segunda-feira, 15 de abril de 2019

Guiné 61/74 - P19682: Notas de leitura (1169): Um luso-cabo-verdiano que amou desmedidamente a Guiné (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Novembro de 2016:

Queridos amigos,
É tempo de tirar do limbo uma figura altamente representativa da cultura luso-guineense, Fausto Duarte, escritor singular, divulgador emérito e um desbravador de documentos históricos guardados na poeira dos arquivos. Tinha formação superior e revelou ao longo da sua curta vida uma enorme paixão pela cultura guineense. Impôs a temática logo em "Auá", romance premiado em 1934.
Deixou o seu nome ligado a projetos incontornáveis, os anuários da Guiné de 1946 e 1948 e o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa.
Merecia ser melhor estudado por portugueses e guineenses.

Um abraço do
Mário


Um luso-cabo-verdiano que amou desmedidamente a Guiné (1)

Beja Santos

Entrei na Biblioteca da Gulbenkian para consultar uma obra sobre património africano, acabei nos reservados a ler uma tese de doutoramento de Benjamim Pinto Bull sobre o escritor Fausto Duarte, documento de leitura aliciante. Fausto Duarte não merecia o injusto silêncio que rodeia hoje o seu nome, foi grande escritor e investigador e deixou uma obra assinalável na Guiné.

A tese de Pinto Bull começa por contextualizar os ambientes de Cabo Verde e Guiné. Fausto Castilho Duarte nasceu na Praia, ilha de Santiago ou em 1902 ou 1903, não se sabe exatamente, era filho de padre. Passou a infância na Praia, foi enviado, concluída a instrução primária, para Lisboa, percorreu vários liceus, o Pedro Nunes, o Passos Manuel, o Camões, o Gil Vicente. Vivia no Colégio Universal, na Calçada de Santana n.º 180. Findo o liceu, inscreveu-se no Instituto Superior de Agronomia onde estudou principalmente Geodesia e Topografia. Em 1928, fez exame final do curso de Topografia e Elementos de Geodesia. Nesse ano viaja para a Guiné e trabalha para um empresário alemão, Frederick Karsten, como agrimensor. Entre 1929 e 1930 trabalha na delimitação das fronteiras da Guiné sob a direção do Tenente-Coronel Soares Zilhão, mais tarde o Governador da Guiné.
Ao percorrer a colónia, entusiasma-se com a natureza luxuriante e caprichosa, deixará as observações das suas descobertas na sua obra, caso dos morros de bagabaga que descreve no livro “Negro sem Alma”:
“A termiteira lembra uma pirâmide egípcia em miniatura. Um é habitação de vivos, outras jazida de mortos, mas ambas são fantasias de arquitectura ciclópica, ambas objectivam encarcerar a sombra e fazer dela o manto de um rei cujo corpo mumificado zomba dos cegos, ou de uma rainha-insecto extravagante – que governa com despotismo, porque perpetua a espécie, porque seu abdómen é um constante viveiro; ambas são ogivas de pedras trabalhadas por gerações inteiras. Numa falta a unidade interior, na outra há a fronteira religiosa. Desfeita a pirâmide, que resta da termiteira? Simples torrões, habitados por insectos que se refugiam instintivamente na treva, porque elas lhes extinguiu para sempre a luz dos olhos”.

Regressa a Lisboa em 1931, casa com Ilda Massano Sereno e volta à Guiné. No ano seguinte, temo-lo novamente em Lisboa onde vem frequentar o Curso Superior Colonial, que termina com brilho quatro anos mais tarde. Em 1934, publica "Auá", que obtém o primeiro prémio de literatura colonial desse ano. Tem 32 anos. Já deram pelos seus dotes Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, faz amizades, uma delas com um distinto médico, o professor Fernando da Fonseca, encontraram-se em Berlim. Nesse mesmo ano de 1934, na Exposição Colonial do Porto faz uma conferência sobre o tema “Da literatura colonial e da morna”.

Segue-se a novela “Um crime” e depois “O Negro sem Alma” e “Rumo ao Degredo”. Em 1936, regressa à Guiné, fora nomeado Secretário-Geral da Câmara Municipal de Bolama. Em 1942, publica “A Revolta”, que obtém o segundo prémio do concurso de literatura colonial. Em 1945, aparecem em Lisboa os contos “Foram estes os vencidos”. De 1946 a Janeiro de 1953, Fausto Duarte participa ativamente na redação do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, tem a seu cargo a secção “História da Guiné”. Em 1950, depois de uma longa estadia na Guiné, é colocado no Gabinete de Urbanismo do Ministério do Ultramar. Em 1952, descobre-se que tem um cancro no estômago. Escreve sem parar, nessa época a censura exige-lhe a supressão de parágrafos no seu livro mais recente “Mãe Joaninha”. É operado duas vezes e morre em 1953, com 51 anos.

Inegavelmente que foi o romance "Auá" que lhe deu notoriedade como escritor, a Guiné encontrara um narrador de altíssima qualidade. O tema do romance é o conflito permanente entre duas civilizações, a europeia e a africana, mais precisamente a civilização ocidental e a civilização arábico-islâmica. Quem personifica esse conflito? Entre Malam, jovem Fula, que vem trabalhar para a cidade de Bissau como criado de um casal alemão, e que se vai imbuindo de preconceitos e valores ocidentais, e outro jovem Fula, Abdulai, que permanece enraizado nas suas tradições e convicções. Malam volta à sua terra para casar com Auá que 10 meses depois dá luz um bebé “branco”. Malam rejeita a criança enquanto na povoação todos afirmam que “o filho pertence a Malam porque foi gerado no ventre da mulher que ele escolheu. É uma recompensa de Deus”.

Para o leitor ocidental, esta trama tem o poderoso ingrediente de uma escrita cuidada, que detalha perfis e situações. Mais adiante, dar-se-ão exemplos da cultura europeia deste escritor embevecido com as culturas guineenses onde se mostra com solidez os seus conhecimentos de etnografia e religião islâmica. Benjamim Pinto Bull aventa a hipótese de que este mestiço que tinha orgulho em ser cabo-verdiano e que tinha uma forte atração pelas linhas dominantes da cultura europeia sentia-se vexado pelos preconceitos raciais que experimentou, tendo sido a experiência mais dolorosa a sua visita à Alemanha, num período já de ascensão nazi, que nunca mais esqueceu. A sua resposta foi o desenvolvimento de um processo cultural singular, onde predominava uma linguagem cultíssima, quase de pesquisa laboratorial, e o apego à temática colonial, em diferentes situações. Revelou-se um estudioso de gabarito, qualidades que lhe foram reconhecidas por outros estudiosos, como Teixeira da Mota. O topógrafo transforma-se em homem de secretária e dedica-se a projetos de fôlego, caso de dois trabalhos de indiscutível qualidade como foram os anuários de 1946 e 1948, hoje obras de consulta obrigatória dado o acervo de informações que ele coligiu, apensando imagens elucidativas, muitas delas aproveitadas das edições do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa.

Vejamos agora como "Auá" é um monumento literário referencial da Guiné colonial. Para o leitor mais interessado, recomenda-se o que sobre "Auá" já se escreveu no blogue:

Guiné 63/74 - P3716: A literatura colonial (2): Auá, novela negra, de Fausto Duarte, uma obra-prima (Beja Santos)

(Continua)
____________

Nota do editor

Último poste da série de 12 de abril de 2019 > Guiné 61/74 - P19673: Notas de leitura (1168): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19681: Parabéns a você (1604): António Pimentel, ex-Alf Mil Rec Inf do BCAÇ 2851 (Guiné, 1968/70)

____________

Nota do editor

Último poste da série de 12 de Abril de 2019 > Guiné 61/74 - P19669. Parabéns a você (1603): Francisco Alberto Santiago, ex-1.º Cabo TRMS do BART 3873 (Guiné, 1972/74)

domingo, 14 de abril de 2019

Guiné 61/74 - P19680: Memórias de Gabú (José Saúde) (81): Recordando o saudoso camarada Damásio (José Saúde)

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 



As minhas memórias de Gabu

Recordando o saudoso camarada Damásio

Camaradas, 

Lancei, há tempos, no nosso blogue - Luís Graça & Camaradas da Guiné - um tema onde falo da fatídica morte do soldado Damásio.

Não vou exceder-me em considerações sobre o trágico acontecimento, entendo sim como preferível voltar a recolocar parte do meu texto, acrescentado agora uma obra cuja narração refere o horroroso caso.

Tudo se prende com a chegada à minha mão do livro “HERÓIS LIMIANOS da Guerra do Ultramar” cujo autor é Mário Leitão, um dos nossos companheiros nestas lides bloguistas, precisamente num espaço que é de todos e para todos,com o qual tive oportunidade em almoçar a seu lado no último convívio anual que teve lugar em Monte Real, aliás, como vem sendo hábito.

A minha convicção é que todos temos direito a imitar opiniões pessoais e comentar textos, mas alertando que “a perna não deve ir para além do lençol”.Digo bem “chefe” Luís Graça?

A possibilidade em introduzir este tema surgiu quando o meu amigo de longa data Manuel Lourenço Casteleiro Góis, um ex-furriel miliciano que passou, também, como camarada de armas pela Guiné, me falou de um livro que tem em seu poder e que refere em determinado momento o meu nome.

O Mário Leitão, farmacêutico e professor aposentado, faz uma descrição de mortes de vários camaradas limianos que morreram na guerra do Ultramar e lá está o meu companheiro Damásio.

Refere camaradas com os quais lidei diariamente no interior do arame farpado. Fala do processo de averiguações conduzido pelo alferes Santos, sendo o escrivão o furriel Dias, um rapaz de Setúbal, e adianta os nomes das testemunhas ouvidas.

Na página 97 lá está o nome do furriel Saúde que por determinação do QG de Bissau se encarregou de prestar assistência à família. É verdade. Mas adianto mais: todo o espólio angariado foi da minha inteira responsabilidade. Reuni literalmente todos os seus bens pessoais entregando-os depois ao capitão Rijo, comandante da nossa companhia.

Com a devida vénia ao Mário Leitão, reproduzimos uma pequeníssima parte do livro “HERÓIS LIMIANOS da Guerra do Ultramar” do qual é autor, onde refere a morte do soldado Damásio e a angústia de uma família que se deparou com a infeliz notícia.

Obrigado Mário pela tua gentileza. 

“Foi socorrido momentos depois pelo médico militar Dr Amílcar Silva de Nobre Neto, que se encontrava na placa de estacionamento a preparar as referidas evacuações, quem declarou o óbito.

O processo de averiguações, conduzido pelo Alf Mil Cav Manuel Ribeiro dos Santos e assistido pelo escrivão Fur Mil SAM Leonel Vicente de Jesus Dias, teve como testemunhas : 1.º Cabo José Augusto Oliveira, 1.º Cabo Armando Fernandes Alves de Sousa, 1,º Cabo José Luís de Magalhães Pacheco, Sold Manuel Marques Rodrigues, Braima Daimô (civil, condutor da firma TECNIL) e José André Dias (civil). O Fur Mil José Romeiro Saúde foi encarregado de prestar assistência à família, por determinação do QG de Bissau. 

O Relatório de Cerimónias Fúnebres do CTIG, datado de 25 de Abril de 1974, refere que nesse dia, na Casa Mortuária do Hospital Militar de Bissau, foram prestadas homenagens a três militares: Fur Mil José Manuel Augusto Rosa (CCaç 3545/BCaç 3883), Sold Damásio Cervães e Sold Manuel Agostinho Mendonça Oliveira (CCaç 4150). “Após a velada de armas foi celebrada Missa de Corpo Presente e seguidamente as urnas foram transportadas, cobertas com a Bandeira Nacional, para a Casa Mortuária do Cemitério de Bissau”, estando presentes oficiais do Batalhão de Intendência, do Hospital Militar, do Comando-Chefe e Senhoras do MNF.

Sua irmã Marinha Fernandes Cervães, então com 18 anos, estava hospedada em casa de uma senhora, na Rua da Junqueira, quando trabalhava na Marinha, na Cordoaria Nacional (extinta em 1974). Alguns dias depois do desastre chegou um carteiro a sua casa com um telegrama. “Isto não é para mim! Não, deve ser para a senhora da casa! Não, é mesmo para a menina!” Foi um diálogo curto, com o carteiro a fugir. De repente a jovem caiu em si. Percebeu o sentido dos sonhos que a atormentaram durante a semana, especialmente aquele em que o irmão lhe dizia que só ela o poderia salvar. Vagueou durante horas em lágrimas pelas ruas de Belém, até que foi para a casa. A senhoria levou-a ao comboio. Para trás deixou na modista um vestido que andava a provar, que ficaria guardado para a festa da chegada do Damásio. No comboio foi confortada por um jovem, que lhe partilhou a dor pessoal por ter perdido um irmão no Brasil. Adormeceu durante a viagem e quando acordou sentiu que tinha ouvido a voz do irmão pedindo-lhe que tivesse força, porque os pais precisavam dela.

Quando entrou em casa, na Lacada, seu pai estava sentado na cozinha, a chorar. “Era eu que devia ter morrido! Não o meu filho!” Repetia sem cessar essas palavras, exausto de tanto chorar. A mãe estava no quarto, deitada e aos gritos, sem querer ver ninguém. Marinha, cheia de força, contou-lhe pouco a pouco sobre a voz do irmão que ouvira no comboio. Foi surpreendente! Lentamente a mãe foi deixando o torpor em que se encontrava, abriu os olhos e abraçou a filha, tentando posteriormente animar o marido. Outro telegrama havia chegado a Lacada, trazido por um carteiro apressado que viera de bicicleta entregar uma morte ao domicílio, como já tantas vezes fizera. Lucinda, irmã mais nova de Damásio, conta-nos como foi: Quando a tristeza se abateu sobre a nossa casa (caixa), 


No ano de 1974, tinha eu 7 anos de idade, era a mais nova de 4 irmãos. Os meus pais eram pessoas simples, agricultores que trabalhavam arduamente para terem o seu sustento. Nesse ano de 1974 só eu me encontrava a viver com os meus pais, pois meus irmãos já estavam a começar as suas vidas de adultos: o meu irmão mais velho encontrava-se na tropa, na Guiné; o segundo já estava casado e até já tinha dois gémeos; e a minha irmã estava a trabalhar em Lisboa como funcionária da Marinha de Guerra. Só eu estava em casa com os meus pais, frequentando a escola e ajudando-os conforme a minha condição de criança permitia. 

Num determinado dia de 1974, a minha mãe estava a trabalhar num campo perto de casa, quando cá chegou um senhor que se identificou como sendo dos Correios. Trazia um telegrama para a minha mãe e pediu-me que eu a chamasse, dizendo-me, entretanto, para eu assinar um papel. A minha mãe chegou e perguntou: – “Que se passa!? Não gosto nada de receber telegramas!”. O senhor respondeu-lhe, simplesmente: - “Minha senhora, o seu filho morreu, na tropa”. 

Nesse instante, o mundo desabou para a minha mãe. Esqueceu tudo que a rodeava, ficando tolhida, apática e esquecendo-se até de mim, que ali estava ao seu lado, a olhar para ela sem saber o que fazer nem o que se passava. O homem só dizia para mim: -“Assina! Assina!”.

Depois de ele ir embora, a minha chorava descontroladamente e gritava como eu nunca vira. Eu não entendia o que se passava. Levou muito tempo até eu compreender realmente tudo, o que era natural, pois só tinha 7 anos.

Cá em casa nunca mais foi a mesma coisa. Nunca mais houve festas de família e eu não tenho nenhumas recordações do Natal da minha infância, porque, havia sempre a lembrança de meu irmão.

Eu cresci sempre a ouvir os meus pais, os meus irmãos e os amigos a falarem do que ele gostava. Tenho poucas memórias dele, pois era 16 anos mais velho do que eu. Mas como sempre ouvi a minha mãe a falar dele acabei por o conhecer melhor, criando uma imagem mental das suas feições, da sua maneira de ser e da sua vida.

E deste sofrimento familiar, tudo veio! Todos os problemas de saúde que minha mãe sofreu pela vida fora foram derivados desse triste acontecimento. E com o meu pai aconteceu o mesmo, pois o desgosto abalou para sempre a sua saúde.

Já estão os três juntos, na Eternidade! E sei que onde o meu irmão Damásio, a minha mãe e o meu pai estiverem, se encontrarão em paz e serenos, pois sabem que alguém está a deixar a lembrança de um filho querido que morreu na tropa.

Por isso, um bem hajam a todos os que estão envolvidos neste projecto, porque não se esqueceram destes Heróis Limianos que perderam as suas vidas em defesa da Pátria. O meu muito obrigado!

a) Lucinda de Jesus Fernandes Cervães

Foram dois pais sofredores, que tiveram que andar pelos médicos ao longo das suas vidas, porque socos no estômago desta violência afectam irreversivelmente os nossos cérebros e, por tabela, abalam todos os sistemas orgânicos. A Medicina sabe bem o que é o stress pós-traumático e conhece as suas consequências psicossomáticas. Os governantes é que não. Está sepultado em Estorãos”.


Damásio (à esquerda) com o enfermeiro Dinis no navio Niassa a caminho da Guiné (foto do saudoso Dinis retirada do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

Aquela morte estúpida na pista de aviação

Damásio, até sempre!

Diz-nos o teor da veracidade do BART 6523 que nos 14 meses de comissão em território da Guiné, o seu efetivo não registou baixas em combate. É certo que o período normal de incumbência das nossas tropas naquela antiga província ultramarina ia para além deste ciclo, porém, a Revolução de Abril de 1974 acelerou o regresso do nosso exército das três frentes de guerra – Angola, Moçambique e Guiné - com as quais Portugal estava envolvido.

O meu Batalhão, sediado em plena região de Gabu, não obstante os ataques noturnos, particularmente às companhias destacadas no mato – Madina Mandinga e Cabuca -, teve a sorte em não se deparar com eloquentes baixas resultantes de confrontos diretos com o IN, nem tão-pouco deparar-se com rebentamentos das famigeradas minas antipessoais ou anticarros que originavam efetivos para abater nas contas do exército português. As operações feitas no terreno passaram isentas de eventuais baixas que serviam para engrossar a lista de infelizes que perderam a vida em pleno campo de batalha.

A manhã destinou-se para receber correio, transportar feridos que normalmente chegavam a Nova Lamego e receber mantimentos frescos vindos de Bissau. O Damásio integrou o grupo de jovens soldados e lá partiu feliz da vida na esperança que a sua presença na pista seria certamente útil. Predispôs-se em ajudar e tomar conhecimento de camaradas que partiam para Bissau mas na condição de evacuados. 

Porém, sem que nada o fizesse prever o nosso camarada Damásio foi colhido por uma das viaturas e teve morte imediata. O instante foi de dor e de extrema revolta. Ficámos estupefactos e a rapaziada exausta. Lembro o seu corpo inerte num chão vermelho mas onde as lágrimas de camaradas lançavam laivos de raiva numa guerra onde a imprevisibilidade da morte era uma constante. 

Não foi fácil lidar com a situação. O Damásio era um moço educado. Fazia amigos, facilmente. Eu fui um deles. Sei que guardei durante vários anos um documento onde tinha descriminado todas as suas pertenças pessoais que na altura tinha como destino os seus familiares. Nada faltou. Lembro-me desse derradeiro adeus. O choro dos camaradas que o viram partir para a eternidade. Um jovem que vivia, certamente, um mundo de sonhos. 

Senti o vazio nas almas que se abateu sobre os seus familiares. Como explicar-lhes tamanha fatalidade! E nós, homens que convivíamos com ele diariamente, lá longe sem nada podermos transmitir aos seus entes queridos. Impunha-se aconchegar o seu profundo desespero, mas a distância ditava, apenas, o carpir de mágoas pelo seu infeliz último adeus. Ficavam as despedidas mas estas integradas na sumptuosidade de amarras que nos atiravam meramente para um profundo silêncio.

O Damásio ficou-me perpetuamente na memória. Até sempre, camarada!

Conclusão: como foi dura a guerra do então Ultramar!... 


Um abraço, camaradas 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
___________

Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em:

16 DE MARÇO DE 2019 > Guiné 61/74 - P19594: Memórias de Gabú (José Saúde) (79): Resquícios de uma guerra que nos fora cruel. Abandonados. (José Saúde)

Guiné 671/74 - P19679: Jorge Araújo: Ensaio sobre as mortes por afogamento no CTIG: Parte I - Corpor 'recuperados' e 'não recuperados'


 Foto 1 > Guiné > 1965 > Fuzileiro especiais durante uma operação militar,   com percurso na água,  [foto retirada da Net, com a devida vénia: sítio Lugar do Real: autor não identificado; recolhida por Sara Viana Caseiro; cedida por Manuel de Sousa Caseiro].



Foto 2  > Guiné > 1966 > Manuel de Sousa Caseiro, fuzileiro especial, natural de Antas, concelho de Esposende, atravessa, com outros militares, um rio, na Guiné, durante uma operação militar. [Foto retirada da Net, com a devida vénia: sítio Lugar do Real: autor não identificado; recolhida por Sara Viana Caseiro; cedida por Manuel de Sousa Caseiro].





Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do blogue desde março de 2018


ENSAIO SOBRE AS MORTES POR AFOGAMENTO DE MILITARES DO EXÉRCITO DURANTE A GUERRA NO CTIG (1963-1974):  Parte I - CORPOS 'RECUPERADOS' E 'NÃO RECUPERADOS' 





1. INTRODUÇÃO


Como sobrevivente no naufrágio tido pela minha secção (+) do 1.º Gr Comb da CART 3494 (1972-1974), no qual participou também o camarada Cap Art [hoje Cor] Pereira da Costa, de que resultaram, lamentavelmente, três baixas, duas das quais não recuperadas, ocorrido em 10Ago1972 (5.ª feira), no rio Geba, na zona do Xime, por influência do «macaréu» [P10246 e P13482], tomei a iniciativa de proceder a um "ensaio", quantitativo e qualitativo, sobre o número de militares do Exército que morreram afogados nos diferentes planos de água existentes na Guiné, durante o conflito armado (1963-1974), dividindo-o em dois grupos: "recuperados e "não recuperados" e as suas Unidades.

Com efeito, o levantamento que hoje trago ao conhecimento do fórum é resultado dessa pesquisa, efectuada através da consulta a diferentes fontes, entre oficiais e não oficiais. Porque se trata, como foi referido, de um "ensaio", este apuramento pode vir a ser alterado em função de outras colaborações e/ou informações complementares que possam, eventualmente, surgir após a avaliação realizada por cada um de vós.

Por razões metodológicas e estruturais do presente trabalho, nesta primeira parte não se referem os nomes dos naufragados em cada uma das diferentes ocorrências, opção que será alterada a partir da segunda parte, com a identificação das Unidades que não conseguiram recuperar os corpos dos seus náufragos [último quadro desta parte I], bem como a descrição, a possível, do contexto em que as mesmas tiveram lugar.


2. A HIDROGRAFIA DA GUINÉ-BISSAU

A grande maioria da actividade operacional das NT era planeada e executada em função da geografia e hidrografia de cada local. Cada situação era um caso particular, pois o seu território, constituído por zonas do litoral e do interior, apresenta-se mapeado por uma linha (a do limite das marés) dividindo-o em duas zonas hidrograficamente distintas, que influenciavam a mobilidade daqueles que nelas tinham de circular, desafiando a vida de cada um, com particular incidência dos menos preparados e dos mais descuidados.

De acordo com a literatura consultada, a primeira, a do litoral, é a zona das planícies, das rias, dos vales muito largos, invadidos pelas marés de água salgada, enquanto a segunda, para o interior, só existem rios de água doce, não navegáveis, devido às cheias e rápidos.



Foto 3 > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Rio Corubal > 18 de Abril de 2006, dia 8 (da viagem Porto-Bissau) > 19h16 > Os banhistas de fim da tarde. Foto do nosso amigo e grã-tabanqueiro Hugo Costa.

Foto (e legenda): © Hugo Costa / Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Lu+is Graça & Camaradas da Guiné]


Esta linha marca o limite da navegação e separa os tipos de vegetação. Há uma área enorme - cerca de 4.000 Km2, mais de 10% da totalidade do território - que fica coberta de água, o que ocorre entre a praia-mar e a baixa-mar, cuja amplitude chega a ser próxima dos 7 metros, em alguns locais. Durante as "marés da conjunção", encontro das águas dos rios com a praia-mar, observa-se nos rios Geba e Corubal - o mais extenso da Guiné - o chamado fenómeno do "macaréu", que consiste numa grande onda, como um depósito de água corrente que, num instante, enche o leito do rio que transborda e inunda de água salgada extensas zonas das baixas margens daqueles rios. 

No interior das rias existem portos naturais e a extensão das vias navegáveis, por navios de longo curso, é da ordem dos 300Km. Nas vias iluviais, a navegação faz-se em cerca de 950Km. As principais são o Cacheu, Mansoa, Rio Grande de Buba, Tombali, Cumbijã e Cacine. No Geba, que termina pela chamada ria de Bissau, situa-se o porto natural da capital. Os cursos de água da zona interior, ao contrário do que acontece na zona do litoral, não têm água salgada, por não chegar a eles o efeito das amplas marés; são de caudal muito variável ao longo do ano, reduzindo-se na época seca de tal forma que, muitos dos rios secundários deixam de ter água. A existência de rápidos [foto acima] só permite que sejam navegáveis em pequenas extensões. As três principais bacias hidrográficas são a do Cacheu, do Geba e do Corubal. A Guiné apresenta ainda, principalmente na época das chuvas, importantes lagoas que cobrem extensas áreas de terrenos planos e desaparecem, em geral, na época seca.

No interior das rias existem portos naturais e a extensão das vias navegáveis, por navios de longo curso, é da ordem dos 300Km. Nas vias iluviais, a navegação faz-se em cerca de 950Km. As principais são o Cacheu, Mansoa, Rio Grande de Buba, Tombali, Cumbijã e Cacine. No Geba, que termina pela chamada ria de Bissau, situa-se o porto natural da capital. Os cursos de água da zona interior, ao contrário do que acontece na zona do litoral, não têm água salgada, por não chegar a eles o efeito das amplas marés; são de caudal muito variável ao longo do ano, reduzindo-se na época seca de tal forma que, muitos dos rios secundários deixam de ter água. A existência de rápidos [foto acima] só permite que sejam navegáveis em pequenas extensões. As três principais bacias hidrográficas são a do Cacheu, do Geba e do Corubal. A Guiné apresenta ainda, principalmente na época das chuvas, importantes lagoas que cobrem extensas áreas de terrenos planos e desaparecem, em geral, na época seca.


3.  OS DADOS DO "ENSAIO" – QUADROS ESTATÍSTICOS 

Partindo da coleta de dados apurada, o tratamento estatístico que seguidamente se dá conta está representado por quadros de distribuição de frequências, simples e acumuladas, conforme se indica em cada um dos títulos. Cada quadro relata os valores quantitativos de cada um dos elementos das variáveis categóricas ou quantitativas relacionadas, tendo em consideração os objectivos que cada contexto encerra.



Quadro 1 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG (1963-1974), e que constituíram a população deste estudo, é de 144.

 Verifica-se, também, que desse total, 113 (78.4%) eram soldados; 22 (15.3%) 1.ºs cabos; 7 (4.9%) furriéis; 1 (0.7%) 2.º sargento e 1 (0.7%) major. Quanto aos anos em que se registaram maior número de casos: em 1.º lugar está o de 1969, com 51 (35.4%) mortos. 

Para esta cifra contribuiu significativamente o episódio da «Jangada de Ché-Che», ocorrido em 06Fev1969, no Rio Corubal, com 47 mortos. Em 2.º lugar está o ano de 1965, com 20 (13.9%) mortos, dos quais 8 pertenciam ao PMort 980 registados na sequência do acidente no Rio Cacheu, em 05Jan1965, durante a «Operação Panóplia». No ano de 1972, verificou-se um outro acidente, o 3.º, desta vez no Rio Geba, em 10Ago1972, envolvendo o 1.º GrComb da CArt 3494, com 3 mortos.




Quadro 2 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG (1963-1974) cujos corpos não foram recuperados é de 63 (43.8%). 

Verifica-se, também, que desse total, 48 (76.2%) eram soldados; 10 (15.9%) 1.ºs cabos; 4 (6.3%) furriéis e 1 (1.6%) 2.º sargento. Quanto aos anos em que se registaram maior número de casos: estes correspondem aos mesmos indicados no quadro 1, ou seja: 1969 com 49 (77.8%) casos, 47 dos quais relacionados com a «Jangada de Ché-Che», no Rio Corubal; 1965 com 4 (6.3%) casos, 3 dos quais na «Operação Panóplia», no Rio Cacheu, e 1972 com 3 (4.8%) casos, sendo 2 no Rio Geba (CArt 3494) e 1 no Rio Cacheu (CArt 3417).



Quadro 3 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG, durante o 1.º triénio (1963-1965) é de 34 (23.6% do total). 

Verifica-se, também, que desses, 24 (70.6%) eram soldados, 6 (17.6%) 1.ºs cabos, 3 (8.8%) furriéis e 1 (3.0%) 2.º sargento. O número de corpos não recuperados neste período foi de 7 (20.6%). O número de Unidades Militares que contabilizaram estas perdas foi de 24. 


Quadro 4 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG, durante o 2.º triénio (1966-1968) é de 27 (18.8% do total). 

Verifica-se, também, que desses, 25 (92.6%) eram soldados e 2 (7.4%) furriéis. O número de corpos não recuperados nesse período foi de 3 (11.1%). O número de Unidades Militares que contabilizaram essas perdas foi de 24, número igual ao período anterior (quadro 3).



Quadro 5 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG, durante o 3.º triénio (1969-1971) é de 63 (43.7% do total). 

Verifica-se, também, que desses, 49 (77.8%) eram soldados; 11 (17.4%) 1.ºs cabos; 2 (3.2%) furriéis e 1 (1.6%) major. O número de corpos não recuperados nesse período foi de 50 (79.4%). O número de Unidades Militares que contabilizaram essas perdas foi de 18, menos 6 do registado nos anteriores trimestres (quadros 3 e 4).



Quadro 6 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG, durante o 4.º triénio (1972-1974) é de 20 (13.9% do total). 

Verifica-se, também, que desses, 15 (75%) eram soldados e 5 (25%) 1.ºs cabos. O número de corpos não recuperados nesse período foi de 3 (15%). O número de Unidades Militares que contabilizaram estas perdas foi de 18, menos 6 do registado nos dois primeiros triénios (quadros 3 e 4) e igual ao triénio período anterior (quadro 5). 



Quadro 7 – Da análise ao quadro supra, verifica-se que o número total de militares do Exército que morreram por afogamento no CTIG (1963-1974) cujos corpos não foram recuperados é de 63 (43.8% do total).

 Quanto aos corpos não recuperados, verifica-se que a CCaç 1790, com 26 (41.3%) casos, e a CCaç 2405, com 19 (30.1%) casos, foram as Unidades Militares que contabilizaram maior número, sendo estes consequência do acidente da «Jangada de Ché-Che» em que elementos das duas Companhias de Caçadores estiveram envolvidos. Segue-se o PMort 980, com 3 corpos não recuperados, no Rio Cacheu, na «Operação Panóplia", e a (minha) CArt 3494, com dois, no Rio Geba (Xime), durante uma missão, não cumprida, a Mato Cão, situado na margem direita desse rio. Das 16 Unidades Militares que não conseguiram recuperar os corpos dos seus naufragados, 11 (17.5%) tiveram apenas um caso.

Nota:

Em função das fontes consultadas, não nos foi possível completar todas as variáveis categóricas, como é o exemplo dos locais (n/n) de alguns afogamentos. Caso alguém disponha de informações mais precisas, faça o favor de dizer.

Por outro lado, considerando que são referidos nomes de rios, que desconheço, transcritos como o indicado nos documentos oficiais, é possível que alguns deles contenham erros ortográficos. Aguardo a sua correpção.

Continua…

Fontes consultadas:

Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª edição, Lisboa (2014); pp 16-17.
Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 1; 1.ª edição, Lisboa (2001); pp 23-569.
Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 2; 1.ª edição, Lisboa (2001); pp 23-304.

Outras: as referidas em cada caso.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

01Abr2019.

Guiné 61/74 - P19678: Blogpoesia (615): "Serra do Pilar", "Baladas perdidas" e "A leveza do ar", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Da Serra do Pilar desfrutam-se as melhores vistas sobre a cidade do Porto. Nesta foto, a Ponte Luiz I e o que resta da Muralha Fernandina mandada construir por D. Afonso IV, terminada no reinado de D. Fernando. À esquerda, a Sé Catedral e o Paço Episcopal. Visível, um pouco atrás, a esguia Torre dos Clérigos.
Foto e Legenda: Carlos Vinhal


1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) estes belíssimos poemas, da sua autoria, enviados, entre outros, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Serra do Pilar

Contraforte de Gaia, bem preso ao chão, não vá o Douro a leve ao mar.
Se armou com um quartel.
Ali especou, mirando o Porto
e a ponte que lhe passa à porta.

Sentinela atenta.
Só passa quem vai por bem.
Ali passou Isabel.
Jovem rainha.
Foi uma festa.

O Xá da Pérsia e a Farah Diba.
Já foi há tanto!...

Tanta vez, a palmilhei a pé.
De Trancoso à Sé e a Vilar.
Como bem eu lembro.
Ainda eu era jovem...

Berlim, 10 de Abril de 2019
17h22m
Jlmg

********************

Baladas perdidas

Perdi minhas baladas do Rio Minho, pelas terras verdes de Caminha.
Onde a floresta de pinhais fazia a sombra que nos regalava no campismo dos verões.
Onde as marés, em marcha certa, ponham à mostra meio rio.
Muitos barquitos ficam inertes sobre o lamaçal de lodo negro.

Aquele monte cinza de Santa Tecla que nunca mais pára de subir pró céu.
As esplanadas de ócio benfazejo onde se passavam ricas tardes.
Os passeios de liberdade e segurança, com a família, pelas trilhas da serra imensa.
O lendário Vilar de Mouros que, cada ano, regalava a juventude.
Quando a vida era uma luta e a família um baluarte.
Para ali íamos anos a fio, porque ninguém queria ir para outro lado...

Berlim, 10 de Abril de 2019
9h52m
Jlmg

********************

A leveza do ar

Mergulhados na vida, precisamos de ar, condição fatal.
Diáfano e azul, nimbado de luz, frescura de mar.
Nossos olhos sorriem. Saciados de cor.
Vibra de alegria nossa alma.
A esperança no futuro reverdece.
Ferve nosso sangue pelo corpo.
Arde em labaredas o fogo dos desejos.
Queremos viajar pelo mundo.
Ir à lua e ao sol.
Dormir numa ilha tropical.
Viver encantado na eternidade...

Ouvindo Carlos Paredes
Dia cinzento
Berlim, 13 de Abril de 2019
8h58m
Jlmg
____________

Nota do editor

Último poste da série de31 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19636: Blogpoesia (614): "De S. Bento à Régua e ao Pinhão", "Desaires" e "Nostalgia", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

sábado, 13 de abril de 2019

Guiné 61/74 - P19677: Ser solidário (224): ONGD Ajuda Amiga: angarição de fundos para a construção da esola de Nhenque, onde as crianças têm que atravessar uma bolanha com um quilómetro de comprimento e com crocodilos, para irem à escola mais próxima, em Bera




Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque > A bolanha, a escola do outro lado, os crocodilos e os paus contra os "crocos"...


Fotos (e legendas): Cortesia de Ajuda Amiga 


CONSTRUÇÃO DA ESCOLA DE NHENQUE > 

NOVO PROJETO - EM FASE DE ANGARIAÇÃO DE FUNDOS E APOIOS



As crianças têm que atravessar uma bolanha com mais de um quilómetro, com crocodilos, para irem à escola


O objetivo deste projeto é a construção de uma escola na Guiné-Bissau na zona de Tolum e Nhenque [, a nordeste de Bissorã, na margem direita  do Rio Mansoa]. 

Esta escola irá resolver uma uma situação dramática, pois as crianças têm que atravessar uma bolanha com mais de um quilómetro com crocodilos para irem à escola de Bera que fica do outro lado, devido à falta de escolas nesta zona.

Este projeto irá acabar com este pesadelo e neste momento está na sua fase de angariação de fundos.

O objetivo da Ajuda Amiga é conseguir fundos em 2019 e construir a escola em 2020. 


Contamos com o seu apoio. Os pedidos e contactos decorrem em Portugal e a nossa voluntária e candidata pela Guiné-Bissau ao concurso Miss Mundo 2018, Rubiato (Ruby) Nhamajo, no âmbito das suas funções de Miss realizou em 1-2- 2019 uma Gala em Bissau, em que angariou igualmente fundos e apoios locais.

Todos os donativos devem ser feitos para a conta da Ajuda Amiga e serão integralmente utilizados nos projetos, pois os membros da Ajuda Amiga que se deslocam para apoiar os nossos projetos suportam eles próprios as suas despesas, e as despesas de funcionamento da Ajuda Amiga são pagas com as quotas dos sócios. 

A consignação dos 0,5% do IRS que pode ser feito para as sem custos para o doador, é outra importante contribuição. Consulte as nossas contas na página "Atividades" estão os nossos relatórios.






ONGD Ajuda AmigaDeclaração de IRS Solidária



Convidamo-lo a fazer uma declaração de IRS solidária, que irá ajudar os mais desfavorecidos, e não tem quaisquer encargos para si.

A Ajuda Amiga é uma Pessoa Coletiva de Utilidade Pública e são muitas pequenas ajudas que lhe permitem realizar a sua Missão.

O nosso NIF é 508617910

Ajude a mudar o Mundo.

Mais detalhes clique AQUI

___________

Nota do editor:

Último poste da série de 13 de abril de 2019 > Guiné 61/74 - P19676: Ser solidário (223): ONGD Afectos com Letras: Consignação de IRS - não gasta absolutamente nada e pode dar imenso

Guiné 61/74 - P19676: Ser solidário (223): ONGD Afectos com Letras: Consignação de IRS - não gasta absolutamente nada e pode dar imenso


1. Mensagem da ONGD Afectos com Letras:

De: Afectos com Letras <afectoscomletras@gmail.com>
Data: quarta, 3/04/2019 à(s) 13:56
Assunto: Consignação de IRS - não gasta absolutamente nada e pode dar imenso


Car@s Amig@s

A consignação do IRS, prevista na lei (Lei n.º 16/2001 de 22 de junho) permite-vos atribuir 0,5% do total do imposto pago ao Estado a uma instituição. Como a Afectos com Letras!

De realçar que este valor não é retirado ao contribuinte, mas sim ao valor que viria a ser recebido pelo Estado. Trata-se de vos dar, enquanto contribuintes, a possibilidade de escolher onde querem ver gastos parte dos vossos impostos.

Com os donativos angariados continuaremos a trabalhar em prol da educação dos mais jovens na Guiné-Bissau, nas quatro escolas que patrocinamos, bem como na garantia de acesso das meninas à escola, dando às comunidades rurais instrumentos mecanizados de descasque do arroz, libertando assim a mão de obra feminina mais jovem de um trabalho moroso e difícil, que é o descasque manual do arroz.


Para nos ajudar deverão preencher o quadro 11 do modelo 3 da declaração do IRS, com o NIF 509 301 878 e colocar uma cruz na opção "Instituições particulares de solidariedade social" e na opção IRS. Caso estejam abrangidos pelo IRS automático, poderão confirmar se este campo está preenchido e alterar este campo para apoiar a Afectos com Letras.

Para obter mais esclarecimentos podem contactar-nos por email: 

afectoscomletras@gmail.com
ou pelo telefone (+351)918786792.
Muito obrigada!
_______________

Guiné 61/74 - P19675: Os nossos seres, saberes e lazeres (315): Viagem à Holanda acima das águas (19) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Novembro de 2018:

Queridos amigos,
Era uma visita de ajustamento, dois dias em Bruxelas para abraçar amigos, ficar à sua disposição. E preparar uma viagem no início do outono, que se realizou, como aqui se irá contar.
Mesmo sujeito à compressão dos horários, voltou-se a locais que já se visitaram muitas vezes, mas como diz José Saramago, o que se vê no verão não é o que se vê no inverno, nem ao amanhecer nem ao entardecer, sozinho ou acompanhado, sempre se vai descobrindo algo mais que dita o consolo da visita e a vontade de ali retornar, como acontece sempre quando para o viandante se fala em Bruxelas.
Uma cidade com cerca de cem museus, pejada de alfarrabistas e lojas de traquitana, mesmo muitíssimo maltratada pelas destruições em prol de edifícios novos que albergam as instituições comunitárias, os negócios e os lobistas, tem sempre coisas novas a oferecer, tais e tantas são as suas pedras de tesouro.

Um abraço do
Mário


Em Bruxelas e Namur, numa certa repentinidade (19)

Beja Santos

Quem diria que esta praça tão formosa que começou a ser erigida na geometria que hoje conhecemos entre os séculos XIII e XIV, ficando concluído no século XV o edifício da Câmara Municipal, tenha sido barbaramente destruída num bombardeamento francês de 1695? Depois houve depredações, no tempo da Revolução Francesa, até que se chegou aos anos 1840-1850 e ganhou-se consciência da necessidade de salvaguardar este património de valor universal. Deve-se a Charles de Buls a política de salvaguarda da praça. Sempre que aqui se entra, fica-se de boca aberta perante a riqueza e a variedade das fachadas barrocas, douradas e esculpidas, com os seus engalanados emblemas corporativos. É uma decoração quase teatral, impossível ficar indiferente à justaposição algumas vezes violenta dos estilos e das épocas, à formosura de todo o conjunto.



A praça retangular é dominada pela alta silhueta do edifício da Câmara, é um dos principais monumentos da arquitetura civil gótica do país. O bombardeamento de 1695 destruiu e danificou arquivos e numerosas obras de arte, foram devorados pelo fogo quadros de Van der Weyden, Rubens e Van Dyck. Frente à Câmara temos a famosa Maison du Roi, o museu da cidade de Bruxelas, recheado de obras de valor incalculável. Quase todas as casas da Grand-Place pertenciam às corporações de mesteres, identificadas pelas esculturas ou motivos alegóricos aplicados nas fachadas: corporação dos padeiros, a guilda dos arqueiros, dos construtores de barcos, dos carpinteiros, etc. Todo e qualquer edifício está associado a uma história e nalguns deles, está historicamente seguro, encontraram-se figuras célebres como Karl Marx, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Não se pode ficar indiferente a tanta beleza, mil vezes que se entre nesta praça.



Regresso a Namur, almoço em casa de uma grande amiga, passei pela cidade, visita à cidadela e um passeio a Dinant, nada mais, ao anoitecer é regressar cedo a Bruxelas, na manhã seguinte parte-se pela alva a caminho de Lisboa.




O viandante é sempre recebido com desvelo e ternura, trata-se de uma amizade que já passou os 35 anos de relação profundamente cordial, conheceu-se o essencial deste recheio na cidade de Bruxelas, depois dessa mudança para Saint-Marc, a poucos quilómetros de Namur. Uma bela sopa, entradas, uma tábua de queijos, saladas, um bom Beaujolais, café e pralinês. Um passeio pelo jardim, Nelly Alter mantém com todo o esmero o seu jardim cercado de bosques. No pós-prandial, ruma-se à cidade.


Olha-se para o relógio, é arriscado ir passear a Dinant, o melhor é vagabundear por Namur, resiste-se a visitar a feira de antiguidades, o viandante já lá foi várias vezes, são esplendorosas cavernas de Ali Babá, o melhor é só cirandar pelo centro, e assim caiu-se numa praça de flores, está aqui a riqueza luxuriante de um fim de verão, como é que se pode resistir à intensidade de tanta luz, de tanto colorido?



É o fim do dia, vai seguir-se o comboio para Bruxelas, os tons ígneos do céu fazem prever um bom tempo para amanhã, uma viagem amena de regresso. Como é que é possível resistir a este céu em fogo?


No termo da viagem, o viandante quer recordar um templo religioso que visitou vezes sem conta nas suas deambulações por Bruxelas, Nossa Senhora da Finisterra, construção barroca, em plena Rua Nova, uma das zonas comerciais mais intensas, por aqui se andava de saco a comprar vitualhas e lembranças para a família, depois passava-se para a gare central, aqui se toma o comboio para o aeroporto de Zavantem, já no Brabante flamengo. Aqui se fazia pausa para agradecer privilégios, ficou o hábito, só em circunstâncias excecionais é que o viandante aqui não regressa para cantar hossanas, desejar paz para os seus mortos e glória para os seus vivos.

Igreja de Nossa Senhora da Finisterra, Rua Nova, Bruxelas.


É a despedida. Dentro em breve aqui se regressa, será uma visita comovente, quem aqui recebeu o viandante durante décadas tomou a decisão de partir para um lar, a madura idade sénior é mais forte. Deixamos para mais tarde a despedida comovente, amanheceu cedo, o céu é límpido, o viandante voltará sempre que lhe for possível, este entusiasmo é uma sarça-ardente, e ainda bem.

FIM
____________

Nota do editor

Último poste da série de 30 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19633: Os nossos seres, saberes e lazeres (314): Viagem à Holanda acima das águas (18) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Guiné 61/74 - P19674: Tabanca Grande (476): João Fernando Congil Rosa, ex-Soldado TRMS da CCAÇ 2465 / BCAÇ 2861 (Có e Bissum Naga, 1969/70), nosso tertuliano 787

Via facebook Messenger, o nosso camarada e novo tertuliano João Fernando Congil Rosa, ex-Soldado TRMS da CCAÇ 2465 / BCAÇ 2861 ( e Bissum Naga, 1969/70), manifestou a sua vontade de aderir à nossa tertúlia.

Com muito gosto o recebemos à sombra do nosso poilão, onde ocupará o lugar n.º 787.

Lembramos que a CCAÇ 2465 foi comandada pelo Capitão de Infantaria António Melo de Carvalho, actualmente Coronel na situação de Reforma, também ele pertencendo à tertúlia deste Blogue.

O Coronel António Melo de Carvalho escreveu o livro "Paz e Guerra Memórias da Guiné", já aqui abordado numa recensão feita por Mário Beja Santos em 2016. 

Abril/Maio 1967 - Construção do quartel de Bissum-Naga. 
Foto e legenda: © Carlos Ricardo. 


Sobre a CCAÇ 2465:


Desembarcou em Bissau em 11 de Fevereiro de 1969. Seguiu imediatamente para Có, a fim de efectuar o treino operacional e integrar as forças empenhadas na protecção e segurança aos trabalhos da estrada Bula-Có, na zona de acção do seu Batalhão.

Em 16 de Maio de 1969 foi substituída na missão pela CCAÇ 2584 e seguiu para Bissum a fim de render a CCAV 1747, tendo assumido a responsabilidade daquele subsector em 4 de Junho de 1969.

Em 30 de Novembro de 1970 foi rendida pela CCAÇ 2781 e recolheu a Bissau.

Regressou à Metrópole em 7 de Dezembro de 1970.
____________

Nota do editor

Último poste da série de10 de abril de 2019 > Guiné 61/74 - P19663: Tabanca Grande (475): Fernando José Estrela Soares, cor inf ref, membro da Tabanca da Linha, senta-se à sombra do nosso poilão, sob o lugar nº 786: foi comandante da açoriana CCAÇ 2445 (Cacine, Cameconde e Có, 1968/70)