Comandita.
A última etapa deste trabalho será aqui expor o que demais relevante se encontrou a partir de 1974 para a transferência do património do BNU para o Banco Nacional da Guiné-Bissau, no fundo são peças históricas que terão que ser integradas um dia no que foi a vida do BNU na colónia da Guiné, de 1902 até depois da independência.
Peço a todos que vejam a beleza das imagens que a investigadora Lúcia Bayan nos ofereceu sobre os jogos e a sua função didática na etnia Felupe, que ela investiga com tanto entusiasmo.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (77)

Beja Santos

Continuamos à volta com a documentação avulsa constante do Arquivo Histórico do BNU. Em termos cronológicos, há que referir que em 4 de fevereiro de 1972 se produzira um memorando sobre a criação de uma dependência do BNU em Bafatá. Em setembro de 1970, o subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino autorizara a abertura em Bafatá de uma dependência. O Banco já deslocara a Bafatá um funcionário para analisar as hipóteses de escolha de um edifício, concluíra-se que o imóvel com melhores condições era um edifício pertencente ao Banco então arrendado a Afif Elawar, súbdito libanês. O Banco começou os seus preparativos, definindo o modo de funcionamento, o número de empregados necessários e estabeleceu contactos com o arrendatário do prédio, a fim de obter a sua devolução.

Devido à reação do arrendatário, que não queria prescindir do arrendamento, o Banco chegou a encarar a hipótese de tentar a ação de despejo. O representante do arrendatário apresentou uma proposta no sentido de rescisão amigável, a proposta foi aceite. Já em janeiro de 1972 as gentes de Bafatá insistiam na criação da dependência, fora mesmo enviado à filial de Bissau um telegrama em que as autoridades, comerciantes, industriais e agricultores e toda a população dos concelhos de Bafatá e Gabu lamentava que ainda não tinha sido dada execução à promessa feita em 1970.

O processo arrasta-se e vem a independência da Guiné-Bissau, o último documento que possuímos data de 23 de outubro de 1974, o despacho é concludente acerca do novo edifício para a delegação de Bafatá: “Não é oportuno neste momento”.

Passamos agora para o dossiê CICER – Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné. Possuímos dois documentos de junho e novembro de 1974. Diz-se no primeiro que a CICER foi constituída em finais de dezembro de 1971, eram os seus principais acionistas a Sociedade Central de Cervejas, a Companhia União Fabril Portuense, a Cuca de Angola e a Fábrica de Cervejas Reunidas de Moçambique, Lda.
Fazia-se uma relação dos encargos da construção da fábrica da CICER em Bandim. Em novembro de 1974, o BNU emitiu um parecer do seguinte teor:
“Após o 25 de Abril, a sua produção baixou para a média de 4 a 5 milhões de litros anuais de cerveja e 2 a 2,5 milhões de litros de refrigerantes. As suas vendas cifram-se entre 6 a 8 mil contos mensais.
Pensam, muito em breve, lançar no mercado, também, água de mesa e água gaseificada.
Dada a boa qualidade dos seus produtos e o interesse dos territórios vizinhos na sua aquisição, prevê-se num futuro muito próximo que a fábrica volte a trabalhar em pleno. Sabemos ainda que a Nação Cubana está também interessada na produção da fábrica, pelo que se estão encetando as respectivas negociações através do Governo local.
O valor atribuído à fábrica é de 130 mil contos. Tem-na visitado muitos estrangeiros, após o 25 de Abril, tecendo-lhe os maiores encómios, pois esperavam encontrar uma fabriqueta e não uma moderníssima fábrica, muito bem situada e com o privilégio de possuir no seu subsolo uma das melhores águas do mundo – dizem – para a fabricação dos seus produtos.
Em face do que fica exposto, e pelas perspectivas que se antevêem, damos o nosso acordo à concessão do crédito de 50 mil contos solicitado, com vista à liquidação das três conta-correntes caucionadas.”

Estamos já em 1975, o BNU é contactado para contribuir para a construção do monumento aos mártires do colonialismo. O documento reza o seguinte:
“A tarde do dia 3 de Agosto de 1959 ficou dolorosamente marcada na história do nosso povo.
Nesse dia, em Bissau, no cais do Pindjiquiti, armas empunhadas por mãos assassinas de servidores fiéis do colonialismo ceifaram as vidas de dezenas de irmãos nossos, indefesos, levando a dor e a morte a centenas de lares.
Fizeram-se vítimas. E tal acto repercutiu-se tragicamente por todo o nosso país, pela África e pelo mundo.
Mas, nesse dia, o Governo colonial, contrariamente a todos os seus desejos, ajudou a dar um grande passo na caminhada pela reconquista da liberdade e da dignidade do nosso povo.
O massacre do Pindjiquiti jamais será esquecido, dado o seu alto significado na luta de libertação nacional.
Por isso, o nosso Partido e o nosso Estado tomaram a decisão de comemorar essa data, considerando feriado nacional o dia 3 de Agosto. A população de Bissau, no grande comício de 20 de Janeiro último, dia dos ‘Heróis Nacionais’, decidiu dar o nome de ‘Avenida do 3 de Agosto’ à avenida marginal e o nome ‘Praça dos Mártires do Colonialismo’ ao largo existente na zona do Pindjiquiti.
Neste local existia um monumento através do qual o Governo colonialista pretendia glorificar o ‘descobridor da Guiné’, Nuno Tristão.
Pois bem: na actual Praça dos Mártires do Colonialismo, na zona onde esteve o monumento a Nuno Tristão, é dever nosso honrar os mártires do colonialismo, erguendo-lhes um monumento que deve ser inteiramente custeado pelo nosso povo e por todos aqueles que, vivendo na nossa terra, quiserem juntar-se a nossa homenagem de gratidão eterna aos que ficaram pelo caminho nos longos anos de resistência contra a dominação e a exploração estrangeiras.
Para começar a concretizar essa ideia, foi criada uma comissão para recolha de fundos”. 

E indicavam-se os nomes: Rui das Mercês Barreto, Tiago Aleluia Lopes, Carlos Gomes, Armindo Ferreira, Teodora Inácia Gomes e João Maurício Chantre. A comissão era designada por “Comissão do Abota Nacional para o Monumento aos Mártires do Colonialismo”. O Comissário de Estado Rui Barreto, Presidente da Comissão assinava o manifesto em 26 de julho de 1975. O BNU ofereceu 5 mil escudos como oferta na contribuição do busto mandado erigir a Amílcar Cabral. O recibo de receção é assinado por Carlos Domingos Gomes com a data de 16 de maio de 1975, tratou-se de uma dádiva distinta da anterior.

Em 30 de junho de 1975, a administração em Lisboa informa a gerência do BNU em Bissau que a atividade exercida pela filial obedece a condicionalismos legais que têm de ser tidos em conta, no pressuposto de que as disposições fiscais, então vigentes, não sofreram alteração: o BNU continuaria a ser tributado pela contribuição industrial; sujeito a ser coletado pelos rendimentos anuais no Estado quanto ao imposto complementar.
E emitia-se o seguinte parecer:
“Em face do que antecede, é nosso entendimento que os elementos a declarar durante o corrente mês de Junho estão de harmonia com os preceitos legais vigentes nessa ex-colónia portuguesa; é evidente que, salvo acordo ou determinação legal das actuais autoridades desse Estado, os preceitos legais referidos como aplicáveis à actividade do Banco durante todo o ano de 1974, são de aplicar, pelo menos, até à data da proclamação da independência desse território".

Nesta documentação avulsa, encontra-se a fotocópia de uma notícia publicada no vespertino Diário de Lisboa, com a data de 30 de julho de 1976, com o seguinte título: Técnicos portugueses negoceiam nacionalização de duas empresas.
Notícia com a seguinte redação:
“Encontram-se em Bissau dois técnicos portugueses para conduzir as negociações com o Governo da Guiné-Bissau para a nacionalização da Sociedade Comercial Ultramarina, do capital social desta empresa comercial, a segunda do país, depois da Casa Gouveia, já integrada nos Armazéns do Povo, 80% ficará para o Estado guineense e os restantes 20% para uma companhia portuguesa de sabões do grupo CUF.
Foram entretanto transferidos para os Armazéns do Povo os bens da empresa Barbosa e Comandita. A integração fez-se a pedido e por iniciativa dos antigos proprietários, devido às dificuldades encontradas para a realização dos lucros anteriormente auferidos. Segundo o Comissário de Estado do Comércio, Armando Ramos, ‘nenhuma destas empresas tinha possibilidades de sobreviver sem a intervenção do Estado para transformar as suas estruturas. Isto porque os moldes em que foram implantadas na nossa terra estão em desacordo com os princípios da nossa sociedade que estamos a criar’. A Sociedade Comercial Ultramarina começara como sociedade por quotas, com o capital social de 500 contos. Mas com a subida vertiginosa dos lucros, o capital foi sendo aumentado até chegar a 100 mil contos e até assumir a forma de sociedade anónima. Dedicava-se ao comércio de exportação, mas na fase final passou também a explorar o comércio interno e pequenas unidades industriais. Possui 54 postos de venda espalhados pelo País e emprega 672 trabalhadores efectivos”.

Assim se encerra a consulta à documentação avulsa do Arquivo Histórico do BNU.

A derradeira parte deste trabalho tem a ver com a documentação do BNU para a transferência do património para a Guiné-Bissau, documentação extensa, a que procedemos necessariamente a uma simplificação dos elementos considerados mais pertinentes, até ao momento em que o BNU da Guiné se extinguiu e passou a estar integrado no Banco Nacional da Guiné-Bissau.

(Continua)

Foto 1

Foto 2

Foto 3

Foto 4

Comentários de Lúcia Bayan, investigadora da etnia Felupe, que amavelmente cedeu estas imagens para o nosso blogue, agradeço-lhe em nome de todos esta prova de consideração:

Os jogos tradicionais entre Felupes

As sociedades tradicionais africanas, como a Felupe, utilizam estratégias próprias para a educação e integração dos jovens na organização social. É sabido que os Felupes prezam muito a liberdade individual, mas sempre limitada por regras e valores sociais. Um exemplo é “meter a mão em seara alheia”, considerado um dos maiores crimes, podendo ser penalizado com expulsão da tabanca. Desta forma, em chão Felupe, raramente alguém é roubado. A eficácia do método felupe para resolver estas questões tem levado a que seja adotado em algumas povoações multiculturais, como, por exemplo, em São Domingos.

Uma das estratégias felupe para educar as suas crianças e jovens e os integrar na sua organização social são os jogos e as lutas. Dos primeiros ficam aqui fotos de dois: o jogo das vacas e um jogo, que não sei o nome, mas é do género do “Seega”, um jogo de tabuleiro tradicional jogado em partes do Norte e da África Ocidental, por dois jogadores, num tabuleiro de 5×5, geralmente com pedras. Um exemplo deste jogo pode ser visto aqui: https://elegbaraguine.wordpress.com/2015/02/11/jogos-africanos/.

O jogo das vacas é jogado por dois jogadores, munido cada um de um pequeno pau com um fruto espetado numa ponta, simbolizando uma vaca, e consiste numa luta de vacas. Indicado para rapazes da 2.ª classe de idade (dos 5 aos 12 anos), este jogo, além da função lúdica, visa desenvolver as capacidades necessárias para estes rapazes exercerem a principal obrigação desta classe de idade, pastorear e tomar conta do gado, e também o início da sua preparação como guerreiros.

O jogo do Seega visa estimular o raciocínio lógico matemático e cognitivo. Na sociedade Felupe, o tabuleiro é o chão, onde são escavados 25 pequenos buracos e as 12 pedras, que não existem em chão de areia, foram trocadas por paus ou palhas, num jogo indicado a adultos e crianças. As três fotos mostram três homens a jogar (foto 1), um adulto a ensinar crianças (foto 2) e estas a jogarem (foto 3).
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Nota do editor

Poste anterior de 8 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19562: Notas de leitura (1156): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (76) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 13 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19581: Notas de leitura (1158): o caso do jornal diário "O Arauto", extinto em 1968, num artigo da doutora Isadora Ataíde Fonseca, sobre a imprensa na época colonial (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P19587: (D)o outro lado do combate (47): A Missão especial da ONU na Guiné - Abril 1972 (António Graça de Abreu / Luís Graça) - Parte II: capa + pp. 4-8





1. Continuação da publicação, para conhecimento e análise crítica dos nossos leitores, do relatório, de 11 (onze) páginas,  policopiado, que tem por título em português "A Missão Especial da ONU na Guiné - Abril de 1972" (*). É uma versão, mais resumida do original, "Report of the Mission of the United Nations Special Committee on Decolonization after visiting the liberated Areas of Guinea-Bissau (A/AC. 109/L. 804; 3 July 1972)".

A cópia, em papel, de que dispomos foi-nos fornecida, com vista a uma eventual publicação no blogue, pelo nosso camarada António Graça de Abreu, por volta de 2010, na sequência dos comentários ao poste P5680 (**)

O documento que agora estamos a publicar parece corresponder à seguinte referência  que encontramos  na base de dados bibliográfica do CIDAC - Centro De Intervenção Para O Desenvolvimento Amílcar Cabral:

BAC-051/2

CIDAC

BORJA, Horácio Sevilla ; LOFGREN, Folke ; BELKHIRIA, Kamel
A Missão especial da ONU na Guiné Bissau, Abril 72 / Horácio Sevilla Borja, Folke Lofgren, Kamel Belkhiria . - [S.l.] : PAIGC, 1972. - 11 p

Portanto, a edição é atribuída ao PAIGC. É uma edição tosca, para não dizer mesmo, "pirata", do relatório da Missão Especial. Mas as partes traduzidas em português correspondem ao original em inglês. Não sabemos de quem é a tradução. Há diversos erros quer de datilografia quer de português. A autoria é atribuída aos três membros da Missão Especial, os diplomatas Horácio Sevilla Borja (Equador), Folke Lögfren (Suécia) e Kamel Belkhiria (Tunísia).

Não sabemos a origem do documento: o António Graça de Abreu poderá explicar-nos. É possível que tenha circulado antes do 25 de Abril, clandestinamente. De qualquer modo, é ainda pouco conhecido, ao fim destes anos todos. No tempo da ditadura, com o país em guerra, era impensável a censura deixar passar, na imprensa, referências detalhadas a esta Missão Especial da ONU e, muito menos, ao seu relatório. 

Em abril de 1972 ninguém sabia (nem podia saber...) desta "missão". De resto, o medo dos portgueses era...  "a guerra do Vietname" e a iminente derrota militar dos Estados Unidos: vejam-se os títulos de caixa alta dos jornais da época... "Guiné ?... Isso é longe do Vietname", ironizavamos nós, em 1969, no bar de sargentos de Bambadinca...

Os três membros do Comité Especial de Descolonização da ONU, mais dois membros do "staff" da ONU,  visitaram as "áreas libertadas da Guiné-Bissau" (sic), de 2 a 8 de abril de 1972, antes da época das chuvas, a convite do PAIGC, e à revelia do Governo Português. Claro que a missão tinha que ser secreta, por razões de segurança. Nesse curto espaço de tempo (menos de um semana), terão percorrido  200 quilómetros, quase sempre a pé, visitando 9 localidades diferentes, numa parte restrita da Região de Tombali:  sectores de Bedanda, Catió e Quitafine.

Os diplomatas focaram a sua atenção nas estruturas militares, tabancas,  escolas e armazéns, e fizeram depois apreciações, que constam no relatório, sobre "a situação no campo do ensino, da saúde, da administração da justiça, da reconstrução da economia e da formação de uma assembleia nacional". Os membros da missão vestiam fardas militares, com insígnias das Nações Unidas, e tiveram escolta de um bigrupo reforçado do PAIGC (cerca de 60 homens armados) sob o comando do Constantino Teixeira. 

No regresso, já a 6 de abril, a escolta passou a ser de 200 homens, provavelmente com o receio de alguma ação militar portuguesa com vista a capturar os diplomatas.

A principal base do PAIGC referida no relatório, dentro do território da então província da Guiné, era na zona de Balana / Gandembel, ou seja, no corredor de Guileje.

Já agora ficam aqui os nomes e os cargos dos cinco elementos que compuseram a Missão:

(...) Mr. Horacio Sevilla-Borja, Deputy Permanent Representative of Ecuador to
the United Nations (Chairman)~

Mr. Folke Löfgren, First Secretary of the Permanent Mission of Sweden to the
United Nations

Mr. Kamel Belkhiria, First Secretary of the Permanent Mission of Tunisia to
the United Nations

The Special Mission was accompanied by the following Secretariat staff: 

Mr Cheikh Tidiane Gaye (Principal Secretary) and Mr. Yutaka Nagata (photographer). 

(Fonte: relatório original em inglês)

Publicam-se mais 5 páginas do documento supracitado (pp. 4-8).

Repare-se no cuidado que o PAIGC teve com a segurança dos elementos da Missão Especial:  foram escoltados, à partida, por uma força de 60 guerrilheiros, de 1 a 3 de abril; na noite de 3 de abril, na viagem, da base central em Balana (corredor de Guileje) até ao setor de Cubucaré (zona de Catió), tiveram uma escolta de mais de 400 homens armados; na tarde de 6 de abril, iniciam a viagem de volta (até à fronteira com regressso a Conacri,via Kandiafara e Boké), com uma escolta armada de 200 homens...

O PAIGC levava a sério as forças armadas portugueses... O que não o impediu de, muito possivelmente,  encenar algumas situações para "onusiano ver": a Missão especial passa pela aldeia de Botche [Boche] Djate [Jate] [, vd. carta de Bedanda], por entre ruínas  das palhotas recém-queimadas, celeiros destruídos, grande quantidade de arroz queimada... E neste cenário não podia faltar uma bomba da FAP,  daquelas que não explodiam... A Missão tomou nota das inscrições na bomba: "The bomb bore the following markings: MI-7, 61A; TNT; BPE-I-124; 8/69; 50-7KG-0.035-M3."...

Atenção: o original tem 10 anexos, onde não faltam os itinerários, as datas e as horas e locais das visitas e entrevistas, a lista (fornecido pelo PAIGC) do armamento usado pelas Forças Armadas Portugueses, o  mapa da Guiné-Bissau (fornecida pelo PAIG), a lista (parcial) de filmes, livros e artigos sobre as "áreas libertadas", as fotografias tiradas pela Missão, e até os formulários usados pela administração nas "áreas libertadas"... 

O relatório do secretário geral do PAIGC sobre "a agressão (portuguesa) contra a Missão Especial da ONU" é o anexo III, reproduzido a seguir, mas que não faz parte do corpo do relatório no original...


(Continuação) (**)






-7-

-8-


(Continua)

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quinta-feira, 14 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19586: (D)o outro lado do combate (46): A Missão especial da ONU na Guiné - Abril 1972 (António Graça de Abreu / Luís Graça) - Parte I: capa + pp. 1-3



Capa do relatório, de 11 (onze) páginas do relatório, policopiado que é uma versão portuguesa contendo a parte principal do "Report of the Mission of the United Nations Special Committee on Decolonization after visiting the liberated Areas of Guinea-Bissau (A/AC. 109/L. 804; 3 July 1972)"... 



1. Ainda não encontramos, na Net,  o documento original, em inglês, do Comité Especial para a Descolonização, das Nações Unidas, que visitou as "áreas libertadas" da Guiné-Bissau, em plena guerra colonial, em abril de 1972, a convite de...Amílcar Cabral. Ou, melhor, temos encontrado excertos... Mas o relatório original, em inglês,  está documentado com fotos, mapas, itinerários, etc.

A cópia, em papel,  de que dispomos foi-nos fornecida há anos [, por volta de 2010, na sequência dos comentários ao poste P5680 (*), e não foram poucos: cerca de duas dezenas e meia!] pelo nosso camarada António Graça de Abreu, com vista a uma eventual publicação no blogue.

O documento é capaz de corresponder à seguinte referência bibliográfica que encontramos no portal das Memórias de África e de Oriente:

BORJA, Horácio Sevilla - A missão especial da ONU na Guiné Bissau, Abril 72 / Horácio Sevilla Borja, Folke Lofgren, Kamel Belkhiria. - [S.l.] : PAIGC, 1972. - 11 p.. - Corresponde a: Relatório [...]
Cota: BAC-135|CIDAC.

A iniciativa da sua publicação e divulgação, em Portugal, logo na época, deve ter pertencido ao CIDAC - Centro De Intervenção Para O Desenvolvimento Amílcar Cabral, com sede em Lisboa. Aliás, o o documento, de 11 páginas, consta da sua base de dados bibliográfica.

Logo na página não numerada, entre a capa e a página 1, se explica qual é  a natureza e a autoria do documento:

(i) o texto editado, em português,  é "a parte principal do relatório escrito e apresentado pela Missão Especial";

(ii) três membros do Comité Especial de Descolonização da ONU visitaram as "áreas libertadas da Guiné-Bissau" (sic), de 2 a 8 de abril de 1972, a convite do PAIGC;

(iii) nesse curto espaço de tempo (menos de um semana), terão percorrido 200 quilómetros (ida e volta), quase sempre a pé, visitando 9 localidades diferentes (o que, convenhamos, é obra para quem, como nós conheceu a Guiné, ou uma parte dela, a "penantes" ou de "viatura militar": Unimog, GMC, Berliet, Jeep...);

(iv) o objetivo da visita, que se fez à revelia do governo português de então, e sob protesto deste, era "assegurar informações em primeira mão sobre as condições nas áreas libertadas" (sic) e, simultaneamente, "averiguar as intenções e aspirações do povo no que respeita ao seu futuro";

(v) além de dois  funcionários da ONU (,1 secretário e 1 fotógrafo),  os membros da missão eram  os seguintes diplomatas: Horácio Sevilla Borja (Equador), Folke Lögfren (Suécia) e Kamel Belkhiria (Tunísia); Borja foi o relator principal. (É hoje representante permanente do seu país na ONU, tendo sido até 2016, embaixador residente no Brasil.)

A edição do documento é atribuída. pelo CIDAC, ao PAIGC. Amílcar Cabral fez o que  lhe competia e convinha: tirou o máximo proveito  propagandístico desta polémica missão a que já nos referimos em poste anterior (*).
"
O documento, policopiado,  que agora reproduzimos tem a página 2 está pouco legível, as restantes estão com qualidade aceitável. Na página 2,  reconstituímos alguns parágrafos. O relatório foi digitalizado pelo nosso editor Luís Graça. Damos hoje início à sua publicação (, nove anos depois!...), esperando entretanto os preciosos comentários dos nossos leitores, e nomeadamente os que conheceram a região de Tombali, e em particular o "corredor de Guileje" por onde andaram os visitantes...vindos de (e regressados a) Conacri-Boké-Kandiafara. 

Na capa vem um mapa da Guiné, com o território assim distribuído: (i) "áreas libertadas"; (ii) "áreas onde há luta"; (iii) "áreas controladas pelo exército colonial português"; e (iv) "aquartelamentos do exército colonial"... Presume-se que o mapa seja da autoria do PAIGC e se reporte à situação militar no 1º trimestre de 1972. 

Salta logo à vista que faltam, no que diz respeito às posições das  NT em 1972,  inúmeros aquartelamentos, destacamentos e tabancas em autodefesa, com pelotões de milícia, em todas as três grandes regiões: Norte, Leste e Sul...Logo no setor L1, que eu conheci: há só referência a Bambadinca e Saltinho, faltam 3 importantes aquartelamentos (Xime, Mansambo e Xitole), fora os destacamentos do exército e das milícias...


2. Recorde-se o que aqui, neste blogue, já foi dito em 2010, no poste P568o (*): esta missão decorreu no sul, na atual região de Tombali. Representou para Amílcar Cabarl e o seu Partido uma suas maiores vitórias diplomáticas. A Região de Tombali engloba, hoje, os sectores de Bedanda, Catió, Como, Quebo e Quitafine, tendo um total de cerca de 3700 km2 e 90 mil habitantes. Na época teria muitíssimo menos população.

A missão da ONU  restringiu-se à zonas de Bedanda,  Catió  e Quitafine. Os diplomatas  focaram a sua atenção nas estruturas militares, aldeias, escolas e armazéns, e fizeram depois apreciações, que constam no relatório, sobre "a situação no campo do ensino, da saúde, da administração da justiça, da reconstrução da economia e da formação de uma assembleia nacional".  Os membros da missão vestiam fardas militares, com insígnias das Nações Unidas, e tiveram escolta de um bigrupo reforçado do PAIGC (cerca de 60 homens armados) sob o comando do Constantino Teixeira.

O(s) autor(es) do relatório inclui(em), nesta síntese, excertos de um relatório de Amílcar Cabral sobre "a agressão [portuguesa] contra a Missão Especial da ONU" (pág. 5, vd. no próximo poste)... Os números que utiliza são fantasiosos,  e faz referência as meios, alegadamente utilizados pelas NT que já não existiam, ou não existiam de todo no CTIG: por exemplo, os aviões de combate F-86 F, a artilharia de 130 mm... (confusão com a peça 11.4 e o obus 14).

Sabe-se qual foi a musculada resposta de Spínola, alguns meses depois: a decisão de reocupar o mítico Cantanhez, que o PAIGC controlava desde 1966, em termos territoriais e populacionais... A Op Grande Empresa, conduzida pelo recém-criado COP 4, teve início em 8 de Dezembro de 1972, com desembarque de forças e a sua instalação nas tabancas de Cadique Ialala, Caboxanque e Cadique. Seria também ocupada a região de Jemberém e construída uma estrada táctica a ligar as duas margens da península do Cantanhez...

Na sua mensagem de Ano Novo 1973, Amílcar Cabral denuncia e reconhece as tentativas de reocupação do Cantanhez, aos microfones da Rádio Libertação, três semanas antes de ser assassinado (Oiça-se o registo aúdio, disponível no Dossier Amílcar Cabral, da Fundação Mário Soares).





Página não numerada, que antecede a página 1 do documento, de 11 págunas e que vem a seguir à capa.





[resta, pântanos e savana. Durate o percurso, a Missão atrvessou três ribeiros e rios e cruzou numerosos arrozais. Algumas horas antes do amanhecer de 3 de Abril, a Missão chegou ao seu primeiro destino, no coração das florestas do setor Balana, uma base do exército do PAIGC, fortemente guardada,  formada por várias tendas,  cabanas e barracas, que é o Quartel General do Comissariado Político para a Região Sul.  Aqui a Missão encontrou , entre outros, os seguintes líderes e membros do Comité Executivo:  João Bernardo Vieira (Nino), comandante do exército de libertação; Vasco Cabral, ideó.]



[feitos por atilharia pesada: as culturas tinham sido destruídas com napalm e havia muitas palhotas e celeiros destruídos. Durante o percurso a Missão visitou a aldeia de Ien-Kuntei que foi totalmente destruída no dia seguinte por bombardeamentos aéreos, e passou a 2 km do acampamento militar português de Bedanda.

Na manhã de  4 de Abril, a Missão chegou à escola  Areolino Lopes Cruz, no sector Cubucaré (região Catió), onde ficou duas noites. Esta escola, que tem o nome de um dos primeiros professores mortos durante um ataque dos portugueses, ministra o ensino primário a 65 alunos, entre os 10 e os 15 anos. A maioria dos alunos são órfãos ou filhos dos soldados do PAIGC. Por]




(Continua)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 20 de janeiro de  2010 > Guiné 63/74 - P5680: Efemérides (41): No 37º aniversário da morte de Amílcar Cabral, recordando o sucesso diplomático que foi a visita da missão da ONU às regiões libertadas, no sul, 2-8 de Abril de 1972


Na altura, em 22/1/2010, o António Graça de Abreu escreveu o seguinte, em comentário:

(...) Já havia esquecido, mas ontem fui aos meus papéis velhos sobre a Guiné e lá encontrei o relatório da "Missão especial da ONU na Guiné, Abril de 1972."

Está aqui comigo e recomendo a leitura e entendimentos a todos os que passámos pela Guiné na fase final do conflito. Esclarecedor, brilhante, também angustiante.As verdades dos factos. Talvez a publicar no blogue mas são dez páginas em A 4.

Em anexo ao texto dos homens da ONU, são publicados excertos do relatório então escrito por Amílcar Cabral sobre a visita dos homens da ONU.  No nosso blogue temos tido o gosto (eu não) de denegrir a capacidade militar das NT (Guileje, a guerra militarmente perdida, perdida em termos militares, etc.). Pois Amílcar Cabral faz exactamente o contrário, exalta e exagera a capacidade militar das tropas portuguesas em Abril de 1972.

Leiam as palavras de Amilcar Cabral no seu relatório sobre Missão da ONU:  "No dia seguinta da partida da missão (da ONU), o estado Maior Português, declarou o estado de prevenção para os 45.000 militares das tropas coloniais existentes no nosso país, dos quais 15.000 se encontram acampados no Sul (...) 10.000 homens das tropas especiais foram transportados durante alguns dias de Bissau para o Sul. Se juntarmos as forças da aviação e da marinha que operaram no decurso da agressão, o número total de homens mobilizados foi da ordem de 30.000."

Isto num pequeno país onde, segundo a missão da ONU,  3/4 do território eram "zonas libertadas pelo PAIGC" que dispunha de 5 a 6 mil combatentes, e onde (agora em Janeiro de 2010) segundo a opinião do diplomata equatoriano da ONU que fez parte da missão, os portugueses, "entrincheirados nos  seus quartéis" apenas "se deslocavam por via aérea."
Tanto dado falsificado! Difícil fazer a nossa História e a dos povos da nossa Guiné!" (...)


(**) Último poste da série > 27 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19536: (D)o outro lado do combate (45): A morte de Rui Djassi - II (e última) Parte - A Op Alvor, península de Gampará, de 22 a 26 de abril de 1964 (Jorge Araújo)

Guiné 61/74 - P19585: Agenda cultural (676): Convite para a abertura da Exposição de Cartoons de Vasco de Castro, Museu Rafael Bordalo Pinheiro, dia 19 de Março, pelas 18h30, Campo Grande, Lisboa (Mário Beja Santos)

C O N V I T E




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Julho de 2018:

A todos os meus queridos amigos, 
Ofereci cerca de 100 desenhos e outras obras de Vasco ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro, sito no Campo Grande, n.º 382, a exposição abre no próximo dia 19, pelas 18h30. 
O Vasco viveu algumas décadas em minha casa, espalhado praticamente por todas as divisões, chegou a hora deste bisneto de Rafael Bordalo Pinheiro se instalar em casa própria. 

Tratando-se de um momento muito emotivo da minha vida, entregar a história de uma amizade para a plena fruição pública, muito gostaria de ter a sua companhia, nesse dia e nessa hora. 

Junto alguns elementos explicativos do que irá ver e receber. 

Com a muita cordialidade do 
Mário




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Nota do editor

Último poste da série de 10 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19568: Agenda cultural (675): os nossos amigos da Quinta da Sra. da Graça, José Manuel Lopes, poeta, vitivinicultor e nosso camarada, Luisa Lopes, a matriarca, e Vasco Lopes, enólogo, autor do "Pedro Milanos"... estão hoje na 7ª edição do Mercado Gourmet, Lisboa, Campo Pequeno, das 12h00 às 20h30...

Guiné 61/74 - P19584: Em busca de... (296): O ex-1.º Cabo At Alberto de Aparecida Couto do Pel Caç Nat 54 já contactou com o seu camarada José Augusto da Silva Dias, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BART 3873 que o salvou de morrer afogado no rio Geba (Sousa de Castro)

1. Em mensagem do dia 12 de Março, o nosso camarada Sousa de Castro (ex-1.º Cabo Radiotelegrafista, CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, 1971/74) dá-nos notícia do reencontro entre o ex-1.º Cabo Atirador Alberto de Aparecida Couto e o Soldado José Augusto da Silva Dias da CCS do BART 3873.

Boa noite, 
Caros amigos, em anexo a notícia de que ao fim de 46 anos, dois camaradas se encontraram (por via telefónica) recordando uma quase tragédia passada em Bambadinca em 1973. 

Saudações veteranas, 
Sousa de Castro


Foi com muita emoção que Alberto D’Aparecida Couto, ex-1.º Cabo Atirador do Pel Caç Nat 54 [foto à esquerda], conseguiu encontrar na zona do Barreiro, o amigo José Augusto da Silva Dias, a quem procurava há quarenta e seis anos.
Aconteceu hoje, dia 11 de Março de 2019. Não foi o encontro pessoal como gostaria, foi pelo telefone, através do qual recordaram esse momento quase trágico, com a promessa de se encontrarem em data a designar.

Recordo que o José Dias integrou a CCS do BART 3873 com a Especialidade de Soldado Maqueiro. Foi o homem que no dia 30 de Abril de 1973 salvou o 1.º Cabo Couto de morrer afogado na travessia do rio Geba em Bambadinca quando se virou a canoa que os transportava juntamente com outros camaradas. Quando se apercebeu de que um deles não sabia nadar, lançou-se de imediato à água, conseguindo arrastar para terra o 1.º Cabo Couto.
Esta ação valeu-lhe um louvor pelo Comandante do BART 3873.

Conseguimos!... Foi com esta frase que Susana Couto, filha do 1.º Cabo Couto, exprimiu toda a alegria, satisfação por conseguir que seu pai pudesse agradecer uma vez mais ao seu salvador.

Esta ação foi desencadeada devido à sua persistência, quer através das redes sociais, contactos familiares e outros e, acima de tudo, muita teimosia em atingir objetivos a que se propôs.

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2. Algumas palavras do telefonema entre o Alberto Couto e o José Dias.

Conta a sua filha Susana na sua página do Facebook.
Dia 11 de Março de 2019 ás 14,55 horas

A procura acabou! O dia que nunca será esquecido das nossas memórias!
Alberto: Oh Dias! És tu Dias?! Onde é que tu estás? Há 46 anos que te procuro! Onde é que tu estás Dias?!
Foram palavras que nos deixaram em lágrimas quando o meu pai ao telemóvel falou com o camarada que tanto queria encontrar! O camarada, o anjo que lhe salvou a vida há quase 47anos!

Hoje mais que nunca agradeço a Deus e a muita gente que ajudou nesta procura (vocês sabem quem são) cada um terá sempre todo o meu respeito e carinho, nunca me vou esquecer de todo o apoio e ajuda nesta procura que acabou hoje.

Muito obrigada de coração!
Susana Couto

A. Castro,
Ex-1.º Cabo Radiotelegrafista
CART 3494/BART 3873
Guiné JAN72/ABR74
Xime, Bambadinca e Mansambo
11MAR2019
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Notas do editor:

Vd. poste de 25 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19529: Em busca de... (294): O ex-1.º Cabo At Alberto de Aparecida Couto do Pel Caç Nat 54 procura o seu camarada José Augusto da Silva Dias, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BART 3873 que o salvou de morrer afogado no rio Geba (Sousa de Castro)

Último poste da série de 27 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19537: Em busca de... (295): SOS, Farmácia Militar de Luanda, Delegação n.º 11, LMPQF, Angola (1971/73)... Procuro o ex-fur mil Morgado, natural da região de Santarém, partilhámos o mesmo camarote no N/M Vera Cruz, trabalhámos juntos, não nos vemos há 46 anos... (António Mário Leitão, Ponte de Lima)

Guiné 61/74 - P19583: Parabéns a você (1587): Leopoldo Correia, ex-Fur Mil Art da CART 564 (Guiné, 1963/65)

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Nota do editor

Último poste da série de 12 de Março de 2019 > Guiné 61/74 - P19576: Parabéns a você (1586): SAj da GNR Ref Manuel Luís R. Sousa, ex-Soldado At Inf do BCAÇ 4512 (Guiné, 1972/74)

quarta-feira, 13 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19582: Memória dos lugares (386): Ainda a tasca do Geraldes, em Nova Lamego (conversas a cinco: Tino Neves, Valdemar Queiroz, Abílio Duarte, Virgílio Teixeira e Luís Graça)


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > Dezembro de 1967 >  A tasca do sr.  Geraldes... Pode ver-se o Geraldes, da direita para a esquerda, o 3º, de camisa aberta, ao meu lado (, eu, ao centro, ao fundo, de óculos escuros). Do outro meu lado, o Sargento Parracho (acho que era de Aveiro e tinha chegado da Madina do Boé, era da CCAÇ 1589, e lá vinha com os seus ‘autos de destruição’ para serem aprovados). Os outros comensais serão porventura civis, comerciantes.


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) >  Nova Lamego > Dezembro de 1967 >  Tasca do sr. Geraldes.  Pode ver-se o Geraldes, com um macaco-cão, bebé; e ao lado dele, um homem civil (o mesmo que se vê na foto acima, à esquerda,  em primeiro plano); de pé o sargento Parracho, da CCAÇ 1589, que estava em Madina do Boé., e ao ao centro. 


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > Outubro de 1967 > Foto nº 3 > Na tasca do  Geraldes [ e não do Zé Maria, como por lapso foi originalmente legendado ], petiscando com o   furriel Rocha, o "Algarvio", que não pertencia ao nosso Batalhão, mas foi lá parar ao Conselho Administrativo, caindo de paraquedas.


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > Outubro de 1967 > Na tasca do Geraldes, petiscando sozinho, talvez frango. Este estabelecimento,  conhecido como o " Geraldes", era uma espécie de restaurante-tasca, onde se podia comer e beber alguma coisa fora da ementa do rancho ou da messe do quartel.


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. 1970 > A tasca do sr. Geraldes... Ele e a esposa eram de Setúbal. Ele provavelmente antigo militar...  Em 1970, o estabelecimento tinha já um jogo de bilhar "Sinaleiro" (**)...

Comparando as fotos, vê-se que as toalhas e o mobiliário (, nomeadamente as cadeiras) são as mesmas do tempo do Virgílio Teixeira (set 67/fev 68) e do Tino Neves (1969/71)...

Foto (e legenda): © Tino Neves (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste anterior da série (P19578) (*)

(i) Valdemar Queiroz

Viva, caro Tino Neves.

Lembras-te se o cozinheiro ou ajudante de cozinha do Geraldes ? Era um matulão,  sempre com o avental sobre o tronco nu e tinha uma motoreta!...

Afinal, nós fomos contemporâneos em Nova Lamego, eu era da CART 11, "Os Lacraus", que era a Companhia de africanos que estava no Quartel de Baixo.

Manda mais fotos.

(ii) Abílio Duarte

Também passei por lá...[, pela tasca do Geraldes].

(iii) Valdemar Queiroz

Duarte, se não me engano, julgo que estavas a jantar no Geraldes quando houve o ataque com mísseis [, foguetões de 122 mm ,]  a Nova Lamego. E tu,,, vai no gosse gosse, para o nosso Quartel. Chegaste a pagar a conta? Saúde da boa.

(iv) Abílio Duarte

Valdemar, pois é, já contei essa história, varias vezes, tinha acabado de comer um bom bife, e estava na sobremesa, a apreciar um gelado caseiro, quando começou o arraial.

Paguei o jantar, sim senhor, porque o homem conhecia-me bem.

Mas a correria, que fiz, por aquela estrada, até ao nosso aquartelamento, onde cheguei descalço, pois perdi as chinelas, pelo caminho, e enfiei-na vala que dava para o rio, foi um cagaço dos antigos.

Passei bons bocados em Nova Lamego. A passagem de ano, de 69/70, quando eu e o Cunha já estávamos, desenfiados nos nossos quartos, e o Cunha a fazer a exploração de rádio, com o cabrão do Coronel, do Batalhão, que andava a fazer a ronda em Gabu, numa autometralhadora, à nossa procura, pois devíamos estar a guardar a serração, e o Coronel, a perguntar onde é que nós estávamos, e o Cunha, na serração, dizia 'mas eu estou a ver o meu Coronel'. Que Tourada!

Noutra vez , estava a fazer a segurança, à TECNIL, que estava a alcatroar a estrada para Piche, e vim beber um gin, ao nosso quartel e, para aproveitar, praticava a condução no Unimog, coisa que fazia várias vezes,quando o meu pelotão estava a fazer esse trabalho.

Então, num desses dias, depois de estar a beber o meu gin, na messe, os soldados tinham ido dar uma volta, e fiquei de ir buscá-los ao mercado. E assim foi, quando entro na estrada alcatroada, na direcção de Piche, perto, onde estavam a construir o novo quartel de Nova Lamego, não sei se te recordas, quem é que me aparece, e me apanha a conduzir ?  O sacana do Coronel!...

O gajo fez-me uma quantidade de questões e merdas, e o major, que estava com ele, deu-me a entender que estava feito. À noite quando cheguei, e estava no nosso Bar, aparece o [capitão ]Aniceto Pinto, aos gritos, que isto e aquilo, o cabrão do 1º srgt,  que não me chupava, a rir.

Foi um arraial, que nem nos filmes do Vasco Santana.

Bons bocados. Mas o Aniceto tinha bom coração. Desenrascou-me várias vezes, de criancices, que eu fazia. Paz à sua alma.

 (v) Virgílio Teixeira

Este Blogue parece quase uma Polícia Secreta, tipo FBI, pois num instante se descobre a careca de qualquer um!

O Tino na foto 1 é o de óculos, e o outro a rir, parece que o conheço tão bem. Mas é impossível. O Batalhão do Tino, o BCAÇ 2893, não é do meu tempo, quem nos foi render em Nova Lamego foi o BCAÇ 2835, e depois terá sido rendido pelo 2893, mas já muito mais tarde, não é do meu tempo, eu sou muito velhinho, comparado com a maioria. Depois de fevereiro de 1969 nunca mais estive em Nova Lamego. Só ficaram as Memórias do Gabu.

Nem sequer havia ataques com mísseis a Nova Lamego, isso foi outra guerra! Felizmente.

Mas aquele da foto com o Tino (*) não me é estranha a sua cara, mas há muitas parecidas.

No período de 21set67 a 26fev68, quando estive em Nova Lamego, não havia nada destas coisas chiques, bilhares, etc. ! O Geraldes deve ter evoluído e rápido, com a chegada do meu Batalhão, e com as minhas visitas frequentes! Eu fui lá muitas vezes, mas não tenho fotos de todas, só de algumas.

Eu nem sequer me lembro da cara do Geraldes, sabia o nome, mas não ligava o nome à pessoa, mas penso que devo saber. Então vamos pelos Temas:

064 I PARTE: foto nº 2, acho que o Geraldes é o que tem um macaco na mão, certo?

T061 II PARTE: foto nº 2, o Geraldes é o 3º a contar da direita para a esquerda;

T063 III PARTE: foto nº 4 estou só numa mesa no Geraldes; na foto 3 eu chamo "Tasca do Zé Maria", é o que tenho escrito na foto, mas parece-me pela análise às mesas e cadeiras e ambiente, que também é no Geraldes. Tem de se rectificar, até porque não me lembro de uma casa com esse nome. Seria antes o Zé Maria Geraldes?

Eu ainda vou arranjar mais do Geraldes, é só procurar.

Grandes detetives que aqui temos!


(vi) Luís Graça

Virgílio: quando se vinha de Bafatá até Bambadinca, havia no cruzamento, à esquerda, logo no início da Rua Principal da povoação (que dava acesso ao quartel e posto administrativo, escola, CTT, etc., que ficava lá no alto, numa pequena elevação), havia a famosa "tasca do Zé Maria"...

A malta do Leste que vinha abastecer-se ao destacamento de Intendência, na margem esquerda do Rio Geba, passava lá, quase obrigatoriamente... Se calhar, um dia foste lá beber um copo...

Era famosa pelos "lagostins" do Rio Geba Estreito, que o homem nos fazia pagar caros: 50 pesos o quilo... Pescados em zona de risco... pelo barqueiro do Enxalé.

Passaste por Bambadinca, provavelmente até vieste de LDG, de Bissau a Bambadinca, em setembro de 1968... Só depois, creio que já em 1969, é que a LDG abicava no cais acostável do Xime, entretanto construído... Havia aqui um porto fluvial, importante, e um destacamento de Intendência, em Bambadinca... Vê se tens fotos de Bambadinca, do porto, da Intendência...

Deves ter vindo uma ou outra vez a Bambadinca... Seguramente no regresso, de Nova Lamego, em fevereiro de 1969, a caminho de São Domingos... Não havia outro caminho, tinha que se dar a volta ao "bilhar grande" da Guiné... A maior parte das estradas estavam interditas.

 O Zé Maria, se fosse um gajo esperto, teria chamado à tasca dele, "À Volta Cá Te Espero"... Quem lá tinha escritório era o "alfero Cabral", vizinho, ali de Fá Mandinga.

(*) Vd. poste de 11 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19573: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LXV: Memórias do Gabu (IV)

Guiné 61/74 - P19581: Notas de leitura (1158): o caso do jornal diário "O Arauto", extinto em 1968, num artigo da doutora Isadora Ataíde Fonseca, sobre a imprensa na época colonial (Luís Graça)


Guiné > Bissau > Cabeçalho e parte da primeira página de "O Arauto", "Diário da Guiné Portuguesa. Ano XXV - Nº 6242. Preço: 1$00. Director e editor: [padre] José Maria da Cruz. Quinta-feira, 27 de Julho de 1967.(*)

Foto: © Benito Neves (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 1º trimestre de 1968 > No bar da messe de oficiais, o alf mil SAM Virgílio Teixeira, lendo o jornal diário da província, "O Arauto" (1950-1968) (**)

Foto: © Virgílio Teixeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Voz da Guiné, 30 de junho de 1973. Seaparata nº 203. Cortesia do nosso coeditor Eduardo Magalhães Ribeiro, autor do blogue Rangers & Coisas do MR.


Nota de leitura:

FONSECA, Isadora Ataíde - Dilatando a fé e o império: a imprensa na Guiné no colonialismo (1880-1973). Media & Jornalismo: uma revista do Centro de Investigação Media e Jornalismo. Vol. 16, nº 29 (2016): 119-138.

A autora, investigadora independente,  é doutorada em sociologia da cultura pela Universdade de Lisboa. [FONSECA, Isadora Ataíde (2014) - A Imprensa e o Império na África Portuguesa, 1842-1974. Tese de Doutoramento em Sociologia da Cultura. Lisboa, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Tese disponível, em formato pdf, no Repositório da Universidade de Lisboa .]

No artigo supracitado, publicado em 2016 na revista de Coimbra,  "Media & Jornalismo",  a autora própõe-se "analisar a trajectória do jornalismo e as relações entre a imprensa o império na Guiné ao longo do colonialism", o  a partir de uma "perspectiva multidisciplinar de investigação e análise, na qual a imprensa é observada na sua interdependência às dimensões política, económica e social".

Aplica  "as teorias do jornalismo em regimes liberais e autoritários para se observar a imprensa" e as suas conclusões apontam para  um  "tardio surgimento da imprensa oficial [que] reflectiu a fragilidade da presença portuguesa durante a Monarquia Constitucional".

Com a República (1910-1926),  "a imprensa independente não se afirmou como espaço de debate público". Com a Ditadura Militar e o Estado Novo (1926-1973),  a imprensa vai "servir à propaganda do regime autoritário". No essencial, "ao longo do colonialismo a imprensa na Guiné desempenhou o papel de apoiar e defender o império".

São os seguintes os periódicos da Guiné Portuguesa que foram estudados pela autora:

A Voz da Guiné, 1922.
Arauto (e O Arauto), 1943-68.
Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1946-1973.
Boletim Oficial da Guiné Portuguesa, 1884-1920.
Ecos da Guiné, 1920
Ecos da Guiné, 1950-54.
Pró-Guiné, 1924.

No artigo supracitado, tens extensas referências ao períódico "Arauto", mensário, e depois diário, mais tarde "O Arauto", periódico de que temos várias referências no nosso blogue.

"Arauto, Dilatando a fé e o império": era o título do mensário que apareceu em maio de 1943. Era então "dirigido pelo padre Afonso Simões e reproduzido na Imprensa Nacional" (Fonseca, 2016, p. 128). A Imprensa Nacional (instalada em Bolama, com a primeira tipografia montada em 1879) publicava o Boletim Official do Governo da Província da Guiné Portuguesa.

A articulista cita logo o  nº 1 do "Arauto"  em que se declarava que “dilatando a fé, é nosso desejo, concomitantemente, dilatar o império também, interessando-nos por tudo o que diga respeito ao desenvolvimento e progresso desta colónia” (Fonseca, 2016, p. 128).

Na edição nº 14, de junho de 1944, ainda em plena II Guerra Mundial, garantia-se  que “Portugal prossegue [...] a sua obra de reconstrução nacional que tem sido a preocupação dominante daqueles que dirigem os altos destinos da nação”. 

Atento também às políticas da colónia, os nºs 41 (setembro) e 42 (outubro), de 1946, do "Arauto"  faziam referência à 1ª Conferência dos Administradores da Guiné, a qual se terão identificado  como principais problemas da colónia os seguintes:

(i)  a dificuldade de colaboração dos cipaios como elos entre autoridades e indígenas;
 (ii) a obrigação dos nativos trabalharem;
(iii) as irregularidades na cobrança do imposto da palhota; e,
(iv) os problemas infra-estruturais.

Em janeiro de 1947, a edição  nº 45 trazia o discurso do governador Sarmento Rodrigues [, no perído de 1946-1949], na abertura da exposição de Bissau:

 “Nesta terra portuguesa há união de almas e boas vontades, há trabalho, há sacrifício, há entranhado amor ao engrandecimento de Portugal”. 

Citando o nosso conhecido António E. Duarte Silva (2008) [“Sarmento Rodrigues, a Guiné e o luso-tropicalismo”, Cultura, 25],  a autora escreve que "o governo de Sarmento Rodrigues coincide com o apogeu do colonialismo na Guiné", tendo dado prioridade a: (i) desenvolvimento da administração colonial; (ii) participação dos assimilados; (iii)  tratamento paternalista para com os indígenas; e (iv) construção de uma rede de infraestruturas".

Sete anos depois do seu aparecimento, o  "Arauto passa a  diário, em 1950, o tendo como director um outro padre, ou seja, um não jornalista, o franciscano José Maria da Cruz [Amaral] (1910-1993).

Numa nota biográfica escrita por um amigo ("anónimo"), lê-se o seguinte sobre ele;

[...] Voltou ao continente Africano [, tinha estado em Moçambique entre 1936 e 1946], à então província da Guiné, onde esteve até à revolução do 25 de Abril. Na Guiné, foi professor do Liceu Honório Barreto, vogal da Assembleia Legislativa, e até 1968 director do Arauto, o único jornal da Guiné que foi extinto pelo general Arnaldo Schultz, em represália contra a linha editorial do Arauto, que procurou denunciar a anarquia militar e civil do seu governo da província.[...]

Este último facto deve ser visto com reserva: não temos fonte(s) independente(s) para o poder comprovar...

Percorrendo os números que se foram publicando entre 1950 e 1968, Fonseca (2016, p. 129)  faz a seguinte síntese:

(...) "As notícias da metrópole continuaram com destaque no diário, que no seu nº 1415, de Janeiro de 1952, relatava que foram presos os organizadores duma 'conjura contra a segurança do Estado'. Na época as notícias internacionais não incluíam os territórios e países africanos e as informações locais eram escassas." (...)

A nomeação de Marcello Caetano como vice-presidente do Conselho Ultramarino é notícia em fevereiro de 1953 (edição  nº 1813).

"Seguindo uma linha de despolitização" (sic), o mundial de futebol (que se realizou na Suíça, nesse ano, e em que a Alemanha bateu a Hungria na final, por 3-2), foi um dos títulos de caixa alta da edição nº 2297" (Julho de 1954),  de resto, uma "tendência que se manteve" (Fonseca, 2016, p.129).
"
 Em maio de 1955, o "Arauto" noticiava que a Guiné recebera “com delirante patriotismo e entusiástica vibração” o presidente da República, o general da Força Aérea Francisco Craveiro Lopes (1894-1964).

O jornal, que até então era reproduzido em duplicador, ou seja , policopiado, passava a circular em formato de imprensa, graças à Tipografia das Missões, em Bissau.    O "Arauto" é então definido, pelo seu editor, redactor chefe e diretor (, 3 papéis centrados na mesma pessoa...)   como “um jornal diário autêntico, com artigos de análise, com crítica e interesse público” (Fonseca, 2016, p. 129).

Naturalmente, o que o jornal não noticiou (nem o poderia fazer) foi   a criação, na clandestinidade,  do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), fundado por Amílcar Cabral, em setembro de 1956. Tal como "silenciou" os graves acontecimentos de 3 de agosto de 1959, conhecidos como o "massacre do Pidjiguiti". Entretanto, dois meses antes, em junho de 1959 (, na edição nº 3905), os colóquios sobre o II Plano de Fomento do Ultramar eram devidamente divulgados, e sublinhava.se que a política de investimento no território deveria atender a “dualidade de economias”.

A partir de 1958, o jornal passara a designar-se por "O Arauto". E o nº 3483 publicava a primeira intervenção do deputado da Guiné (entre 1956 e 1961), Avelino Teixeira Mota, na Assembleia Nacional, "a qual abordava o problema do ensino e da valorização económica da província". Teixeira da Mota (1920-1982), sobre o qual temos 22 referências no nosso blogue, era oficial da Marinha e foi chefe de gabinete do governador Sarmento Rodrigues.

O jornal fazia-se eco da política externa do governo de Salazar, alvo de crescente hostilidade nas instâncias internacionais:

(...) “No êxito de alguns movimentos [...] assentou um programa de ‘libertação’ que não serve nem respeita a paz dos que não querem ser ‘libertados’ [...] não existem nos territórios portugueses ultramarinos quaisquer indícios de ‘colonialismo’ " (...)  (O Arauto, junho de 1960, nº 4197).

A "orientação governamental e pró-colonial" do jornal não impediu que a edição de 10 de abril de 1960 fosse proibida de circular pela delegação local da PIDE, devido ao artigo “Carta Aberta ao Governador Geral de Angola”, assinado por Ernesto Lara Filho, poeta e jornalista angolano  (Benguela, 1932 - Huambo, 1977), considerado politicamente inoportuno ou inconveniente.

Com o início da guerra colonial em Angola,  "O Arauto" reforça a defesa do império e a denúncia do apoio do  comunismo internacional  ao "terrorismo":

(...)  “É já conhecido o recente acordo [...] que prevê, praticamente, a entrega das províncias ultramarinas, com total independência, às organizações daqueles elementos comunistas e a criação na metrópole de uma república popular” (...) (O Arauto, setembro de 1962, o nº 4856),

Como muito bem observa  Fonseca (2016, pp. 132/133),  não se pode falar verdadeiramente em jornalismo, profissional, independente, deontológico:

(i) os textos do jornal não eram assinados;

(ii)  não há fichas técnicas;

(iii) não há jornalistas profissionais na redação;

(iv) a maior parte do noticiário provinha da agência Lusitânia. agência noticiosa do regime, e de outras fontes, oficiais ou oficiosas;

(v) com o início da guerra, a informação de natureza militar tem estritamente como fonte o Boletim Informativo das Forças Armadas.

Em janeiro de 1964, na edição nº 5276, "a manchete de O Arauto foi 'De ladrões de gado a terroristas'. O texto notava que, se até 1962 o PAIGC tinha limitado suas acções à sabotagem de linhas férreas e telefónicas, passou a ter como alvos as forças armadas portuguesas em Fevereiro de 1963" (Fonseca, 2016, p. 130).

A investigadora deve ter lido mal (ou treslido...), já que na Guiné não havia (nem há...) linhas... férreas!...

Aliás, a autora comete outros erros factuais e faz referências, no mínimo controversas e acríticas, relativas nomeadamente ao processo que levou à independência da Guiné-Bissau: por exemplo, "áreas libertadas" do PAIGC, "perda do controlo aéreo do território" por parte das forças armadas portuguesas, declaração unilateral da independência em "Madina do Boé"...

(...) "Em Abril de 1972 uma missão do comité de descolonização da Organização das Nações Unidas visitou as zonas libertadas e recomendou que o PAIGC fosse reconhecido como o único representante do povo da Guiné. Amílcar Cabral foi assassinado em 20 de Janeiro de 1973 e em Março os portugueses perderam o controlo aéreo do território. Em Agosto, Spínola deixou África e em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, foi declarada a independência da República da Guiné-Bissau, presidida por Luís Cabral. Em poucas semanas, a nova nação foi reconhecida por mais de 80 países e, em 17 de Setembro de 1974, as Nações Unidas admitiram como membro a República da Guiné-Bissau." (Fonseca, 2016, p. 132)

No aniversário de "O Arauto", em 5 de julho de 1967, o jornal agradecia ao governador [, gen Arnaldo Schulz,] a concessão de um subsídio de 50 mil escudos [, em dinheiro da metrópole era o equivalente hoje a c. 17.600 €]. Em 1966 o défice do jornal era já de 486 mil escudos [, mais de 178,6 mil euros, hoje] e o diretor questionava-se sobre  a sua viabilibilidade económica.

Ficamos a saber, pelo nosso camarada Virgílio Teixeira, que uma parte dos assinantes seriam as unidades e subunidades  militares do CTIG, como o era o caso do BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). O nosso camarada lia o jornal "O Arauto", no bar da messe de oficiais em Nova Lamego, mas já não se lembra de o ver em São Domingos. A razão é simples: a última edição do jornal (nº 6444) saiu em 10 de abril de 1968.

Ficamos, entretanto,  na dúvida sobre a decisão de extinguir o único jornal diário do território: seria do governador Arnaldo Schulz ou dos proprietários ? Alegamente, foi por  falta de recursos financeiros, técnicos (máquinas) e humanos. O "biógrafo" (anónimo)  do franciscano quis pô-lo num patamar mais alto, o de vítima e de herói: amesquinhado por Schulz, incensado por Spínola... Parece que o homem acabou por ficar mal com Deus (o Vaticano) por causa de César (Spínola)... A verdade, é que não se pode servir a dois senhores...

Entretanto, em janeiro de 1972 surge um novo jornal, "Voz da Guiné" (, não confundir com "A Voz da Guiné", que se publicou apenas em 1922). A convite de Spínola, o jornal (a princípio bissemanário) é dirigido pelo antigo  diretor e editor  do "O Arauto", o padre José Maria Cruz de Amaral, que "também passou a ser, na mesma ocasião, presidente da Comissão de Censura, órgão a que ele já pertencera e que velava pelos princípios políticos e ideológicos do regime." (Fonte: António Soares Lopes [Tony Tcheka] - Os media na Guiné-Bissau. Bissau: Edições Corubal, 2015, p. 37).

Na realidade, é uma situação insólita, Spínola convida o padre José Maria Cruz de Amaral para diretor da "Voz da Guiné" e, passado uma semana, em 22 de janeiro de 1972,  nomeia-o  presidente da Comissão Provincial de Censura...

Vamos então às conclusões que a autora, Isadora Ataíde Fonseca, tira do seu estudo sobre a imprensa guineense no período colonial (1880-1973):

 (...) "Portugal virou-se para o continente africano na expectativa de sobreviver enquanto império nos séculos XIX e XX e, para tal, estendeu o seu regime político e instituições. Neste contexto, a imprensa e o jornalismo em África emergiram como entidades implementadas pelo regime colonial com o intuito de contribuir na afirmação do império português. Como observou Barton (1979: 2), a imprensa colonial desenvolveu-se em paralelo à imprensa europeia e adoptou o seu modelo de jornalismo. No entanto, na Guiné a imprensa apareceu tardiamente e não se consolidou como espaço de debate público, servindo invariavelmente ao poder político e ao fortalecimento do império colonial português.

"Para se compreender a trajectória e o protagonismo da imprensa na Guiné no período colonial é preciso analisá-la na sua interdependência às dinâmicas sociais. O desempenho da imprensa na Guiné articulou-se ao conjunto das dinâmicas sociopolíticas coloniais, que lhe deram as seguintes características: 

1) A imprensa privada desenvolveu-se tardiamente como reflexo da fragilidade do Estado colonial, da fraqueza das elites locais (europeias e africanas), e do prolongamento dos conflitos militares. A imprensa manteve um perfil político caracterizado pela propaganda dos governos e não pela promoção do debate no espaço público;

 2) Nos três regimes políticos que perpassaram a Guiné, a imprensa sempre desempenhou um papel de colaboração. Durante o Estado Novo a imprensa desenvolveu papéis característicos dos regimes autoritários, sobretudo apoiando e propagando o regime; 

3) Não houve processos de profissionalização e profissionalismo dos jornalistas; 

4) Aplicado o conceito de paralelismo político, a imprensa esteve alinhada com o governo. No entanto, as distintas forças sociais não foram representadas pela imprensa; 

5) A intervenção do Estado foi forte, através da propriedade, dos subsídios e do controlo dos conteúdos. O legado do colonialismo português para a imprensa na Guiné é o jornalismo enquanto actividade de suporte e apoio dos regimes e governos, e não enquanto espaço privilegiado do debate e da intervenção pública." (...) (Fonseca, 2016. p. 134).

O artigo tem cerca de 6 dezenas de referências bibliográficas. Merece um leitura, até porque há ainda pouca investigação neste domínio. Está aqui disponível em formato pdf.

Um outro artigo recente é da nossa conhecida Sílvia Torres mas apenas centrado em 3 jornais: O Arauto, Notícias da Guiné e Voz da Guiné, e restringindo o campo e análise ao período da guerra colonial (1961-1974): vd.  aqui TORRES, Sílvia - A Guerra Colonial na imprensa portuguesa da Guiné. A cobertura jornalística do conflito feita pelos jornais O Arauto, Notícias da Guiné e Voz da Guiné, entre 1961 e 1974. Prisma.Com, (33) 2017, p. 33-46. Disponível aqui em formato pdf.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 16 de abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2766: Álbum das Glórias (42): As melhores ostras de Bissau, em O Arauto, de 27 de Julho de 1967 (Benito Neves, CCAV 1484)

(**) Vd. poste de  11 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19573: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LXV: Memórias do Gabu (IV)

(***) Último poste da série > 11 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19575: Notas de leitura (1157): Guinea-Bissau, Micro-State to ‘Narco-State’, por Patrick Chabal e Toby Green; Hurst & Company, London, 2016 (4) (Mário Beja Santos)