sábado, 14 de fevereiro de 2015

Guiné 63/74 - P14253: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (5): João Martins (Tabanca de São Martinho do Porto)


Alcobaça > São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > Foto de LG




1. Mensagem do nosso camarada João José Alves Martins, ex-Alf Mil Art.ª do BAC 1 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/70), com data de 8 de Fevereiro de 2015:

Assunto:  14/2/2015: A "mindjer grande" faz 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito, decana da Tabanca Grande


Clara Schwarz

É com um misto de saudade, de admiração e de agradecimento que escrevo estas singelas palavras.

Saudade, porque tive o privilégio de vos conhecer numa tarde quente de verão em S. Martinho do Porto, desfrutando na vossa acolhedora casa, de um ambiente de confraternização, em que os sentimentos de amizade e de partilha eram predominantes.

Recordo que foi nesse almoço que conheci o Pepito que nos deixa muitas saudades pois era um homem preocupado com o bem estar e a felicidade dos outros, lutando, na medida das suas forças, por uma Guiné mais próspera com a possibilidade de contribuir para melhores condições de vida.

Admiração, porque a Clara, durante toda a sua vida, assumindo o papel de mãe e de professora, transmitiu educação e valores, dando um verdadeiro exemplo de cidadania e contribuindo para um Mundo melhor.

Agradecimento, porque todos nós, só podemos agradecer todo esse esforço, sacrifício e, até, sofrimento, porque a vida dedicada ao bem comum também tem, como contrapartida, os seus contratempos e as suas dificuldades.

Bem haja Clara, e que Deus lhe conceda muita saúde, muitos anos de vida e muitas felicidades.
João Martins
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de Fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14252: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (4): José Teixeira (Tabanca Pequena, Matosinhos)

Guiné 63/74 - P14252: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (4): José Teixeira (Tabanca Pequena, Matosinhos)


Alcobaça > Martinho do Porto > 21 de Agosto de 2010 > Casa do Cruzeiro > A Clara Schwarz, uma cidadão do mundo, uma mulher de grande coragem e cultura, que ajudou a fundar o Liceu Honório Barreto, em Bissau, onde foi professora de francês... É licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


Foto: © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados




Alcobaça > Martinho do Porto > 13 de Agosto de 2011 > Casa do Cruzeiro > A Clara Schwarz, uma cidadão do mundo, uma mulher de grande coragem e cultura, com um experiência de 25 anos de Guiné (onde foi professora de francês no Liceu Honório Barreto, em Bissau). É licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa... .Aqui, aos 96 ano, no convívio da Tabanca de São Martinho do Porto  com o Zé Teixeira e os filhos Tiafo e Joana...


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados


1. Mensagem do José Teixeira, um dos régulos da Tabanca de Matosinhos:

Cem anos bem vividos. É que se pode dizer da D. Clara.

Uma mulher voltada para o mundo, muito atenta aos acontecimento, sobretudo com uma vida muito ativa e sempre aberta à comunidade. Ainda hoje continua a cativar amizades, pela simpatia que irradia.

Tive o grato prazer de a conhecer há uns anos atrás na sua casa de S. Martinho do Porto, na tertúlia que o saudoso amigo Pepito, seu filho, organizava todos os anos, quando vinha passar um mesito com a mãe.  Dizia ele que tinha de vir à fonte e na verdade, a D. Clara é uma fonte de afetos e uma fonte de sabedoria. Conversar com ela e viajar com ela ao seu passado de luta, é gratificante, pelo que se aprende com seu exemplo e dedicação a causas que considerava fundamentais, como o ensino do povo da Guiné, como forma de desenvolvimento.

Num desses encontros, levei os meus filhos. Juntamo-nos, um grupo de amigos, com um denominador comum, a Guiné, centrados no Pepito e os seus sonhos de promoção humana das gentes daquele país. Mesmo ao lado uma simpática velhinha cativava a atenção de dois jovens, pela sua jovialidade e visão atual do mundo. Era a D. Clara que lhes falava da Guiné, do tempo que por lá andou e como conseguiu dar vida aos seus projetos. Escutavam-na atentamente com uns olhitos a brilhar, de espanto talvez, ou, de bem-estar pela forma como a D. Clara expunha apaixonadamente as suas ideias.

Muito obrigado D. Clara pelos 100 anos de vida ativa. Quero expressar-lhe o meu apreço e a minha gratidão, pelo que aprendi consigo nas vezes que nos encontramos em sua casa.

Cá de longe, quero enviar-lhe um profundo abraço de parabéns e desejar-lhe muita saúde.

José Teixeira
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Nota do editor:

Último poste da série de 14 de Fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14251: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (3): Patrício Ribeiro (Bissau)

Guiné 63/74 - P14251: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (3): Patrício Ribeiro (Bissau)


Alcobaça > São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 7 de agosto de 2008 > O Pepito e a mãe... Foi a 1º encontro da Tabanca de São Martinho do Porto. Foi nessa altura que conheci pessoalmente a mãe do Pepito. Escrevi a respeito deste convívio:  "Foi um privilégio, para mim, para o João e para a Alice, usufruir da hospitalidade dos Schwarz e conhecer, pessoalmente, a matriarca da família, senhora que atravessou um século e tem uma memória, uma cultura e uma vitalidade prodigiosas"...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados.


1. Mensagem do Patrício Ribeiro, o "patriarca" dos portugueses na Guiné-Bissau (já há quase 3 décadas) [, foto  à esquerda: em Farim, dezembro de 2014]:


De: IMPAR Lda energia <impar_bissau@hotmail.com>

Data: 10 de fevereiro de 2015 às 17:26

Assunto: 14/2/2015: A "mindjer grande" faz 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito, decana da Tabanca Grande


Olá Luís,
Aqui vai.

Doutora Clara Schwarz! Sempre assim a tratei, embora ela me deixasse sempre à vontade, quando lá ia a casa.

Não a vejo há um tempo, mas sei do sofrimento por que está a passar e sei também que dia 14, será um dia ainda mais triste para ela. Não havia aniversário dela, em que o meu querido e saudoso amigo Pepito, não fizesse questão de estar presente!

Agora restam-lhe as saudades e saber que o filho é e será sempre lembrado pelos amigos que fez por
vários continentes, especialmente pelos mais próximos e que deixou uma marca na sua amada terra, a Guiné Bissau! E onde tanta falta faz!


Que dizer mais de uma Senhora que completa 100 anos com a vivacidade que lhe conhecemos? Resta-me o consolo de saber que estará rodeada da familia, principalment dos seus netos e bisnetos.

À Doutora Clara, desejo um dia senão feliz, pelo menos um dia na companhia dos seus familiares e com a certeza de que muitos amigos estarão a pensar nela e a desejar que o passe em Paz!

Um abraço apertado do
Patricio

*****************
Patricio Ribeiro
IMPAR Lda
Av. Domingos Ramos 43D - C.P. 489 - Bissau ,
Tel / Fax 00 245 3214385, 6623168, 7202645, Guiné Bissau
Tel / Fax 00 351 218966014 Lisboa
www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com

Guiné 63/74 - P14250: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (2): tive o privilégio de a ter como professora de francês no Liceu Honório Barreto (Manuel Amante da Rosa, embaixador de Cabo Verde em Roma)


Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 15 de Agosto de 2009 > A "jovem de 94 anos", na altura, Clara Schwarz, em férias...


Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 15 de Agosto de 2009 > O nosso querido amigo Pepito,  Ao fundo, um "pano africano...."Nesse dia, almoçámos uma deliciosa cachupa, confeccionada pela Isabel, que é de nacionalidade portuguesa, bem com os filhos, Cristina, Ivan, Catarina... O Pepito fez sempre questão de conservar a sau nacionaliddae guineense"...

Fotos (e legendas) : © Luís Graça (2009). Todos os direitos reservados


1. Mensagem do Manuel Amante da Rosa [,  ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; atual embaixador de Cabo Verde em Roma]


Meu Caro Luís,


Reflectindo sobre o teu pedido sobre a minha inestimável Professora Clara Silva, veio-me à memória a minha Mãe, há uns anos, desabafando, desconsolada e incrédula, de que era contra natura os filhos morrerem primeiro que as mães. O meu irmão tinha acabado de falecer. Mágoas que ela diz nunca chegam a sarar a não ser com o desaparecimento da própria genitora.

Recordei das primeiras vezes que vi o Pepito, sentado no Império, no campo de futebol de Salão, no Estádio Sarmento Rodrigues, nas escadarias do Liceu Honório Barreto ou sentado na varanda da sua casa contígua à Floresta Negra. Uma referência para nós, que contávamos o tempo que demorava a passar para entrarmos para o Liceu como alunos. 

Destacava-se o Pepito no grupo da sua geração pela exuberância da sua simpatia, de se dar com todos, mesmo com os mais novos, pelas sonoras gargalhadas e ser bom aluno. Para além de ser filho, obviamente, da Dra. Clara que todos respeitavam havia muitos anos, como excelente pedagoga. Tinha uma auréola de respeitoso silêncio que a acompanhava pelos corredores, indo para as salas de aula ou voltando para a sala de professores. Todos baixávamos a voz ou interrompíamos os jogos ou correrias à sua passagem.

Cincoenta anos passados e ainda me lembro de como entrou pela primeira vez, altiva e austera, no nosso 1º ano B, com o bonjour da ordem, pasta em cima da mesa, livro de ponto aberto e caderneta nova, com as nossas fotos, ainda por preencher nos recantos das notas e chamadas orais. Iniciar ela própria a chamada da praxe para nos ir identificando pelo primeiro nome, um sorriso e olhar maternal ocasional para os mais amedrontados dissiparem o respeito que nos incutia.

Não me lembro nunca de ter visto algum aluno a ser expulso das suas aulas ou levar falta de material. Ela teria o dom da disciplina sem ter que castigar. Uma admoestação verbal dela caía fundo porque era dada de frente para o aluno, olhando-lhe bem nos olhos. Muito preocupada sempre com aqueles que sabia serem os mais carenciados e carentes de locais para estudo. Poucos olhares se mantinham fixos nela quando por detrás das lentes procurava um de nós para as chamadas orais. 

Durante quatro anos tive o privilégio de a ter como minha Professora de Francês e ao mesmo tempo educadora. Como eram os Professores antigamente. Fui expulso algumas vezes de outras aulas. Éramos irrequietos, jovens e sempre à procura de algo diferente mas nas classes da Clara Silva e mais um ou outro Professor imperava a atenção e a disciplina. 

 Este o testemunho e a imagem carinhosa, respeitosa e de saudades que tenho da minha Professora Clara Silva que dentro de dias festejará o seu 100º Aniversário.

Abraços, Luís.
Manuel
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Nota do editor:

Vd. poste anterior de 14 de Fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14249: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (1): 100 anos não é apenas uma vida, são muitas vidas, que atravessam dois séculos e muitos lugares do mundo (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P14249: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (1): 100 anos não é apenas uma vida, são muitas vidas, que atravessam dois séculos e muitos lugares do mundo (Luís Graça)







Guiné &gt; s/d &gt; "Durante a  estadia na Guiné [, 1948-1966], Artur [Augusto Silva] viveu feliz tanto em Bissau onde trabalhava como em Varela onde ia em geral passar as férias do Natal. Aqui vão  fotografias desses tempos".

[As fotos são da página do filho do casal, João Schwarz da Silva, que vive em Paris: Des Gens Interessants. Temos a sua amável autorização para utilizar a documentação inserida na sua página sobre pessoas que tiveram vidas "interessantes", basicamente amigos e família, a começar pelos seus pais, Artur Augusto Silva e Clara Schwarz da Silva, nascidos respetivamente em 1912 e 1915]

Fotos (e legendas):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]



Portugal &gt; Alcobaça &gt; São Martinho do Porto &gt; Estrada do Facho &gt; Casa do Cruzeiro  &gt; c. 1957 &gt; O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko [Henrique] e Carlos (1949-2014).

Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (, nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anitos... Que matulão, para a idade!  Nessa altura, a família vivia em Bissau e vinha passar férias à metrópole, mais concretamente na "Casa do Cruzeiro"...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG, com a devida vénia]



Da esquerda para a direita, Clara Schwarz, Maria Helena  e Amílcar Cabral, na estrada de regresso de Dakar para Bissau em 1954.

Foto do arquivo pessoal de Clara Schwarz. O seu marido, o escritor e jurista Artur Augusto Silva, é que conviveu mais com Amílcar  Cabral. Clara, que foi professora no Liceu de Bissau, traduziu textos (técnicos, não políticos) de Cabral para francês.  Pepito, o filho mais novo, nasceu em Bissau, em 1949.

 Foi o nosso saudoso amigo Pepito (Bissau, 1949-Lisboa, 2014) quem nos cedeu esta foto, na altura em que aqui publicámos um notável texto seu sobre "Amílca Cabral, um agrónomo antes do seu tempo"...

Amílcar Cabral, casado com Maria Helena, regressou a Bissau, em setembro de 1952, tinha então 28 anos. Em entrevista dada, em Bissau, ao Diário de Lisboa, em 27/5/1980, três anos antes de morrer, Artur confidenciou que "privou bastante" com  Amílcar Cabral.  Ambos eram membros do Centro de Estudos da Guiné. A última vez que o viu,  foi em setembro de 1956, dias antes de fundar o PAI [mais tarde, PAIGC]. Uns meses antes, tinham-se encontrado em Angola e combinado um jantar em Bissau. Amílcar passou à clandestinidade, e o jantar nunca mais se realizou.

Foto; © Carlos Schwarz (2013). Todos os direitos reservados. [Edição: LG, com a devida vénia].


 Guiné > Bissau > 1953 > Vista aérea da cidade, tirada na direcção sul-norte. Ao centro, a avenida principal, a Av República (hoje Av Amílcar Cabral) onde já se erguia, à direita, a sé catedral (arquiteto João Simões / Gabinete de Urbanização Colonial, 1945).  Ao fundo da avenida, do lado esquerdo já se erguia o cinema UDIB, o melhor edifício da cidade (arquiteto Jorge Chaves, 1949-52), de iniciativa privada. Em Bissau, com cerca de 5 mil habitantes, era lá que se reunia a elite local...

Ao fundo, à direita, o bairro de Santa Luzia  (1948), com uma estrutura reticulada: foi a primeira experiência de alojamento para populações nativas. Em primeiro plano o cais do Pidjiguiti, e parte da zona portuária ainda em obras...

Quando Artur e Clara chegaram a Bissau, no final dos anos 40, a cidade estava em plena fase de densolvimento, graças ao dinamismo e *a visão do governador Sarmento Rodrigues. Vários edifícios públicos estavam a construir-se,  havia ruas por asfaltar, espaços para ajardinar e alindar...


Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG, com a devida vénia]


1. Mensagem do nosso editor LG:

Camaradas, amigos/as: hoje, sábado, 14, a nossa amiga Clara Schwarz faz 100 anos. Nasceu em Lisboa em 1915. De origem judia (pai polaco e mãe russa), casou com o escritor e advogado Artur Augusto Silva (, nascido na Ilha da Brava, Cabo Verde, em 1912).  Teve 3 filhos, o mais novo dos quais o nosso saudoso Pepito (1949-2014). Clara viveu na Guiné em dois períodos: 1949-1966 e depois da independência, até ao ano da morte do marido, em 1983.

Licenciou-se em letras pela Universidade de Lisboa e frequentou o Conservatório Nacional de Música (onde tirou o curso de violino). Foi professora no liceu Honório Barreto, em Bissau. Tem gente, no nosso blogue, que foram seus alunos: estou-me a lembrar do António Estácio, do Manuel Amante da Rosa... (Ambos escreveram um pequeno depoimento para esta ocasião, que publicaremos a seguir.) Foi amiga ou pelo menos privou com o casal Cabral, Helena e Amílcar. No início dos anos 50, fez inclusive traduções, para francês, de trabalhos técnicos do engº agrº Amílcar Cabral.

O  pai de Artur Augusto Silva  havia falecido 1925 em Lisboa,  onde se encontrava para tratamentos. Deixava a esposa de 50 anos de idade e dois filhos ainda menores, João e Artur, que foram viver para casa da irmã Cristina, em Lisboa. Esta irmã mais velha (n. 1904)  tinha casado com o médico Augusto Pereira Brandão que na altura trabalhava em Farim, na Guiné.



S/d &gt; S/d/ &gt; "Da esquerda para a direita,  Cristina (nasceu em 1904), Artur (nasceu em 1912), Henrique e Margarida (os pais) e João (nasceu em 1910)."

Foto (e legenda):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]

Por sua vez, já aqui falámos do seu irmão, e tio do Pepito, o João Augusto Silva. Sobre ele escreveu Mário Beja  Santos:

(...) João Augusto Silva (1910-1990) foi funcionário da Administração Colonial na Guiné, em Angola e Moçambique. Desenhador, naturalista, decorador e escritor, foi galardoado em 1936 com o Prémio de Literatura Colonial da Agência Geral das Colónias. Foi também caçador, tendo abandonado a espingarda em troca da máquina fotográfica, com a qual se dedicou a capturar imagens de uma
das suas paixões: os animais. Nasceu em Cabo Verde, passou parte da infância na Guiné, terra a que regressará entre 1928 e 1936. As suas obras maiores são: “África: Da Vida e Amor da Selva” e “Animais Selvagens: Contribuição para o Estudo da Fauna de Moçambique”. Administrador do Parque da Gorongosa, será mais tarde Curador do Jardim Zoológico de Lisboa. Sobre a Gorongosa deixou um livro da maior importância “Gorongosa: Experiências de um Caçador de Imagens”. Foi recentemente homenageado pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Foi irmão de Artur Augusto Silva, um investigador e poeta luso-guineense, aqui já várias vezes auferido, e tio do nosso confrade Pepito." (...)




Belíssima xilogravura de João Augusto Silva, publicada na revista "Momento", de fevereiro de 1936.


Foto (e legenda):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]


Desiludido com a vida do pós-guerra em Portugal, Artur decide partir, em finais de 1948, para a Guiné. Chega ao território em 6/11/1948. A família (Clara, João e Henrique) ir-se-á juntar-lhe no ano seguinte. Carlos ("Pepito") nasce em 1949.

Artur, até 1966, exerce naquele território a sua profissão de advogado, mas também fez de notário e até substituto do Delegado do Procurador da República. [Sobre Artur Augusto Silva temos duas dezenas e meia e meia de referências no blogue]

Escreve o seu filho João: "Em 1948, partiu para a Guiné (Bissau) para ali continuar a advocacia, com um sentimento pesado de frustração pela derrota politica, deixando para trás o Movimento de Unidade Democrática [MUD,] , desfeito, Leiria e Alcobaça, a mulher e dois filhos que em 1949 se juntaram a ele". (...). Depois da guerra, em 1945, o dr. Artur Augusto, como era conhecido, tinham esperanças na mudança democrática e pacífica do regime de Salazar.  Em 1947, o MUD foi ilegalizado e o o seu nome continuou debaixo do olho da política política... até ao 25 de abril.

Na Guiné, "foi um dos fundadores do Colégio Liceu de Bissau (Liceu Honório Barreto) que no inicio a partir de 1949 ocupava umas salas do Museu da Guiné que tinha sido criado em 1947 num edifício junto do Palácio do Governador". Em julho de 1952 era  governador Raimundo Serrão... "De 1949 a 1956, o liceu ocupou algumas salas do Museu. Só a partir do inicio do ano lectivo 1956 é que o Instituto Liceal Honório Barreto passou a poder contar com instalações próprias." 

Foi também membro do Centro de Estudos da Guiné. Licenciado em Direito, Artur havia estado, de 1939 a 1941, em Angola, como secretário particular do Governador Geral, dr. Manuel Marques Mano; de regresso a Portugal exerceu advocacia em Lisboa, Alcobaça e Porto de Mós. O casal viveu em Alcobaça e tinha casa de praia em São Martinho do Porto. Diz o filho João: "Depois de se casar, Artur Augusto exerceu a advocacia em Lisboa, mas a convite de Luciano Santos, um amigo pintor, decidiu mudar-se para Alcobaça onde havia falta de advogados".


Lisboa &gt; s/d &gt; c. 1930/40 &gt; Artur Augusto Silva, numa festa,  com a Clara (à direita) e uma amiga.



Lisboa &gt; 1935  &gt; "Foi como director da revista Momento que Artur Augusto acompanhou o funeral de Fernando Pessoa em 1935, Possivelmente a única fotografia tirada nessa altura, mostra Artur à direita da fotografia ligeiramente encoberto por outro participante"

Fotos (e legendas):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]

Ainda como estudante (, passou pelo Liceu Camões, foi colega de faculdade de Álvaro Cunhal), e depois como recém-licencidado, Artur  Augusto participou intensamente da vida cultural e literária de Lisboa dos anos 30. Foi director da revista "Momento" e, nessa qualidade, acompanhou o funeral de Fernando Pessoa,  em 1935.

"Publicou vários livros, fez reportagens, dirigiu saraus literários, organizou exposições de arte moderna, promoveu conferências culturais na Casa da Imprensa, na Sociedade Nacional de Belas Artes e em vários outros locais de Portugal nomeadamente no Grémio Alentejano e no Porto", escreve o seu filho João Schwarz da Silva, que vive em Paris, numa sentida e bela homenagem que faz ao seu pai, na sua página "Des Gens Intéressants" [, Pessoas Interessantews].

Em 1953, morre o pai de Clara, Samuel Schwarz (, nascido em Zgierz, Polónia, Rússia, em 1880). Havia-se formado, em 1904, aos 24 anos, como engenheiro civil de minas, na École National Supérieure de Mines de Paris.




Bilhete de identidade de cidadão português de Samuel Schwarz, emitido em 25 de janeiro de 1941.



Autorização de residência, emitida em 19/2/11927, para a mãe de Clara, Agata Schwarz


Fotos (e legendas):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]


Samuel trabalhou em diversos países na indústria petrolífera (Baku, Cáucaso Russo) e na indústria mineira (Polónia, Inglaterra, Espanha, Itália e, por fim, Portugal). Em 1914, casa em Odessa com  Agatha Barbash,  filha de um banqueiro. (Nascida em 1884, em Tulczyn, Ucrânia, virá a morrer em 1950, em Lisboa)

Na altura em que eclodiu a I Guerra Mundial, em  1914, com 34 anos de idade, Samuel estava em viagem de núpcias em Portugal. Decidiu cá ficar. Começa a trabalhar em 1915 numa mina de volfrâmio, em Vilar Formoso, e noutra de estanho, em Belomonte, Na época vivia em Lisboa. Em 14 de fevereiro de 1915 nasce a sua filha, Clara.

Os cristãos-novos em Portugal no século XX
Autor: Samuel Schwarz
Editora: Livros Cotovia
Local: Lisboa
Colecção: Judaica
Ano de Edição: 2010
N.º de Páginas: 200
ISBN: 978-972-795-309-7

Sobre a vida fascinante deste homem Samuel Schwarz (1880-1953), vd. aqui o artigo escrito pelo seu neto João Schwarz da Silva:  judeu asquenaze,  era fluente em nove línguas,incluindo o hebreu. Foi um conceituado estudioso do judaísmo em Portugal, arqueólogo, historiador, autor da descoberta e da revelação pública, em 1925, da comunidade cripto-judaica de Belmonte, e .  bem como da antiga sinagoga de Tomar que comprou e efereceu ao Estado Português. Em 2010,  os Livros Cotiva reeditaram, em livro, o seu trabalho, de 1925, sobre os cristãos-.novos da Beira Baixa e, em especial,  de Belmonte, os rituais do Babatm do Kiopur e da Páscoa, orações ditas em português arcaico misturadas com palavras hebraicas, e que foram transmidas, sempre pelas mulheres, ao longo de quatro séculos e meio, pro sucessivas gerações.

Fotografia e assinatura no passporte do marido, emitido em
23 de agosto de 1946. Cortesia de João Schwarz da Silva 
Clara Schwarz da Silva é  nossa grã-tabanqueira desde 2010... Entrou para a Tabanca Grande, mais precisamente,  em, 14 de fevereiro de 2010, aos 95 anos.  Passou então a ser a Mulher Grande da nossa Tabanca Grande, com o nº de entrada 397. Hoje temos mais de 675 membros. É a nossa decana, e também a "mulher grande" da Tabanca de São Martinho do Porto (que se reuniu todos os todos os anos em agosto, quando o Pepito vinha de férias, de 2008 a 2012). Alguns de nós têm o privilégio de a conhecer e de ter privado com ela e a sua família, na famosa "casa do Cruzeiro", em São Martinho do Porto.

Foi sempre um mulher independente e cosmopolita. Até há bem pouco tempo era muito autónoma, usando com desenvoltura o telefone, o skype, o mail, a internet, e visitando o nosso  blogue… Ainda ontem telefonou à Maria Alice Carneiro, mamtendo com ela uma conversa perfeitamente normnal... Conduziu até tarde, com mais de 90 anos. Tem uma memória prodigiosa, é culta, é poliglota, e tem um grande  orgulho de seu pai, engenheiro de minas, de origem polaca,

Se outras não fossem válidas, bastaria invocar aqui o seu papel como co-fundadora, juntamenete com o marido e outros,  do Liceu Honório Barreto, hoje Liceu Nacional Kwame N' Krumah. Mais: foi professora de francês (e creio que também de português) de inúmeros guineenses, incluindo  dirigentes do PAIGC... (É capaz ainda de os citar de cor, e avaliar um a um!)...

Fala, sempre e ainda hoje, com muita ternura do seu marido, Artur, como um homem que "conhecia e amava a África" como poucos... Recordo-me de ela ter.me oferecido com dedicatória um pequena brochura dele, "Pequena Viagem Através de África"... Foi uma conferência que ele pronunciou na Associação Comercial da Guiné, em 1963, no 46.º aniversário da sua fundação. É uma admirável lição de sapiência e de sabedoria.

Três anos depois, em 1966, a PIDE prendia-o no aeroporto de Lisboa. O seu único crime era o de ser defensor de presos políticos... Libertado graças à intervenção pessoal, ao que se soube,  de Marcelo Caetano, seu professor de direito, após quatro ou cinco meses de Caxias, sem culpa formada, seria impedido de voltar à sua querida Guiné, agora a ferro e fogo... Sabe-se que o governador Schulz considerou-o "persona non grata" no território.




"Foi preso no aeroporto de Lisboa à chegada de Bissau [, em 26 de agosto de 1966,]  já em plena luta de libertação da Guiné, e foi detido na prisão de Caxias durante 4 meses sem julgamento. Foi libertado a 23 de Dezembro de 1966, por influência de alguns amigos que lhe conheciam e admiravam o carácter, mas foi-lhe fixada residência na capital . Escassos dias antes da libertação de Artur da prisão de Caxias, o Governador da Guiné (Arnaldo Schulz) mostra-se preocupado com a sua eventual libertação. [Sua Excelência o Governador é de opinião que aquele senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo".]

Foto (e legenda):  © João Schwarz da Silva  (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG, com a devida vénia]


Clara falou-me uma vez deste episódio triste e do cinismo do governador, Schulz, que era visita da casa dos Silva, em Bissau, e que inclusive acompanhou o Artur, até ao aeroporto, nessa triste viagem sem regresso... Só depois da independência é que Artur (e a Clara) voltaria, a convite de Luís Cabral, para desempenhar o lugar de juiz do Supremo Tribunal de Justiça... E lá morreria, em Bissau, em 1983. Era especialista em direito consuetudinário. Publicou livros sobre os usos e costumes jurídicos dos felupes, mandingas e fulas.

É também com a mesma frontalidade e coragem que a Clara vem protestar, em 2005, junto do Presidente da Câmara de Belmonte pela imperdoável omissão do nome do seu pai, Samuel, no recém-inaugurado Museu Judaico de Belmonte. Embora tarde, a injustiça foi reparada em 2007.

(...) "S. Schwarz está na origem da descoberta dos cristãos novos de Belmonte. Graças à sua enorme sabedoria ele revelou os ritos e costumes destes cristãos novos, em numerosos livros dos quais o principal, publicado em 1925, 'Os cristãos novos em Portugal no Século XX' , livros esses que são uma referência incontestável tanto para historiadores portugueses como estrangeiros." (...)

Hoje, sábado, 14 de fevereiro de 2015, os filhos, netos e bisnetos vão fazer-lhe uma festinha íntima. Ela fez questão de dizer "não queria nada", porque ainda não ultrapassou a profunda dor causada pela morte, inesperada, do seu querido Carlos... E não era seguramente esta a festa dos 100 anos que a gente tinha imaginado para ela...

À distância (, ela mora em Paço de Arcos, Oeiras), e respeitando a sua intimidade, queremos apenas levar-lhe uma palavra de afeto, apreço, conforto, amizade e homenagem... 100 anos não é apenas uma vida, são muitas vidas, que atravessam dois séculos e muitos lugares do mundo... Mais de metade da sua família, da Europa de leste, desapareceu com a II Guerra Mundial. E ela conheceu uma boa parte dela quando visitou a Polónia em 1938 (*)...

Clara Schwarz é uma mãe coragem. E um exemplo de vida, inspirador, para todos nós. Alguns/algumas de nós fizeram questão de  escrever duas linhas sobre esta mulher e nossa amiga, que sempre manifestou um grande interesse e carinho pelo nosso blogue. São esses testemunhos que publicamos a seguir, a par deste pequena resenha biográfica, que só possível graças à amável e afetuosa cumplicidade do João (que veio ontem de Paris se juntar à festa de família). Também sei que, pelo menos os filhos do Pepito, Ivan e Catarina, vai estar hoje a cantar os parabéns à avó, a "mindjer grande" que nos orgulha a todos/as. (**)

O editor Luís Graça (em nome pessoal e da Tabanca Grande)
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 26 de agosto de 2009 &gt; Guiné 63/74 - P4863: Agenda cultural (24): A História de Cristina, por Mikael Levin, no CCB, de 31/8 a 8/11 (Carlos Schwarz, 'Pepito' / Luís Graça)

(**) Vd. poste anterior de 14 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14248: Parabéns a você (860): Senhora Dona Clara Schwarz, Amiga Centenária, Grã-Tabanqueira

Guiné 63/74 - P14248: Parabéns a você (860): Senhora Dona Clara Schwarz, Amiga Centenária, Grã-Tabanqueira

A Centenária Senhora Dona Clara Schwarz
Foto: © Luís Graça


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Nota do editor

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14237: Parabéns a você (859): José Brás, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1622 (Guiné, 1966/68)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Guiné 63/74 - P14247: Blogpoesia (401): Me fere o tirar a vida (Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art MA da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 11 de Fevereiro de 2015:

Comando a NT. Ao me preparar para uma patrulha; segurança ou emboscada, os sentidos multiplicam-se. Atento ao mínimo pormenor. A distância diminui. Os olhos ampliam as imagens. A pica beija o chão, meigamente bate. Se somos agressivos, rebenta. O coração cadenciado como o melhor relógio do mundo. De pressa, não! A pica presa, como a vara do pastor.

Surge o inimigo, inicia-se o fogo, o meu coração surge como um sino manejado por um sacristão aprendiz.
Num ápice, fico anestesiado, a mente o obriga. Controlo o medo que por milésimos de segundos invadiram o meu ser. Tem calma! Vislumbro, e logo de seguida, sábio de tal modo que antecipo-me ao tempo. Com nitidez, o mundo na mão. E a sabedoria encontra resposta imediata para tudo.

Quantos mortos? Feridos? Evacuações, o radiotelegrafista tem de informar:
- Nenhum morto! Sete a evacuar!

Mas qual a memória, que matemática e fotografia? Os olhos munidos de lentes e de maquinetas fotográficas dão a resposta certa.
A razão de colocar aquela orquestra é a pausa, a liberdade que regressa e mora dentro de mim. Transformo-me em ave que voa na pauta. Música nascida na pureza de notas libertas.

Interessa-me mais a poesia, gostava de saber, mas necessito de uma ajuda, de um empurrão. Uma opinião basta. Os meus dedos tocam o teclado, por acaso não com a delicadeza que se trata uma mona ou um diamante em bruto. A poesia tem de ser facetada, e eu só trabalho o tosco. Falta-lhe, talvez o nome mais apropriado: ALMA.

Como me sinto muito em baixo, nunca vivi um período tão mau, desde o dia 26 de Setembro. Se paro morro…
Mário Gaspar


Me Fere o Tirar a Vida!

Mário Vitorino Gaspar

“Uma guerra ganha-se com a razão da força.
E o vencedor conta-a depois com a força da razão.”
Vergílio Ferreira

- Amanhã ao despertar do sol, Corredor da Morte!
Quebra o silêncio a voz do capitão,
cheira-me a sangue em tal reunião.
As sílabas me sugam o rosto, será que choro?
quererei beber as lágrimas de quem adoro?
Riso de malmequer a olhar a lua, o furriel miliciano:
- Deus, deixa-me viver só falta um ano!
Naquele cemitério de trevas vamos ter sorte!

O sol a me sorrir fontes de madrugada
somos pastores beliscando a terra com carinho,
ao ombro como um cajado, a G3 meu amorzinho.
Fiéis camaradas com precisão alinhados,
alguém grita comigo: - Piquem, meus adorados!
seja fornilho, armadilha ou mina
mascarada, nariz de riso de palhaço pequenina.
Piquem com amor e não haverá nada!

Árvores rainhas erguem-se em prece: Guileje à vista!
De verde salpicados, soldados nos seus postos
sementeiras de suores nos seus rostos.
Risonho a meu lado, do tão jovem que foi
rompeu um veterano, eterno herói.
Lares distantes, destas terras solitárias...
Na guerra existe ódio e campas tumultuárias.
Raízes fortes de Portugal. Há quem resista!

Chega a hora para comer e descansar
vou beber uma cerveja e mais nada
ainda há gente rindo, feliz e acordada.
Sonhar com as namoradas… dormir!
nem sequer o camuflado vou despir.
Beijar a vida, beijar o beijo, sem dor
sonhar sementes de paz cobertas de amor.
Sono descansado, salta o coração a palpitar!

Partida, noite escura, beijar rosas mas a picar
G3, bazucas, MG’s, morteiros, todos carregados
rompemos a mata e o tempo, e chegamos.
Esperar a ameaça chegar, tarefa dura
o tempo custa o silêncio adormece, é altura!
Há quem desespere a espera e não a suporte
Cheiram-se aromas do Corredor da Morte.
Vai andar a roda, o sorteio está no ar.

Mulheres quais peixeiras surgem à frente
coroadas de caixotes, pressa no andamento,
não é fruta nem peixe, é armamento.
O pão de liberdade para o inimigo
é amor forte de libertação, antigo.
Digo a ciciar: - deixá-los avançar!
Sinal silencioso, dou ordens para atirar
Matar para não ser morto, é hora de o ter presente.

Tiroteio vira inferno, inunda o belo de ais
há vómitos de morte, das morteiradas
pavor de barrigas sangrando esburacadas.
Semeiam-se palmos de terra para sepultura...
recolhem feridos e mortos e sem cura.
Mortos presos nas covas e onde a glória?
Nós vivos saboreamos a vida na memória,
chegados ao lar o que contar aos pais?

PAIGC grita responde sem parar,
debaixo de tiros e rebentamentos
mais mortos caem, outros com ferimentos.
Vagueamos num cemitério, floresce-nos a sorte
nem um beliscão um ferido uma morte.
Um dos meus heróis: - Escapámos desta!
Em Guileje, em Gadamael depois, será festa.
Beliscaremos umas cervejas para alegrar!

Atravessamos a bolanha comprida,
à altura da cabeça está o capim
ainda há que andar para chegar ao fim.
Pecarás! – tinha ouvido na igreja mas é guerra
longe da família do amor e da nossa terra!
Lembro de novo o padre: - Não matarás
se fores um malfeitor és igual a Satanás!
Coisa não estranha… me fere o tirar a vida!

Temos de orar, pedir perdão a Deus?
Choro sem lágrimas sei que Ele existe.
Sou um girassol sem sol, quedo e muito triste.
Matámos e ferimos gentes pequei e pecamos
Deus manda amar e não amamos …
Dar paz ao inimigo e um abraço?!
O poeta pinta entre os povos o enlaço
verso pincel ou cinzel com fundo de céus!

Senti tudo o que amava, num singelo olhar:
alma e coração do meu golfinho,
lezíria, fragatas, bateiras, o beijinho
do Pai, minha Mãe heroína sem fala.
Pincéis de poemas, letras, e não cala
a silvestre e brava amoreira de amor.
No coração estagna-me uma linda flor
revejo a fuga do Sol ao infinito rumar!

A morte é… a morte não gera amor,
ter de matar para não morrer?
A morte padece e faz padecer
é a solidão da multidão no cais a partida,
não é ser é nada ser nesta vida.
Ver-se culpado pelo sangue que se derrama
do corpo do seu inimigo, é drama!
Ó meu Deus por tal te imploro, Senhor.

Passada a bolanha cresce a floresta
perdem-se versos cresce a morteirada
retarda-se o tempo na retirada.
Irmãos de Guileje, destino a atingir!
Saboreamos o sumo do suor, a fugir
tocando nos secos lábios e bebemos
sonhos sonhados, mundo melhor não vemos
e este é reles e na verdade não presta!

Amor e rezas além dos mares, flor sorri…
Ainda longa é a viagem até à chegada.
Incólumes das mordidelas da emboscada,
sãos e soltos de vida, às portas das mortes
passaram. Regressa o riso aos soldados fortes
prontos a cumprir, a cuspir vómitos da guerra
pedindo a Deus o regresso à sua terra.
Toco no meu corpo, corre a vida, não morri!…

Amo a vida, a paz e com fervor
corro entre pedras, seguro a vida.
O coração ri à pincelada quente e florida
espreitando as cores da ave vistosa
que me voa no pensamento. Que formosa!
Rompo dentro de mim em crescimento,
amo a vida o amor a cada momento.
Beijo o vácuo o espaço até ao amor.

Sonho. Aves livres desenham cada nota musical
dirige a orquestra o maestro e a sonhar
usa a batuta como ave leve a voar.
As notas riem na pauta a libertar
sons melancólicos sobre o tema amar:
sons de bandolim banjo cavaquinho trombone
trompa concertina cravo pratos saxofone,
música única que é língua universal.

Pífaro, cítara, xilofone, gaita, fagote,
violino triste, poesia leve rima sobrenatural!
E o toque da harpa ou da lira, brisa breve e musical?
Chora a guitarra, notas breves da noite do fado,
violoncelo e rabeca riem para mim soldado.
Ferrinhos e pandeireta em música tão distinta,
piano e viola quadro de amor do pintor que pinta
alegria nos fardados. Risos há quem os adopte.

Saímos de Guileje carimbando o solo com a pica.
Ecoam cristalinas as notas da pauta.
Armado, pétalas floridas se soltam da flauta
e nasce a tristeza nas teclas do acordeão.
Esqueço a guerra, pinto um poema uma oração
o bigode do meu pai, a minha mãe de tranças…
os meus sobrinhos riem felizes crianças.
No clarinete e no tambor a nostalgia fica.

O compositor criou mel, que façanha esta?
Chegámos folhas caídas e velhas, mas risonhos
a mata recorda os amigos mortos, plantados os sonhos
eis que se escuta o hino em grito triste do trompete...
que a alegria dos soldados não compromete.
Beber umas cervejas, tomar banho, jantar e escrever
cartas amorosas para ninguém conhecer
que na guerra se mata e se morre, não é uma festa.

Sonhava. A vida é vida se for vivida com amor
se nascer na fonte dos beijos que beberes
saboreando o grão dos trigos que comeres.
A vida só é vida se entre pântanos nascer a flor,
a vida só é vida quando não vejas mais dor
se saíres vencedor sem muito sofreres
e amares na humanidade todos os seres!
A vida só é vida se for vivida, sim senhor.

Gritos aflitivos na chegada, chamadas e risos felizes.
Voam saltitos de flor em flor, danças de gente louca.
E o pobre sem amor, liberdade e pão para a boca?!
No fim a vida semente há-de romper com carinho
dar liberdade às flores e aos pássaros um ninho...
Haja humanismo, solidárias acções
Em prol deste mundo que sonhava de paixões.
A Guiné me espremeu os sonhos, de crescidas raízes!

Mário Gaspar
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Nota do editor

Último poste da série de 27 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14196: Blogpoesia (400): Auschwitz (J. L. Mendes Gomes)

Guiné 63/74 - P14246: Notas de leitura (681): "Os Princípios do Pan-africanismo", por Charles Olapido Akinde e “Os Condenados da Terra”, por Frantz Fanon (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Abril de 2014:

Queridos amigos,
Quando Jean-Paul Sartre acedeu prontamente a prefaciar este documento que é um manifesto do Terceiro Mundo – extremo, inteiro, incendiário, mas também complexo e subtil, como observou Simone de Beauvoir, era a guerra da Argélia que tinha presente, a Argélia dividia os franceses que demoraram a perceber que a emancipação daquele povo fazia parte de uma corrente caudalosa irreprimível.
Sartre saudou a novidade e o poder de análise de Frantz Fanon. Nunca, até então, um teórico se debruçara sobre a violência e como esta transforma as mentes do colonizador e do colonizado.
Fanon foi desassombrado na sua análise, pôs a nu a fragilidade dos partidos frente ao mosaico étnico, a sua ingenuidade quando deu prioridade à violência urbana, disseca as debilidades da união africana e a avidez das elites nacionalistas que pretendem exclusivamente tomar o lugar das elites coloniais e repetir-lhes as operações, mudando alguma coisa para que tudo fique na mesma. Sartre mostrava-se otimista, Fanon não tanto. Lamentavelmente, os receios de Fanon passaram a ser a dolorosa realidade dessa África que se tornou independente.

Um abraço do
Mário


Os princípios do pan-africanismo e Frantz Fanon (2)*

Beja Santos

Obra ímpar da reflexão sobre o colonizador e o colonizado, “Os Condenados da Terra”, por Frantz Fanon, Editora Ulisseia, foram editados entre nós logo a seguir à edição Maspero (1961) e prontamente postos fora do mercado. É dos poucos libelos deste período marcadamente anticolonial que ainda hoje se pode estudar, a despeito das rugas do tempo. Não havia, nem houve, tão pesada e adequada reflexão sobre a violência do colonialismo, o despertar da consciência nacional no terceiro mundo, a pujança e as fraquejas da cultura nacional. Fanon, médico especializado, irá na última parte do seu incontornável ensaio analisar a guerra colonial e as perturbações mentais, no contexto argelino, foi aí que ele trabalhou e se apercebeu dos dramas da guerrilha e da contraguerrilha em termos de saúde mental.

Começa por traçar um perfil dos protagonistas no mundo colonial: mundo compartimentado, maniqueu, mundo de estátuas: a estátua do general que faz a conquista, a estátua do engenheiro que construiu a ponte. A primeira coisa que o nativo aprende é a colocar-se no seu lugar, não passar dos seus limites. O colonizado está sempre alerta, decifrando os múltiplos signos do mundo colonial; nunca sabe se passou ou não o limite. Frente ao mundo determinado pelo colonialista, o colonizado presume-se sempre culpado.

Frantz Fanon disseca a violência em meio colonial. A violência é a intuição que as massas colonizadas têm de que a sua libertação deve fazer-se e isso não pode acontecer senão pela força. Mas por que aberração do espírito esses homens sem técnica, esfomeados e debilitados, não conhecendo os métodos de organização, chegam a convencer-se de que apenas a violência poderá libertá-los? Os homens colonizados, esses escravos dos tempos modernos, estão impacientes. Os povos subdesenvolvidos fazem saltar as suas cadeias e, o mais extraordinário, é que o conseguem. O homem colonizado liberta-se em e pela violência, e cita longamente Aimé Césaire, na sua tragédia “As Armas Milagrosas”. O desenvolvimento da violência no seio do povo colonizado será proporcional à violência exercida pelo regime colonial. Nas lutas armadas, há o que se podia chamar o limite sem regresso. É quase sempre a enorme repressão que engloba todos os sectores do povo colonizado. A mobilização das massas, quando se realiza como motivo da guerra de libertação, introduz em cada consciência a noção da causa comum, do destino nacional, da história coletiva. O país colonialista reprime de várias maneiras: procura desnortear falando no papão comunista, é a tentativa de descansar os colonos quanto à motivação da luta, dá-lhes uma razão terrível e exógena; ameaçam com o regresso à Idade Média se acaso houver independência, faltarão investimentos e a economia do país ficará de bruços. Com razão ou sem ela, a Guerra Fria entrou no processo da descolonização.

O ensaísta entra agora na zona mais polémica da sua reflexão, a organização dos partidos políticos, as suas relações com os chefes tradicionais, os sucessos e fracassos da propaganda dos partidos nacionalistas e como, em muitos casos, os camponeses voltam as costas a esta luta de libertação. Lembra que há a cidade do colono, a periferia dos assimilados e os vastos círculos do lúmpen-proletariado, onde estão desempregados, desclassificados que poderão aderir à ação militante. Esta massa pode entrar na sublevação, aderir ao terrorismo urbano, entrar na agitação. De um modo geral, esta atividade está condenada ao fracasso, as forças coloniais em meio urbano ganham sempre. E disserta sobre essência da guerrilha, é um dos seus textos mais belos:
“Na guerrilha, a luta não é onde se está, mas sim onde se vai. Cada combatente leva a pátria em guerra entre as suas mãos vazias. O exército de libertação nacional não é o que enfrenta sempre o inimigo, mas o que se desloca de aldeia em aldeia, que se concentra na selva e embosca as colunas do adversário”. O colonialismo procura apoio junto de grupos de indígenas, sobretudo aqueles que têm vínculos atávicos a regimes feudais ou onde prepondera o peso religioso. Enfim, os militantes nacionalistas têm tudo a ganhar em não dar uma luta frontal ao opressor em meio urbano. O peso da formação política é crucial pois, como ele adverte, não devemos esquecer as desventuras da consciência nacional, os paradoxos ditados pela economia, pela burguesia que se move à volta do processo económico colonial. A burguesia nacional, chegada a independência, comete habitualmente o erro de nacionalizar em massa com um propósito egoísta, como ele diz polemicamente: “Nacionalização significa exatamente para essa burguesia transferir para os autóctones os privilégios herdados da fase colonial. Como a burguesia não possui meios materiais nem meios intelectuais insuficientes, limitará as suas pretensões à apropriação das casas comerciais ocupadas antes pelos colonos. A burguesia nacional ocupa o lugar da antiga população europeia. Acaba por servir de correia de transmissão a um capitalismo disfarçado, transforma-se em agente de negócios da burguesia ocidental”.

Percebe-se como este ensaio despertou celeuma e vivos debates com as figuras revolucionárias. Amílcar Cabral leu atentamente este poderoso ensaio, sabe-se que foi importante na sua formação teórica, na sua análise da vanguarda revolucionária e no dever da burguesia aderir aos propósitos revolucionários sob pena de se suicidar como classe.

O tema da unidade africana não foi descurado por Fanon. O perigo vem dos regionalismos: “A burguesia nacional, compensa apenas nos seus interesses imediatos, como não vê para lá do seu nariz, mostra-se incapaz de realizar a simples unidade nacional. A frente nacional, que havia feito retroceder o colonialismo, desintegra-se a consome a sua derrota”. O colonialismo utiliza estas fraquezas, utiliza a religião que divide o povo e estabelece a discórdia, promove os chefes que não querem ver disputado pelos nacionalistas o seu poder tradicional.

Detém-se longamente sobre a cultura nacional e as lutas de libertação. É indispensável recuperar todas as obras criadoras que os colonialistas não podem manipular: a olaria, as tradições orais, a música, a dança, todo o artesanato, há que lhes conferir um estatuto cultural onde o nativo vê exotismo e gosto dos subdesenvolvidos, esta cultural nacional é o pilar da consciência africana e da especificidade da nação, por isso a libertação nacional torna-a obrigatoriamente presente no cenário da História.

E chegámos às conclusões, que Frantz Fanon transforma em manifesto:
“Há seculos que a Europa deteve o progresso dos outros homens e os submeteu aos seus desígnios e à sua glória; há seculos que, em nome de uma falsa aventura espiritual sufoca quase toda a humanidade”.

“Para o terceiro mundo, trata-se de recomeçar uma história do homem que toma em conta ao mesmo tempo as teses, algumas vezes prodigiosas, sustentadas pela Europa, mas também os crimes da Europa, o mais odioso dos quais foi, o esquartejamento patológico das suas funções e a desintegração da sua unidade. Não paguemos um tributo à Europa, criando Estados, instituições e sociedades nela inspiradas. A humanidade espera alguma coisa de nós que não seja essa imitação caricatural. Se queremos transformar a África numa nova Europa, confiemos, então, aos europeus os destinos dos nossos países. Saberão fazê-lo melhor que os mais dotados de nós”.
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Nota do editor

(*) Poste anterior de 9 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14235: Notas de leitura (680): "Os Princípios do Pan-africanismo", por Charles Olapido Akinde e “Os Condenados da Terra”, por Frantz Fanon (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14245: Memórias de Copá (6): Fevereiro de 1974 (António Rodrigues)

1.     O nosso Camarada António Rodrigues, ex-Soldado Condutor Auto Da 1ª CCAV do BCAV 8323, Bolama, Pirada, Paunca, Sissaucunda, Bajocunda,  Copá e Buruntuma, (a minha 1.ª CCAV/Bcav8323 tinha as suas forças aquarteladas em Bajocunda e Copá), 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.


COPÁ – FEVEREIRO DE 1974 



Como por esta altura do ano passa mais um aniversário dos dolorosos dias que vivi em Copá, aqui vos deixo mais algumas histórias do que lá se passou há 41 anos.
Entretanto, nesses dias chegava ao comando do meu batalhão em Pirada, uma ordem emanada das autoridades de Bissau para desactivar e abandonarmos Copá, pelo que, no dia 12 de Fevereiro de 1974 logo ao romper do dia chegava a Copá uma forte coluna militar para nos evacuar.

Esta coluna para ludibriar o PAIGC, teve que mudar o percurso entre Bajocunda e Copá, pelo que em vez de ir como de costume pela zona perigosa de Massacunda e que era o caminho mais curto, foi por uma picada raramente utilizada mais longe 10 km e que passava pela localidade das Dingas, chegando a Copá ao amanhecer do dia 12 de Fevereiro de 1974, foi para nós uma grande alegria, vermos chegar os camaradas que nos vinham libertar daquele lugar infernal que era Copá.

Chegada a coluna a Copá, começamos a carregar nas viaturas as nossas principais coisas e os sapadores de minas e armadilhas trataram de armadilhar os principais abrigos com minas anti-pessoais, depois de carregarmos o que tínhamos a carregar, saímos para fora de Copá e entretanto, tínhamos reunido todas as camas amontoadas no abrigo das transmissões que era o mais forte, depois de estarmos todos cá fora, esse abrigo e o seu conteúdo foi destruído por uma carga explosiva de comando à distância e além disso, o vagomestre tinha incendiado um bidão de azeite de 200 litros. Este é um ponto a lamentar, pois durante muito tempo esse bidão lá permaneceu cheio, o esparguete e o arroz, em vez de azeite eram feitos com manteiga, o azeite devido às circunstâncias, teve que ser queimado.

Mas por falar em cargas explosivas, veio-me à ideia um outro caso passado ainda em Copá: em determinada altura, chegamos a montar fora do arame farpado alguns fornilhos (cargas explosivas artesanais à base de gasolina, vidros e outros objectos que fizessem o efeito de estilhaços) que seriam accionados à distância do interior de Copá mas, a verdade é que, quando tivemos necessidade de accionar esses fornilhos durante um ataque, os mecanismos não funcionaram e qual não é o nosso espanto, quando no dia seguinte fomos ver qual a anomalia que não deixou funcionar os fornilhos e, verificámos que os fios de ligação que passavam despercebidos debaixo de terra, estavam todos cortados, impedindo assim os fornilhos de explodir, isto tinha sido obra do IN, possivelmente numa das noites em que nos destruiu a instalação eléctrica e ficamos às escuras.

Partimos então todos de novo na direcção das Dingas, caminhando a pé e fazendo segurança às poucas viaturas que seguiam connosco, cerca do meia dia estávamos nas Dingas, onde todos nos abastecemos de água num poço que praticamente esgotamos, quando chegou a minha vez de encher o cantil, já só consegui metade lama e metade água, mas a sede era imensa e tudo servia para a matar, ao ponto de ao beber, sentir passar areia pela garganta. Felizmente não tínhamos ainda tido qualquer problema, recomeçámos a andar, mas muito lentamente, devido a que os sapadores iam na frente muito devagar com os detectores electrónicos de minas e armadilhas, levámos assim quase toda a tarde para atingirmos a próxima povoação que era Amedalai, onde chegamos à tardinha e aí esperavam-nos mais viaturas, para nos transportar os últimos 5 km até Bajocunda, onde chegámos mesmo ao anoitecer.

Aí chegados, graças a Deus sem qualquer problema, foi para nós pelotão de Copá uma alegria enorme, reencontrarmos de novo os nossos camaradas, foi uma alegria tal que, eu depois de chegar a Bajocunda, nem me lembrei sequer mais da minha bagagem, depois de encontrar os meus amigos dirigi-me com eles ao Café Silva existente em Bajocunda e para aí fui matar a fome e a sede, depois já noite escura o meu amigo Albino da Silva Vasques levou-me com ele salvo erro para o abrigo 9, onde dormi nessa noite e só de manhã quando acordei me lembrei das minhas malas, das minhas coisas, que tinham sido descarregadas da Berliet que as trouxe de Copá.

Levantei-me e fui procurá-las ao local onde a Berliet tinha descarregado, encontrei realmente o meu saco e a minha mala, mas a mala estava aberta e metade das coisas que me pertenciam tinham desaparecido, nomeadamente, o estojo da barba quase completo, possivelmente foi algum Africano que lá passou antes de eu lá chegar e encontrei ainda uma série de coisas espalhadas pelo chão, recolhi tudo o que pude e levei o que encontrei, mas não fiquei triste, porque a alegria de ter chegado de novo a Bajocunda, suprimiu tudo isso.

Nesse mesmo dia 13 de Fevereiro de manhã, foi-me destinada uma cama no abrigo 2, onde passei a pertencer até ao fim, onde travei novas amizades, com novos camaradas, nomeadamente, com os mecânicos Francisco e Campos.

Mas nesse mesmo dia, todo o pessoal que tinha regressado de Copá, seguiu para Pirada, inclusive eu, a fim de aí todos sermos vistos pelo médico do Batalhão, em virtude do mau bocado porque tínhamos passado em Copá. Dessas consultas resultou que o Banharia fosse mandado para Bissau, para uma consulta externa, a qual lhe viria a facilitar o regresso quase imediato à metrópole, por necessitar de tratamento psiquiátrico. O restante pessoal, tratava-se apenas dumas diarreias ou umas dores de cabeça, que foram tratadas com umas injecções ou uns comprimidos. Embora eu tenha de reconhecer que, todos nós saímos de Copá traumatizados com toda aquela violência.

Neste dia em que chegamos a Pirada, quando à hora do almoço entramos no refeitório, apareceu-nos lá o nosso Comandante de Batalhão, o Coronel Jorge Matias, que fez questão de abraçar os homens de Copá um por um e quando chegou a vez de abraçar o Alferes Manuel Joaquim Brás, eu que estava a seu lado, tive a oportunidade de ouvir as palavras emocionadas que ele lhe dirigiu, que foram as seguintes: “Ó Brás tu trazes os teus homens todos vivos?” Eu tenho que te pedir desculpa porque em Bolama te chamei básico e afinal és o oficial mais operacional que tenho no Batalhão. (Por este motivo eu dizia, quando estive em Bolama que mais tarde voltaria a falar deste 4.º Pelotão)

Neste dia 13 pelas 05.00 horas da manhã, um grupo de guerrilheiros do PAIGC (provavelmente os mesmos que estariam emboscados no dia anterior em MANSACUNDA  MAUNDE à espera de nos atacar quando regressávamos de Copá) talvez sentindo-se enganados, porque lhe trocamos as voltas optando pelo percurso um pouco mais longo e que passava pelas DINGAS, dirigiu-se à DINGA BANTANGUEL e penso que, como represália por a população não nos ter denunciado, queimou cerca de 50 Tabancas, grande quantidade de milho e alguma mancarra, tendo retirado depois novamente na direcção de MANSACUNDA MAUNDE, deixando ainda o gado todo tresmalhado nas matas, mas a população não foi molestada.

Logo no dia seguinte, 14 de Fevereiro de 1974, depois do almoço, o comandante de Batalhão Coronel Jorge Matias mandou formar na Parada do quartel de Pirada a 3.ª Companhia, bem como o pelotão de Copá em frente uma do outro e a seguir fez um discurso emocionado de homenagem aos homens de Copá, durante o qual nos explicou os esforços que tinha feito durante as horas dramáticas de Copá para nos socorrer com reforços e outros auxílios, nomeadamente, na noite de 7 para 8 de Janeiro de 1974, que culminou com a chegada a Copá no fim da tarde do dia 8 de um pelotão de Pára-quedistas. Dizia-nos isto ao mesmo tempo que dizia que, nesses momentos rezava a Deus por nós, dizia-o com tal emoção que as lágrimas lhe chegaram a correr pela cara, findo o discurso fez desfilar em continência para nós a 3.ª Companhia, o que também nos emocionou um pouco. Foi-nos ainda dado conhecimento de nova mensagem de S. Exa. o Comandante-Chefe que, citando a guarnição de Copá, enalteceu o relevante comportamento da mesma. A culminar esta cerimónia foi-nos dado um louvor colectivo que saiu à ordem com o nome de cada um de nós, falava-se ainda que teríamos um mês de férias na metrópole, o que não veio a concretizar-se, porque passados cerca de dois meses e pouco veio a dar-se a revolução de 25 de Abril. 


Foto 1 - Com guerrilheiros do PAIGC junto ao pontão de Tabassai, Pirada

Foto 2 - No regresso de Copá a Pirada, reencontro com um amigo

Foto 3 - Pirada, 14 de Fevereiro de 1974, 4.º Grupo de Combate

 Foto 4 - Pirada, 14 de Fevereiro de 1974, Homenagem aos Homens da Companhia

Foto 5 - Pirada, 14 de Fevereiro de 1974, Coronel Jorge Matias 

Foto 6 - Passeando em Copá, Dezembro de 1973

Um abraço,
António Rodrigues
Sold Cond Auto do BCAV 8323

Mini-guião: © Colecção de Carlos Coutinho (2012). Direitos reservados. 

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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

3 DE FEVEREIRO DE 2015 &gt; Guiné 63/74 - P14214: Memórias de Copá (5): Janeiro e Fevereiro de 1974. (António Rodrigues)