segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2326: O Hino de Gandembel e a iconografia do soldado atormentado pelo desassossego (Idálio Reis)

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Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > Vida quodiana... No comments!... As grandes fotografias dispensam legendas.

Fotos: © Idálio Reis (2007). (Editadas por L.G.). Direitos reservados.

Fotos alojadas no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.


1. Mensagem de hoje do Idálio Reis

Grande companheiro Luís

Julgo prudente não emitir qualquer opinião ante a verborreia maliciosa e cínica do paisano Manuel Trindade (1).

Já tive a oportunidade de me pronunciar sobre o hino de Gandembel, aquando do envio, [em 6 de Novembro último,] do CD do António de Almeida. Segue de novo em anexo.

A Tertúlia deverá tomar conhecimento prévio desse post, e então procurarei conseguir dar a compreender o que a letra daquela canção, genuinamente popular, quer significar. A guerra teve várias faces, mas a pior de todas tem sido a do seu branqueamento.

Fraternal abraço à tertúlia do Idálio Reis


3.
Mensagem de 6 de Novembro de 2007:

Meus caros editores-mor:

Enviei para a Escola do Luís um CD contendo 2 versões do Hino de Gandembel, do meu camarada ex-soldado António Almeida.

Demorou mais algum tempo que previa, mas ele andou a encetar diligências para se fazer acompanhar por uma banda, com gravação num estúdio.

Como me afirmou, foi a 1.ª vez que se viu metido nestas alhadas e sentiu-se um pouco nervoso.

De qualquer forma, o Almeida está de parabéns e o Blogue fica mais rico. Quem quiser apoiá-lo, o seu telemóvel é o 932896244.

Anexo um pequeno texto que apelidei de traços de Gandembel, para lhe emprestar algum enquadramento.

Um grande abraço do Idálio Reis.

Comentário de L.G.:


Idálio: Por lapso, o teu texto, tão autêntico, tão profundo, tão rico, de análise de conteúdo à iconografia de Gandembel/Balana e à letra do vosso hino, que acompanhou o envio do CD-ROM com a versão musical do Hino de Gandembel, não foi lamentavelmente publicado na altura (2)... Se o tivesse sido, talvez não houvesse nenhum (pré)-texto humorístico como aquele que publicámos...

E a propósito dou-me agora conta de que, muitas vezes sem querer, podemos magoar as pessoas e os seus sentimentos mais propfundos, com as coisas que escrevemos e publicamos aqui, no nosso blogue... É um risco calculado, com que todos os camaradas da Guiné têm que saber viver... Nada do aqui dizemos é neutro, inócuo, inocente, gratuito...mesmo quando abordamos, com ligeireza, o nosso quotidiano (sofrido) de guerra...

Um ou outro dos nossos camaradas já se têm afastado da nossa Tabanca Grande, discretamente, sem grandes protestos, porque nem sempre se reconhecem nas coisas que publicamos, e implícita ou até explicitamente têm criticado a nossa orientação editorial. Como sabes, o nosso blogue tem feito um esforço por ser plural, pluralista, aberto, isento... Não é fácil, ainda por cima quando se é generoso e se abre as portas a toda (ou quase toda) a gente...

Tu, que estiveste em Balana, sabes a importância que tem uma ponte...Ora o nosso blogue não é apenas um jornal de caserna, uma câmara de eco dos que nele escrevem, um circuito de comunicação fechada e autofágica, é também uma ponte, um elo de ligação entre duas margens, mas também uma via para a outra margem... para aqueles, mais jovens, como porventura é o caso do Manuel Trindade e de outros paisanos que nos visitam - e que, no fundo, nos admiram e respeitam, embora possam não compreender-nos, em parte ou em grande parte... Não vamos cortar essas pontes. E, muito menos, silenciar com tiro de morteiro certeiro aqueles que estão do outro lado, na outra margem...

Temos, contudo, o direito... à indignação quando não respeitam os nossos sentimentos. De qualquer modo, és um homem sábio quando decides desvalorizar o caso... Dito isto, vamos ao que interessa, que é o teu texto, que merece toda a nossa atenção e reflexão.

Não serve de consolo dizer-te isto, mas tenho que o dizer, embora tu o saibas muito melhor do que eu: Gandembel e Balana ficarão para sempre ligados à tua companhia, aos teus bravos da tua companhia, a CCAÇ 2317. Gandembel/ Balana é vosso, para sempre: refiro-me não ao pedaço de floresta desmatada do sul da Guiné, junto ao Rio Balana, onde flutuou a bandeira verde-rubra entre Abril de 1968 e Janeiro de 1969, mas sim às memórias, às emoções, ao desassossego, à saudade, ao medo, à fome, à tristeza, ao desalento, à merda, ao sangue, às lágrimas... e também ao orgulho, ao brio, à coragem, à brincadeira, à camaradagem, à alegria, à esperança... Isso, camarada, nada nem ninguém (nem muito menos a História) vos pode roubar!!!




Hino de Gandembel cantado por António Almeida, residente em pedrouços, Maia, ex-soldado da CCAÇ 2317 ( Gandembel / Balana , 1968/69), com acompanhamento musical de um amigo e conterrâneo. Vídeo: 2 m 42 s. Alojado no You Tube > Nhabijoes.

Vídeo: © António Almeida / Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

Traços de Gandembel: das fotografias ao seu hino
por Idálio Reis

Meus caros Luís, Vinhal e Briote.

Faço enviar, para o Luís, um CD de áudio onde o meu camarada ex-soldado António Pinto de Almeida, residente em Pedrouços-Maia, fez gravar o hino da sofrida Gandembel, cantado a seu modo, entoado como ele o fazia há quase 40 anos. Mas agora, até se deu ao privilégio de se fazer acompanhar de uma banda, e ao ouvi-lo fiquei encantado.

A maneira como se prestou a fazer partilhar este favor que lhe pedi, já o agradeci em nome da Tertúlia. Para quem sempre esteve ao lado desta enorme gente, mais uma enorme prova de estima e consideração por este seu velho amigo.

Porventura, caberá a vez ao nosso balador-mor Gabriel Gonçalves saber conjugar, com o seu benjamim, essa voluntariosa missão técnica de sonoplastia, e assim em definitivo fazer florescer mais uma das célebres cantigas de amigo, para fazer repartir sonoramente por todos nós.

Aproveito a circunstância deste envio, para me debruçar um pouco sobre esta canção, invocando também as fotografias que apareceram no post P2152 de 4 de Outubro (2).

O Luís tem feito destacar uma, em que eu-próprio apareço envolto no cobertor que me servia de colchão, a tentar que uma pá provocativamente calejante, porque a gastaram de tantas canseiras, emitisse um sonido tangível, cristalino e plangente, a fim de que uma transformada canção de gesta ecoasse rio Balana abaixo, e chegasse em velocidade da luz, embalada ao mundo dos meus e dos nossos.

E para seus contentos, lembro-me que lhe incuti uma secreta aspiração, ainda que reconhecesse ser muito difícil de sobrepujar. De todo não chegou ao destino, tudo indiciando que os seus ecos se vieram a sumir no marulhar de um macaréu de lua, acabando por se esvanecer na salsugem do Geba.

E aí se quedou de mansinho durante muitos anos, enquistada talvez nalguma ostra perlífera, e um dia o Luísv Graça & Camaradas da Guiné a remoçou em melopeia cândida e dolente, que cativantemente nos vem seduzindo e incontidamente nos emudece, já que ela teve o condão de aglutinar miríades de recordações marcadas por aquele frenesim delirante que aquela tremenda Guiné tantas vezes nos avassalou.

Procuro perceber as causas desse estancamento repentino, e agora me lembro que, naqueles tempos de antanho, havia imensas dificuldades para transpor as fronteiras do império. A autocracia totalitária tudo abafava, inclusive o exaspero ou o desalento.

De todo o modo, a guerra subversiva que nos entranhava, ainda continha um certo poder de rebusca para de todo não dobrar a cerviz. Deleitantemente houve enlevos que parecem terem-se mantido, como a fotografia que nos mostra este conto-imagem, que fundamentalmente se consubstancia na fidelidade. Ela é uma parte imanente da nossa memória plena, a querer continuar a perdurar bem presente até ao infinito, que não ousa enganar, trair ou ludibriar.

A fotografia fixa uma imagem a advir de um pulsar num determinado momento-instante. Creio que os milhões de vezes que o indicador da mão direita premiu o botão da máquina, revérberos de uma luz intensa, se transformaram em estrelas cintilantes a iluminar o sonho vivo da presença. Mesmo que se assemelhassem a um fogo-fátuo, conseguiram que esboçássemos um doce sorriso, porque ainda estávamos de pé, numa Guiné onde se intentava viver obsessivamente para ver amanhecer o dia posterior.

As 2 fotografias que aparecem no Post, como as que fomos guardando num recanto especial como autênticas relíquias, são fortemente expressivas ao revelarem-se-nos. Talvez por isso, têm de ser observadas com uma apurada acuidade visual, para que nos elucidem em contemplação, o que foram as vivências desses conturbados tempos que nos assolou com tantos confrontos.

E uma grande maioria delas arrebatam-nos sensorialmente a fim de lhes emoldurar uma legenda capaz de as interpretar. Ah!, mas quantas delas denotam uma possança tão forte que nos anuviam os sentimentos e por vezes quaisquer palavras que se lhes apensem, perdem sentido.

Torna-se então preferível aprofundar uma sua absorção, deixar que elas exteriorizem todo o seu conteúdo, mas no êxtase da sua contemplação, nada se consegue comentar. Tudo parece resultar do local e do momento que se pulsou a máquina que a fixou.

Também elas transparecem uma particularidade muito peculiar, a da sua intemporalidade, no contexto em que um relance da sua visão nos transmite todo o itinerário das nossas vidas até ao presente, onde se cruzam emoções em rodopio, uma furtiva lágrima pinge sobre a barba esbranquiçada, para questionar-mo-nos se tantos tropeços valeram a pena.

Aventuro-me a afirmar que nem tudo valeu a pena, apesar de as nossas almas se terem mostrado demasiado grandes, não haja a mínima dúvida. Mas quantas vicissitudes nos foram compulsivas!

O Luís gostou mais de uma, de um conteúdo mais global [«nesta fotografia de um camarada sozinho, no palco da guerra, no cu do mundo, estamos lá todos»]. Será muito difícil não encontrar uma qualquer fotografia que não nos inebrie, dado que elas conseguem desnudar-se nas facetas várias da camaradagem [«as alegrias, as tristezas, a coragem, a solidão, a esperança, os medos, os sonhos, os intervalos»].

É tudo isso, meu caro Luís, a saudade que o isolamento de Gandembel fazia aflorar de um modo persistente, toma lugar com muita veemência. Talvez por isso, a fotografia representa a iconografia do soldado atormentado pelo desassossego.

Já o Nuno Rubim propendeu para uma outra. Intento reconhecer as razões dessas escolhas, já que sobre esta, permitam-me tecer alguns comentários, ao que legendei de banhos de imersão, onde o elemento água toma aqui um valor insuperável.

Gandembel, num dos períodos mais cruciais, o do início do aquartelamento, debateu-se com falta de água, mesmo a provir de charcas que o leito do Balana ia contendo, e que bebemos durante quase 2 meses, ainda que reconhecendo ser imprópria para consumo. Um dos nossos maiores contentamentos deu-se no dia em que começou a haver água bastante, com os débitos do rio a aumentarem.

Esta fotografia revela 2 aspectos: a fartura de água que até servia para o pessoal se comprazer naquelas banheiras verticais, mas os cuidados que eram requeridos, já que os bidões estavam dentro do aquartelamento, apesar da distância ao Balana não superar o meio quilómetro. Mas ninguém ousava banhar-se no próprio rio, pelo risco bélico que sempre nos confrontava.

Já o hino de Gandembel contextualiza a gesta dos que tiveram a desdita de nela ousarem (sobre)viver. A sua concepção surge em circunstâncias particularmente difíceis, onde transparece uma mescla de clemência, agonia, alívio, alegria. O seu contributo para o estímulo da Companhia foi valioso, na pacificidade das tensões, e daí que se viesse a repercutir por alguns aquartelamentos. Hoje o Blogue, ao fazer divulgar a sua forma cantada, fá-lo resplandecer, e torna-se um hossana.

Mas permita-se-me uma leitura aliás bastante subjectiva, muito em especial de alguns dos seus versos.

(i) Das peripécias de guerra mais penosas, foi a audição dos milhares dos ecos das saídas dos morteiros 82, «Gandembel das morteiradas» que quase quotidianamente flagelavam aquele aquartelamento; os momentos de ansiedade e expectativa, enquanto a granada silvava os ares na sua trajectória indefinida, eram aterradores: «Meu alferes, uma saída/Tudo começa a correr»; havia um estrondo quando deflagrava, e tudo se poderia esvair naquele contacto com o solo: onde? longe? ao lado? «Não é p´ra aqui, é p´ra Ponte/Logo se ouve dizer».

(ii) Uma das outras facetas negras, que envolve um doloroso e prolongado tempo, foi a do espectro da fome, pois a variedade das refeições quase não se alterava, em que os frescos não existiam: «A comida principal/É arroz, massa e feijão». Longos períodos sem uma bebida que não fosse água: «Bebida, diz que nem pó/Acontece o mesmo ao vinho».

Sim, Gandembel foi um local onde o perigo pairava a cada momento, e o seu tempo mais agradável conhecia-se por bonança. E, por vezes ao entardecer, saía de uma caserna-abrigo, um coro à capela, à busca de um contentamento de tranquilidade, e também de rogo para que a noite decorresse sem queixumes.

Mas quantas vezes, no pedido não satisfeito, as noites estremunhavam e o cansaço ou desalento agudizavam-se. E mal despontava o dia, em alvor da madrugada fustigante, ouvia-se um forte brado, de revolta, não mais que um grito de chamamento para ninguém: «TIREEEEEM-ME DAQUI!».

Um fraterno abraço a todos, do Idálio Reis.

________


Notas de L.G.:

(1) vd. posts de:

1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2321: Humor de caserna (3): Hino de Gandembel: hino de guerra ou música pimba ? (Manuel Trindade)

2 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2323: Um insulto aos heróis de Gandembel (Zé Teixeira)

2 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2324: (Ex)citações (1): Um pouco de humor de vez em quando também nos faz bem (Henrique Matos)

(2) Vd. post de 1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2319: Hino de Gandembel: interpretação de António Almeida (CCAÇ 2317, Gandembel/Balana, 1968/69)

Guiné 63/74 - P2325: Massacre do Chão Manjaco: Todos iguais na morte, mas nos relatórios uns mais iguais do que outros (João Tunes)

Guiné > Região de Tombali (Catió) > Rio Cumbijã > Junho de 1970. Em primeiro plano, o Alf Mil Trms, que pertenceu inicialmente à da CCS do BCAÇ 2884, Pelundo, 1969/70; transferido depois para o batalhão de Catió, por razões disciplinares de que muito se orgulha: foi punido pelo Ten Cor Romão Loureiro (1) .


Foto: © João Tunes (2005). Direitos reservados.



1. Mensagem de João Tunes:

Camaradas,

Considero um excelente contributo, para o registo da guerra colonial, o relatório secreto transcrito no post P2320 sobre o massacre no chão manjaco (2). E se um dia se puder obter o relatório do PAIGC sobre a mesma acção, teremos uma visão clara e objectiva sobre um dos acontecimentos mais traumáticos na vertente psico da guerrilha/contra-guerrilha verificada nos teatros de operações onde, em treze anos de guerra, se verificou o estertor do multi-secular império colonial português. Muitos parabéns, pois.

Para além do enquadramento objectivo do resultado do massacre que se obtém pelo relatório militar publicado, um aspecto singular nele me chamou a atenção e que julgo ter implicações óbvias de leitura. Quanta retórica de indignação nós não gastamos a enaltecer uma presumida igualdade de todos os que, sob a bandeira portuguesa, se bateram pela continuidade da soberania portuguesa (militares do quadro, militares milicianos, guineenses integrando ou apoiando a tropa portuguesa).

No entanto, repare-se que o relatório, quanto às baixas (os sete assassinados), não esquece as devidas distinções de consideração no trato, pois que, entre os sete caídos em missão, na mesma missão, até na morte foram desiguais no trato militar: 3 (três) eram “Ex.mo Major”, 1 (um) era “Sr. Alferes” e 3 (três) eram “nativos”.

Enquanto no realce aos três militares que se destacaram na acção da CCAÇ 2586, o primeiro cabo e os soldados como tal são nomeados, sem direito a Excelência ou a Sr. (mas sem a carga preta de serem nomeados como nativos). Presumindo-se que todos, das excelências até aos nativos, eram cidadãos de Portugal do Minho a Timor, as distinções são, pelo menos, paradoxais. Mas relevantes.

Fiz o meu modesto elogio a este excelente post no meu blogue [e que se reproduz a seguir, com a devida vénia. L.G.]

Abraços para todos os estimados camaradas.

João Tunes


2.
Blogue de João Tunes (Ano V na Blogosfera) > Água Lisa (6) >1 de Dezembro de 2007
Quando a Guerra Correu Mal, Muito Mal


Um dos episódios mais dramáticos que o absurdo da guerra colonial implicou, em preço de sangue e emoção, para as Forças Armadas portuguesas, foi o massacre de quatro oficiais portugueses e três guineenses ao serviço do exército colonial, ocorrido junto ao quartel do Pelundo no centro-norte da Guiné, em Abril de 1970. Não pelo número de baixas, pois houve combates com muitas mais vítimas do lado português, mas por quatro ordens de razões: o número de oficiais superiores entre as vítimas; a qualidade militar dos três majores (faziam parte da elite do corpo de oficias sob comando de Spínola e contavam-se entre os melhores especialistas militares em contra-guerrilha); terem sido assassinados não só com requintes de crueldade como se encontravam desarmados; o volte-face que representou esta acção do PAIGC (a missão destinava-se a receber a rendição de forças do PAIGC e era o culminar de longas negociações e de acção de aliciamento) em que uma prevista rendição de guerrilheiros se transformou num golpe profundo que liquidou três oficiais portugueses de elite e acentuou o caminho para a guerra total.

Aqui [no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] acaba de ser editado o relatório militar secreto da força operacional que fez a recolha dos corpos dos massacrados e que saiu do quartel do Pelundo em acção militar desencadeada após tardar o regresso da força que ia receber a rendição da força do PAIGC (e para a qual se previa a sua integração no exército português).

Trata-se de um documento de grande importância no esclarecimento sobre as partes dramáticas vividas na guerra colonial, incidindo sobre um dos seus episódios mais traumáticos. De consulta obrigatória para os interessados em saber como elas mordiam, mesmo quando a miragem de uma grande ou pequena vitória parecia estar frente aos olhos.

[Na minha comissão militar na guerra da Guiné, conheci e fiz amizade pessoal com os três majores massacrados, todos inteligentíssimos, destemidos, cultos e de formação humana excepcional, sendo o mais brilhante entre eles (Passos Ramos), o que acrescenta absurdo ao acontecido, um militar que era contra a ditadura e a guerra colonial. Em tempos idos, dediquei-lhes este post.](3) (4).

___________

Notas dos editores:

(1) 27 Novembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCXVI: BCAÇ 2884 (Pelundo, 1969/71), o primeiro batalhão do João Tunes

(...) "Obrigado por finalmente teres avivado a minha memória, lembrando-me o número do meu Batalhão do Pelundo. É isso, BCAÇ 2884, sob comando desse Tenente-Coronel de pacotilha Romão Loureiro (antes da Guiné, o tipo havia feito a maior parte da sua carreira "militar" na União Nacional, tendo chegado a Presidente da Câmara de Viseu... e foi fazer aquela comissão para poder ascender a Coronel, mas [...] sabia tanto de guerra como eu sei da cultura de alcagoitas) (...).

(2) Vd. post de 1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2320: Relatórios Secretos (1): Massacre do Chão Manjaco: O resgate dos corpos (Virgínio Briote)

(3) Vd. post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

(4) Outros textos do João Tunes publicados na I Série do nosso blogue, e que merecem ser relidos, pela qualidade da escrita e pela sua postura crítica:

31 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXXVII: A 'legenda' do capitão comando Bacar Jaló (João Tunes)

30 de Maio de 2006 > Guiné 63/74- DCCCXVIII: Confissões de um pacifista: A minha paixão pela bela Kalash (João Tunes)

27 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCV: O 'turra' Luandino Vieira recusa Prémio Camões (João Tunes)

24 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCII: O limpo e o sujo, nós e os pides (João Tunes)

24 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCI: Todos camaradas, mas uns mais do que outros ? A propósito do assassínio de Amílcar Cabral (João Tunes)

24 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXVII: Fazer a catarse antes de vestir a toga de juiz (João Tunes)

17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXVI: E os patriotas guineenses, torturados e assassinados em nome de Portugal ? (João Tunes)

17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXVIII: Ainda sobre os fuzilados... ou comentário ao texto do Jorge Cabral (João Tunes)

12 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLVIII: Vítimas e carrascos, amos e servos, sacanas e traidores (João Tunes)

4 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXII: Onde é que vocês estavam em 22 de Novembro de 1970 ? (João Tunes)

25 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXI: Pelundo: Nº do batalhão ? Não sei, não me lembro (João Tunes)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2324: (Ex)citações (1): Um pouco de humor de vez em quando também nos faz bem (Henrique Matos)



Na foto, à esquerda: Dois primatas em Guileje... O maior é o nosso amigo e camarada J. Casimiro Carvalho, ex- Fur Mil Op Esp, dos Piratas de Guileje (CCAV 8350, Dez 1972/Mai 1973). Na nossa Tabanca Grande não queremos ninguém como o macaco da justiça: cego, surdo e mudo...

Foto: © José Casimiro Carvalho (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem do Albano Costa (Guifões, Matosinhos):

Caros Luís Graça e co-editores

É só para fazer uma pequena rectificação, sobre a foto do post P2321: o colega que está na foto não é o Zé Teixeira, mas sim um outro colega, de nome Carlos Azevedo... Ele esteve em Bedanda, em 1970/72, não faz parte da Tabanca Grande, mas vive na mesma freguesia do Zé Teixeira.

O Blogue cada vez está mais interessanto, bem hajam.

Um abraço
Albano Costa

2. Mensagem do editor, L.G.:

Zé: Está esclarecido o mistério do tuga... Gostei da tua prosa. Como viste, publiquei-a de imediato.


3. Mensagem do Zé Teixeira (Matosinhos):

Certo, Luís. O blogue é um espaço aberto onde toda a gente deve expor as suas ideias. A dinâmica do próprio blogue se encarregará de fazer as correcções devidas. Foi o que eu tentei fazer de imediato. Podes crer que fiquei chocado, embora compreenda que para quem presumivelmente não esteve na guerra criasse outas expectativas.

Abraço fraternal do

J.Teixeira

4. Comentários, já publicado, ao post P2323:

Henrique Matos:

Contrariamente à opinião do Zé Teixeira, que respeito, confesso que até me diverti bastante a ler o apontamento de Manuel Trindade sobre o Hino de Gandembel, pois estou convencido que se tratou duma paródia e apenas se destinava ao Beja Santos. Um pouco de humor de vez em quando também nos faz bem.

Luís Graça:

Leiam o que escrevi no post 2205, de 23 de Outubro último:

A bianda, o tacho, a comes-e-bebes, o rancho, além do álcool, era talvez a principal preocupação do tuga na Guiné... O supremo luxo era um bifinho com batatas fritas e ovo a cavalo, em Bissau, Bafatá, Nova Lamego, regado com vinho verde ou com umas bazucas...

Veja-se, nos nossos cancioneiros, como o fantasma da fome, a pulsão da comida (e da bebida), inspirava os nossos poetas e humoristas de caserna. É apenas uma amostra... Também deveria fazer parte de qualquer filme-documentário sobre o quotidiano das NT, nos buracos (aquartelamentos e destacamentos) em que vivia... Esta também é outra face da guerra. Talvez um dia alguém a consiga passar para o grande écrã. Como diz o Jorge Cabral, a 'nossa' guerra não teve apenas duas faces, era um verdadeiro caleidoscópio...

Eu acrescentaria mais o seguinte: aguentámos tudo o que havia a aguentar - para além do razoável e às vezes até do humano - com estoicismo, com valentia, com galhardia, com 'sangue, suor e lágrimas', sem dúvida, mas também com muito humor (negro, às vezes)...

Henrique Matos< 5. Ver também o comentário do Joaquim Mexia Alves (Monte Real, Leiria):

A minha primeira reacção foi igual à do Zé Teixeira e confesso que essa reacção ainda não me abandonou. Sou uma pessoa de humor, julgo eu, e gosto do humor, como se poderá ver por algumas coisas que escrevi. Não sou no entanto apologista de que tudo serve para o humor, e há coisas que tocam tão profundamente as nossas vidas, sobretudo ao nível dos sentimentos, que devem ser respeitadas por todos.

Posto isto, desvalorizo o assunto, não lhe dando importância, pois me parece a melhor forma de com ele lidar. Ao que percebi, o Manuel Trindade não pertence à Tertúlia nem esteve na guerra em África, por isso não pode perceber como certas coisas doem e não é com humor deste que cicatrizam, mas enfim, tudo bem.

A minha pergunta, que coloco aos nossos comandantes é: Será boa politica a intervenção de pessoas que não tendo vivido a guerra, aqui querem opinar sobre ela, seja de que maneira for, com humor ou sem humor? Não poderá perder-se um pouco a identidade da Tertúlia?

Abraço camarigo do

Joaquim Mexia Alves

Guiné 63/74 - P2323: Um insulto aos heróis de Gandembel (Zé Teixeira)

1. Mensagem de Zé Teixeira (ex-1.º Cabo Enf da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , 1968/70, actualmente residente em Matosinhos, bancário, reformado, um homem bem disposto que tem por alcunha, entre os escuteiros, de que é dirigente, o Esquilo Sorridente; é, além disso, um dos nossos antigos e proactivos membros da nossa tertúlia) (1):


Meus caros amigos [editores]:

Agradecia que retirassem ao meu nome da foto humorística em Ponte Balana ano 2000, só porque não se trata da minha pessoa. Apesar de ter voltado à Guiné, foi em 2005 e não tive oportunidade de ir a Balana, muito menos, como é compreensível ir lá de propósito arriar o calhau.

Sobre os comentários do Sr. Manuel Trindade (2), lamento a sua pobre imaginação em reduzir a canção ou hino de Gandembel a uma música pimba, no sentido depreciativo que lhe dá, que eu considero, no mínimo humor de mau gosto, logo desprezível..

Não creio que tenha vivido em situações de guerra, caso contrário entenderia facilmente que a reacção da nossa gente às situações difíceis que lhe apareciam pela frente, passado o sofrimento que tantas vezes era atroz, pelos perigos que tinha de enfrentar, pelos camaradas feridos e em sofrimento, pelos amigos que nos deixavam para sempre; a reacção, no combate ao medo que nos ficava na alma e entorpecia os sentimentos e a mente era cantando quantas vezes (na caserna do Zé Soldado), com uma bazuca [cerveja] a mais, coisas alegres que recordávamos da nossa terra, já existentes ou recriando-se piadelicamente os acontecimentos sofridos.

Não eram hinos a contar a heroicidade, esses ficam para os mais letrados ou doutores chamados Trindade, eram estórias reais. E essas é merecem ser escritas e contadas aos vindouros, não os hinos heróicos que mistificam a realidade.

Eu que não vivi Gandembel, mas visitei em tempo de guerra, integrado nas colunas que lhe levavam uma réstia de esperança do mundo e sentia a poucos quilómetros o horror do seu sofrimento, com ataques de dia e de noite (3). Eu, que ao chegar lá, senti a Parada a ser varrida por uma rajada inimiga em pleno dia e não me limpou o sarampo, porque um conterrâneo meu, ali estacionado, me gritou ao longe, encostado a um abrigo, Foge daí!. Eu entendo bem a linguagem e a mensagem do seu hino, talvez escrito por um jovem com a 4ª classe (linguagem da altura). O hino pretende contar a sua história.

A alimentação, o tal feijão era que muitas vezes havia para comer. Não merece ser reduzido a confundido com situações de flatulência/ canhoadas e morteiradas, porque estas eram reais e traziam a morte. Eu também vivi situações destas. Em Buba, por exemplo e a CCAÇ 2317 também lá estava, uma temporada em que a alimentação era feijão com amostras de chispe ao meio dia e amostras de chispe com feijão à noite, ou então arroz com marmelada.

Os abrigos de madeiras eram reais, construídos com suor, perigos, lágrimas de saudade, lágrimas de medo. O cimento foi amassado com sangue dos camaradas que deixaram lá a vida

Reduzir isto a música pimba, é um insulto aos camaradas de Gandembel.

J.Teixeira
Esquilo Sorridente

2. Comentário de L.G.:

(i) As minhas sinceras desculpas pelo lapso, em relação à legenda da fotografia em causa. Os neurónios do meu PC já andam a ficar baralhados. De facto, em Novembro de 2000, em Ponte Balana, não podias ser tu, porque não tens o dom da ubiquidade. Tratava-se de um dos camaradas do grupo do Albano Costa. Já rectifiquei a legenda...

(ii) Quanto à tua indignação... entendo-a, compreendo-a e aceito-a... Mas, como sabes, no nosso blogue não há tabus nem censura (editorial): a intenção do Manuel Trindade (que eu não conheço pessoalmente) não era de insultar os nossos camaradas de Gandembel/Ponte Balana, nem de menosprezar o seu hino...

A tua reacção é saudável e ajuda a compreender melhor o nosso comportamento quotidiano nos buracos onde vivíamos (!)...

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 14 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXVI: O meu diário (Zé Teixeira) (fim): Confesso que vi e vivi

(2) Vd. post de 1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2321: Humor de caserna (3): Hino de Gandembel: hino de guerra ou música pimba ? (Manuel Trindade)

(3) Vd. post de 25 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2129: Quero depositar um ramo de flores em Gandembel (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P2322: Antropologia (3): 1952: Mulher mandinga da... Colónia da Guiné (Luís Graça / Beja Santos)

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Guiné > Colónia da Guiné (sic) > Circunscrição Civil de Bafatá - Administração > 1952 > Uma foto de uma mulher mandinga, reproduzida no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº 27, Julho de 1952... Exemplar pessoal do Beja Santos. Mais do que a foto da mulher, a imagem vale pelo carimbo... Em 1951, o Estado Novo regovou o Acto Colonial, de 1930, fazendo, com a revisão da Constituição,com um upgrade no domínio da organização político-administativa dos territórios ultramarinos, mais de acordo com os "ventos da História": passou assim a chamar províncias ultramarinas às colónias portuguesas (expressão em uso até então, desde pelo menos o Séc. XIX)...
Mas a Administração Colonial de Bafatá não trocou logo de carimbos... As ligações, por barco, eram mais lentas em 1952 e o erário público, por seu turno, não podia ser perdulário... Enfim, um fait divers para a petite histoire do Império... (LG)

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

Foto alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.





Capa e contracapa do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Ano VII, nº 27, Julho de 1952... Um exemplar comprado pelo Mário Beja Santos, em Novembro de 1969, em Bafatá (2).

Fotos: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 20 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2289: Antropologia (2): A literatura infanto-juvenil dos anos 40 e os estereótipos coloniais (Beja Santos)

(2) 30 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2317: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (11): O fantasma de Infali Soncó

sábado, 1 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2321: Humor de caserna (3): Hino de Gandembel: hino de guerra ou música pimba ? (Manuel Trindade)

Guiné-Bissau > Região de Tombali > POnte Balana > Novembro de 2000 > Um tuga, um homem de calças na mão...na Ponte Balana, antigo destacamento de Gandembel, ao tempo da CCAÇ 2317 (Abril de 1968/Janeiro de 1969). O motivo foi um ataque de... formigas carnívoiras!

Foto: © Albano Costa (2006) (1)


1. Chegou até nós através da Caixa de Correio do Beja Santos... É uma apreciação humorística, bem humorada, irreverente, quiçá iconoclástica, do Hino de Gandembel, ou pelo menos de uma das suas versões musicais... O Beja Santos e o seu amigo ou colega de trabalho, o amanuense Manuel Trindade, não levam porventura a mal que a mensagem (em princípio, privada) seja partilhada a nível da caserna ou até da Tabanca Grande...

Ora aqui está uma questão apropriada para o feriado (patriótico) de hoje, primeiro de Dezembro (e para a próxima sondagem): O Hino de Gandembel (2) não era esperado que fosse algo de muito guerreiro, feroz, marcial ? Se sim, a versão que nos chega, não passa de uma paródia da guerra, tipo guerra [de 1908] do Raul Solnado (3)...

Eis a opinião do Manuel Trindade, que presumimos ser um assíduo leitor/visitante do nosso blogue... Embora ele seja um paisano, e um jovem - comparado connosco, os cotas que fizeram a guerra da Guiné, e a avaliar pelo estilo da sua escrita : escreve k7pirata em vez de cassete pirata - a sua intervenção merece, pela irreverência, frescura, verve e originalidade, um tratamento aparte na nossa caserna... Vai para a secção, não dos Perdidos & Achados, mas do Humor (4)... Além disso, com os agradecimentos dos editores.

Naturalmente que gostaríamos, a seguir, de ouvir a opinião dos guerreiros de Gandembel/Balana, a começar pelo nosso venerando Idálio Reis...

2. Mensagem de Manuel Trindade:

Dr. Beja Santos,

Pensava que ia ouvir um hino (2) e sai-me uma coisa quase pimba... pimba.

A coisa poderia estar numa “k7pirata” e poderia passar no bailarico da colectividade.
Gostei das alusões ao feijão e coisas afins, conectado com wc (white chapel), que em Gandembel talvez não fosse tão branca quanto isso, se é que era branca...

No entanto existem pistas na letra que permitem estabelecer uma conexão entre feijão, wc, morteirada e canhoada, o que deixa antever problemas de...flatulência.

Ainda por cima o intérprete fala em abrigos de madeira (nos clássicos filmes norte-americanos dos “rapazes da vaca” o abrigo de madeira distava uns metros da habitação, salvaguardando-a dos efeitos... da feijoada).

Ainda pensei que no final teríamos um grito bélico, másculo (um exercício do tipo da selecção de râguebi da neozelandesa), do género: urra, urra/Gandembel/ao turra/arrancar a pele... Mas não! A coisa em vez de terminar com a dignidade que se impõe, termina em desfalecimento, ou seja o som vai baixando até deixar de se ouvir.

Dr. Beja Santos, impõe-se um novo hino para Gandembel. Espero que não leve a mal este exercício deste pobre amanuense.

Um abraço,

Manuel Fidalgo

Centro Europeu do Consumidor
Direcção-Geral do Consumidor
Lisboa
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Notas dos editores:

(1) Vd. post e 6 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P850: O Álbum fotográfico do Albano Costa (2): a Ponte Balana (Gandembel)

(2) Vd. post de 1 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2319: Hino de Gandembel: interpretação de António Almeida (CCAÇ 2317, Gandembel/Balana, 1968/69)

(3) Vd. os seguintes posts:

Raul Solnado, Wikipédia

SPA - Sociedade Portuguesa de Autores > As mil faces de Raul Solnado > As gargalhadas que ganharam a guerra, entrevista de Raul Solnado, por Artur Queiroz

(...) "Raul Solnado é um actor de mil faces mas foi com as gargalhadas que se impôs como uma figura mítica do espectáculo. E quando a guerra colonial era sagrada e indiscutível, ele pôs Portugal a rir-se de uma guerra sem sentido, uma rábula que foi o seu maior êxito de sempre." (...)


A - Foi por isso que em plena guerra colonial pôs Portugal a rir à gargalhada com a sua versão da guerra?


RS - Aquela rábula tem um início anterior à guerra. Eu fui a Madrid e vi o Miguel Gila representar o texto. Fiquei logo apaixonado pela rábula porque o non sense é o tipo de humor que mais me toca.Comprei o disco, traduzi o texto mas guardei-o, não por temer a censura mas porque tinha dúvidas que as pessoas gostassem daquilo.


A - E quando é que a sua guerra saiu da gaveta?


RS - Foi já no início da guerra em Angola. Eu fui com o Humberto Madeira - um cómico fabuloso - à quermesse do Nacional da Madeira, na Quinta da Vigia, um sítio lindíssimo onde agora está instalado o Governo Regional. Num mês fizemos 45 espectáculos e lá para o fim sentimos que era preciso refrescar o repertório. Disse ao Humberto Madeira que gostava de fazer a guerra, talvez as pessoas gostassem. Ele apoiou-me e avancei. Nessa noite o público riu-se tanto que pediu bis. Foi ali que começou o sucesso da minha guerra...


A - Quais eram as suas dúvidas em relação ao texto?


RS - Não era em relação ao texto, mas ao gosto do público, hoje as pessoas riem melhor que naquela altura. Eu não sabia se um texto non sense ia funcionar. Os cómicos têm sempre essa dúvida. Uma piada leva duas horas a ser construída e depois desaparece como um fósforo. É ao contrário dos cantores que quanto mais cantam um tema, mais ele se populariza e ganha notoriedade.


A - A estória da sua ida à guerra começou na Madeira e depois alastrou a que palcos?


RS - Mal cheguei a Lisboa fui fazer um espectáculo no ringue de patinagem de Oeiras e o êxito foi igual ao da Madeira. Na altura ia fazer a revista "Bate o Pé" e fiquei com a certeza de que a rábula não ia falhar.


A - Mas aí já tinha que submeter o texto à comissão de censura...


RS - Pois, e era uma censura visual e de texto, por isso eu tinha um grande receio que não passasse. O Nelson de Barros, grande jornalista e o maior autor de revistas que conheci, disse-me que mandávamos o texto como sendo para o personagem Cantinflas, uma rábula que tinha feito no teatro Apolo. Quando o texto veio aprovado, ninguém queria acreditar. O problema era a censura visual.


A - Como funcionava essa comissão de censura visual?


RS - No ensaio geral, cinco ou seis censores viam o espectáculo. Depois diziam que era preciso tapar um umbigo, descer umas saias, coisas assim. No Carnaval só se podia dizer merda uma vez por sessão. Como eu não ia vestido de Cantinflas, estava receoso que a rábula fosse cortada. Mas estes textos de non sense têm de ser bem compreendidos, caso contrário não funcionam. E eu disse aquilo a uma velocidade tal que nem eu próprio percebi o que dizia. Os censores também não perceberam e, no final, um deles disse-me que estava tudo aprovado mas deu-me um conselho: olhe lá, não faça aquilo da guerra, não tem piada nenhuma! E eu disse-lhe que era obrigado a fazer mas que então só fazia aquilo na estreia. Como já sabia o que vinha a seguir, pedi à Valentim de Carvalho que gravasse aquilo na estreia e lançasse o disco. Depois era impossível travar a rábula. Os censores ficaram baralhados com o Cantinflas! (...)

(4) Vd. post de:

26 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2304: Humor de caserna (2): Welcome to Mansambo, a melhor colónia de férias do ano de 1968 (Torcato Mendonça / Luís Graça)

23 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2205: Humor de caserna (1): A sopa nossa de cada dia nos dai hoje (Luís Graça / António Lobo Antunes)

Guiné 63/74 - P2320: Massacre do Chão Manjaco (12): O resgate dos corpos (Virgínio Briote)

Fotografia dos três majores e do alferes miliciano, portugueses, vítimas mortais, em 20 de Abril de 1970, do chamado Massacre do Chão Manjaco. Com eles, morreram também três guineenses, ao serviço das NT (1).

Fotos: © Afonso M. F. Sousa (2007). Direitos reservados.


1. Nota do co-editor Virgínio Briote:

Falamos da guerra da Guiné, não pela visão e habilidade dos historiadores, mas pelos olhos, pelas mãos, pelos poros do suor que escorria por nós abaixo como água, pelas veias do sangue de quem por lá passou.
Não é "poesia". Quem deixa aqui os seus relatos, escreve sobre o que passou e o que viu. Por outras palavras, quem por aqui vai escrevendo é o historiador de si próprio.

Ainda a propósito do Caso dos Majores no chão Manjaco (1), transcrevemos na íntegra o relatório (na altura classificado como secreto) da operação sobre o resgate dos corpos. É mais uma achega para a "reconstituição do puzzle das nossas memórias".

A cópia do relatório, em papel, foi-me enviada pelo correio, sem o endereço do remetente. Ponderada a oportunidade da sua publicação pública e não me parecendo, neste caso, que o interesse público seja de menor interesse por um facto ocorrido há quase 40 anos, optei pela transcrição do referido documento.

Sei que ainda é doloroso falar deste episódio horrível da guerra da Guiné, porque há familiares (vivos) dos nossos camaradas que morreram naquelas matas, mas infelizmente para eles - e para todos nós - os pormenores macabros do seu fim já são sobejamente conhecidos, são do domínio público. Recordo que o nosso camarada Afonso M. F. Sousa organizou, para todos nós, um completíssimo dossiê sobre O Massacre do Chão Manjaco. E obteve inclusivamente o depoimento (oral) do ex-Fur Mil Lino, da CCAÇ 2585 / BCAÇ 2884, um dos homens que integra o Grupo de Combate que ainda na noite de 20 de Abril de 1970 parte, do destacamento de Jolmete, para uma missão de reconhecimento, junto à estrada Jolmete-Pelundo.

Mais uma vez, e em especial neste dia, 1 de Dezembro, que tem ainda um grande significado patriótico para todos os portugueses, queremos honrar a memória destes nossos compatriotas, que foram brilhantes e corajosos militares, e convencermo-nos que a sua morte não foi de todo inglória e inútil...

Revisão e fixação do texto: vb
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SECRETO

COMANDO TERRITORIAL INDEPENDENTE DA GUINÉ
COMANDO DO AGRUPAMENTO OPERACIONAL

Directiva Nº 1

1.SITUAÇÃO

-Situação Geral:

A definida por Sua Ex.ª o General Comandante-chefe na última reunião de comandos.

-Situação Particular:

Os elementos do CAOP têm desenvolvido intensa acção psicológica sobre os comandos dos grupos IN no chão Manjaco o que tudo levará a crer que possa conduzir a fins positivos no concernente à sua apresentação.

2. MISSÃO

Os Exmºs Majores CEM Passos Ramos, de Art Pereira da Silva, de Inf Magalhães Osório e Alf Mil Cav Joaquim Mosca, acompanhados dos nativos Mamadu Lamine Djuare, Patrão da Costa e Aliu Sissé, efectuam na Estrada Pelundo-Jolmete uma reunião com chefes do grupo IN do chão Manjaco em cumprimento de ordem verbal superiormente recebida.

Duração provável da Missão: das 12h00 às 21h00 de 20 de Abril.

Quartel em Teixeira Pinto, 19 de Abril de 1970.

O Comandante, Intº

Romão Loureiro
Ten Cor
__________

Batalhão de Caçadores nº 2884
Companhia de Caçadores nº 2586

RELATÓRIO DA ACÇÃO RECOLHA MISSÃO ESPECIAL
Realizada em 21 Abril de 1970 na Região Pelundo Jolmete

Referências: Carta 1/50.000 Pelundo

1. Situação

Situação Geral:

- A definida por Sua Ex.ª o General Comandante-chefe na última reunião de comandos.

Situação Particular:

- Desde 7 de Feveiro de 1970 não houve contactos com armas entre as NT e o IN.
- O CAOP tem desenvolvido intensa acção psicológica sobre elementos IN que tudo levaria a crer conduziriam a fins positivos.

2. Missão

- A Companhia de Caçadores 2586 (-) recebeu a missão de patrulhar a estrada Pelundo-Jolmete.
- Detectar a presença de duas viaturas tipo Jeep que se deviam encontrar nessa área.
- Detectar vestígios da presença do IN e de sete entidades (NT e colaboradores).

3. Força executante

a) Comandante: Cap Inf Eugénio Baptista Neves

b) Comandantes das subunidades: Alf Mil Carlos A. Vasconcelos Miranda

c) Meios: Dois grupos de combate (48 homens no total); Três viaturas Unimog 404; uma viatura Unimog 411.

d) Articulação da força

Durante o percurso auto um Gr Comb ocupou duas viaturas tipo 404 e o outro Gr as duas viaturas restantes. O Comandante da força seguia na primeira viatura e o Comandante do Gr Comb na penúltima.

Na coluna apeada, o Gr Comb a duas secções seguia na frente, uma secção de cada lado da estrada e fora dela, a outra secção seguia nos intervalos das viaturas. As duas secções de reforço seguiam na retaguarda.

O Comandante da força deslocava-se em segundo lugar num dos lados da estrada e o Comandante do Gr Comb em primeiro lugar do outro lado (justifica-se esta disposição com os dois comandantes na frente para que todos os vestígios fossem detectados e analisados).

Alterações à Organização Regulamentar

1) Pessoal: Nada
2) Armamento: o orgânico
3) Equipamento: o orgânico
4) Munições: dotação normal. Nas viaturas seguiam 50 granadas de morteiro 60, 30 granadas de LGFog, 3 cunhetes de GMO, 2 de GMD e 5 cunhetes 7,62m/m.
5) Material especial: picas para detecção de minas, cordas, catanas e machados
6) Transmissões: dois ER-AVP 1
7) Viaturas: três Unimogs 404 e um 411 (dois com guincho)
8) Diversos: Nenhum pessoal nativo tomou parte na acção.

4. Planos estabelecidos para a acção

Desde que o Cmtd da Companhia recebeu a ordem para efectuar o patrulhamento, cerca das 1h30 doo dia 21 até às 1h50 a que a coluna saiu, foram feitos os seguintes planos:

Deslocamento auto até Changalene (Pelundo 2F8). A viatura da frente com luzes nos médios para permitir observar qualquer vestígio. As restantes de luzes apagadas.
A partir daí a coluna apeada deslocar-se-ia com duas secções na frente tanto quanto possível fora da estrada mas de maneira a poder detectar qualquer vestígio que nela existisse.
Seguiriam depois as viaturas com luzes apagadas, escoltadas por uma secção; e, por último, seguiriam as restantes duas secções.

Presumia-se que qualquer vestígio ou indício fosse encontrado até Pelundo 5 a 9.
Se nada de anormal tivesse acontecido, a coluna deslocar-se-ia até Jolmete. Em caso de surgir qualquer incidente seria tomada a decisão na altura que as circunstâncias impusessem.
Em caso de necessidade esta coluna seria apoiada por forças de Jolmete e de Teixeira Pinto.

Devido ao pouco tempo disponível não foram feitos outros planos e todas as ordens posteriores seriam dadas pela rádio pelo comandante do CAOP, presente em Pelundo e as decisões tomadas em face dos acontecimentos.

5. Desenrolar da acção

A coluna-auto saiu de Pelundo em 21 de Abril às 1h50, em viaturas auto. A estrada Pelundo-Jolmete estava cheia de pó e os rastos deixados pelos pneus das viaturas das colunas anteriores estavam bem marcados.

cópia do Anexo A

Em Pelundo 2F7 (ver anexo A) estava marcado um trilho transversal ao eixo da estrada. Depois de examinado, verificou-se ter sido deixado pela população de Pelundo.

A partir desse ponto, a coluna tomou o dispositivo previsto para o deslocamento apeado. Os trilhos dos Jeeps eram nítidos no pó. A coluna passou a deslocar-se com a máxima precaução, mas com andamento em boa velocidade. A noite estava clara e permitia ver qualquer indício suspeito.

Sempre em boa velocidade, a coluna atingiu o ponto Pelundo 5 A 9 (ver anexo A) que era o local onde terminava a zona marcada para a reunião. Nada fora encontrado. Os vestígios dos rodados continuavam. Os Exmos Comandantes do CAOP e Batalhão eram informados dos pontos que a coluna ia atingindo. Tomaram-se mais precauções sem prejuízo da velocidade, a noite tornara-se escura, sendo difícil distinguir um objecto médio a mais de três metros.

A coluna foi avançando e em Pelundo 6 C 9 35, o alferes Miranda que seguia no lado direito da estrada, viu que os trilhos dos Jeeps se afastavam do meio da via e se dirigiam para a mata.
A coluna parou instantaneamente a fim de permitir examinar em pormenor o terreno e imediatamente o Comandante da coluna distinguiu um vulto que lhe pareceu ser um Jeep.

Todo o pessoal tomou posições para resistir a uma possível emboscada. Os motores foram parados. Noite escura. Silêncio. Não restam dúvidas, são mesmo os Jeeps. Nada se move. Tudo é silêncio e escuridão. São quatro horas e dez minutos. É necessário esperar que comece a clarear. O silêncio pode ser uma armadilha.
Os Exmos Comandantes do CAOP e Batalhão são informados do achado e que se vai esperar pelo raiar da manhã. A tensão aumenta. Cinco horas. Começa a clarear.

O comandante da coluna deixa o pessoal todo instalado, entrega o comando ao alferes Miranda e aproxima-se das viaturas com a máxima cautela. A escuridão ainda é grande, os pés são apoiados com a máxima cautela e em lugares onde se procurou minas.
De repente bate-se numa coisa mole. É um corpo estendido. Parece ser o do Exmo Major Passos Ramos (era o do alferes Mosca). Ao lado outro, era o do Exmo Major Pereira da Silva. Não restam dúvidas, dois estão mortos. Dos outros nada se sabe. Informa-se Pelundo via rádio.

A tensão nos homens diminui, aumenta o assombro. Os homens encaram os factos com serenidade. Mais claridade. O Comandante da coluna procurou em volta e descobriu mais quatro vultos. Estão mortos.

É informado Pelundo. Os homens estão assombrados mas calmos. Mantêm-se nos seus lugares. São informados do achado. Começa a ver-se bem e surge a cena macabra e horrível. Os corpos estão mutilados e todos apresentam tiros na nuca, cortes de catana e punhal.

Os homens são informados e mantêm-se serenos e na expectativa. Pensam que o tiroteio vai começar. Ninguém acredita que não seja uma cilada. Monta-se a segurança circular e começam as viaturas a ser retiradas. Uma tem os dois pneus do lado esquerdo furados de balas. Procuram-se armadilhas e nada é encontrado.

A primeira viatura MG-93-55, com os pneus furados, é trazida para a estrada. Novo achado e desta vez mais macabro. O nativo Lamine (o que dele resta) está no lugar antes ocupado pela viatura. Tiro na nuca, muito mutilado.

Retira-se a segunda viatura para a estrada. Os corpos são carregados num Unimog.
A coluna está pronta a regressar. Em todos os rostos, uma decisão firme, lábios mordidos.

A visão anterior era demasiado horrível. São cerca de sete horas. Dois helicópteros sobrevoam a zona. Monta-se segurança, um deles aterra. Dele sai Sua Excelência o General Comandante-chefe, o Excelentíssimo Comandante do CAOP, Ten Cor Romão Loureiro, o Excelentíssimo Major P. Costa e o capitão Almeida Bruno. Examinam o local e partem.

Às 7h10 a coluna põe-se em movimento agora com dois Jeeps a reboque. O dispositivo é o mesmo da aproximação. A coluna chega ao quartel cerca das 9h00.

6. Resultados obtidos

Foram recuperados os corpos:

- Exmo Major CEM 50275711 Raul Ernesto Mesquita Costa Passos Ramos
- Exmo Major Inf 50972511 Alberto Fernão Magalhães Osório
- Exmo Major Art 50692711 Joaquim Pereira da Silva
- Sr Alf Mil Cav 19516168 Joaquim João Almeida Mosca
- Nativo Mamadu Lamine Djuare
- Nativo Aliu Sissé
- Nativo Patrão da Costa

Foram ainda recuperadas duas viaturas [ilegivel]. Desconhece-se qual o material e documentos capturados pelo IN.

7. Serviços: nada a assinalar

8. Apoios: nada a assinalar

9. Ensinamentos colhidos

A Companhia foi posta à prova no cumprimento da missão que lhe foi dada. Soube reagir com calma e serenidade à macabra cena de ver sete cadáveres mutilados, quando esta cena não estaria na imaginação do mais pessimista. Crê-se que esta calma e serenidade é fruto da mentalização e da preparação da Companhia e ainda de na altura todos os militares irem sendo informados, com verdade, dos acontecimentos que se estavam a viver.

10. Diversos

cópia do Anexo B

Como se verifica pelo croqui do local (Anexo B) os corpos foram encontrados em dois grupos distintos. Num, os Excelentíssimos Majores Passos Ramos, Osório e os nativos Aliu Sissé e Patrão da Costa. No outro, o Excelentíssimo Major Pereira da Silva e o Senhor Alferes Mosca.O nativo Lamine parece não fazer parte de nenhum dos grupos.

Todos os corpos se encontravam de costas (face voltada para o céu) e estendidos, com excepção do nativo Lamine que se encontrava de bruços e enrolado sobre ele mesmo.
Os Excelentíssimos Majores Passos Ramos, Osório e Pereira da Silva, Sr Alferes Mosca e o nativo Patrão da Costa apresentavam o aspecto de não se terem apercebido de nada de anormal até ao momento de serem assassinados. O nativo Aliu Sissé apresentava um aspecto misto de terror e assombro, como se uns momentos antes de ser assassinado tivesse visto alguém que era seu inimigo e perigoso.

O nativo Lamine deve ter-se apercebido de que algo de anormal se ia passar pois deve ter fugido para debaixo de uma viatura, onde foi morto. A viatura apresenta diversos impactos. Nesse lugar foi depois mutilado.

As viaturas já se encontravam na posição em que foram encontradas pois uma delas (dois pneus furados) dificilmente se deslocaria sem deixar qualquer marca e estas não existiam.

Não foram vistos sinais de luta. Com excepção do nativo Lamine e do Excelentíssimo Major Passos Ramos, desconhece-se como foi morto, se com um tiro que lhe arrancou a parte posterior do crânio, se com uma catanada que lhe separaria a mesma região. Neste caso, a sua morte levaria mais tempo e o seu aspecto seria de mais sofrimento.
Julga-se também que todos foram assassinados no local em que se encontravam devido ao sangue existente no chão.

A não existência de sinais de luta e de nenhum, com excepção do nativo Lamine, ter tentado fugir leva a supor que não teriam sido mortos pelas pessoas com quem possivelmente conversavam.

O grupo assassino deve ter surgido de repente e assim se explicaria o aspecto do Aliu Sissé e a fuga do Lamine. Provavelmente retirou na direcção ESE.

Desconhece-se se houve outros mortos. A havê-los foram levados do local. Calcula-se que o morticínio bárbaro e inqualificável se tenha dado cerca das 16h00 do dia 20.

DISTINGUIRAM-SE

Todos os elementos da Companhia que tomaram parte na acção e dentre eles:

- CCAÇ 2586 1º Cabo António José da Silva
- CCAÇ 2586 Soldado José Pinto de Sousa
- CCS Soldado António Manuel Duarte Cardoso

Para os quais foram apresentadas propostas de louvor.

DISTRIBUIÇÃO

Exemplares 1 e 2 / Rep/OPER
3 / 1ª Rep
4 / 2ª Rep
5, 6 e 7 / CAOP
8 / BCAÇ 2884
9 e 10 / CCAÇ 2686 (Arqº)
11 e 12 / Processos de Pensão de Sangue

O Comandante de Companhia
Eugénio Baptista Neves
Cap Inf
___________________

(1) Nota do co-editor vb:

1) Vd. posts de:17 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1436: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (1): Perguntas e respostas

18 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1445: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (2): O papel da CCAÇ 2586 (Júlio Rocha)

19 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1446: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M. F. Sousa) (3): O depoimento do 1º sargento da CCAÇ 2586, João Godinho

27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1465: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (4): Os majores foram temerários e corajosos (João Tunes)

6 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1500: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (5): Homenagem ao Ten-Cor J. Pereira da Silva (Galegos, Penafiel)

8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1503: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (6): Fotografia dos três majores (Sousa de Castro)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1519: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (7): Extractos da entrevista de Ramalho Eanes ao 'Expresso'

25 de Fevereiro de 2007 >Guiné 63/74 - P1549: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (8): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte I

6 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1566: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (9): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte II

17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1603: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (10): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte III (Fim)

(2) Vd. post de 27 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2004: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (Anexo A): Depoimento de Fur Mil Lino, CCAÇ 2585 (Jolmete, 970)

Guiné 63/74 - P2319: Hino de Gandembel: interpretação de António Almeida (CCAÇ 2317, Gandembel/Balana, 1968/69)



Hino de Gandembel cantado por António Almeida, que reside ma Maia, ex-soldado da CCAÇ 2317 ( Gandembel / Balana , 1968/69), com acompanhamento musical de um amigo (1). Vídeo: 2 m 42 s. Alojado no You Tube > Nhabijoes.

Vídeo: © António Almeida / Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

Nota dos editores: um especial agradecimento a:

(i) ao António Almeida que teve a pachorra, a disponibilidade e a generosidade de gravar, num pequeno estúdio de um amigo ou conhecido lá da terra (Maia), esta versão do Hino de Gambendel, para o nosso blogue, e que ele de resto costuma cantar nos convívios da CCAÇ 2317; naturalmente que o António, embora não tendo neste momento endereço de email, já está inscrito na porta de entrada da nossa Tabanca Grande;

(ii) ao Idálio Reis, que de há muito é a figura de referência dos homens-toupeiras, o verdadeiro capitão do desse navio-fantasma que ainda hoje navega pelos rios e braços de mar do sul da Guiné, com os sobrevieventes e os órfãos de Gandembel/Balana... e que nos enviou, pelo correio, o CD-ROM com as duas versões do António Almeida;

(iii) ao Rui Gonçalves, filho do nosso camarada Gabriel Gonçalves (ex-CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), que mais uma vez nos fez a conversão do ficheiro áudio e colocou-o em vídeo, à nossa disposição, no You Tube, na nossa conta Nhabijoes); ao Rui, fazemos questão, desde já, de o considerar como mais um amigo da Guiné, mais um membro da nossa Tabanca Grande... É o Rui, os nossos filhos e os outros filhos dos nossos camaradas, que fazem a ponte geracional, pondendo colmatar as lacunas das nossas memórias e levá-las para além da nossa morte física... Por isso, nós costumamos aqui dizer "Filho(a) de um camarada nosso, nosso(a) camarada é"...

Hino de Gandembel


Ó Gandembel das morteiradas,
Dos abrigos de madeira
Onde nós, pobres soldados,
Imitamos a toupeira.

- Meu Alferes, uma saída! -
Tudo começa a correr.
- Não é pr’aqui, é pr’ponte! (i),
Logo se ouve dizer.

Refrão

Ó Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (ii) e morteiradas.
Ó Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se liga o rádio
Ao som de estrondos e tiros.

A comida principal
É arroz, massa e feijão.
P’ra se ir ao dabliucê (ii)
É preciso protecção.

Gandembel, encantador,
És um campo de nudismo,
Onde o fogo de artifício
É feito p’lo terrorismo.

Refrão

Ó Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (ii) e morteiradas.
Ó Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se liga o rádio
Ao som de estrondos e tiros.

Temos por v’zinhos Balana (i),
Do outro lado o Guileje,
E ao som das canhoadas
Só a Gê-Três (iv) te protege.

Bebida, diz que nem pó,
Só chocolate ou leitinho;
Patacão, diz que não há,
Acontece o mesmo ao vinho!

Refrão

Ó Gandembel,
És alvo das canhoadas,
Verilaites (ii) e morteiradas.
Ó Gandembel,
Refúgio de vampiros,
Onde se liga o rádio
Ao som de estrondos e tiros.


Recolha: José Teixeira / Revisão e fixação de texto: L.G.

(i) A famosa ponte sobre o Rio Balana, destacamento da CCAÇ 2317 (que estava em Gandembel, Abr 68/Jan 69)
(ii) Verylights
(iii) WC, casa de banho
(iv) A espingarda automática G-3, usada pelas NT.

________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:
22 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2295: Hino de Gandembel, cantado no almoço da mini-tertúlia de Matosinhos (A. Marques Lopes / Carlos Vinhal)

4 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2153: Hino de Gandembel: talvez a mais popular canção entre as NT no ano de 1969 (José Teixeira)

4 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2152: Hino de Gandembel, hoje um hino de alegria (Idálio Reis / Gabriel Gonçalves)

3 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2150: O Hino de Gandembel, cantado pelo GG [Gabriel Gonçalves], o baladeiro da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)

3 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2149: Hino de Gandembel: Quem foi o autor da letra ? (José Teixeira / Idálio Reis)

26 de Setembro de 2006 Guiné 63/74 - P2133: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 de Março de 2008)(4): Hino de Gandembel, quem se lembra da música ? (Pepito / Luís Graça)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Guiné 63/74 - P2318: Notas de leitura (4): Na apresentação de Guerra, Paz e Fuzilamento dos Guerreiros: Guiné 1970/80 (Virgínio Briote)

Capa do último livro de Manuel António Bernardo (1)

1. Texto do co-editor vb:

Teve lugar ontem, no Palácio da Independência em Lisboa, a apresentação oficial do livro Guerra, Paz e Fuzilamentos dos Guerreiros, Guiné 1970/1980, do Coronel Manuel António Bernardo.

Presentes na mesa, o Presidente da Associação de Comandos, Dr. Lobo do Amaral, o Dr. Nuno de Carvalho, representante da Editora Prefácio, o General Ricardo Durão e o Sargento Monteiro, do Exército Português, natural da Guiné. Na assistência, entre muitos outras figuras conhecidas, encontrava-se o Coronel Raul Folques, que foi Comandante do Batalhão de Comandos Africanos.

O Capitão Folques, até então 2º Comandante do Batalhão de Comandos, a receber das mãos de Spinola os galões de Major do Almeida Bruno. Uma cerimónia original. Foto do livro acima. Com a devida vénia aos Coroneis Bernardo e Raul Folques e ao General Almeida Bruno.


Abriu a sessão o Presidente da Associação de Comandos que aludiu ao simbolismo da sessão se efectuar no Palácio da Independência. O representante da Prefácio falou do trabalho que a Editora tem vindo a desenvolver na escrita da História Militar.

O General Ricardo Durão, em breves palavras, falou do seu conhecimento da Guiné, resultante de duas comissões militares. Destacou a importância do actual debate sobre a Guerra do Ultramar, porque, disse, a Guerra nos territórios ultramarinos faz parte da História de Portugal.

Abordou alguns aspectos relacionados sobre a acção que se desenvolveu em Teixeira Pinto, no chão Manjaco. Uma história ainda com sombras.

Começou por referir a velha questão de fundo entre os militantes do PAIGC. Que muitos guineenses militantes do PAIGC diziam serem eles os soldados e os cabo-verdianos os comandantes. E que esta controvérsia se manteve até ao golpe militar de Nino Vieira que destituiu Luís Cabral.

O "caso do chão Manjaco", como veio a ser conhecido, disse o General Ricardo Durão, começou por uma iniciativa pessoal do Major Pereira da Silva, o responsável da Acção Psicológica do CAOP, então comandado pelo Coronel Alcínio Ribeiro.

Diz o General que o CAOP, sob o ponto de vista militar, estava na ofensiva e a controlar com eficácia as acções armadas da guerrilha. Que vários guerrilheiros tinham sido aprisionados e que foi através deles que o Major Pereira da Silva deu início a esta história. Das conversas que com eles foi mantendo, o Major Pereira da Silva ficou com um importante conhecimento de como o PAIGC estava organizado na zona.

Daqui até ao primeiro contacto com um bi-grupo da guerrilha não passou muito tempo. Este episódio, segundo o General Durão, contou com a participação de um soldado que, a remos, o transportou para a outra margem do rio.
- Esperas aqui, o máximo 2 horas. Se eu não aparecer vai-te embora.

A estratégia passava por convencer os interlocutores que a guerra não tinha fim, ninguém iria ganhar ou perder, iria prolongar-se por anos e anos, com grandes sofrimentos para todos e, especialmente para o Povo Guineense. Viu alguma receptividade da parte dos interlocutores e decidiu prosseguir.

Ao longo de todo o "caso do chão Manjaco" efectuaram-se 13 ou 14 reuniões com os elementos do PAIGC. Com avanços e recuos, promessas foram adiantadas, como os guerrilheiros virem a ser integrados nas Forças Armadas e até um desfile conjunto em Bissau chegou a ser falado, com uma mal disfarçada satisfação dos guerrilheiros.
- Tudo bem, mas os senhores militares são majores e Lisboa, o que diz?
- Lisboa aceita o que for decidido entre todos - responderam.

E para reforçar o peso das negociações, o General Spínola apareceu numa dessas reuniões, para surpresa dos guerrilheiros, que o cumprimentaram militarmente, tratando-o por meu General.

Entretanto a guerra no chão Manjaco estava parada, uma espécie de tréguas estava tacitamente aceite por ambas as partes. As patrulhas, de um lado e do outro, eram feitas sem carácter ofensivo. E que esse aspecto mereceu algumas reflexões, não só das nossas chefias militares como da direcção do PAIGC.

Spínola reuniu em Bissau todos os Comandantes do Batalhão, expondo-lhes a situação e os progressos que estavam a ocorrer na zona de Teixeira Pinto. A paragem das hostilidades estava a facilitar o reagrupamento das famílias e prosseguiam, com mais entusiasmo ainda, os esforços para melhorar as infra-estruturas locais.

Spínola não parava. Deslocou-se a Cap Skiring para um encontro com Shengor. Nessa reunião foi ventilada a hipótese de Amílcar Cabral estar presente numa próxima reunião. Um mês depois de Cap Skiring, Amílcar Cabral foi assassinado. Os executores foram logo a correr ter com Sékou Touré, a dar conta do sucedido. Foram executados a seguir e o resto da história já é bem conhecida, remata este assunto o General Ricardo Durão.

Da parte do PAIGC, a questão que se estava a viver no chão Manjaco teve um seguimento diferente. Luís Cabral estava muito surpreendido com a evolução dos acontecimentos. Não havendo relato de actividades operacionais desencadeadas pela guerrilha, foi enviado para o local um Comissário Político do PAIGC, para se inteirar do que se estava a passar.

Na altura em que o Comissário Político do PAIGC se deslocou para a zona estava agendada a 13ª ou 14ª reunião entre os majores e os elementos da guerrilha. Na véspera desse encontro, Passos Ramos jantou em Bissau, em casa de Ricardo Durão. Entusiasmado, a certa altura manifestou a esperança de assistir brevemente em Bissau a um grande desfile com os guerrilheiros integrados.
O Comissário Político esteve presente nesse encontro, mas André Gomes, o Chefe da Região Militar não apareceu (será fuzilado, mais tarde, pelo PAIGC).
Foi nesse encontro que os majores, o alferes e os acompanhantes guineense foram assassinados.

- Porquê ?- pergunta Ricardo Durão. - Não seria um ronco muito maior se os tivessem aprisionado?

Perguntas que, quase 40 anos depois, continuam à espera de resposta.
__________

Nota de vb:

(1) Vd. post de, 28 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2308: Notas de leitura (3): Guerra, Paz e Fuzilamento dos Guerreiros: Guiné, de Manuel Amaro Bernardo (Jorge Santos)

Guiné 63/74 - P2317: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (11): O fantasma de Infali Soncó

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Guiné > Mapa com a localização de Samba Nhanta no regulado do Cuor, a norte de Bambadinca. Esta localidade não consta da carta de 1955, de Bambadinca. Comentário de Beja Santos: "Samba Nhanta era a residência dos régulos do Cuor. Aqui, as tropas portuguesas procuraram capturar o régulo Infali, que fugiu para o Oio, em 1907. Penso que se tratava de Sansão, onde Infali está sepultado. Missirá era a cerca de 4 km, a caminho do Gambiel".
Este mapa vem no livro de João Barreto, História da Guiné, 1418-1918. Lisboa: 1938 (p. 280). Será interessante analisá-lo e compará-lo com o conhecimento que nós tínhamos, do terreno, durante o período da guerra colonial (1963/74). Só para nos limitarmos à bacia hidrográfica dos Rios Geba e Corubal, ou seja, à Zona Leste, as povoações mais importantes (do ponto de vista étnico, demográfico, político e económico...) seriam Góli (Porto Gole ), São Belchior, Samba Nhanta, Geba, Bafatá e Coiada na margem direita do Rio Geba; Xime e Bambadinca, na margem esquerda; Xitole, Contabane e Cadé, ao longo do Rio Corubal... Curiosa também é a segregação étnico-espacial, por chão: papéis (Bissau), Balantas (Góli), Oincas (Beafadas (Buba), Fulas Pretos (Bambadinca/Bafatá/Gabu), Mandingas (Farim), etc...(LG)

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


Cópia da capa do livro de João Barreto, História da Guiné, 1418-1918. Prefácio do Coronel Leite de Magalhães. Lisboa: 1938 (Imprensa Beleza). 452 pp. (Existe na rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa).

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.

Texto enviado, em 16 de Outubro último, pelo Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).

(i) Luis, Ainda vou rever, mas o essencial está aqui. Os livros seguem pelo correio. Ainda não propus data para o nosso almoço, pois estou atolado em papel, acredita. Um grande abraço do Mário.

(ii) Luis, não é ser perfeccionista mas o texto que te enviei estava carregado de besteiras. Vê se as imagens que te mandei esta manhã são adequadas (...). Recebe um abraço do Mário.


Operação Macaréu à Vista - Parte II (11) > O fantasma de Infali Soncó: De uma conversa sobre aves com Lânsana Soncó até uma ida ao dentista

por Beja Santos


(i) Aves do céu: Águia, pato, catchecalerom, jabatutu, jagudi, choca...

Acordei de supetão com o crocitar de uma choca, e julguei que tudo me parecia um pesadelo, com os gritos angustiados dos feridos da mina anticarro de Canturé. Sentei-me na cama naquele quarto do Quartel-General, em Bissau, a lucidez, aos farrapos foi recuperada e perguntei-me:
-Tens a certeza que ouviste uma choca, não é puro delírio?.

Lembrei-me então de uma conversa havida com Lânsana Soncó, com registo no meu caderninho viajante. Tinha pedido uma hora ao tempo precioso do padre de Missirá, ele nem pestanejou quando lhe propus que o tema para o nosso chá fosse aves. Com a serenidade e a discrição do costume, Lânsana começou pelas águias. Vendo a minha surpresa, e com a tradução do Benjamim Lopes da Costa, perguntou-me se eu nunca tinha visto em Mato de Cão as águias a apanhar peixe grande no Geba. Confuso, lembrava-me do que me pareciam umas gaivotas em voo rasante ou mergulhando em voo picado. Lânsana foi terminante:
- São águias, vivem em pontos altos, também atacam pequenos animais na mata.

Registei sem convicção, ele passou para os patos, lembrava-me muito bem dos patos bravos que via nos patrulhamentos a grasnar nas águas das bolanhas, em frente a Mero e Santa Helena. Depois falou no catchecalerom, um pássaro muito falador que se encontra na floresta densa na época seca, lembrou igualmente o jabatutu, o pássaro que faz um ninho muito resistente, tão resistente que suporta as queimadas das bolanhas.

Perguntou-me a seguir se eu já tinha visto ao pé o jagudi, a ave de rapina que aparece mal cheira o sangue. Fiquei hirto, as recordações foram para a flagelação de 19 de Julho deste ano, quando ao amanhecer topámos com dois guerrilheiros mortalmente ensanguentados, entre a fonte de Cancumba e aos cajueiros de Malã, frente à porta de armas de Missirá. Lânsana sentenciou:
-Mesmo os animais feridos são suas presas, atacam e matam, pois ficam bêbedos com o cheiro do sangue.

E por fim falou das chocas, que ele disse que eu conhecia bem. Admirado, perguntei-lhe como é que ele sabia como é que eu conhecia bem as chocas. -Nosso alfero, são aqueles pássaros com um piar muito triste, malhados de castanho, que vê nas nossas hortas a esgravatar o amendoim”.

Trouxe o caderninho para Bissau, ontem consultei-o, talvez esteja aí a origem deste sonho com as chocas.

Levanto-me e arranjo-me a custo, só a vista é que melhorou, dou-me bem com os novos óculos, o tímpano continua dormente, embora lateje menos, ainda claudico com o joelho inchado, e hoje vou a medo à primeira consulta ao dentista. Sim, a medo, pois ouvi a gritaria dos pacientes quando marquei a consulta, vi os militares a sair do consultório a segurar pensos e com ar de sofrimento, fiquei com a impressão que ia direito a um barbeiro da Idade Média. E assim foi. Sentei-me na cadeira do carniceiro e se tinha um joelho inchado saí dali com a cara num bolo. Mal abri a boca, atafulhou-me todo o espaço com algodões e leu-me a sina:
-Tem aqui um molar podre, tenho que o extrair, os molares costumam dar que fazer, volta cá dentro de dois dias para extrair um siso todo infectado.

Ainda tentei balbuciar se o molar não podia ser tratado e conservado até Lisboa, se perguntei o homem da bata branca não largou a carranca dura que era a máscara do seu rosto, veio a injecção e depois o alicate parecia que me arrancava a maxila. Recebo ordens para me apresentar de novo na sala de matança dentro de dois dias, ao amanhecer, para ter o dia inteiro para penar.


(ii) Onde tomo conhecimento das tropelias de Infali Soncó


Saí dali aos tombos e com uma carteira de comprimidos na mão. Lá me deram boleia até o centro de Bissau, fui até ao café Avenida onde fiquei a bochechar água Perrier. A andar devagar, lá me dirigi outra vez à casa Taufik Saad para comprar mais banda desenhada, desta vez Les Legions Perdues , de Jacques Martin, continuando o herói a ser Alix.

É ali num passeio à frente que vejo um vendedor de livros usados e acabo por comprar a História de Guiné, 1418-1918, de João Barreto. Sentado no gabinete fresco da biblioteca do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, antes de começar as consultas dos livros e revistas que ontem foram postos de parte por um amável funcionário, folheio o livro do Dr. João Barreto.

Um subtítulo “Derrota dos régulos do Cuor e Badora” chama-me imediatamente a atenção. Estamos em 1907, no tempo do governador Muzanty e das revoltas contra o imposto de palhota. O livro trata Infali Soncó como régulo biafare, o que não era verdade pois os Soncó são mandingas. Infali rebelara-se de conivência com Boncó, régulo de Badora, e com os apoios dos régulos do Corubal, Cossé, Gussorá, Xime, Forreá e Gabu, pelo menos.

O plano de Infali era impedir a navegação do rio Geba e cortar as relações comerciais com Bissau. O régulo prometia libertar a região do imposto de palhota e estabelecer relações com os centros comerciais franceses do interior. Barreto escreve:

Este Infali Soncó foi um dos elementos mais perniciosos que teve a Guiné, não tanto pelo seu poder militar como pela sua extraordinária duplicidade e engenho com que soube enganar as nossas autoridades durante muitos anos.
~
Infali fora nomeado régulo do Cuor depois de um régulo de nome Galona. Nas campanhas do Oio de 1897 e de 1903, Infali abstivera-se de auxiliar as forças portuguesas, à sorrelfa ia, no entanto, ajudando os revoltosos. Sentindo-se desacreditado em Bolama, Infali lança a sua sublevação. O tenente Fortes foi a Sambel Nhanta, tabanca do régulo, onde foi agredido e preso, bem como o alferes Baeta. Bolama responde e envia a lancha-canhonheira Cacheu e uma força comandada pelo chefe de estado-maior. A 1 de Dezembro de 1907, os homens de Infali são rechaçados.

Passados três meses, logo que chegaram forças expedicionárias enviadas da Metrópole e de Moçambique, constitui-se uma coluna de operações comandada pelo governador Muzanty com o objectivo de castigar este régulo. Em 1 de Abril avançam sobre Canturé e depois Sambel Nhanta, mas a tabanca do régulo que estava abandonada. Continuando a sua acção, as forças expedicionárias, tomam Madina. A seguir, o contingente permanece em Caranquecunda. Os outros régulos, perante a fuga de Infali, tratam de enviar emissários protestando a sua obediência às autoridades portuguesas.

Estou deliciado com a descoberta. Conheço todas estas povoações menos Sambel Nhanta que, pelas minhas contas, deve ser Sansão, que sempre ouvi dizer que fora a tabanca de Infali. Tenho aqui uma boa matéria para uma conversa com Lânsana, aliás é importante saber como é que se portou Infali com Teixeira Pinto, vejo aqui que em 1913 o régulo do Cuor é Abdul Injai, o que me desorienta. Vou um pouco mais atrás, às guerras do Oio, em 1897, para perceber o papel de Infali Soncó, e, segundo diz João Barreto, houve um acto de traição por parte dos régulos Infali Soncó e Mamadu Paté, isto a par da pouca valentia dos oincas. Estou eu a combater no Cuor ao lado de Malã, o neto de Infali, e depara-se esta história pouco abonatória de um guerreiro que fez a vida negra às autoridades de Bolama (*) durante mais de vinte anos!

E passo para as leituras que são o propósito desta minha visita. Primeiro, a Índole Guerreira dos Guinéus, pelo Coronel Jorge Velez Caroço. Escreve ele:

As qualidades guerreiras das raças indígenas da Guiné persistem inalteráveis, fulas e mandingas apresentam-se sempre para defenderem o domínio e prestígio das autoridades portugueses, perante qualquer manifestação de rebeldia de outras raças, em qualquer ponto da colónia, vindo enquadrar-se nos contigentes das forças regulares do Governo.

E mais adiante, já falando dos anos vinte deste século, ele refere:
-Não era de estranhar que tendo a colónia uma área de 36000 Km, só metade estivesse sujeita à nossa soberania.

Mudo de leitura, agora folheio África Ocidental, notícias e considerações, por Francisco Travassos Valdez:
Os vendedores do mercado de Bissau fazem comércio de arroz, frutas, galinhas, legumes, leite, ovos, porcos e vinho de palma. Os compradores trocam por objectos de que vêm munidos, que são geralmente aguardente, bandas de tecido grosseiro de algodão, barras de ferro, folhas de espada, pólvora e tabaco em folha. Às vezes admitem também algum patacão, como se chama à nossa antiga e incómoda moeda de quarenta réis que aqueles negros reservam unicamente para a manufactura dos seus grosseiros artefactos.

Falando de Bissau, ele escreve o seguinte:

Considerada em si, aquela praça, formada de quatro frentes abaluartadas, traçadas sobre um quadrado de 100 metros proximamente de lado, com muralhas de 10 a 12 metros de elevação sobre o fosso que a circunda, não passa de uma pequena povoação mal aninhada, com algumas casas palhoças, outras de barro, e bem poucas de sólida construção... Acresce ainda não haver ali facultativo algum nem botica regularmente sortida. Também não se encontra em Bissau um hospital que mereça semelhante nome, pois aquilo a que dão este nome é apenas uma casa indecente, escura e húmida, a que por tais circunstâncias melhor cabe o epíteto de cemitério.

As leituras são estimulantes, sinto-me cansado, mesmo com a boca a saber a sangue estou cheio de fome, vou à procura de uma sopa. Está um sol cru, as palmeiras estão sujas com a falta de chuva, a laterite agarra-se às paredes das casas. Não é a primeira vez que abalo em direcção ao cais do Pidjiquiti, tal o fascínio do bulício dos pescadores e estivadores, o peixe que chega e parte nas canastras das vendedoras.

Capa do romance de José Gomes Ferreira, Aventuras Maravilhosas de João Sem medo. Lisboa: Portugália Editora, 1963 (Contemporânea, 48).

(iii) Por companhia, o João Sem Medo

Vim acompanhado das Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, mais uma oferta do meu Padrinho, ele nunca deixou de mimosear depois dos incêndios de Missirá.

"É um romance irónico, passado num mundo fantástico de símbolos, sonhos e pesadelos e escrito por um homem bem acordado”, assim definiu José Gomes Ferreira esta obra altamente codificada, onde se mistura o romance, a poesia, a fábula e a moral.

João vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, estranha aldeia aninhada perto de uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos. Aquela gente vivia a choramingar, entregues a canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto. João não aguentou mais e partiu, saltando o Muro que circundava aquela terra de tristeza. Vai conhecer fadas, magos, duendes, monstros, colinas de cristal, animais mecânicos, gramofones com asas, oásis da felicidade verde, um príncipe com orelhas de burro, uma cidade confusa, e até a princesa n.º 46734.

Como em todas as histórias de encantar, o herói desemburra-se, ultrapassa todos os obstáculos até regressar à sua terra onde se vive sempre a chorar ou a lamentar. Ele ainda tenta organizar uma conspiração contra as lágrimas mal choradas, mas ninguém o quer ouvir. Lendo-o, recordo-me do final do soberbo romance do José Cardoso Pires, O Delfim:

"... Então, João Sem Medo, provisoriamente, sempre provisoriamente, vendo tantos olhos a chorar... montou uma fábrica de lenços e enriqueceu. (Ah! Mas um dia, um dia!...). Um belo romance sobre o inconformismo, uma fantasia deliciosa contra as rotinas no nosso País.

(iv) Registo de encontros e desencontros

Janto em casa do Cruz Filipe e falamos novamente do estado de saúde do Casanova. Ele insiste:
-Não viva em estado de culpa. Não se pode atender a tudo, mas não o iludo, ele vai demorar anos a reestruturar-se.

Vê-me combalido, leva-me ao QG onde adormeço a deliciar-me com as aventuras de Alix, primeiro convertido em gladiador, depois escutando a história de Agérix, o seu compatriota gaulês que lhe fala da espada de Brennus que os aliados de Pompeu procuram descobrir para tramar Júlio César, o herói das Gálias. Não deixa de me fascinar o bom desenho, o rigor das reconstituições, a congruência dos diálogos, o apuro cromático que me recorda Hergé.

No dia seguinte, vou até Brá onde reencontro o Emílio Rosa no batalhão de engenharia, e a quem meto o meu último empenho de materiais para Missirá e Finete. Tal como combinara, volto aos correios e informo a Cristina sobre as últimas consultas no hospital e, inadvertidamente, devo ter-lhe provocado falsas esperanças quando lhe referi um encontro com um professor de Bissau que prometera trabalho para ela, ainda no presente ano lectivo. Ela insiste em saber se eu vou ficar em Bissau e eu não falto à verdade:
-Logo que tenha os dentes arranjados, regresso imediatamente pois a qualquer momento seremos transferidos para Bambadinca.

A Cristina fala também de Bambadinca como uma possibilidade, pois conversara ao telefone com a Isabel Payne [, mulher do Alf Mil Médico David Payne], que estivera umas semanas na sede do batalhão[, BCAÇ 2852]. Descubro que tenho aqui assunto para explicar à Cristina que não é aceitável convidar uma mulher a viver o sobressalto das flagelações a Bambadinca.

Na Casa Gouveia compro chá e vou ao mercado com a lista na mão para satisfazer os pedidos dos meus soldados. A partir de agora e até jantar com Saiegh ando a cheirar a especiarias. Durante a tarde, procuro encontrar o Botelho de Melo, o meu milagroso oftalmologista, para lhe dizer que espero partir amanhã logo após a consulta do dentista, mas escreverei logo que saiba quando vier a Bissau.

O encontro com o Saiegh é muito agradável, tão agradável que vamos a pé pela estrada de Santa Luzia, onde nos despedimos prometendo eu uma visita a Fá, dentro de semanas. Tal nunca veio a acontecer, estou a despedir-me do Saiegh pela última vez, guardo o seu sorriso e a sinceridade da sua estima, tudo me vem à lembrança no dia em que soube do seu fuzilamento, oito anos depois (2).

De manhã, apresento-me ao meu carrasco que me arranca não sem brutalidade um siso, que vai removendo aos bocados, atulhando-me de algodão e desinfectante. Um jipe conduz-me ao Quartel General, tenho sorte há ainda lugar no Dakota que partirá no princípio da tarde para Bafatá. Com uma maleta e um saco de especiarias mais um saco com livros e a cara inchada pelas atrocidades do dentista, desembarco em Bafatá, levam-me até Galomaro, no Cossé, espero mais uma boleia, à noite janto e durmo em Bambadinca. Finete fora atacada na noite passada, o Reis conta-me que foi uma flagelação sem consequências. Inconscientemente ou não, peço que me levem aos cais para eu ver Finete, como a estivesse a abraçar.

O mês está a findar. De 1 a 14 de Novembro, Missirá conhecerá três flagelações, um fogo ligeiro e muito pouco destruidor. A 14, o Pel Caç Nat 52 parte para Bambadinca, ainda vou ficar três dias em Missirá. Vou viver a quinzena do adeus. Só lá regressarei em Fevereiro, a caminho da mais sangrenta das minhas operações, a Tigre Vadio. O nome parecia ser uma homenagem a um tigre que tinha deixado Missirá e que vivia na errância, aos baldões da sorte.

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 23 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2299: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (10): O meu amigo açoriano de Bissau
(2) Vd., entre outros, alguns dos nossos posts om referências ao Saiegh, de origem sírio-libanesa, que foi foi furriel miliciano do Pel Caç Nat 52 e depois Alferes e Capitão dos Comandos Africanos; foi fuzilado já depois da indepência da Guiné-Bissau.
19 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1038: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (6): Entre o Geba e o Oio, falando do Saiegh e dos meus livros