sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4871: Memória dos lugares (36): Bissau 1968 (José Nunes, ex-1º Cabo, BENG 447, Brá, 1968/70)

1. O nosso Camarada José Nunes (José Silvério Correia Nunes), ex-1º Cabo, BENG 447 (Brá, 1968/70) esteve na Guiné de 15JAN68 a 15JAN70, enviou-nos uma reportagem fotográfica sobre um “passeio” pela saudosa, acolhedora e belíssima Bissau, no ano de 1968, a que deu o título de:

Bissau, de encantos tamanhos

Camaradas,

Aqui vão fotos de Bissau. Fui um felizardo, passei grande parte da Comissão em Bissau e grandes momentos no mato com Camaradas de diversas unidades, onde sempre me trataram com grande Amizade.

Por isso, o meu mais profundo respeito pelos Camaradas operacionais.

Eu tive mais sorte.


Junto à porta do Museu

Em plena Avenida da República

Junto a uma estátua

Ponte do Cais do Ilhéu do Rei


Entrando no autocarro da linha Brá - Bissau

Ao Esforço da Raça

Junto à estátua a Teixeira Pinto

No exterior do Forte da Amura

Com o meu Camarada Baiona de Andrade

Junto à porta da Sé Catedral

Um Abraço de Amizade,
José Nunes 1º Cabo do BENG 447

Fotos: © José Nunes (2009). Direitos reservados.
___________
Nota de MR:

Vd. último poste da série em:

Guiné 63/74 - P4870: Notas de Leitura (17): Le pouvoir des armes, de Amílcar Cabral (Beja Santos)


1. Mensagem de Mário Beja Santos, ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70, com data de 27 de Agosto de 2009:

“Le pouvoir des armes” ["O Poder das Armas"]
Um clássico obrigatório, de Amílcar Cabral

Em Janeiro de 1970, a conceituada editora François Maspero dá à estampa nos “Cahiers libres” (colecção onde foram publicados Ernest Mandel, Eduardo Galeano, Che Guevara, Régis Debray e Malcom X, entre outros pensadores revolucionários) uma escolha de intervenções de Amílcar Cabral retirada de artigos, conferências e seminários, e referente ao período de 1962 a 1969: Le pouvoir des armes.

Cabral, ao tempo, é já o mais prestigiado dos líderes teóricos dos movimentos de libertação envolvendo o Império Colonial Português. Fora entrevistado numerosas vezes pelos media de todo o mundo. Livros que gozavam de enorme fama na luta anticolonial como Lutte armée en Afrique, de Gérard Chaliand, e Révolution en Afrique, de Basil Davidson, tratam-no com indiscutível respeito pela solidez do seu pensamento, pela sua indesmentível capacidade organizativa e pela aplicação estratégica revolucionária sobre as condições concretas da Guiné.

Todos os jornalistas que percorrem os territórios de guerrilha pasmam com a luta armada face à presença militar dos portugueses e dos seus aliados guineenses. Ao longo desses anos 60 ele é respeitado sempre que a comparação se impõe com as revoluções falhadas de África e a ascensão do neocolonialismo. Foi decisivo no lançamento das bases da estratégia do PAIGC, revelou-se brilhante na análise da estrutura social das diferentes etnias que compõem o mosaico guineense, foi Cabral que paciente e minuciosamente organizou em simultâneo a acção política e a militar.

Nesta obra percebe-se como o seu nome já se impusera ao nível da teoria revolucionária, graças à leitura original que ele fazia da luta de classes em países subdesenvolvidos e o papel histórico da pequena burguesia nas lutas dos movimentos de libertação.

A admiração é tanto maior se pensarmos que na época a Guiné (quase do tamanho da Suíça) teria uma população próxima da de Liverpool ou São Francisco. Como se sabe, Cabral referiu em diferentes intervenções que a “libertação” da Guiné restaria ou teria uma influência decisiva em toda a África Austral, modificaria as influências de todo o imperialismo em África e não excluía consequências radicais na vida política de Portugal.

A diferentes títulos, Cabral foi singular: revelou-se insubstituível como teórico do PAIGC, nenhum dos seus companheiros veio a mostrar preparação como a dele, nem cultura, nem poder argumentativo; marxista convicto, era subtil entre os apoios que recebiam de Moscovo, de Pequim, do Terceiro Mundo e também das sociais-democracias; pudera percorrer toda a Guiné no início dos anos 50, a pretexto de um recenseamento agrícola, conhecera o mosaico étnico, indispensável para o longo trabalho clandestino que veio a desenvolver; e a sua análise partia sempre da Guiné, das singularidades da opressão colonial, caracterizando-a num misto de razão e paixão, mesmo que misturasse o azeite com água, caso da Guiné confundido com a situação colonial de Cabo-Verde; era rigoroso quando enunciava a estrutura social da Guiné, mesmo quando camuflava as divergências profundas entre as etnias que mais apoiavam o PAIGC e aquelas que mais se opuseram; com desassombro, impôs o papel da pequena burguesia com indispensável na direcção revolucionária, mas nunca escondendo que esta se podia transformar rapidamente numa força apoiante do neocolonialismo.

Lidos estes textos à distância de meio século, permitem discernir a capacidade genial de Cabral para liderar um movimento revolucionário mas também as suas fraquezas maiores que, após 1974, irão levar um país triunfante para a situação de esmoler da caridade internacional. Prisioneiro duma carapaça utópica da “Guiné de Cabo-Verde”, contribuiu para uma sangrenta separação e para um relacionamento com ódios ocultos.

No seu entusiasmo, Cabral ficcionou cidadãos livres e uma economia próspera dirigida pelo PAIGC que, como é de todos sabido, se veio revelar um insucesso estrondoso.O livro correu mundo, foi cartão-de-visita junto das entidades revolucionárias, despertou mais interesse em conhecer Cabral.

Hoje, é uma referência de um pensamento desajustado aos imperativos do desenvolvimento, mas merece ser relido para se saber que Cabral foi um político invulgar que amava a cultura portuguesa e que escrevia primorosamente português, basta ver a sua obra científica relacionada com a sua especialidade de engenheiro agrónomo.Le pouvoir des armes vai ficar na biblioteca do blogue, seu novo proprietário.



Comentário: este mapa era prato obrigatório da propaganda do PAIGC, dava como adquirido 2/3 do território libertado, outro em disputa, outro controlado temporariamente pelas Forças Armadas Portuguesas, referindo os quartéis como locais sitiados. Como se sabe, misturava-se fantasia com realidade, realidade com desejos, factos lógicos com dados irracionais. Mas era propaganda!

(Beja Santos)

Imagens: © Beja Santos (2009). Direitos reservados.
___________
Notas de MR:

Vd. último poste da série em:

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4869: Histórias de José Marques Ferreira (6): A morte à frente dos olhos… perdão, à frente da avioneta!



1. O nosso Camarada José Marques Ferreira, que foi Sold. Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 462, Ingoré 1963/65, enviou-nos com data de 25 de Agosto de 2009, mais uma engraçada (para nós diz ele) estória:

Camaradas,

A morte à frente dos olhos… perdão, à frente da avioneta!

As velhinhas e saudosas avionetas “Auster” eram uma maravilha, para transportes rápidos nas guerras coloniais.


A “Dornier” era muito melhor, com mais bojo de capacidade e mais espaço, permitia que fôssemos sentados na base que servia de apoio do aparelho sobre o pavimento.

Todos nós temos algumas ‘estórias’ com estes aparelhos da Força Aérea.

Eu tenho algumas e, numa delas, pareceu-me que não chegaria ao destino, tal foi a reacção que o “Gregório” me provocou, que me agoniou o estômago...

Precisamente porque o piloto passou a viagem a fazer piruetas, subindo e descendo constantemente, em “picanços” de arrepiar. Isto de Bissau até Ingoré. A missão era entregarmos o correio, através do postigo lateral, junto dos respectivos aquartelamentos, nomeadamente no dos meus camaradas de Sedengal.

Um dia, surgiu a necessidade de ir ao quartel-general a Bissau, fazer qualquer coisa que não me recordo. O que eu não esqueço foi o que aconteceu antes de partirmos para Bissau, melhor dizendo, quase nem chegávamos a sair de Ingoré.

Havia uma serração próximo do aquartelamento. Certo dia, apareceram lá pessoas responsáveis pela empresa proprietária dessa serração, numa avioneta (creio que uma “Auster”), que apenas tinha capacidade para três passageiros.

O comandante da companhia contactou essas pessoas, no sentido de nos permitirem essa deslocação a Bissau. E quem havia de ir na aeronave, eu, «o administrador da companhia».

A preocupação foi saber qual o peso que eu transportaria, já que não levaria armas, nem cartucheiras, nem munições. Nada mais do que uma pasta comportando, talvez, meia dúzia de documentos.Feitas as apresentações, lá entramos na avioneta. Como certamente devem estar a adivinhar, nada percebo de avionetas ou veículos do género.

Com a avioneta a funcionar, dirigimo-nos para o início da pista (coisa que outros pilotos com veículos idênticos não faziam), e senti, estranhamente, uma aceleração do motor muito anormal. Avançamos em grande velocidade em direcção à estrada que estava no topo da pista. Na berma, do lado contrário, existiam algumas moranças nativas.

Em Ingoré, esta pista, de terra batida, ficava junto à estrada para S. Vicente, a pouca distância daquela localidade.Voltando à pista, o aparelho deslizava rapidamente, mas não via modo nem jeito de o mesmo levantar voo. E eu via a aproximação da berma da estrada e das referidas moranças a uma velocidade vertiginosa. Pensei então que íamos ficar esborrachados algures por ali, até que, numa espécie de golpe rápido, a avioneta levantou, com o ruidoso roncar do seu motor, por cima das moranças e toca de ganhar altura.

Só vos digo que foi um susto pior que alguns tiros em terra firme… quase borrei as calças, ou calções que trazia vestidos…

Mas, lá em cima, já com perfeita noção que o pior tinha passado, comecei a verificar que quem pilotava ia em direcção, não de Bissau, mas um pouco desviado para nordeste, pelo que, passado pouco tempo, estaríamos no Senegal. Íamos na direcção de Barro, um pouco “inclinados” para a fronteira, portanto, iríamos entrar por lá dentro, mais perto ou mais longe, sem licença de quem quer que fosse.

Quando olhei para a paisagem e vi as vias que eu já bem conhecia, só me restou fazer uma coisa simples; bater no ombro de quem pilotava (pois a barulheira lá dentro era tamanha que não se conseguia contactar com ninguém) e, por gestos, dizer-lhe que a direcção a tomar era a da estrada, que estava por debaixo e atrás de nós, melhor dizendo, na direcção do nosso lado direito.

O homem viu que ia mal, mudou de direcção em ângulo recto e começou a orientar-se pela dita estrada que ia de Ingoré-S.Vicente-Bula-Bissau.

Chegamos, finalmente e em pouco tempo, a Bissau. E só aqui é que me apercebi, que aquele aparelho, excluindo talvez a bússola, não tinha qualquer outro tipo de aparelho de orientação: um mapa, um rádio, nada…

Afirmo isto porque, para aterrar no aeroporto, demos uma volta e aguardamos que da torre de controlo, através de sinalética com bandeiras, no passadiço exterior (não sei como se chamam as áreas de varandas que rodeiam estes equipamentos), lhe fosse dada autorização para aterrar.

Caros camaradas só posso dizer-vos uma coisa: isto pode não ter graça nenhuma para vós, ou interesse algum, mas, para mim, foi uma experiência que me provocou um cagaço tal, que gosto pouco e nem quero recordar muitas vezes…


Nota: - Na foto, o homem que não tinha vocação para piloto de helicópteros (mas oportunidades não lhe faltaram, como esta). Prefiro bem mais andar com os pés assentes no chão… acho que é melhor!

Para todos um abraço,
J.M. Ferreira

Foto 1: © Casimiro Carvalho (2009). Direitos reservados.
Foto 2: © José Marques Ferreira (2009). Direitos reservados.
____________
Nota de M.R.:

(*) Vd. último poste da série em:


Guiné 63/74 - P4868: Parabéns a você (22): Jaime Machado, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2046 (Os Editores)

Hoje dia 27 de Agosto de 2009, faz anos o nosso camarada Jaime Machado, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Rec Daimler 2046 que esteve na Guiné entre 1968 e 1970


Jaime Machado esteve presente no nosso III Encontro Nacional em Ortigosa no dia 17 de Maio de 2008, desencaminhado sabe-se lá por quem, e ficou tão apanhadinho que passados poucos dias se nos dirigiu assim:

Caro Luís Graça e demais Companheiros da Tabanca Grande:

Depois da forte emoção que senti no passado sábado, dia 17, durante o III Encontro Nacional em Monte Real, não posso adiar por mais um dia que seja a minha apresentação à tertúlia.

Apresenta-se então o ex-alf Mil Cav Jaime Machado que foi comandante do Pel Rec Daimler 2046 e que cumpriu toda a sua comissão na Guiné, em Bambadinca, entre 6 de Maio de 1968 e Março de 1970.

Junto as duas fotos da praxe e prometo dentro em breve dar mais notícias.

Recebam todos os tertulianos um forte abraço deste periquito que agora se junta a vós.

Jaime Machado
ex-Alf Mil Cav
Pel Rec Daimler 2046



Daí para cá está bastante mais apanhado, o que muito nos apraz.
Esteve presente pela segunda vez em Ortigosa, acompanhado de Maria de Fátima, como no ano passado, porque as esposas também são contagiadas por esta estirpe de vírus.

De entre a sua colaboração no Blogue, destacamos a História da Cavalaria em Bambadinca e o envio de muitas fotografias, das quais, mais à frente mostramos algumas.

Este é o meio de que utilizamos para publicamente virmos apresentar ao nosso camarada Jaime Machado as nossas felicitações pela passagem de mais este aniversário, desejando ao mesmo tempo que esta data seja a intermédia para uma longa vida junto dos seus familiares e amigos. Incondicionalmente nos juntamos à sua alegria.


Algumas das fotos marcantes da sua presença no nosso Blogue:

Guiné > Zona Leste > Estrada Bambadinca-Bafatá > 1969 > Coluna da CCAÇ 12, a caminho de Bafatá, vendo-se ao fundo uma AM (autometralhadora) Daimler, do Pel Rec Daimler 2046, instalado em Bambadinca, e que era comandado nesse tempo pelo Alf Mil Cav Jaime Machado

Bambadinca, 1968/70> Brasão do Pel Rec Daimler 2046, junto ao mastro da Bandeira

Bambadinca> Eu próprio de Oficial de Dia, em serviço no Refeitório

Fevereiro de 1970 em Bambadinca> Eu com um belo conjunto de bajudas junto à Capela

Estrago de mina na estrada Bambadinca/Xime

Fevereiro de 1970> Adeus Bambadinca> Eu à direita na LDG a caminho de Bissau

Abril de 1970> Pel Daimler 2046 no RC6, Porto, na passagem à disponibilidade

Pintura de autoria de Jaime Machado repesentando uma bajuda no Cais de Bambadinca.

Ortigosa, 2008 > Zé Teixeira e Jaime Machado em conversa animada

Ortigosa, 2008 > Jaime Machado e Maria de Fátima em conversa com camaradas

Ortigosa, 2008 > Jaime Machado e Mário Beja Santos

Ortigosa, 2009 > António Sousa Bonito e Jaime Machado
__________

Notas de CV:

Poste de Jaime Machado com datas de:

21 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2866: Tabanca Grande (69): Jaime Machado, ex-Alf Mil Cav, Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, 1968/70)

21 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2867: Dando a mão à palmatória (12): O comandante do Pel Rec Daimler 2046 era o Jaime Machado e não o J. L. Vacas de Carvalho

5 de Junho de 2008> Guiné 63/74 - P2918: História da Cavalaria em Bambadinca (1): Pel Rec Daimler 1133 (1966/68) adido ao BCAÇ 1888 e ao BART 1904 (Jaime Machado)

7 de Junho de 2008 > Guine 63/74 - P2922: Convívios (63): 40.º Convívio de ex-combatentes da Guiné que passaram por Bambadinca entre 1968/71 (Jaime Machado)

10 de Junho de 2008> Guiné 63/74 - P2927: História da Cavalaria em Bambadinca (2): Pel Rec Daimler 2046 (1968/70) adido ao BART 1904 e ao BCAÇ 2852 (Jaime Machado)

24 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2981: Hélio Felgas, com Spínola, em Bambadinca (Jaime Machado)

30 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3001: História da Cavalaria em Bambadinca (3): Pel Rec Daimler 2206 (1970/71) adido ao BART 2917 (Jaime Machado)

24 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3092: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (1): Pinturas, de Jaime Machado; As Capelas de Leça, de José Oliveira

Vd. último poste da série de 22 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4851: Parabéns a você (21): José Luís Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Os Editores)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4867: Memória dos lugares (35): Porto Gole, Março/Abril de 1968, CART 1661 (José Nunes, ex-1º Cabo, BENG 447, Brá, 1968/70)



Guiné > Região do Oio > Porto Gole > Março / Abril de 1968 > CART 1661 >
Trabalhos de electrificação do aquartelamento a cargo de uma equipa do BENG 447, onde se integra o José Nunes, autor destas imagens...

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > Vista geral da povoação e aquartelamento

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > O Sesimbra, o Biaia e o José Nunes, posando junto ao temível Morteiro 81

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > Junto a um dos abrigos do aquartelamento

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 >O Biaia, que presumimos ser um 'protegido' da tropa, quiçá a mascote da companhia (CART 1661), que - como muitos outros miúdos guineenses - cresceram dentro do arame farpado, ao longo da guerra colonial...


Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > O José Nunes posando para a posteridade com a inofensiva (para os humanos) mas sempre mítica jibóia...

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > Todos à v0lta da jibóia - I


Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 >Todos à volta da jiboia - II

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 1968 > Todos à volta da jibóia - III

Fotos: José Nunes (2009). Direitos reservados



1. O José Nunes (, de seu nome completo, José Silvério Correia Nunes), ex-1º Cabo, BENG 447 (Brá, 1968/70) esteve na Guiné de 15 de Janeiro de 1968 a 15 Janeiro de 1970.


Fez assistências e electrificações em aquartelamentos como Porto Gole, Enxalé, Ponta do Inglês, Bolama e Bissum-Naga.

Esteve em Porto Gole em Março/Abril de 1968, altura em que se procedeu à electrificação do aquartelamento (foto à esquerda). Não tínhamos até agora fotos dele. Finalmente, e a nosso pedido, ele procedeu à digitalização de uma série de fotos, que iremos publicar. Hoje começamos com as suas memórias de Porto Gole.

"Nesse tempo o Comando ficava na Habitação existente, e servia de alojamento aos Oficiais e Sargentos. O restante pessoal ficava no celeiro e nos abrigos, construídos, e nos abarracamentos construídos junto da casa maior" (*).

A tabanca "estava alinhada, formando uma rua até ao cruzamento da estrada que ía pra Mansoa e para Enxalé. De frente para o Geba, junto ao monumento, a pista ficava do lado direito; no esquerdo, no pequeno vale com laranjeiras e uma horta, ficava o poço onde nos abasteciamos de água".

Na altura a CART 1661, a que pertencia o nosso camarada Abel Rei (**), "tinha pessoal em Bissá e em Enxalé"... Acrescenta o José Nunes:

"Sei que tinha um número considerável de baixas. Foi quando apareceram as primeiras minas incendiárias que fustigavam as colunas de reabastecimento a Bissá. Tenho algumas fotos lá tiradas com a malta, impecável. Em Porto Gole foi onde vi a maior jibóia na Guiné, morta quando se ía buscar lenha para fazer a comida.

"Foi aqui que tentaram envenenar toda a Companhia, deitando no poço toda o tipo de restos de vacas mortas, tripas, peles... O poço era tapado com tampo de madeira e na base do gargalo havia um buraco para enfiar a mangueira da bomba, foi por aí que introduziram tudo, nas barbas de um posto de sentinela, mas pela horta era fácil. As flagelações eram feitas do cruzamento, na altura foi construido aí um posto avançado [, um fortim], para evitar as flagelações. Durante a minha estada nunca fomos atacados". (***)

__________

Notas de L.G.

(*) Vd. postes de:

10 de Junho de 2009 >Guiné 63/74 - P4492: Memória dos lugares (30): Porto Gole, CART 1661 (1967/68) (José Nunes / Abel Rei)

22 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2470: Diorama de Guileje (5): Geradores na Guiné (José Nunes)

22 de Janeiro de 2008> Guiné 63/74 - P2469: Tabanca Grande (55): José Nunes, ex-1.º Cabo Mec Electricista de Centrais (BENG 447, 1968/70)


(**) Vd. postes de:

12 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4815: Notas de leitura (14): As memórias do inferno de Abel Rei (Parte I) (Luís Graça)

14 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4820: Notas de leitura (15): As memórias do inferno de Abel Rei (Parte II) (Luís Graça)

24 de Agosto de 2009 > Guiné 1963/74 - P4858: Notas de leitura (16): Memórias do inferno de Abel Rei (Parte III) (Luís Graça)

(***) Último poste da série Memória dos lugares:

14 de Julho de 2009 >Guiné 63/74 - P4682: Memória dos lugares (34): Guiné, Sol e Sangue, de Armor Pires Mota, CCAV 488, 1963/65 (José Marques Ferreira)

Guiné 63/74 - P4866: Bibliografia (30): Eu e os Comandos, artigo de Mário Beja Santos na Revista Mama Sume, da Associação de Comandos

1. Texto enviado por Mário Beja Santos à Associação de Comandos que lhe havia pedido para escrever um artigo a publicar na Revista "MAMA SUME"


Eu e os Comandos
 

por Mário Beja Santos

Fui alferes miliciano na Guiné, onde vivi ininterruptamente entre Julho de 1968 e Agosto de 1970. Contei toda esta história da minha comissão em dois livros publicados em 2008: “Diário da Guiné, Na Terra dos Soncó, 1968 – 1969“ e “Diário da Guiné, O Tigre Vadio, 1969 – 1970”, ambos publicados pelo Círculo de Leitores e a Temas e Debates. Durante 17 meses vivi no regulado do Cuor, como comandante dos destacamentos de Missirá e Finete. A minha principal missão era vigiar e garantir a navegabilidade do rio Geba, indispensável para a continuação da guerra. Comandei, na circunstância, um Pelotão de Caçadores Nativos e dois Pelotões de Milícias. Protegia o rio, emboscava, patrulhava e cuidava de centenas de civis, garantindo-lhes o abastecimento, a segurança, o médico, o professor para as crianças, a correcção nas práticas da justiça, ao lado do régulo.

A segunda etapa da minha comissão foi vivida no sector de Bambadinca, intervindo na área operacional, como comandante de colunas até ao Xitole ou Xime, patrulhando, destruindo canoas do inimigo, apoiando as tabancas em autodefesa, mas fazendo igualmente um pouco de tudo, desde de levar e trazer o correio, levar e trazer doentes, garantindo a segurança dos reordenamentos, protegendo a sede do batalhão num posto avançado infecto, para não dizer desumano. Continuei a combater ao lado dos meus caçadores nativos e na companhia de tropa africana, designadamente a Companhia de Caçadores 12 (foi esse o laço que me transportou, décadas depois, para o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, onde deposito as minhas memórias e o meu indefectível amor àquela terra)

Serve esta apresentação para dizer ao leitor que combati quase sempre com tropa regular que eu apresentei nos meus livros como “alguns dos soldados mais valentes do mundo”, gente que confiou incondicionalmente em mim, a quem confiei missões espinhosas, esgotantes, destemidas.

Os meus soldados ensinaram-me muito, quer os nativos quer os metropolitanos: a crescer entre a solidariedade e a abnegação; e a não fugir ou adiar as missões diárias dos patrulhamentos junto ao Geba, tínhamos nos ombros a responsabilidade de tantas vidas. Eu sei que o leitor considerará inacreditável o que vou dizer: no mínimo dos mínimos, fazíamos 25 km entre Missirá e Mato do Cão, ida e volta, a qualquer minuto de qualquer hora do dia. Missirá ficou praticamente destruída em Março de 1969 e quando partimos, em Novembro desse ano, deixámos um quartel reconstruído, o maior esforço de toda a minha vida. Só foi possível porque contei com dedicação dos meus soldados, que faziam reforços, colunas de reabastecimento, emboscadas nocturnas, não direi sem um queixume (na época das chuvas cheguei a ter 40 por cento dos efectivos acamados) mas com uma elevadíssima capacidade de colaboração. Falo de homens que punham luvas brancas para hastear ou arrear a bandeira portuguesa no mastro três vezes destruído, três vezes renascido, enquanto lá estivemos juntos.

Não combati com os Comandos, dei militares de carácter e de grande valentia para as suas três companhias que se formaram na Guiné:

(i) primeiro, Zacarias Saiegh, meu furriel que comandava Missirá antes de eu chegar. Mantivemos uma relação difícil, mas assente no respeito mútuo, soube em primeira mão da sua decisão em integrar-se na 1ª Companhia de Comandos Africana, que se formou em Fá, e que nos coube proteger durante meses, do lado de cá do rio Geba. Foi fuzilado em 1977, em Porto Gole, nesse estranho drama que foram os fuzilamentos de uma intentona que, enquanto não houver provas, não passou de uma vil purga;

(ii) Mamadu Camará, que quando cheguei a Missirá era o 221, e uma noite, debaixo de fogo, pressentindo que a deflagração de uma morteirada inimiga me ia atingir, atirou-se sobre o meu corpo, tendo ficado com muitos estilhaços nas costas e pernas, foi brutalmente ferido no reencontro na região do Cantanhez, veio em 1972, é cidadão português;

(iii) Cherno Suane, o meu guarda-costas, o mais querido dos meus irmãos, que viveu o inferno do Cumeré, sujeito a prisão arbitrária e às mais horríveis sevícias, entre 1977 e 1980, consegui que viesse em 1992, é também cidadão português, preenche com resignação todos os anos papelada infernal para trazer o filho mais velho, até agora a burocracia delirante é mais forte que o reencontro familiar;

(iv) Queta Baldé, o mais precioso colaborador que tive na preparação dos meus livros, nunca vi memória como a dele, fugiu para o Senegal para não ser morto, em 1974, aqui o temos entre nós, vive na Amadora, tal como o Mamadu e o Cherno subsiste entregue a tarefas humildes para ter os filhos na faculdade;

(v) e Serifo Candé, que fui visitar a Biana, no leste da Guiné, em 1991, e que não acreditou que eu não o tivesse ido buscar para o trazer para Portugal, o Serifo é o meu remorso, é bem provável que eu tenha que voltar à Guiné e trazer este homem de modos tão gentis que nunca percebeu porque é que não volta a hastear, cheio de aprumo, uma bandeira verde rubra que ele prometeu defender até à morte.

Este foi o legado que deixei aos Comandos, este legado é uma das tragédias da minha vida, continuo sem saber aonde arrecadar o sofrimento destes homens que nem sempre puderam refazer o sentido das suas existências.

Deixei para o fim uma sentida homenagem ao meu instrutor em Mafra, já na especialidade de atirador de infantaria. Era pouco mais velho do que eu, um homem seco de carnes, um olhar azul firme e decidido, com uma expressão de rectidão e confiança em tudo o que dizia e fazia. Ensinava com desvelo, era convincente e de bom trato. Tinha uma arte de comunicar, imprimindo sabor, às matérias mais áridas. Ele ficou em Mafra, eu parti para Ponta Delgada, daqui regressei para formar batalhão, fui dado como “ideologicamente inapto para a guerra de contra-guerrilha, mormente no Ultramar Português”, e os meus superiores, à cautela, lançaram-me na rendição individual, acabavam-se assim os incómodos.

Voltei a ver o já então capitão Garcia Lopes num encontro espúrio em Bissau, ele estava nos Comandos, ouviu-o vibrar na descrição de um regresso de operação com os seus soldados feridos: “Custe o que custar, um Comando traz todos os seus camaradas, feridos ou mortos, nem que necessário seja dar a vida”. Guardei esta frase, dolorosamente já tinha trazido nas espáduas o Paulo Ribeiro Semedo, compreendi perfeitamente a mensagem e os sentimentos do capitão Garcia Lopes.

Gostava muito que esta lembrança chegasse aos ouvidos deste distintíssimo oficial. Aprendi na vida que marcamos os outros com uma simples frase, a rectidão de um gesto ou um sopro de coragem.

Os Comandos, por inerência, são gente exemplar na minha vida. Espero que percebam que tenho muito orgulho nestes meus soldados que partiram para outras guerras e que continuam meus compatriotas, heróis anónimos que ganham humildemente o que as pensões não dão para uma vida decente. Tão gente exemplar como aquele capitão Garcia Lopes que aproveitou um encontro espúrio em Bissau para me recordar que a camaradagem é mais exigente nas horas más que nas boas.

[Revisão / fixação de texto: CV/LG]

Guiné 63/74 - P4865: Gavetas da Memória (Carlos Adrião Geraldes) (4): Abel, o nosso Cabo Maqueiro

Mais um episódio de Gavetas da Memória de autoria de Carlos Geraldes, ex-Alf Mil da CART 676, Pirada, Bajocunda e Paúnca, 1964/66.


O cabo maqueiro

Naquele dia a manhã corria monótona e sempre igual às de tantos outros dias. Apenas o cozinheiro e o ajudante andavam de um lado para o outro atarefados com a preparação do almoço. O aquartelamento parecia deserto. As duas viaturas, o jeep e o velho Unimog, jaziam adormecidas arrumadas a um canto do telheiro de chapas de zinco. Reinava um silêncio pesado como a chapa de ouro do sol que tudo cobria.

Ainda era cedo para ir buscar água à bolanha e os soldados escondiam-se por aqui e por ali, onde houvesse uma sombra, a jogar às cartas, a dormitar ou a deambular pela aldeia, entrando nalguma casa comercial onde sempre apareciam novidades ou alguma bajuda jeitosa e sorridente para meter conversa de meia pataca.

O malandro do Furriel Coutinho também já se tinha desenfiado a pretexto de ir verificar a cerca de arame farpado lá para os lados do caminho que ia dar à pista de aviação e ninguém mais soube dele.

Dos outros dois furriéis, um estava de cama com paludismo e o restante fazia-lhe uma carinhosa (?) companhia. (Sempre suspeitámos que aquela amizade era talvez mais do que apenas isso. Pelo menos da fama não se livravam, embora o assunto nem fosse assim muito escandaloso e curiosamente bem tolerado naquele aglomerado de homens isolados do resto do mundo).

De modo que, como acontecia quase sempre, sem ter nada que fazer, nem nada com que me entreter, fui até a enfermaria ver o que é que o cabo maqueiro tinha por lá de novo.

O nosso cabo maqueiro, que aqui fazia as vezes de enfermeiro, era um rapaz muito metódico, alegre e falador. A sua presença era sempre motivo de divertimento para os colegas e de um fascínio estranho para os nativos que a ele recorriam para a possível cura das mais diversas maleitas. A todos atendia prontamente com a mesma coragem e tenacidade, quer se tratasse de curar uma dor de cabeça, como cozer um braço rasgado pela poderosa dentada da mandíbula de um burro enraivecido.

A enfermaria, pomposamente assim designada não passava de uma pequena divisão nas traseiras do refeitório dos soldados, onde mal cabia uma mesa, duas cadeiras e uma cama de ferro a servir de marquesa para os ocasionais pacientes que tanto podiam ser os militares do destacamento como os inúmeros civis que todas as manhãs, mulheres sobretudo, faziam fila com os filhos ao colo ou a reboque pela mão, na esperança de serem curados pelo doutor da tropa.

Lembro-me que uma vez, quando na companhia do Chefe de Posto de Pirada, o senhor Barbosa, um simpático velhote com tantos anos de África que mais parecia africano, fazíamos uma ronda pelas tabancas ao sul de Pirada, surgiram umas mulheres que, a chorar, lhe pediam que fosse acudir a um pobre velho que estava prestes a morrer pois já nem se mexia.

O nosso cabo lá pegou no saco dos medicamentos que trazia sempre consigo e resignado, mas sempre galhofando, dirigiu-se com as mulheres para o meio de uma das palhotas mais afastadas, enquanto eu e o Miguel, o condutor do jeep, ficávamos rodeados pela população que se ia aglomerando diante do nosso grupo composto também pelo imponente régulo da aldeia e pelo chefe de Posto, o velho e pacífico Barbosa.

Entretanto tentávamos perceber e deslindar a teia de peripécias e complicações inevitáveis sempre que o chefe de Posto queria proceder a mais um recenseamento dos jovens nativos desta região, pois como sempre, quase ninguém sabia a verdadeira idade que tinha. Regulam-se pelas fases da Lua, pelas colheitas e outros marcos que balizavam as suas vidas e não pelo nosso calendário, claro está. O velho Barbosa pacientemente, com a cabeça apoiada numa das mãos lá ia paulatinamente preenchendo os extensos mapas que a Administração lhe mandava e, que na verdade, só ele entendia.

Mal tínhamos chegado à tabanca, logo tinham aparecido cadeiras e bancos para todos, bem como uma tosca mesa que serviria de secretária. A miudagem, curiosa e irrequieta, espreitava morrendo de curiosidade por nos tocar, fugindo espavoridos quando esboçávamos a mais pequena intenção de os agarrar.

Os nitidamente mais velhos, adolescentes quase adultos, comprimiam-se receosos, num dos cantos do largo principal da aldeia, pois bem sabiam que a nossa presença só lhes poderia dizer respeito. A Administração todos os anos vinha arrebanhar os jovens que estivessem mais ou menos na idade do serviço militar e isso para eles era uma verdadeira tragédia a que no entanto se submetiam resignadamente. O branco é que mandava e o preto tinha apenas que obedecer.

Mas voltemos ao nosso cabo maqueiro, que por sinal tinha o nome de Abel Preto. O que ocasionava situações caricatas quando chamávamos por ele, usando o último nome e ele se encontrava, como de costume, na sua função, rodeados por nativos que, inocentemente, não se apercebiam que estávamos apenas a gozar com a cara deles.

Eis senão quando, surge o nosso cabo maqueiro rodeado por uma pequena multidão de mulheres velhas e novas que o traziam quase ao colo com demonstrações de grande regozijo e veneração, dançando e cantando, saudando-o efusivamente como a um milagroso homem santo. Mais atrás vinha uma jovem amparando um velhote sorridente que muito desembaraçadamente gesticulava e falava sem cessar.

O que tinha acontecido?

Muito simplesmente isto: perante um suposto enigma médico, para ele e para os seus escassíssimos conhecimentos de medicina, o nosso cabo maqueiro, optou por usar todos os medicamentos que tinha que nem eram assim tantos, resumiam-se a umas aspirinas e pomadas para alguma dor ou entorse. Podiam não ser totalmente eficazes mas mal também não fariam. Depois de despir o velhote aplicou-lhe uma valente esfrega de pomada analgésica pelas costas de cima a baixo, deixando o doente mais bem barrado que um frango pronto a entrar no forno. A seguir aplicou-lhe duas aspirinas pela goela abaixo com uma pouca de água. E, ou porque o remédio era mesmo bom, ou por que o paciente nunca tinha tido contacto com as medicinas dos brancos e estava portanto cem por cento receptivo a essas panaceias, o que de facto sucedeu é que ao fim de poucos minutos começava a dar sinais de já se poder mexer e em pouco menos de meia hora levantou-se são como um pêro, beijando as mãos do seu benfeitor, para grande espanto dele e, também de todos os assistentes, que logo ali o consideraram um verdadeiro homem santo.

A notícia espalhou-se num abrir e fechar de olhos e de todos os lados acorria gente para testemunhar a maravilha e querer também beneficiar dos milagrosos dons curativos daquele doutor que tinha vindo com a tropa. E todos traziam algo para lhe oferecer, ovos, laranjas, mandioca, nozes de cola e até galinhas vivas, pois tamanha benesse teria de ser recompensada.

Naquele fim de tarde o bom do nosso maqueiro quase que viu esgotar-se o stock de medicamentos que tinha improvisado quando lhe disse para vir comigo naquele passeio de acção psicológica para cairmos no agrado das populações.

Nos restantes dias viu-se aflito para poder contentar toda a clientela que não o largava em qualquer tabanca onde aparecêssemos.

Ganhou uma reputação tal que, creio ter posto em perigo a continuidade dos curandeiros de aldeia que, não acharam graça nenhuma a tais acontecimentos.
E nós, os que assistíamos a mais uma das prodigiosas façanhas do nosso bom cabo maqueiro apenas tivemos que paulatinamente ir dando vazão aquelas provisões que surgiam de todos os lados e que já não cabiam no jeep da Administração.


Durante vários dias os nossos pequenos-almoços foram ovos cozidos e laranjas! E para o almoço ou jantar, frango de churrasco!

Planta de Pirada

Pirada > Primeira cozinha

O bom do senhor Barbosa, Chefe de Posto de Pirada na intrincada tarefa de fazer o recenseamento civil

Recenseamento civil no regulado de Propana. O Régulo Serifo Embaló, o Chefe de Posto de Pirada, senhor Barbosa e eu, Alferes Geraldes, como convidado
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 20 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4843: Gavetas da Memória (Carlos Adrião Geraldes) (3): Os Cipaios