sábado, 6 de março de 2021

Guiné 61/74 - P21974: Álbum fotográfico de António Marreiros, ex-alf mil, CCaç 3544, "Os Roncos", Buruntuma, 1972, e CCaç 3, Bigene e Guidage, 1973/74 - Parte VI: O Ramadão (2/3)

 

Foto nº 6 > Um cego é conduzido ao local da cerimónia por um familiar ou vizinho


Foto nº 7 > O grupo dos homens



Foto nº 8 > O grupo das mulheres


Foto nº 9 > O almami conduz as orações (1)


Foto nº 10 > O almami conduz as orações (2)


Foto nº 11 > O almami conduz as orações (3)


Foto nº 12 > Fim da cerimónia ? Ao fundo, os rapazes que dispersam


Guiné > Região de Gabu > Buruntuma > CCAÇ 3544, "Os Roncos de Buruntuma" > 1972 > O Ramadão (2 e 3)

Fotos: © António Marreiros (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do álbum do  camarada António Marreiros [ a viver há quase meio século no Canadá (Victoria, BC, British Columbia).  ex- alferes miliciano em rendição individual na CCaç 3544, "Os Roncos", Buruntuma, 1972, e, meses depois, transferido para Bigene, CCaç 3, até Agosto 1974]... 

A sequência é relativa à festa do Ramadão, em Buruntuma, em 1972, e as cimco primeiras fotos já foram legendadas e comentads pelo Cherno Baldé, o nosso assessor guineense, que vive em Bissau, para as questões etnolinguísticas.

2. Legendagem do Cherno Baldé ao poste P21971 (*)

Caros amigos,

O António Marreiros postou mais uma série de excelentes fotos falantes sobre a comunidade de Buruntuma no ano de 1972, por ocasião da celebração do fim do mês sagrado do Ramadão.

A seu pedido, aqui vão os meus comentários [às fotos nºs 1, 2, 3, 4 e 5]



Foto nº 1

Um homem grande no seu traze de festa a caminho do local da celebração que normalmente se realiza no centro da aldeia debaixo de uma árvore, a mais importante, que tradicionalmente recebe este acto de submissão a Alá,  o criador, o benevolente e misericordioso, simbolizando a união e conc+ordia entre os habitantes da aldeia.

Em segundo plano e do lado direito vê-se um abrigo (bunker) contra flagelações e bombardeamentos de artilharia. Este tipo de abrigos feitos para protecção das populações civís existiam nas (fronteiras) zonas mais expostas as flagelações inimigas. Eram relativamente frescas durante o dia e insuportáveis durante a noite. Deviam ser limpos regularmente e bem resguardados sob pena de servir de covíl de cobras e outros répteis que abundam nas regiões tropicais. 

A parte de cima do bunker foi aproveitado para servir de celeiro para stock das reservas de alimentaçao (milho miúdo e sacos de arroz com casca ?) da familia.



Foto nº 2

A árvore da Manjanja (ou Mandjandja) em Crioulo, Tabâ(i) em mandinga e fula, foi o local escolhido para a realização da cerimónia. Os homens estão sentados debaixo da árvore e relaxados, esperando a hora da chegada do Almami (Chefe religioso) e o início da cerimónia que se realiza uma vez por ano após o periodo do Ramadâo (jejum de 30 dias consecutivos, das 5h00 as 7h30). 

A organização da mesma está hierarquizada, tendo na frente os homens, depois o grupo das dos rapazes e criançasem,  seguindo-se as mulheres à uma certa distância, As crianças às vezes misturam-se com o grupo das mulheres.



Foto nº 3 

O Almami (à  frente) e o grupo dos seus auxiliares (seguindo atrás),  a caminho do local da realizaçao da cerimónia, passam pelo grupo dos rapazes que estão sentados não atrás mas à frente das mulheres na ordem hierárquica da cerimónia de reza muçulmana que requer silêncio, calma e grande concentração.




Foto nº 4 

Duas mulheres grandes da aldeia em trajes de festa, aproveitam para os habituais cumprimentos e uma breve troca de palavras antes do início da cerimónia.

Foto nº 5 [em baixo, ao centro] :

Mostra a primeira fila do grupo das mulheres sentadas debaixo do sol e algo impacientes, à espera do inicio da cerimónia, aqui o sol fustiga e não há sombra. 

Em primeiro plano, uma mulher sentada numa pele de carneiro. As esteiras de bambu e as peles de carneiro eram largamente utilizadas antes do aparecimento das esteiras feitas de material polietileno.



Foto nº 5


Melhores cumprimentos,

Cherno Baldé


PS - Fizemos uma pequena correcção à legenda das Fotos nº 2 e nº 3: O grupo dos rapazes vem a seguir ao dos homens adultos e não atrás das mulheres...


2. Legendas complementares do Cherno Baldé às fotos deste poste (Ramadão, 2/3)


As legendas estão perfeitas, gostaria de acrescentar alguns elementos sobre as fotos nºs 10/11 e 12.

Nas fotos nº 10/11 podemos ver do lado direito do Almami, no chão, uma pedra e o bastão que ele trazia na mão que têm significado histórico e que evoca a ligação e herança cultural e religiosa dos Hebreus/Judeus. 

A pedra, na sua forma, simboliza o púlpito e no seu conteúdo sacramental invoca o tabernáculo ou Arca da aliança da religião hebraica e que na religião muçulmana é substituída pela mesquita como lugar sagrado. O bastão por sua vez simboliza o mesmo que Moisés recebeu do Deus no Egipto e graças ao qual conduziu o seu povo atravessando o Mar Vermelho para o Sinai.

No fundo o Ramadão é a repetição ritual e simbólica de uma tradição judaica. Logo a seguir a esta cerimónia vão realizar uma recitação de algumas horas, lendo e traduzindo na lingua local a história resumida da história e da tradição da religião desde os primórdios com Abraão até ao legado (Sunna) do Profeta Mohamed, revisitando outros Profetas importantes como o Moisés (Annab Mússa) e Jesus (Annab Issa, na versão islâmica).

Na foto nº 12, o grupo das crianças já se dispersou, pois a eles não interessa a parte litúrgica da recitação que demora algumas horas, hoje é dia de festa e é esse o espírito que os anima. Em casa vão tomar o pequeno almoço e preparar o carneiro que será sacrificado logo que a cerimónia é finda e que vai juntar toda a família.
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sexta-feira, 5 de março de 2021

Guiné 61/74 - P21973: Blogues da nossa blogosfera (152): "Sempre renas", de JB [, José Belo]: o melhor blogue de fotopoesia da Lapónia sueca


"É uma casa... portuguesa ? /  Sim, dizem uns, outros, não, / Não se tem bem a certeza, / O dono é luso-lapão"... 

"È Belo, não Ruy, José / E de renas, criador, / E agora blogador /, Mas fala pouco... da Guiné"... 

"Diz que o mar o despejou. / E não é nenhuma facécia, / Neste reino da Suécia, / E  só por amor ficou"...

Foto: J. Belo (2020) (Com devida vénia...). Legenda: LG (2021)


1. Blogue Sempre renas, editado por JB desde fevereiro de 2021. 

O seu "perfil"! no Blogger traz poucas informações sobre o blogador Género: Male [, Masculino];  Indústria: Direito / Lei. Localização: Lappland / Sweden  - Key West / Florida / USA. 

Administrou em tempos o blogue "Lappland to Key West" [ ,Da Lapónia a Key West], que já não está "on line" ou em linha (*)... O mesmo aconteceu com o blogue "Merely... Lapland" [, Simplesmente... Lapónia]... 

Afinal, o régulo da Lapónia de vez em quando "desaparece", mas nunca se perde, tal como as suas renas e os seus cães... A última vez foi no ano de 2016... Andou um ano inteiro "desenfiado".... por razões que todos respeitamos (e temos que respeitar). (**)

Como em tempos escrevi, a presença aqui, na Tabanca Grande, de antigos camaradas como o José Belo, que representam  de algum modo a figura do marginal-secante  (o que intersecta dois mundos ou dois sistemas), é extremanete valiosa  e importante para todos nós, porque tem o mérito de nos alertar para (e, logo, ajudar a prevenir) o risco da criação, no nosso blogue, de um pensamento de grupo (em inglês, groupthink)... Ou, como se diz hoje em dia, "pensamento único"... 

Este fenómeno (grupal) tem sido estudado pelos cientistas sociais, incluindo os politólogos. Basicamente, ocorre em grupos demasiado homogéneos e coesos (como são por exemplo, os "homens do Presidente", o "comité central" de certos partidos políticos,  os grupos de combate de forças especiais, e até os ex-combatentes, de um lado e do outro das guerras, como a guerra do ultramar / guerra colonial )... 

Os membros do grupo tendem a minimizar os conflitos interpessoais, a existência de diferentes perspectivas e opiniões, valorizando o consenso a todo o custo, forçando o unanimismo, passando por cima, escamoteando, branqueando, ignorando, criticando  e, em última análise, proibindo e eliminando as saudáveis divergências individuais, ou seja, a necessária e desejável pluralidade de opiniões, valores, percepções, experiências, vvências, informações,  conhecimentos...

Em situações-limite, como a frente de batalha, a coesão grupal e o "espírito de corpo" são fundamentais. Mas o pensamento de grupo pode ter (e tem) consequências disruptuvas e negativas, a nível psicossocial e cognitivo: a pressão para a conformidade e o alinhamento ideológico e comportamental levam, muitas vezes ou quase sempre, à perda de criatividade individual, ca capacidade crítica, da idiossincrasia de cada um, da autonomia, da liberdade de pensamento e de expressão, e infelizmente também à radicalização do discurso e à violência verbal contra o "outro" que não pensa como "nós"... Veja-se como as "igrejas" (religiosas ou laicas) lidam com o fenómeno da "dissidência"...

Tem-se visto isso mais recentemente, seja a propósito da morte de um bravo mas controverso combatente, seja a propósito de  símbolos (como as estátuas e outros signos) das nossas cidades, relacionados  com a colonização/descolonização.

Em suma, muitas decisões (políticas, militares, económicas...) acaba(ra)m em "desastre" devido possivelmente a este fenómeno do "pensamento de grupo". 



2. Dito isto, saudo o regresso do blogue da Tabanca da Lapónia, agora rebatizado "Sempre renas"... 

http://semprerenas.blogspot.com/

O nosso régulo da tabanca de um homem só (, tendencialmente aristocrática, mas "agora aberta ao povo" (**) , que se protege  dso efeitos letais  da solidão com o melhor da natureza da Lapónia sueca e da literatura em português e em sueco...  

Não esconde quais são alguns dos seus preferidos, poetas, escritores, pensadores: Fernando Pessoa, Ruy Belo, Augusto Strindberg, Nils Ferlin e o próprio J. Belo ... Autores por onde perpassa a alegria e o absurdo da vida, sob a "pele" do humor,  do sarcasmo  e da auto-ironia... mas também a procura das suas raízes existenciais mais fundas, sem esquecer a pátria / mátria / fátria, afinal lá tão perto e cá tão longe... e com quem mantém uma relação de amor-ódio, como qualquer bom português da diáspora, desde há séculos (de Camões a Jorge de Sena, do Padre António Veira ao Marquês de Pombal, de Sanches Ribeiro a Fernando Pessoa, de Amadeu Sousa Cardoso a Paula Rego, só para falar de alguns "estrangeirados")...

Citando Ruy Belo (, não são primos, não senhor...), o J. Belo escreve: 

"O meu país ?... O meu país é o que o mar não quer".

Daí os títulos dos postes, ou as legendas das fotografias,... São pedaços de versos, verdadeiras pérolas do pensamento sincrético,  que ele vai buscar ao seu poemário... 

Daí eu chamar-lhe um blogue de fotopoesia, em português, do melhor que há na Lapónia, editado por um luso-lapão que faz gala em dizer, sem nunca se queixar ou reclamar, que o vizinho mais próximo está a escassas 3 centenas de quilómetros:

"As casas vestem os silências das noites".......Home sweet home !


"No meu País ? No meu País não acontece nada... Todos temos uma janela para o mar voltada"  


"Amo infinitamente o finito"


Enfim, um blogue que faz muita falta à nossa blogosfera e... à nossa "higiene mental". (***).

PS - Curiosamente, o José Belo é autor de uma série a que eu dei o título, que ele provavelmente detesta desde o início, mas ficou assim grafado: "Da Suécia com saudade"... Acontece que eu nunca lhe vi, escrita, a palavra "saudade", demasiado "lamechas" para o seu gosto "assuecado"...(Afinal, 40 anos de diáspora, ou de auto-exílio,  em cima do lombo de um português é muito ano...).
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(...) A ideia inicial (e como tal funcionou até aqui) da Tabanca da Lapónia,foi a de dar notícias sobre a Guiné aos inúmeros ex-cooperantes Suecos, Noruegueses e Dinamarqueses, que continuavam interessados, e nostálgicos, quanto à sociedade guineense, como nós, ex-combatentes, ainda e sempre ( tão estranhamente, pelas condições subjacentes) ligados, e amigos sinceros da Guiné-Bissau e dos seus Povos.

A evolucao político-social no país, com um sempre crescente domínio militar, falta de liberdades reais, aliados a uma corrupção galopante, a somar-se à crescente influência dos cartéis internacionais da droga, cada vez mais infiltrados em todos os níveis do poder local, têm criado imagens muito negativas nos meios informativos escandinavos. Criou-se grande desilusão e desinteresse entre muitos, mesmo os que vinham a auxiliar a Guiné desde o início dos anos 60.

Perante tudo isto, e tendo em conta inúmeros E-mails locais por mim recebidos, foi decidido modificar o rumo "editorial" da http://www.lapplandkeywest.com/, voltando-se agora para um diálogo mais prioritário para com o nosso querido Portugal. (...)

(**) Vd. poste de 21 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16860: O nosso querido mês de Natal de 2016 e Ano Novo de 2017 (11): Joseph Josephsson, aliás J. Belo, o régulo (e único tabanqueiro) da Tabanca da Lapónia...

(****) Último poste da série > 28 de fevereiro de  2021 >Guiné 61/74 - P21957: Blogues da nossa blogosfera (151): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (61): Palavras e poesia

Guiné 61/74 - P21972: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (42): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2021:

Queridos amigos,
Sobre aqueles tempos duros de final de setembro e até novembro, a feita cronista da sua comissão na Guiné, a bem amada Annette, faz perguntas para ela obscuras, uma delas tem a ver com a alimentação, como comem, em que condições se cozinha, não há uma só referência a frutas e legumes, observa ela. Paulo dá justificações, a da fruta é mais simples, come-se em conserva ou fruta da região, não é por acaso que ele continua a ser um consumidor compulsivo de papaias. Há igualmente que explicar que a época das chuvas tudo transtorna, gente doente com malária e com líquenes, gente que se arrasta para o posto de sentinela, houve um colapso nervoso de um grande colaborador, ainda hoje Paulo se sente responsável por ter sido negligente, mau observador. E está uma mudança em curso, o Comando de Bambadinca aceitou a transferência do pelotão de caçadores, o régulo está furioso, tem sérias reticências quanto a quem vem, tudo se resolverá com diálogo. E estamos na véspera de um pequeno cataclismo, antes disso uma rudimentar armada do PAIGC vai ser destruída à bala, e bem camuflada no tarrafo ela se encontrava.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (42): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Mon adorée, agradeço profundamente a tua carta e a importante questão que me pões para as decisões que tomemos no futuro. Dou aulas às segundas-feiras, depois começam as férias da Páscoa, meti dias de férias no meu trabalho, quarta e quinta-feira, espero que faças férias também na semana seguinte, tenho regresso marcado para quarta-feira. Viajo terça-feira à noite, confesso-te que levo trabalho, dois diretores da Associação Europeia de Consumidores estão disponíveis, reuniremos na terça-feira depois da Páscoa. Concordo contigo, com a meteorologia tão adversa sugiro passeios à volta da capital, tive a ler no Michelin o número impressionante de pequenas vilas, sobretudo no Brabante flamengo, tens luz verde para elaborar um roteiro de pequenos passeios, sabemos de antemão que os museus estarão fechados de sexta a domingo, basta que haja uma nesga de sol daremos passeios. Comprei as lembranças que me pediste para os teus filhos e no aeroporto adquirirei as vitualhas para pôr na mesa o almoço do domingo de Páscoa.

Pedes-me mais informações sobre todo o período que antecede a nossa partida do Cuor para Bambadinca, dizes-me estar intrigada por eu nunca falar na alimentação. Annette, ela foi por vezes um suplício para nós incompreensível. É evidente que naquela atmosfera de guerra e na proliferação de tantos destacamentos, não tinha lógica nenhuma suspirarmos, pela alface, tomate, pepino, agriões, couves, enfim, fruta e legumes fresquíssimos. Não havia na época processos de transporte de ultracongelados, os nossos frigoríficos no mato funcionavam a petróleo, não havia condições de congelar na perfeição, assunto naturalmente arrumado. Mas era inaceitável toda aquela dieta de conservas, buscávamos soluções como comprar aos caçadores carne de gazela ou de porco do mato, para nossa surpresa era possível adquirir na manutenção caixas do melhor bacalhau, vinha mesmo da Noruega, havia as barricas com carnes salgadas, os chouriços e as salsichas, compravam-se galinhas, excecionalmente peixe de rio. Quando cheguei a Missirá, logo o primeiro jantar me deu náuseas, um arroz espapaçado e frango ensanguentado, pretextei problemas de estômago, desforrei-me com leite achocolatado holandês e trinquei umas bolachas. Verificando as ementas pindéricas, a rotina do esparguete com salsichas, como tínhamos dois cozinheiros, Quebá Sissé e Umaru Baldé, pedi na cozinha de Bambadinca que eles fossem ali estagiar, obviamente um de cada vez, e que os apoiassem com informações de aproveitamentos de todos os recursos locais. Aliás, fizeram-se obras na cozinha, a chamada messe foi cimentada, fez-se um armário adequado para guardar a loiça, os talheres e os copos, nunca tive coragem de perguntar a quem me antecedeu como aceitavam comer em condições tão degradantes, era para mim ininteligível aquele desleixo. A dieta melhorou, mas tínhamos outro elemento hostil: ou a época das chuvas ou as viaturas avariadas. Estarás recordada de eu ter escrito que nos deram um barco sintético que transportava mercadorias desde o porto de Bambadinca até a um local chamado Gã Gémeos, aqui uma viatura transportava bidons, sacos e caixas até Missirá. O abastecimento de Finete também me preocupava quando havia viaturas variadas, recorria-se a uma solução drástica, transporte de petróleo em jerricãs, repartia-se o arroz que era transportado à cabeça, e o mesmo tipo de transporte que utilizava para as munições.

Não te esqueças que fizemos um forno, estava já pronto antes do Natal de 1968, foi ali que se prepararam os cabritos e o arroz que se serviu no dia de Natal a toda a população, depois foi a nossa festa de militares, longas mesas onde conviveram os caçadores nativos e os milícias. Tivemos um padeiro exímio, Jobo Baldé, fazia carcaças de excelente qualidade, montou mesmo um negócio particular, autorizei-o, e confesso-te que fiz bem, a população de Missirá passou a comer pão fresco, exigi preços abordáveis, o Jobo aceitava mesmo encomendas da população de Finete, em termos de segurança para nós até era bom, vinham civis armados com uma secção de milícias e regressavam com sacos à cabeça, a rescender bons cheiros.

Aos pequenos-almoços havia café com leite condensado, eu preferia beber chá príncipe, se possível pão fresco com talhadas de marmelada, sempre me repugnou o gosto da margarina. Eu satisfarei quaisquer outras dúvidas que te suscite a nossa alimentação. Quando a bolanha de Finete estava completamente alagada, o barco sintético com o motor em baixo, a prioridade absoluta era para as munições. E daí aquela tragicomédia de termos estado mais de um mês a pé de porco em barrica com o feijão-verde em conserva e para beber as águas Perrier e Evian.

Tu próprio reconheces que o final de setembro e o mês de outubro e a partida em novembro para Bambadinca é dos períodos mais amargos da minha vida na Guiné: a perda de efetivos, o número crescente de doentes, sobretudo com paludismo, a convocação para operações que me obrigava a malabarismos, pondo gente doente na vigilância noturna ou convocando milícias de Finete para os patrulhamentos diários a Mato de Cão, onde cheguei a ir com quinze homens, aquelas estranhas flagelações de fim de tarde, até Finete não foi poupada, mas desta feita com uma flagelação a sério, pois a reivindicação, que sempre reconheci como legítima, do pelotão de caçadores apelar a uma mudança, desde 1966 que andavam no mato, começaram em Porto Gole, depois em Enxalé e desde 1967 em Missirá. Como tu deves supor, eu passo os olhos nos documentos e nos aerogramas que te mando, questiono-me como era possível aquela vida em carrossel agarrar-me ainda às questões administrativas, e dispor de tempo para escrever e ler. O colapso nervoso do furriel Casanova pesou-me muito e nunca me furtei intimamente da responsabilidade de ter negligenciado o seu definhamento. Sentindo a sangria dos efetivos, fui mandando documentos cada vez mais aflitivos para os Comandos de Bambadinca. Pedi e fui compensado, no encontro com o novo comandante de Bambadinca ele informou-me que a partir do início de outubro uma nova unidade colocada ali, a Companhia de Caçadores N.º 12, passaria a ir regularmente a Mato de Cão. E chegou outra boa notícia, iríamos ser substituídos em finais de outubro pelo Pelotão de Caçadores Nativos N.º 54, e havia igualmente a decisão de manter dois pelotões de milícia completos em Missirá e Finete. O régulo do Cuor não gostou da notícia da mudança e, entretanto, fui convocado para um reconhecimento aéreo pelo major de operações, iríamos vasculhar minuciosamente as margens do rio Geba entre Bambadinca, Ponta Varela e São Belchior, havia notícia de que grupos do PAIGC viajavam de piroga até aos Nhabijões, ora se houvesse essa armada primitiva tínhamos que saber onde se posicionava e destruí-la. É um episódio longo, já é muito tarde, parei o relato antes de partir, as saudades são imensas e quero responder inequivocamente ao que me perguntas se podemos viver em Bruxelas e em Lisboa. Iremos falar demoradamente nas nossas férias, abrir caminho para a melhor solução. Percorro a tua bela cidade a palmo, nela sinto-me em casa, não tenhas qualquer dúvida. Sei perfeitamente que tu aprecias Lisboa, mas sugiro que venhas cá mais vezes para te aperceberes se aqui te sentes bem, como eu desejaria tanto. E falaremos francamente dos assuntos financeiros, como tu também tenho que ajudar os meus filhos, como tu gosto muito da minha profissão, e como tu vivo em arrebatamento e quero a companhia de quem amo, entendo que é mérito irrecusável, justifica uma solução de que não nos possamos arrepender, a partir do momento em que adquirimos o estatuto de reformado, nada voltará a ser como dantes. Confio na nossa boa decisão, iremos tomá-la. E com carinho neste momento as minhas mãos percorrem as linhas do teu rosto e te beijo com tanto ardor. Bien à toi, Paulo.
Igreja de São Nicolau, sempre me surpreendi, ao longo das décadas, com esta reminiscência das práticas medievais de adossar espaços comerciais a um templo religioso, este tem um peso carismático, sofreu muito com os bombardeamentos decretados por um general de Luís XIV, encerra relíquias do Santo, e não desgosto das suas linhas barrocas severas no seu interior.
Relíquias de São Nicolau, uma bela peça de ourivesaria de trabalho em ouro
É para mim a imagem mais significativa da Igreja de São Nicolau, este Cristo de outras eras a quem não poucas vezes agradeci a Sua misericórdia e as benesses que me tem concedido ao longo da vida
Quantas vezes sinto a falta destas casas de livros e discos usados onde vivi não sei quantas centenas de horas de êxtase, depois fui aprendendo a moderar-me com o peso da papelada transportada de comboio e de avião, e com a consagração dos voos low cost mais moderado me tornei, embora tenha recorrido a manhas como levar gabardine no verão e encher os bolsos até me tornar no mais obeso dos passageiros
Como esquecer estes encontros súbitos com vestígios do passado, houvera igreja, nunca apurei se foram canhões franceses ou alemães que a derribaram, restou esta imponente torre, e sempre que percorre esta artéria aqui me deixou especar, está na praça de nome Santa Catarina, a igreja é do século XIX a imitar o gótico, diga-se em abono da verdade que é um tanto intragável, mas a torre e põe o seu orgulho de incompletude, é o que resta do que já foi grande
Chama-se Sala Henry Le Boeuf, inaugurada em 1929, daquele palco agradeceram as palmas Serge Prokofiev, Igor Stravinski, Louis Armstrong, Maria João Pires e os Madredeus. É o auditório mais famoso de Bruxelas, aqui escutei desde Rinaldo Alessandrini e o seu conjunto Concerto Italiano e Jordi Savall, a sua mulher a cantora Montserrat Figueras e o Hespèrion XXI
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21950: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (41): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P21971: Álbum fotográfico de António Marreiros, ex-alf mil, CCaç 3544, "Os Roncos", Buruntuma, 1972, e CCaç 3, Bigene e Guidage, 1973/74 - Parte V: O Ramadão (1)



Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5

Guiné > Região de Gabu > Buruntuma > CCAÇ 3544, "Os Roncos de Buruntuma" > 1972 >
O Ramadão (1)





1. Mensagem de camarada António Marreiros [ a viver há quase meio século no Canadá (Victoria, BC, British Columbia), ex- alferes miliciano em rendição individual na Companhia CCaç 3544, "Os Roncos", Buruntuma, 1972, e, meses depois, transferido para Bigene, CCaç 3, até Agosto 1974]:


Data - 23/02/2021, 18:29
Assunto - Álbum fotográfico. Buruntuma (1)

Amigos,

Todos os dias dou uma olhadela ao blog e também dei uma gargalhada com a história do frango que voou e a vida no hospital de Bissau...Ainda bem que nunca tive de lá ficar.Visitei amigos hospitalizados e na altura deixou-me pouco desejo de lá voltar...

Tenho um grupo que fotos que o Cherno Baldé talvez possa acrescentar mais importantes detalhes sobre os trajes e cerimónias do Ramadão. Na altura não sabia nada sobre os costumes muçulmanos!

Aqui os dias de inverno vão dando lugar a sinais de primavera mas muito devagar. Para usar o tempo vou aprendendo e conversando italiano com outros “estudantes” espalhados pelo mundo graças ao Zoom e outras plataformas e assim não me sinto tão isolado.

Que continuem todos bem!
Um abraço
Antonio Marreiros (Canada)
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P21970: Parabéns a você (1939): Gil Moutinho, ex-Fur Mil Piloto DO e T6 da FAP (BA 12, Bissau, 1972/73)

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Nota do editor

Último poste da série de 27 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21951: Parabéns a você (1938): Luís Cardoso Moreira, ex-Alf Mil Sapador da CCS/BART 2917 e BENG 447 (Nova Lamego, S. Domingos e Bissau (1967/69)

quinta-feira, 4 de março de 2021

Guiné 61/74 - P21969: Fotos à procura de... uma legenda (145): às vezes, é tudo uma questão de perspe(c)tiva... Será ?

I

Itália > Florença > Março de 2006 > David, homem, não saias do banho... sem a toalha! 

Réplica (, de 1873,)  da escultura original de David,  por Michelangelo (, datada de 1501-1504), em frente ao Palazzo Vecchio, na Piazza della Signoria,   


Itália > Pisa > Setembro de 2005 > Este fim de semana fui a Pisa, 80 km de Florença, numa pasteleira sem travões

A torre de Pisa, com cerca de 57 m de altura  (datada de 1174). é um ícone de Itália. Depois de longos trabalhos de estabilização, a sua inclinação é agora de 3,99 graus.


Fonte: cortesia de João Graça, blogue arriverdesci portogallo (2005/2006) (com a devida vénia). 

Fotos (e legendas): © João Graça (2021). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


perspectiva

perspectiva | n. f.
3ª pess. sing. pres. ind. de perspectivar
2ª pess. sing. imp. de perspectivar

pers·pec·ti·va |èt|

nome feminino

1. Arte de figurar no desenho as distâncias diversas que separam entre si os objectos representados.

2. Pintura no fim de galeria ou de alameda de jardim para iludir a vista.

3. Aspecto dos objectos vistos de longe.

4. Panorama, vista.

5. Aparência.

6. Esperança.

7. Receio.

8. Previsão.

ter em perspectiva
• Esperar, contar com, ter como provável, obter.

• Grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990: perspetiva.

"perspectiva", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/perspectiva [consultado em 04-03-2021].
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Guiné 61/74 - P21968: Ser solidário (236): Consignação do IRS - uma ajuda que não custa mesmo nada: ONGD Afectos com Letras, NIF 509301878



1. Mensagem da ONGD  Afectos com Letras [tem 13 referências no nosso blogue]:

Date: quarta, 24/02/2021 à(s) 09:43

Subject: Consignação do IRS - uma ajuda que não custa mesmo nada

A Consignação do IRS permite-vos doar 0,5% do imposto devido ao Estado à Associação Afectos com Letras.
E por isso, mais uma vez apelamos à vossa solidariedade e espírito de entreajuda, dando-nos a possibilidade de levar até às comunidades com quem trabalhamos na Guiné-Bissau mais esperança e educação às meninas, mais dignidade às mulheres e mais qualidade de vida às famílias. Dar-lhes mais futuro.
Já conseguimos instalar duas máquinas descascadoras de arroz com o apoio recebido das vossas consignações nos anos anteriores, mas novas máquinas poderão chegar às aldeias guineenses e mudar vidas das meninas e mulheres com uma simples cruz na vossa folha de IRS.
Querem fazer parte desta mudança? É muito simples:
  • Até 31 de março, podem aceder ao Portal das Finanças e indicar a entidade à qual pretende consignar o IRS ou IVA, inserindo o NIF 509 301 878.
  • A partir de 1 de Abril, ao preencher o quadro 11 do modelo 3, inserir o NIF da Afectos com Letras e assinalar com uma cruz no IVA ou IRS.
Contamos convosco! Continuamos juntos.

Associação Afectos com Letras, ONGD
Rua Engº Guilherme Santos, 2
Escoural , 3100-336 Pombal
NIF 509301878
tel - 91 87 86 792

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Nota do editor:

quarta-feira, 3 de março de 2021

Guiné 61/74 - P21967: Antologia (77): Recordando dois generais do fim do império, e em especial Bettencourt Rodrigues, que se confirma ter feito uma visita-relâmpago a Madina do Boé, no último trimestre de 1973, acompanhado de jornalistas estrangeiros (excertos de António Martins de Matos, "Voando sobre um ninho de Strelas", Lisboa, 1ª ed, 2018, pp. 231-239)


1. A propósito da visita-relâmpago que o gen Bettencourt Rodrigues fez a Madina do Boé, em 16 de novembro de 1973, com dois jornalistas alemães (*),  fomos reler o livro de memórias do nosso amigo e camarada António Martins de Matos, na altura ten pilav (BA 12, Bissalanca, 1972/74), hoje ten gen pilav ref, "Voando sobre um ninho de Strel
as" (1ª edição, Lisboa: BooksFactory, 2018, 375.pp.; teve, em 2020,  em 2ª edição revista e aumentada, ver capa acima).(**)

O autor  [, foto à esquerda] fala deste episódio, em breves linhas, no capitulo 35 (pp. 231-239, 1ª ed.), que tem por título "Dois Generais". 

Tomamos a liberdade de reproduzir alguns excertos, para informação e conhecimentos dos nossos leitores, e com a devida vénia ao autor, que teve sob os céus da Guiné uma brilhante e corajosa atuação como piloto do Fiat G-91.


(…) Em 25AGO73 e em Lisboa, o General José Manuel Bettencourt Conceição Rodrigues tomou posse do cargo de Governador Geral e Comandante-Chefe da Guiné.

Militar brilhante, vinha habituado a grandes operações lá pelas vastidões do Leste de Angola. A sua chegada à Guiné só veio a ocorrer em 21SET73, praticamente um mês depois da sua tomada de posse.

(…) Aquele hiato entre a tomada de posse e a chegada a Bissau talvez tivesse sido aproveitada para alguns estudos, mais precisamente em como replicar as estratégias e tácticas de Angola naquele pequeno território.  E bem precisávamos de estratégias, já que, tendo chegado de férias ainda não há uma semana, [eu] já levava 14 missões de alertas e bombardeamentos em Fiat G-91.

(…) Fiquei impressionado com o senhor, militar de grande prestígio, antigo Ministro do Exército e pacificador do Leste de Angola (…). Só não conseguia compreender como se tinha prestado a tal sacrifício, vir ser crucificado em terras da Guiné (…).

(...) Coitado do General, a coisa começou-lhe logo mal, 3 dias depois de chegar a Bissau, o PAIGC declarou a “independência nas áreas libertadas do Boé”. Até parecia que era de propósito…

Estrebuchou, perguntou-nos como tal era possível, por que tazão não tínhamos previsto tal desiderato, lá lhe respondemos que tínhamos estado sempre em alerta, a cerimónia teria sido feita em todo e qualquer lugar menos onde eles afirmavam e garantíamos que naquele último mês e na Guiné nada de diferente se tinha passado.

Naquele tempo não havia GPS, era fácil enganar um qualquer jornalista, certamente não se podiam arriscar a sofrer um bombardeamento em plena cerimónia.

Apenas meio convencido, vestiu o camuflado e foi a Madina do Boé acompanhado por uma série de outros jornalistas [, na realidade, dois, alemães] (*)

Verificação no local (tipo S. Tomé, ver para crer), tudo no Boé continuava igual ao momento em que as nossas tropas a tinham deixado, nada ali tinha ocorrido.

Nunca viemos a saber onde teria decorrido a cerimómia de independência, desde logo suspeitámos que tivesse ocorrido em território da Guiné Conacri. Ainda hoje o tema é confuso, aos poucos a Guiné Bissau tem puxado o acontecimento para dentro do território já que não seria politicamente correcto confessarem terem feito a cerimónia no “estrangeiro”.

Tendo desistido [de Madina] do Boé, há actualmente vários locais candidatos, Vendu Leidi, Lugajole, One Fello… acho que o verdadeiro local do evento será identificado lá para o século XXIII.

(...) Em 26 ABR74 o General Bettencoitr Rodrigues, herói de Angola, foi devidamente enxovalhado preso no Forte da Amura pelos seus próprios subordinados. (...)

(...) Já o General Spínola era um grande Cabo de Guerra mas não percebia nada de política (...).

(…) Tenho saudades do meu “Caco Baldé” (pp. 231-239)

António Martins de Matos



Guiné >Região do Gabu > Boé > Madina do Boé > 16 de novembro de 1973 > O jornalista alemão, da Reuters, Joachim Raffelberg, e o gen Bettencourt Rodrigues, governador-geral e com-chefe que substituiu o carismático gen António Spínola. (Tomou posse do cargo, em Lisboa, em 25/8/1973., mas só chegou ao CTIG em 21/9/1973, três dias antes da proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau; em 16 de novembro de 1973, fez uam visita-relâmpago à antiga Madina do Boé, no âmbito da Op Leopardo, 15-17 nov 1973 )

Fonte: Página do Facebook de J. Raffelber,Raffelnews, Álbum Madina do Boe, 29 de janeiro de 2018 (cm a devida vénia)
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Notas do editor:

Guiné 61/74 - P21966: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (24): arroz de lampreia à moda do Minho... e da "chef" Alice


Foto nº 1 > O arroz de lampreia à moda do Minho


Foto nº 2 > A malga de vinho tinto verde que acompanha a lampreia


Foto nº 3 > A lampreia, pronta a servir


Foto nº 1 > A lampreia, pronto a cozinhar, em vinho tinto verde e alhos

S/l (para não violar a lei do confinamento...) > 19 e 20 de fevereiro de 2021 > A lampreia, comida em terra de mouros, à moda do Minho, cozinhada pela "Chef" Alice...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Cá está um prato da nossa gastronomia portuguesa que não é consensual...É como os "túbaros com ovos mexidos"... Ou a "moreira frita"... Ou a "batatada de peixe seco"... O "o pito da Maria em arroz de cabidela"... Ou  o "butelo com casulas",,, O "ensopado de enguas"... Ou as "tripas à moda do Porto"... Uns adoram, outros vomitam, mesmo sem nunca ter provado.

Refiro-me à lampreia... Estamos na época dela!  (E. já agora, do sável, que é outra delícia!),  Na nossa Tabanca Grande não vale a perder o latim, que os nossos camaradas do Norte são doidos por lampreia... E outros, os do Centro e do Sul, também não lhes ficam atrás. Já fui em tempos também a Belver comê-la...(**)

A pesca da lampreia vai de jneiro a meados de abril. A partir daí, a lampreia (que não é propriamente um peixe, é um "vertebrado aquático ciclóstomo, de forma cilíndrica e alongada, com sete orifícios branquiais", havendo espécies marítimas e fluviais, segundo o Dicionário Priberam), entra na fase da desova e perda toda a graça do ponto de vista gastronómico... Enfim, lá cumpre a sua função, que é dar vida à vida  (se não cair nas redes dos pescadores) e morre,

Antigamente as populações ribeirinhas dos nossos rios (Minho, Douro, Mondego, Tejo, etc.)  sabiam-na pescar e cozinhar... E ainda hoje, não se perdeu o hábito, embora parte dela já seja  importada da França e do Canadá... Mas,  dizem, que não há  lampreia como a do rio Minho  nem  "arroz de lampreia" como "à moda do Minho"...

Bairrismos à parte, há quem faça (fazia...) excursões para comer uma boa lampreia no Alto Minho. Agora com o confinamento, estamos tramados, os apreciadores deste pitéu (que também não há no restaurante do São Pedro)... 

Mas, felizmente, que há "take away"... É só ir  à Net, e encomendar uma lampreia de quilo e tal (para quatro pessoas)... Levam-na a casa, limpinha, arranjadinha, pronta a cozinhar, já devidamente preparada, em vinto tinto verde (!), alhos, etc. Anda por 30/35 euros o quilo... 

Convenhamos: é um produto "gourmet"... Mas nos restaurantes, paga-se (pagava-se, o ano passado), a 30/40 euros por cabeça,  isso só por um prato de arroz com três bocados de lampreia...

Sem entrar em mais detalhes, aqui está um arrozinho de lampreia para quatro (, um lampreia de 1,7 kg., do rio Mimho) feita pela "chef" Alice, que é uma rapariga de Entre Douro e Minho. Que gosta muito de lampreia e ainda mais de sável, do tempo em que não havia barragens hidroelétricas e os "bichinhos" chegavam, nas calmas, a Porto Antigo, ali ao pe´da Tabanca de Candoz... E ricos e pobres podiam comer sável e lampreia à fartazana... Para a Alice são sabores da infância... Para mim, só me chegaram ao palato quando comecei a descobrir o Norte, há 40 e tal anos,,,

Bom apetite, camaradas e amigos! 

PS - Em boa verdade, gosto de tudo, ou quase tudo... Detesto "sushi" e "peixe da bolanha" (, cá está, acho que na Guiné nunca cheguei a provar)... Quanto ao "sushi", dei-me mal com a "primeira vez"... Tenho que tentar uma segunda vez...

12 de abril de  2011 > Guiné 63/74 - P8090: Convívios (309): Lampreiada, visita ao aproveitamento hidroeléctrico de Crestuma-Lever e não só, 30 de Abril (António Carvalho)

Guiné 61/74 - P21965: Historiografia da presença portuguesa em África (254): "Kaabunké, Espaço, território e poder na Guiné-Bissau, Gâmbia e Casamance pré-coloniais", por Carlos Lopes; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Junho de 2020:

Queridos amigos,
Tendo entrado o Kaabunké em declínio, fruto de uma desagregação interna e sujeito a uma pressão permanente dos Fulas, o reino, que assentara secularmente numa relação relativamente harmoniosa entre animistas e muçulmanos, não aguentou o embate do fim do comércio negreiro, ainda resistiu a sucessivas incursões militares da Confederação do Futa-Jalo até tudo se perder com a queda de Kansala. A tese sobre a herança Kaabunké, uma alegada dinâmica cultural homogénea e consistente em vários Estados lembra um pouco o que um conceituado historiador senegalês, Boubacar Barry, propôs para a Grande Senegâmbia. São teses arrojadas, seguramente que os políticos do presente são muito menos atraídos pelo federalismo que a geração de Kwame Nkrumah e Amílcar Cabral, são inúmeras as disputas internas e os receios de golpes, pensa-se no Casamansa ou nos sonhos desaforados de Sékou Touré acerca de uma Grande Guiné, onde os Mandingas teriam um papel preponderante.
Não basta querer estudar o passado e procurar analogias com alegadas boas relações interétnicas, as fronteiras vieram para ficar, as populações movem-se facilmente entre os países e todos sabem que as guerras de secessão são habitualmente sangrentas, lembre-se o Biafra.

Um abraço do
Mário


A Guiné antes e durante a presença portuguesa:
Kaabunké, um trabalho admirável de Carlos Lopes, historiografia incontornável (3)


Mário Beja Santos

"Kaabunké, Espaço, território e poder na Guiné-Bissau, Gâmbia e Casamance pré-coloniais"
, por Carlos Lopes, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999, vale a pena insistir, continua a ser o estudo mais completo sobre o que terá sido o Cabo Malinké, o Reino do Cabo, com incidência na historiografia da antiga colónia portuguesa, e como exercício da interdisciplinaridade que deve existir nos estudos africanos, é de leitura obrigatória. Nos dois textos anteriores, vimos como Carlos Lopes aborda a expansão Kaabunké, a natureza dos seus espaços, a sua administração e como é que veio a ocorrer o seu declínio, em sintonia com a efetiva presença colonial e o fim do tráfico de escravos, o pilar económico mais poderoso deste reino.

É quanto à herança Kaabunké que Carlos Lopes enuncia teses altamente polémicas. Se é verdade que o colonialismo português funcionou como placa giratória, ainda que com recursos muito modestos, para a costa da Guiné, do Senegal à Serra Leoa, tendo preponderado em Ziguinchor, Cacheu, Bolama, Bissau, Farim e Geba, contribuindo para instituir a língua veicular, o crioulo, usada nas suas praças e feitorias, não conseguiu perturbar as linhagens étnicas nem abalar o vigor cultural autóctone. Faz a interpretação da história do Kaabú, atribui-lhe um enorme impacto em toda a região, não foi um Estado forte nem deixou realizações infraestruturais, enfim, não teve a grandeza da civilização do Mali. O poder Kaabunké, diz Carlos Lopes, foi uma instituição secular, exprimiu-se por formas de poder a que hoje chamaríamos tradicionais. O Kaabú, insiste o autor, deixou uma pesada herança nos Estados da Guiné-Bissau, Gâmbia e Senegal, são estes os herdeiros da estrutura política instituída no fim do século XIX pelos portugueses, pelos franceses e ingleses, é esta civilização a parte integrante dos povos da região. E passa em revista o sistema político, que não era um poder absoluto, praticava-se a rotatividade do poder, e a chegada do controlo territorial colonial inspirou formas radicais de poder, a partir da assunção dos Fulas que foram obrigados, no quadro português, a compactuar com a administração portuguesa que os premiou com chefaturas genuínas, os Fulas tiveram sempre régulos Fulas. Mas uma outra evidência se impôs, o território desta região não se deixou dominar pela natureza dos Estados que se constituíram. E começam as perguntas:
“A Guiné-Bissau é um pedaço do Kaabú. Porquê refugiar-se nesta parte quando o espaço histórico Kaabunké continua presente na Gâmbia, na Casamance e numa parte do Futa-Jalo? Porquê considerar a Guiné-Bissau como o limite da expressão das ideias existentes sobre a construção nacional? Não será o Kaabú o berço e unificador de todas as culturas da região? Porquê fragmentá-lo?. Seguramente que os políticos da Gâmbia, do Senegal, da Guiné-Conacri e da Guiné-Bissau permanecem indiferentes à organização política Kaabunké, indiferentes a esta civilização Kaabunké que tem os seus traços comuns em toda a Senegâmbia meridional”.

Carlos Lopes reconhece haver perigos na mitigação do Kaabú mas pondera que o Kaabú na perspetiva do seu impacto contemporâneo se revela interessante para a reflexão para a interdisciplinaridade para os estudos africanos. E termina assim o seu trabalho:
“Todos os pontos comuns destes países ditos subdesenvolvidos, ou simplesmente africanos, escondem a enormidade das suas diferenças. Seria absurdo querer negar esse facto. O conjunto das interações estudadas demonstra que os problemas da construção nacional e do desenvolvimento têm raízes históricas precisas. A não utilização dos ensinamentos históricos produz uma visão simplista da sociedade. A noção de estruturação espacial aplicada ao estudo dos Kaabunké e, por extensão, à Guiné-Bissau, Gâmbia e Casamance, demonstra que o seu primeiro significado é histórico e não geográfico. Não existe nação num espaço não-apropriado. Não existe desenvolvimento sem articulação nacional”.

Finda esta leitura, havia que procurar outros fios de reflexão. Recordar que Sékou Touré sonhava com a Grande Guiné, uma expressão mitológica que não andaria muito longe dos Malinké. Recordar que Amílcar Cabral desde a primeira hora enfatizou que a Guiné-Bissau manteria sem qualquer reserva as mesmas fronteiras que as do Estado colonial. E que durante o período da chamada guerra da libertação assegurou a Leopoldo Senghor que jamais apoiaria a sublevação do Casamansa, e que não tinha pretensões territoriais nesta região. As questões postas por Carlos Lopes vão ao encontro dos trabalhos do historiador senegalês Boubacar Barry, o leitor tem acesso na revista de estudos guineenses Soronda, n.º 9, janeiro de 1990, já digitalizada (http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_7288) às suas tomadas de posição sobre o que ele pensa ser a Senegâmbia ao longo dos séculos, no espaço de encontros e dispersões, de tráfico negreiro, de revoluções muçulmanas, de densos conflitos de soberania, e de inequívocas resistências aos apetites dos poderes coloniais. A França desde cedo teve interesses económicos ligados à expansão do amendoim, as suas campanhas militares foram particularmente violentas tanto no Sudão como na Senegâmbia setentrional.

A conquista colonial, sintetiza ele, para além da derrota dos soberanos legitimistas, consagrou a desagregação política da Senegâmbia. “Esta partilha, seguida da perda total de toda a autonomia, constitui hoje em dia a herança mais difícil de assumir pelos Estados independentes do Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Mauritânia, Mali e Guiné Conacri, que pertencem total ou parcialmente à Grande Senegâmbia”. Haverá pois que extrair lições desta Senegâmbia para as outras sub-regiões da África Ocidental, isto irá permitir estudar as diferentes formas de economia interna e a evolução das instituições políticas e sociais. O historiador senegalês supõe que toda esta região da África Ocidental não pôde levar a cabo a sua revolução interna pois foi confrontada pela conquista colonial. E faz uma advertência quanto à atualidade: “O estudo do presente é abandonado aos sociólogos, aos antropólogos, aos politólogos e aos economistas. É importante que os historiadores tomem a seu cargo o estudo do presente para refletir em relação com os investigadores das outras Ciências Sociais sobre os problemas contemporâneos da História imediata, trazendo a luz do passado longínquo ou próximo à definição do futuro das nossas sociedades em mutação”.

Os Estados são o que são, rever fronteiras, posicionamentos étnicos, o estabelecimento de redes interétnicas seria tão explosivo e tão devastador que iria debilitar acentuadamente estes Estados frágeis da África Ocidental. Na alvorada do sentimento nacionalista africano, um conjunto de líderes, cientes da porosidade das fronteiras impostas pela Conferência de Berlim, tiveram a preocupação de formar federações ou tratados de âmbito regional, como é sabido todas estas formas federalistas foram um enorme insucesso, só subsiste a Tanzânia, formada pelo antigo Tanganica e pela ilha de Zanzibar. Reconheça-se que estudar o passado levanta questões delicadíssimas mas não se esqueça, como o próprio Carlos Lopes escreve no proémio que tomou conhecimento do Kaabunké em 1972, ele e outros tiveram então uma grande descoberta sobre estes Mandingas do Oeste, os herdeiros do Império do Mali. Dito de outro modo, não nos podemos exceder pela euforia das descobertas para pôr os políticos atuais à busca de soluções que o xadrez internacional, o estado de subdesenvolvimento da região, a afloração de apetites ditatoriais, etc., nada recomendam.
Para que conste.
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Nota do editor

Último poste da série de 24 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21941: Historiografia da presença portuguesa em África (253): "Kaabunké, Espaço, território e poder na Guiné-Bissau, Gâmbia e Casamance pré-coloniais", por Carlos Lopes; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P21964: Mi querido blog, por qué no te callas?! (5): O que irá acontecer aos nossos blogues e demais sítios na Net quando, pela ordem natural das coisas, formos transferidos para o Batalhão Celestial? Considerações sobre o futuro (Rogério Freire, fundador e editor do sítio CART 1525 - Os Falcões)


Um dos sítios sobre a  mais antigos na Net, sobre as nossas "guerras",  a página da CART 1525, "Os Falcões", Bissorã, 1966/67. O seu fundador e editor principal, Rogério Freire, é também um dos membros da primeira hora da nossa Tabanca Grande (*)


1. Mensagem de nosso camarada Rogério Freire  [ex-Alf Mil da CART 1525, Bissorã, 1966/67; fundador e editor principal do sítio sobre a CART 1525, "Os Falcões"]

Data - 09/02/2021, 20:02
Assunto - Considerações sobre o futuro

Caros Camarigos da Tabanca Grande:

Vou regularmente lendo as notícias da Tabanca Grande através do Facebook e quando o assunto me desperta uma maior atenção visito o vosso/nosso blogue.

Aproveito, uma vez mais, para vos felicitar pelo continuado e importante trabalho desenvolvido pela Tabanca Grande, em prol da nossa história que, temo venha a ser naturalmente esquecida e arquivada no passado assim que formos sendo mobilizados e transferidos para o Batalhão Celestial.

E esta é a razão principal do meu contacto de hoje ... que futuro se pode prever para toda a informação sobre a campanha da Guiné (e outras) atualmente disponíveis na Internet? 

 O que vai acontecer assim que não houver quem atualize os sites e os blogues, quem pague os domínios e os alojamentos dos sites?

Com toda a vontade que possa existir naqueles que, como vós, têm mantido e se se dispõem a manter viva a história da nossa epopeia é, com um prognóstico extremamente otimista, de prever que, dentro de 20 a 25 anos nenhum destes site e blogues continuem disponíveis na Internet. 

E ... o que podemos fazer para proteger esta informação?

Segue a minha ideia e sugestão:

1) Conseguir através das Forças Armadas e/ou do Ministério da Defesa a disponibilidade de um espaço num nos seus servidores dedicado ao alojamento de todos sites e blogues congéneres atualmente existentes que demonstrem interesse e se candidatem ao referido alojamento;

2) Conseguir (se necessário) através da entidade nacional responsável pela aprovação e registo dos domínios a criação de uma classe de "domínios perpétuos" que só poderiam ficar alojados nos servidores do Estado.

Claro que a sugestão engloba todas as frentes de combate, todas as armas, e em todas as épocas.

Creio que a Tabanca Grande já tem força suficiente para poder pensar neste assunto bem como deverá ter (penso eu) contactos a vários níveis com poder, interesse e capacidade de envolvimento nesta operação. Assim haja interesse.

Aqui fica a reflexão.

Caros camaradas e amigos, recebam um forte e sincero abraço do

Rogério Freire
 

2. Comentário do editor LG: 

Meu caro Rogério:

Já te devia ter respondido, a agradecer o teu empenho e preocupação. Mas só agora publico o teu valiosíssimo contributo sobre um tema que nos preocupa, e já não é só de agora.  Espero que surjam outros contributos,  para este inadiável debate. Um dia o nosso blogue vai mesmo... "calar-se"! 

Os nossos sítios (e são muitos)  têm o mesmo problema... de sobrevivência, como tu bem enfatisas. Os coeditores do Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné são um pouco mais novos do que o fundador e editor, mas tudo já está na casa dos setenta... 

Pela minha parte, posso contar com o apoio do meu filho para pagar a avença anual ao Blogger, se um dia destes bater as botas... ou ficar incapacitado. Mas vamos ser um pouco mais otimistas...  Como eu gosto de dizer, e é válido para mim e para ti, para nós, que merecermos ficar por cá mais uns aninhos: até aos 100, é sempre em frente, só é preciso é ter cuidado com as minas e armadilhas na picada... E começam, infelizmente,  a ser muitas!...

Mas concordo inteiramente contigo e com a tua ideia: temos que encontrar um sugestão "institucional", duradora, que pode passar pelo Ministério da Defesa ou pela Universidade, de modo a garantir que as nossas memórias da guerra do ultramar / guerra colonial (mas também das outras guerras, do tempo dos nossos pais e avós: II e I Guerra Mundiais) possam continuar a ser lidas e divulgadas  pelos nossos filhos, netos e bisnetos... O mesmo é dizer, continuem a ser fonte de informação e conhecimento para as gerações vindouras, e não só de Portugal, como dos demais países e comunidades da lusofonia.

Obrigado também pela tua autorização em relação ao meu pedido para poder reeditar aqui alguns  materiais da tua/vossa página que tanto acarinhas. Há "periquitos" que não a conhecem... Era uma boa altura também para chamar a atenção para um grande "site",  pioneiro, como o teu/vosso...  

Um abraço fraterno, 
Luís Graça (**)
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Notas do editor: