sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Guiné 63/74 - P3122: Ser solidário (16): ONG AD - Parte III: Trabalho feito, com destaque para a realização do Simpósio Internacional de Guileje


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém > Visita dos participantes do Simpósio Internacional de Guileje > 2 de Março de 2008 > As instalações da televisão comunitária Massar. Na foto, a Maria Alice, esposa do editor do nosso blogue, Luís Graça. Massar, em dialecto nalu, quer dizer estrela. Do logótipo da TV Massar faz parte o mítico Nhinte-Camatchol.

Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.


A televisão TVMassar está a emitir em ondas hertzianas, desde Novembro de 2007, para todo o sector de Cubucaré.

Com um forte envolvimento da comunidade local que confeccionou adobes, forneceu material local (areia, pedra e cascalho, cibes para a cobertura) e mão-de-obra (pedreiros e carpinteiros), construiu-se este edifício onde uma equipa de oito jovens prepara os programas diários que podem ser vistos nas tabancas do sector.

A uma rede de 7 televisores instalados em outras tantas Escolas de Verificação Ambiental, assim como alguns televisores privados, permitem a visão colectiva das emissões da TVM.





Guiné-Bissau > AD- Acção para o Desenvolvimento > Foto da Semana > 27 de Janeiro de 2008

Dentro de um ano e meio a zona norte do país vai passar a beneficiar da Ponte de S.Vicente, sobre o rio Cacheu, o que encurtará a distância entre Bissau e Ziguinchor, segunda cidade do Senegal.

Tudo indica que a cidade de S. Domingos cresça rapidamente e possa assumir-se como a segunda cidade do país, especialmente como entreposto de produtos nesta subregião africana. Os mercados da Gambia e Senegal são excelentes oportunidades de negócio para os nossos operadores comerciais.

Daí que o Centro de Formação Rural (CENFOR) de S.Domingos esteja a incrementar um importante programa de formação profissional (serralharia, marcenaria, informática, etc.) para permitir aos jovens aceder ao mercado de trabalho especializado.



Guiné-Bissau > AD - ACção para o Desenvolvimento > Foto da Semana > 24 de Fevereiro de 2008

Jovens balantas de Cafine participam na festa da cerimónia de entrada no fanado, isto é, o acto de iniciação para a vida adulta.

Na zona de Cantanhez, várias etnias convivem amigável e solidariamente, gerindo os recursos naturais, cooperando a nível de diversas associações de agricultores, de jovens, de mulheres e de pescadores, bem como apreciando as culturas de cada uma delas.

Para além dos chamados “donos do chão”, os nalús, conhecidos pela sua escultura de rara beleza, estão presentes os balantas, notáveis orizicultores de bolanha salgada, os fulas, mestres na arte da palavra, os djacancas, profundos conhecedores da religião muçulmana, os tandas, minoria proveniente da Guiné-Conakry, os sossos, especialistas na fruticultura e agricultores de outras etnias.





Guiné-Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da Semana > 30 de Março de 2008

Numa das zonas mais isoladas da Guiné-Bissau, no litoral norte, na baía de Varela, onde a terra acaba e o mar começa, foi construída por iniciativa da comunidade local a Escola de Verificação Ambiental de Djufunco.

A funcionar desde Outubro de 2007, esta escola acolhe uma centena de alunos da primeira à quarta classe, que para além de se defrontarem com o isolamento geográfico (nenhuma estrada digna desse nome existe para lá chegar), não tem acesso a material escolar elementar.

Graças ao apoio da Câmara Municipal de Coimbra, um lote de material de excelente qualidade foi oferecido às crianças, pela Caravana que este mês veio de carro até à Guiné-Bissau, alguns deles para participar também no Simpósio Internacional de Guiledje.

Fotos e legendas: Cortesia de: © AD- Acção para o Desenvolvimento
(2008). Direitos reservados.


Continuação publicação do relatório de actividades de 2007, da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, com quem mantemos desde finais de 2005 uma relação, franca, aberta, privilegiada, de cooperação, tendo como pretexto inicial o Projecto Guileje que deu origem, entre outras iniciativas que tiveram o nosso apoio, à realização do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1 a 7 de Março de 2008), e que abriu portas a outras iniciativas mais recentes, como por exemplo a recolha de sementes.


AD -Acção para o Desenvolvimento: Relatório de actividades de 2007 > Parte III


Revisão e fixação de texto: L.G. (Não se reproduzem, por razões técnicas e de economia de meios, as fotos do relatório original, divulgado em formato pdf, no sítio da AD).


C. Os Programas Regionais da AD


Em 2007, a AD regressou ao seu “formato” original desenvolvendo programas nas suas 3 zonas de intervenção, sendo duas rurais (Cubucaré-Quitafine e S.Domingos-Bigene) e uma urbana (bairro de Quelele).

1 - Programa de Apoio aos Agrupamentos do Norte (PAN)

As acções mais importantes neste ano foram as seguintes:

a) Conhecimento dos Circuitos Comerciais

O incremento da produção agrícola tanto a comercial como a destinada ao autoconsumo, impõe a existência de uma rede comercial de mercados que equilibrem a procura local de alimentos e dinamizem a venda exterior dos excedentes. A importância dos circuitos comerciais é tanto maior quanto próxima dos países vizinhos, potenciais compradores de todos os produtos agrícolas que lhes faltam. O Senegal e a Gâmbia estão neste caso, se tivermos em conta as suas condições edafoclimáticas que as fazem aproximar-se muito do deserto.

Em 2007, um trabalho dirigido por Ba Mody, aprofundou o conhecimento dos mercados locais, do volume de negócios, do tipo de procura senegalesa, da importância do mercado subregional de Djaobé, no Senegal, assim como os constrangimentos à comercialização nos sectores de S. Domingos e Bigene.

Foram estudados os lumus de Bigene, com um número médio de actores de 800 pessoas durante a época seca, contra 350 na época das chuvas; o lumu de Ingoré varia de 300 a 500, enquanto o de Sedengal de 600 a 400. O lumu de S. Domingos é o maior de todos com uma média de 3.000 pessoas.

Para se ter uma ideia do volume médio dos negócios realizados num dia nestes lumus por um retalhista ele situa-se entre 2.000 a 4.000 Cfa em produtos agrícolas alimentares (arroz, milho, feijão, batata-doce), 4.000 a 8.000 Cfa em géneros alimentícios (açúcar, óleo, sal) e 10.000 a 30.000 Cfa em produtos manufacturados (tecidos, utensílios). Como a maioria das retalhistas vendem produtos agrícolas, com fraco volume de negócios, as margens de lucro são muito pequenas, situando-se à volta de 500 a 1.000 Cfa por dia.

Assiste-se a uma forte procura senegalesa de produtos brutos guineenses, praticando preços compensadores, mas dominando eles todos os circuitos comerciais (operadores, transporte, clientes e conivências aduaneiras, fiscais e policiais). Por vezes, como em Varela, essencialmente um mercado de peixe, são maioritariamente os pescadores senegaleses, cerca de 150 para 50 canoas diárias, que dominam a actividade, abastecendo de peixe fresco a zona turística de Cap Skiring.

O fluxo de produtos para o Senegal comporta dois circuitos: um que vai do local de produção directamente para o Senegal, caso do peixe fresco e fumado, e outro circuito que passa por S. Domingos (óleo de palma, vinho de palma, frutos silvestres, vassouras) sendo que este último constitui o principal motor de transacções do sector.

Já o fluxo de produtos do sector de S. Domingos para Bissau e Bula, centra-se no mango fora-de-estação (Setembro-Outubro), carvão, sal e peixe fumado, muito menos intenso que para o Senegal, uma vez que os preços praticados naqueles mercados são menos atraentes e a distância é muito maior, tanto mais que tem uma jangada de funcionamento imprevisível.

Já no sentido inverso, os produtos provenientes do Senegal, Gâmbia e Guiné-Conakry são manufacturados, registando-se uma excepção em relação ao mercado grossista de Bigene que recebe uma média semanal de 50 porcos.

Outro produto que vem de fora é o sal. De registar que os lumus do lado da Guiné-Bissau são generalistas, embora o de Cassolol se especialize mais em
vinho de palma e o de Bigene em porcos.

Se tivermos em conta os produtos agrícolas e florestais, o cenário apresenta-se da seguinte forma:

- óleo de palma: é começado a vender de Outubro a Fevereiro, época baixa, com volumes variando entre os 5.000 e os 7.000 litros mensais. Entre Março e Julho o valor situa-se nos 15.000 litros por mês;

- fole: entre Julho e Setembro a oferta situa-se entre as 150 e 225 toneladas mensais;

- vinho de palma: entre Agosto e Novembro, época alta, a média mensal de exportação para o Senegal é de 50.000 litros;

- cabaceira: é um produto de fraca oferta em que, de Dezembro a Fevereiro, a oferta se situa entre as 2,5 a 5 toneladas por mês;

- vassouras: não se tendo conseguido registar a quantidade exportada, ela incide sobretudo nos meses de Outubro a Junho.

O incremento da produção agrícola nesta zona fronteiriça passa pela:

- criação de infraestruturas de comercialização (tradicionais e modernas), tais como os lumus que a AD vem promovendo em Elia, Cassolol e Suzana, assim como os mercados comunitários de Ingoré (concluído em 2007) e S. Domingos (previsto para o final de 2008);

- maior integração no mercado subregional de Diaobé, no Senegal, maior entroncamento comercial da costa ocidental africana;

- limitação dos constrangimentos à comercialização nestes dois sectores geográficos, em especial na luta contra a falta de cultura comercial e de estratégia de comercialização, a fraca capacidade de produção e consequente dificuldade em controlar a oferta, no desencravamento dos lumus, nos abusos de que os comerciantes são vítimas pelas taxações dos serviços florestais guineenses e senegaleses.

b) Dinamização da Produção Agrícola


Várias actividades foram incrementadas durante este ano, sendo de realçar:

- o programa de reaproveitamento das bolanhas salgadas do sector de Bigene, que haviam sido abandonadas há muitos anos atrás, tendo sido beneficiadas 8 tabancas que irão permitir dentro de poucos anos a cultura de arroz numa área estimada em cerca de 1.000 ha;

- perto de Barro foram apoiadas acções em 3 tabancas para a melhoria da gestão de água em bolanhas de “bas-fonds”, representando uma área de 80 ha para a produção imediata de arroz;

- foram distribuídas 7 toneladas de sementes de arroz das variedades Cablak e Banimalu, impondo-se urgentemente a criação de uma rede local de agricultores-multiplicadores de semente para assegurar uma maior segurança local de produção. Acresce o fornecimento de 100 Kg de feijão mancanha, na forma de minikits, e de estacas de mandioca a 19 tabancas;

- apoiaram-se 42 tabancas (30 em Bigene e 12 em S. Domingos) para a produção hortícola e fruticultores de 10 tabancas, com sementes, propágulos e pequeno material hortícola e frutícola.

- foram instaladas 2 descascadoras de arroz, uma moageira de milho, 23 prensas de óleo de palma, 10 carroças de tracção animal.

c) Outras Actividades

- construção de 3 Escolas de Verificação Ambiental (EVA) em Nhambalan, Djufunco e Elala;

- 11 poços de água em outras tantas tabancas do sector de Bigene;

- alargamento das instalações de carpintaria do Centro de Formação Rural de S. Domingos (CENFOR) e reforço dos programas de formação profissionalizante (serralharia, carpintaria e informática) e comunitária (descascadoras de arroz, fabrico de sabão, tinturaria);

- construção do edifício da Rádio Comunitária Balafon de Ingoré, com afectação de melhores meios de trabalho, cuja conclusão está prevista para o final do primeiro trimestre de 2008;

- apoio à equipa médica de oftalmologia da ONG ANAWIN que em Setembro realizou numerosas operações às cataratas e tracomas;

- dinamização da assistência médica ao Centro Materno-Infantil de Djufunco, assegurada pela colaboração voluntária da equipa médica cubana
sedeada em S. Domingos;

- apoio à Associação dos Afilhados de Elx e à sua ludoteca;

- assistência para a elaboração dos estatutos e legalização da Rádio Kasumai.


2 – Desenvolvimento Urbano de Quelele

As acções mais importantes em 2007 no bairro de Quelele centraram-se na Escola de Artes e Ofícios sendo de assinalar:

3.1. Melhoria de funcionamento dos cursos: adequação de planos curriculares e dos sistemas de avaliação

a) Educadores de Infância: foram introduzidas 2 novas disciplinas (linguagem e iniciação à Matemática), com o objectivo de facilitar a identificação e selecção de jogos e materiais para melhorar o desenvolvimento linguístico e cognitivo de crianças. Foi implementado um sistema de estágio organizado e acompanhado, com a duração de 160 horas repartido em 2 meses, destinado a promover o contacto com os potenciais empregadores, alargar possibilidades de emprego e atribuir uma ligação entre as vertentes teórico-práticas do curso;

b) Electrónica: na disciplina de gestão de pequenos negócios, foram introduzidas as componentes de “técnicas de elaboração de orçamentos” e “apresentação de um diagnóstico de avaria”.

Alterou-se o sistema avaliativo com o objectivo de valorizar os trabalhos práticos realizados em laboratório, assim como os testes escritos passaram a ter um peso de 70% na avaliação, contra os 100% dos anos anteriores. Introduziu-se um sistema de estágio com a empresa Areeba, tendo estagiado 5 formandos dos quais 1 conseguiu emprego.

3.2. Contribuição da EAO na melhoria de funcionamento de outras Instituições

A Escola Popular Aruna Embalo, pela primeira vez, introduziu no seu sistema educativo o nível de educação pré-escolar, contando com a participação de 5 formandas da EAO na área de educadoras de infância, apoiando ainda no programa de educação infantil.

3.3. Cursos realizados

a) Cursos Profissionalizantes

- Electrónica: foram organizados 2 cursos (de 30 alunos cada, todos do sexo masculino). Registou-se uma redução da taxa de desistência de 55% para 39% entre 2006 e 2007, a que correspondeu um aumento do número de finalistas de 13 para 20 alunos (45% e 61% respectivamente);

- Auxiliares de Educadores de Infância: foi organizado 1 curso de 3 turmas com 69 formandas, todas do sexo feminino, tendo desistido apenas 3, equivalente a 6%. O novo formato do curso, com mais aulas práticas do que teóricas e um sistema de estágios acompanhados, permitiu a redução de desistências em 10% de 2006 para 2007;

- Instalações Eléctricas: iniciaram-se cursos em novos moldes e novo formato. Se anteriormente os cursos comportavam 340 horas repartidas em 5 meses, agora passaram a ser ministrados em 3,5 meses com uma carga horária de 134 horas. Os materiais e equipamentos para as aulas práticas foram alterados e adaptados, isto é, cada aluno passou a ter uma bancada individual ao invés de bancadas e quadros colectivos. Foram organizados 3 cursos, dos quais 2 já terminaram, tendo-se inscrito 27 alunos todos do sexo masculino e chegado ao fim, devido a viagem ao estrangeiro;

- Informática: os cursos passaram de 4 em 2006 para 4,5 em 2007, tendo havido um acréscimo de 11% de alunos inscritos, isto é passaram de 488 em 2006 para 495 alunos, sendo 275 rapazes e 220 raparigas.

Concluíram os cursos este ano 84% dos inscritos contra 95% em 2006, sendo que as razões apontadas estão a falta de pagamento, deslocações e viagens para o exterior e oportunidades de emprego entretanto surgidas. Para 2008 vaise implementar o sistema de pagamento único logo na inscrição.

- Painéis Solares: em colaboração com o CENFOR, realizaram-se 2 cursos de instalação e reparação de painéis solares, com o objectivo de
dispor de técnicos qualificados que garantam a difusão deste tipo de energia alternativa. Foram formados 11 técnicos.

b) Cursos Comunitários: foram realizados 2 cursos de tinturaria para 18 jovens raparigas, com a duração de 45 horas (1 mês e meio).


3.4. Construção da Escola de Artes Domésticas e Hotelaria

Em Dezembro de 2007, foi iniciado o processo de legalização do terreno junto da EAO e construção da nova Escola de Artes Domésticas e Hotelaria, destinada a formar jovens quadros capazes de se integrarem no processo de crescimento do turismo na Guiné-Bissau e satisfazer as ambições de outros de melhoria da qualidade de vida familiar.


3 - Programa Integrado de Cubucaré (PIC)

As acções mais importantes neste ano foram as seguintes:

a) Preparação do Simpósio Internacional de Guiledje

A organização deste Simpósio teve início dois anos antes da sua efectivação, factor determinante para que a sua preparação tenha sido preparada em todos os seus pormenores e detalhes. Ocupou a preocupação central de todos os quadros do PIC que fizeram um excelente trabalho logístico para a recepção aos participantes, de animação e enquadramento dos diversos grupos locais e comunidades que se envolveram nos programas de reabilitação dos antigos quartéis de Guiledje e Gandembel, na preparação dos programas culturais e na finalização da construção das infraestruturas de acolhimento.

Por outro lado, um trabalho lento e gradual de sensibilização de todos os participantes do exterior, portugueses, cubanos, caboverdianos e de outros países europeus, foi desenvolvido, levando especialmente os antigos militares portugueses que estiveram na Guiné e intelectuais e professores universitários a irem-se interessando cada vez mais pelo Simpósio e a considerarem-no como também seu.

O site de Guiledje gerido pela AD foi um momento alto dessa comunicação com os participantes, sendo de realçar a participação notável e determinante do Blogue “Luís Graça e os Camaradas da Guiné”, que promoveu o Simpósio como ninguém, chegando ao ponto de se antecipar ao site de Guiledje na publicação de informações frescas. Igualmente a participação activa da Fundação Mário Soares, através do Arquivo Amílcar Cabral, foi decisiva para a qualidade do conteúdo do evento.

Curiosamente que foi a nível interno, de Bissau, que o envolvimento dos participantes teve flutuações mais significativas, assistindo-se a uma adesão espontânea e interessada, logo de início dos intelectuais e quadros técnicos guineenses, seguido mais tarde pelos combatentes da liberdade da pátria e só por último das autoridades governativas.

Em termos de financiadores há a destacar o apoio da União Europeia, do Governos português e guineense e do IMVF, obtidos atempadamente e que quase cobriram o orçamento estimado. De notar o envolvimento activo do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau que foi assegurando apoios fundamentais para o bom sucesso deste encontro.

Um dos pontos mais altos dos preparativos do Simpósio foi o do registo em DVD dos testemunhos dos combatentes guineenses, dos comandantes caboverdianos que participaram em Guiledje e as dos militares portugueses que contribuíram com uma significativa entrega de documentos históricos pessoais e de instituições oficiais. Durante este período foi-se conseguindo obter um arquivo de qualidade que irá enriquecer o futuro Museu de Guiledje com fotografias, filmes de 8mm, objectos de recordações e livros de unidade.

b) Dinamização agrícola

Em 2007 foram dinamizadas as seguintes acções de apoio aos pequenos agricultores dos sectores de Cubucaré e de Quitafine:

- apoiaram-se 7 tabancas para a reabilitação de bolanhas salgadas abandonadas ou destruídas pela força das marés e subida do nível médio das águas do mar, através do fornecimento de tubos de drenagem e reconstrução de diques atingidos, o que representa o aproveitamento de cerca de 500 ha potenciais para a cultura do arroz;

- 8 tabancas beneficiaram de apoio para o aproveitamento dos pequenos vales interiores para a cultura de arroz na época das chuvas e de batata-doce e legumes na época seca;

- para a diversificação de culturas foram distribuídas sementes de feijão mancanha (168 kg) e propágulos de batata-doce e mandioca;

- foram distribuídos 40 kg de sementes de legumes diversificados a 28 tabancas de ambos os sectores;

- apoiaram-se agrupamentos e fruticultores na criação de 10 viveiros de espécies frutícolas, fornecendo-se apoio técnico e pequeno material de trabalho (catanas, enxadas, sachos e pás);

- introduziram-se 2 descascadoras de arroz, 2 unidades de fabrico de farinha de mandioca, com um sucesso extraordinário, 10 prensas de óleo de palma e 2 unidades manuais para farinhar peixe.

c) Outras actividades

- concluiu-se a construção das Escolas de Verificação Ambiental de Sintchur Caramba e de Cafine;

- construiu-se e inaugurou-se o lumu de Gandembel que teve um começo excelente na troca de mercadorias com a Guiné-Conakry, mas que foi decaindo ao longo do ano fruto da instabilidade política registada naquele país;

- apoiaram-se duas mulheres na construção de 2 casas de restauração, uma em Faro Sadjuma e outra no porto de Canamina, para servirem refeições aos turistas;

- avançou-se bastante na construção dos 3 bungalows na área turística de Iemberém.

_________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores desta série:

7 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3118: Ser solidário (14): ONG AD: Relatório de actividades de 2007 - Parte I: A segurança alimentar

8 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3121: Ser solidário (15): ONG AD - Relatório de actividades de 2007 - Parte II: Luta contra a fome, ecoturismo e TV comunitárias

Guiné 63/74 - P3121: Ser solidário (15): ONG AD - Relatório de actividades de 2007 - Parte II: Luta contra a fome, ecoturismo e TV comunitárias










São Martinho do Porto > Estrada do Facho > 7 de Agosto de 2008 > Casa de verão de Carla Schwarz da Silva, mãe do nosso amigo Carlos Schwarz (Pepito). Em cima, uma vista fabulosa da baía de São Martinho do Porto, a partir da janela do quarto do Pepito e da Isabel. A meio, o Pepito e a mãe. Em baixo, o editor do blogue, Luís Graça, e a Isabel Levy Ribeiro, esposa do Pepito. A casa, cuja construção remonta ao ínício dos anos 30, é uma das mais antigas daquela fantástica estância de veraneio, pertencente ao concelho de Alcobaça. O pai do Pepito exerceu advocacia em Alcobaça e Porto de Mós, nos anos 40, antes de ir para a Guiné, com a família, em 1949.

Fotos: © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados.






São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa de Clara Schwarz da Silva, 93 anos, viúva de Artur Augusto da Silva (1912-1983), e mãe de Carlos, Henrique e João Schwarz. O Carlos (Pepito), que vive em Bissau, e é membro da nossa Tabanca Grande, é o mais novo dos filhos. Neste vídeo, o João Graça toca, no seu violino, uma peça (nova) de música klezmer. A velha senhora, filha de pai polaco, engenheiro de minas, e de um russa, pianista, teve uma esmerada educação, que passou pelo Curso de Direito (onde conheceu o pai do Pepito) e o curso de violino do Conversatório Nacional de Música, de Lisboa.

A mãe do Pepito ficou muito sensibilizada com o gesto do João que fez questão de a conhecer pessoalmente e tocar para ela e para o resto da família Schwarz algumas peças da música klezmer, incluindo o Bulgar de Odessa, cidade onde os seus pais se casaram antes da revolução russa de 1917.

Foi um privilégio, para mim, para o João e para a Alice, usufruir da hospitalidade dos Schwarz e conhecer, pessoalmente, a matriarca da família, senhora que atravessou um século e tem uma memória, uma cultura e uma vitalidade prodigiosas... Dos presentes no almoço (e neste simpatiquíssimo convívio que se prolongou até tarde ao fim da tarde), há ainda a registar a mãe da Isabel, além do Ivan e da esposa (que têm um lindo bebé de 2 meses) e do Mário, amigo comum.

Vídeo (1' 42'') : © Luís Graça (2008). Direitos reservados. Vídeo alojados em: You Tube >Nhabijoes.



Guiné-Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 8 de Junho de 2008

A criação de infraestruturas rurais de apoio à comercialização de produtos agrícolas pode contribuir de forma importante para a segurança alimentar local, equilibrando a procura e oferta entre as comunidades das diferentes zonas do sector de S.Domingos. Daí que a construção do novo Mercado Comunitário de S.Domingos se enquadre na anterior criação dos lumus (mercados semanais) de Elia, Cassolol, Suzana e Varela, que provaram ser centros de dinamização da produção de batata-doce e óleo de palma. Armindo Sanha, Pedro Cuma, Mamadu Seidi, Ensu da Costa, Luís Djedjú e Quintino Bidan, são alunos da Faculdade de Medicina da Guiné-Bissau a estudar na cidade de S.Domingos e que decidiram contribuir com uma jornada de trabalho voluntário para a construção deste Mercado.


Guiné-Bissau > AD -Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 25 de Maio de 2008


No dia 20 de Maio de 2008 foi inaugurado o Parque Nacional de Cantanhez pelo Presidente da Republica da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, na presença do Director Geral do Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas (IBAP), Alfredo Simão da Silva, e de representantes do poder tradicional da zona do Parque.

Estiveram também presentes vários membros do Governo, Embaixadores sedeados no país, guardas florestais comunitários, guias ecoturísticos, membros dos Comités de Regulados encarregados de coordenar as acções de conservação e desenvolvimento no Parque.

A criação do Parque é um dos momentos altos de uma longa caminhada de mais de 30 anos onde pontificaram organizações nacionais como o DEPA e a AD.



Guiné-Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 18 de Maio de 2008

Na zona de Barro, na margem direita do rio Cacheu, 11 tabancas, entre as quais Bucaur, Sanu, Buborin, Ponta Nova, Apidju, Saiam, Lanqué e Barro, deitaram mãos à obra e iniciaram desde há 2 anos a recuperação de extensas áreas de bolanha abandonada, para voltar a cultivar o arroz.

É um esforço notável que homens e mulheres estão a fazer para construir diques que impeçam a entrada de água salgada nos arrozais e ao mesmo tempo sirvam de estradas para comunicar entre localidades até agora isoladas.

Ao apoio da União Europeia e do Instituto Marquês Valle Flor, veio juntar-se recentemente o do Programa Alimentar Mundial, na modalidade de fornecimento de comida para trabalho.




Guiné-Bissau > AD - ACção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 20 de Abril de 2008

O Secretário de Estado da Cooperação Internacional de Portugal, João Gomes Cravinho, é acolhido pelo Director da Escola de Artes e Ofícios de Quelele, Jorge Handem, aquando da sua recente visita a este importante centro de formação profissional.

O Ministério do Trabalho e Segurança Social tem sido um parceiro exemplar para o crescimento desta escola que tem cursos nas áreas da electricidade, electrónica, informática, auxiliares de educação infantil e mais recentemente em hotelaria.

Está precisamente na sua fase final a construção de novas instalações para o curso de artes domésticas que vem responder a inúmeras solicitações de jovens à procura de auto-emprego ou de integração nas unidades hoteleiras do país.

Fotos e legendas: Cortesia de: © AD- Acção para o Desenvolvimento (2008). Direitos reservados.
Continuação publicação do relatório de actividades de 2007, da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, com quem mantemos desde finais de 2005 uma relação, franca, aberta, privilegiada, de cooperação, tendo como pretexto inicial o Projecto Guileje que deu origem, entre outras iniciativas que tiveram o nosso apoio, à realização do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1 a 7 de Março de 2008), e que abriu portas a outras iniciativas mais recentes, como por exemplo a recolha de sementes.

Deixem-me dizer-vos que, por lapo, não apareceu no poste anterior (*) a belíssima citação de Pablo Neruda que antecede o corpo do relatório em apreço:

"Podem cortar todas as flores / Que nunca serão donos da Primavera" (Pablo Neruda, Canto Geral).

2. AD -Acção para o Desenvolvimento: Relatório de actividades de 2007 > Parte II

Revisão e fixação de texto: L.G. (Não se reproduzem, por razões técnicas e de economia de meios, as fotos do relatório original, divulgado em formato pdf, no sítio da AD).

B. ASPECTOS MAIS RELEVANTES DE 2007

O ano de 2007 ficou marcado essencialmente por três aspectos relevantes:

1. Luta contra o défice alimentar no Norte do país

Independentemente das modas passageiras de ocasião, fossem elas planeamento familiar, conservação ambiental, boa governação, gestão durável dos recursos naturais, objectivos do milénio, etc., a AD manteve coerentemente ao longo dos seus 16 anos, a sua grande prioridade na luta contra a fome e na contribuição para a criação de condições de uma soberania alimentar na Guiné-Bissau, baseada em:

- Influenciar a política agrícola nacional, em especial na sua vertente de segurança alimentar, intervindo a nível de redes e plataformas de ONG, associações locais intervindo neste domínio e junto das delegações locais do Ministério de Agricultura nas zonas de intervenção da AD, contribuindo desta forma para as decisões politicas;

- Criar sinergias com outras ONG nacionais e estrangeiras para o combate às politicas que defendam a livre entrada de alimentos nos países do terceiro mundo, protagonizada principalmente pela OMC e que põem em causa a soberania alimentar na Guiné-Bissau;

- Promover uma concertação sub regional com ONG dos países vizinhos e associações de base, para a defesa da soberania alimentar e a apresentação de propostas concretas alternativas ao actual estado da situação alimentar, que inclua o estabelecimento de acordos comerciais entre associações e comunidades dos diferentes países e a promoção de lumus, entre outras;

- Contribuir para a definição, a nível de cada sector geográfico de intervenção, dos produtos estratégicos que servirão de motor e dinamizarão os processos locais de desenvolvimento social, cultural e económico, em que a AD será chamada a desempenhar uma acção de pesquisa, concepção, execução e assistência técnica para a segurança alimentar local.

- Promover a diversificação de culturas agrícolas, como a resposta às irregularidades climáticas e à preponderância da cultura de arroz, em função das condições edafo-climáticas, hábitos alimentares e carências nutricionais prevalecentes, incluindo a criação e reforço de uma rede de agricultores produtores de sementes, plantas e propágulos.

- Apostar na criação de iniciativas geradores de receitas a nível da comunidade, das associações e individuais que permitam melhorar as condições financeiras das unidades familiares e do seu acesso a bens alimentares, assim como a promoção da introdução de novas tecnologias de transformação (mandioca, arroz, milho, óleo de palma, peixe e sal) que facilitem o trabalho das mulheres assegurando melhores rendimentos;

- Promover a utilização racional e correcta dos recursos naturais florestais e haliêuticos por forma a beneficiarem as comunidades locais e reforçarem os sistemas tradicionais de protecção e conservação da natureza.

Em termos de acções concretas, há duas estratégias de luta contra a fome que a AD implantou nos sectores de S. Domingos e Bigene.

No sector de Bigene (eixo Barro-Ingoré) a prioridade vai para o reaproveitamento de antigas bolanhas de água salgada que foram abandonadas há muitos anos, mas que dispõem de um potencial de produção interessante. O fecho dos rios e a construção de grandes diques de cintura que servem simultaneamente para impedir a entrada de água salgada e de vias de acesso e comunicação entre tabancas, sendo um trabalho de grande exigência física, obriga a uma entreajuda entre todos os membros das comunidades beneficiadas.

Centenas de homens e mulheres participam nesta actividade, organizando-se em grupos de trabalho diferenciados, dividindo entre si as tarefas de corte e transporte de tarrafe para fechar os rios, a movimentação de solo (argila) para a compactação das barragens e feitura de diques, assim como a preparação de refeições colectivas durante o trabalho.

Ainda no eixo Barro-Ingoré, o aproveitamento dos pequenos vales interiores para a orizicultura de água doce, faz-se através da regulação e controlo da água das chuvas, especialmente com a construção de pequenas barragens de água e o aproveitamento de sistemas de drenagem que evitam que as bolanhas acumulem água em demasia e torne impossível o seu cultivo.

Se durante a época das chuvas é cultivado o arroz, na época seca são a batata-doce e os legumes.

No litoral norte (eixo Sucudjaque-Djufunco) a aposta incide na orizicultura de bolanha de solos arenosos (fraca capacidade para a retenção de água) com o uso de variedades de ciclo mais curto, logo seguida, em final da época das chuvas de uma campanha complementar de batata doce e hortícolas, sendo que nas zonas mais altas de planalto, o cultivo da mandioca.


2. Incremento do Ecoturismo em Cantanhez


A percepção do papel da AD no desenvolvimento do ecoturismo no Parque Nacional de Cantanhez e o tipo de actividades que se impõe à nossa organização fazer, mereceu uma profunda reflexão interna, alicerçada em iniciativas de grande impacte.

Definiram-se os tipos de turismo ecológico a incrementar, desde o turismo ambiental baseado na contemplação de paisagens nas 14 matas, na observação de animais (macacos, chimpanzés, elefantes e búfalos), aves (pelicanos e aves migratórias na foz do rio Cacine), passeios fluviais no rio Cacine e afluentes, itinerários pedestres ou de bicicleta de 1 a 2 horas, visita à ilha dos Pássaros, ilhéu de Melo, Ilha de Nuno Tristão ou ao Parque Natural Marinho de João Vieira e Poilão, bem como a miradouros de bebedouros de animais.

Também o turismo histórico onde se valoriza o facto de Cantanhez ter sido o berço da nacionalidade guineense e onde ainda estão presentes alguns vestígios luta de libertação nacional, tendo como grupo-alvo os quadros guineenses sentimentalmente ligados à história recente da Guiné-Bissau.

O turismo da saudade tendo como grupo-alvo os antigos militares portugueses que fizeram a guerra naquela zona, em especial em Guiledje, Gandembel, Cacine, Gadamael-Porto, Bedanda, Iemberém, Cafine, Cadique, Caboxanque, etc.

O Turismo Cultural com formas de percepção e de estar da vida das diferentes etnias locais (nalús, tandas, balantas, fulas, djacancas, sossos), danças e música de cada uma das etnias, história e estórias, lendas, religiões e crenças, modos de vida, formas de vestir, instrumentos de trabalho (agricultura e colecta) e organização social das tabancas e regulados.

O “Turismo” Científico com a procura do conhecimento da geografia física, do estudo dos diferentes biótipos da região (bolanhas, florestas, palmar, mangal), identificação da exploração da fauna e flora pelo homem (alimentos, construção, medicamentos, energia, canoas) e dinâmicas da fauna (chimpanzés e babuínos) e flora.

Para que o ecoturismo tenha uma verdadeira apropriação comunitária, definiram-se as seguintes regras de ouro:

- o maior número possível de tabancas devem sentir-se envolvidas no processo, beneficiando, por pouco que seja, das actividades promovidas. Isto evitará a tendência natural para a auto-exclusão e rejeição das que não forem incluídas.

- envolver todos os grupos sociais e etários (horticultoras, pescadores, fruticultores, jovens, mulheres, adultos, etc.), procurando responder ao que verdadeiramente os interessa e são as suas prioridades.

- ter a consciência clara de que “ninguém luta pelas ideias que estão na cabeça dos outros”, mas só naquilo em que acredita. Daí que os promotores do ecoturismo devam sempre fazer o exercício de se colocarem no lugar da comunidade para cada iniciativa que pretendam implementar e nunca impor a sua agenda de prioridades.

- a preservação e boa gestão dos recursos naturais tem de andar a par com a melhoria real (e sempre que possível rápida) das condições de vida e trabalho das comunidades.

- não se esquecer que o ambiente, cultura, associativismo, pesca, agricultura, desporto, etc. são actividades interdependentes no dia a dia das populações locais e querer resumir tudo a uma delas é o primeiro passo para o insucesso do programa.

Em 2007 desenvolveram-se actividades com jovens, enquanto artesãos, guias ecoturísticos e guardas comunitários, com mulheres, nos domínios de restauração, alojamento, artesanato, compotas, tinturaria de panos, horticultura e extracção de óleo de palma, assim como com os homens na produção frutícola e de venda de plantas medicinais.

Com as tabancas apoiou-se a construção de Escolas de Verificação Ambiental (EVA), a instalação de meios de comunicação comunitária (Rádio e Televisão), poços e a introdução de moageiras de farinha de mandioca e prensas de óleo.

O desafios de curto prazo que se apresentam ao ecoturismo são o de:

- promover uma imagem da Guiné-Bissau enquanto país de história, cultura e pioneira em certos processos de gestão ambiental, capaz de mobilizar turistas preocupados com valores nobres e progressistas;
- desenvolver uma visão que não seja geograficamente restrita, isto é, que não tome apenas Cantanhez como única área de intervenção. O ecoturismo só será viável se incluir de forma coerente e em conjunto outras zonas: Parque Marinho de João Vieira e Poilão, Ilhas de Melo e Tristão, Dulombi, Saltinho, Parque transfronteiriço de Guiledje-Boé e Xitole (macaréu);

- encontrar para cada tabanca, pelo menos um motivo de oferta turística capaz de fazer deslocar os potenciais ecoturistas mobilizando simultaneamente o interesse da comunidade;

- criar uma cultura de exigência em termos de higiene e remoção tratamento de lixo;

- favorecer a identificação e formação de operadores e trabalhadores turísticos locais, tais como gerentes de unidades de alojamento e restauração, empregados de mesa, de bar e de quartos;

- ir encontrando formas e soluções que sintonizem uma boa gestão dos recursos ambientais com as necessidades pressionantes das comunidades.


3. Inauguração da Televisão Comunitária Massar

Depois do grande impacte conseguido com as rádios comunitárias que vieram revolucionar o panorama da comunicação social guineense, a implantação das televisões comunitárias em Quelélé, S.Domingos e em Novembro de 2007 em Iemberém, é um marco notável da vida da nossa ONG.

A Televisão Comunitária de Cantanhez, TVMassar, que na língua nalú quer dizer TV Estrela, representa um passo significativo em frente em relação às duas anteriores, a TVKlélé e a TVBagunda, uma vez que as suas emissões se processam através de ondas hertzianas, na frequência de 210 mhz da banda ii.

Tem como objectivo a emissão de programas de agricultura, telescola, formação profissional, alfabetização, cultura tradicional, história, ambiente e ecoturismo, promovendo o acesso directo da população a um orgão de comunicação, resgatando valores culturais das diferentes etnias, permitindo o conhecimento de informações e programas relevantes de desenvolvimento local, enfim contribuindo para o assumir de uma cidadania efectiva e consequente por parte da população e das organizações locais. Através dela serão difundidos programas de formação de jovens poceiros, técnicos de energia solar, carpinteiros, pedreiros e outras profissões o que permitirá reduzir o êxodo rural que está a desertificar o interior do país, assim como promover a conservação da natural do Parque Nacional de Cantanhez.

Pensa-se igualmente utilizar esta televisão para a reciclagem dos professores das escolas oficiais e comunitárias nos domínios da matemática e do português, disciplinas identificadas como as de maior necessidade.

Pararlelamente, a divulgação de programas agrícolas com vista à melhoria das técnicas de cultura das principais produções (fruteiras, legumes, raízes, tubérculos e leguminosas), da sua protecção vegetal natural, do uso de fertilizantes orgânicos, da introdução de novas espécies de interesse económico e nutritivo e de técnicas de conservação e transformação em compotas, farinhas, óleos, etc. será um dos desafios desta televisão. A TV Massar enquanto televisão sem fins lucrativos, de promoção da cultura local e do desenvolvimento, gerida por jovens da comunidade, é uma iniciativa pioneira no continente africano, o que representa para todos quantos se abalançaram nesta inovação uma responsabilidade que ultrapassa a sua área de cobertura para se situar a um nível nacional e africano.

Numa fase inicial as suas emissões duram cerca de 2 horas diárias, com um único programa por semana que será repetido nos restantes dias da semana. À medida que forem surgindo nas diferentes tabancas do sector, mais recursos humanos capacitados, o número de programas semanais irá aumentando.

Prevê-se a redifusão em directo do Telejornal das 21horas da Televisão Nacional da Guiné-Bissau para permitir a toda a população ter acesso às notícias de âmbito nacional e internacional.

A TV Massar funciona com um Comité de Gestão constituído por 10 representantes da comunidade, sendo os 4 régulos, 4 das associações locais mais activas e 2 das ONG que, intervindo nesta zona, se mostrem interessadas e activas no funcionamento deste meio de comunicação. Este Comité escolhe uma Direcção Técnica de 4 elementos. A construção das suas instalações foi protagonizada pela associação AJAI, a qual mobilizou mão-de-obra da comunidade local, fabrico de adobes e colecta de inertes.
A formação dos quadros e técnicos da TV Massar, todos eles filhos de Cantanhez, contribui para fazer cair uma ideia antiga de que a produção de programas e o funcionamento de uma televisão só podia ser obra de especialistas e requeria verbas avultadas. Afinal, esta tecnologia moderna está ao alcance das comunidades e pode representar um poderoso instrumento para a sua afirmação local e nacional.
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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 7 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3118: Ser solidário (14): ONG AD: Relatório de actividades de 2007 - Parte I: A segurança alimentar

Guiné 63/74 - P3120: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (41): Um mês nos Nhabijões

Operação Macaréu à vista

Episódio XLI

UM MÊS NOS NHABIJÕES

Beja Santos

O BCaç 2852 parte, o BArt 2917 chega


A primeira semana de Junho é vivida na efervescência da sobreposição. Entre os dias 29 e 31 de Maio, presencio os preparativos e a organização azafamada de sacos, malas e pacotes de quem junta os trastes, os identifica com letra garrafais, vão todos seguir em embarcações que rumam do Xime para Bissau e daqui seguirão para o porto de Lisboa. São dias em que se misturam centenas e centenas de baús e outros haveres com os de quem acaba de chegar. Os novos militares vêm vestidos com fardamento a cheirar a goma, é o aprumo de quem chega ao teatro da guerra e não aceita displicências, a roupa vem vincada. Os que chegam vêm sorridentes mas retraídos, os que querem partir estão exuberantes, falam ainda mais alto, querem entregar tudo, ter os documentos da transição assinados, era o que faltava partir hoje e num amanhã não longínquo ser molestado porque se extraviou uma tesoura corta-arame, um capacete ou um lençol, nos intermináveis materiais à carga. É um período com muito pouca guerra, houve umas minas detectadas e que felizmente não fizeram vítimas, até as tabancas em auto-defesa foram poupadas. A CCaç 12 e o Pel Caç Nat 52 estão informados de que se conta com eles para a iniciação do novo batalhão: emboscadas, patrulhas, segurança ao transporte de vacas, colunas de reabastecimento ao Xitole e Saltinho, são estas as forças de intervenção que irão trabalhar conjuntamente com as forças do BArt 2917, reconhecendo as imediações dos três importantes aquartelamentos do Xime, Mansambo e Xitole. Com esta cooperação, novas amizades.

Prestes a findar a sua presença em Bambadinca, sou chamado ao comando e recebo instruções do major Herberto Sampaio: "Pá, temos informações feias sobre os Nhabijões, Mero e Santa Helena e até sobre Fá. A malta de Madina e do Buruntoni vai querer intimidar, aliás como já se viu com raptos e canhoadas sobre os Nhabijões, vão querer atacar Fá e os Comandos africanos. O reordenamento dos Nhabijões depende do comando-chefe que pressiona para tudo estar pronto o mais breve possível. Temos lá a engenharia, o trabalho não pode parar e não pode haver medo, temos que impedir as intimidações. Parta para lá imediatamente, vai em piquete durante todo o mês, vigia os movimentos de quem chega, patrulha as zonas de cambança, com as milícias de Amedalai percorre todos os dias a antiga tabanca de Samba Silate. Estes piquetes não podem prejudicar a segurança na ponte de Udunduma nem as emboscadas na missão do sono no Bambadincazinho nem as tarefas de apoio às populações em Badora e Cossé. É um tempo de desenrascanço, felizmente que o IN está pouco activo. Aguente-se, são mais dois ou três meses de trabalho que você tem pela frente".

E, nessa tarde, os Unimog seguiram com colchões, mantas, caixas de munições, tudo para um acampamento improvisado no reordenamento dos Nhabijões. À semelhança do que se passava na ponte de Udunduma, um burrinho trazia os tachos de comida da gente arranchada e os potes com a bianda dos caçadores nativos, um deles vinha diariamente tratar da mafé. Foi mais um tempo de nomadização, uma secção ia de manhã ao correio ou buscar os frescos ao Dakota, em Bafatá, outra secção vigiava o trabalho da equipa de engenharia e dos civis, a outra secção ia buscar doentes a Sansacuta, Candamã ou Afiá. E, quando necessário, seguíamos para o Xitole, para as acções conjuntas com as novas companhias, picava-se até Amedalai. Era a continuação da rotina da guerra, dava-se confiança aos periquitos, estava-se atento à hipótese de dias piores.

O reordenamento dos Nhabijões

Os Nhabijões eram um dos motivos de orgulho dos criadores da política "Por uma Guiné melhor". Samba Silate fora, até ao início da luta armada, uma das mais florescentes tabancas do Leste da Guiné. Com o aparecimento das guerrilhas, as populações dividiram-se, umas partiram para a luta, outras entraram em diáspora em Bambadinca e diferentes regulados. Os seis Nhabijões (Nhabijão Bulobate, Nhabijão Mancanha, Nhabijão Mandinga, Nhabijão Imbume, Nhabijão Bedinca e Nhabijão Cau) viviam o desarrazoado de todas as fugas e partidas para o exílio, era por aqui que as gentes de Madina e do Buruntoni vinham abastecer-se, intimidar ou conquistar adesões, obter informações, até descansar. O plano do reordenamento era juntar os diferentes Nhabijões, tornar mais difícil o aliciamento pelo PAIGC, oferecer às populações alguns equipamentos sociais, enfim, permitir o cultivo tranquilo da fecunda bolanha que circunda de Samba Silate até Bambadinca. Extintas as antigas tabancas, escolhera-se uma posição estratégica junto de Samba Silate, com uma impressionante panorâmica sobre o Geba.

Era um empreendimento de vulto, havia um plano com os desenhos das casas, arruamentos, mesquita, escola, fontanários, tudo estava a ser desmatado à volta, as casas familiares assentavam em quatro pilares de cibe, as paredes eram feitas com blocos de adobe, fazia-se uma trama com rachas de cibe mais finas para o telhado, onde se pregavam chapas de zinco. Tudo cheirava permanentemente a fresco: o fresco do adobe em blocos, as reluzentes chapas, os pregos, até as caixas em madeira em que se preparavam os blocos. A todo o momento chegavam os camiões dos fornecedores, ouvia-se o ruído ensurdecedor dos caterpillar D7 e de algumas máquinas de rodas. A engenharia esteva sempre presente, respondia por todo o traçado da obra, eram eles quem marcavam os eixos do ordenamento, a qualquer momento chegava um dos majores responsáveis (creio que eram os majores Matos Guerra e Carlos Azeredo) que supervisavam, intimidavam, davam sinais de satisfação. Nós cirandávamos, mas, para dizer a verdade, totalmente incapazes de reconhecer forasteiros ao reordenamento. Estávamos há dois dias neste piquete quando num patrulhamento junto à bolanha de Samba Silate, em frente a São Belchior, encontrámos três canoas novinhas em folha enterradas nas lamas do tarrafe.

Sem lembrança do sucedido, pedi a Cherno Suane que me avivasse a memória. Marcou-me encontro na Pérola de São Paulo, no coração do Cais do Sodré.

Os acasos da fortuna na Pérola de São Paulo

Ainda há pessoas a almoçar no espaço das refeições ligeiras, quando me sento a uma mesa a beber uma bica, na companhia de Cherno. Primeira surpresa: Cherno extrai de um bolso do casaco uma folha larga onde arrumou os nomes de todos os militares do Pel Caç Nat 52 de acordo com o seu "chão" de origem. Leio: formação em Bolama, oito meses, chegou o Henrique Matos Francisco, o primeiro alferes, tudo em 1966. Seguem para Porto Gole, está-se no aceso da guerra em frente ao Morés, há emboscadas, flagelações, destruições, a estrada de Porto Gole para o Jugudul fica praticamente interdita. De Porto Gole vai-se para o Enxalé, colabora-se com uma companhia madeirense, Cherno escreveu: "Zagalo era o nosso herói". Missirá é praticamente riscada do mapa, o Pel Caç Nat 52 substitui o Pel Caç Nat 54, a estrada entre Enxalé e Missirá aos poucos vai abandonada. A folha de Cherno traz nomes de furriéis, cabos, soldados, nome de mortos e feridos, e até evacuados. Comove-me este cuidado do Cherno ao estabelecer os dados da sua memória. Lá o consegui apanhar em falta com dois ou três nomes omitidos, ele respondeu-me com o seu sorriso doce: "desculpa".

Quando o Cherno regressou da Guiné, há escassos meses, depois de cerca de 2 anos de ausência, pedi-lhe ajuda por razões fundamentadas. Ele acompanhou-me de perto durante toda a comissão, assumiu ser guarda-costas a tempo inteiro, ouviu conversas, viu a guerra ao meu lado, comunicava-me quem queria falar comigo, era a minha agenda ambulante. Quando me entregou esta folha no café «A Pérola de S.Paulo», no centro da má fama do Cais do Sodré, senti uma irrepremível onda de ternura pelo mais indefectível dos amigos: sabe-se lá com sacrifício ele garatujou as suas recordações, alinhou a tropa por «chão» de nascimento, procurou não se esquecer de ninguém, balbuciou quando lhe disse que o morto era Sadjo Baldé e não Sadjo Seidi, este um rabujento que uma vez até quis andar à porrada comigo... Era inevitável que eu passasse esta prova de muita estima para todos os camaradas da Guiné. Tive a felicidade de fazer amizades inquebrantáveis, assim dá gosto viver. (BS)

Falávamos em voz alta dos Nhabijões, de Chicri, de Mato de Cão, de Malandim e até de Finete. Estou a tomar nota das recordações daquele patrulhamento em que detectámos e destruímos três canoas das cambanças de Madina, quando fomos interpelados.

- Desculpem, estão a falar de Enxalé, Nhabijões e Mato de Cão. Não é possível haver mais coincidência, são nomes de locais da Guiné onde combati entre 1971 e 1973. Vocês estiveram lá nessa altura? É que não me lembro de vos ter visto.

É um homem magro, de estatura média, cabelo esbranquiçado, olhos atentos, perscrutadores. Tem modos calmos mas revela assombro pelo que ouviu, curiosidade sincera pelo que quer saber. Apresento-nos, conto-lhe o que estamos a fazer, ele entusiasma-se e fala da sua comissão.

- Fui alferes da CCaç 12, comandei o 4º pelotão, substitui o Rodrigues que já faleceu. Quando vos comecei a ouvir a curiosidade dominou-me, era coincidência a mais, vocês falavam como veteranos da guerra. Fomos nós que fizemos o destacamento de Mato de Cão, íamos ao Enxalé, fizemos todas essas colunas e patrulhamentos que referiram. Só não fui a Missirá.

À nossa volta pararam as conversas, é inusitado uma conversa destas, gente que combateu há cerca de quarenta anos, juntos por feliz acaso. A conversa prossegue, calorosa, e recebo um cartão-de-visita no termo destas recordações, ele tem de partir e eu estou impaciente por registar as recordações de Cherno. Ele chama-se Jaime Pereira, é engenheiro e trabalha numa empresa de nome histórico, ali na Av. 24 de Julho.

Aquelas três canoas, lembrava-se Cherno, não enganavam ninguém, a época das chuvas não podia encobrir os sinais de passagem de quem atravessava a extensa bolanha por carreiros que discretamente se elevavam naqueles antigos arrozais férteis, era madeira nova, notava-se ainda o talhe das ferramentas. Foram destruídas à bala, mas antes pediu-se a presença de dois chefes de tabanca, que garantiram peremptoriamente nada saber, muito provavelmente, justificaram, era gente que vinha de Madina e ia em direcção da foz do Corubal… Nessa altura, eu ainda engolia estas explicações e não havia reacção possível. Era a força do sangue dos povos divididos que eu desconhecia.

Partem amigos muito queridos, tenho leituras anglo-saxónicas

Transportamos em coluna o primeiro contingente do BCaç 2852 até ao Xime. Vão ali o tenente Pinheiro, o alferes Reis, uma parte importante dos pelotões de morteiros, sapadores, básicos, cozinheiros. O Vacas de Carvalho segue à frente com uma Daimler, grita para o primeiro Unimog onde vai o tenente Pinheiro, assusta-o com os locais de possíveis emboscadas. Na véspera, agradeci-lhes todas as ajudas recebidas, o Reis ainda tentou uma questiúncula, não lhe dei troco. Dentro de dias, haverá coluna semelhante para o resto do batalhão.

Escrevi um poema falhado, "25º Aniversário". Citei Apollinaire, o poeta combatente das trincheiras, autor de «Caligramas»: "L'amour a remué ma vie comme on remue la terre / dans la zone des armées. / J'atteignais l'âge mûr quand la guerre arriva / Les mois ne sont pas longs ni le jours ni les nuits / C'est la guerre qui est longue / Je salue la chemise rouge".

Falo na "abicagem da galáxia numa cabana", em "palmeira ao desbarato" e também em "ano versado, na parede brota o palavrão: guerra. / amor mudado, altar, elegia. / uma mulher chegou, reconheceu". Definitivamente, poesia mais frustre não há. Condicionado pelo tempo (tenho que devolver o livro com urgência a D. Violete), leio e tiro notas do assombroso relatório do administrador da circunscrição de Geba, Vasco Calvet Magalhães. A ver se para a semana tenho o trabalho completo, depois dou-vos conta do entusiasmo que ele imprime às descrições, os registos ingénuos sobre os povos que habitam o Geba, as lutas, a religião, a língua e a cultura. O que pasma é a autenticidade e a informalidade, ele é cáustico com a corrupção e com a exploração dos indígenas, com a impreparação dos funcionários. Nunca li nada até agora tão verosímil, com tanta vontade de informar mesmo com míngua de informações, ingenuidade e omissões culturais.

Li "O Homem que era Quinta-Feira", de Chesterton, de quem só conhecia os ensaios de carácter religioso. É apresentado como uma obra de humor, mas a classificação parece-me errada. É um mundo às avessas, um grupo de anarquistas que afinal não o são, a bondade subitamente transforma-se em maldade, o que parece ser caos logo é apresentado como harmonia, os anarquistas são polícias e até filósofos, o temível chefe dos anarquistas, Domingo, tido como um tipo feroz, um carniceiro, afinal vive obcecado com o sofrimento dos outros. É uma paródia moralista em que o leitor é convidado a reflectir sobre a transitoriedade dos conceitos e os juízos apressados que fazemos dos outros.

Tradução de Domingos Arouca, capa de Tóssan, Portugal Editora, 1960, Biblioteca dos Humuristas. Chesterton adorava o mundo às avessas, cheio de desconcertos, de verdades que se tornavam imediatamente mentira, de saltos bruscos que alteravam profundamente a estabilidade do leitor e sua confiança no escritor. Lucian Gregory apresenta-se como revolucionário e anarquista. Aliás para ele um anarquista é um artista. O seu amigo Syme mostra-se profundamente céptico mas acaba por entrar na direcção do temível grupo anarquista, como Quinta-Feira em que o chefe é Domingo. Os criminosos são polícias, os anarquistas são bondosos, o mundo está longe de ser mau, entre no plano de Deus. Esta obra-prima de Chesterton não é uma paródia, é uma fábula, a vida é tensão, é este axaltante concílio dos dias, é esta constante descida aos infernos, onde somos livres da redenção ou da ignomínia. (BS)

Também não foi fácil nem muito estimulante a leitura de "O Insuspeito" de Charlotte Armstrong, uma conceituada escritora policial norte-americana. Ela parte de uma ideia poderosa, um caçador de fortunas, homem de prestígio cultural, acima de qualquer suspeita, educa meninas casadoiras que fazem testamento a seu favor. Há estranhas mortes, o noivo de uma das vítimas investiga e descobre o plano maquiavélico. Aí a obra perde o nervo, o suspense anda à deriva, o desfecho é fantasioso, a arquitectura da obra desigual. Paciência, não se pode acertar sempre, há decepções em todos os géneros literários.

N.º 66 da Colecção Vampiro, tradução de Elisa Lopes Ribeiro e capa de Cândido Costa Pinto. Charlotte Armstrong parte de uma ideia brilhante mas deu-lhe um desenvolvimento tosco. Um caçador de fortunas, disfarçado de mestre e pai espiritual de ricas casadouras, desfaz-se das suas vítimas depois destas terem feito testamento a seu favor. O noivo de uma das vítimas introduz-se neste círculo restrito e descobre as maningâncias do insuspeito. Quando tudo parece perdido para a denúncia do miserável, o insuspeito consegue o seu sequestro. É uma das futuras vítimas que encontra o local do sequestro e o monstro acaba por morrer. Bem escrito mas com pouco nervo, com muitos altos e baixos no suspense. (BS)

Mesmo no Pel Caç Nat 52 partem e chegam soldados. Gosto da personalidade do novo comandante, Domingues Magalhães Filipe. A rotina prossegue, passei a dar aulas, fazemos colunas ao Xitole, Mamadu Soncó, um dos filhos de Quebá, pede-me para vir comigo para Lisboa, irrompeu brutalmente a época das chuvas. Tenho consciência que é um tempo de transição, faço de estafeta, de polícia, inclusive andámos a varrer à vassoura a missão do sono no Bambadincazinho. É um tempo bom para leituras, vou escrever à família e aos amigos, agarro-me à ideia de recomeçar os meus estudos muito em breve. Discretamente, o meu espírito começa a partir para Lisboa.´

Fotos (e legendas): © Beja Santos (2008). Direitos reservados.
Texto do
Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1), enviado em 2 de Maio de 2008
___________

Nota de CV

(1) - Vd. poste de 24 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3091: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (40): Operação Beringela Doce: Da cabeça não me sai aquela mulher morta...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Guiné 63/74 - P3119: Os nossos Seres, Saberes e Lazeres (4): Ornitologia (Mário Fitas)

1. Como nos prometeu numa das suas mensagens àcerca da nossa nova série Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (1), o nosso camarada Mário Fitas mandou imensas fotos dos seus passarinhos.
Com sua autorização, escolhi as que se seguem e que ilustram mais uma das actividades deste nosso multifacetado amigo.

Lembremos parte da sua mensagem

Caro Luís,

Vi a ideia lançada no blogue sobre aquilo que nos vai distraindo o tempo. Para além da fraca escrita, fui fazendo outras coisas que, para ti e alguns tertulianos, possivelmente será uma surpresa, e que passo a relatar:

Ornitologia:
Fui membro da direcção e posteriormente Presidente da Mesa da Assembleia da Associação dos Avicultores de Portugal.

Quando por motivos de saúde, tive de abandonar as minhas lindas e adoráveis aves, tinha em casa mais de oito centenas de aves. Dedicado essencialmente à criação de Agapornis (nome científico) mais conhecidos por love birds, fui campeão em diversos campeonatos e exposições.

Na primeira oportunidade enviarei fotos dos meus campeões. Que andaram pela África do Sul, Bélgica, etc.
(...)


Foto 1 > Agapornis Personata Cobalto

Foto 2 > Agapornis Personata Verde (Cor da ave em estado selvagem)

Foto 3 > Pardais de Java e Bourques em voadouro (Diversas mutações)

Foto 4 > Massorongo (Domesticado)

Foto 5 > Agapornis (Bateria de gaiolas com casais diversos em criação)

Foto 6 > Agapornis Fishers (Amarelos)

Foto 7 > Agapornis Nigrigenes

Foto 8 > Aves premiadas (Bélgica, Campeonato BVA)

Foto 9 > Diamantes Gold (Colónia de jovens)

Foto 10 > Ave premiada

Foto 11 > Papagaios


Foto 12 > Diamante Gold

Fotos e legendas © Mário Fitas (2008). Direitos reservados.

Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Esp da CCaç 763, Cufar, 1965/66

_________________

Nota de CV

(1) - Vd poste de 27 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3096: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (2): Pirogravuras, de Mário Fitas

Guiné 63/74 - P3118: Ser solidário (14): ONG AD: Relatório de actividades de 2007 - Parte I: A segurança alimentar

Guiné-Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 20 de Julho de 2008

Desde o dia 1 de Junho, a Rádio Comunitária Balafon tem melhores instalações. Fruto do impacto anterior das suas emissões para toda a zona compreendida entre Sedengal, Barro e Bigene, os jovens da comunidade de Ingoré meteram mãos à obra e construíram um edifício novo, abandonando as exíguas instalações cedidas temporariamente pela União dos Pequenos Agricultores de Ingoré.

Para além de ser uma fonte de informação de notícias locais e regionais, esta Rádio contribui decisivamente para a participação cívica e activa das organizações de agricultores, jovens e mulheres, tornando-as mais capazes para abordar as eleições legislativas que se realizarão em Novembro próximo.

O radialista Djalam Mané entrevista Maimuna Djaló, presidente da Associação das Mulheres “Nô Djunta Cabeça”, acerca das iniciativas que esta organização está a pensar levar a cabo para aumentar a produção de culturas alimentares.

Guiné-Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 13 de Julho de 2008

Os participantes no Simpósio Internacional de Guiledje visitam a TVMassar, a primeira televisão comunitária da Guiné-Bissau a emitir por ondas hertzianas, cobrindo um raio de 20 Km à volta de Iemberém.

Isabel Buscardini, Ministra dos Combatentes da Liberdade da Pátria da Guiné-Bissau, e Diana Andringa, jornalista portuguesa, recebem de Amarildo, Director da TV, explicações sobre a sua organização e funcionamento.

Com base numa equipa voluntária de jovens nascidos em Cantanhez, esta TV produz programas de informação, culturais, ambientais e de saúde que têm vindo a constituir uma referência para toda a população do sul do país.


Fotos e legendas: Cortesia de: © AD- Acção para o Desenvolvimento
(2008). Direitos reservados.




1. Damos início à publicação do relatório de actividades de 2007, da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, com quem mantemos desde finais de 2005 uma relação, franca, aberta, privilegiada, de cooperação, tendo como pretexto inicial o Projecto Guileje que deu origem, entre outras iniciativas que tiveram o nosso apoio, à realização do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1 a 7 de Março de 2008), e que abriu portas a outras iniciativas mais recentes, como por exemplo a recolha de sementes.

Ao nível das individualidades temos sido tratados - de maneira generosa, convenhamos - como parceiros da AD. Sobre o nosso blogue, diz o seguinte o relatório de 2007 desta ONG guineense:

" [O] Blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné [...] tem trazido para o seio da AD muitos camaradas que, para além de se interessarem pela recuperação da memória histórica antes da independência, se propõem colaborar com as iniciativas de hoje. O seu envolvimento na promoção do Simpósio de Guiledje é decisivo para o seu êxito".

A publicação desta relatório não é uma mera cortesia nem um simples troca de galhardetes. A sua leitura vai-nos permitir aprofundar o nosso conhecimento dos problemas actuais da Guiné-Bissau, nomeadamente no campo económico, social e cultural. Ao mesmo tempo, ficamos melhor informados sobre (e, portanto, a poder conhecer e a valorizar) o notável trabalho que, com fundos comunitários, portugueses e outros, os nossos amigos da AD estão a fazer com as populações das suas principais zonas de intervenção, duas rurais (S. Domingos - Bigene, no norte; Cubacuré- Quitafine, no sul) e uma urbana (Bissau - Bairro do Quelele).

Dá-nos algum conforto saber que, pelo menos, a estas populações - que nós conhecemos no passado ou com quem nos relacionámos mais recentemente - chegam ajudas, conhecimento, tecnologia, modernidade, programas, ideias, dinheiro, solidariedade, esperança...É bom saber que na Guiné-Bissau há gente competentíssima, fantástica, generosa, guineense e estrangeira, a trabalhar com e através dos outros para que a palavra desenvolvimento não seja uma mera figura de retórica... Desenvolvimento, cidadania, direitos humanos, democracia, liberdade, solidariedade, cooperação... enfim, belas palavras que muitas vezes usamos em vão, ou de ânimo leve...

O citado relatório está disponível do sítio da AD, em formato pdf. Tem 24 páginas. Vamos reproduzi-lo em quatro partes, omitindo apenas as fotos. Tomamos a liberdade de inserir outras imagens, do nosso arquivo ou da própria AD. Uma única ressalva: a publicação deste relatório não significa concordância ou discordância de pontos de vista. Muito menos sugere qualquer tipo de ingerência na vida interna da Guiné-Bissau, o que nos é interdito pelas nossas regras éticas e editoriais.

O nosso blogue, enquanto comunidade colectiva virtual, não têm opinião sobre questões da actualidade, seja em Portugal, seja na Guiné-Bissau. O nosso propósito, como editores, é dar informação relevante sobre o que faz a AD, onde, porquê, com quem, como e com que resultados... Individualmente podemos ter as opiniões que acharmos justas e correctas sobre a metodologia de trabalho da AD, a sua filosofia de acção, os seus colaboradores, os seus programas, a sua eficácia e a sua eficiência, etc.

Esperemos que nos cheguem críticas, comentários e sugestões sobre este documento onde, obviamente, há trabalho colectivo mas onde também é notório o pensamento do co-fundador e actual director executivo da AD, o nosso amigo Pepito, o Eng. Agrónomo Carlos Schwarz com quem estarei hoje em São Martinho do Porto. LG


2. AD -Acção para o Desenvolvimento: Relatório de actividades de 2007 > Parte I


Subtítulos, revisão e fixação de texto: L.G.


A. O CONTEXTO POLITICO

O ano de 2007 fica claramente marcado por uma má campanha agrícola,
caracterizada por um começo tardio da época das chuvas e a sua interrupção brusca no final.

Embora todo o país tenha sofrido as consequências desta situação, ela foi
muito marcante na zona litoral norte e ao longo de toda a linha da fronteira com o Senegal, nos sectores de S. Domingos e Bigene, onde por norma a queda pluviométrica é mais reduzida. Na pene-planície de Varela, as bolanhas entre Sucudjaque e Djufunco viram as suas produções de arroz drasticamente reduzidas e em muitas situações as colheitas foram nulas.


(i) O espectro da fome e a questão da segurança alimentar


Como que de imediato, sobreveio a fome e os jovens iniciaram uma migração para os países vizinhos (Senegal e Gâmbia) e Bissau. A fome, ou se quisermos ser mais precisos o forte défice alimentar que daí resultou, veio trazer à ordem do dia a discussão sobre o contexto político global da segurança alimentar na Guiné-Bissau e a nível internacional.

Em meados dos anos 80, o Banco Mundial (BM) e o FMI, impuseram ao nosso país o chamado ajustamento estrutural e a liberalização económica selvagem: manda o mercado, dono e senhor do crescimento, que tudo regula e tudo dirige. Para quê pensar no aumento da produção de arroz e outras culturas alimentares na Guiné-Bissau, se é preferível apostar na exportação de castanha de caju e com a receita comprar arroz muito mais barato que o produzido localmente. Diziam eles, sem nunca o provarem.

Os técnicos e quadros que então discordaram e se opuseram, foram rapidamente apelidados de “profetas da catástrofe” pelos compadrios internos destas politicas. Nada como a memória para os mais esquecidos, pabia di amanhã. A Guiné-Bissau virou de repente um cajual à beira mar plantado e o caju entrou na máxima força nos sistemas familiares de segurança alimentar.

Ao mesmo tempo que a área ocupada com caju ia crescendo exponencialmente, as superfícies dedicadas às culturas alimentares iam diminuindo. Qualquer agricultor prefere substituir uma cultura que lhe exige muito maior esforço físico e cujas produções estão dependentes de factores incontroláveis como as chuvas e as pragas, por um pomar em que os próprios frutos nem sequer necessitam de ser colhidos nas árvores, bastando enviar as crianças fazer a recolha no chão. É bom enquanto dá, mas quando o preço vem por aí abaixo é impossível transformar o caju em bianda.

Quando a política comercial é liberal, arriscamo-nos a colocar em concorrência os nossos produtos agrícolas a preços reais com os que vêm do exterior, devidamente subvencionados e a medir forças com quem tem capacidade de fazer dumping para conquistar mercados. Por isso não é de estranhar ver-se a maçã Golden a ser vendida habitualmente na jangada de São Vicente, ou a importar-se farinha de trigo, quando com a farinha de mandioca se pode fazer igualmente pão.

Será que, com este tipo de incentivos, os nossos fruticultores e agricultores se sentirão encorajados a produzir mais? É preciso que os nossos decisores procurem conhecer mais a micro-economia, compreender a vitalidade e dinamismo do sector informal, acompanhar mais de perto as preocupações sociais daqueles que podem garantir a segurança alimentar e não se esquecerem que a fome está na origem de muitas convulsões sociais representando uma autêntica arma de destruição massiva.

Hoje assiste-se à emigração descontrolada daqueles que são as principais vítimas das decisões e escolhas macroeconómicas e de um desajustamento estrutural: os jovens. Com o futuro comprometido, sem esperança e a viverem no limiar da fome, refugiam-se na miragem idílica de uma Europa acolhedora, progressista onde poderão ter uma vida digna e condigna. Emigram por necessidade e não porque sejam criminosos ou delinquentes. Se o fazem de forma “ilegal” é porque a História lhes ensina que, antes deles, muitos outros povos europeus emigraram da mesma forma para os Estados Unidos da América, para a Venezuela, para a África e até mesmo para França. Para não falar dos tempos da pirataria dos recursos naturais e da escravatura, em que a Europa chegava a África igualmente de forma “ilegal”, dizendo vir “dar novos mundos ao mundo” e “evangelizar e civilizar os indígenas”.

O que ontem pelos vistos era legal, hoje deixou de o ser...


(ii) O futuro da economia da Guiné-Bissau: Oportunidades e ameaças


Ironia suprema, é ver a forma rápida e prestimosa com que alguns se prestam a fazer serviços de repressão aos “clandestinos”, a troco de campos fortificados em Varela e doações financeiras de vergonha, recusando seguir a posição do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika quando afirma: “recusamos construir estes campos porque nunca seremos os estranguladores dos nossos irmãos”.

Mais grave ainda é quando alguns membros da sociedade civil embarcam nestes combates que não são nossos e denunciam a localização dos refugiados, apelando às autoridades policiais para a sua prisão e deportação. Reprimem-se os emigrantes e não os que transformaram a emigração num negócio em que as vítimas são exploradas duas vezes.

Infelizmente, tudo parece conjugar-se para que em 2008 a Guiné-Bissau assista a uma tensão social de origem alimentar, vitima das opções globais de certas multinacionais que fazem da fome negócio e dos seus próprios erros e opções internas.

Os factores internos que estão na sua origem, prendem-se com aspectos de ordem climática, atrás referidos, em particular a diminuição da precipitação nos últimos 30 anos e o muito mau ano orizícola de 2007, de origem económica com a omnipresença do caju como cultura de substituição do arroz e a queda do seu preço a nível internacional, de ordem social com o êxodo rápido dos jovens do campo para a cidade, a deterioração drástica do poder de compra as famílias, a desintegração de núcleos familiares e a redução da solidariedade nos centros urbanos.

A estes devem-se acrescentar os de ordem urbanística, em especial a rápida diminuição dos campos agrícolas e hortícolas na cintura de Bissau, para darem lugar à construção massiva de alojamentos, os de ordem agronómica com o desaparecimento de boas variedades saídas da pesquisa agrícola e do desaparecimento das redes de agricultores produtores de sementes e, finalmente, de ordem política com a falta de uma visão estratégica clara para a segurança alimentar, que vá para além da repetição de banalidades e lugares comuns por parte dos decisores.

Já em termos de factores externos, há a considerar que para certas multinacionais do ramo especializadas na venda de agroquímicos e sementes de transgénicos, a fome tornou-se um negócio muito lucrativo, ao qual se associam comerciantes que vivem da especulação dos mercados.

É preocupante ver organizações internacionais como as Nações Unidas, BM e FMI desenterrar velhas políticas como a Revolução Verde, de tão má memória para os pequenos agricultores africanos, e apostar numa “nova agricultura ao serviço do desenvolvimento”, em que os pequenos agricultores devem modernizar-se utilizando novas tecnologias para se integrarem no mercado internacional liberalizado, sob pena de se excluírem da actividade agrícola e serem obrigados a orientarem-se para empregos não-agrícolas ou emigrarem para os centros urbanos.

Persiste-se em medidas economicistas em vez de se propor uma visão da questão mais social, cultural e ambiental, preparando-se a nova moda dos “planos de acção” que nos irão submergir a todos, em vez de se afinarem e concertarem as políticas dos diferentes actores, públicos, comunitários e privados.

Na moda estarão agriculturas baseadas em produções de elevado valor acrescentado, em que já se fazem anunciar o uso de alimentos para biocombustível, um autêntico paradoxo no nosso país, isto para não considerar um verdadeiro crime contra a humanidade. Mais uma vez os nossos países a resolver as preocupações da alta de preços de energia nos mercados do norte.

Seria interessante analisar em que áreas e sectores, organizações como o PNUD, o BM e o FMI investiram nos últimos 20 anos na Guiné-Bissau e quais os resultados obtidos. Verificou-se um brutal desinvestimento na agricultura com a produção alimentar a ser inserida numa lógica de mercado, a desvalorização do papel fundamental das pequenas unidades familiares agrícolas na segurança alimentar e o abandono total dos programas de pesquisa agrícola, base da inovação e avanço da agricultura alimentar.

A todos estes desafios, impõe-se que a nível nacional se procure uma resposta baseada numa agenda própria que não seja subserviente às políticas dos grandes doadores internacionais, aproveitando-se este momento para se proceder a uma reflexão interna e revisão de políticas, não nos esquecendo que se o colonialismo durou 500 anos foi porque contou com conivências e beneficiários internos, tudo indicando que com a fome, assim voltará a ser enquanto os recursos naturais (petróleo, fosfatos e bauxite) só servirem interesses individuais.

(Continua)