quarta-feira, 5 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19861: Os nossos seres, saberes e lazeres (330): Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu) - Parte IX: Huhehot, Mongólia Interior, 10 de Julho de 1981: visita ao túmulo de uma das mais belas e famosas mulheres da China clássica, Wang Zhaojun (76 a.C.-33 a.C.)


Wang Zhaojun (76 a.C.-33 a.C.), uma das quatro beldades da China clássica. Foi contemporânea de Cleópatra (69 a. C. - 30 a.C.)

Imagem: cortesia de António Graça de Abreu. Fonte: descomhecida.



1. Mais um excerto do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983", do nosso camarada António [José] Graça de Abreu. (*)


[ Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras. Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista), o PC de P (m-l), fação Vilar (Eduímno Gomes), alegadamente o único recomhecido pela República Popular da China.


Ex-alf mil SGE, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 230 referências. Compulsivo viajante, tem "morança" em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 1947.] É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro.] (*)





Huhehot, Mongólia Interior, 10 de Julho de 1981 (**)


A capital da região autónoma da Mongólia Interior não prima pela monumentalidade dos seus edifícios, nem pela beleza natural envolvente. Como cidade estruturada tem apenas quatrocentos anos e nota-se a dispersão entre vivências chinesas, vivências mongóis e vivências muçulmanas. Há bairros e bairros de casas térreas, de adobe, quase tudo a cair de velhice, há templos lamaístas-tibetano-mongóis e taoistas, uma igreja católica, mesquitas muçulmanas, tudo a precisar de urgente restauro e de modernização.

Existe, porém, um lugar antigo que congrega muita História e a atenção de inúmeros chineses. É o túmulo de Wang Zhaojun王昭君, uma colina artificial, arredondada, que se levanta solitária na planície, a uns vinte quilómetros de Huhehot, rodeada de uns tantos campos de cultura. Esta mulher é uma das quatro beldades da China clássica, cuja saga, famosíssima na China, eu já conhecia, ao de leve.

Eis a história:

Era uma vez uma menina nascida lá longe, na fronteira entre as províncias de Sichuan e Hubei. Cresceu bonita, recatada e inteligente na sua aldeia meio perdida no mundo. Na dinastia Han havia recrutadores de concubinas que costumavam viajar pelo império em busca das mais belas mulheres para levar para o serralho do imperador. Estes homens acabaram por descobrir a formosa Zhaojun (76 a.C.-33 a.C.). Sem demora, foi conduzida ao palácio do imperador e colocada numa longa lista de espera até ao dia, ou noite, em que lhe seria concedido o “favor imperial”. 

O imperador Han Yuandi (75 a.C. – 33 a.C.), atarefado com os assuntos da governação, não tinha muito tempo para dedicar à escolha de novas concubinas a quem ofereceria o sublime “favor”. Contratou então um pintor que lhe retratava as meninas recém-chegadas. Han Yuandi escolhia-as pela formosura que irradiava do retrato. O pintor da corte, um homem de nome Mao Yensho, habituara-se a receber umas tantas moedas de prata de cada concubina, melhorando assim os dotes das donzelas e alindando-as até quase à perfeição. Wang Zhaojun, confiante na sua beleza, não subornou o pintor que, por isso, a retratou gorda e com uma verruga no rosto. A concubina estava condenada a jamais ter as honras do “favor imperial”.

Um ano mais tarde, encontrava-se de visita a Chang’an, a capital (actual cidade de Xi’an), um príncipe xiongnu 匈奴, ou seja, o grande chefe dos hunos, antepassados dos mongóis. Como demonstração de amizade, para o estabelecimento de uma paz duradoura entre xiongnu e chineses, o imperador Han Yuandi resolveu oferecer ao chefe “bárbaro” uma das damas do seu serralho. Uma rápida vista de olhos pelos retratos, levou-o a escolher a “desagradável” Wang Zhaojun. 

No banquete de despedida oferecido ao príncipe estrangeiro, o imperador chinês viu pela primeira vez a esbelta, elegante e estonteante concubina. Surpreso, estarrecido diante de tanta magnificência e beleza, Han Yuandi pediu a mulher de volta. Mas já não era possível, o chefe xiongnu, enfeitiçado, encantado com aquela beldade que desejava apertar nos braços, e já considerava sua, não concordou em devolvê-la ao imperador. Conformado, mas fervendo em ira, o soberano chinês mandou de imediato prender e decapitar o pintor Mao Yensho.

Logo depois, Wang Zhaojun, chorosa e abatida, levando consigo uma pipa, uma espécie de alaúde, e infindáveis saudades da sua China, partiu para as terras inóspitas da Mongólia, exactamente para a capital dos xiongnu, não muito longe da actual cidade de Hohehot. Teve um filho do príncipe “bárbaro” que lhe sucedeu como chefe dos hunos e o sacrifício da beldade, longe dos seus e da pátria, correspondeu a um longo período de prosperidade e paz entre chineses e xiongnu.

Muitos são os poetas do velho Império que têm composto poemas em louvor de Wang Zhaojun. O grande Du Fu (712-770) escreveu:


Dez mil vales, mil montanhas conduzem a Jingmen,
a aldeia onde nasceu, cresceu a formosa Zhaojun.
Na brisa da Primavera, um retrato fixou seu rosto,
nas noites de luar, o tilintar dos enfeites de jade.
Partiu outrora dos terraços púrpura para os desertos do norte,
na poeira do entardecer, o seu túmulo eternamente verde,[1]
sua alma de regresso.
Durante mil anos, a voz do alaúde bárbaro,
a música, ressentimento e mágoa. [2]

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Notas do autor:

[1] Trinta anos depois, em Abril de 2011, regressei a Huhehot e ao túmulo de Wang Zhaojun. Encontrei-o outra vez verde, polvilhado de flores selvagens.

[2] Em Poemas de Du Fu, trad. António Graça de Abreu, Macau, Instituto Cultural de Macau, 2015, pag. 245. Para um relato mais desenvolvido da história desta famosa mulher, ver António Graça de Abreu, “Com a beldade Wang Zhaojun em terras mongóis”, em Toda a China I, Lisboa, Guerra e Paz Ed., pags. 121 a 124, 2013. Para uma excelente exegese deste poema, ver François Cheng, L’écriture poétique chinoise, Paris, Ed. Seuil, 1977, pags. 68 a 70.

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Guiné 61/74 - P19860: Bibliografia de uma guerra (95): Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC, por António Duarte Silva em Cadernos de Estudos Africanos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2018:

Queridos amigos,

Este ensaio rigoroso e muito bem elaborado de António Duarte Silva será posteriormente reelaborado por este autor e plasmado no livro "Invenção e Construção da Guiné-Bissau", uma obra admirável que ainda é possível adquirir.

Traça a conceção da Guiné como colónia-modelo, na visão de Marcello Caetano, refere as cautelas do poder português face à atmosfera anticolonial não só à escala mundial como à volta da região guineense e disseca a fundação do PAI, o massacre de 3 de agosto de 1959 e as decisões da reunião de 19 de setembro desse ano, em Bissau.

Pela sua coesão e objetividade, é um documento de referência, até pelas dúvidas que levanta quanto à reunião de 1956.

Um abraço do
Mário


Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC

Beja Santos

Na publicação Cadernos de Estudos Africanos, n.º 9/10, dedicada às Memórias Coloniais, o historiador António E. Duarte Silva, de quem temos feito várias referências aos seus livros, designadamente ao mais recente, publicação da Almedina, “Invenção e Construção da Guiné-Bissau”, 2011, que ainda é possível encontrar no mercado, publicou um artigo cujas ideias centrais me parece da maior utilidade aqui reproduzir. É o que se segue.

O autor chama a atenção para a escolha da Guiné como primeiro campo de ensaio da política de Marcello Caetano enquanto Ministro das Colónias, baseada tal política numa progressiva autonomia administrativa com desenvolvimento económico e social e com olhar atento à conjuntura internacional do pós-guerra e ao sentimento anticolonialista. Marcello pretendia uma equipa que saneasse a política colonial do “ambiente de depressão e intriga”. A escolha recaiu em Sarmento Rodrigues, a sua governação ficará inesquecível: reforço da administração colonial, construção de uma rede de infraestruturas, lançamento de uma investigação cultural e científica que ainda hoje é referência. O seu sucessor será Raimundo Serrão, traz novas instruções do novo Ministro, Teófilo Duarte, as preocupações agora centram-se na economia, sobretudo na cultura do arroz e em produtos de exportação. O novo governador não tem a aura do anterior, inaugurou muito e interessou-se verdadeiramente pelo incremento agrícola.

A colónia reposicionava-se com a mudança da capital em 1941. O Subsecretário de Estado Raul Ventura percorre a Província em 1953, visita inclusivamente a Granja do Pessubé “na companhia dos Engenheiros Agrónomos Nobre da Veiga e Amílcar Cabral”. O novo Governador será o Capitão-de-Fragata Diogo Mello e Alvim, então Governador da Zambézia. É Ministro das Colónias Sarmento Rodrigues. Mello e Alvim escreve ao Ministro que a Guiné estava muito diferente daquela que Sarmento Rodrigues deixara em 1948: “todos mandavam e ninguém se entendia. A pouco e pouco, tenho chamado os comandos ao Governo que posso assegurar-lhe que, presentemente, já voltou a haver mais um bocadinho de ordem e tudo; nas despesas, na disciplina e até, perdoe-me o desabafo, na justiça. Os indígenas vêm em mim um continuador da sua obra".


Rafael Barbosa e Amílcar Cabral na Granja de Pessubé, 1952.
Imagem retirada de Casa Comum, Fundação Mário Soares, com a devida vénia.

A PIDE demora a instalar-se, a sua rede só será completada em junho de 1958, mediante a criação de cinco postos em S. Domingos, Catió, Bafatá, Farim e Gabu, todos dependentes da sede em Bissau. É à Polícia de Segurança Pública que devemos as primeiras notas sobre movimentações subversivas em Bissau. A PSP, com data de 3 de maio de 1955, registou as reuniões dirigidas por Amílcar Cabral visando a constituição de uma associação desportiva e recreativa. Os estatutos da associação não foram aprovados e a PSP registava que “o engenheiro Cabral e a sua mulher comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de atividades contra a nossa presença nos territórios de África com exaltação de prioridade dos direitos dos nativos". Há igualmente referências de várias fontes que terá sido criado em Bissau um Movimento para a Independência Nacional da Guiné, mas não há qualquer prova da atividade nacionalista deste grupo.

Há uma greve dos descarregadores africanos em 6 de março de 1956, a polícia não utiliza a força, Mello e Alvim foi à esquadra libertar os detidos. Em setembro desse ano, Amílcar Cabral chega a Bissau para visitar a família. Chega o momento de referir a reunião de 19 de setembro de 1956 em que Amílcar Cabral interveio num círculo de amigos para propor a constituição de um partido político com o objetivo de alcançar a independência da Guiné e Cabo Verde, o Partido Africano da Independência (PAI).

Há bastante nevoeiro sobre esta reunião: não há qualquer documento comprovativo, há testemunhos postos em causa, não há sequer consenso quanto ao número de fundadores nem quanto ao alcance efetivo da reunião, para além da intenção de formar um partido político. Para o autor, esta reunião de 19 de setembro e a intervenção de Amílcar Cabral terão sido apenas o momento do lançamento do PAIGC como ideia e organização nacionalista. Anos mais tarde, no seu trabalho de doutoramento, Julião Soares Sousa dirá que era totalmente impossível nesta data Amílcar Cabral estar em Bissau.

Em novembro de 1957, Amílcar Cabral e Viriato da Cruz convocaram a recente “diáspora parisiense” (Mário Pinto de Andrade, Guilherme Espírito Santo e Marcelino dos Santos) para uma reunião de consulta e estudo para o desenvolvimento da luta nas colónias portuguesas. Serão provados princípios e resoluções e fez-se o lançamento do MAC – Movimento Anti-Colonialista.

Em agosto de 1958, uma dezena de quadros forma em Bissau um Movimento de Libertação da Guiné (MLG). Diz o autor que era um movimento nacionalista que se pretendia continuador da republicana “Liga Guineense” e defendia que a Guiné se deveria tornar num Estado Federado da República Portuguesa.

Nesse mesmo ano chega à Guiné a “Missão de Estudo dos Movimentos Associativos em África”, chefiada por Silva Cunha, aproveito para lembrar ao leitor que se fez uma ampla recensão dos trabalhos desta missão. Silva Cunha não acreditava num perigo imediato de “efeitos de reação antiportuguesa”, mas podia “surgir, de um momento para o outro, em resultado de influências externas”, atendia naturalmente ao que se estava a passar na nova República da Guiné.

O Capitão-Tenente Peixoto Correia é designado Governador da Guiné em outubro de 1958, chegará a Bissau no final do ano. E o autor recorda que também em meados desse ano visitara a Guiné Armando de Castro, estava a preparar um estudo destinado ao Partido Comunista Português, escreveu que se desenvolvia entre os guinéus uma “resistência surda à exploração, e havia repressão policial, comprovada com a recente instalação da PIDE".

António Duarte Silva é dos historiadores que tem mais apurada investigação sobre o chamado Massacre do Pindjiguiti, tive oportunidade de lhe enviar o relatório confidencial do gerente do BNU da época, confirmou-me que as informações batem certo com os elementos de que dispõe e que constam dos seus trabalhos. As consequências serão múltiplas, os acontecimentos serão aproveitados pelo Movimento de Libertação Nacional das Colónias Portuguesas. Logo em 7 de agosto, em carta a Ruth Lara, escrita em Kano (Nigéria), Amílcar Cabral informava-a, de modo telegráfico, que na Guiné houvera “há dias 7 mortos e 5 feridos”. Em carta de 24 de setembro, resume aos seus amigos do MAC a sua ida a Bissau e dá mais pormenores sobre o balanço de mortos, teriam sido 24, mais 35 feridos, alguns muito graves.

Durante a sua estada de uma semana em Bissau, Amílcar Cabral realizara “a mais decisiva reunião” da história do PAIGC, nessa reunião de 19 de setembro o movimento nacionalista adotara várias medidas que se irão revelar estratégicas, tais como: evitar manifestações urbanas e deslocar a ação para o campo, mobilizando e organizando os camponeses; preparar-se o recurso à luta armada; transferir parte da direção para o exterior, indo Amílcar Cabral instalar-se em Conacri.

De acordo com o autor, três documentos testemunham esta importante reunião: um relatório confidencial da autoria de Cabral onde são compulsadas as medidas tomadas e as conclusões; a “Carta da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde”, também assinada por Amílcar Cabral; uma expressiva carta enviada de Conacri, em 16 de junho de 1960, assinada por Cabral onde conclui com incitamentos e pedidos de notícias, identificando-se como Secretário-Geral do PAI. Como diz o autor, o PAI só vai afirmar-se publicamente aquando das intervenções dos representantes do MAC na II Conferência Pan-Africana, realizada em Tunes, em fins de janeiro de 1960. Numa outra conferência realizada em Dacar, em outubro de 1960, o PAI altera definitivamente a sigla para PAIGC.

Perto da conclusão, o autor observa que o massacre do Pindjiguiti se tinha convertido no símbolo da libertação na Guiné-Bissau. O “3 de agosto” passou mesmo a ser o dia da solidariedade internacional com os povos das colónias portuguesas e o dia da proclamação da ação direta, na Guiné, em 1961. A subversão não veio do exterior da Guiné nem foi desencadeada por associações influenciadas pelo Islão. Começou em Bissau, liderada por uma elite política urbana e crioula.

No período subsequente, após as resoluções sobre a descolonização aprovadas pela ONU em dezembro de 1960, os movimentos nacionalistas privilegiarão a defesa da nova legalidade internacional. Esta linha predominará na Guiné-Bissau até aos princípios de 1963, tudo mudará com a luta armada. E assim conclui António Duarte Silva: “O PAIGC ainda sobrevive como sigla. Tudo aquilo por que lutou e chegou a alcançar – libertação nacional, paz, progresso, independência, melhoria das condições de vida, unidade Guiné-Cabo Verde, um Estado, uma Constituição – falhou, está em ruínas, desapareceu. Se a libertação viera do campo, Bissau, a cidade, tudo devorou.”
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19110: Bibliografia de uma guerra (94): “Tu não viste nada em Angola”, por Francisco Marcelo Curto; Centelha, 1983 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19859: Tabanca Grande (481): Abel Rei, ex-1º cabo, CART 1661 (Fá, Enxalé, Bissá, Porto Gole, 1967/68)... Autor do livro "Entre o paraíso e o inferno: de Fá a Bissá, memórias da Guiné., 1967/68"... Passa finalmente a sentar-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 792


Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Bissá  > CART 1661 (1967/68) > Imagem, desolada,  do destacamento de Bissá, no tempo em que lá esteve o Abel Rei, com o 3º Gr Comb...


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Bissá >  > CART 1661 (1967/68) > Imagem do destacamento de Bissá, no tempo em que lá esteve o Abel Rei, com o o 3º Gr Comb...


Foto nº 3

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CART 1661 (1967/68)  >  Foto tirada em Porto Gole, com o Abel Rei a escrever algumas linhas do seu diário, mais tarde (em 2003) transformado em livro.


Foto nº 4

Guiné > Bissau > Fevereiro de 1968  > O 1º Cabo Abel Rei, da CART 1661 (Fá, Enxalé, BissáPorto Gole, 1967/68), de férias, na capital da província. “Vim juntamente com o ‘Conjunto João Paulo’, que fez nesse mesmo dia uma actuação musical em Porto Gole, partindo de seguida numa lancha, pelo Rio Geba, para cá”… Ficou hospedado na Pensão Chantre.


Foto nº 5

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CART 1661 (1967/68) > Monumento ,onde se pode ler: "Para ti, soldado, o testemunho do teu esforço"... No final do ano de 1967, o comando da CART 1661 mudou-se para Porto Gole, passando o Enxalé a ser apenas um simples destacamento, depois na primeira daquelas localidades se terem construído as necessárias instalações para o pessoal, bem como o depósito de material. Foi também construído uma pista de aterragem para aeronaves tipo DO 27.

Fotos (e legendas): © Abel Rei (2002). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional  da Tabanca Grande > 20 de Junho de 2009 > O Abel Rei e a esposa, Maria Elisete, residentes no concelho da Marinha Grande...  O Abel terá conseguido vender, no nosso convívio, mais de três dezenas do seu livro (preço: 10 balas, menos de 100 pp.).

O Abel pertencia, no ano de 2007, à Direcção do Núcleo da Marinha Grande da Liga dos Combatentes (telefone: 244 551 140), exercendo o cargo de Tesoureiro, que teve de abandonar por motivos de saúde.

O livro, na altura,  podia ser encomendado directamente ao Abel Rei, que morava no Beco da R. dos Poços, 1, Lameira da Embra, 2430-126 Marinha Grande / Telem 938 195 700/ Email: abel_rei@hotmail.com (, este endereço já não está atualizado).

Fotos« (e legenda): © Luís Graça (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


São Pedro de Moel > 2010 > Convívio da CART 1661 e Pel Caç Nat 54 > O ex-cap mil, o arquiteto e urbanista  Luís Vassalo Rosa  (1935-2018), ao centro; à esquerda o Abel Rei; e à direita, um alferes da CART 1661, não identificado.

Foto (e legenda): © José António Viegas (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Almeirim > 10 de maio de 2014 >  XXIII Encontro  do pessoal da CCAÇ 1439,  Pel Caç Nat 52, Pel Caç Nat 54, e Pel Mort 1028, que passaram pelo Enxalé (1965/67).  O Abel Rei é o primero da primeira fila, do lado direito. Alguns camaradas nossos conhecidos (e membros ds Tabanca Grande): Henrique Matos (Pel Caç Nat 52), José António Viegas (Pel Caç Nat 54), Júlio Pereira (CÇAÇ 1439). O "Mafra" é a alcunha do Manuel Calhanda Leitão, também já convidado para integrar a Tabanca Grande: foi o organizador do último encontro do pessoal, este ano, em 18 de maio de 2019, na Ericeira... Em 2010, houve um encontro histórico, deste pessoal, o 19º Encontro, onde estiveram presentes, entre outros, o Henrique Matos, o Mário Beja Santos, o Jorge Rosales,o João Crisóstomo, o madeirense António Freitas (um dos quatro alferes da CCAÇ 1439),  o João Neto Vaz, o Luís Cunha, e outros.

Foto (e legenda): © Henrique Matos  (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Abel de Jesus Carreira Rei,  ex-1º cabo, CART 1661 (1967/68), ou simplesmente Abel Rei, tem 15 referências no blogue, é amigo da página do Facebook da Tabanca Grande, é autor de um livro de memórias sobre a sua passagem na Guiné, já participou num dos nossos encontros nacionais,  o IV, em Ortigosa, Monte Real, Leiria, em 2009... mas, por lapso, ainda não consta da lista alfabética dos membros da Tabanca Grande.

Na altura, em 2009, foi apresentado, na Ortigosa, como "um dos nossos últimos piras (...), membro da Tabanca Grande". (*)

É mais do que justo reparar, agora,  esse imperdoável lapso. Ele passa a sentar-se, à sombra do nosso poilão, no lugar nº 792.(**)

Ainda recentemente o nosso colaborador permanente, Mário Beja Santos,  volta a fazer a recensão do livro do Abel de Jesus Carreira Rei, "Entre o Paraíso e o Inferno: De Fá a Bissá: Memórias da Guiné, 1967/1968".( Prefácio do Ten Gen Júlio Faria de Oliveira): Edição de autor. 2002. 171 pp. (Execução gráfica: Tipografia Lousanense, Lousã. 2002). (***)


(...) "É mais do que merecido o reconhecimento a este diário de Abel Rei, escrito com tanta sinceridade, envolto em tanta ternura, um registo também da vida de uma unidade que palmilhou o Xime, Amedalai, Denbataco, foi ao Buruntoni e ao Poidom, espalhou-se pelo Enxalé, Missirá e Porto Gole. (...) Temos que ter orgulho neste diário, é o espelho de um homem de fé que vai regressar sereno à sua vida civil, sem traumas nem azedumes. Recomendo vivamente a sua leitura. (...).

Do lamentável lapso temos que pedir desculpas ao nosso camarada Abel Rei e aos  restantes membros da Tabanca Grande.

Já em tempos aqui o dissemos: o Abel Rei  teve, entre outros,  o mérito de pôr no mapa da guerra da Guiné o nome de Bissá, sobre o qual poucos de nós sabiam alguma coisa.   Foi em Bissá que o valente Abna Na Onça, capitão de 2ª linha, balanta, enocntrou a morte...

Um camarada nosso que conheceu bem a região de Porto Gole, Bissá e Enxalé, o Henrique Matos, 1º comandante do Pel Caç Nat 52 (1966/68), também já aqui veio reconhecer que a manutenção de Bissá fora um erro, possivelmente pelo elevado custo, em vidas humanas, que terá acarretado, e pelas dificuldades de reabastecimento da sua guarnição.

2.  Algumas notas biográficas sobre o Abel Rei (que é o único representante da CART 1661, na nossa Tabanca Grande):

O Abel Rei nasceu em 30 de março de 1945, na freguesia de Maceira, concelho de Leiria. O pai era operário vidreiro. A família mudou-se para o concelho da Marinha Grande. O Abel começou a trabalhar bem cedo numa mercearia local, mal acabada a escola primária, aos dez anos. Aos quinze era serralheiro civil.

Mobilizado para a Guiné, serviu na CART 1661, que passou por Fá Mandinga, Enxalé, Bissá e Porto Gole. Partiu em 1 de Fevereiro de 1967 e regressou em 19 de Novembro de 1968.

A companhia teve três comandantes: Cap Mil Art Luís Vassalo [Namorado]  Rosa [1935-2018), Alf Mil Art Fernando António de Sá e Cap Art Manuel Jorge Dias de Sousa Figueiredo.

Depois da tropa, o Abel voltou a estudar, tendo completado o Curso Geral de Mecânica da Escola Industrial.

Citando o prefácio ao seu livro, "Entre o Paraíso e o Inferno: De Fá a Bissá: Memórias da Guiné, 1967/1968,  da autoria .do ten gen ref Júlio Faria de Oliveira, presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, “ainda bem que o antigo combatente Abel Rei escreveu esta história verdadeira, a qual, em minha opinião, é extremamente interessante e duvido que aquela, que ele gostaria de ter escrito, fosse ainda melhor” (p. 17).

Em geral, são notas diárias, de um, dois ou três parágrafos, que o Abel Rei foi redigindo num caderninho que sempre o acompanhava. A primeira tem a data de 1/2/67 (partida do T/T Uíge, do cais da Rocha Conde de Óbidos) e a última data de 19/11/68 (regresso à Metrópole, também no mesmo navio).

Ao todo, são 178 registos diários, em pouco mais de 21 meses de comissão, mais de metade das quais (53,4%) correspondem aos quatro primeiros meses (de fevereiro a maio de 1967). De junho até ao final do ano, escreveu apenas, em média, 4 vezes por mês… No segundo ano (jan-nov 1968), o ritmo da escrita, certamente por cansaço, saturação ou quebra de disciplina, baixou ainda mais: um pouco mais de 3 registos por mês, embora mais extensos, ocupando 4 dezenas de páginas (de 126 a 166).

O Abel Rei tem página no Facebook.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 7 de julho de  2009 > Guiné 63/74 - P4648: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (19): Os nossos escritores (Luís Graça)

12 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4815: Notas de leitura (14): As memórias do inferno de Abel Rei (Parte I) (Luís Graça)

14 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4820: Notas de leitura (15): As memórias do inferno de Abel Rei (Parte II) (Luís Graça)

24 de agosto de 2009 > Guiné 1963/74 - P4858: Notas de leitura (16): Memórias do inferno de Abel Rei (Parte III) (Luís Graça)


12 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P5983: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (22): As voltas que o mundo dá, graças a um blogue que congrega uma diáspora de combatentes (Beja Santos)

30 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14547: Convívios (671): CCAÇ 1439 (Enxalé, Missirá e Portogole, 1965/67) + Pel Caç Nat 52 e 54... Caldas da Raínha, dia 9 de maio de 2015... Inscrições até este fim de semana... (Maria Helena Carvalho, filha do Pereira do Enxalé / Henrique Matos, ex-alf mil, cmdt, Pel Caç Nat 52, 1966/68)

Guiné 61/74 - P19858: Parabéns a você (1631): Manuel Traquina, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 2382 (Guiné, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 3 de Junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19852: Parabéns a você (1630): António Azevedo Rodrigues, ex-1.º Cabo do CMD AGR 2957 (Guiné, 1968/70)

terça-feira, 4 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19857: Convívios (899): XV Encontro do pessoal da CCAÇ 2726 e Pelotão de Obus (Cacine e Cameconde, 1970/72), dias 26 a 30, em Viana do Castelo (Luís Paulino, ex-Fur Mil)



XV CONVÍVIO DO PESSOAL DA CCAÇ 2726 E 
PELOTÃO DE OBUS

DIAS 26 A 30 DE JUNHO DE 2019

VIANA DO CASTELO


Mensagem do nosso camarada Luís Paulino, (ex-Fur Mil da CCAÇ 2726 Cacine e Cameconde, 1970/72), com data de 24 de Maio de 2019:

Caros Amigos e Camaradas,

Segue Programa do 15.º Convivio da CCAÇ 2726/Pelotão de Obus (Cacine/Cameconde) 1970/72

DIA 26 
13h00 - Início do check-in nos hotéis (Jardim ou Laranjeira), conforme as reservas de cada um 17h00 - Concentração num dos hotéis reservados. a combinar 
18h30 - Resto do dia e noite livres. Visita à cidade

DIA 27 
9h30 - Saída para Espanha - passando por Monte de Sta. Tecla, Rias Baixas e Vigo 
13h00 - Almoço em Baiona, no Hotel Bahia Baiona 
18h00 - Regresso a Viana

DIA 28 
10h00 - Visita a Ponte de Lima 
13h00 - Almoço regional (sarrabulho e rojões) com pratos alternativos, num restaurante da região, já reservado 
16h30 - Visita ao Monte de Sta. Luzia em Viana do Castelo

Dia 29 
11h00 - Celebração de cerimónia religiosa na Igreja Matriz/Sé (Largo do Instituto Histórico do Minho) 
12h00 - Saída em autocarro para o Restaurante Quinta da Presa, na Meadela 
13h00 - Início da Almoço Convívio com animação musical 
17h30 - Distribuição de lembranças 
18h00 - Abertura do Bolo Comemorativo servido com Espumante 
18h30 - Encerramento do Convívio e regresso de autocarro aos hotéis

Dia 30 - Check-out dos hotéis durante a manhã.
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19856: Convívios (898): XL Encontro do pessoal da CCAV 2639, dia 16 de Junho de 2019 nas Caldas da Rainha (Mário Lourenço, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

Guiné 61/74 - P19856: Convívios (898): XL Encontro do pessoal da CCAV 2639, dia 16 de Junho de 2019 nas Caldas da Rainha (Mário Lourenço, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)



XL CONVÍVIO DO PESSOAL DA CCAV 2639

DIA 16 DE JUNHO

CALDAS DA RAINHA


1. Mensagem do nosso camarada Mário Lourenço (ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CCAV 2639, Binar, Pete, Bula, Ponta Consolação e Capunga, 1969/71), com data de 3 de Junho de 2019:

Bom dia caros camaradas,
Mais um ano que fazemos convívio da CCAV 2639, este será o 40.º Convívio, no ano que faremos 50 anos da ida para a Guiné, 22 de Outubro de 1969. 

Será realizado em 16 Junho de 2019, nas CALDAS da RAINHA, no restaurante "NOVO MILÉNIO", Rua Dr. Artur Figueirôa Rego, 45 Caldas da Rainha. 

A organização do mesmo é feita pelos camaradas:
Rui Veríssimo Pereira - Telem 91 627 72 23 e
Carlos (115) - Telem 93 340 40 52.

Marcações até 6 de Junho de 2019, se possível. 

Despeço-me enviando forte abraço a todos e desejos muita saúde. 

MÁRIO LOURENÇO 
tabanqueiro 662
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Nota do editor

Último poste da série de 1 de junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19845: Convívios (897): I Almoço de Confraternização do Combatente Limiano, dia 10 de Junho, Pavilhão Expolima, Ponte de Lima (Mário Leitão)

Guiné 61/74 - P19855: (In)citações (133): Entre maio e dezembro de 1972, na altura em que estive com os "Gringos de Guileje", a situação era relativamente calma, a CCAÇ 3477 era temida e respeitada pelo PAIGC...As coisas alteram-se sobretudo em maio de 1973, ao tempo da CCAV 8350, "Os Piratas de Guileje" (Luís Paiva, ex-fur mil art, 15º Pel Art, Guileje e Gadamael, 1972/74)


Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 (Jan/Dez 1971) > Pessoal do Pel Art que guarnecia um das peças 11,4 cm ali existentes, no tempo em que a unidade de quadrícula era a CCAÇ 3325, comandada pelo Cap Jorge Parracho (reformou.se com o posto de coronel). . A CCAÇ 3325 foi subtituída pela CCAÇ 3477 (Nov 1971 / Dez 1972), "Os Gringos de Guileje",  a que se seguiu a CCAV 8350 (Dez 1972/Mai 1973), "Os Piratas de Guileje". O 15º Pel Art, a que pertenceu o Luís Paiva, esteve em Guileje com estas duas  últimas  unidades de quadrícula.

Foto: © Jorge Parracho (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem de Luís Paiva (ex-Fur Mil Art, 15.º Pel Art, Guileje e Gadamael, 1972/73, ao tempo da CCAÇ 3477 e depois da CCAV 8350, tendo o aquartelamento de Guileje sido abandonado em 22/5/1973)

[É membro da nossa Tabanca Grande desde 30 der outubro de 2009] (*)

Data: quarta, 29/05/2019 à(s) 15:36

Assunto: Solicitação de esclarecimento

Caro Luís Graça:

Em 2009 iniciei no Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" a publicação de alguns "posts" (10, segundo julgo) relacionados com a minha comissão de serviço militar na Guiné, no período que decorreu entre 1972 e 1974, sendo que o último post colocado data já de há cerca de cinco anos.

O primeiro "post" relatava de uma forma sucinta os acontecimentos ocorridos a partir de Maio de 1973 em Guileje e Gadamael no tempo em que ali se encontrava a companhia CCAV 8350, conhecida pela denominação de "Os Piratas".

Acontece que num recente almoço-convívio com a Companhia à qual estive ligado anteriormente CCAÇ 3477, conhecida pelos "Gringos de Guileje", tomei consciência de que em alguma(s) dessa(s) minhas intervenção(ões), ocorridas no referido blogue, teria involuntàriamente dado origem a equívocos que ali mesmo procurei desfazer mas que, pùblicamente, me comprometi a tomar a iniciativa de solicitar que fossem devidamente esclarecidos perante todos os leitores do blogue.(**)

Com efeito, se alguma vez dei a entender que a minha estadia em Guileje durante a permanência da CCAÇ 3477 foi relativamente tranquila, terei que, antes de mais, reiterar esta informação, mas acrescentando algo que poderá não ter ficado subentendido e que poderá ter gerado em alguns espíritos alguma confusão e até mesmo desconforto.

Antes de ser colocado em Guileje, eu tomei conhecimento que a zona era extremamente difícil sob o plano militar e que os Gringos que ali tiveram um período bastante difícil, tinham conseguido pacificar a região após várias incursões, e ganho respeito por parte do IN

O PAIGC temia a Companhia dos Gringos e, após várias incursões anteriores à minha chegada, tinham optado por reduzir ali a sua capacidade de ataque pelo que, quando cheguei, deparei com a zona já relativamente pacificada, sobretudo no que se refere a ataques ao aquartelamento, já que naturalmente no exterior a actividade militar e de prevenção da Companhia mantinha-se com saídas constantes e frequentes para o mato.

Deve pois ser salvaguardado o seguinte: eu desempenhava funções de artilheiro pelo que a minha actividade militar era apenas exercida dentro do aquartelamento, e aqui os ataques (após o período em que cheguei) eram reduzidos e aconteciam, tanto quanto a minha memória me permite recordar, numa média de cerca de um por mês.

Fora do aquartelamento -e durante esse período, de Maio a Dezembro de 1972- a situação era diferente mas não me posso pronunciar sobre ela porque eu não saía em missão para o mato.

E se me é permitido comparar com a situação que se iniciou em Maio de 1973, já após a saída da CCAÇ 3477 e durante a permanência da CCAV 8350, a diferença é flagrante porquanto a partir dessa data - e como referi na minha primeira intervenção - o grau e gravidade da situação militar alterou-se por completo dentro do aquartelamento. Dispenso-me de repetir o relato que fiz no Blogue há cerca de uma década sobre esses acontecimentos e que mantém plena actualidade.

Resumindo, e para que fique claro, apenas por interpretação anómala do que escrevi, se pode inferir que a permanência dos Gringos em Guileje foi pacífica porque o que efectivamente afirmei e reitero foi que a minha permanência com a aludida Companhia foi relativamente tranquila face ao que se passaria a seguir, concretamente a partir de Maio de 1973. 

E quando me refiro à minha permanência, refiro-me tão só ao espaço a que eu estava, como furriel de artilharia, confinado, mas também e sobretudo ao tempo em que ali estive com a referida Companhia. Porque, naturalmente, que não me posso pronunciar sobre o tempo anterior à minha chegada e em que aquela Companhia ali esteve na zona e que creio possa ter sido bastante difícil até se ter conseguido razoàvelmente pacificá-la.

Outra eventual interpretação do que escrevi será a partir deste esclarecimento abusiva.

Termino, afirmando que beneficiei na Companhia dos Gringos de grande camaradagem e de um óptimo ambiente de solidariedade que foi o que afinal me levou agora a procurar revê-los após um longo período de cerca de 47 anos.

Solicito que ao presente esclarecimento seja dado o devido destaque por forma a que todos os que leram alguma intervenção anterior minha possam ficar devidamente informados e tomem assim conhecimento que foi apenas uma acidental omissão sobre o tempo em que os Gringos estiveram em Guileje, mas que os meus comentários da altura se referem sobretudo a acontecimentos que tiveram lugar antes da minha chegada e -após a mesma- apenas no exterior do aquartelamento.

É porém voz corrente que presumível e supostamente (talvez antes de eu ser colocado em Guileje), os Gringos teriam capturado diverso armamento. Admito até que isso possa ter ocorrido durante a minha permanência, algo que já não consigo recordar! E reafirmo que a minha opinião tem sobretudo a ver com o teatro de operações dentro do aquartelamento.

Mantém-se o essencial do que escrevi nas intervenções no blogue, relativamente à descrição dos acontecimentos dramáticos que ocorreram em Guileje e Gadamael a partir de Maio de 1973 e já durante o período da Companhia CCAV 8350, conhecida pela denominação de "Os Piratas".

Saudações cordiais.

Luís Paiva
Ex-Furriel de Artilharia do 15º Pelart

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Notas do editor:

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19854: Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (9): Dicas para viver e sobreviver em Bissau: Custos mensais de estadia aproximados por voluntário com a casa habitada por 3 pessoas: 105 mil Francos CFA (c. 163,00 Euros)

1. Mensagem do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-tabanqueiro nº 730, que foi alf mil inf, de rendição individual, na açoriana CCAÇ 4740 (Cufar, 1973, até agosto) e, no resto da comissão, o último comandante do Pel Caç Nat 52 (Setor L1 , Bambadinca, Mato Cão e Missirá, 1973/74): é lisboeta,fez o Liceu Pedro Nunes, é bancário reformado, foi praticante e treinador de andebol, tem fortes ligações à minha terra natal, onde agora vivo, Lourinhã, Oeste, Estremadura...

Acaba de regressar de uma missão de 3 meses  em Bissau,como voluntário na Escola Privada Humberto Braima Sambu, no âmbito de um projeto da associação sem fins lucrativos ParaOnde, que promove o voluntariado em Portugal e no resto do Mundo



Data: 2 de junho de 2019 01:34
Assunto: Missão na Guiné




Boa noite, Luís
Aqui vai alguma informação do que foi a missão na Guiné.


Enviar-te-ei fotografias logo que estejam editadas.

Grande abraço,
Luís Oliveira


Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (9):  Dicas para viver e sobreviver em Bissau: Custos mensais de estadia aproximados por voluntário com a casa habitada por 3 pessoas:  105 mil Francos CFA (c. 163,00 Euros) F CFA – 163,00 €
 


Excerto do relatório de 22 pp, com 4 anexos:


Missão de Voluntariado na Guiné-Bissau


Luis Mourato de Oliveira

2 de Março 2019 a 30 Maio de 2019

Objectivo:

1 - Criação de uma Oficina de Andebol na Escola Privada Humberto Braima Sambú.

2 – Participação e cooperação noutras iniciativas de interesse da Escola Humberto Braima Sambú e da comunidade. (...)


Um primeiro excerto:

Anexo 4 - MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA D VOLUNTÁRIO

1. Custos fixos

Renda da casa (pago no inicio do mês) 100.000,00 F CFA

Cozinheira (final do mês) 40.000,00 F CFA

Aquisição alimentos (diária por pessoa) 1.000,00 F CFA

Limpeza /abastecimento de água (final do mês) 30.000,00 F CFA

2. Custos Variáveis:

- Arroz, Azeite, óleo (valor mensal P.P.) 4.000,00 F CFA;

- Eletricidade pré-paga /mensalmente 1.000,00 F CFA;

- Pequeno almoço p/dia (1⁄2 pão + leite + manteiga) 600,00 F CFA.

3.Observações:

Para pagamento da eletricidade pré-paga:

- Obrigatório o pagamento mensal dado haver uma taxa de utilização;

- Fazer o controlo da energia existente no contador situado no alpendre no lado direito da porta principal;

- Consumo normal 2 KW /dia;

- O pagamento é efectuado em Bissau Centro na CAIXA (Perto da sede da MTN);

- No pagamento apresentar número do contador 01 4519 6126 0;

-Intoduzir no contador o número de pagamento indicado no recibo e clicar "enter".

Segurança:

-Durante a noite fechar as portas de ferro dos alpendres e manter a luz destes ligada.

-Sobretudo as voluntárias não devem circular sozinhas no bairro após a meia noite e durante a madrugada. Se tiverem de sair para viajar e tomar transporte pedir a colaboração de alguém. Aconselho o Romário, presidente da Associação de Alunos da Escola.

-Nos transportes, em locais com menos circulação e à noite,  máxima atenção na utilização dos telemóveis. O telemóvel é um objecto apetecível e há roubos frequentes.

Nota final – As recomendações de segurança resultam de experiência anterior em que voluntárias foram assaltadas perto da casa dos voluntários.

Custos mensais de estadia aproximados por voluntário com a casa habitada por 3 pessoas: 105.000 F CFA, c. 163,00 €

Guiné 61/74 - P19853: Notas de leitura (1183): "Entre o Paraíso e o Inferno (De Fá a Bissá)", por Abel de Jesus Carreira Rei; edição de autor, 2002 (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Maio de 2019:

Queridos amigos,
É mais do que merecido o reconhecimento a este diário de Abel Rei, escrito com tanta sinceridade, envolto em tanta ternura, um registo também da vida de uma unidade que palmilhou o Xime, Amedalai, Denbataco, foi ao Buruntoni e ao Poidom, espalhou-se pelo Enxalé, Missirá e Porto Gole.
A um tempo em que os comandos tomaram a decisão de tirar a sede da Companhia do Enxalé para Porto Gole, perdeu-se a ligação a Missirá, em meu entender um erro crasso, as forças hostis eram as mesmas, de Madina, Belel, a região de Sara-Sarauol, são registos serenos os que o Abel Rei nos deixa, é um homem em conformidade com os seus princípios e valores, chega a refletir sobre as consequências do álcool depois de uma borracheira e lembra como esse mesmo álcool devastou a sua vida familiar.
Temos que ter orgulho neste diário, é o espelho de um homem de fé que vai regressar sereno à sua vida civil, sem traumas nem azedumes. Recomendo vivamente a sua leitura.

Um abraço do
Mário


Faça-se justiça a um belo documento, o diário do camarada Abel Rei

Beja Santos

Aprende-se muito com a releitura de certas obras, no caso vertente do diário da Guiné “Entre o Paraíso e o Inferno (de Fá a Bissá)”, por Abel de Jesus Carreira Rei, confessa-se ter havido uma certa ligeireza na primeira apreciação. É um documento de valor excecional, pela sua simplicidade, pelas páginas tocantes que nos lega falando do correio, das patrulhas, das amizades, dos encontros festivos com gente patrícia ou aparentada, pela genuinidade das apresentações, regista as suas devoções, o que o confunde e deslumbra quando a natureza explode em uníssono, veja-se o que ele escreve em 24 de abril de 1968, um amanhecer em Porto Gole:
“Com sons de todas as distâncias, ouvem-se os mais variados cantares das aves. São cinco horas e vinte minutos da madrugada (do dia, é o melhor termo neste momento!). Há dez minutos que o dia começou a nascer: primeiro lento, sem pressa, como se preferisse não sair da escuridão, depois como a volúpia de um prazer, rápido, com a aclamação de toda a natureza à sua volta. Avista-se entre as árvores espesso nevoeiro, o mesmo que torna húmidas e frias, estas manhãs tropicais – confundindo a mata com o rio, que neste momento apresenta uma crista de areia no meio, a quatro ou cinco quilómetros de mim. Também à minha volta, vejo agora nitidamente os mosquitos, que durante estas duas horas de reforço, tomaram o pequeno-almoço do meu sangue.
Poucos minutos mais volvidos, e já está o dia nascido. O homem encarregado do motor-gerador, já o fez parar. Os abutres vieram até aos limites do rancho ‘fazer limpeza’, enquanto os porcos lá continuam a sua tarefa de demolir tudo com o focinho. Os galináceos limparam do chão os grãos de ‘bianda’ mais próximos; e os cães correm de um lado para o outro (sou obrigado, de vez em quando, a interromper-me, a sacudir os mosquitos da minha pele).
Primeiro poucas, e agora em mais quantidade, as mulheres nativas correm para a fonte – um poço que se encontra rodeado de uma pequena horta, tendo algumas árvores em volta: mangueiros; laranjeiras; e cajueiros – de onde levam água clara, com que se saciarão durante o dia. (Os indígenas, não utilizam filtros como nós para limpar a água; metem-na em bilhas de barro, e ela depois assenta). Com as bilhas cheias, elas já regressam. Na tabanca já se ouve, em ritmo cadenciado, o pilão a martelar na ‘bianda’.
Começa a soprar uma ligeira aragem.
O padeiro já começou a sua tarefa, e o cozinheiro também já remexe os caldeirões. E eu termino… Arma às costas, e deixo o meu posto de sentinela!”.

Em Bissá, andará a cavar, fica cheio de bolhas nas mãos, ele que diz no seu currículo que se iniciou a trabalhar com dez anos ao balcão de uma mercearia no centro da então vila da Marinha Grande, e aos quinze anos já exercia a profissão de serralheiro civil. É uma edição de autor de dezembro de 2002, estou aqui a fazer a confissão de que é obra de valor, um diário autêntico, daqueles que começam a pontuar dia após dia e depois esmorecem, há semanas e meses em branco. Embarca no navio Uíge, faz parte da CART 1661, um dos seus comandantes foi um arquiteto de fama, já falecido, Luís Vassalo Rosa, de Bissau segue para Fá, espera ansiosamente notícias da família, descobre o mundo tropical, a África desconhecida, diz singelamente que acaba de apreciar uma grande plantação de bananeiras, era a primeira vez. Não há perda de tempo, vai-se até ao Xime, descreve-se a tabanca, encontra-se gente de terras próximas. Do Xime vai-se até Enxalé, daqui viaja até Mato de Cão que ele designa por local bastante propício a emboscadas do inimigo, terão ido montar segurança a embarcações militares ou civis. Do Enxalé segue para Porto Gole, dá-se por feliz quando regressa a Fá, é sol de pouca dura, regressa-se ao Xime, encontrou conhecidos dos Pousos de Leiria e de Burinhosa em Alcobaça, é uma operação ao Poidom, estreia-se nos tiros, volta para Fá e regressa ao Xime para uma operação ao Burontoni, capturou-se armamento, deu apoio ao seu colega Saraiva, dos Moinhos de Carvide, que vinha completamente abatido. O cansaço começa a pesar, surgem alguns problemas de saúde, segue novamente para Porto Gole, operações, atribuem funções de vagomestre, em abril de 1967 regista um dia trágico, morreram sete africanos para as bandas de Bissá. “Eu confesso: apesar de estar cá há pouco tempo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Tinha morrido um capitão de 2.ª linha, mais seis homens nativos, todos pertencentes à Polícia Administrativa e todos eles com as famílias em Porto Gole. Morria o Capitão Abna Na Onça, corajoso e respeitado pelos negros e brancos”.

Gosta de Porto Gole mas trabalha que se farta. Quando tem saudades, vai para a beira-rio, apreciar a paisagem, ver as mulheres a apanhar uma espécie de caranguejos no lodo. E em maio começa o pequeno inferno de Bissá, um outro local inóspito, entre Mansoa e Porto Gole, destacamento de pouca dura, Spínola pôr-lhe-á termo. Falta água, as colunas de reabastecimento são um suplício, volta por um tempo a Porto Gole, as funções de vagomestre são de imensa responsabilidade. E regressa a Bissá em setembro, o quartel está numa lástima, as flagelações sucedem-se, a tensão é permanente. Nesse mesmo mês de setembro rebenta uma mina anticarro, em consequência quatro mortos e treze feridos graves. Estabelece boas amizades com a gente do Pelotão de Caçadores Nativos n.º 54. O correio é cada vez mais espaçado, sente-se fisicamente em baixo, volta a Porto Gole e ao Enxalé, visita Bafatá, não lhe descobriu interesse. O ano passou e em fevereiro de 1968 passa férias em Bissau, regista um ataque de foguetões à Base Aérea de Bissalanca, volta a Porto Gole em março, anota que as coisas correm mal em Bissá, há cada vez mais emboscadas. Gosta de confirmar dados consultando a história da CART 1661. Spínola visita Porto Gole no início de junho, as coisas estão cada vez pior em Bissá. Em novembro, a sua Companhia é rendida, são colocados no quartel dos Adidos em Bissau, viaja novamente no Uíge para Lisboa. Impossível não registar o que ele escreve quando se despede de nós a bordo do navio Uíge na manhã de 20 de novembro de 1968:
“A minha missão não foi das mais árduas; outros houve que sofreram muito mais. Para esses, irá decerto o carinho de todos quantos nos rodearam através das escassas notícias referidas além-mar. Nada paga tão imensa alegria, de podermos regressar ao lar, e esquecermos tantas e tantas horas que passámos sem dormir, atentos ao inimigo, e depois de o termos aguentado, acarinharmos os nossos camaradas feridos ou chorarmos os mortos. A estes últimos: os heróis desconhecidos desta guerra, aqueles que mais ninguém recordará, a não ser os pais, irmãos, esposas e filhos, a estes, a minha modesta homenagem que se resume a desejar-lhes Eterno Descanso. Irmãos de meses difíceis desta tropa, a minha lembrança por vocês perdurará em mim eternamente, pois eu podia ter sido um de vós!”.

Julgo ter reposto justiça pondo no pódio este magnífico diário do camarada Abel Rei.
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Nota do editor

Último poste da série de 31 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19844: Notas de leitura (1182): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (8) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19852: Parabéns a você (1630): António Azevedo Rodrigues, ex-1.º Cabo do CMD AGR 2957 (Guiné, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 2 de Junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19848: Parabéns a você (1629): António Barbosa, ex-Alf Mil Op Esp do BART 6523 (Guiné, 1973/74) e Osvaldo Colaço, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3566 (Guiné, 1973/74)

domingo, 2 de junho de 2019

Guiné 61/74 - P19851: Tabanca Grande (480): Maria de Fátima Santos, esposa do nosso camarada Manuel Lima Santos, que perfez 10 presenças nos nossos Encontros Nacionais e que por isso foi convidada a fazer parte da tertúlia. Ocupará o 791.º lugar do nosso poilão

Vem sendo uma questão de justiça e reconhecimento convidar a integrar a tertúlia as nossas companheiras que perfazem 10 presenças nos Encontros Anuais do Blogue.

Este ano foi a vez de receber o certificado que assinala a 10.ª presença nos nossos Convívios, assim como o seu marido Manuel Lima Santos, da Maria de Fátima, que assim se junta ao grupo de senhoras, que convidadas, aceitaram pertencer a esta numerosa família de bloguistas cujo mote é a Guiné.

É com muito prazer que a recebemos, esperando que continue a sentir-se bem entre nós e a participar nas nossas confraternizações. Tem como companheiras de jornada, a Alice Carneiro, a Dina Vinhal (única totalista nos 14 Encontros), a Graciela Santos e a Lígia Guimarães. Muitas mais senhoras se juntarão ao grupo, estamos certos.

Monte Real, 25 de Maio de 2019 - XIV Encontro Nacional da Tertúlia - Momento em que o casal Manuel Lima Santos e Maria de Fátima recebiam os certificados da 10.ª Presença em Encontros da Tertúlia.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de Maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19784: Tabanca Grande (479): Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, QG/ CTIG, Bissau, 1973/74... Radialista, jornalista e escritor, vive na Praia, Cabo Verde. Senta-se à sombra do nosso mágico poilão, sob o nº 790

Guiné 61/74 - P19850: Blogpoesia (623): "Mas velhos são os trapos" (Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art MA da CART 1659)

1. Mensagem, de 12 de Maio de 2019, do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar, (ex-Fur Mil Art MA da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com um poema de sua autoria intitulado "Mas velhos são os trapos":


Mas Velhos são os Trapos

Mário Vitorino Gaspar

Pequeno corria ventos e com as nuvens falava:
– Por que não constróis castelos mirabolantes?
Gentes de todas as idades rindo como dantes.
Moço com vinte ri e grita - Por favor não minta!
Andas a sonhar e casado, pai e homem aos trinta?
Rebentas pela vida! Quem a suporta e aguenta?
És vida que espera, sem esperar pelos quarenta.
Num ápice atingiste os cinquenta os que sonhavas.

O que interessa é viver a vida e não só a contar:
– Quantos palmos… palmo a palmo e a medir…
Cantar. Cantar. Segundos, minutos horas a sorrir!
Cantar. Cantar, longe de tormentos e ais de sofrer.
Cantar canções de vida e amores a vida que viver.
Música cresce nos tons nostálgicos de uma flauta
A orquestra e seu maestro, batuta baque na pauta.
Vamos sorrir nos anos poucos ou muitos a amar.

Quero gritar! Grito e tenho vontade de gritar…
Um ser humano existe não é velho farrapo!
Velho e remendado… é aquele solitário trapo.
Um reformado… sente bem o tempo ocupado.
Outro sozinho triste, vazio oco… desconsolado
Um o tempo medido e pesado é curto e escasso
Outro a vida que era vivida virou fracasso
Grita. Canta, por que não? Dançar e a cantar?

Os dias dão as mãos, óbvio és um sexagenário
Atingidos com alegria a verdade dos setenta
Correm os ponteiros, às voltas. São oitenta
Anos seguidos, a vida é matemática sua soma.
Noventa? Mas por que razão pedi a reforma?
Centenário? Cem anos? Pudera é a verdade?
Vivi, gozei e vi. Filhos e netos é mesmo a idade!
Galguei os anos sem sequer olhar o calendário.

Aprendermos que a vida é também feita de zeros
Nados, ventre da mãe, mulher criada do mundo
Fêmea que amou o homem somente um segundo
E repete-se. Repete. A luz que acende e aquece
Repete. Anos repetem-se e há alma que esquece
Música que toca nos rádios todo a hora e dia
Dancemos ao toque do tambor e da melodia
Matematicamente o mundo é feito de números.

Mas velho… velho, sem voz, mudo e calado?
– Velho, caco de barro esburacado e partido?
Cala-te! Não sabes que esse termo foi abolido?
Inexistente nem lês nas palavras do abecedário!
No mundo: mesmo no mais catalogado dicionário…
Velho! A palavra foi extinta, não se lê nem se lia
Em todos os acordos do mundo de ortografia…
Velho era alguém com idade. É caso acabado.

Vivemos neste mundo anos seguidos de felicidade
Amamos flores do campo e as borboletas voando
Escutamos a voz do mar, ondas leves se enrolando
Há muito que aprender, melhor conhecer este ninho
Lama, palha rendilhada a mãe tece berço do filhinho
Viver sem pecar neste caminho, decerto é duro
Nunca será esforço infinito, decerto será seguro
Seres deste mundo são estrelas do céu sem idade.
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de junho de 2019 > Guiné 61/74 - P19849: Blogpoesia (622): "Rubros telhados", "Gotas de chuva" e "Cada manhã", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P19849: Blogpoesia (622): "Rubros telhados", "Gotas de chuva" e "Cada manhã", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) estes belíssimos poemas, da sua autoria, enviados, entre outros, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Rubros telhados

Rubros telhados, lavados da chuva,
luzindo ao sol.
Tapam os lares e regalam os olhos,
na tardinha de Domingo de Maio.
Que pena! Amanhã, há escola e trabalho.
O que vale, a partir de Junho, a festa das férias.
Viagens. Campo. Campismo. A praia.
Tempo de sonho que a família não esquece.

Do sol ao Minho, abunda o sol.
Latadas de verde. Searas de pão.
Romarias nos montes.
Estralejam foguetes.
Jorra a alegria.

Se reúne a família.
Noitadas de fogo.
Coretos de música.
Confronto das bandas.
Noites sem fim.

A marcha da vida,
No ciclo dos anos.
Reinado da paz.

20h11m
Jlmg

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Gotas da chuva

São balas as gotas da chuva.
Se estatelam no chão.
Abrem crateras.
Parecem vulcões.

Batem na fronte.
Escorrem na cara.
Lágrimas fresquinhas.
Sabem tão bem.

Contas sem conta.
Ao preço da chuva.
Sobraram algures.
O chão ressequido,
Seco do sol,
Batido do vento,
fica feliz.

As sementes rebentam.
Surgem ao ar.
Vestem de verde.
Que regalo é ver tudo a florir.

Não é o acaso.
Tudo perfeito.
Só há que ter fé.
Quem criou tudo isto
Sabe bem o que fez.

Berlim, 27 de Maio de 2019
12h31m
Jlmg

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Cada manhã

Saio à rua cada manhã.
Buscando imagens da vida em marcha.
Destinos cruzados.
Gente tão díspar.
Ocidente e de leste.
Ásia menor.

Vestes diferentes.
Damas veladas e rostos barbudos.
Como se estivessem em casa.
Parecem felizes.
Corre-lhes bem.

A troco de quê?
Por certo, grandes interesses.
Estratégia infernal.
Entre as potências.

O pior é se mudam os ventos...
Não olham a meios.
Correm com todos.
Sem olhar para trás.

O melhor seria como é natural.
Cada povo seu chão.
Perspectivas diferentes
Como são os falares.

Reboadas da história
Na sua marcha do mundo.
O passado as teve.
E, agora, o presente.

Berlim, 28 de Maio de 2019
9h54m
Dia de sol duvidoso
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19826: Blogpoesia (621): "Desafio do tempo", "Depois da trovoada e chuva grossa..." e "Um manto de luz", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P19848: Parabéns a você (1629): António Barbosa, ex-Alf Mil Op Esp do BART 6523 (Guiné, 1973/74) e Osvaldo Colaço, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3566 (Guiné, 1973/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19843: Parabéns a você (1628): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Guiné, 1968/70)