sábado, 26 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21393: Os nossos seres, saberes e lazeres (412): No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (8) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2020:

Queridos amigos,
Impunha-se uma visita cuidada ao Centro Interpretativo do Barroco, em Arcos de Valdevez. A Igreja do Espírito Santo foi muito bem escolhida, marca perfeitamente todo o espírito da Contra-Reforma, severidade e austeridade por fora, pompa e esplendor no interior. Somos riquíssimos em Barroco e Rococó.
A Europália Portugal, em 1991, foi um grande sucesso. Lembro-me das filas enormes à porta do Museu Real de Belas-Artes, em Bruxelas, para visitar a exposição O Triunfo do Barroco. Houve também outras exposições de estrondo, somos detentores de um património que a generalidade dos laboratórios universitários já tinham deitado fora, os instrumentos científicos do século XVIII, e as exposições de Arte Oriental e Africana foram altamente representativas, mas nada se comparou ao Barroco, à magnificência da arte religiosa e às carruagens da Embaixada que o rei D. João V enviou a Roma. Pois o Alto Minho também possui um património incomparável, como aqui se exemplifica.
E regressou-se a Ponte de Lima, desta feita a visita foi à Casa de Nossa Senhora d'Aurora, um portento património e com jardim assombroso, como também aqui se mostra.

Um abraço do
Mário


No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (8)

Mário Beja Santos

Numa frase curta, numa síntese regada de sinuosidades e pontos divergentes, ir-se-á com o Barroco (na pintura, na escultura, na talha, na arquitetura e nas artes decorativas), foi um estilo que se instituiu depois do Renascimento e das modalidades do maneirismo, irá prolongar-se até ao século XVIII, e as suas linhas exuberantes ganharão um novo alento com um estilo denominado Rococó. É um período artístico de cerca de dois séculos que terá nomes de autores que ainda hoje são dominantes na cultura portuguesa de obras fundamentais no nosso património. Basta referir Josefa d’Óbidos, a Igreja da Madre de Deus, a Igreja de Santo António (Lagos), a escultura de Machado de Castro, o Convento de Mafra… E quando chegamos ao século XVIII, a região minhota dá cartas valiosas, Braga, Viana do Castelo e vários pontos do Alto Minho. E assim chegamos a esta paragem com enormíssimo interesse, a Rota do Barroco parte de Arcos de Valdevez e que agora se estende ao Alto Minho. E assim entro no Centro Interpretativo do Barroco, sediado na Igreja do Espírito Santo, em Arcos de Valdevez.

Arcos de Valdevez é porta de entrada deste roteiro do Barroco no Alto Minho, e não é por acaso, possui elementos notáveis do Barroco e do Rococó, sobretudo na vertente religiosa. A Igreja do Espírito Santo acolhe o Centro Interpretativo do Barroco, houve para ali um investimento municipal de cerca de um milhão de euros, supõe-se mesmo que esta viagem pode ultrapassar a área geográfica dos dez concelhos do Alto Minho, uma vez que a arte barroca da região está presente na Galiza e em Minas Gerais, no Brasil. O roteiro alicia para visitas do maior interesse, caso do Convento de Mosteiró, em Valença, a Capela das Malheiras, em Viana do Castelo, bem como a Capela da Boa Morte, na Correlhã, em Ponte de Lima, e o Santuário da Peneda, em Arcos de Valdevez. Entra-se na igreja, começa o assombro, estas obras falam mais que um milhão de palavras.



Atenda-se à magnificência do altar, a Confraria do Espírito Santo não se fez rogada e abriu os cordões à bolsa para que esta construção fosse de arromba. Por fora é tudo singelo, em granito, foi utilizado na estrutura principal, nos cunhais, cimalhas e lintéis, o próprio lajeamento que circunda o templo é em granito. A fachada foi reconstruída no século XIX, tem já traços marcadamente neoclássicos. O interior recebe a luz natural por dez janelas naturais, cinco a sul e cinco a norte, seguramente que se pretendeu que toda esta riqueza brilhasse, com toda a pompa, ao contrário do exterior. Veja-se a imagem seguinte.


Não há palavras, parece que todos os comentários não têm o poder de alcançar toda a simbologia que esta arte espelha, nos elementos escultóricos, contempla-se uma joia exaltativa do Espírito Santo e a vista é logo atraída para a sacristia onde somos todos recebidos com uma peça extraordinária alusiva ao Pentecostes, tudo sobre a forma de um altar. Inesquecível.







E regressa-se a Ponte de Lima. Sempre com o intuito de ver para compreender, levei na bagagem uma edição de 1985 das Seleções do Reader’s Digest intitulada Por terras de Portugal, orientada e coordenada por Maria Clara Mendes, doutora em Geografia Humana. Entra-se no casco histórico a caminho da Casa d’Aurora, e toma-se nota do que ela escreveu já sobre o século XVIII: “Nas primeiras décadas deste século ressurgem as casas de burgueses e fidalgos, e no espaço muralhado sobressaem o edifício da Câmara, o Paço dos Marqueses, a Igreja-matriz e os quarteirões definidos pela Calçada dos Artistas, Rua Formosa e Largo de Delfim Guimarães. Nas ruas estreitas entre a Rua do Postigo e a Porta do Souto o casario adensa-se. Os arrabaldes estão já definidos. A actividade industrial foi animada pela fundação de uma fábrica de tecidos de linho e algodão, a Sociedade Económica de Bons Compatriotas Amigos do Bem Público (1779-1786). Mas no fim do século a panorâmica é bem diferente”. Houve demolições, foi o caso da muralha, a atividade mercantil e agrícola levou D. Pedro IV a autorizar a realização das Feiras Novas. Em 1875 foi criado o Banco Agrícola, Comercial e Industrial de Ponte de Lima, e deste período datam a abertura das Alamedas de S. João e de Nossa Senhora da Guia, por ali corre desafogado e calmo o Lima. Mas eu vou em sentido contrário. A visita à Casa d’Aurora, tem o seu quê de peregrinação. Conheci Manuel d’Aurora através do meu saudoso amigo Carlos Miguel de Abreu de Lima de Araújo, foi este querido amigo que me pedia insistentemente para lhe ler as obras do 3.º Conde. Aí vou eu à Rua do Arrabalde N.º 90.



A Sr.ª D. Rosário teve a gentileza de interromper os seus afazeres para me mostrar ao pormenor o interior desta casa senhorial, um deslumbramento de valores, de memórias, até de interseção de culturas. O outro pretexto da visita era o jardim, ele consta do Roteiro das Camélias. É um jardim à francesa, parece datar do tempo em que a casa foi reconstruída entre 1714 e 1730. O bucho é vistoso, o arvoredo variado, irei ver num nicho barroco com fonte Nossa Senhora d’Aurora, no centro do jardim um belo lago e uma imponente araucária.




Ao longo do ano, qualquer visitante tem vegetação à sua espera, mas quanto a flores por aqui pululam rosas, azáleas, dálias e camélias, mas também rododendros e magnólias. As cameleiras são antigas, há para ali uma criptoméria japónica de grande beleza. O folheto da Casa de Nossa Senhora d’Aurora refere algo que não se visitou, os quatro hectares da floresta, onde pontificam carvalhos, castanheiros, pinheiros, cedros e azevinho espontâneo. Pois ficará para a próxima, outra maré, o marinheiro será o mesmo…

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21373: Os nossos seres, saberes e lazeres (411): No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (7) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P21392: Parabéns a você (1872): Amílcar Mendes, ex-1.º Cabo Comando da 38.ª CComandos (Guiné, 1972/74) e António Medina, ex-Fur Mil Art da CART 527 (Guiné, 1963/65)


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Nota do editor

Último poste da série de 23 de Setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21384: Parabéns a você (1871): Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16 (Guiné, 1964/66)

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21391: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte XLIV: Jaime Frederico Mariz Alves Martins, maj grad inf (Oeiras, 1936 - Guidaje, 1973)

  






Cor inf ref Morais da Silva


1. Continuação da publicação da série respeitante à biografia (breve) de cada um dos 47 Oficiais, oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar que morreram em combate no período 1961-1975, na guerra do ultramar ou guerra colonial (em África e na Ásia).

Trabalho de pesquisa do cor art ref António Carlos Morais da Silva [, foto atual acima], membro da nossa Tabanca Grande [, tendo sido, no CTIG, instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972 ]

Sobre o major graduado de Infantaria  Jaime Mariz, temos várias referências no nosso blogue.

Guiné 61/74 - P21390: Manuscrito(s) (Luís Graça) (192): Quinta de Candoz: vindimas, a tradição que já não é o que era... (Augusto Pinto Soares) - II (e última) Parte











 









Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Vindimas > 18 e 19 de setembro de 2020  > Foto galeria


Fotos (e legenda) : © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].

 




 

 Vídeo (2' 45''): You Tube > Luís Graça (2020)


 


 

 1. Segunda (e última) parte do texto sobre as vindimas, originalmente publicado no blogue A Nossa Quinta de Candoz, em 30 de outubro de 2005. (*)





por Augusto Pinto Soares (Gusto)

(Continuação)

II. A vindima é agora, nos tempos que correm, um ritual mais técnico, sem o sabor bucólico e festivo doutros tempos, sem o mesmo esforço, a mesma "freima". (*)


A marcação da vindima é já feita em função do grau de maturação das uvas, da disponibilidade do pessoal da casa (poucos chegam) aos fins-de-semana. Já não há festa – também já não há os convidados citadinos para assistir e tudo se processa de uma forma mais racional.

Porque as videiras estão armadas em bardos baixos – portanto mais expostas ao sol –, porque as operações da poda verde (espoldra ou desladroamento, desponta, desparra ou desfolha) permitem uma melhor exposição dos cachos de uvas, a colheita é mais fácil e célere. Rapidamente os cestos (agora de plástico) ficam cheios e o seu transporte para a adega é de imediato feito através do tractor.

Agora – os tempos são outros! – a plantação é de videiras de uvas brancas originando vinho branco de bica aberta. O verde tinto é mais complicado de trabalhar, mais complexo, mais demorado e com menos aceitação e saída, a não ser localmente.

Na adega as uvas são imediatamente esmagadas com a desengaçadora, jorrando o mosto assim obtido para uma dorna e de imediato para as cubas de aço, onde é  feita a sulfitação apropriada, aí repousará até à sua defecação nas próximas 24 a 48 horas para depois iniciar a sua fermentação.

 A prensagem, um pouco mais demorada, pois a prensa hidráulica – que até uma criança pode facilmente accionar – precisa de algum tempo para esmagar o mais possível o cangaço. Contudo ao fim de algumas horas – ao início da manhã seguinte – já estará pronta para ou levar mais uma carga ou ser limpa.

Os repastos (pequeno almoço, almoço, jantar e merendas) são mais triviais, mais avantajados. Já incluem sobremesa, café e digestivos.

O mosto já está nas cubas à espera de um novo ciclo – agora o ciclo do vinho – as alfaias estão limpas e arrumadas, os cestos já estão lavados.

Terminou a vindima! O ciclo da videira chegou ao seu fim.

A nossa vida já começa a contemplar muitos ciclos completos da videira.

Amanhã começará outro.

Texto: © Augusto Pinto Soares (2005)

[Revisão / fixação de texto para efeitos de edição neste blogue: LG]

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 24 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21388: Manuscrito(s) (Luís Graça) (191): Quinta de Candoz: vindimas, a tradição que já não é o que era... (Augusto Pinto Soares) - Parte I

Guiné 61/74 - P21389: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (20): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Setembro de 2020:

Queridos amigos,
Foi de facto um dia excecional, um patrulhamento a Mato de Cão deu origem a uma viagem insólita, dois Unimog saíram de Missirá, em Canturé prosseguiram até Mato de Cão, passeio inédito, há perto de dois anos que era trilho abandonado, para contentamento do PAIGC todo aquele enorme percurso que começa no Jugudul avança para Porto Gole, depois Enxalé, S. Belchior, lá em cima é Missirá e depois Gambiel (antes da guerra prosseguia-se até Geba e Bafatá, só que a ponte foi destruída), não tinha circulação rodoviária. Naquele dia abriu-se exceção, houve surpresa no Enxalé, deve-se ter pensado que ia começar uma operação de monta. Jamais me satisfez a circunscrição do Cuor, tínhamos com Enxalé o mesmo dispositivo do PAIGC em comum, nunca foi utilizada a cooperação, que houvera no passado, basta ouvir os depoimentos do João Crisóstomo, dois anos antes era a mesma unidade militar que se espraiava entre Porto Gole, Enxalé e Missirá. Não interessa agora proferir sentença, mas pesava-me muito um conceito burocrático de cada um na sua quinta, era uma quadrícula medonha que fazia perder a visão de conjunto e que, paradoxalmente, contribuía para que as forças do PAIGC pudessem andar a dizer que havia quase tudo em zonas libertadas.
São águas passadas, já não movem moinhos.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (20): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Mon amoureuse, muitíssimo obrigado pela leitura atenta que tu fazes aos meus apontamentos e às imagens que te envio. Observas que há a fotografia em que estou de braço dado com Nhamô Soncó, a mulher de Quebá Soncó, meu colaborador como guia e picador, também na imagem. Fazes-me a pergunta sobre o que escrevi no reverso: no dia em que visitámos o Enxalé, para surpresa de uns, temor de muitos, e alegria de alguns. Como não incluí tal viagem no relato das peripécias dos primeiros meses, faz todo o sentido que te relate um dia que foi festivo, turístico, humanamente enriquecedor. Como tu sabes, o Cuor depende diretamente de Bambadinca. Quando fiz a observação que tenho o mesmo grupo de guerrilha como o Enxalé, e parecia-me que com ele devia cooperar, mais não fosse em patrulhamentos conjuntos, deram-me aquela resposta sacramental que não passa de um atavio burocrático: o Enxalé depende do Xime, não interfira. É absurdo, olho para o mapa, sei onde está a hostilidade, não tenho condições militares para fazer este tipo de operações sozinho, é a mesma hostilidade de que sofre o Enxalé, vivemos em compartimentos distintos. E uma noite, tendo recebido a notificação para estar em Mato de Cão pelas nove da manhã, passaria um comboio de navios de Bambadinca para Bissau, tomei a decisão de a seguir à passagem das embarcações rumar em direção ao Enxalé, ou seja, em vez de fazer 25 quilómetros ida e volta, fazer 50, tudo por estrada. Tinha nessa altura duas viaturas em bom estado, ambas com guincho, o que significa que se houvesse uma avaria, uma delas viria rebocada. Convoquei os furriéis, anunciei-lhes a viagem, pedi para ficarem, levaria um pelotão reforçado, rádio, bazuca e morteiro e dilagramas. Pedi para que todos fossem com abastecimento de água, rações adequadas para os muçulmanos. Conversei depois com os motoristas dizendo-lhes que as viaturas deviam partir atestadas e que levaríamos um suplemento de combustível nos jerricãs, não fizeram comentários.

Minha adorada Annette, o que tem graça nessa fotografia é que a Nhamô está convencida que vamos em direção a Bambadinca, aperaltou-se para ir visitar as irmãs, nem minimamente sabe que vamos a Mato de Cão. Quando se tirou a fotografia já um grupo de picadores partiu com a alva, irão picar até Canturé a partir da Ponte de Sansão, chamei Nhaga Macque e Serifo Candé e disse-lhes que quando chegassem à curva de Canturé virassem à direita, era fundamental picar com muito cuidado aquele troço da estrada, qualquer coisa como quilómetro e meio, findo do qual uma estrada muito alcantilada desce à esquerda para Mato de Cão ou sobe à direita para Cancumba. Eles picariam à esquerda, íamos a Mato de Cão com viaturas, estavam proibidos de referir o itinerário a quem quer que fosse dentro de Missirá e mesmo aos outros picadores, a ordem para virar à direita em Canturé só seria dada em cima do evento.

Saímos, um dia de sol deslumbrante, um calor suportável, quem vai nas viaturas não supõe que vamos a Mato de Cão, é a primeira vez que ali se chega transportado, não há ninguém que ignore a sina que é tudo a pé, por caminhos ínvios, há mesmo um momento da jornada, nos dias muito acalorados, em que se anda a penar, pisando terra empoeirada, mesmo que se leve um calçado cuidado e as calças bem presas com as fitas, toda aquela laterite feita pó de talco sobe até ao tronco, incomoda que se farta, mais a mais a paisagem parece lunar com aqueles cogumelos de baga-baga que parecem não ter fim, felizmente que no termo deste purgatório se atravessa Chicri com o seu frondoso palmar e continuando por caminhos ínvios, sempre a evitar emboscadas, chega-se ao Planalto de Mato de Cão. Hoje é diferente, vira-se à direita em Canturé, há risada geral, a Nhamô e os outros civis estavam convencidos que iam a Bambadinca, não escondem a deceção, ou até o momento em que perguntaram se podiam ir a pé para Finete, havia para ali umas Mauser, fui perentório, iríamos todos juntos.

Os picadores fizeram o seu bom trabalho, os Unimog iam a uma velocidade constante, e assim chegámos à estrada que segue em paralelo o Geba, uma calmaria sem igual, os militares gralhavam, iam felizes, menos canseira, todos sentados como se viajássemos em autocarros de carreira. Pouco tempo após a nossa chegada, e disposto o dispositivo em segurança, passou o comboio de embarcações, acenos de ambos os lados, e nisto digo para o condutor da frente, Mário Dias Perdigão, conhecido por o Xabregas, agora levas-nos ao Enxalé, há uma coluna que vai a picar à frente. A tropa Fula e Mandinga rejubilava, há anos que não se fazia aquele itinerário, aliás, viam-se restos sinistros de pneus destroçados por minas, contavam-se histórias de mortos e feridos, a viagem prossegue, atravessa-se a bolanha de S. Belchior, é um dó de alma ver tanto terreno fértil ao abandono, o Geba quase beija a estrada, avisto um casario ainda de pé, casas esventradas, seguramente far-se-ia aqui comércio antes da guerra, a coluna de picadores vai bem à frente, quem vai confortavelmente sentado nem lhe passa pela cabeça que serão eles a picar no regresso, em três ou quatro pontos sensíveis, entenda-se, não iremos estar no Enxalé a não ser coisa de meia-hora para cumprimentos, quer-se regressar lesto, não dar condições a que venha por aí um bi-grupo armar uma cilada.

Eu quero que a minha amada saiba que é um dia encantador, é evidente que os condutores vão tensos, não me canso de conversar com o Xabregas, ele não me olha de frente, vai com as mãos pregadas ao volante e os olhos pespegados na estrada. E infletimos em dado momento para o Enxalé, se fôssemos em frente iríamos parar a Porto Gole, é uma estrada tão bela, lembra o itinerário entre Finete e Canturé, os poilões e os cajueiros foram sabiamente implantados, não sei quando, só sei que dão uma sombra aprazível, a coluna de picadores já chegou a Enxalé, a tropa e o povo recebem-nos na Porta de Armas. Cumprimento o camarada que se apresenta, está contente mas intrigado, será que vem por aí alguma operação, por que carga de água a gente do Cuor vem de visita ao Enxalé? Dou resposta descontraída, viemos só conhecer os camaradas, topo que toda a gente de Missirá já anda nos cumprimentos, já se chega ao cúmulo de haver gente acocorada frente às cabaças cheias de arroz e mafé, o camarada alferes é gentil, pergunta-me se pode mandar assar uns frangos, agradeço, digo que não há condições, comeremos uma bucha no regresso, a minha tropa branca resmunga, mais uns minutos não fariam mal a ninguém, mas a decisão está tomada, vamos todos beber um copo, entrego umas notas ao Teixeira para pagar uma rodada no bar, converso com o camarada alferes sobre coisas vagas e genéricas, ele leva-me a visitar o quartel e a tabanca, mostra-me mesmo a picada que leva até ao fundo, ao porto onde se abastecem, podendo mesmo viajar até ao Xime. É uma beleza fascinante, todo aquele caminho da picada, verde luxuriante até se afogar nas águas do Geba.

Olho para o relógio, já passa da uma da tarde, convoca-se quem anda em cumprimentos e até visitar familiares, os dois Unimog posicionam-se para o regresso, despeço-me do camarada alferes, agradecido pela hospitalidade, é um regresso em que já não vejo ninguém apreensivo, há imensa conversa sobre quem se encontrou, a própria Nhamô já viaja com menos tensão no rosto, e assim chegamos a S. Belchior, peço ao Xabregas para acelerar, é uma estrada boa, a primeira e única novidade de que por ali passámos e que não éramos desejados na região de Madina foi ouvirmos umas fortes morteiradas em nossa direção, era de presumir que o PAIGC local estava confundido com semelhante viagem, pois não é impossível ir até Madina de viatura.

Pois bem, minha adorada Annette, chegámos a Missirá sem qualquer aborrecimento, será passeio que não se repetirá, infelizmente, não deixei de informar mais tarde o comando de Bambadinca de tal itinerância, houve a advertência de que não se deve sair em circunstância alguma da quadrícula, até parece que você não tem muito que fazer, deixe o turismo para os outros. Foi tudo isto que se passou, o tal dia em que fomos de Missirá ao Enxalé e regressámos. Por mim, teria estreitado a cooperação com aquele destacamento, nem pensar, clamaram os meus superiores. Resignei-me, de facto eu tinha muito que fazer, os patrulhamentos à volta do Geba certificavam a existência de colunas de lá para cá e de cá para lá. Vai começar um período com tempestade de fogo. O terror paga-se com terror. Foi assim que aconteceu. Penso, mon amoureuse, que fica tudo explicado sobre a fotografia. E termino com uma boa notícia, já comprei o teu bilhete para passares comigo as férias de Natal aqui, estou entristecido por teres que regressar a 3 de janeiro, tu não podes imaginar a falta que me fazes, a solidão em que me deixas.

(continua)

Enxalé

Imagem de um documentário do realizador Sana Na N’Hada, dedicado aos Bijagós

O monumento dedicado ao V Centenário da Descoberta da Guiné, Porto Gole, imagem do nosso blogue

Festa Felupe, fotografia de Lúcia Bayan, com a devida vénia

Era neste ponto que vínhamos montar a segurança aos barcos, trata-se de Mato de Cão
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21369: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (19): A funda que arremessa para o fundo da memória

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21388: Manuscrito(s) (Luís Graça) (191): Quinta de Candoz: vindimas, a tradição que já não é o que era... (Augusto Pinto Soares) - Parte I


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3

Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Quinta de Candoz > Vindimas de 1979 >  "De calças arregaçadas até ao joelho ou em cuecas, lá vão eles [, amigos, vizinhos e familiares do dono] pisando e repisando os cachos das  uvas tintas até que a grainha comece a boiar no cimo do mosto. Às mulheres era interdita esta função: "estragavam o mosto", diziam os antigos. Era um tabu que, a custo, só hoje foi esquecido e ultrapassado." ... 

No foto nº 3, vê-se, de perfil, ao canto direito,  o dono da casa e da quinta, o José Carneiro (1911-1996). (Faria 109 anos, se fosse vivo, depois de amanhã, dia 26.). O lagar já não existe, a casa, com paredes de granito de 200 anos, foi reconstruída... Os campos, em solcalcos, outrora de milho, deram origem a uma moderna vinha... É hoje a sede da Tabanca de Candoz. E já não se produz tinto, só branco... Que este ano deu 13 graus... Castas principais: pedernã (arinto) e azul...Outras: loureiro, avesso, alvarinho... Subregião de Amarante...O grosso das uvas são entregues à Aveleda, Penafiel...

Legenda: da esquerda para a direita, os seguintes familiares e amigos do dono: Luís Graça (genro), Gusto (genro), Quim (genro),  Manel (filho), António (filho) e Fernando (amigo da família, cunhado do Manel)


Fotos (e legenda) : © Luís Graça (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1.  Num país em que, quando nós nascemos, o vinho dava de comer a um milhão de portugueses,  é quase um insulto perguntar, à rapaziada da nossa geração, quem é que nunca  "foi às vindimas"...

"Pisar a uva", no lagar, já é outra coisa: nem todos nós pisámos uvas... Mesmo os citadinos, como eu, que "vivia na vila",  tinham avós ou tios no campo, e iam nas férias grandes à "festa das vindimas"... (Quando as férias escolares eram mesmo  férias  grandes, duravam três meses...). Tratava-se realmente de uma festa, fechando o solstício do verão,  ou seja, um ciclo nove meses de trabalhos e canseiras no campo... 
A vindima era o parto da vinha.

Na região do Oeste, na altura uma das regiões do país com mais produção vitivinícola (até aos anos 60), vinham ranchos de homens e mulheres das Beiras, os "ratinhos" ou "bimbos", vindimar os milhares de hectares de vinha que havia espalhados pela Estremadura e Ribatejo... Deslocavam-se em grupo, com um capataz, e dormiam nos palheiros, como animais... Depois, os homens foram para a guerra ou a salto para França, arrancaram-se as vinhas, mecanizou-se a agricultura, a vinha (e o trigo)  deu lugar a outraser culturas mais rentáveis  (nomeadamente hortofrutícolas) ...

Mais tarde, a partir de 1976, descobri as vinhas e as vindimas do Norte, na região do vinho verde, e ainda a tempo de "apanhar o passado", a vinha de enforcado, as latadas, o milho, os engenhos (moinhos), as tradições comunitárias como as "serviçadas", a matança do porco,  os carros de bois "a chiar pelos montes acima", a parceria agrícola e pecuária, as feiras de gado, as romarias, os bailes mandados, etc.... E, pela primeira vez (e única) na minha vida também ajudei a pisar a uva (tinta, sim, porque o branco faz-se "de bica aberta")...

São tradições que se perderam, mas que ainda hoje perduram na memória dos "antigos" (e que em Candoz de algum modo procuramos preservar) ...Aqui fica um texto, que vai ser dividido em duas partes, sobre as vindimas de outrora. Foi publicado no blogue  A Nossa Quinta de Candoz

É uma descrição primorosa das vindimas de antigamente, na freguesia de Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, onde fica situada hoje a Quinta de Candoz... É da autoria do meu amigo, cunhado e hoje sócio da Quinta de Candoz, que nos coube em herança, e que modernizámos, juntamente com mais dois herdeiros, nossos cunhados... (*)

O Augusto Pinto Soares, o nosso "Gusto",  economista e gestor de profissão, reformado, é o nosso homem dos sete ofícios, o nosso vitivinicultor-mor... É também uma homenagem a ele (e o nosso sogro, José Carneiro,  proprietário agrícola e ramadeiro, nascido em 26 de janeiro de 1911, e falecido em 1996). 

É, enfim,  um texto delicioso pelos regionalismos usados, parte dos quais nem sequer ainda hoje estão grafados  nos nossos  dicionários : freima, ausio, serviçada, vinha de enforcado, cantaréu, chia, mula, etc.

O "Gusto" foi alferes miliciano de administração militar, com a especialidade de contabilidade e recebedoria, tirada na EPAM, no Lumiar, Lisboa, e é dos pouco da minha geração (, ambos somos de 1947) que, por mérito próprio  (e também sorte), não foi mobilizado para o ultramar, sendo o primeiro do seu curso. Se a memória, não me erra, fez a tropa em 1970/72. Licenciado em economia, foi gestor em empresas, nacionais e estrangeiras, da indústria de calçado.

É natural do Porto mas, enquanto trabalhador-estudante, conheceu bem a zona da origem da sua mulher (e minha cunhada), onde tinha raízes (da parte dos pais), e inclusive ajudava o futuro sogro, nas férias e aos fins de semana, a "fazer as contas" da compra de uvas por conta de empresas vinícolas   da região, como o Moura Bastos, ou a Sociedade dos Vinhos Borges, que engarrafavam e comercializavam vinhos brancos nossos comnhecidos na Guiné...  (Aliás, foi na Guiné que muitos de nós começaram a apreciar o vinho verde branco: quem ainda não se lembra  de marcas históricas como o Gatão, as Três Marias, o Casal Garcia, o Lagosta, e outras ?!)

Este texto é também uma homenagem também à antiga Casa de Candoz a cujas vindimas os amigos e vizinhos gostavam de ir porque, em troca da "serviçada", a patroa, Maria Ferreira (1912-1995), gostava de servir o melhor que tinha na salgadeira e no fumeiro. (**)



Marco de Canaveses > c. 1947 > As vindimas...
 

Marco de Canaveses > c. 1947 > O típico carro de bois


Fonte: Aguiar, P. M. Vieira de - Descrição Histórica, Corográfica e Folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Esc Tip Oficina de S. José. 1947. (Com a devida vénia).



por Augusto Pinto Soares (Gusto)



I. Tempos que já lá vão, ou, como se diz agora, por influência do slogan publicitário, a tradição já não é o que era!

Com efeito, um bom par de anos atrás, as vindimas eram uma festa para alguns – os convidados, familiares ou amigos, citadinos – e azáfama e preocupação para a maior parte {, "freima", diz-se aqui]:

(i) os pobres caseiros ou rendeiros na expectativa do terço que lhes poderia caber;

(ii) os pequenos proprietários, sempre na incerteza da colheita que iriam ter e fazendo contas à vida, incluindo alimentação (um peso grande em tempos de míngua – era o tempo da sardinha para três) que haveria de se dar ao pessoal que ajudava à vindima.


Era o tempo em que a data da vindima era marcada de acordo com as disponibilidades dos outros lavradores do lugar ou das proximidades, para que, os pais e os filhos (normalmente mais de seis por família) pudessem distribuir-se na ajuda a prestar uns aos outros. Era o sistema comunitário, a "serviçada", a funcionar.

Então era ver, manhã cedo, homens e rapazes com escadas de madeira (até 12 passos) às costas, com a cesta de vime com o cambito pendurado ao ombro, em romaria às várias propriedades onde a vindima se ia realizar.

Iniciado o corte das uvas, após um frugal mata-bicho – bagaço com açúcar e um naco de broa de milho e centeio –, as conversas, os ditos, as interjeições iam-se sucedendo entre os homens e as mulheres, procurando assim animar os espíritos e dar algum intervalo às dores de costas dos homens, que para além de constantemente terem de mudar as escadas pesadas entre as uveiras altas – as vides como que serpenteavam os choupos que serviam de armação: a tradicional vinha de "enforcado" – ainda tinham, quantas vezes, de se encarrapitar para fora da escada de forma a chegar a um cacho de uvas que teimava em ficar a amadurecer por mais algum tempo.

As mulheres, essas, no seu corrupio entre as leiras e a adega com os cestos de vime pesados à cabeça e com o sumo das uvas, de tão calcadas, a escorrer-lhes pela cara e costas abaixo chegavam afogueadas e com o suor adocicado.

Até as crianças e moçoilas, ainda sem idade para acartar cestos, tinham o seu quinhão na azáfama da vindima. Como diz o ditado, “o trabalho do menino só não o quer quem não tiver tino “, e então era vê-las, cada qual com o seu açafate, empenhadas na sua válida tarefa de apanhar todo e qualquer bago que caísse ao chão, pois desperdiçar era proibido e muitos bagos (envolvidos em terra ou sem ela) sempre davam mais uns quantos litros de vinho.

Aqui e ali ouviam-se os "cantaréus", ao despique, efectuados por 3 ou 4 moças que se juntavam junto às bordas, no intervalo de mais um carreto de cestos e que, ecoando vale abaixo, indicavam aos vizinhos que ali se vindimava e qual o seu estado de alma.

(i)

Lá vai o comboio, lá vai
Lá vai ele à’sobiar,
Lá vai o meu rico amor
Par’à vida militar.

Par’á vida militar,
Par´áquela triste sina
Lá vai o comboio, lá vai
Leva pressa na subida.

Leva pressa na subida,
Leva pressa no andar,
Lá vai o meu rico amor
Par’à vida militar.

(ii)

Deitei meus olhos ao rio,
Para ver teu brio.
Estavas a lavar.

Lava, lava, lavadeira
Estás na brincadeira,
Estás a namorar.

Deitei meus olhos ao rio,
Para ver teu brio.
Estavas a torcer.

Torce, torce, lavadeira
Tua roupa branca,
Que se pode ver.

Deitei meus olhos ao ar,
Para ver de que lado
O sol estav’à dar.

Para nesse lindo arame,
Estender tua roupa,
Para a ver secar.

(iii)

Tenho no meu agulheiro
Agulhinhas de bordar
Para dar ao meu amor
Quando ele aqui chegar.

Borboletinha olaré meu bem
Borboletinha olaré quem tem

(iv)

Tenho uma toalha branca
Fiada à luz da candeia.
O trabalho é oração.
È assim a vida d’aldeia.


(v)

Se vires o mar vermelho!
Não temas que é sagrado.
São as lágrimas de sangue,
Que por ti tenho chorado.


(vi)

Do lado d’além do Rio,
Tem meu pai um castanheiro
Dá castanhas em Abril,
Uvas brancas em Janeiro.


(vii)

Oh! Erva-cidreira
Que estás na varanda,
Quanto mais te rego
Mais tu cais pr’á banda.

Mais tu cais pr’á banda,
Mais t’hei-d’eu regar.
Oh! Erva-cidreira,
Que t’hei-d’eu cortar.


(viii)

Deitei o cravo ao poço. Olé!
Fechado, meio aberto.
Dá cá, toma lá.
Rapaz com’ó Chico.
Não há, não há.


(ix)

Venho de cima do Douro,
Num barquinho de papel.
Já há muito que não ouvi,
Suspiros do meu Manel.


(x)

Ana! Estava na cozinha
E sua mãe a chamou.
Oh! Ana! Oh! Ana!
Senhora Minha Mãe, já vou!

[Fonte: Cancioneiro Popular]



   


Vídeo (1' 59''). Alojado em You Tube / Luís Graça (2013)

Marco de Canaveses >  Paredes de Viadores >  Festa da família Ferreira > 7 de setembro de 2013 > Juntou mais de 100 pessoas. A festa realiza-se há cerca 40  anos. A última tinha sido em 2011. Neste vídeo mostra-se a exibição de um grupo de mulheres da família que cantam lindamente os tradicionais "cantaréus" (que só podem ou devem ser cantados pelas mulheres, e em geral nas vidnimas): Nitas , Mi, São (mulher do maior violonista da região, Júlio Veira Marques, também presente na festa, nosso camarada Guiné) e Dolores...


Eis que chegavam as 10 horas da manhã. E, com um cestinho de vime, bem composto com broa de milho da casa, azeitonas, cebola cortada numa malga ou covilhete com um fio de azeite e vinho verde tinto, um pedaço de toucinho, umas lascas de bacalhau salgado da peça e … pouco mais, coberto com um alvo paninho de linho, lá aparecia a dona da casa.

Fazia-se assim um merecido mas breve intervalo para recompor um pouco as forças já que naturalmente não faltava o garrafão empalhado, com o vinho tinto da casa que ainda sobrara da colheita anterior. Era vê-los, sentados no chão em redor da toalha de linho onde eram dispostos todos aqueles saborosos acepipes ou, quando chovia, com um saco de serapilheira à cabeça com um vértice do fundo dobrado para o interior a fazer de capote ou debaixo dos guarda-chuvas. Era a hora do "almoço" (hoje pequeno almoço).

 Ó Tio Zé! Beba mais uma pinga! Olhe que ele ainda está bô.

Digerida a bucha lá se seguia para mais uma ramada (parreira ou latada) para encher mais uns cestos, para mais uns carretos.

Ao longe já se ouvia o chiar dos carros de bois, por entre caminhos tortuosos, íngremes por vezes, na sua função estóica de levar os cestos carregados de uvas para a adega dos Senhores (ou "fidalgos"), sempre que as propriedades não tinham lagar, onde as uvas tintas de todos os caseiros, conjuntamente, seriam sovadas. Sim,  porque as uvas brancas já tinham sido apanhadas e vendidas para Adegas [, Aveleda, de Penafiel, Moura Basto, de Amarante, por exemplo] pois era muito complexo fazer vinho branco de bica aberta, já que normalmente nunca calhava bem.

Meio-dia! Hora do "jantar" (hoje almoço).

Hoje, infelizmente, tem chovido intensamente, toda a manhã! Os homens e mulheres estão ensopados em água! O trabalho pouco rendeu!

 Oh Tio Zé! Parece que chove a cântaros! Pode ser que ainda venha um "ausio" (aberta) e dê para apanhar uma lagarada!

A dona da casa, afogueada e preocupada, chega a correr:

 Oh! Zé! Chego a panela pr’á frente ou afasto-a p’a trás?

 Oh! Mulher! Cheg'à pr’á frente!

Com dificuldade lá se conseguiu improvisar uma substancial refeição. Uma tachada de arroz salpicado com feijão branco com sardinhas fritas ou de macarrão com espinhas de bacalhau ou batatas cozidas com um naco de presunto ou salpicão que religiosamente foi sonegado às refeições da família durante o ano para agora poder ser servido como lauto pitéu. E naturalmente o vinho tinto da casa que ainda terá de chegar até ao vinho novo.

Sobremesa? Isso era uma fidalguia que não fazia parte dos hábitos alimentares desses tempos. Com muita sorte poderia aparecer um prato de rabanadas ou um prato de aletria que com o seu sabor adocicado merecia mais uma caneca de vinho. Mas tais doçarias raramente apareciam ao almoço, ficavam para a "ceia" (hoje jantar) ou para depois ou durante a sova.

Findo o repasto, novamente a azáfama durante a tarde em tudo igual ao que aconteceu durante a manhã. A meio da tarde, mais uma "merenda" com os mesmos ingredientes daquela que aconteceu a meio da manhã.

A noite chega. Provavelmente a vindima ainda terá que continuar no(s) próximo(s) dias. Agora é tempo de descansar um pouco, preparar as selhas onde os homens lavarão os pés para entrarem no lagar e meter as uvas a vinho. E, de calças arregaçadas até ao joelho ou em cuecas, lá vão eles pisando e repisando os cachos de uvas até que a grainha comece a boiar no cimo do mosto. Às mulheres era interdita esta função: "estragavam o mosto", diziam os antigos. Era um tabu que, a custo, só hoje foi esquecido e ultrapassado.

Para se vingarem dessa interdição, elas costumavam esconder abóboras no meio das uvas para que os homens ao entrarem no lagar escorregassem nas mesmas e caíssem no meio daquela massa de uvas e mosto ou então, pediam ao homem que durante a vindima ia metendo as uvas a vinho (para muitas mais caberem no lagar) que calcasse as uvas junto a um ou mais cantos (criando assim as "mulas") para dificultar aos homens (sobretudo aos rapazes) da sova o levantamento das mesmas para as poderem arrastar e pisar com os pés.

E quando as moças se lembravam de surripiar as calças que os homens tinham tirado ao entrar no lagar cosendo as pernas das mesmas, uma à outra, rindo-se depois até ás lágrimas – riso puro, jovial, sadio, contagiante  quando depois de sair do lagar os homens tentavam, cambaleando e por vezes caindo, vesti-las?

Chegam entretanto as filhas da casa com uns pratinhos de aletria – feita com ovos caseiros, amarelinhos – bem quentinha, ainda a fumegar, salpicada com uns pozinhos de canela que sabe pela vida e se presta a mais uma rodada da caneca branca de porcelana cheia de vinho, sempre tinto!

Entremeado por ditotes, por cândidas anedotas, adivinhas, alguns cantares (por vezes ao desafio) e de quando em vez alguma música (os proprietários de mais posses chegavam a contratar uns músicos com instrumentos tradicionais), a massa que vai ficando depositada no fundo do lagar é levantada com os pés de forma a encontrar alguns bagos de uvas ainda inteiros e ser esmagados.

As pernas dos homens já escorrem mosto vermelho, qual sangue vivo que começa a brotar para uma nova vida.

O patrão dá a ordem:

– Mais uma volta e podem sair!

Está terminado o dia de trabalho

A patroa já tem pronta a "ceia" (hoje jantar). Arroz de galinha, ou talvez umas batatas cozidas com bacalhau ou. se “fizer minga” [, míngua,],  uma arrozada com um bom naco de toucinho ou presunto – que sempre se foi poupando para estas ocasiões. No fim sempre se improvisava umas rabanadas para servir de final de repasto. Mais uns bons tragos de vinho para compor e…:

 Por hoje está feito, Tio Zé!

Levantada a mesa, uns entreter-se-ão a jogar as cartas (normalmente a bisca ou o burro) com a algazarra própria da batota de alguns ou das "chias" que por vezes iam acontecendo, outros na amena cavaqueira sobre os problemas da vida e da esperança que a colheita fosse boa e para que o ano que vem fosse um pouco mais farto e que um vinho, esbelto e sadio, agora em preparação, saísse para as pipas mantendo o sabor inalterável da uva até à nova colheita.

Começam a sair. As lanternas (de petróleo ou carboneto) começam a acender-se – embora a electricidade tivesse já atravessado a Serra ainda não tinha chegado ao povoado. A noite já vai longa e é preciso dormir para recuperar energias porque os dias que se aproximam serão cansativos, tal como o de hoje.

(Continua)

Texto de Augusto Pinto Soares (2005)

[ Revisão / fixação de texto, para efeitos de edição neste blogue: LG]

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Notas do editor:



Guiné 61/74 - P21387: Tabanca Grande (503): António Baltazar Valente Ramos Dias, ex-Alf Mil Art MA da CART 1745 (Ingoré e Bigene, 1967/69): senta-se no lugar n.º 819 do nosso poilão

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano António Baltazar Valente Ramos Dias, ex-Alf Mil Art MA da CART 1745 (Ingoré e Bigene, 1967/69), com data de 22 de Setembro de 2020:

Boa noite,

Desejando acolher-me à sombra do poilão que alberga muitos dos meus camaradas de armas que, tal como eu, sofreram as agruras da guerra da Guiné, segue o meu pedido para que me recebam na vossa companhia.

Segue em anexo uma breve resenha da minha breve (???) passagem pelo GEP (Glorioso Exército Português).

Oportunamente enviarei um relato com a minha versão sobre uma operação realizada no norte da Guiné em Janeiro de 1969.

Abraços
A. Dias


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Nome: António Baltazar Valente Ramos Dias
Nascido em 21 de Abril de 1945 em Montijo – Distrito de Setúbal
Ex-Alferes Miliciano de Artilharia
Fazendo parte da CART 1745, embarcou para a Guiné em 13 de Julho de 1967 e regressou a Lisboa em 13 de Junho de 1969.


Ganturé - António Baltazar Dias, então com 22 anos


Breve resenha:

Iniciei a minha vida militar em maio de 1966, tendo sido incorporado no COM em Mafra.
Após o 1.º ciclo de recruta fui destacado para Vendas Novas onde cumpri um 2.º ciclo na especialidade de atirador de artilharia.

Com a minha promoção a Aspirante fui colocado no RAL 1 (muito depois RALIS e hoje, tanto quanto sei, unidade relacionada com transportes).

Seguiu-se Tancos (“pós-graduação” em Minas e Armadilhas), GACA 2 (Torres Novas - hoje Escola Prática de Polícia), Santa Margarida (Treino Operacional), de novo GACA 2 para formar companhia e, posteriormente, Guiné, na CART 1745.

No CTIG estive na fronteira Norte, em Ingoré e Bigene entre julho de 1967 e junho de 1969.




Posição relativa de Bigene e Ingoré - Estrada Bigene Sedengal. © Infografia Luís Graça & Camaradas da Guiné - Carta da Província da Guiné - 1:500.000


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2. Comentário do editor

Caro António Baltazar Dias - vai ser este o teu "nome de guerra" porque já cá temos o António Dias, ex-Alf Mil da CCAÇ 2406 - sê bem-vindo à nossa Tabanca Grande.

Escusado será dizer que podes escolher o melhor lugar à sombra deste nosso poilão sagrado, uma tertúlia onde se juntam os antigos combatentes da Guiné (e não só) para de certo modo fazerem a sua catarse, ao escreverem as suas memórias e enviando as suas fotos. 

Simultaneamente contribuímos com as nossas vivências para memória futura, quiçá uma fonte de conhecimento para os futuros historiadores e estudiosos da Guerra de África de 1961-1974.

Consultando o Blogue, apenas encontramos uma referência à CART 1745, pelo que te cabe a responsabilidade de dar a conhecer aos nossos leitores a actividade da tua Unidade, assim como possíveis "roncos", ou circunstâncias menos boas.

Eu tive um percurso idêntico ao teu, tirei a Especialidade de Atirador de Artilharia do CSM no 3.º turno de 1969 na EPA de Vendas Novas. Findo o curso, já com a alta patente de Cabo Miliciano, fui colocado no GACA 2 de Torres Novas, onde estive apenas uma semana antes de ingressar na EPE de Tancos - filial do Casal do Pote - para frequentar o XXX III Curso de Minas e Armadilhas. A Guiné esperava-me, não sem antes passar pelo BAG 2/GAG 2 do Funchal, onde formámos a primeira Unidade ali mobilizada e embarcada para o Ultramar.

Vou terminar, não sem antes te deixar um fraterno abraço em nome da tertúlia e dos editores em particular, que por aqui ficam ao teu dispor. Não esqueças que as fotos devem vir acompanhadas de legendas que nos indiquem pelo menos, a data, local e o nome dos retratados.

Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21351: Tabanca Grande (502): Carlos Arnaut, ex-alf mil art, 16º Pel Art (Binar, Cabuca, Dara, 1970/72): senta-se, no lugar nº 817, à sombra do nosso poilão