segunda-feira, 19 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1613: Com as CCP 121, 122 e 123 em Gadamael, em Junho/Julho de 1973: o outro inferno a sul (Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista)

Guiné > Bissau > Av do Império > CCP 121 > Desfile no 10 de 1972


Guiné > Bissau > Bissalanca > 1972 > O ex-1º cabo paraquedista Victor Tavares, do BCP 12 / CCP 121 (1972/74).


Fotos e texto: © Victor Tavares (2007). Direitos reservados.


Gadamel Porto: outro infrno a sul


Depois de regressada do inferno de Guidaje (1), a CCP 121 encontrava-se estacionada em Bissalanca, gozando um curto período de descanso, após a desgastante acção que tivera no norte da província.

Daí o Comando Chefe entender que os 4 a 5 dias de descanso concedidos já eram demais e ser necessário o reforço das nossas tropas aquarteladas em Gadamael por se encontrarem em grandes dificuldades. Acaba, por isso, por dar ordens para rumarmos a Gadamael, para onde partimos a 12 de Junho de 1973.

Partindo de Bissau em LDG [Lancha de Desembarque Grande] com destino a Cacine, lá chegámos a meio da tarde deste mesmo dia. Como a lancha que nos transportava, não conseguia atracar ao cais por falta de fundo, fomos fazendo o transbordo por várias vezes em LDM [Lanchas de Desembarque Médias] para aquela localidade.

Foi então, logo na primeira abordagem da lancha, que me apercebi que na mesma estava um indivíduo que pela cara me pareceu familiar. No entanto, como o mesmo se encontrava vestido à civil - calções, camisa aos quadradinhos toda colorida e sandálias de plástico transparente - pensei ser porventura algum civil que andaria por ali no meio da tropa, o que seria natural e podia eu estar errado.

Depois de toda a tropa estar desembarcada, indicaram-nos o local onde iríamos ficar, num terreno frente ao quartel de Cacine. Instalámo-nos e de seguida fomos dar uma volta pelas redondezas, até que no regresso deparo com a mesma criatura sentada no cais com ar triste e pensativo, típico da pessoa a quem a vida não corre bem. Eu vinha acompanhado do paraquedista Vela, meu conterrâneo – e hoje meu compadre. Perguntei-lhe:
- Ouve lá, aquele tipo ali não é nosso conterrâneo? - Responde ele:
- Sei lá, pá, isto é só homens.

Gadamael ? Vocês vão lá morrer todos!


Por ali estivemos na conversa mais algum tempo, até que tomei a iniciativa de me dirigir ao fulano uma vez que ele continuava no mesmo sítio. Acercando-me dele perguntei-lhe:
-Diz-me lá, camarada, por acaso tu não és de Águeda ?
Responde-me ele:
- Sou. - e pergunta-me de seguida:
- E você não é de Recardães?

Digo-lhe que sim, cumprimentamo-nos e vai daí perguntei-lhe o que é que ele estava ali a fazer, porque de militar não tinha nada. Respondeu-me que não sabia o que estava ali a fazer, de uma forma triste e ao mesmo tempo em tom desesperado e desanimado.

Entretanto com o desenrolar da conversa, ele perguntou o que estávamos ali a fazer, eu respondi que na madrugada seguinte íamos para Gadamael Porto…. Qual não é o meu espanto quando ele põe as mãos à cabeça, desesperado e desorientado, e me diz:
- Não vão, porque vocês morrem lá todos!

Tentei acalmá-lo, dizendo-lhe para estar descansado que nada de grave ia acontecer, pedi-lhe para me contar o que se passava, vai daí, começa ele a relatar o que tinha passado de Guileje e Gadamael até chegar a Cacine. Na verdade depois de o ouvir, não me restaram dúvidas que ele tinha mais do que sobejas razões para estar no estado psicológico aterrador em que se encontrava .


Os militares que abandonarm Guileje, foram tratado como desertores e traidores à Pátria

Entretanto, informa-me da sua situação militar daquele momento tal como a de outros camaradas que abandonaram Guileje. Neste grupo estava também outro meu conterrâneo, que o primeiro foi chamar, vindo este a confirmar tudo.

O que mais me chocou foi a forma desumana como estes militares foram tratados depois da sua chegada a Cacine, sendo considerados como desertores e cobardes, quando em meu entender, se alguém tinha que assumir a responsabilidade dessa situação, seriam os seus superiores e nunca por nunca os soldados.

Estes homens foram humilhados por muitos dos nossos superiores - que eram uns grandes heróis de secretária! -, foram proibidos de entrar no aquartelamento, não lhes davam alimentação, o que comiam era nas Tabancas junto com a população. As primeiras refeições quentes que já há longos dias não tomavam, foram feitas por estes dois homens juntamente com os paraquedistas, porque o solicitei junto do meu Comandante de Companhia, Capitão Paraquedista Almeida Martins – hoje tenente general na reserva - ao qual apresentei os dois camaradas do exército que lhe contaram tudo por que passaram.

Os dois desgraçados de Guileje eram meu conterrâneos: o Carlos e o Victor Correia

Solicitei ao meu comandante para eles fazerem as refeições junto com o nosso pessoal, prontificando-me eu a pagar as suas diárias se fosse necessário. Ele autorizou os mesmos a fazerem as refeições connosco enquanto não tivessem a sua situação resolvida e a nossa cozinha que dava apoio ao Bigrupo que estava de reserva, ali se mantivesse.

O meu comandante expôs o problema destes homens ao comandante do aquartelamento do exército, solicitando que o mesmo fosse resolvido com o máximo de brevidade uma vez que a situação não era nada dignificante para a instituição militar.

É de salientar que estes dois homens já não escreviam aos seus familiares há mais de um mês, porque não tinham nada com que o fazer. Fui eu que lhes dei aerogramas para o fazerem e os obriguei a escrever, porque o seu moral estava de rastos e a vida daqueles militares já não fazia sentido. Dormiam debaixo dos avançados das Tabancas enrolados em mantas de cor verde, não tendo mais nada para vestir a não ser o camuflado.

Estes meus dois conterrâneos que atrás refiro eram o Carlos (que infelizmente já faleceu, natural do lugar de Perrães, Oliveira do Bairro) e o Victor Correia (de Aguada de Baixo, Águeda, e que hoje sofre imenso de stress pós-traumático de guerra) )(2).

Depois Guileje sitiada e abandonada, O PAIGC virou-se para Gadamael

No dia seguinte mais uma missão estava destinada à Companhia de Caçadores Paraquedistas 121 [CCP 121]. Já se encontravam há vários dias as CCP 122 e 123, para fazer face à gravidade da situação criada pelas forças do PAIGC que, neste período do ano , entre Maio e Julho, tinha intensificado os ataques, tanto a aquartelamentos como a colunas.

Em Gadamael Porto a situação era cada vez mais complicada , uma vez que os militares do PAIGC já tinham tomado o destacamento de Guileje, após ataques contínuos de artilharia e flagelações de armas ligeiras, chegando mesmo a cercar o destacamento e mantendo a sua guarnição sitiada até à tomada de decisão de abandonar o destacamento por parte do seu Comandante, Coutinho de Lima (3), uma vez que não lhe restava outra alternativa. Não o fazendo correria o risco de as NT serem dizimados pelas forças atacantes que estavam decididas a tomar fde assalto o aquartelamento.

Os ataques geralmente partiam da Guiné Conacri. Após o abandono de Guileje por parte das nossas forças, os homens do PAIGC começaram a bombardear Gadamael Porto, concentrando toda a sua artilharia apontada a este destacamento com a intenção de o tomar de seguida.

No entanto este já se encontrava guarnecido pelas Companhias de Paraquedistas 122 e 123 e, a partir da data acima indicada. pela 121, as quais impediram tal intenção. Mesmo assim foram dias de grande azafama em termos operacionais aonde a segurança era nula. Várias vezes ao dia o destacamento era atacado e não falhavam um único tiro, tornou-se numa situação insuportável. As nossas tropas tinham mais segurança quando andavam fora do destacamento, em patrulhmentos. A nossa missão foi manter a segurança do destacamento, patrulhando e fazendo incursões até junto da fronteira onde o PAIGC tinha instaladas armas antiaéreas e canhões sem recuo. Era dali que atingiam Gadamael Porto e antes Guileje . Durante estes patrulhamentos tivemos um primeiro contacto com as forças do PAIGC sem qualquer problemas para as nossas tropas.

13 de Junho de 1973: aliviando a pressão sobre Gadamael

No dia 13 de Junho, de manhã cedo, preparámo-nos para rumar a Gadamael, sendo transportados em Zebros do Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos nº 21, dois grupos de combate sendo colocados nas margens do rio nas proximidades de Gadamael para onde seguimos em patrulhamento depois de serem desembarcados os outros dois grupos de combate da 121 que foram deslocados em LDM. No regresso, as embarcações seguiram para Cacine com os paraquedistas da CCP122, aonde iriam recuperar durante um curto período.

Chegados ao destacamento [ de Gadamael], verificámos que o estado do mesmo era na verdade aterrador, fruto dos constantes ataques, sendo bem visíveis os buracos dos rebentamentos das granadas do IN. Era evidente que quem lá tinha estado anteriormente, tinha passado por uns maus bocados.

As nossas duas companhias de paraquedistas que se encontravam aqui estacionadas estavam em permanentes patrulhamentos no exterior do aquartelamento, indo a este simplesmente para remuniciamento e reabastecimento. Desta forma fomos alargando o raio de acção indo até junto à fronteira, para conseguir referenciar os locais de onde o PAIGC fazia os ataques, para dar indicações à nossa Artilharia e Força Aérea. A impossibilidade de referenciar, por ar, estes alvos, levou-nos a ocupar as zonas em que o IN poderia instalar as suas bases do fogo e deste modo a fazê-lo afastar-se. Foi o que, realmente, veio a acontecer.

A partir desta altura fomos ao encontro dos locais de onde se ouviam os disparos das bocas de fogo e ocupámos essas áreas mesmo junto à fronteira, algumas vezes chegámos mesmo a ultrapassar a linha de fronteira com alguma profundidade - nunca por períodos longos, mas apenas porque havia aí bases de fogo IN. Nunca conseguimos apanhá-los desprevenidos, pois havia sempre forças de infantaria do PAIGC que os alertava com tiros acabando por retardar a nossa progressão.

No entanto os ataque a Gadamael deixaram de ser tão frequentes, passando as flagelações a a realizarem-se com menos intensidade e sem a precisão até aí evidenciada, além de feitas a partir daí sempre de locais diferentes. Quando as nossas forças aí chegavam, já eles tinham partido para outro local.

Mesmo já quando as forças do PAIGC não flagelavam o destacamento com tanta frequência, fomos mantendo a actividade de patrulha ao mesmo ritmo, por forma a manter as áreas próximas do braço do rio que dava acesso a Gadamael e que era a nossa única via de ligação para o exterior.

Consequentemente a eficácia de tiro até aí verificada por parte do IN deixou de existir e a intenção e pressão inicial caiu por terra, as forças do nosso exército voltaram ao destacamento e com os pára-quedistas fizeram vários patrulhamentos transmitindo-lhes os nossos conhecimentos e mais confiança nos deslocamentos em plena mata até aí de arrepiar.


Guiné > Mapa Geral da Província (pormenor) > 1961 > Posição relativa de Guileje e de Gadamel, no sul da Guiné, na actual Região de Tombali, na fronteira com a Guiné-Conacri.

Foto: © Humberto Reis (2005). Direitos reservados



23 de Junho de 1973: atolados num campo minado!

A 23 de Junho de 1973, recebemos ordens para novo patrulhamento. Manhã cedo arrancámos desta vez saindo pela que era considerada porta de armas virada para o rio, o qual atravessámos. Avançámos para o local indicado pelos nossos superiores, em progressão lenta e com cuidados redobrados.

Esta zona não era para brincadeiras. Nesse dia éramos acompanhados por 2 militares do exército que eram sapadores e montavam minas no terreno tentando proteger o destacamento da acção do inimigo. Passado algum tempo, recebemos ordens para parar na frente, estávamos num local minado pelos nossos novos companheiros e a sua missão era indicar-nos a localização das minas para podermos contornar o local sem qualquer incidente.

Qual não foi o nosso espanto quando nos foi dito que já tinhamos avançado demais e que nos encontrávamos sobre o campo minado. A nossa sorte foi que tinha chovido torrencialmente nos dias anteriores e, como o terreno era um pouco inclinado, arrastou terras para o local minado, o que fez com que não tivéssemos accionado qualquer aparelho. Esta situação aconteceu porque os sapadores já não conseguiam identificar o local minado com exactidão. Passados esses momentos de grande ansiedade e saídos desta zona perigosa, continuámos a progressão.

O nosso objectivo era fazer um reconhecimento a determinado local referenciado pelo Comandante das operações naquela zona e que o mesmo suspeitava de ali existir algo de estranho, assim o primeiro bigrupo da CCP121 continua a sua deslocação.

Caía aquela chuva miudinha tipo cacimbo, que se foi acumulando nas folhas das árvores e por consequência caíam no chão fazendo o ruído característico que se conhece. Depois de algum tempo andado, começámos a ouvir pessoas a falar, avançámos com ainda mais cuidado , a mata era bastante aberta , com pouca vegetação rasteira e com árvores de grande porte.

As condições do terreno proporcionava a formação de uma frente em linha de um grupo com 5 a 7 paraquedistas para esse efeito foram chamados mais 2 homens apontadores de armas pesadas , MG e HK21, que seguiam mais atrás. Formada a equipa de assalto, fomos avançando lentamente e cada vez mais se ouviam os homens do PAIGC, para surpresa nossa, quando detectámos em cima de uma grande árvore um militar inimigo como sentinela avançada, e que também ele foi surpreendido porque tínhamos homens da nossa coluna que já tinham passado por ele. Também o barulho da chuva agora mais intensa o atraiçoou .

20 minutos de fogo numa grande base do IN

Já a uns 100 metros das posições de onde vinham as vozes, encontravam-se os paraquedistas da frente e mais atrás a nossa preocupação era não sermos detectados pelo tal sentinela avançado que apenas se preocupava em vigiar o lado contrário ao qual nós nos encontrávamos. Talvez eles pensassem que se aparecesse alguém seria por aquele lado , visto que passava por lá uma picada , mas nós vinhamos em sentido contrário e a corta-mato, o que para nós era habitual.

O guarda tinha sido atraiçoado, para nosso bem, no entanto na frente, quando tudo fazia prever que íamos colher o inimigo de surpresa , houve um elemento deles que detectou as nossas tropas abrindo fogo primeiro, ao qual os araquedistas responderam com intenso poder de fogo causando bastantes baixas ao inimigo como se verificou pelos vários e abundantes rastos de sangue, visto que eles se encontravam em valas e abrigos colectivos de onde se puseram em fuga. Houve um grupo que, entrincheirado, resistiu até à retirada dos seus feridos e mortos ser feita, o que levou a que este combate se prolongasse durante mais de 20 minutos.

Um grande ronco: capturado algum material de Guileje

Mesmo assim os guerrilheiros acabaram por deixar uma quantidade apreciável de armas , munições e granadas, algumas delas era material das nossas tropas que o inimigo tinha vindo a capturar às forças do nosso Exército caídos em emboscadas e do destacamento de Guilejee o qual já tinha sido tomado pelas forças do PAIGC. Neste contacto, logo nos primeiros tiros mais atrás, com uma rajada abatemos também o vigia acima referido . Foi a única baixa do PAIGC que pudemos confirmar na retaguarda.

Entretanto abandonámos o local depois de fazer a recolha de todo o material, porque era usual o inimigo fazer batidas de zona com morteiros ou canhão sem recuo, o que era sempre perigoso. Este grupo que foi apanhado de surpresa, era constituído por cerca de 30 combatentes.

Afinal o nosso comandante de operações Major Paraquedista Calheiros tinha razão em solicitar a nossa intervenção neste local porque era realmente um enorme quartel posso até dizer o maior, talvez mesmo o maior de todos os que detectamos durante toda a minha comissão.

Próximo desta base e paralelo à linha de fronteira, referenciámos uma picada que era bastante utilizada por viaturas vindas da Guiné Coancri, com passagem recente. Aí emboscámos durante algum tempo sem que o IN se revelasse. Levantámos a emboscada e regressámos ao destacamento sem mais qualquer incidente e bastante carregados com o ronco conseguido.

2 Julho de 1973: ataque em força a Gadamael

O PAIGC ataca o destacamento de Gadamael Porto utilizando Canhões s/r , Morteiros 82 , RPG 2, RPG 7 e Foguetões. Foi talvez o ataque mais forte desde o início das flagelações que eram constantes ao destacamento, mas que apenas conseguiu destruir mais algumas das poucas infra-estruturas existentes que ainda se mantinham mais ou menos direitas e causar algum efeito psicológico negativo nas nossas tropas. Do ladoNT ali aquarteladas, houve apenas 2 feridos, sem gravidade.

De salientar que os ataques inimigos eram de tal forma precisos que era raro cair uma granada fora do perímetro do destacamento. Até chegámos a pensar que havia alguém, no interior ou bem perto, a dar orientação e correcção dos fogos o que se viria mesmo a confirmar que assim era.

A CCP 121 emboscada a 500 metros do destacamento

Nos dias seguintes a CCP 121 fazia patrulhamentos, como era habitual todos os dias em Bigrupo (muito raro) ou a nível de Companhia (quase sempre) - isto devido aos poucos efectivos que a CCP 121 tinha em virtude das baixas havidas anteriormente e as rendições serem escassas ou mesmo nulas para a situação operacional existente.

Num desses patrulhamentos, logo a pouco mais de 500 metros do destacamento, a CCP 121 foi emboscada por um forte grupo de combate do PAIGC ao qual deu a resposta adequada durante mais de 25 minutos. De salientar que o inimigo tinha no local uma boa quantidade de atiradores equipados com RPG 2 e RPG 7, o que nos levou a pensar que estavam a preparar um assalto ou forte ataque ao destacamento logo que a nossa Companhia estivesse fora da zona, uma vez que o destacamento ficaria muito mais desprotegido em termos de efectivos e com poder de fogo mais reduzido.

Neste contacto apenas houve a registar 1 morto - o nosso guia africano - e 1 ferido ligeiro nas nossas tropas. Capturámos 2 armas ao inimigo e confirmámos 1 morto no local . Tivemos que regressar ao destacamento, pois já estávamos com poucas munições. Aabámos por sair para o patrulhamento planeado, pouco depois, ao longo do rio e que decorreu com toda a normalidade .

7 de Julho de 1973: emboscada nas matas de Lamol com 4 mortos (confirmados) do PAIGC

A CCP 121, patrulhando mais uma vez a zona nas matas de Lamol, foi emboscada por um forte grupo de combate do PAIGC que pensámos ser de cerca de 30 elementos fortemente armados e municiados com todo o tipo de armas que os guerrilheiros normalmente utilizavam: RPG 2 , RPG 7, Morteiros , Canhão s/r, PPSH - ou costureinha, asssim chamada devido ao seu cantar inconfundível - , Kalashnikov , Degtyarev e outras armas ligeiras de repetição tais como a Simonov.

Alguns destes guerrilheiros eram de tez branca. O contacto durou vários minutos. Em consequência deste contacto, o inimigo sofreu 4 mortos confirmados e bastantes feridos , deixando vário material de guerra no local.

Muitos outros episódios poderia contar desta passagem por Gadamael Porto. Poderia falar sobre bre a alimentação, já que só passadas algumas semanas é que se começou a cozinhar... E o quê? Arroz com dobrada ao meio dia e o mesmo à noite, sendo o mesmo nos dias seguintes... E alguma dela já fora de validade!... As carências eram grandes e as dificuldades enormes em todos os aspectos, mas fomos sobrevivendo conforme se podia.

Não posso deixar de referir que, terminado mais este duro período em Gadamael. os paraquedistas do BCP 12 deram um contributo valioso e valoroso e de forma decisiva que conseguiu desta forma travar o ímpeto das grandes ofensivas que o PAIGC lançou tanto a norte (Guidaje) como a sul (Guileje e Gadamael.

E assim honrámos assim a nossa arma e também as nossas forças armadas.

Regressamos em LDG a Bissau no dia 17 de Julho de 1973

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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts relacionados com a CCP 1231 e com o nosso camarada e amigo Victor Tavares:

18 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1610: Ao meu pai, Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista, CCP 121 (Osvaldo Tavares)

17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1605: A reportagem da TSF e o regresso do Vitor Tavares a Guidaje (Albano Costa)

8 de Março de 2007 >Guiné 63/74 - P1573: O Victor Tavares, da CCP 121, a caminho de Guidaje, com uma equipa da TVI (Luís Graça)

21 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1540: Os paraquedistas também choram: Operação Pato Azul ou a tragédia de Gamparà (Victor Tavares, CCP 121)

8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1350: Ataque ao navio patrulha no Rio Cacheu (Victor Tavares)

26 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1316: A participação dos paraquedistas na Operação Ametista Real: assalto à base de Kumbamory, Senegal (Victor Tavares, CCP 121)


9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

25 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1212: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (1): A morte do Lourenço, do Victoriano e do Peixoto

21 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1099: O cemitério militar de Guidaje (Manuel Rebocho, paraquedista)

(2) Estes camaradas devem ter pertencido à CCAV 8350, a última unidade a deixar Guileje, e a que pertenceu o membro da nossa tertúlia, o ex-furriel mil op espec José Casimiro Carvalho:

Vd. post de 2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73) (Magalhães Ribeiro)

Recorde-se que, de 18 a 22 de Maio de 1973, o aquartelamento de Guileje foi cercado pelas forças do PAIGC (Op Amilcar Cabral), obrigando as NT (CCAV 8350, 1972/73), a abandoná-lo, juntamente com cerca de 600 civis.

A Companhia Independente de Cavalaria 8350/72 foi a unidade de quadrícula de Guileje entre Outubro de 1972 e Maio de 1973. Viu morrer em combate nove dos seus homens, entre algumas dezenas de feridos.

Foi seu Comandante o Capitão Abel dos Santos Quelhas Quintas, que escreveu numa carta dirigida ao Senhor Chefe do Estado Maior do Exército, sobre o Furriel Miliciano de Operações Especiais José Casimiro Pereira Carvalho, com o seguinte teor (desconheço a data):

Exmo Senhor Chefe do Estado Maior do Exército:

"Por, quando Comandante da Companhia Independente da Cavalaria 8350, em serviço na Guiné entre 1972 e 1973, sedeada em Guileje, ter sido ferido em Gadamael, nunca me foi possível propor uma homenagem pública ao Furriel de Operações Especiais Casimiro Carvalho.

(...)"Quando fui ferido, foi este homem que me ajudou a deslocar para junto do Rio Cacine, pois eu mal me podia movimentar, deslocando-se em seguida debaixo de intenso fogo de morteiros e outra armas que, neste momento, não sei especificar, para conseguir um depósito de gasolina de forma a poder fazer movimentar a embarcação em que me evacuou para Cacine, como também outros militares que nesse momento já se encontravam junto ao pequeno cais.

""Nas reuniões anuais da nossa Companhia muitos falam dos actos de bravura deste furriel, desde, debaixo de fogo, conduzindo uma Berliet se deslocar aos paióis para municiar não só as bocas de fogo de artilharia, como para os morteiros, fazer ainda parte duma patrulha onde morreram vários militares ficando ele e outro a aguentar a situação, até serem socorridos, e ter sido ferido, evacuado para Cacine, o que não invalidou que passados poucos dias se tenha oferecido para voltar para junto dos camaradas no verdadeiro inferno em Gadamael" (...)

(3) O major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima era o comandante do COP 5, na altura da batalha de Guileje e Gadamael:

Vd. posts de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCI: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael (Afonso M.F. Sousa / Serafim Lobato)

Guiné 63/74 - P1612: Relembrando, com saudade, os nossos soldados fulas da CART 11 (Renato Monteiro / João Moleiro)

1. Mensagem que nos chega do meu querido amigo e nosso camarada Renato Monteiro (1)

Amigo Renato:

Cumpri a minha comissão na CART 11 no 2º pelotão, onde rendi um furriel cabo verdiano, de nome Vera Cruz, que quase nem conheci.

Depois de ter visitado a página Luís Graça e Camaradas da Guiné parece-me ser o meu amigo o furriel Renato de que os soldados fulas tanta vez me falavam e recordavam com alguma saudade.

Assim sendo receba um abraço do Lacrau

João Moleiro

2. Resposta do Renato Monteiro:

João: De um lado para o outro, não me tem sido possível parar um momento para agradecer a sua mensagem. E trata-se de um agradecimento pela satisfação que me deu ao falar dos africanos da CART 11...

Na verdade, e volvido tanto tempo, ainda mantenho bem viva a lembrança de companheirismo e de amizade que partilhei com essa rapaziada, perguntando-me o que será feito dela...

Como até hoje nunca estabeleci qualquer correspondência com nenhum camarada da [CART] 2479, à excepção do Furriel Cunha, e só muito de longe em longe, ignoro qual foi o destino dos demais camaradas de então...

Sequer sabia que tinha sido o amigo que haveria de integrar o 2º pelotão, desconhecendo ainda quem me substituiu na altura em que fui de malas aviadas para uma Companhia, sediada no Xime.

Mais uma vez há que reconhecer o mérito do Luís Graça, ao proporcionar estes agradáveis e imprevisíveis encontros, dificilmente possíveis fora do Fora Nada!

Com um abraço e até ao próximo regresso...

Renato

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Notas de L.G.:

(1) Renato Monteiro: Furriel miliciano da CART 2479/CART 11, que eu conheci em Contuboel, em Junho/Julho de 1969, e de quem guardo uma saudosa lembrança.

Seguiu para Piche, a nordeste de Nova Lamego (Gabu), com os seus africanos, na mesma altura em que nós (CCAÇ 2590/CCAÇ 12) seguíamos para Bambadinca. Esses africanos, de etnia fula, como os nossos, fizeram a recruta e a instrução de especialidade juntamente com os da nossa companhia.

Na altura Contuboel funcionava como um centro de instrução militar. Nunca mais o tornei a ver, ao Monteiro. Graças à Net, através da minha página pessoal, foi ele que me localizou. Hoje é membro da nossa tertúlia.

É autor de vários livros, de poesia e de fotografia. É co-autor do livro Guerra Colonial - Fotobiografia. A capa que reproduzimos ao lado é da 2ª edição, 1998. (Lisboa: Publicações Dom Quixote). O livro, que tem uma excelente selecção de imagens da guerra colonial nas três frentes, é também distribuído pelo Círculo de Leitores.

(2) Vd. posts relacionados com a CART 2479 e o nosso camarada Renato Monteiro:

23 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P899: Diga se me ouve, escuto! (Renato Monteiro)

23 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P898: Saudades do meu amigo Renato Monteiro (CART 2479/CART 11, Contuboel, Maio/Junho de 1969)

28 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1001: Estórias de Contuboel (i): recepção dos instruendos (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

30 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1005: Estórias de Contuboel (ii): segundo pelotão (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

2 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1017: Estórias de Contuboel (iii): Paraíso, roncos e anjinhos (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1026: Estórias de Contuboel (iv): Idades sem lembrança (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1027: Estórias de Contuboel (V): Bajudas ou a imitação do paraíso celestial (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

Guiné 63/74 - P1611: Evocando Barbosa Henriques em Guileje (Armindo Batata) bem como nos comandos e na PSP (Mário Relvas)

1. Do Armindo Batata (que esteve em Guileje, como Alf Mil da CART 2410, de Jun 1969/Mar 1970) recebi, em 8 do corrente o seguinte comentário sobre a morte de Barbosa Henriques (1):

Foi meu comandante em Guileje, onde foi promovido a capitão nos primeiros meses 1969. O meu grande respeito e admiração por ele perduram desde esses tempos.

Armindo Batata


2. No blogue Quanto Mais Quente Melhor (Esquadrão de Reconhecimento FOX 2640, Guiné, Bafátá, 1969/71), editado por Fernando Vouga (que julgo ter sido o seu comandante), encontrei uma referência ao Coronel Comando Barbosa Henriques, recentemente falecido:

Quanto Mais Quente Melhor > 21 de Fevereiro de 2007 > De Mário Relvas (ex-comando da CCmds 123/131):

O Coronel Comando Barbosa Henriques - O Bomba H - partiu deste mundo, triste pela situação a que isto chegou! As minhas mais profundas e sentidas condolências à família, aos Comandos e aos Polícias.

Lembro que comandou o CI - Corpo de Intervenção da PSP. Recordo um episódio em que na margem sul trabalhadores encerravam a fábrica onde trabalhavam e ele foi lá ter, à civil, pois já estava lá uma Meia do CI. Quando lá chegou foi para frente e como estava à civil, enquanto carregava levava também porrada dos seus homens e gritava:
-Porra, vocês não conhecem o vosso comandante?

Um grande homem que para lá das campanhas africanas, do Regimento de Comandos, prestou um enorme serviço ao País na PSP! No CI era conhecido como o Zé da Bóina porque usava a bóina encarnada dos Comandos! Por isso o marchar diferente do CI, semelhante ao dos Comandos (...).

Este comentário é um post orginal (Partiu um Camarada > 21 de Fevereiro de 2007) do blogue do Mário Relvas > Aromas de Portugal.

3. Breve historial da 1ª Companhia de Comandos Africanos (CCA):

(i) 9 de Julho de 1969 - Início da organização da companhia, em Fá Mandinga, formada exclusivamente por naturais da Guiné e com base em anteriores grupos de comandos já existentes nos batalhões;

(ii) 6 de Fevereiro de 1970 - Início da sua instrução; instrutor: Capitão Art Barbosa Henriques, ex-comandante da 27ª CCmds;

(iii) 26 de Abril de 1970 - Cerimónia de juramento de bandeira em Bissau, na presença do COM-CHEFE;

(iv) 21 de Junho / 15 de Julho de 1970 - Treino operacional na região de Bajocunda. No final é colocada em Fá Mandinga (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca) com a missão de intervenção e reserva do COM-CHEFE;

(v) 30 de Outubro a 7 de Novembro de 1970 - Operação a norte da região do Enxalé, na zona de acção do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72);

(vi) 21/22 de Novembro de 1970 - Toma parte na Op Mar Verde, sob o comando de Alpoim Galvão (invasão da Conacri). Perde um dos seus grupos de combate (comandado pelo tenente graduado Januário que posteriormente morto na prisão, enquanto os seus homens foram fuzilado);

(vii) Princípios de Dezembro de 1970 / Finais de Janeiro de 1971 - Três pelotões em reforço temporário das guarnições fronteiriças de Gandembel e Guileje;

(viii) Finais de Julho de 1971 - Segue de Tite para Bolama, para um curto período de descanso e recuperaçã;

(ix) Meados de Agosto de 1971 - É colocada em Brá (Bissau), nas instalações do futuro Batalhão de Comandos;

(x) Continua a sua intensa actividade operacional, durante o resto do ano de 1971 e o ano de 1972, em conjunto com a 2ª Companhia de Comandos Africanos, entretanto formada;

(xi) Penetra em santuários da guerrilha do PAIGC que eram verdadeiros mitos no nosso tempo, como por exemplo:
- Morés (20-24 de Dezembro de 1971; 7-12 de Fevereiro de 1972);
- Choquemone [a nordeste de Bula, na região do Oio] (18-22 de Outubro de 1971);
- Salancaur-Unal-Guileje (28 de Março a 8 de Abril de 1972);

(xii) 2 de Novembro de 1972 - É integrada no Batalhão de Comandos;

(xiii) 7 de Setembro de 1974 - A 1ª CCA é desactivada e extinta, bem como as restantes forças do Batalhão de Comandos.

Fonte:

Comandos: tropa de elite > Companhias: Guiné> 1ª Companhia de Comandos Africana

Associação de Comandos > Historial dos comandos: efemérides

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 19 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1536: Morreu Barbosa Henriques, o ex-instrutor da 1ª Companhia de Comandos Africanos (Luís Graça / Jorge Cabral)

domingo, 18 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1610: Ao meu pai, Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista, CCP 121 (Osvaldo Tavares)

1. O filho do Victor Tavares, Osvaldo Tavares - que, se não me engano, é o filho mais velho, que trabalha na emergência médica pré-hospitalar, em Águeda - escreveu este comentário a um post sobre o seu pai (1), sob a forma de um poema...

Eu não conheço pessoalmente o Osvaldo, mas o Vitor falou-me dele, com orgulho... O nosso camarada, grande herói do Cufeu/Guidaje (2), bem merece, duplamente, este filho e esta singela e linda homenagem do seu filho. Faz-nos inveja a todos...

É por essa razão que eu achei que tinha de dar o devido destaque, no nosso blogue, a este poema que um filho dedica a seu pai... A vida é feita de pequenos gestos de ternura como estes... E eu sei do que falo, porque acabo de fazer a minimaratona da Ponte sobre o Tejo até Belém, e é bom sentir o apoio de um filho ao nosso lado, 37 anos mais novo, a apoiar-nos e a motivar-nos para cumprir, com tranquilidade e dignidade, a missão (que no caso em apreço era tão apenas chegar à meta em 60 minutos, sempre em passo de corrida)...

Osvaldo, és um grande homem e e ainda por cima tens talento para a escrita poética. Victor, tens um belo rapaz. E a propósito, não te esqueças de nos contar, a nós, teus amigos e camaradas da Guiné, as emoções do teu recente regresso a Guidaje, com uma equipa de reportagem da TVI. Com tempo e vagar depois de cumpridas todas as outras tuas obrigações, como pai, chefe de família, empresário, autarca, cidadão... LG

Para dedicar ao meu pai, Victor Tavares
por Osvaldo Tavares



A presença remota do passado,
Nos sentidos, ainda tão vibrante,
Questiona o que se tem apressado
E contido neste peito infante!

O passado é potencial tão presente
Mas passível de transformação
Naquilo que hoje se sente
Bem no fundo do coração!


Num desenrolar de emoções
Vão passando como um filme na mente
As lembranças que fazem reviver
A ascensão de uma vida tão ardente.


São belas recordações que inundam
Com miragem o poder da fantasia,
As saudades de um tempo que não volta
Mas invadem a alma de alegria.

Lembranças que abrem o caminho
Como luzes que brilham com ardor
E acalentam um grande sonho
De viver um futuro com amor.

Osvaldo Tavares

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Nota de L.G.:

(1) Vd. poste de 8 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1573: O Victor Tavares, da CCP 121, a caminho de Guidaje, com uma equipa da TVI (Luís Graça)


(2) Vd. postes de:.

25 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1212: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (1): A morte do Lourenço, do Victoriano e do Peixoto

9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

Guiné 63/74 - P1609: Álbum das Glórias (9): Pessoal da CART 3942 em Bolama (Joaquim Mexia Alves)

Guiné > Ilha de Bolama > Bolama > CART 3942 > 1972 > Declamando, sabe Deus o quê, nos alojamentos dos Furriéis!!! ... Da direita para a esquerda: Fur Pires, Fur Costa ( 3º Pelotão?), Fur Enfermeiro, Fur Nunes, Alf Mexias Alves, Alf Barroso e Fur Soares (Mecânico auto, assinalado com um círculo a amarelo) (1).

Guiné > Ilha de Bolama > Bolama > CART 3942 > 1972 > Alguém se sentiu mal na festa e o Mexias Alves estava de faxina...

Guiné > Ilha de Bolama > Bolama > CART 3942 > 1972 > Continuação da festa. O Enfermeiro também declama (Os outros já estão identificados).

Guiné > Guiné > Ilha de Bolama > Bolama > CART 3942 > 1972 > Continuação da festa. Aparece agora o Fur Faceira, Vagomestre...


Fotos e lgendas: © Joaquim Mexia Alves (2006). Direitos reservados

___________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1607: Artur Soares, ex- Furriel Mecânico Auto, CART 3492, Xitole, 1972/74 (Joaquim Mexia Alves)

sábado, 17 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1608: Xitole, CART 3492: Uma nota de bom humor no quotidiano da guerra (Joaquim Mexia Alves)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > CART 3942 (1972/74) > Uma nota de bom humor no quotidiano da guerra: da esquerda para a direita, os Alf Mil Mexia Alves (1º Pelotão), Mil Rodrigues (4º Pelotão) e Barroso (3º pelotão)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > Os três foliões, Mexia Alves, Rodrigues e Barroso

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > CART 3942 (1972/74) > Os quatro alferes da companhia: da esquerda para a direita, Mexia Alves, Rodrigues, Silva e Barroso.

Fotos: © Joaquim Mexia Alves (2007). Direitos reservados

Mensagem do Joaquim Mexia Alves:


Caro Luís Graça:

Recebi do Artur Soares, Furriel Miliciano Mecânico da minha CART 3492, do Xitole (1), resposta ao mail de que te dei conhecimento, dizendo-me que brevemente entraria em contacto contigo para passar a fazer parte da Tertúlia. Estou a ver se arranjo tempo para me encontrar com ele, para matar saudades e relembrar factos do Xitole, para podermos escrever sobre eles.

Não percebo o que me acontece, já to disse, mas é impressionante como estou esquecido das coisas da Guiné. Pode ser que com ele a puxar por mim a memória vá voltando!!!

Hoje envio-te umas fotografias para rir: Passagem de modelos, realizada no Xitole pelos oficiais da CART 3492, modelos confeccionados pela Casa de Haute Couture Jamil Fashion (2).

Nome dos modelos:

(i) Os três em oração: Alf Mil Barroso (3º pelotão); Alf Mil Rodrigues (4º Pelotão); e eu (1º Pelotão). A fotografia poderá ferir sentimentos religiosos, por isso deixo ao teu discernimento a sua publicação [E a minha decisão foi a de não publicá-la, para não ferir eventuais susceptibilidades de alguns dos nossos amigos L.G.].

O outro Alf Mil que aparece é o Silva (2º pelotão) que veio substituir o Alf Mil de que não me lembro o nome e nem me consigo lembrar se chegou a estar connosco no Xitole. O Alf Mil Silva, ao que me lembro, vinha dos Paraquedistas... Porquê, também não me lembro.

(ii) Vai também uma fotografia da vala dos oficiais do Xitole.

O 1º cabo Festas, impedido da Messe de oficiais do Xitole, estava solenemente proibido de fechar a arca frigorífica, sem primeiro avisar, e devia fazê-lo com todo o cuidado, para não dar azo a que os senhores oficiais se precipitassem para a vala, perante a saída de morteiro, que o barulho da tampa da arca a fechar rigorosamente imitava.

Por hoje é tudo! Como se diz na minha terra, é pouco, mas é de boamente!

Abraço amigo do
Joaquim Mexia Alves

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1607: Artur Soares, ex- Furriel Mecânico Auto, CART 3492, Xitole, 1972/74 (Joaquim Mexia Alves)

(2) Jamil Nasser, comerciante libanês local, de cuja casa o Mexia Alves era assíduo frequentador, juntamente com os seus camaradas. Vd. post de 11 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P952: Evocando o libanês Jamil Nasser, do Xitole (Joaquim Mexia Alves, 1971/73)


(...) "Quase todos os dias, ao fim da tarde, ía a casa do Jamil e no seu alpendre de entrada, bebiamos uns uísques, acompanhados de pedaços de tomate com sal, enquanto ele ouvia as notícias do Libano no seu rádio, em árabe, claro está, e comentava o que por lá se passava.

"Para mim era como sair um pouco da tropa e entrar numa vida social, o que dava um certo equilíbrio emocional.

"Um dia, quando me preparava para ir ter com o Jamil, apareceu o seu criado Suri, oriundo da Gâmbia, salvo o erro, para me dizer que o Jamil pedia para eu não ir ter com ele naquele dia.

"Fiquei admirado, mas bebi o que tinha a beber no quartel. Mal anoiteceu, houve um tremendo ataque ao Xitole que, graças a Deus, não provocou quaisquer vítimas ou sequer ferimentos, mas destruiu bastante alguns edifícios " (...).

Guiné 63/74 - P1607: Artur Soares, ex- Furriel Mecânico Auto, CART 3492, Xitole, 1972/74 (Joaquim Mexia Alves)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > CART 2716 / BART 2917 (1970/72) > A casa da ferrugem, a oficina da mecânica auto. Foto tirada em 2001.

Foto: © David Guimarães (2005) (ex-Fur Mil At Artilharia Minas e Arm). Direitos reservados.



Vila Nova de Gaia > Carvalhos > Quinta da Paradela > 10 de Junho de 1989 > 1º Convívio do pessoal do BART 3873 > Lá está o grandalhão do Mexia Alves, de barbas, o 1º da 2ª fila, de pé, a contar da direita para a esquerda, com malta da CART 3494 e da CCS do BART 3873.

O BART 3873, sedeado com a respectiva CCS em Bambadinca (1972/74), tinha três unidades de quadrícula no Sector L1: CART 3493 (Mansambo, 1972/1973); CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/1974); CART 3492 (Xitole, 1972/74).

O Alf Mil Op Espec Mexia Alves pertenceu originalmente à CART 3492, antes de ingressar no Pel Caç Nat 52 (Bambadinca) e na CCAÇ 15 (Mansoa).

Foto: © Sousa de Castro (2006) (ex-1º cabo de transmissões da CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/74). Direitos reservados.

Mensagem do Artur Soares para o seu camarada da CART 3492 (Xitole, 1972/74).


Olá, Mexia Alves:

Foi com grande satisfação que recebi o teu mail, só que não tive oportunidade de te responder.

Eu já andava para te escrever, porque vi o teu endereço electrónico no Blogue do Luís Graça.

Andava eu a navegar na Internet à procura de alguma informação sobre a Guiné e ex-militares, na esperança de encontrar alguém das nossas guerras, quando vi o Blogue do Luís Graça e, claro, percebi logo que o nome do Mexia Alves me dizia alguma coisa. Tudo isto, depois de ter colocado aquela mensagem no livro de visitas do SAPO.

Tenho lido com atenção as mensagens e visto as fotografias que tens enviado para o Blogue, são passagens reais e verdadeiras, que nos fazem bem recordar os bons e os maus momentos que por lá passámos. Eu por vezes até fico emocionado, mas recordar é viver e é sinal que estamos vivos.

Como sabes, eu fui Furriel Mil Mec Auto e, depois de virmos da Guiné, nunca mais vi ninguém, nem do nosso Batalhão, o BART 3873, nem da nossa Companhia, a CART 3492. A única pessoa a quem mando as Boas Festas, pelo Natal, é ao Maçães que vive em Póvoa de Varzim e que era o Furriel Vagomestre.

Já lá vão quase 33 anos e fiquei emocionado ao ver as Fotos do que resta do Aquartelamento do Xitole, bem como da casa do Jamil (fotos do David Guimarães).

O Batalhão tem feito convívios anuais? Se tiveres outros contactos, agradeço que mos envies, pois faz bem ao ego, contactar e saber das pessoas com quem convivemos durante 27 meses em condições bastante difíceis.

Eu vivo em Figueira da Foz, como vês, quase somos vizinhos, pois é bastante perto de
Monte Real. Por hoje não te maço mais, recebe um forte abraço do amigo Soares.

Manda notícias.

Artur Soares

2. Resposta do Joaquim Mexia Alves:


Caro Artur Soares:

Que alegria ver a tua resposta. Vivemos muito perto, por isso temos de nos encontrar, para almoçar ou qualquer coisa.

Deixo-te o meu telemóvel: 913455362. Já agora entra em contacto com o Luís Graça, para passares a fazer parte da Tertúlia do blogue da Guiné e nos contares as tuas recordações da Guiné e eu me ir lembrando de tantas coisas que passámos.

Estou a lembrar-me de uma GMC que de vez em quando tinha de parar para atestar de óleo. Estou enganado? Não foi dessa GMC que caiu em andamento um dos nossos guias de que não me lembro o nome e não sei se chegou a falecer?

No blogue vais encontrar outros camaradas do nosso Batalhão, como o Sousa de Castro e outros. Fico à espera do teu contacto e então conversaremos sobre os encontros que já houve do Batalhão.

Abraço forte e amigo do Joaquim Mexia Alves,
Ex- Alf Mil Op Esp
Termas de Monte Real

Telf 244 619 020 / Fax 244 619 029

Guiné 63/74 - P1606: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (13): Jorge Cabral

Mensagem do Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71 ).

Luís Amigo e Camaradas:

Há quarenta anos nós jovens optámos. Informados ou desinformados fomos e lá estivémos. Partilhámos medos, sofrimentos, tristezas, alegrias.

Hoje resta-nos a memória desses tempos. E é essa memória corporizada na Tertúlia, que nos une.

A Tertúlia é, e deve continuar a ser, um Fórum de Camaradas, que em pé de igualdade, informam, relatam e recordam.

Quantos desertaram na Guiné? Porquê? Que fizeram depois? Deram informações?
Colaboraram com o Inimigo? Desconheço, mas não lhes atiro pedras. Não me peçam, porém, para os enaltecer, glorificar ou incensar.

Voto não! E a ambas as hipóteses! Membros honorários na Tertúlia? Para quê? (1)

Abraços
Jorge
_______

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 3 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1560: Questões politicamente (in)correctas (25): O ex-fuzileiro naval António Pinto, meu camarada desertor (João Tunes)

Guiné 63/74 - P1605: A reportagem da TSF e o regresso do Vitor Tavares a Guidaje (Albano Costa)

1. Mensagem do Albano Costa:


Caro Luís Graça:

Emocionei-me ao ouvir aqueles sons do interior da Guiné, os diálogos das pessoas, ao sentir como falam, o silêncio para fazer sobressair o piar dos pássaros... Senti tudo, eu que ao fim de vinte e alguns anos lá voltei, logo senti aquele cheiro de que pensava já não me lembrar... Até nesta reportagem feita pela TSF o cheiro de África voltou novamente (1).

Luís, esta semana para mim é mesmo de nostalgia, mas ao mesmo tempo de alegria, imaginar o Victor Tavares em Guidaje (2), terra em que vivi oito meses da minha passagem pela guerra do ultramar (para eles, guineenses, de libertaçãoa. E agora esta reportagem... Como deves cálcular, vem tudo ao de cima... Como sinto aqueles tempos, na altura difíceis! ... Mas porque não fazermos deles, agora, a trinta e mais alguns anos de distância, tempos de alegria, ouvir aquele povo dócil, ouvir o Leopoldo Amado (ainda não o conheço a não ser agora de voz)...

Parabéns, e ao Carlos também, pelo projecto AD, pelo projecto Guiledje... Não se deve desistir, por uma Guiné melhor.

Confesso, que tenho uma certa dificuldade em ultrapassar as minhas emoções quando falamos da Guiné, mas com paciência lá vai, tem de ser!...

Quando estive na Guiné em 2000, vi alguns macacos, mas muito poucos. É preciso que o governo os proteja, para não serem extintos.

Um abraço, Albano Costa (3)

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1583: Sons e emoções: o Cantanhez e o Dari, a terra ardente e vermelha, a gente boa (Torcato Mendonça / Zé Teixeira)

(2) Vd. 8 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1573: O Victor Tavares, da CCP 121, a caminho de Guidaje, com uma equipa da TVI (Luís Graça)

(3) O Albano esteve em Guidaje, durante a sua comissão na Guiné (CCAÇ 4150, 1973/74). Voltou à Guiné, com o filho, Hugo Costa, em Novembro de 2000. O Hugo voltou lá novamente em Abril de 2006.

Guiné 63/74 - P1604: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (12): J. L. Mendes Gomes

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCAÇ 728 (Catió, 1964/66) (1) > 1965 > Mulher Grande de Catió.

Foto: © J. L. Mendes Gomes (2007). Direitos reservados.



1. Mensagem do Joaquim Luís Mendes Gomes:

Assunto - Ex-desertores... tertulianos ou não?...

Meu caríssimo Luís:

Antes de mais, os meus cumprimentos de chegada. Regressei de Berlim. Cheguei bem. Começava a entrar em sofrimento, com saudades deste cantinho nosso solarengo e soalheiro. Somos uns pobretas... muito ricos. Chegou de frio, de céu baixo, pardacento e uma língua intragável.

Aqui estou. Com acesso à Net quando quero. Li, reli o teu/nosso maravilhoso blogue. Pus-me a par das brisas, tempestades e morteiradas...que por ele vão.

A daquela mini-polémica, entre marinheiros e infantes, por causa da fogachada da Orion ou da Hydra, sobre a minha CCAÇ 728... Podia ter sido mais trágica, mas deu para jamais esquecer. Tiro curvo?...Quem é que o disse?...Bem razante, lá de cima até cá baixo. Não questiono que tenha passado despercebida... Tanta coisa grave, muito grave passava em branco... Estranho que tudo isto não conste nos arquivos militares!...

Dei uma espreitadela na Internet, sobre a Lista de todas as Operações Militares, sobretudo as da Guiné que são as que conheci. Fiquei de boca aberta com o elenco de uma meis dúzia, apenas... Que é das outras?... Que andámos nós todos a fazer aqueles anos todos- pareceram séculos... de pesadelo - a fazer nas Áfricas? À caça de gambuzinos?...ou à pesca de sardinha?...

O nosso País desabou, não sei se se vai levantar...Cá por mim, espero e faço tudo para que sim.

Gostei e agradeço o teu empenho em pôres lá os meus textos sobre o dia a dia de Catió (1). Como esperava, já reencontrei as preciosas fotos do meu tempo. Com ajuda da expert daqui ao lado, e que foi como minha Madrinha de guerra... Desde o Cachil/Como, que tudo começou... já lá vão quarenta e três anos...Vai ser possível mandar-te as mais representativas...

E agora, vou meter o meu bico na vexata quaestio, em epígrafe (2)...É só a minha opinião, respeitadora de quem não a partilhe, como é óbvio.

Quando, logo nos começos, me deparei com as primeiras linhas da história do Medeiros Ferreira, confesso que a minha primeira reacção foi negativa, de rejeição, dum magoado... por reparar. E fiquei à espera do que se viria a dizer, entre nós. Já esperava que esta questão não fosse pacífica... Não vou ser original nem dizer mais do que já foi dito, porque não sou capaz de ver melhor.

Compreendo que quem partiu de cá, foi arriscar a vida, perder e ganhar... dos melhores anos da juventude, viu tombar a seu lado amigos da alma e guardas do corpo e coração...Pela Pátria, que somos todos nós, os de antes, de durante e do depois... Uns com amor, outros com sentido de dever, outros porque não foram capazes de dizer não... De todos estes, os últimos, penso, foram os em menor número...

Quem fugiu, jamais pode descalçar a nódoa da traição... Pelo menos para com os seus camaradas de destino: fugiram, deixaram-nos para trás. Ninguém em perigo ou sofrimento gosta de ficar esquecido... e para trás... Por isso a reacção de rejeição é justa, legítima e muito humana. Penso eu. Se já não há Pátria, com este sentido solidário, andamos todos a fazer figuras de urso...ou de macacos. O País não passa duma confusa sociedade anónima de irresponsabilidade ilimitada... Preferível seria a selva...

Mas, logo depois do 25 de abril, durante aqueles turbulentos tempos que aqui vivemos, abertas as portas para quem quis voltar, aí vieram eles...lá de Paris, da Suiça e sei lá donde. Com luzentes canudos universitários e toda a escola que lá tiraram...Uns próximos, outros próximos dos mais próximos das figuras ou figurões da proa... Foi vê-los a trepar, na escada escancarada da política, passando por cima de tudo e todos, nas escolas, nos empregos... subir...subir, como balões.

Escarneceram e fomentaram o desprezo por nós, ex-combatentes, como uns coitaditos...sem tomates, como os seus, deles, claro.

Que fizeram esses, especialmente, os que se guindaram às cadeiras do poder...nas universidades, nas empresas, em São Bento, por nós?... Que andam a fazer os seus herdeiros e bastardos?...

Durante muitos anos, os ex-combatentes não tinham uma só lápide nem de ardósia ou monumentos em honra dos seus mortos!...Só mais tarde, apareceu aquele muro aproveitado das paredes de outro vetusto monumento, mais parece o muro dum cemitério (onde até as letras de tinta d'água, se foram ... à chuva e ao sol... em tantos nomes...) com um lago sem cisnes e duas guaritas descabeladas... Alguma vez aquela amostra de mau gosto tem a estatura, a dignidade, do que se propõe e que é devido?...

Creio bem que irá ser nos corações dos nossos netos, ou seus filhos, que vai nascer a verdadeira chama do carinho e da gratidão pelo que fizeram seus avós...

Algum dos desertores já nos brindou, os da Tertúlia, com algum gesto ou palavra de simpatia?... Conhecendo-os eu como conheço, estou mesmo a vê-los a rir às gargalhadas da fogueira que para aqui fazemos... Por isso, penso que venham, entrem na tertúlia, mas com pedidos sinceros de desculpa... Até lá, cada um use o boné que escolheu...

Aqui fica a minha colherada. Sincera e respeitosa. Para que conste. Se quiserem mais, passem no blog... bico de pato.

Um abraço enorme do tamanho da Terra para Ti e toda caserna.

JMendesGomes
Ex- Alf Mil
CCAÇ 728 (Catió, 1964/66)

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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

11 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1582: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (9): O fascínio africano da terra e das gentes (fotos de Vitor Condeço)

8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1502: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (8): Com Bacar Jaló, no Cantanhez, a apanhar com o fogo da Marinha

22 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1455: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (7): O Sr. Brandão, de Ganjolá, aliás, de Arouca, e a Sra. Sexta-Feira

8 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1411: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (6): Por fim, o capitão...definitivo

11 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1359: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (5): Baptismo de fogo a 12 km de Cufar

1 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1330: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (4): Bissau-Bolama-Como, dois dias de viagem em LDG

20 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1297: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (3): Do navio Timor ao Quartel de Santa Luzia

2 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1236: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (2): Do Alentejo à África: do meu tenente ao nosso cabo

20 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1194: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (1): Os canários, de caqui amarelo

(2) Vd. último post sobre a questão dos desertores:

16 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1599: Debates da nossa tertúlia (I): Nós e os desertores (11): Paulo Salgado

Guiné 63/74 - P1603: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (10): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte III (Fim)

Guiné > 1970 > Uma das imagens emblemáticas da guerra colonial/guerra de libertação. Um guerrilheiro do PAIGC jaz morto, no chão da mata, com a sua Kalash ao lado. Foto muito provavelmente obtida no sul, na região de Tombali. A foto é do repórter fotográfico húngaro Bara István (n. 1942), que acompanhou a guerrilha do PAIGC em 1969 e 1970 (não sabemos exactamente em que circunstâncias: num das fotos, ele próprio deixa-se fotografar com uma Kalash pendurada ao pescoço, o que para um fotojornalista de hoje seria deontologicamente inadmissível; pode pôr-se a hipótese de, na época, ter lá estado apenas como fotógrafo, e não como jornalista, ao serviço do governo do seu país; recorde-se que na época a Hungria fazia parte do Pacto de Varsóvia e, portanto, era um dos aliados do PAIGC).

Legenda, em húngaro: Bara István: Elesett PAIGC katona, Guinea Bissau, 1970. Estamos gratos a este conhecido fotógrafo magiar pelas imagens sobre a guerra colonial / guerra de libertação na Guiné-Bissau que disponibilizou na sua página. Partimos do princípio que estas imagens são do domínio público. Tentámos contactá-lo por e-mail, até agora em vão, para obtermos autorização para divulgação de mais fotos da sua fotogaleria.

Fonte / Source: Foto Bara > Fotogaleria (com a devida vénia / with our best wishes...)


X (e última) parte do dossiê O massacre do Chão Manjaco > Ideia, pesquisa, compilação e edição de Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70) (*). Subtítulos e negritos da responsabilidade do editor do blogue.


III (e última) parte do depoimento do historiador lusoguineense Leopoldo Amado , que está actualmente a trabalhar em Imberem, na região de Tombali, ao serviço da AD - Acção para o Desenvolvimento. (Subtítulos da responsabilidade do editor do blogue).


Mais pedidos de ajuda do PAIGC à Suécia e à URSS

No princípio de 71, Cabral dera mais um salto à Suécia com o fito de obter ajudas que permitissem fazer face a política da Guiné Melhor de Spínola, política essa que ele caracteriza, já se disse, como sendo de “sorriso e de sangue”, pois, o maior poder de fogo não é suficiente para contrapor à nova agressividade de Spínola.

Os nacionalistas sentem a necessidade de robustecer a componente militar do partido e, simultaneamente, adaptar a sua fórmula organizativa, ganhando mais disciplina e capacidade de resposta. Acto contínuo, Cabral viaja para à URSS em busca de mais apoios no domínio militar, apoios esses que começaram a surgir a partir de Fevereiro de 1971, tanto da parte da Suécia como desta última.

Com as ajudas recebidas, Amílcar Cabral replicava inteligentemente às acções psicológicas de Spínola e, em Fevereiro de 1971, uma vez na posse das mesmas, o PAIGC modificou os aspectos gerais da sua manobra global, preocupando-se em manter no teatro das operações, com grande economia de meios e de materiais, um estado de guerra que servisse a sua propaganda interior e exterior, visando especialmente sucessos sobre as tropas portuguesas e a conquista da adesão das populações.

Nesse sentido, e particularmente no plano das operações, verifica-se a insistência em realizar acções coordenadas, atacando as guarnições com possibilidades de apoio simultâneo de artilharia e tirarando o máximo rendimento da sua actividade, quer ameaçando zonas urbanas e os chamados reordenamentos populacionais, organizados pelo poder colonial em autodefesa, quer provocando intervenções da tropa portuguesa e montando de seguida emboscadas nos itinerários de acesso directo das forças de socorro. Dentro desta nova concepção militar do PAIGC, a área de Naga-Biambi, constituía a principal zona fulcral da estratégia militar do PAIGC.


Spínola: Conversar com todos os guineenses, incluindo o PAIGC

Perante tal estado de coisas, o general Spínola reconheceu a impossibilidade de ganhar a guerra da Guiné, coincidindo este reconhecimento com as falsas promessas do Governo português em conferir autonomia e autodeterminação aos guineenses, no quadro da soberania portuguesa. Sobre as negociações com o PAIGC, Spínola diria em princípios de 1973, que “(…)uma tal política admite conversações com quem quer que, honesta e desinteressadamente, deseje contribuir para um programa de incontestável legitimidade. Conversações que, como é evidente, são extensíveis ao PAIGC. Mas há um ponto que importa ressalvar: conversar não é negociar, e jamais poderíamos deixar que se resvalasse para matéria que só ao povo da Guiné diz respeito e compete legitimamente decidir. E com este mantém o Governo permanente e aberto diálogo, através de ins­tituições criadas para esse fim com resultados evi­dentes. Assim, e como, em boa verdade, o PAIGC não representa o povo da Guiné, só o futuro dos seus combatentes poderá estar em causa em tais conver­sações. A esse respeito, continuamos abertos ao diá­logo com todos os que, despidos de interesses estra­nhos aos do povo desta terra, quiserem regressar – e tantos são os que vindos do mato se têm sentado nesse maple e reconhecido que, presentemente, o Governo da província está concretizando os ideais por que se batiam. Porém, ao nível do topo, não foram até ao presente estabelecidos quaisquer con­tactos (…)” (21).


Amílcar Cabral: lutar até à vitória total


Contudo, Cabral denunciou vigorosamente tais manobras dilatórias dizendo que “(...) falar da autodeterminação ou da autonomia (seja ela progressiva ou não) como faz o chefe dos colonialistas portugueses não revela mais que uma tentativa desesperada de desviar a atenção para a realidade concreta da situação da luta no nosso país: hoje, não pedimos ao Governo português que reconheça o nosso direito à autodeterminação e nem mesmo autonomia ou independência, pois somos autodeterminados e somos realmente autónomos, independentes e soberanos sobre a maior parte do nosso território nacional. Nós lutamos, sim, e lutaremos até à vitória total, para expulsar do nosso país as tropas estrangeiras, a fim de que, em condições de independência, possamos consolidar a libertação do nosso povo da Guiné e das ilhas de Cabo Verde, procurando sempre construir uma vida de paz e de progresso a que temos direito. Seja à volta de uma mesa, através de negociações, seja através nos campos de batalha, a vitória da nossa luta armada de libertação é o único objectivo que preconizamos e que justifica os sacrifícios consentidos e a consentir, e que nós estamos certos de realizar (...)" (22).

Desta feita, o PAIGC inicia um ciclo de violentos ataques simultâneos aos aquartelamentos portugueses, ao mesmo tempo que desenvolve uma intensa acção diplomática e internacional. Nesse período, Aristides Pereira entrega ao Dr. Mouloud Belahouane, presidente da Cruz Vermelha da Argélia, quatro desertores do Exército Português que, na ocasião, reafirmaram a sua condenação à luta injusta contra o PAIGC.


Janeiro de 1971: A resposta do napalme contra as 'zonas libertadas'

Como resposta àqueles ataques intensivos, a aviação portuguesa bombardeou violentamente com bombas napalme, em Janeiro de 1971, as regiões libertadas, nomeadamente as povoações de Cubisseco, Cubucaré e Balana (no Sul), Oio e Saara (no Norte). Nesses bombardeamentos, 28 tabancas foram reduzidas a cinzas.

Sem descurar a componente político-diplomática, na medida em que no plano militar o PAIGC realizava em média três ataques diários às guarnições portuguesas, Amílcar Cabral intensificou a denúncia do colonialismo português nas instâncias internacionais, ao mesmo tempo que se desdobrava, tanto em África como na Europa, em acções de esclarecimentos sobre a situação da luta do PAIGC, sessões essas seguidas de exposições fotográficas ou de exibição de filmes (23) sobre o evoluir da situação no teatro de operações (24).

Por outro lado, interpelava constantemente os organismos da ONU e da OUA, e de outras instâncias internacionais através do envio de relatórios circunstanciados, documentados fotograficamente, que viriam a permitir que, em Fevereiro de 1971, a Comissão Especial da Nações Unidas tivesse produzido um documento amplamente divulgado naquelas instâncias, no qual relatava as atrocidades sobre civis cometidas pelo exército português em África, nomeadamente o bombardeamento de populações indefesas com bombas de napalme.

É evidente que quer o Governo colonial de Bissau, quer o Governo central em Lisboa procuravam, de alguma forma, ripostar a esse crescendo de animosidade internacional contra Portugal, que o PAIGC, e particularmente Amílcar Cabral, conseguia meticulosamente suscitar em estrita ligação com as acções militares no teatro as operações.

Para tal, quer os serviços de informação do exército português na Guiné e em Lisboa, quer a PIDE/DGS e ainda o Ministério do Negócios Estrangeiros multiplicavam-se em várias acções diplomáticas, mas igualmente de contra-informação, no sentido de anular as vantagens da máquina de propaganda do PAIGC.

Apesar disso, relativamente ao agravamento da situação militar na Guiné, era sintomática a desarticulação e a atrapalhação que, nesse campo, os serviços portugueses deixavam transparecer, evocando-se como exemplo mais caricato o facto de, em 1971, os serviços de informação exército e da PIDE terem-se envolvido em acérrima disputa pela posse do capitão cubano preso em Março de 1970.


Março de 1971, a 'guerra de nervos' do PAIGC e intensificação dos ataques contra centros urbanos


Entretanto, em Março de 1971, o PAIGC intensificou os ataques aos centros urbanos. Bolama foi atacada a 20 e Farim a 22, Guiledje a 28, Gadamael a 9 e 10, Fulacunda a 31, etc. Na edição de Abril de 1971 do PAIGC Actualités, o partido tornou público as pretensas perdas do exército português no mês de Março: 271 acções, 472 militares mortos, três helicópteros abatidos e dois aviões abatidos, 57 veículos danificados, 19 barcos afundados e diverso material de guerra destruído ou recuperado.

A 17 de Maio, o PAIGC ataca violentamente o importante aeródromo de Gabu ( *), com evidente estragos ao nível das infra-estruturas, e em Junho de 1971, começa a aplicar o novo esquema táctico ( “guerra de nervos)”, pois, não obstante ter baixado consideravelmente o seu potencial combativo, em contrapartida, demonstrava eficiência e agressividade crescentes.

Assim, passou doravante a pressionar os aquartelamentos ao mesmo tempo que fazia incidir às suas acções contra povoações com guarnição militar ou organizados em autodefesa. De acordo com nova táctica, conseguiu avanços significativos, especialmente no chão dos manjacos, na região de Nhacra e na própria ilha de Bissau (zona oeste), a partir do Sul, visando em especial conquistar a cumplicidade da população a sul da estrada Bafatá-Gabu e a região de Quinará.


Intensificação da guerrilha no chão fula

Nos meados de 1971, a estratégia do PAIGC era claramente a de criar uma situação de generalizada insegurança total no teatro das operações, mormente, desencadeando de acções de guerrilha urbana e de sabotagens em centros importantes, como Bula, Bissorã, Mansoa, Nhacra e Bafatá, e na estrada de Bafatá-Gabu, o que lhe permitia estender o seu esforço no chão fula, desencadeando acções através dos regulados de Cossé, Tamaná e Chaná, ao mesmo tempo que mantinha o seu esforço no Quinará, sem, contudo, transferir o essencial dos efectivos da região de Xime-Xitole ou Catió-Bedanda.


Bissau é flagelada pela primeira vez com foguetões de 122 mm em 9 de Junho de 1971

A 9 de Junho, o PAIGC, por intermédio do CE 199/70 (estacionado em Morés), chefiado por André Pedro Gomes e, na artilharia, por Martinho de Carvalho e Agnelo Dantas, flagelou Bissau pela primeira vez com foguetões de 122 milímetros.

Este ataque foi possível dado os esforços da unidade de artilharia referida, que, apoiada pelos grupos de infantaria, conseguiram penetrar para lá da linha defensiva do exército português e bombardearam as suas posições na cidade, embora tal tivesse sido possível porque também se realizaram acções simultâneas da frente Nhacra-Morés, o que permitiu proteger a retirada das unidades que atacaram Bissau.

No dia 26 de Junho, um CE do PAIGC penetrou em Bafatá, segunda cidade do província, e atacou-a violentamente incluindo o aeroporto, representando esse ataque, um índice significativo das possibilidades do PAIGC e confirmando a facilidade com que concentrava meios para realizar as suas intervenções, tanto mais que foram destruídas também quatro casernas, a estação meteorológica e diversos edifícios ligados às infra-estruturas militares e administrativas, tendo havido entre as tropas portugueses vários mortos e feridos.


Golpe diplomático: a intenção de proclamar o Estado da Guiné-Bissau

Em face disto, e enquanto Spínola tentava recuperar a situação política e económica da Guiné, as FARP passaram a ter uma acção permanente contra as estradas de Catió-Cufar, Gabu-Pitche e Canhungo-Cacheu, bem sobre reordenamentos populacionais situados nos respectivos eixos e, obviamente, privilegiando ataques aos centros urbanos, os quais, para além de alimentarem a propaganda internacional do PAIGC e a convicção internacional da iminente derrota do exército português, fazia igualmente jus à intenção de Cabral de proclamar o Estado da Guiné-Bissau como forma de assestar um golpe diplomático fatal ao colonialismo.

Aliás, na cimeira da OUA, em Addis-Abeba, realizada em Julho, Cabral exortou os países africanos a não tomarem compromissos com Portugal que pudessem prejudicar a luta do PAIGC, ao mesmo tempo que anunciava o seu plano de desencadear um processo que haveria de culminar na proclamação do Estado da Guiné-Bissau, o qual, segundo ele, existia de facto, apenas precisando de ser formalizada de jure com a proclamação da independência e a adopção de uma Constituição que criasse os seus órgãos de governo.

Em Julho, o PAIGC já tinha já praticamente formado o seu Exército Nacional, mantendo embora as Milícias Populares e as FAL - Forças Armadas Locais (25), no chão fula, indiciando essas acções algum apoio dessas populações, pois começavam a ser bem-sucedidas, mesmo quando realizadas a partir de bases de fogo situadas à alguma distância.

Tudo isto traduzia também um crescente apoio internacional para o PAIGC, mas igualmente a predisposição de muitos países e organizações, até aí hesitantes, que passaram doravante a conceder-lhe importantes ajudas. Em Junho, a OUA fixou em 313 334 libras esterlinas essa ajuda. Valor que foi duplicado na 18.ª sessão ordinária da OUA, em virtude de Cabral ter solicitado mais apoios para as populações das áreas libertadas.

Sensivelmente na mesma altura, o Conselho Ecuménico das Igrejas anuncia a concessão de um apoio de 340 000 dólares à Frelimo, ao MPLA e ao PAIGC, ajudas essas que permitiram ao Conselho Superior de Luta (CSL), deste último, reunido em Agosto (26), a decisão de reforçar e intensificar a luta armada.


Criação da Assembleia Nacional Popular

Ao mesmo tempo, o CSL (Conselho Superior de Luta) decidiu fazer funcionar a primeira Assembleia Nacional da Guiné-Bissau, pelo que, em Dezembro do mesmo ano, Amílcar Cabral produziu um documento intitulado “Para a Criação da ANP (Assembleia Nacional Popular)”, onde, com a clareza habitual, traça as directrizes para a constituição desta, especificando especialmente os métodos para as eleições locais, a composição dos órgãos, a proporcionalidade dos representantes por região e outros pormenores ligados aos aspectos práticos da organização e realização de uma intensa campanha de informação e sensibilização com vista a criação dos conselhos regionais, a qual deveria anteceder a constituição da Assembleia Nacional e dos outros órgãos do Estado da República da Guiné-Bissau.

Na sequência das decisões do CSL, o PAIGC efectua um violento ataque a cidade de Gabu e a Sonaco e a 24 do mesmo mês atacou a cidade de Bafatá, onde se registaram a morte de seis civis e muitos mais militares.

Em meados de Julho de 1971, – mais ou menos na altura em que em Portugal é anunciada uma revisão constitucional (16 de Agosto de 1971) (27), preconizando maior auto­nomia para as “províncias ultramarinas”, – a situação militar agravou-se significativamente para as tropas coloniais, pois o PAIGC continuava a efectuar espectaculares e violentos ataques aos centros urbanos, a ponto de o governador Spínola declarar, nas antenas da Rádio de Bissau, que “o exército português tudo faria para manter uma vida normal nos centros urbanos”.

As dificuldades aumentavam consideravelmente porque os guerrilheiros eram apoiados por bases logísticas que garantiam os reabastecimentos a partir dos territórios da Guiné-Conakry e do Senegal, bases essas a que, por impedimentos de ordem internacionais, as forças portuguesas não timham acesso, pelo menos formalmente. Porém, perante o agravamento da situação militar, Spínola autorizou as suas unidades a penetrarem no território senegalês neste mês, numa operação cujo objectivo era justamente cortar os apoios do PAIGC.

PIDE/DGS e SIM: Infiltração nas estrutruturas e nos círculos dirigentes do PAIGC

No entanto, a partir do mês de Setembro, o Serviços de Informações Militar e a PIDE/DGS, motivados sobretudo pelo agravamento da situação militar e pelo crescente prestígio que o PAIGC vinha angariando, tanto na Guiné como no plano internacional, conferem uma dinâmica acrescida aos trabalhos de infiltração nas estruturas e dirigentes do PAIGC há muito iniciado. Todavia, apesar de Cabral estar consciente desse ambiente minado, provam-no alguns documentos por si produzidos, mas também, em várias ocasiões, a sua atitude pedagógica e até complacente perante os comportamentos estranhos, quase se entregou por completo aos trabalhos diplomáticos, desdobrando-se em explicações e procura de apoio em vários países e instâncias, para o projecto da proclamação do Estado da Guiné-Bissau na arena internacional.

Nesse quadro, Cabral foi recebido em Londres, em Setembro, pelo secretário-geral do Partido Trabalhista inglês, Sir Harry Nicholas, tendo inclusivamente feito uma importante conferência no Centrall Hall, em Westminster, de que imprensa londrina se fez eco, comparando o sucesso da visita de Cabral a Londres ao que teve aquando da sua recepção pelo Papa Paulo VI.

Neste mesmo mês, foi recebido em audiência pelo presidente da Finlândia, Urbo Kekkonem e pelo secretário-geral do Partido Social-Democrata finlandês, Kalevi Sorsa. Viajou igualmente para a Irlanda, onde foi recebido no aeroporto de Dublin, pelo secretário-geral do Partido Trabalhista da Irlanda e pelo presidente dos sindicatos, tendo igualmente proferido uma conferência em que tomou parte o reverendo Austin Flannery, o Prof. David Greene, Noel Harris, o reverendo Terence Mc Caughey e ainda o historiador Basil Davidson.


A Operação Safira Solitária no Morés


A 20 de Dezembro, vários contingentes das tropas coloniais, cerca de 800 homens português tentaram reocupar posições na frente norte na Guiné, mas retiraram-se depois de sofrerem 60 baixas, em Morés (**). Após intenso bombardeamento aéreo desta zona (28), resolveram atacar com a infantaria, mas o PAIGC ripostou violentamente e provocou além dos referidos mortos , muitos feridos, a ponto do Hospital Militar de Bissau se encontrar sem possibilidades de receber mais. O comandante dessa acção denominada Safira Solitária suicidou-se.

A 29 de Dezembro, o Estado-Maior português reconheceu que durante essa operação foram evacuados para o hospital da cidade cerca de 61 soldados, fazendo até um elogio à capacidade combativa dos elementos do PAIGC, que considera, contudo, estarem a ser ajudados por unidades do exército senegalês e por mercenários cubanos.

À este comunicado o PAIGC reagiu com outro dizendo que “(...) o comunicado especial do Estado-Maior português apenas reflecte o desespero em Spínola e as suas tropas se encontram mergulhados, porque, em virtude dos ataques a todos os aquartelamentos realizados pelo PAIGC no mês de Dezembro, na área centro-norte, os colonialistas pensaram que aquelas acções eram o prelúdio de uma outra maior que atingiria a capita(...)” (29).


Os novos aviões Dakota, equipados com bombas de napalme para destruição das colheitas

A 26 de Novembro, a cidade de Bafatá é novamente atacada e a 30, numa acção coordenada, são atacadas simultaneamente Catió (Sul), Farim e Mansoa (Norte).

Após estas acções do PAIGC, as forças portuguesas destruíram 12 aldeias, nomeadamente Cambadjú, Dendo, Dumbal e Casa Nova (Norte), tendo entretanto usado nesses bombardeamentos os novos aviões Dakotas, equipados de bombas napalme, com objectivos de queimarem as colheitas, tendo o PAIGC reivindicado, em finais de Dezembro o abate de um desses Dakotas, no Sul do país, para além de um outro avião Harvar T 6, no Leste.

Combate-se no Senegal

Também, a 13 de Novembro, um pelotão das tropas regulares do exército português juntamente com as milícias especiais africanas, efectuou um golpe de mão nas povoações senegalesas de Fare Boké, próximo de Cambaju. Os efectivos envolvidos utilizaram fardamento e armamento do PAIGC, tendo abatido, para além dos elementos deste partido, igualmente militares e civis senegaleses.

Note-se que, relativamente a esta acção, Fragoso Allas, subinspetor da PIDE local, manifestou a sua apreensão com os acontecimentos, em virtude de a mesma poder comprometer as possibilidades de se chegar a um certo acordo com as autoridades do Senegal, no qual ele próprio parecia acreditar.

Do ponto de vista político, enquadrado nas acções tendentes a favorecer e integrar a sua manobra global, o PAIGC continuou empenhado, pelo menos desde Janeiro de 1971, na consolidação das suas estruturas do partido-Estado nas áreas libertadas, em ordem a permitir-lhe, em qualquer momento, assumir a representação da Guiné no plano jurídico internacional. Por isso, no campo militar, aumentou o seu potencial, estruturando as suas forças em unidades mais poderosas e revelando uma flexibilidade e uma capacidade de manobra apreciáveis. Logrou, inclusive, recrutar elementos com vista a criação de novas unidades, formando, em princípios de 1971, quatro novos bigrupos, que, na altura, estavam a iniciar a sua instrução em Kambera, Centro de Instrução Militar do PAIGC situado na Republica da Guiné-Conakry.

No plano internacional, o PAIGC privilegiou a sensibilização da opinião pública ocidental contra a acção colonial na Guiné, para alem de igualmente manter o apoio dos países limítrofes, razão que, aliás, levou as autoridades militares coloniais a admitirem a preparação e a possibilidade de “uma intervenção militar internacional de larga escala” (30).


Jornalistas estrangeiros na base de Canjambari

Consequentemente, o prestígio do PAIGC cresceu exponencialmente durante o ano de 1971, mercê, por um lado, da anunciada intenção de proclamação do Estado da Guiné-Bissau e, por outro, face aos sucessivos êxitos militares que o seu estruturado Serviço de Informação e Propaganda se encarregava diligentemente de difundir pela imprensa internacional.

Assim, vários jornalistas permaneceram entre de 17 a 5 de Dezembro nas regiões libertadas do Norte, nomeadamente na base de Candjambari. Foram eles, Ennark e Hermanson (suecos), (M. Torud (norueguês) e M. Antoine Laurent, enviado especial do vespertino senegalês Le Soleil. Do mesmo modo, delegações da SIDA (agência sueca de ajuda aos países em vias de desenvolvimento), do PNUD e da UNESCO visitaram Conakry, onde estabeleceram com o PAIGC relações de cooperação, que se traduziram em apoios concretos.

A 20 de Dezembro de 1971, pela Resolução A/2878 da 26.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, foi aprovado o relatório do comité especial, incluindo o programa de trabalhos para o ano de 1972. Neste, estava incluída uma visita às áreas libertadas dos territórios sob administração portuguesa. A missão especial para a Guiné-Bissau era composta pelos representantes do Equador, Horácio Sevilla Borja, Suécia, Folke Lofgren, e Tunísia, Kamel Belkhiria, um fotógrafo, Yutaka Nagata, e um secretário principal, Cheikh Tidiane.

A estratégia spinolista passou também por negociações indirectas com o PAIGC iniciadas em 1972, por intermediação de Senghor, con­versações essas, aliás, que seriam rapidamente bloqueadas por Lisboa. Na realidade, no início de 1972, a acção psicológica no chão manjaco tinham avançado significativamente, a ponto de os responsáveis por elas, estacionados em Cantchungo, se terem encontrado com os principais chefes dos bigrupos da área de Caboiana-Churo e ter sido acordada com eles a rendição das suas for­ças que desfilariam em Bissau antes de serem integradas em unidades africanas das Forças Armadas portuguesas.

Spínola falava, inclusivamente, da no­meação de Amílcar Cabral para o cargo de secretário-geral da província, que assumiria em regime de co-gestão com o general Pedro Cardoso. Quando o assunto é levado à direcção do PAIGC, esta decide pôr termo a esses contactos e liquidar toda a comitiva que incluía, para além dos três majores da APSIC, o próprio governador Spínola. À última hora, este não comparece ao encontro onde supostamente se iria proceder a rendição das forças do PAIGC.


Spínola: Explorar a rivalidade entre cabo-verdianos e guineenses no seio do PAIGC

Spínola, que não somente perdeu alguns dos seus mais brilhantes quadros, como ainda a possibilidade de efectivamente concretizar a planeada mas também falhada rendição, nunca mais perdoaria ao PAIGC, logo ele, que não olhava a meios para explorar as contradições e rivalida­des entre as diversas etnias que constituíam o aparelho político-militar do PAIGC, em especial a mais importante das rivalidades que existia entre guineenses e cabo-verdianos, pelo que doravante toda a máquina militar da propaganda joga com esses dados, inclusive a PIDE/DGS, que há muito vinha, em surdina, procedendo ao um meticuloso e paciente trabalho de infiltração do PAIGC.

Entretanto, ao nível das Nações Unidas, insistiu-se muito na necessidade de Portugal abrir as negociações com os movimentos de libertação das suas colónias com vista a autodeterminação desses povos. Assim, pela Resolução S/322586, de 22 de Novembro de 1972, do Conselho de Segurança, foi exigida ao Governo português a aplicação das disposições da Carta das Nações Unidas e da Resolução A/1514 (XVI), da Assembleia Geral: encetar de negociações com os representantes dos povos de Angola, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde e de Moçambique, a fim de se adoptar uma solução para o conflito armado que devastava os territórios e lhes permitisse alcançar a autodeterminação.


Inícios de 1972: os primeiros contactos de Senghor com as autoridades portuguesas

Porém, datam desta altura (inícios de 1972) os primeiros contactos de Senghor com as autoridades coloniais portuguesas e, segundo tudo confirma, com o próprio Amílcar Cabral, no sentido de se encontrar uma solução negociada para a guerra colonial versus guerra de libertação.

O PAIGC, na realidade, foi sempre receptivo a uma qualquer solução negociada do conflito, tanto mais que a sua estratégia, em última instância, era obrigar as autoridades coloniais a sentarem-se nas mesa das negociações e não a de uma contemporização indefinida, tal como Spínola pretendia, pois acreditava que Amílcar Cabral não tinha pressa na medida em que (...) é um homem inteligente e muito hábil e, como está convencido de que há-de vencer, logicamente espera tirar vantagem do tempo para formar os seus quadros e para que as populações, com o nosso trabalho, se vão promo­vendo cada vez mais. Tudo o que nós fizermos pelo povo é ganho assegurado para a Guiné do futuro e nós temos possibilidades técnicas de fazer mais estradas e escolas num só ano do que o PAIGC em muitos (...)” (31).

Como quer que seja, perante as propostas de Senghor, o Governo de Lisboa insistia em ignorá-las, com o argumento de que qualquer desfecho negocial para a Guiné teria o efeito de dominó(32), relativamente às outras colónias, sobretudo Angola e Moçambique, territórios também em guerra, pelo que ignorou da mesma forma e insistentemente as resoluções das Nações Unidas nesse sentido (33).

Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior do Exército, em visita à Guiné

No entanto, as sucessivas alterações do dispositivo militar efectuadas por Spínola bem como a excessiva utilização das Forças Africanas, eram, por si sós, insuficientes para restabelecer o equilíbrio militar perdido, como de resto atesta Costa Gomes, que após ter deslocado à Guiné em 1972, a convite de Spínola e na qualidade de Chefe do Estado-Maior do Exército, afirmou que, não obstante ter dito a Marcelo Caetano que, se se modificasse o dispositivo e se o PAIGC não utilizasse os Mig que dizia possuir, a Guiné seria defensável, pelo que “ (…) se opôs à ideia de, mantermos forças militares nas povoações situadas junto à fronteira, onde éramos sistematicamente atacados. Apesar de o general Spínola e seu Estado-Maior terem concordado comigo, nunca deram, no entanto, execução à directiva. Em 1972, existiam postos militares em São Domingos, perto do Senegal, Bigéne, Buruntuma e, no Sul, em Guiledje e Guidage. Fui, de facto, sempre contrário à essa táctica (em Angola não a usei), pois uma vez que nos era poli­ticamente vedado atravessar essas linhas fronteiriças em perseguição das forças inimi­gas, as tropas ali sediadas estavam permanentemente sujeitas a ser ataca­das sem poderem defender-se convenientemente (…)” (34).
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Notas de L.A.:

(20) “Anexo C ao Intrep” n.º 6/71, , Pasta Organizada por Províncias Ultramarinas – Guiné- , Arquivos da PIDE-DGS/ANTT, NT 8924, fls. 15.

(21) Entrevista de Spínola ao jornalista Francisco de Carvalho, do Expresso, a 30 de Janeiro de 1973 e reproduzido em Por uma Pontugalidade Renovada, Agência-Geral do Ultramar, pp. 388-389.

(22) Cabral, Amílcar, Sobre a Agressão à República da Guine e os Acontecimentos Ulteriores Nesse País, reunião do CSL, 9 a 16 de Agosto de 1971, Serviços de Informação do PAIGC, Arquivo do PAIGC, 1971.

(23) Nessa altura, José Massip, cineasta cubano terminou a sua estada de dois meses nas áreas libertadas do Sul, onde rodou um filme sobre a luta do PAIGC. Este cineasta tinha já sido o autor do filme Madina de Boé, que fez imenso sucesso.

(24) De 18 à 26 de Setembro, o PAIGC realizou no hall do Teatro Nacional Daniel Sorona, em Dacar, uma exposição fotográfica seguida de um espectáculo artístico sobre a luta do PAIGC, na presença de Amílcar Cabral e do ministro dos Negócios Estrangeiros do Senegal, Amadou Karim Gaye. A mesma exposição foi inaugurada, em Bathurst, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Gâmbia.

(25) As FAL (Forças Armadas Locais) são forças regionais de quadrícula que surgiram no primeiro semestre de 1971 e foram criadas através da reorganização das Milícias Populares, às quais competia determinadas zonas das áreas libertadas, nomeadamente, colaborar com os CE em acções de guerrilha ou ainda realizá-las isoladamente, e também servir como guia à intervenção do CE deslocado para a realização de esforços, nos diferentes locais de implantação.

(26) É nessa data e nessa reunião magna que Amílcar Cabral anunciou que o PAIGC tinha enviado jovens militares para aprenderem a pilotar de aviões de guerra.

(27) Miranda, Jorge - As Constituições Portuguesas: de 1822 ao Texto Actual da Constituição. Livraria Petrony , 5ª edição, 2004, p. 278.

(28) Foi em Morés que o escritor francês Gérard Challiant, assim como os cineastas e jornalistas, respectivamente, Mário Marret e Izidro Roméro (franceses), Piero Nelli e Eugénio Bentivoglio (italianos), Juntin Vyeira, Justin Mendy e Mamless Dia (africanos) e Oleg Ignatiev (russo), recolheram material para os artigos que publicaram, tanto na imprensa e os filmes que realizaram. Em Dezembro de 1972, foram exibidos nas regiões libertadas o filme Lala Quema, da autoria de do cineasta francês Mário Marret.

(29) Pastas Organizadas por Províncias Ultramarinas, Arquivos da PIDE-DGS/ANTT, SC NT 8923, fls. 242. Também em PAIGC Actualités, n.º 37, Janeiro de 1972.

(30) Pastas Organizadas por Províncias Ultramarinas, Arquivos da PIDE-DGS/ANTT, SC NT 8923, fls. 242.

(31) Vários, (Rodrigues, Avelino s, Borga, Cesário e Cardoso, Mário), op. cit. p. 152.

(32) Caetano, Marcelo - Progresso em Paz, Lisboa, Verbo, 1972, p. 179.

(33) Cf. ONU, Conselho de Segurança, Documents Officiels, Ano 27, 1967 e sessão de 19 de Outubro de 1972.

(34) Gomes, Francisco Costa, op. cit., p. 156.

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Notas de L.G.:

(*) Vd. posts anteriores:

17 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1436: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (1): Perguntas e respostas

18 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1445: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (2): O papel da CCAÇ 2586 (Júlio Rocha)

19 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1446: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M. F. Sousa) (3): O depoimento do 1º sargento da CCAÇ 2586, João Godinho

27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1465: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (4): Os majores foram temerários e corajosos (João Tunes)

6 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1500: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (5): Homenagem ao Ten-Cor J. Pereira da Silva (Galegos, Penafiel)

8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1503: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (6): Fotografia dos três majores (Sousa de Castro)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1519: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (7): Extractos da entrevista de Ramalho Eanes ao 'Expresso'

25 de Fevereiro de 2007 >Guiné 63/74 - P1549: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (8): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte I

6 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1566: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (9): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte II

(**) O nosso camarada Tino Neves já aqui relatou um anterior ataque (e creio que o primeiro, na história da guerra) à vila e quartel de Gabu > vd post de 9 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1160: Lembranças de Nova Lamego (Tino Neves, CCS/BCAÇ 2893): A fatídica noite de 15 de Novembro de 1970

(***) Já houve, logo nos primeiros tempos do nosso blogue, uma acesa polémica sobre esta versão, oficial ou oficiosa, do PAIGC sobbre as baixas de um lado e de outro, no decurso da Op Safira Solitária. Recomenda-se a leitura desses posts:

3 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIV: Informação & Propaganda: de que lado estava a verdade ? (1) (Sousa de Castro / Vitor Junqueira / Luís Graça / Afonso Sousa / A. Marques Lopes)


(...) "O coronel João Malaca foi um dos comandantes da guerrilha na zona de Morés e Bissorá [na região do Óio]. Foi ele quem comandou a célebre batalha de Morés na zona de Farim, em 21 de Dezembro de 1971, onde as tropas portuguesas deixaram no terreno 61 mortos confirmados pelo PAIGC.

"Ia uma companhia de africanos à frente. Tínhamos um rádio para captar todas as informações. A operação chamava-se Estrela Solitária [ lapso, é Safira, e não Estrela] . Quando os apanhamos na zona para onde os canhões e morteiros estavam apontados, começámos a descarregar a artilharia e fechámos-lhes a saída. Morreu muita gente. Era a guerra, ninguém ficou contente com isso" (...).

(...) "O Vitor Junqueiro, que era na altura alferes miliciano da CCAÇ 2743 (Mansambá, 1970/72), veio de imediato protestar: Amigo Sousa de Castro: Esta história do Sr. João Malaca é completamente falsa. Direi mesmo absurda. Eu estive lá nessa época" (...).

Veja-se, entretanto, o que dizia um Comunicado especial do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, captado pela rádio em 29 de Dezembro de 1971 e captado pelo Afonso Sousa:

(...) " Numa das mais importantes operações militares realizadas no Teatro de Operações da Guiné, as forças guerrilheiras acabam de sofrer um expressivo revés (...).

(...) "Montada a operação, denominada Safira Solitária, foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve início ao alvorecer do dia 20 prolongando-se até à tarde do dia 26 tendo as nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das posições inimigas.

"Apesar de colhido de surpresa, o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2 grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de 333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias tenaz resistência acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de feridos.

"Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos mais 4 elementos cubanos. Verificou-se que o inimigo estava implantando no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal. Os grupos de guerrilha, pela resistência que ofereceram revelaram uma sensível melhoria de enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição.

"No decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10, 2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7 lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições, fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessários. As nossas forças sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros" (...).

3 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXV: Informação & propaganda: de que lado estava a verdade ? (2) (Vitor Junqueira)