sexta-feira, 10 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14455: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (97): José Maria de Sousa [ Ferreira, minhoto de Braga, com escola de condução no Porto], ex-sold mec aut (BART 1904 e PINT, Bambadinca, 1968/70) descobre os seus companheiros do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852, a quem o Movimento Nacional Feminino ofereceu, em 1969, os instrumentos


Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Circa Maio de 1969 > Atuação do conjunto musical de Bambadinca, formado por cinco elementos: da direita para a esquerda,  o 1º cabo Tony  ("cantor romântico"), o 1º cabo Peixoto (bateria), o José Maria de Sousa [, Ferreira], soldado do pelotão de intendência (viola solo), o 1º cabo Serafim (viola ritmo), e ainda "um outro 1º cabo que "deveria ser chapeiro e que, na vida civil, praticava halterofilismo"... Com exceção do Sousa, todos pertenciam ao BCAÇ 2852 e eram 1ºs cabos...

Pela consulta da história da unidade (BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70), presume-se que:

(i) o Peixoto seja o 1º cabo escriturário  José Faria Taveiro Peixoto, nº  11176267, do comando do batalhão, secção de pessoal e reabastecimento;

(ii) o Serafim deve ser o 1º cabo mecânico auto António Luis S. Serafim, nº 06148667, do pelotão de manutenção comandado pelo alf mil Ismael Quitério Augusto, nosso grã-tabanqueiro;

(iii) o Tony, pelo nome e nº mecanográfico terminado em 61, pode ser o 1º cabo nº 14219661 António N. Sousa ("Era refratário, e tinha cinco a seis anos a mais do que nós", diz o Sousa; julga que era condutor, e natural de Lisboa, onde já cantava, com nomes fadistas conhecidos como a Maria da Fé).




Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Possivelmente Maio de 1969 > Da  direita para a esquerda, Peixoto (bateria),  Sousa (viola solo), Serafim (viola ritmo) e outro camarada não identificado (1º cabo, provavelmente bate chapas).





Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Possivelmente Maio de 1969 &gt Parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha"  (1)...


Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Possivelmente Maio de 1969 &gt Parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha"  (1)... Todos as guerras têm a sua "Pasionaria"... A "Cilinha" terá sido a nossa... Esta foto, notável, do José Carlos Lopes, é uma prova disso... É uma foto de antologia, editada por nós, a preto e branco...


Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Possivelmente Maio de 1969 >  Parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha" (2)...

Fotos do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão).(*)

Fotos: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Editadas e legendadas por L.G.)


1. O José Maria de Sousa [Ferreira], de rendição individual, era soldado mecânico auto, sendo originalmente colocado na CSS/BART 1904, onde veio substituir um camarada ferido num braço.

Terminada, em setembro de 1969,  a comissão do BART 1904 (1966/68), o José Sousa [JMSF] vai para Bissau, mas logo a seguir é colocado no Pelotão de Intendência (PINT) de Bambadinca.  Tem, ao todo,  54 meses de vida militar. "Apanhou um porrada na metrópole por conduzir sem carta". Foi mobilizado para a Guiné. Já tocava viola na vida civil.

Em Bambadinca o José Sousa era muito solicitado para festas de anos e animações. Depois formou um conjunto com a malta da CCS/BCAÇ 2852. O Movimento Nacional Feminino (MNF) ofereceu-lhes os instrumentos. Tocaram, com grande sucesso, em vários sítios, incluindo Bafatá (na festa de Natal de 1969 e na passagem de ano). As fotos acima referem-se ao dia em que a Cilinha foi visitar Bambadinca...  e houve espectáculo musical no edício em U das messes e quartos de oficiais e sargentos.

O Sousa, que é sócio de um escola de condução no Porto, é natural de Braga, tem uma filha, médica, no IPO do Porto.  Hoje o seu nome completo é José Maria de Sousa Ferreira (JMSF). Na tropa, era só conhecido por Sousa.

Falou comigo ao telefone. Já esteve na Guiné, em férias, há 3 anos, e claro visitou Bambadinca.  Quer ir ao convívio do pessoal de Bambadinca, 1968/71, que este ano se realiza na Trofa (**). Foi o Silvino Carvalhal, de Vila Nova de Famalicão,  que lhe deu o meu nº de telefone de casa. Mas foi através da Net que ele  descobriu estas fotos acima reproduzidas, e que o emocionaram,  Gostava agora de saber por onde param os seus companheiros do conjunto musical. Só não se lembra do nome do 5º elemento, "1º cabo, talvez chapeiro, da CCS"... (Consultando a história da unidade, verifica-se que o único 1º cabo bate-chapas era o Otacílio Luz Henriques; havia mais dois 1ºs cabos mec auto,  o João de Matos Alexandre e e o outro era o Serafim)...

 O conjunto musical de Bambadinca era formado por 5 elementos, todos eles 1ºs cabos, com exceção do do Sousa, havendo 1 cantor (o Tony), 3 guitarras elétricas e 1 baterista. O Sousa gostaria muito de reencontrar estes companheiros: o Tony seria de Lisboa, o Peixoto, de Póvoa de Lanhoso. O Serafim, bateria, também tocava viola.

Convidei o Sousa  a integrar o nosso blogue, o que ele aceitou de bom grado. Ficou de me mandaralgumas fotografias que ainda lhe restam do tempo da tropa. Tenho o seu telefone e endereço de email. (***)

PS - Não confundir este conjunto com um outro que andava pela Guiné, o Conjunto Musical das Forças Armadas. (O nosso camarada Vitor Raposeiro, ex-fur mil radiotelegrafista, STM, de rendição indiviual, que passou por Aldeia Formosa, Bambadinca, Bula e Bissau, 1970/72, também viria a   integrar esse Conjunto Musical das Forças Armadas, tendo saído de Bambadinca ao tempo do BART 2917; esse conjunto atuava por toda a Guiné).

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 3 de janeiro de 2013 > Guiné 63/74 - P10993: Álbum fotográfico do ex- fur mil José Carlos Lopes, amanuense do conselho administrativo da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (8): Há festa no quartel: visita da Cilinha e do conjunto musical das Forças Armadas, em abril ou maio de 1969

(**) Vd poste de 2 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14430: Conivívios (661): Pessoal de Bambadinca 68/71: Trofa, 30 de maio de 2015 (Silvino Carvalhal / Fernando Sousa)

(***) Último poste da série > 17 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14157: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (96): Não sei se era o senhor Comandante Pombo que estava aos comandos, sei que fiquei muito sensibilizado com esta boleia (António Dâmaso)

Guiné 63/74 - P14454: Notas de leitura (701): “Desaparecido em combate", por Duarte Dias Fortunato, o primeiro prisioneiro de guerra depois da Operação Mar Verde (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Junho de 2014:

Queridos amigos,

Despertou-me o interesse o Major João Luiz Mendes Paulo escrevera em “Elefante Dundum” acerca do comportamento heróico do 1.º Cabo Duarte Dias Fortunato que tentou proteger o seu comandante de pelotão, Alferes Rodrigues, que ficara cego, resistira sozinho até se esgotarem as munições.
O Major Mendes Paulo foi altamente crítico desta ação, o inimigo aproveitou-se da permanência em Piche durante dois dias de importantes meios de artilharia, preparou-lhe uma emboscada brutal e bem-sucedida. Fortunato conta a sua desfortuna, foi o primeiro prisioneiro depois da Operação Mar Verde, penou mais de três anos e meio até ser resgatado. Um desaparecido em combate que suportou com bravura, antes e depois.

Um abraço do
Mário


Duarte Dias Fortunato: O primeiro prisioneiro de guerra depois da Operação Mar Verde

Beja Santos

Em “Elefante Dundum”, pelo Major João Luíz Mendes Paulo, edição de autor, Maio de 2006, conta-se a ação “Mabecos”, realizada por forças de artilharia de Canquelifá, Sare Bacar e Piche, no total de doze bocas-de-fogo da mais pesada artilharia existente na Guiné, com a missão de bater fortes concentrações do inimigo, a partir de posições o mais a sul possível, junto ao rio Corubal. O Major Mendes Paulo tece profundas críticas aos preparativos da ação, tomou a decisão de pôr termo à sua briosa carreira militar. Na bibliografia de “Elefante Dundum” refere o artigo “Desaparecido em Combate”, publicado na revista da GNR de abril de 2000. Foi-me facultado o artigo que me parece digno de registo, é uma importante peça histórica. Na altura em que o artigo foi publicado, Duarte Dias Fortunato era Soldado de Infantaria da GNR e prestava serviço no Posto Territorial de Quiaios, na Figueira de Foz.

Escreve Fortunato:

“Quando, no dia 22 de fevereiro de 1971, pelas 13,30 horas, nos preparávamos para sair do quartel de Piche e iniciar a operação Mabecos, ocorreu um acidente com uma granada, na caserna do 1.º GC/CCAV 2749. Como consequência, registou-se um elevado número de baixas. Depois de iniciada a marcha e de termos percorrido alguns quilómetros pelo mato, caímos numa emboscada. O tiroteio era infernal, os projeteis a passarem por todos os lados, as explosões de morteiros e roquetes davam-se mesmo ao pé de nós.

A meu lado caíram vários militares, feridos ou mortos, parecendo-me um deles ser o alferes, comandante do meu grupo. Fiz quanto pude para evitar que mais fossem atingidos ou capturados, sempre na esperança que alguém nos viesse socorrer.
Acabando-se-me as munições, vi que não podia resistir mais e corri em direção a uma viatura blindada, parada debaixo de uma árvore, a cerca de 80 metros do local onde me encontrava. Quando já estava perto da mesma, o inimigo abriu fogo sobre mim e fui obrigado a deitar-me ao chão. Logo de seguida caíram-me em cima, sem que da viatura próxima fizessem fogo para me salvar daquela situação.
Realmente, talvez o não pudessem fazer, pois estavam como eu a ser alvejados, tendo nessa altura rebentado um roquete mesmo na árvore onde se encontrava parada a viatura que eu pretendia alcançar.

Naquele momento, angustiado por ter estado tão perto, agarrado e arrastado pelo mato, percebi que perdera a liberdade e era agora um prisioneiro”.

Começa o seu calvário, leva cronhadas e pontapés até que o comandante do grupo do PAIGC proibiu mais agressões. Aos encontrões e amarrado, atravessou o rio Corubal. Depois de várias horas de caminhada, chegaram a uma base onde foi mandado despir completamente. O Duarte Fortunato pensou que tinha chegado a sua hora. Meia hora depois deram-lhe novamente a farda e mandaram-no vestir. Subiu para um camião e foram para Conacri e metido numa prisão.

Observa:

“A prisão estava parcialmente destruída, situação que resultou da ação da nossa tropa aquando a invasão a Conacri.

Ao entrar na prisão, fui entregue a um indivíduo deficiente de um braço que me levou para uma cela bastante escura, só com uma cama de tábuas, sem colchão e com uma manta velha.

Passados três dias após a minha chegada à prisão, fui confrontado com o primeiro interrogatório. Para o efeito, apareceram três indivíduos de cor branca, cabo-verdianos, muito bem vestidos, que me fizeram diversas perguntas, à maioria das quais eu não respondia: quantos soldados havia em Piche, nomes dos comandantes, em que abrigo estava o canhão sem recuo…

Como não falava, era agredido de todas as maneiras. Os interrogatórios prosseguiram durante seis meses, depois deixaram de me interrogar.

Ao fim de dois anos, começaram a chegar mais prisioneiros: uns capturados no posto de sentinela, outros que saíam do quartel para irem à caça e eram caçados. No final éramos oito. 

Um certo dia, mandaram-nos sair da prisão, fomos metidos num camião do PAIGC, ao fim de três dias chegámos a Madina de Boé. Percebemos que estávamos a mudar para um prisão improvisada mas com muita segurança e ali permanecemos alguns meses. Aqui sofremos muito com a nossa aviação, que atacava frequentemente o local. Houve depois uma fuga e os prisioneiros foram deslocados para o lado da fronteira da Guiné Conacri. Quando chegámos a um local, junto de um grande rio, cujo nome nunca soube, ali acampámos. Construíram uma prisão de madeira onde ficámos instalados alguns meses.

Certo dia pela manhã, apareceram alguns guardas com os rádios junto aos ouvidos e gritavam com júbilo “Tuga, tuga, Marcelo caiu. Independência, independência”. Através da rádio demos conta que em Portugal tinha havido um golpe de Estado.

No dia 11 de setembro, entregaram-nos vestuário dizendo-nos que no dia seguinte seguíamos em direção a Bafatá, a fim de sermos entregues por troca com outros prisioneiros. Ao fim de três dias chegámos a Bafatá. Embarcámos de seguida num avião militar, onde recebemos os primeiros cuidados médicos.


Em Lisboa, foi colocada uma carrinha à nossa disposição, um médico e um enfermeiro foi dada a possibilidade de visitar familiares, se os tivéssemos. Eu tinha uma irmã. Chegados ao local, o médico tocou à campainha, perguntou pela minha irmã e disse-lhe que viesse abrir a porta que estava ali o seu irmão Duarte. A minha irmã respondeu-lhe da janela que o irmão Duarte tinha desaparecido da Guiné e que não podia ser verdade.

Quando eu sai da carrinha e lhe disse que viesse cá abaixo abrir a porta, que realmente era eu, a minha irmã já não disse mais nada, tinha desmaiado. Encontrei a minha irmã vestida de luto, assim como mais tarde encontrei a restante família. Fui informado que tinham mandado rezar missas por minha alma. Encontrei também duas filhas maravilhosas. Uma que tinha deixado quando fui para a Guiné e outra que nasceu depois de eu ter sido preso.

Muito mais havia para contar, pois cada dia lá passado foi de fome, sofrimento, morte, vida por um fio e por cá muitas coisas mudaram nos três longos anos e duzentos e dois dias que estive preso. Talvez um dia, quando estiver reformado, recorde mais pormenores e complete devidamente a minha história”.

Para mais informações sobre estes acontecimentos do Piche, o Google fornece algumas pistas. Recomendo a título exemplificativo:

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/sobreviventes/2011-10-20-nas-maos-do-p.a.i.g.c;jsessionid=6B099AA515E491D6EE55E3A353485ECC

http://cart3494guine.blogspot.pt/2011/10/p127-guerra-colonial-guine-prisioneiros.html

http://aguerracontinua.blogspot.pt/2011/02/guine-operacao-mabecos-22-de-fevereiro.html
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14438: Notas de leitura (700): “Operação Gata Brava": A BD original de António Vassalo Miranda (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14453: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de Abril de 2015 (7): Estamos a atingir o limite da capacidade da Sala de Jantar do Hotel que é de 200 pessoas. Não se deixem para domingo para se inscreverem

Monte Real, 14 de Junho de 2014 > Foto da Grande Família do Blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné
Foto: © Manuel Resende  (2014). Todos os direitos reservados.


X Encontro Nacional da Tertúlia

18 de Abril de 2015

Mensagem da Organização

Atendendo a que o limite da sala de jantar do Palace Hotel de Monte Real, para um serviço eficiente como queremos, é de 200 pessoas, alertamos para o facto de as inscrições neste momento terem atingido o número de 188.

Assim, os possíveis interessados não devem esperar pelas 24 horas do dia 12 para se inscreverem.

A propósito, as pessoas, que mais uma vez sustentaram a organização deste evento anual, congratulam-se com o número de adesões a este X Encontro Nacional. Batemos o anterior recorde de inscrições datado de 2012. Está demonstrada a vitalidade deste Blogue, enquanto tertúlia de combatentes da Guiné, que mantém este espírito de unidade, amizade e companheirismo.
Constata-se que são cada vez mais as esposas (companheiras de uma vida, as nossas bajudas), filhos e até netos que se juntam a nós ao longo destas 10 edições.

Os organizadores
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14448: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de Abril de 2015 (6): Há já 174 inscrições... E o prazo termina domingo, dia 12, às 24h

Guiné 63/74 - P14452: Blogpoesia (412): 3 poemas recentes: (i) Mergulhei na Polónia; (ii) O barco na praia; e (iii) Rua dos impossíveis... (J. L. Mendes Gomes)

Mergulhei na Polónia…


Estou encantado.
Saí de Berlim.
Pela calada da manhã.
Noventa quilómetros apenas.
...
Atravessei a fronteira.
E mergulhei na Polónia.
Só um cheirinho.
Para ver como é.
Vim a uma feirinha,
No meio dum bosque.
Numa pequena cidade rural.
Slubice!...

Um mundo diferente.
Mais natural.
A primeira sensação foi a de
De ter recuado no tempo.
Reencontrei muito do que havia em Portugal,
Antes do 25 de Abril.
O rosto das pessoas
É recatado e contido.
Seu porte é sóbrio.
Sem os ademanes da futilidade
Que impregnou e descaracterizou de raiz
As gentes que se julgam mais avançadas.
E, alienadas, carregam à cerviz
O jugo da moda.
No restaurante,
Todo em madeira,
Rústica,
Paredes e tecto.
Muito discreto.
Uma enorme lareira,
De frente, ao centro,
Enchia de calor
E bem-estar
Todo o ambiente.
Pelas mesas, em harmonia
Sincera,
Muitas famílias.
Pais e filhos,
Pequenos e grandes.
Num abraço total.
Sorrisos.
Olhos brilhando,
Azuis,
Como o céu.
Comida abundante.
Para todos sem dor,
Na carteira.
Se olhando ao centro,
Sem precisar exibir
Para chamar atenções.
Havia alegria e respeito
Entre filhos e pais.

Depois, fui para a feira.
Uma aldeia apinhada,
Com ruinhas cobertas,
Escaparates em festa,
Abundantes de tudo,
Espalhados à mão.
Vestir e calçar,
De pele e de lã,
Último grito.
Por cinco tostões.
Queijos, licores,
Bebidas alegres,
De os todos os matizes.
Uísques, vodkas e vinho
Em garrafas.
Bugigangas e artefactos
Originais.
Muita gente comprando.
Parecia Istambul!…

Hei-de voltar muita vez.
Só queria que vissem...
Polónia, Slubice… no hotel
"Horda" - 3 estrelas…mas parecendo de 5…

21 de Dezembro de 2014, 3h7m

Joaquim Luís Mendes Gomes



O barco na praia...

aquele barco,
amarrado ao cais,
sem mastros nem velas,
é um arado do mar.
sua raviça luzente,
bem funda
e cortante,
são remos, possantes,
rasgam as ondas,
ele vai para diante,
à procura do pão
que cresce abundante,
no seio do mar.

pintado de azul.
tem Jesus,
levantado de pé
mesmo à proa,
de vestes compridas,
olhando ao longe,
num barco poveiro,
carregadinho de peixe,
regressando da faina.
e uma multidão de varinas,
cheias de esperança,
de açafates vazios,
o esperam na praia.
de verão e de inverno,
afoito e ladino,
sem medo do mar,
da fúria das ondas,
ele cumpre o destino
de ir e voltar.

ouvindo Grieg

Berlim, 1 de Fevereiro de 2015, 8h9m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Rua dos impossíveis...

vim viver em Berlim,
ao cabo da minha vida,
na rua dos impossíveis.
não vim por mim,
foi o destino
do meu país
que o quis assim.

preferia ser feliz,
naquele pedacinho de terra à beira-mar.
atravessado de serras, lezirias e rios belos.
povoado de muitos pinhais
e bons vinhedos.
onde o sol nasce sempre a nascente
e se vai deitar no mar poente.
onde se ergueram no cume de montes,
tantos castelos possantes
e fortalezas.
uns em pedra, 
resistentes,
outros de sonhos
que um vendaval desfez.
tantas igrejas e catedrais.
ermidas brancas,
com procissões de culto.

foi um império,
multicontinente.
de lá partiram caravelas,
rumo ao ignoto,
com muito arrojo,
descobrindo o mundo,
ligando os povos.

gerou um épico,
dos luminares,
Luís de Camões.
e dois prémios Nobel.
até um papa em Roma.

foi grandioso,
cultivou a honra,
até à hora presente
do infortúnio.
uma horda louca,
de gente incauta,
tomou o poder
pela democracia falsa,
e se fez tirana,
espoliando o povo.
só sobreviverá
quem conseguir fugir...

Berlin, 3 de Fevereiro de 2015, 23h23m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

[ex-Alf Mil, CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66]




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Nora do editor:

Último poste da série > 2 de abril de  2015 > Guiné 63/74 - P14429: Blogpoesia (411): A Estrada do Tempo (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 2381)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14451: Ser solidário (180): No passado dia 28 de Março de 2015 tomaram posse os membros do Lions Clube da Lusofonia que se propõe apoiar os imigrantes dos países lusófonos residentes no Concelho de Matosinhos (Jaime Machado)

1. Mensagem do nosso camarada Jaime Machado (ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) com data de 1 de Abril de 2015:

Caro Carlos
Com um grupo de amigos acabei de tomar posse no passado sábado, como membro do Lions Clube Lusofonia.

Este Clube Lions tem como alvo especial a ajuda aos Países Lusófonos e aos seus imigrantes residentes no nosso Concelho.

Do evento envio-te algumas fotos que gostaria fizesses publicidade no nosso blogue, caso aches pertinente.

Um forte abraço.
Jaime







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Nota o editor

Último poste da série de 4 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14322: Ser solidário (179): "Bambadinca Sta Claro", projeto-piloto na Guiné-Bissau, de uma central híbrida fotovoltaica, leva luz a 8 mil habitantes de Bambadinca. Documentário produzido pela ONG TESE e entrevista da Antena 1 a Sara Dourado

Guiné 63/74 - P14450: Os nossos seres, saberes e lazeres (85): Berlim, cidade ainda hoje invisivelmente dividida: as marcas da guerra e do terror (Parte III) (Luís Graça)


Berlim, Postsdamer Platz, 27 de março de 2015.  Por aqui passava o muro da vergonha (de todos nós, europeus, do oeste e do leste)... Completamente destruída na II Guerra Mundial, a praça Potsdam é hoje um dos símbolos feéricos da fénix renascida que é a cidade de Berlim...  Aqui se ergue também o famoso Sony Centre"...

Vídeo (0' 34'') alojado em You Tube > Luís Graça













Berlim, 27 de março de 2015 > Potsdamer Platz > A "arquitetura BMW" (*)...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados

1. Legenda para o vídeo: na natureza nada se desperdiça, tudo se transforma... A gralha cinzenta (corvus cornix, se não erro) aproveita o nosso "lixo" para fazer o seu ninho... Há de continuar  a aproveitar os nossos restos mortais quando o IV Reich dos mil anos desaparecer, e com ele a nossa civilização e a nossa espécie...

O "homo sapiens sapiens" foi demasiado bem sucedido, ao longo de muitos milhares de anos, mas o sucesso tem um preço... Não soube respeitar as outras espécies, o planeta terra que o hospeda e sobretudo os outros indivíduos da sua espécie... O nosso modelo de desenvolvimento é insustentável... Temos horror ao vazio, em lugar das enormes crateras deixadas pelas bombas da II Guerra Mundial, os berlinenses construiram  templos de aço e vidro dedicados aos deuses do capital, do mercado e do consumo... Mesmo assim, têm 16 mil hectares de espaços verdes, jardins e parques... E corvos, muitos corvos...Mas o urso, já desaparecido,  é que é a mascote da cidade...

Na nossa cultura, o corvo está associado ao terror e à morte... Em Lisboa, é o símbolo e o padroeiro da cidade, mas eu é raro ver corvos pela minha cidade do Tejo e das sete colinas... Diz a lenda que o corpo do São Vicente, martirizado pelos romanos no séc. IV, foi resgatado dos mouros e  chegou a Lisboa, vindo do Algarve (, do Cabo de São Vicente), no séc. XII, de barco,  acompanhado  por dois corvos... Pobre corvo, indevidamente instrumentalizado  na luta entre duas civilizações e duas religiões monoteístas...


2. Berlim, cidade aberta, 
fénix renascida...
A Alemanha não é Berlim,
ou Berlim não é a Alemanha,
diz-me um luso-alemão,
filho de mãe teutónica e de pai tuga,
que o amor não escolhe nacionalidades...
"Berlim é a civilização,
o resto são as tribos germânicas"...
O turista, o estúpido em férias,
não se apercebe das diferenças...
Afinal, a Alemanha não é monolítica...
O que faz o secreto encanto de Berlim ?
Quem são os berlinenses ?
Os filhos do Kaiser?
Os filhos do Adolf Hitler ?
Os filhos do Walter Ulbricht ?
Os filhos do Willy Brandt ?
Os filhos da Angela Merkhel ?
São filhos do desejo de liberdade, justiça e paz...
Afinal, somos todos filhos, menores. de um deus maior. (**)

Berlim, 23 de março de 2015
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Notas do editor:

Guiné 63/74 - P14449: Parabéns a você (887): Jorge Canhão, ex-Fur Mil Inf do BCAÇ 4612/72 (Guiné, 1972/74); Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art MA da CART 1659 (Guiné, 1967/68) e Miguel Pessoa, Coronel Pilav Ref, ex-Ten Pilav da BA 12 (Guiné, 1972/74)



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Nota do editor

Último poste da Série de 8 de Abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14443: Parabéns a você (887): José Augusto Ribeiro, ex-Fur Mil Art da CART 566 (Guiné, 1963/65)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14448: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de Abril de 2015 (6): Há já 174 inscrições... E o prazo termina domingo, dia 12, às 24h


X Encontro Nacional da Tabanca Grande: Distribuição das incrições pro concelho de residência (n=174)

Observ.

(*) Águeda, Covilhã, Espinho, Figueira da Foz, Loures, Marinha Grande, Óbidos, Oliveira do Bairro, Paredes, Ponta Delgada (RA Açores), Sta. Maria da Feira, Torres Vedras e Viana Castelo 

(**) Almada, Alvaiázere, Aveiro, Barcelos, Cadaval, Cantanhede, Coimbra, Guimarães, Ílhavo, Mafra, Montemor-o-Velho, Nazaré, Ourém, Penamacor, Seixal, Tomar e Vila Real

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


LISTA ALFABÉTICA DOS 174 INSCRITOS, ATÉ À TARDE DE HOJE  PARA O X ENCONTRO NACIONAL DA TABANCA GRANDE, MONTE REAL, LEIRIA, SÁBADO; 18 DE ABRIL DE 2015.

O PRAZO  DE INSCRIÇÃO TERMINA DOMINGO, DIA 12, às 24H00.



Abel Santos - Leça da Palmeira / Matosinhos
Agostinho Gaspar - Leiria
Albano Costa e Maria Eduarda - Guifões / Matosinhos
Alberto Godinho Soares - Maia
Almiro Gonçalves e Amélia - Vieira de Leiria / Marinha Grande
António Augusto Proença e Beatriz - Covilhã
António Brito da Silva e Isabel - Madalena / V. N. de Gaia
António Dias - Porto
António Estácio - Mem Martins / Sintra
António Faneco e Tina - Massamá / Sintra
António Fernandes Neves - Setúbal
António Fernando Marques e Gina - Cascais
António Joao Sampaio e Clara - Leça da Palmeira / Matosinhos
António José P. Costa e Isabel - Mem Martins / Sintra
António Manuel Garcez Costa - Lisboa
António Manuel S. Rodrigues e Rosa Maria - Oliveira do Bairro
António Maria Silva e Maria de Lurdes - Lisboa
António Martins de Matos - Lisboa
António Osório, Ana e Maria da Conceição - V. N. de Gaia
António Pimentel - Figueira da Foz
António Santos Pina - Lisboa
António Santos e família (6) - Caneças / Odivelas
António Sousa Bonito - Carapinheira / Montemor-o-Velho
António Souto Mouro - Paço de Arcos / Oeiras
Arlindo Farinha - Almoster / Alvaiázere
Armando Pires - Algés / Oeiras
Arménio Santos - Lisboa
Artur Soares - Figueira da Foz

Baltazar Rosado Lourenço - Nazaré
Belarmino Sardinha e Maria Antonieta - Odivelas
Benjamim Durães e 5 crianças - Palmela

C. Martins - Penamacor
Carlos Alberto Cruz, Irene e Paulo Jorge - Paço de Arcos / Oeiras
Carlos Alberto Pinto e Maria Rosa - Reboleira / Amadora
Carlos Vinhal, Dina e 2 amigas- Leça da Palmeira / Matosinhos
Coutinho e Lima - Lisboa

David Guimarães e Lígia - Espinho
Delfim Rodrigues - Coimbra

Eduardo Ferreira Campos - Maia
Ernestino Caniço - Tomar

Fernando Gouveia - Porto

Hernâni Joel Silva e Branca - Lisboa
Hélder V. Sousa - Setúbal

Idálio Reis - Cantanhede

J. L. Vacas de Carvalho - Lisboa
Joao Alves Martins e Graça - Lisboa
Joao Maximiano - Santo Antão / Batalha
Joao Sacoto e Aida - Lisboa
Joaquim Carlos Peixoto e Margarida - Penafiel
Joaquim Gomes Soares e Maria Laura - Porto
Joaquim Luís Fernandes - Maceira / Leiria
Joaquim Luís Mendes Gomes - Mafra
Joaquim Mexia Alves, Catarina e André - Monte Real / Leiria
Joaquim Pinto de Carvalho - Cadaval
Jorge Araújo - Almada
Jorge Cabral - Lisboa
Jorge Canhão e Maria de Lurdes - Oeiras
Jorge Picado - Ílhavo
Jorge Pinto e Ana Maria - Lisboa
Jorge Rosales - Monte Estoril / Cascais
José Alberto Pinto - Barcelos
José Almeida e Antónia - Viana do Castelo
José António Chaves - Paço de Arcos / Oeiras
José Barros Rocha - Penafiel
José Botelho Colaço - Lisboa
José Casimiro Carvalho - Maia
José Diniz Faro - Paço de Arcos / Oeiras
José Eduardo R. Oliveira - Alcobaça
José Fernando Almeida e Suzel - Óbidos
José Leite e Ana Maria - Sintra
José Manuel Cancela e Carminda - Penafiel
José Marques e Florinda - Paredes
José Miguel Louro e Maria do Carmo - Lisboa
José Nunes Francisco e família (5) - Batalha
José Ramos Romão e Emília - Alcobaça
José Zeferino e Duarte - Loures
Juvenal Amado - Fátima / Ourém

Liberal Correia e Maria José - Ponta Delgada (RA Açores)
Lucinda Aranha e José António - Santa Cruz / Torres Vedras
Luís Duarte - Seixal
Luís Graça e Alice- Alfragide / Amadora
Luís Moreira - Mem Martins / Sintra
Luís Paulino e Maria da Cruz - Algés / Oeiras

Manuel Fernando Sucio - Vila Real
Manuel Joaquim, Alexandra e José Manuel - Agualva / Sintra
Manuel Lima Santos e Maria de Fátima - Viseu
Manuel Ramos - Lisboa
Manuel Reis - Aveiro
Manuel Resende e Isaura - S. Domingos de Rana / Cascais
Mario Vasconcelos - Guimarães
Miguel e Giselda Pessoa - Lisboa

Paulo Santiago - Aguada de Cima / Águeda

Raul Albino e Rolina - Vila Nogueira de Azeitão / Setúbal
Ribeiro Agostinho e Elisabete - Leça da Palmeira / Matosinhos
Ricardo Figueiredo e Cândida - Porto
Ricardo Sousa e Georgina - Lisboa
Rogé Guerreiro - Cascais
Rui Gouveia e Eulália - Leiria
Rui M. D. Guerra Ribeiro - Lisboa
Rui Pedro Silva - Lisboa
Rui Silva e Regina Teresa - Sta. Maria da Feira

Valentim Oliveira, Maria Joaquina, Cyndia e Carina - Viseu
Victor Tavares - Recardães / Águeda
Virgínio Briote e Irene - Lisboa
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Guiné 63/74 - P14447: Os nossos seres, saberes e lazeres (84): O Leitão da Bairrada - Uma dávida e um milagre da natureza, do Doutor Manuel dos Santos Oliveiros (Vasco Pires)

1. Mensagem do nosso camarada Vasco Pires (ex-Alf Mil Art.ª, CMDT do 23.º Pel Art, Gadamael, 1970/72), com data de 13 de Março de 2015:

Bom dia Padrinho,
Cordiais saudações,
Como não tenho o talento do Camarada Francisco Baptista, para fazer essas "Viagens na minha terra", peguei emprestado um escrito do meu saudoso Mestre (e do Manuel Reis) Doutor Manuel dos Santos Oliveiros, que era também o Diretor informal, aquele que "descia o cacete" quando necessário.
Não vou falar das outras "maravilhas Bairradinas", porque são demasiado evidentes...
Fica a teu critério a publicação deste escrito.
forte abraço
VP


O leitão da Bairrada
Uma dádiva e um milagre da Natureza*

Dedicatória
Este pequeno trabalho de “saberes” e “lembranças” de um Médico Veterinário rural, que começou a sua actividade em 1 de Outubro de 1936, na Bairrada, é dedicado, com muito apreço à Confraria Gastronómica do Leitão da Bairrada

O seu nascimento e a sua criação, em regime doméstico, ocorria em pocilgas, nas quais, para tal fim existia um “varrasco” de raça Bísara e uma ou várias “porcas criadeiras”.

A alimentação destes animais não diferia em qualidade, da de outros suínos que eram criados com o fim de fornecerem carne e toucinho para o consumo do agregado familiar:
- cereais diversos, com primazia para o milho, em grão ou farinha com farelos, tubérculos, raízes, legumes e verduras, bem como diversos frutos a que nunca faltavam as uvas, daquelas produtoras do vinho da Bairrada;
- água de nascentes, poços ou fontes, todos estes produtos de origem bairradina, semeados, criados e colhidos na região.

A Bairrada (concelhos de Anadia, de Oliveira do Bairro, da Mealhada e uma pequena parte dos de Águeda e Cantanhede) é uma região de solos argilo-calcários, com características muito peculiares, acompanhada de um clima muito especial.
São as características edáficas que explicam muitos factos da vida terrestre, tanto no que respeita à vida animal, como principalmente à vida vegetal, de que depende não só o Homem, como os animais, para seu sustento; são estas características influenciadas pelos microorganismos microscópicos animais e vegetais que nele pululam.
Aliados a estes factores, há a considerar as emanações ou eflúvios que se evolam dos elementos de um clima especial, que se faz sentir pela acção da luminosidade, da temperatura, da humidade, da pressão atmosférica e das brisas e dos ventos, que conseguem fazer da Região da Bairrada, um paraíso terrestre, de pâmpanos verdes na Primavera, doirados aos sóis do Verão e rubros e afogueados pelo sol do Outono.
Tudo isto consegue ser transmitido através do leite das mães aos seus filhos, dando origem ao LEITÃO DA BAIRRADA, que é Uma Dádiva e um Milagre da Natureza.

Eis o “LEITÃO DA BAIRRADA” o qual, depois de assado, segundo os rituais da tradição, apresenta uma mistura de cor doirada e afogueada da terra onde nasceu e que mantém os seus perfumes e os seus sabores, os perfumes e os sabores que a Natureza lhe imprimiu, por mor de uma infiltração e impregnação misteriosa e mágica.
Eis o “leitão assado da Bairrada”, o manjar de deuses e também dos Homens, especialmente dos Homens que, vivendo do espírito, sabem comer.


O porco bísaro – (tipo céltico)

BÍSARO é o nome de uma raça de porcos, autóctones, que povoa todo o Norte de Portugal, acima do Tejo. É um suíno do tipo céltico, longilíneo, mais produtor de carne que de toucinho, ao passo que o porco alentejano pertence ao tipo ibérico e apresenta características bem diferentes. Esta raça existiu largamente representada em toda a Bairrada, em regime de criação doméstica ou caseira. Ao longo dos anos, foi sendo substituída por porcos de raça inglesa, o Yorkshire, Large Wihte – um cruzamento do porco céltico indígena inglês com a raça italiana de Nápoles – raça mais apurada, mais precoce e mais “februda”, na maneira de dizer dos nossos lavradores.

Em 1 de Outubro de 1936, quando comecei o meu trabalho, no concelho de Oliveira do Bairro, como Inspector Municipal de Sanidade Pecuária e, depois em 1937, também em Anadia e Mealhada, esta raça de porcos estava disseminada por casa dos lavradores da região e também por muitas casas particulares de pessoas não ligadas directamente aos trabalhos da terra.
Eram criados e cevados (engordados) para serem abatidos durante os meses de frio (Novembro, Dezembro e Janeiro), com o fim de servirem para o consumo das famílias de harmonia com um ritual festivo que ainda hoje é lembrado e praticado ao vivo em algumas povoações da região, sempre em ar de festa: - as célebres e celebradas “MATANÇAS DO PORCO”.
Todavia, nem todas as famílias tinham as condições necessárias mínimas para criar e engordar um porco por ano, com o fim de ser morto, para servir de governo da casa.
E sendo assim, recorria-se à sua compra em feiras que todos os meses se efectuavam na região: as feiras da Fogueira, de Vilarinho do Bairro e da Moita, com concelho de Anadia; a importante feira da Palhaça, no concelho de Oliveira do Bairro; a feira de Santa Luzia, no concelho da Mealhada e a muito concorridas feira das Almas Santas d’Areosa, no concelho de Águeda, quase no limite do concelho de Anadia; bem como a feira de Cantanhede.

A título de curiosidade, digo que um porco cevado, em condições de ser morto para consumo, custava nesse tempo (1937), a módica quantia de 500 escudos[1], com o peso vivo de seis arrobas, calculadas a olho.
No dia seguinte à matança, depois de ter deixado decorrer o tempo necessário ao “amadurecimento” da carne, procedia-se à operação de desmanchar o porco, operação designada na região por “desmancha”, e as “peças” que daí resultavam eram enterradas em sal marinho cristalizado, em grandes caixas de madeira, as “salgadeiras”, para se conservarem durante um ano e fazerem parte do “governo da casa”.

“Pernalta e esgalgado, focinho comprido e rabo em saca-rolhas” (em dizeres populares), pelagem cerdosa malhada de preto, assim eram os Bísaros da Bairrada. Morfologicamente iguais a todos os suínos de raça Bísara que povoam as regiões das Beiras, do Minho, do Douro e de Trás-os-Montes, mas… …FISIOLOGICAMENTE diferentes de todos, por razões óbvias, já indicadas.
Foram eles que deram origem ao “Leitão da Bairrada”.
Os factores hereditários, os factores edáficos e os factores ambientais, aliados aos factores alimentares, criam o “Leitão da Bairrada”, que assim não é mais do que uma Dádiva e um Milagre da Natureza.


A idade dos suínos

Os Leitões da Bairrada destinados a serem abatidos para a confecção do manjar típico e de grande renome, não só em Portugal, como em todo o mundo gastronómico, o chamado e conhecido LEITÃO ASSADO DA BAIRRADA, devem ser abatidos, de preferência, à data do desmame, quando têm 8 semanas, ou seja 2 meses de idade.
Para tanto é indispensável que se saiba determinar a sua idade, quando se receie fazer fé na informação prestada pelos criadores de leitões.
Anote-se:
- os leitões, ao nascer, têm 8 dentes: - 4 caninos, chamados colmilhos e 4 post-molares posteriores, distribuídos pelas duas maxilas;
- ao mês, com o nascimento de 2 incisivos centrais – os pinças – no maxilar inferior, o leitão fica com 10 dentes;
- aos dois meses, começam a aparecer os 2 pinças do maxilar superior e os 2 incisivos médios no maxilar inferior, apresentando os leitões, nesta idade, 14 dentes. (Tendo nesta idade um peso vivo que oscila entre os 8 e os 9 quilos, está na idade de preferência para o seu abate e preparação do leitão assado).
- Aos três meses, dá-se a erupção dos 2 incisivos médios do maxilar superior, ficando o leitão com um total de 16 dentes e apresentando um peso vivo que varia entre os 9 e os 10 quilos. (A partir desta idade, o leitão deixa de ser leitão, para ser bácoro – porco novo e ainda pequeno, mas um pouco mais do que leitão).

Embora nada tenha a ver com a idade dos leitões, parece-me pertinente, que aqui fique referida as restantes idades dos suínos até aos 3 anos, muito embora a maior parte destes animais não sobrevivam para lá de 1 ano, a idade aconselhável de abate para o consumo das suas carnes e das suas gorduras.
E assim,
- entre os 6 e os 10 meses, os 2 colmilhos e os 2 post-molares posteriores do maxilar superior caem e são substituídos por dentes da dentição permanente;
- ao ano, caem os 2 colmilhos e os 2 post-molares posteriores do maxilar inferior e aparecem os dentes permanentes que lhes correspondem;
- com 1 a 2 anos, caem e são substituídos os 4 incisivos centrais – os pinças – dos dois maxilares;
- com 2 a 3 anos, caem e são substituídos os 4 incisivos médios das duas maxilas. (A partir desta idade é difícil conhecer a idade dos porcos; apenas podemos recorrer ao desenvolvimento dos colmilhos – no estado adulto, o porco apresenta uma dentição permanente de 44 anos: - 12 incinsivos, 4 colmilhos, 16 pré-molares e 12 molares).

Voltemos atrás, aos leitões de 8 semanas (dois meses).
Transportados para o local de abate, é de regra fazerem um repouso de 24 horas, com uma dieta exclusivamente hídrica. Passado este período de repouso são insensibilizados[2] e a seguir abatidos por sangria; depois escaldados e esbolhados; depois de estonados, são abertos pela linha média ventral, eviscerados nas duas cavidades – a torácica e a abdominal; a seguir, lavados interna e externamente e postos a escorrer e a enxugar, para, por último, serem assados em fornos aquecidos com lenha – de preferência de videira – segundo preceitos antigos, com ritual próprio.


A Alimentação do porco de raça bísara (em terras da Bairrada)

A sua alimentação era constituída pelas “lavagens”, nome, com certeza, derivado da composição desses alimentos.
Em vasilhas de madeira, com aduelas – os “baldes”, com capacidade entre os 10 e os 15 litros – despejavam-se as águas das lavagens dos utensílios da cozinha (panelas, tachos, sertãs) e também a água das lavagens da louça usada nas refeições do agregado familiar, bem como os resíduos e as sobras das refeições. Isto numa época em ainda não se usavam detergentes nestas operações de lavagem. Os “baldes” tinham a forma de um tronco de cone, em que o perímetro da base ou fundo do balde era menor do que o perímetro da boca ou abertura. Tinha duas aduelas suficientemente salientes, em posição diametralmente oposta, e furadas por onde passava uma pequena vara cilíndrica, que servia de pega[3].
Às “lavagens” eram adicionados alguns punhados de farinha de milho, obtida nos moinhos das proximidades, com os grãos de milho existentes nas casas, desde a época das colheitas, em grandes caixas de madeira, as “arcas”.
Estas “arcas” faziam parte do mobiliário das adegas, para além do “cincho”, da “dorna”, dos “cântaros de almude”, dos “quartos”, das “pipas” e dos “tonéis” e também de um ou mais bancos de três ou quatro pés.
À água das “lavagens”, engrossada com farinha de milho, juntava-se: talhadas de abóbora porqueira, batatas, nabos, beterrabas, cenouras, tudo cortado em pedaços, umas vezes crus, outras cozidos, folhas de couves, migadas e muitas vezes escaldadas e fruta da época – figos, maçãs e, como não podia deixar de ser, uvas! De notar que as “lavagens” assim compostas, eram, pelos lavradores mais cuidadosos, condimentadas com umas folhas de louro e um raminho de carqueja florida, sem faltar o sal das cozinhas.
Estes alimentos eram levados aos currais dos suínos, nos tais baldes, duas vezes por dia: uma logo pela manhã, à primeira claridade, outra à tardinha, ao escurecer. Como complemento desta alimentação, uma ou duas vezes por dia, eram fornecidos aos animais várias “malgas” de grãos de milho seco ou remolhado e um molho de erva enxuta, ceifada na véspera, e espalhada em pequenos montículos, na cama de fetos e mato que atapetava o chão dos currais.
Na época da ceva ou engorda, eram os porcos alimentados com grandes quantidades de milho e batatas, para além da alimentação normal do ano.


Os currais de porcos ou pocilgas

Construídos sob o signo da poupança, nos atrases da residência dos lavradores da região, em espaços geralmente rectangulares, atapetados de “mato” e designados por “aido” 3 ou “quinteira”, eram construções toscas com paredes feitas em adobos, por rebocar e tetos de telha vã. O chão, geralmente térreo, era atapetado com fetos e mato, este constituído predominantemente por urze e carqueja, para servir de cama aos animais[4].
A “decoração” destes compartimentos era feita de numerosas teias de aranha, uma já velhas e cheias de pó, outras recentes, pendentes das traves do teto e outras das paredes.
As portas eram construídas de tábuas por aparelhar, pregadas umas às outras com o auxílio de traves ou travessas – fasquias de madeira – e fechadas com tramelas, também de madeira, de fácil manejo. Os lavradores mais supersticiosos cravavam, na parte interior da porta, uma grossa cavilha, onde, por vezes, se viam dependuradas umas calças velhas do dono da casa e viradas do avesso, e também um ramo de Rosmaninho ou de Arruda, com “poderes” sobrenaturais, para afugentarem os “maus olhados”, o “mal de inveja”, as “pragas que nos rogam” e as doenças incuráveis (dos animais), a conselho de bruxas e curandeiras que tinham já feito as suas visitas e recitado as suas “rezas” e praticado as suas “benzeduras”.
Em cada curral existiam duas pias, construídas de madeira ou talhadas em pedra (mais recentemente, em cimento), uma das quais servia para as “lavagens” e a outra para estar sempre com água limpa e fresca, diariamente substituída, para os animais beberem. Era também frequente encontrar-se aí uma “telha portuguesa”, arrecadada junto à soleira da porta do curral, para nela se fazerem “defumações”, com pó de enxofre e “erva benta” (pontas de raminhos de alecrim benzidos no Dia de Ramos), isto. Após a visita de curiosos, de bruxas e curandeiros, aquando das doenças dos animais.


Últimas palavras

Para confirmação das informações acerca da raça bísara dos porcos que povoavam, em 1936 e nos anos seguintes, a Região da Bairrada, transcrevo o que escreveram, no Relatório do Chefe de Serviço (da 3.ª Repartição) da Direcção geral dos Serviços Pecuários (publicado em dezembro de 1941 – Porto, Tipografia Leitão, página LVI), o Médico Veterinário, Aldovino Pereira Lucas e o seu colaborador e colega Armando Moradas Ferreira:
“…Uma linha natural – o curso do Tejo – separa nitidamente as zonas de dispersão dos dois grupos porcinos em que no País a espécie está representada. …o porco transtaganao, de tipo românico, que vive em toda a região do Alentejo… todo o resto do território continental mantém o porco bísaro do tipo céltico. Este porco tem sido cruzado com indivíduos de raças exóticas”.

Para terminar, uma curiosidade estaística: em 31 de Dezembro de 1940, existiam na Região da Bairrada (aqui alargada à totalidade dos cinco concelhos), 26.677 suínos, assim distribuídos pelos seus cinco concelhos: Águeda – 6591; Anadia – 6366; Cantanhede – 6761; Mealhada – 2917; Oliveira do Bairro – 4042.

Manuel dos Santos Oliveiros
Publicado na Revista Aqua Nativa N.º 18
Agosto 2000

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[1] NR – De acordo com o coeficiente de desvalorização da moeda, aprovado pela Portaria n.º393/99, de 29 de Maio, a “módica” quantia de 500$00, corresponde hoje (2000) a 63.415$00

[2] NR- O autor refere-se ao processo actual e obrigatório de abate em matadouro industrial. É, neste caso, de preceito legal que sejam inspeccionados sanitariamente, por um Inspector Sanitário – um Médico Veterinário – em vida, quando estão prestes a ser sacrificados, e também post-mortem, quando já estão dependurados em ganchos a enxugar, acompanhados das suas vísceras, em tempo que antecede a sua assadura. Ao serem aprovados para consumo público, são marcados a fogo, com carimbo próprio, na presença do Inspector Sanitário. Como é bem de notar, estes procedimentos não constavam, nem constam dos abates tradicionais, em casas particulares, para consumo familiar.

[3] Estes baldes eram obra artesanal de tanoeiros, uma profissão que parece estar em vias de extinção, na Região da Bairrada, onde chegaram a ser numerosos. Os mesmos baldes ou outros semelhantes serviam, também, para tirar água dos poços, presos à vara da “cegonha” ou “picota”.
NR – Esta designação não era comum a todos os lugares, na Bairrada, pois, por “aido” ou “eido” era geralmente conhecido o quintal, quinteiro ou pátio junto à casa; o mesmo se passa em a expressão “quinteira” ou “quinteiro”, de acordo com uma recolha de vocabulário regional, em tempos levada a cabo pelo Director desta Revista.

[4] Este tapete de mato era substituído periodicamente por mato novo, sendo que o mato retirado ia para uma montueira para, mais tarde estrumar as terras.

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Artigo publicado com a devida vénia a Confraria Gastronómica do Leitão da Bairrada
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de Abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14444: Os nossos seres, saberes e lazeres (83): Mau tempo no canal: do Faial ao Pico, ali perto está S. Jorge (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14446: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (2): Partida para Bolama, IAO e visita do General Spínola

1. Mensagem do nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), com data de 25 de Março de 2015:

Olá camaradas amigos Carlos Vinhal e Luís Graça.
Em anexo segue mais uma parte das minhas memórias no seguimento do anterior texto, e 2 fotografias.
Para quando der jeito publicar se assim o entenderem.

Abraço fraterno
António Murta


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA - GUINÉ, 1973-74

[Recapitulando: 16-03-1973 – Partida de Lisboa; 22-03-1973 – Chegada a Bissau, pequena incursão na baixa da cidade à noite, primeiras decepções, regresso ao Uíge].


2 - PARTIDA PARA BOLAMA

Deitei-me à 1h30 da madrugada (última noite no navio), para me levantar às 3 horas e preparar a saída para Bolama, com os soldados de duas Companhias, a bordo de uma LDG da Marinha. Pelo menos outra se lhe seguiria com o resto das tropas. Saímos de Bissau às 5 horas da madrugada e chegámos a Bolama às 10 horas. Era uma sexta-feira, 23 de Março de 1973.

[Lamentavelmente não tenho notas nem memória para descrever a viagem que deve ter sido uma experiência única. Pela mesma razão ficará sem registo o desembarque que, para a grande maioria, foi a primeira vez que pisaram solo africano].

Não recordo se a LDG ficou ao largo, se atracou no cais. Essas situações dependiam sempre do estado das marés que, em toda a costa da Guiné, e pelo seu interior adentro, é sempre de alguns metros de altura. O que recordo foi a recepção que nos fizeram dezenas de crianças e algumas mulheres, habituadas que estavam a que à sua terra estivessem sempre a chegar novos contingentes, à medida que outros saíam. E zumbiam à volta dos tropas a oferecer os préstimos das lavadeiras que, sabiam, poucos iriam dispensar. Pediam também dinheiro (patacão) de mão estendida. Eram uns safados e umas safadas, muito batidos naqueles contactos, mas muito bonitos e gentis. Foi o primeiro contacto com o calor humano local, a suavizar angústias, medos indefinidos e dúvidas sobre o futuro.

Faltava instalarmo-nos e fazer o reconhecimento da cidade. Um espanto! Como fora possível que uma cidade daquelas, tão pequena e desprezada, tenha sido a capital da Guiné? Só estou a ver uma explicação: em toda a Guiné não havia outra com melhores condições e infra-estruturas para ser a capital da colónia. Até ao desenvolvimento de Bissau. (Ou seria por estar a bom recato das beligerâncias do interior da colónia? Ou para evitar novas ocupações estrangeiras? Em termos de história, isso foi anteontem, em quinhentos anos de presença portuguesa...). Ainda assim, uma avenida – não asfaltada – leva-nos, subindo, a um grande jardim público abandonado, no topo do qual se apresenta o imponente edifício que fora a Administração da colónia. Lateralmente e não muito distante havia o Hotel Turismo, pequeno mas com alguma nobreza, que fora a filial do Banco Nacional Ultramarino inaugurado em 1903 e que, agora, era a Messe de Oficiais.

Para além dos quartéis, havia as escolas, a igreja, a tipografia, o Clube dos Bombeiros com os seus matraquilhos, ping-pong e bar, onde íamos à civil beber uns copos e observar as senhoras brancas, mulheres dos outros oficiais. Junto ao cais, na baixa, havia uma piscina que só utilizei uma vez por receio daquelas águas. Melhor que tudo era o restaurante de portugueses onde, quando era possível, tirávamos a barriga e a alma de misérias.

Esta pequena urbe empoeirada e quente não é nada do que tinha imaginado mas, nas horas amenas dos fins de tarde, dava-me imenso prazer deambular pelas suas ruas quase desertas, apreciando as suas casas coloniais, muito abandonadas, com as sua varandas típicas, e ir descendo até ao cais onde me sentava sozinho a assistir ao pôr-do-sol, imaginando as praias da minha Figueira da Foz. Depois, lembrava-me que estava sentado ao contrário, virado para o canal de Bolama e para o continente, e que à minha esquerda tinha o norte e não o sul, e levantava-me irritado e virava costas. Para mais, dali de frente, de S. João, é que têm partido os mísseis do PAIGC nos ataques à cidade, segundo nos dizem, para susto dos periquitos. Mas, quando podia, voltava lá.

Nesses entardeceres cálidos e perfumados mas cheios de luz, era um espectáculo apreciar os bandos de morcegos, aos milhares, num esvoaçar barulhento e nervoso. Tudo era novidade. E os abutres (jagudis) com o seu ar decrépito nos ramos secos das árvores? Quando escurecia continuavam a ver-se as suas silhuetas, atentas e diligentes, para bem da salubridade da cidade.

O que para mim foi mais desagradável, quase chocante, foi o primeiro contacto com os habitantes da periferia na zona ribeirinha da cidade, na quase totalidade de confissão muçulmana. Numa das minhas deambulações, passei frente às suas modestas moradias e pude ver como me olhavam quase com hostilidade, tal como em Bissau à chegada, enfiados nas suas enormes roupas brancas, barretes da mesma cor, sentados às portas (parece que nunca tinham nada para fazer...), a mascar qualquer coisa (coca?) e a cuspir para o chão. Quase que não vi mulheres (estariam a trabalhar?) mas tinham que ser muitas, já que cada homem podia ter duas, três, quatro ou mais, segundo a suas posses!... Além disso havia muitas crianças. Pude ver, ainda, nos que caminhavam, como eram muito magros e, alguns, bem altos. Outros, mais jovens, passeavam-se aos pares agarrados pelo dedo mindinho. Se fosse na Metrópole seria um escândalo, mas ali era normal e não tinha nada a ver com o que parecia.

Apesar do registo de algumas notas mais cinzentas, não fora o objectivo que ali nos tinha levado, e poderia dizer que era bom estar em Bolama. De bom grado aqui passaria a comissão, mesmo se o preço fosse ficar sem saber como era o resto da Guiné.


26 de Março a 22 de Abril de 1973 – IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional)

Relata a história do meu Batalhão: «A IAO teve lugar na ilha de Bolama de 26MAR73 a 22ABR73. Foi um período duro de instrução, em que o esforço despendido, não terá talvez correspondido totalmente aos resultados obtidos, mas melhorou substancialmente a sua preparação».

Realmente, ainda antes de irmos para o interior da ilha, ali bem junto da cidade começaram exercícios bem duros, como atravessar na maré baixa zonas de lodo a dar pela cintura, com armas às costas e demais equipamentos. Era até desfalecer. Tive o privilégio de me poupar a parte destes exercícios por ter iniciado um período de aperfeiçoamento da prática com minas e explosivos, a minha especialidade.

Ainda na cidade de Bolama, um dia marcou de forma diferente a rotina dos afazeres da preparação militar. Foi a chegada do General Spínola (Caco-Baldé, como era conhecido), para dar as boas vindas ao Batalhão.


27 de Março de 1973 – (terça-feira)[ou dia 28?] – Chegada do General Spínola

Há muito que todo o Batalhão se encontrava em formatura frente ao edifício da Administração, no topo do grande jardim central de Bolama, aguardando a chegada do General. A meio da manhã já a temperatura começava a tornar-se insuportável, e a exposição ao sol e a quase imobilidade, não tardaria a fazer as primeiras vítimas de insolação. Finalmente ouve-se um helicóptero e não muito depois surgiu o General com o seu séquito. Aguardavam-no individualidades militares e os chefes nativos das tabancas locais. Provavelmente também representantes da Igreja, não recordo.

Enfim, toda a escadaria do edifício da Administração estava repleta de individualidades para assistir à cerimónia que não passava de uma rotina para a maioria deles. Essa rotina compreendia a apresentação do Batalhão a sua Excelência, a passagem de revista às tropas, o discurso de boas vindas e o desfile em parada. Tudo muito solene e rígido como convinha, porque sua Excelência era o Comandante-Chefe de toda a tropa na Guiné e o Governador da Província Ultramarina da Guiné. Todos estavam suspensos dos seus gestos, das suas palavras e do fuzilamento dos seus olhares. Éramos muitos, já enervados, para um só actor: autoritário, arrogante e vaidoso.

Bolama, 27 de Março de 1973 – Desfile perante o General Spínola, da 2.ª CCAÇ do BCAÇ 4513

4.º Grupo de Combate comigo à frente seguido dos dois Furriéis do Grupo

E as coisas começaram a não correr muito bem logo no início, na apresentação do Batalhão. Como era da praxe, o Comandante do Batalhão, TCor C. A. S., colocado na frente das tropas, em continência, apresentou o Batalhão. Para surpresa de todos, com um berro, o General disse:

- Centre-se em relação ao Batalhão!.

Desprevenido, o Tenente Coronel, olhou à esquerda, olhou à direita e deu uns passos laterais tentando centrar-se melhor. Repetiu a continência, repetiu o pedido de apresentação e, o General, no mesmo tom de voz, repetiu a ordem para que centrasse em relação ao Batalhão. Parecia demais para ser verdade, mas era o que estava a acontecer. Puro e gratuito achincalhamento na presença de todos os subordinados de um militar que fora o Comandante do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, (meu comandante aí), entidade militar de respeito naquela Unidade e em todos os actos públicos da referida cidade, enfim, ali reduzido a um militarzeco desautorizado perante todos os homens que era suposto vir a comandar. (Talvez por isto não tenha comandado nada, porque logo após o final da IAO, mas já em Aldeia Formosa, foi evacuado para a Metrópole por motivo de doença em que nunca acreditei).

Como me tinham prevenido os “velhinhos” de Bolama, com ar de gozo, o discurso que o General faria às tropas, começaria assim: «Conheço-vos a todos! É como se tivesse vindo convosco no barco. Etc., etc.» 

E o General disse-nos do alto da escadaria: «Conheço-vos a todos! É como se tivesse vindo convosco no barco. Também eu sou um soldado como vocês! Etc. etc.». (Por sermos assim uns soldados tão iguais, é que ele tratou o Tenente Coronel daquela maneira...). 

Prosseguiu o discurso e, no final deste, (penso que foi por esta ordem), desceu das alturas e passou em revista as tropas. Também neste caso os “velhinhos” tinham prevenido: «Ele vai deslizar na vossa frente em passo curto e não vai tirar os olhos das vossas caras. A espaços, pára, e fixa com tal profundidade os olhos de quem tem na frente que, não raro, o coitado desmaia e cai-lhe aos pés... Especial atenção aos Alferes!, diziam ainda».

E assim foi. Não recordo se alguém desmaiou, mas foi como me tinham dito. Claro que o estado de quase insolação também ajudava. Por acaso também parou na minha frente, com o caco a brilhar de um lado e do outro lado o olho a vazar-me profundamente, as comissuras dos lábios torcidas para baixo e um semblante tétrico. Não era mais alto do que eu. Mantive-me firme olhando-o com a mesma intensidade, mas evitando ares de desafio que poderiam deixar-me marcado na sua memória. Mas é verdade que me incomodou.
(...)

[A este propósito, talvez venha a calhar um dia, tecer alguns comentários sobre a minha inadequação (intrínseca) ao serviço militar e à sua hierarquia, apesar do respeito que me merecem aqueles que seguem esse modo de vida. Pode ser que até dê uma boa polémica...].

Acabado o discurso seguiu-se o desfile das tropas. Junto uma fotografia e um corte da mesma com o Grupo de Combate a desfilar.

(continua)

Texto e fotos: © António Murta
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Nota do editor

Primeiro poste da série de 16 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14373: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (1): Embarque para a Guiné, 16 de Março de 1973

Guiné 63/74 - P14445: Imposição de Medalhas Comemorativas das Campanhas a dois militares da CART 1742, no passado dia 27 de Março no antigo RAP 2, em Vila Nova de Gaia (Abel Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Abel Santos (ex-Soldado Atirador da CART 1742 - "Os Panteras" - Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), com data de 28 de Março de 2015:

Amigo Carlos,
Envio-te para publicação umas fotos de camaradas combatentes que foram agraciados, dois deles pertencentes à minha CART 1742, sendo eles: Manuel Maria Gouveia Lopes, Furriel Miliciano Enfermeiro e António Joaquim Castro Oliveira, 1.º Cabo.
Esta cerimónia decorreu no antigo RAP 2, em Vila Nova de Gaia, no dia 27 de Março de 2015 pelas 11 horas, contando com a presença de vários Oficiais das Forças Armadas, e foi presidida pelo Senhor Tenente-General AGE Carlos Filipe Antunes Calçada.


Monumento ao Combatente

As Forças em Parada

O TGeneral Antunes Calçada ao centro com boina escura

Um grupo de combatentes, com o Oliveira em primeiro plano, e logo atrás o Lopes

A Medalha das Campanhas

O ex-1.º Cabo da CART 1742, António Joaquim Castro Oliveira, no momento em que lhe era imposta a Medalha Comemorativa das Campanhas

Alguns do Combatentes a quem foram impostas Medalhas das Campanhas

O ex-Fur Mil Enf da CART 1742, Manuel Maria Gouveia Lopes, no momento da imposição da sua Medalha

Senhor Tenente-General Carlos Filipe Antunes Calçada na sua alocução aos presentes

O desfile das Forças em Parada

O Lopes à esquerda da foto e o Oliveira à direita, ladeiam o Senhor TGeneral Antunes Calçada

O Oliveira e o Lopes junto ao Monumento aos Combatentes
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