segunda-feira, 31 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22241: CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): A “história” como eu a lembro e vivi (João Crisóstomo, ex-alf mil, Nova Iorque) - Parte IXa: Porto Gole: 3 de março de 1966, ataque IN


Foto nº 1 > Guiné > Bissau > Praça do Império > Monumento "Ao Esforço da Raça! > Novembro de 1965 > Dpsi alferes que estuveram em Porto Gole : o Alf António Maldonado, falecido no ataque de 3 de Março de 1966, descrito a seguir; e o Alferes Jorge Rosales, que esteve 18 meses neste destacamento de Porto Gole, antes da chegada da CCaç 1439 a Enxalé. Comforme escreveu onosso saudoso  Jorge Rosales (1939-2019):  "O alf mil Maldonado, meu camarada desde Mafra e meu substitulo em Porto Gole, (...) faleceu em março de 1966, em consequência do rebentamento de uma morteirada IN que o atingiu em cheio, no aquartelamento de Porto Gole". De seu nome completo, António Aníbal Maia de Carvalho Maldonado, era natural da Sé Nova, Coimbra, foi inumado no cemitério da Conchada.

Foto (e legenda): © Jorge Rosales (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: João Crisóstomo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965/67)  > Junto do monumento de Porto Gole,  (i) de pé, 
da esquerda para a direita, Alf Sousa; Alf Crisóstomo e furriel Bonifácio;  (ii) sentados da direta para a esquerda. Furriel Neiva e Alf Matos  e na esquerda  um condutor da CCaç 1439, de quem me não lembro o nome.


Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965/67)  > Sem desprimor para os aqueles que não posso identificar , pode-se ver no canto direito fazendo exercício de preparação o Furriel Eduardo, profissional de futebol em Portugal ; e em primeiro plano,  embora me lembro de todos eles , não consigo alguns nomes: de pé da esquerda para a direita : eu, Furriel Bonifácio, e no meio o Manuel Açoreano. Esta é a única foto que tenho dele, bem identificável. era o único soldado não madeirense e foi vítima duma mina no dia 6 de Outubro de 1966.



Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965/67)  > Um dos “abrigos' de Porto Gole ; o João, do Bombarral  (padeiro  em Porto Gole)  e eu numa altura em que tinha tempo para tudo, até para deixar crescer a barba…


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965/67) >  A cozinha e a padaria ( o edifício branco ) de Porto Gole . Na caso de dúvida, o indivíduo de pé , de mãos nos quadris sou eu.

Fotos (e legtendas): © João Crisóstomo (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação da publicação das memórias do João Crisóstomo, ex-alf mil, CCAÇ 1439 (1965/67)




CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, 
Porto Gole e Missirá, 1965/67) : a “história” 
como eu a lembro e vivi 
(João Crisóstomo, 
ex-alf mil, Nova Iorque)

Parte IXa:  Março de 1966: A CCaç 1439 em Enxalé (e seus destacamentos de Porto Gole e  Missirá)

Dia 3 de Março de 1966:  Ataque  do IN a Porto Gole 

 

Porto Gole e Missirá eram os dois “destacamentos” de Enxalé. Em princípio os quatro pelotões e seus alferes eram supostos revezarem-se -se em estadias de um mês nestes destacamentos.

Para o destacamento de Porto Gole porém  havia quase sempre um alferes de outras origens que não era o Enxalé, como se pode ver pela presença  do Alferes Jorge Rosales,  antes de nós  e durante o nosso tempo a presença do Maldonado, António  Carvalho e Henrique Matos. Quando por qualquer razão isso  não sucedia,  então a CCaç 1439 no Enxalé  preenchia a lacuna até esta ser de novo  atendida. Esta foi   a razão  porque estive em Porto Gole várias vezes durante a minha comissão na Guiné.   

Quanto às estadias, que supostamente eram de um mês, nunca sucedeu assim e  demoravam mais ou menos tempo conforme  a situação e  circunstâncias o permitiam ou exigiam. Houve mesmo ocasiões,  embora de pouca duração   em que tanto Missirá como Porto Gole estiveram algum tempo sem tropas regulares, ficando a segurança das mesmas entregues aos Régulos, os  respeitados Abna na Onça em Porto Gole e Malan Soncó em Missirá,  com  suas milícias de nativos.

Não sei sequer em que data estive em Porto Gole pela primeira vez. Da minha primeira estadia lembro da minha surpresa por ir encontrar em  Porto Gole várias casas tipo europeu, onde cabo-verdianos e mesmo portugueses que no passado faziam a sua vida aqui e  que agora apareciam ocasionalmente. Havia  um Posto Administrativo  que servia também de  residência para o encarregado deste,  um Cabo-verdiano e sua família; uma "Casa Gouveia"    para o comércio do arroz  que era  abundante  na região..  

 O Régulo de Porto Gole, Abna  na Onça era um indivíduo enorme em estatura e  importância:  a sua autoridade era respeitada  e temida  no grande número de  tabancas  da  vasta região predominantemente  da etnia balanta, embora a sua influência se estendesse mesmo em áreas de outras etnias e com outros régulos. Abna  na Onça  nunca perdoou que logo no início das hostilidades  as forças do PAIGC  lhe tivessem roubado duas  das suas dez mulheres e   elevado número de  cabeças de gado.  

E se a sua posição foi sempre a favor dos portugueses,  a partir desse momento declarou guerra sem quartel aos que queriam uma nova ordem e independência. Tinha uma milícia bem organizada, a nível  de pelotão  permanente em Porto Gole, alguns deles, se eram todos nunca o cheguei a saber, armados  com  espingardas Mauser fornecidas por Bissau. 

Do General Schul recebeu uma G3 e um relógio de pulso de ouro  que ostentava com orgulho, assim como  o título de "Capitão de Segunda.”  Exercia autoridade  completa  na grande    extensão  do seu domínio num total estimado de cinco mil balantas, passando julgamentos e veredictos que eram  respeitados e aceites sem qualquer discussão. Mais do que uma vez ouvi dizer da vinda de indivíduos que se apresentavam para receber os castigos impostos, por vezes   dolorosas reguadas nas palmilhas dos pés aplicadas com uma régua  especial que tinha para o efeito.

Não faltava espaço e lembro que havia mesmo um improvisado campo de futebol que nos ajudava a esquecer problemas e passar  o nosso tempo

 Não me recordo quanto tempo fiquei, mas ao fim da minha primeira estadia tinha já um bom relacionamento pessoal com ele. Vim a saber mais tarde que o mesmo sucedia já antes de eu chegar, a ajudar pelo testemunho deixado  neste blogue. No poste  P19517 lê-se:

"(i) o Jorge era muito amigo do mítico capitão de 2ª linha, o Abna Na Onça, chefe espiritual, poderoso, da comunidade balanta da região, a quem o PAIGC havia cometido o erro fatal de “matar duas mulheres e roubar centenas de cabeças de gado”;

(ii)  o prestígio, a  influência e e o carisma do Abna Na Onça eram tão grandes que ele sabia tudo o que se passava numa vasta região que ia de Mansoa a Bambadinca (nomeadamente, importantes informações militares, como a passagem de homens e armas do PAIGC);

(iii) jovem (teria 72/73 anos se fosse vivo, em 2009), era um homem imponente, nos seus 120 kg.

(iv) Schulz tinha-lhe oferecido um relógio de ouro e uma G3 como reconhecimento pelos seus brilhantes serviços;

(v) mais tarde, seria morto, em Bissá, em 15/4/67, com seis dos seus polícias admin, todos eles residentes em Porto Gole"

 


Foto nº 6 > Guiné > Região do Oio > Porto Goloe > CCAÇ 1439 (1965/67)  > N
ão me lembro dos nomes: dois sargentos ( do quadro)  a meu lado;  do lado esquerdo furriel Tony e o filho do encarregado do posto.No lado direito de costas Abna na Onça, um cabo-verdiano, encarregado do posto e sua esposa 


Foto nº 7 > Guiné > Região do Oio > Porto Goloe > CCAÇ 1439 (1965/67) > Eu e o Abna na Onça em Porto Gole


Foto nº 8 > Guiné > Região do Oio > Porto Goloe > CCAÇ 1439 (1965/67) > O 
 Abna na Onça com o capelão militar do BII 1888  no dia em que a Cilinha  do MNF visitou Porto Gole .

Fotos (e legendas): © João Crisóstomo (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foi um choque grande para mim quando soube da morte de Abna na Onça.  Como  havia sucedido com o Alferes Rosales que me precedeu em Porto Gole,  também eu tinha já um bom relacionamento, direi amizade  com ele.  

Pelo que compreendi  a estadia  de Rosales em Porto Gole  era a título  permanente; depois de  Rosales acabar o seu tempo,  Enxalé continuou  encarregado de Porto Gole, mas como expliquei atrás,  em princípio  nós revezavamo.nos cada mês um pelotão à vez e houve durante o nosso tempo três alferes que não eram da CCaç 1439 que vieram para Porto Gole.  Na realidade os alferes da CCaç 1439  em Porto Gole eram mais um  "tapa buracos” ; mas como estes foram frequentes e longos , estivemos  lá bastantes vezes.

Antes de copiar o que consta sobre o primeiro ataque a Porto Gole, em 3 de março de 1966, quero deixar  algumas recordações   que tenho de Abna na Onça e outras memórias de Porto Gole que acho pertinentes.

Depois do  fatídico ataque IN a Porto Gole , durante o qual faleceu o Alferes Maldonado, o Capitão Pires chamou-me; que devido às circunstancias não tinha outra alternativa  senão que eu voltasse para Porto Gole  com o meu pelotão, até que o Batalhão  encontrasse solução definitiva.

Voltei e soube então que o Alferes Maldonado tinha pensado em construir uma pista de aterragem  mesmo junto a Porto Gole. Não sei se chegou a falar disso a alguém ou não. O  facto  é que havia uma grande superfície plana que se propiciava perfeitamente para isso.  Eu nunca tinha pensado nisso antes , mas via que era possível e muito útil. O correio que recebíamos em Porto Gole era  simplesmente  deixado cair duma  avioneta e  depois recuperado nessa área; e a construção de uma pista de aterragem além de  muitas outras vantagens,  ajudaria a  quebrar o sentido de muito isolamento a que estávamos sujeitos.

Matutei sobre isso muito tempo: para fazer uma pista de aterragem eu ia precisar de  ajuda  pois haviam algumas árvores grande que era preciso arrancar  e isso ia exigir  maquinharia apropriada. E talvez eu devesse consultar  primeiro o Capitão Pires e mesmo o Batalhão. Mas pensei, se eu lhes falar depois de o terreno já estar limpo,  talvez eles aceitem a idéia  com  maior facilidade.    Sei que um  dia resolvi falar sobre isso  com Abna na Onça, não só porque precisava da ajuda dele no caso de querer concretizar a idéia , como para o fazer sentir que respeitava a sua autoridade; ao fim e ao cabo  ele era o Régulo  da região.

 Se ele já sabia da idéia não me disse, mas mostrou-se  entusiasmado. Perguntei-lhe o que pensava,  decidido a falar depois com o capitão Pires  para alguma ajuda.   Eu pensava que ele ia dizer que  pelo menos seria preciso dar de comer a quem quer que viesse trabalhar na capinagem da extensa superfície. Mas não era o caso. Que  Porto Gole era uma terra muito importante e com  um campo de aviação ia ser mais importante ainda. Que eu arranjasse maneira de dar água  para beber  aos  homens  e  que o resto era com ele.  Perguntei-lhe então e ele disse logo que sim à minha idéia de pôr  um jeep com um bidão   a acartar água da povoação para o local. E à minha sugestão de enviar uma secção de soldados para fazer segurança, ele respondeu categoricamente que não. Que  eu estivesse descansado que se o IN  viesse atacar ele ia saber antes disso acontecer.

No dia combinado, que foi três dias depois,  quando fui ao local já  aí estavam umas dezenas de  homens.  à espera e  continuaram  a aparecer mais e mais… Quando o capitão Abna na Onça apareceu havia uma multidão  que eu avaliei em cerca de duzentos a trezentos homens, todos  com catanas.    

No momento em que   ele falou fez-se  um silêncio total, mas mal ele acabou de falar foi um  sussurro geral, parece que todos falaram ao mesmo tempo. Eu não soube o que disse , mas o resultado foi formarem imediatamente uma linha numa extensão enorme e a descapinagem  e o corte de tudo o que era arbusto e  árvores de pequeno porte começou.  Eu só ouvia um  murmúrio aqui e ali  e a voz  forte de  Abna na Onça : Kuá , Kuá, Kuá… que ainda hoje não sei o que quer dizer, mas o que quer que fosse era um poderoso motivador.   Nos dois dias seguinte foi a mesma coisa e o campo ficou a secar. Passados algum tempo  o meu pelotão voltou a Enxalé sem termos  feito mais nada no terreno.  

Pelo que  soube ainda recentemente,  durante bastante tempo  não  sucedeu nada no respeitante ao campo de aterragem.   Mais tarde  houve “reorganização militar do terreno"  e   Porto Gole deixou de ser  dependente  de Enxalé,  passando a ser  a sede duma companhia e Enxalé passou a  depender de Xime.  Deve ter sido nesta altura que houve novos trabalhos de preparação do terreno, pois algum tempo depois houve uma “Dornier” que   fez uma aterragem de emergência nesta pista e depois conseguiu levantar   de novo e prosseguir voo.

 (Continua)

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de maio de  2021 > Guiné 61/74 - P22210: CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): A “história” como eu a lembro e vivi (João Crisóstomo, ex-alf mil, Nova Iorque) - Parte VIII: A partir de outubro de 1965, em Enxalé e seus destacamentos, Porto Gole e Missirá

Guiné 61/74 - P22240: Parabéns a você (1968): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22235: Parabéns a você (1967): Fernando Andrade Sousa, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 e CCAÇ 6 (Buba e Bedanda, 1971/73)

domingo, 30 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22239: Tabancas da Tabanca Grande (5): Convívio de 4 tabancas (Sra da Graça, Matosinhos, Candoz e Atira-te ao Mar) na terra das 3 pontes, Peso da Régua


 Foto nº 1 > Peso da Régua, a terra das três pomtes, a terra do Zé Manel


Foto nº 2 > Peso da Régua, a velha ponte, agora só pedonal, também conhecida por "ponte metálica": foi mandada construir em 1872, ao tempo de D. Luís I para atravessamento rodoviário do rio Douro, Foi desatida em1949 devido ao estado de degradação do tabuleiro em madeira..



Foto nº 3 > Peso da Régua,   a ponte do Estado Novo: ponte ferroviária, concluida em 1934




Foto nº 4 > Santa Marta de Penaguião > Quinta da Sra. Graça >  21 de maio de 2021 > O encontro de quatro tabancas da Tabanca Grande: Sra da Graça (régulo, Zé Manel da Régua), Candoz (régulo, Alice Carneiro), Atira-te ao Mar (Lourinhã) (régulo, Joaquim Pinto de Carvalho) e Matosinhos (régulo, Zé Teeixeira)... A Quinta já fica em Santa Marta de Penaguião mas o Zé Manuel Lopes será sempre o Zé Manel da Régua: da varanda sua quinta, põe um pé,  o esquerdo  no Douro e uma mão, a direita, no Marão...



Foto nº 5 > Tabanca da Sra. da Graça > Da esquerda para a direita, o António Carvalho, o Zé Manel Lopes, o Zé Cancela e o Joaquim Pinto Carvalho.



Foto nº 6 > Tabanca da Sra. da Graça > Os dois régulos, o Zé Manuel da Régua e o Joaquim Pinto Carvalho (Tabanca do Atira-te ao Mar, Lourinhã / Cadaval)... Já se conheciam das idas à Tabanca do Centro (Monte Real, Leiria)


Foto nº 7 > Tabanca Sra, da Graça > 21 de maio de 2021 > O Zé Teixeira, régulo da Tabanca de Matosinhos, e a Armanda, que fazia anos nesse dia,


Foto nº 8 > Tabanca da Sra. da Graça > 21 de maio de 2021 > Alice, Jaime Silva e Pinto Carvalho


Foto nº 9 > Tabanca da Sra da Graça >  21 de maio de 2021 >   A mesa comprida, e bem recheada, que a Luisa Lopes (à direita) nos preparou... De costas a Maria do Céu Pinteus, da Tabanca do Atira-te Ao Mar (Lourinhã / Cadaval)



Foto nº 10 > Tabanca da Sra da Graça > 21 de maio de 2021 > A Laura, a Luisa Lopes e a Margarida Peixoto (de costas).



Foto nº 11 > Tabanca da Sra. da Graça > 21 de maio de 2021 > Em primeiro plano, o Jaime Bonifácio Marques da Silva, da Tabanca do Atira-te ao Mar (Lourinhã)


Foto nº 12 > Tabanca da Sra. da Graça > 21 de maio de 2021 > Em primeiro plano, de perfll, a Maria do Céu Pinteus, da Tabanca do Atira-te ao Mar (Lourinhã)


Foto nº 13 > Tabanca da Sra. da Graça > 21 de maio de 2021 >As "pingas" da casa: O Pedro Milanos, branco e tinto, Douro, DOC, 2019, de que foi feita uma edição limitada de 200 garrafas. 

Empresária: Luisa Valente Lopes | Enólogo: Vasco Valente Lopes | Adegueiro (e poeta): José Manuel Lopes.

 Contactos: João de Lobrigos lat 41 10 54 49 N long 7 46 25 95 W, Santa Marta de Penaguião | telef +351 254 811 609 | E-mail: quintasenhoradagraca@live.com.pt


Foto nº 14 > Tabanca da Sra. da Graça > 21 de maio de 2021 > O Zé Manel Lopes, entre dois amigos e camaradas que conhecem os quatro cantos da casa: o Zé Manuel Cancela (Penafiel) e o António Carvalho, o Carvalho de Mampatá (Gondomar)


 Foto nº 15 > Peso da Régua > Miradouro de São Leonardo da Galafura > 21 de maio de 2021 > A Maria do Céu Pinteus e a Alice Carneiro fazendoo o "teste das vertigens", a 566 metros de altitude, com o rio Douro em baixo


 Foto nº 16 > Peso da Régua > Miradouro de São Leonardo da Galafura > 21 de maio de 2021 > O Joquim Pinto de Carvalho e a Maria do Céu Pinteus, que conhecem todo o mundo, faltava-lhes vir aqui...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  As coisas acontecem quando a gente menos  espera: a Alice Carneiro, régula da Tabanca de Candoz, aproveitou a passagem, cá pelas terras do Norte, de 4 grandes amigos da Tabanca do Atira-te ao Mar (Lourinhã / Cadaval), o Joaquim Pinto de Carvalho, a Maria do Céu Pinteus, o Jaime Silva e a Laura Fonseca para fazer um almocinho na Tabanca da Sra. da Graça, que fica a cerca de 50 km de Candoz. 

O pretexto, além de abraçar velhos amiigos do Norte, que a pandemia de Covid-19 tem afastado do seu/nosso convívio, era também de dar um miminho ao seu companheiro, o nosso editor Luís Graça, que em 2020 teve o seu "annus horribilis" com problemas de saúde que, felizmente, estão bem encaminhados (em 2021)...

O Zé Manel Cancela e a esposa trouxeram consigo,  de Penafiel, a Margarida Peixoto, velha amiga da Tabanca de Candoz. De Gondomar veio o António Carvalho e a esposa. E de Matosinhos, o Zé Teixeira e a Armanda que nesse dia, por coincidência fazia anos... (Cantou-se, naturalmente, os "parabéns a você"!).

Sob a batuta da Luisa Valente Lopes, fez-se um almocinho muito agradável, bem recheado e melhor regado,  no salão de festas da Tabanca da Sra. da Graça.  Tudo muito bem organizado, em segredo, e no respeito das normas de segurança e saúde...

O nosso editor ficou muito sensibilizado,  e grato a quem tomou a iniciativa (tão inesperada quanto simpática) e nela participou.   E ficou feliz por ver que, a pouco e pouco, as tabancas da Tabanca Grande, de Norte a Sul,  vão retomando a tradição dos convívios dos amigos e camaradas da Guiné, 

Ao fim da tarde e no regresso a casa (, Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, pela A24 e depois cortando para Castro Daire e Cinfães)  ainda deu para os casais Luís Graça/ Alice Carneiro e Joaquim Pinto Carvalho /Maria do Cèu Pinteus darem um salto ao miradouro de São Leonardo da Galafura... que estes últimos, embora muito viajados,  ainda não conheciam.

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22213: Tabancas da Tabanca Grande (4): A Tabanca de Matosinhos, fundada há 16 anos (!), retoma as "hostilidades", no restaurante O Espigueiro, em Matosinhos, às quartas-feiras (José Teixeira)

Guiné 61/74 - P22238: Manuscrito(s) (Luís Graça) (202): Parabéns, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar, Joaquim Pinto Carvalho, muita saúde e longa vida porque tu mereces tudo!


Peso da Régua > Miradouro de São Leonardo da Galafura > 21 de maio de 2021 > O Joaquim Pinto de Carvalho e a Maria do Céu Pinteus a 566 metros de altitude, com o rio Douro ao fundo  (menos 100 que a sua não menos bela e amada Serra de Montejunto)... Pela primeira vez aqui, hóspedes da Tabanca de Candoz e sentindo-se felizes, como o capitão São Leonardo, na voz do grande poeta Miguel Torga... Hoje, 30 de maio,  faz anos o Joaquim e,  parafraseando o poema, também  dele (e de todos nós) se pode dizer que (...) "vai sulcando / As ondas / Da eternidade, / Sem pressa de chegar ao seu destino. /Ancorado e feliz no cais humano, / É num antecipado desengano / Que ruma em direcção ao cais divino." 



Cinfães > Portas de Montemuor > 21 de maio de 2021 > A mais de 1200 metros de altitude, num dos sítos mais altos da Serra de Montemuro (vísível da Tabanca de Candoz)  num soberbo ponto de observação, no limite dos concelhos de Castro Daire e Cinfâes... O Joaquim Pinto Carvalho no seu melhor ... É aqui que nasce o rio Bestança...

Fotos (e legendas): © Luís Graça  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Saúde e longa vida, meu caro régulo,

Ao km 73 da tua picada da vida,

Porque tu mereces tudo!

 

Meu grande companheiro desta pandemia,

Lá na Tabanca do Atira-te ao Mar,

Deixa-me hoje os bons momentos recordar,

Num ano e tal em que o pior se temia.

 

Com as nossas companheiras nós partilhámos

O mais belo pôr do sol sobre o Mar do Cerro

E o que poderia ter sido um desterro

Na alegria do convívio nós transformámos.

 

Obrigado p’la tua voz e bandolim,

Sem esquecer os pequenos prazeres da mesa,

Obrigado, a vocês, Céu e Joaquim.

 

Hoje fazes anos, já septuagenário,

E eu (e os demais tabanqueiros, com certeza!)

Não poderia esquecer o teu aniversário!


Luís (e Alice)

Tabanca de Candoz, 30 de maio de 2021

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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de abril de  2021 > Guiné 61/74 - P22134: Manuscrito(s) (Luís Graça) (201): Soneto em louvor do galo do IPO - Lisboa

Guiné 61/74 - P22237: Blogpoesia (738): "Apoteose"; Desafinar"; "Este segredo é meu" e "Há gemidos nas ruelas", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

1. Publicação semanal de poesia da autoria do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728, CachilCatió e Bissau, 1964/66):


Apoteose

Uma sala iluminada que se apaga.
Uma orquestra em banda larga que se espraia.
Um maestro esbelto que aguarda sua hora.
Ao toque seco da batuta, uma doce e inebriante melodia que enche a sala.
A assembleia atenta e calada, aguarda seu lenitivo.
A vida, cá fora, é dura.
Convém esquecê-la, ainda que por momentos.
É a forma de amenizar suas agruras.
Só o amor de Deus no coração
A suplanta em magnitude...


Berlim, 29 de Maio de 2021
18h36m
Jlmg


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Desafinar

É preciso ter voz e ouvido para não desafinar.
Uma sem outra é uma desgraça para quem os ouvir cantar.
Conversas sem sentido são conversas desafinadas.
Não trazem nada de interessante.
Só as mentes sadias podem dar bons pensamentos.
Para isso é preciso cultivá-los.
Boas leituras e sérias meditações.
São muito perigosas as que o não são.
Principalmente para as crianças e jovens em formação.
Podem comprometer seu futuro...


Berlim, 24 de Maio de 2021
17h15m
Jlmg


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Este segredo é meu

Este segredo é meu.
Não dou nem o vendo.
Irá comigo até ao fim.
Ele me alumia.
Se se apagar ficarei só.
Pobre e triste.
Com ele vivo na penumbra dos sentimentos.
Não me esmaga o sonho.
Pelo contrário.
Faz-me viver em pleno.
Sem ele seria mais um fantasma.
E já há demais...


Berlim, 25 de Maio de 2021
12h54m
Jlmg


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Há gemidos nas ruelas

Vaguear à toa pelas ruelas dos bairros de Lisboa,
Altas horas das madrugadas,
Ouve gemidos aqui e ali.
São de dor ou de prazer.
Um remédio sempre à mão.
A vida é dura e cruel.
Por vezes, só por ali se obtém o refrigério.
A solidão é a pior dor.
Só passa com um simples aconchego.
As mais das vezes de quem tem o mesmo sofrimento.


Berlim, 26 de Maio de 2021
21h35m
Jlmg

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Nota do editor

Último poste da série de 23 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22220: Blogpoesia (737): "Semelhanças e diferenças"; Quem espera..."; "Revolução" e "Definições", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P22236: Memórias ao acaso (Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845) (6): Cecília Supico Pinto (30/05/1921-25/05/2011), uma portadora de afectos - No dia do centenário do nascimento da fundadora do Movimento Nacional Feminino

Sexta crónica do nosso camarada Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845, "Os Vampiros" (Olossato, Teixeira Pinto e Cacheu, 1968/70):


MEMÓRIAS AO ACASO

06 - PORTADORA DE AFECTOS


Conheci a elegante Senhora D. CECÍLIA SUPICO PINTO a 02 de Maio de 1969, aquando da sua visita, por duas ou três horas, ao aquartelamento de CÓ, que à época transbordava de militares oriundos das mais diversas Armas do Ramo do Exército, empenhados na construção da estrada "CÓ-PELUNDO".

Havia tropas de infantaria, cavalaria, armas pesadas, artilharia, engenharia e eventualmente outras, que a memória de há 52 anos poderá deixar escapar.

O Comando da minha Companhia estava a meu cargo, e é nessa circunstância que o CMDT do aquartelamento me indigita para assumir a acção protocolar de receber a ilustre Presidente do MNF, missão assaz facilitada pela sua natural simpatia, sublime educação, determinação, inteligência, coragem, conhecimento dos teatros de guerra, do carinho quase maternal com que "A CILINHA" se dirigia aos seus"meninos", falando-lhes, é certo, com alguma exultação patriótica, mas sobretudo do amor e da saudade de suas MÃES, que curiosamente eram da sua geração e que lá longe, na Metrópole, viviam em permanente ansiedade cientes da dureza da guerra por terras da Guiné.

Num dos momentos mais informais, e num cordial diálogo que mantivemos, enalteci-lhe, e agradeci-lhe, a criação do espectacular "AEROGRAMA" de que eu próprio era assíduo utilizador, e a importância sentimental que ele tinha para os militares e suas famílias, sem por sombras imaginar, à época, os números astronómicos diariamente assumidos no movimento postal só pelo uso do "BATE-ESTRADAS", como era conhecido na gíria militar.

E saudei na sua pessoa a intervenção bem notória do MNF na agilização das burocracias duma retaguarda inundada de emperrantes "pequenos poderes", que se quedavam numa abjeta inércia sem o mínimo respeito pelos combatentes, ou sua memória, e suas doídas e quase sempre carenciadas famílias.

Estamos no ano do I Centenário do Nascimento (30/05/1921) de CECÍLIA S. PINTO. Em sua memória, e com profundo respeito e admiração pela sua pessoa e sua obra, não esquecendo todas as outras Senhoras do MNF, muitas delas Mães de jovens mobilizados para as frentes de combate, venho aqui deixar meu testemunho de eterna gratidão pelo apoio dado aos combatentes na sua inegável qualidade de "portadora de afectos".

Foto 1 - Có - Cecília Supico Pinto no uso da palavra, na parada de Có, acompanhada do CMDT Major Ferreira da Silva e do Alf Mil Miguel Rocha.
Foto 2 - Có - A boa disposição de Cecília a contagiar todas as patentes.
Foto 3 - Có - Já na messe, combatendo o calor com uma bebida refrescante, depois do discurso e da distribuição das habituais "lembranças do MNF" aos rapazes reunidos na parada.
Foto 4 - Có - Cecilia Supico Pinto, perante o ar divertido do Major Ferreira da Silva, surpreende o Alf. Mil. Miguel Rocha com uma especial “lembrança”.
Foto 5 - Có - O Alf. Mil. Miguel Rocha indaga da possibilidade de obter mais uns maços de tabaco para os rapazes da sua Companhia.
Foto 6 - Có - Missão impossível! A caixa dos cigarros está quase vazia e o que resta tem destino marcado.
Foto 7 - Có - Uma cordial despedida de uma visita vivida com muita simpatia e permanente boa disposição
Foto 8 – Assinando como “Alferes” Cilinha, o cartão dirigido pela Presidente do MNF ao alf. mil. Miguel Rocha, a acompanhar a carta oficial de agradecimento pelo acolhimento que recebeu no aquartelamento em Có.
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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE MARÇO DE 2020 > Guiné 61/74 - P20767: Memórias ao acaso (Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845) (5): Volkswagen "Pão de forma"

Guiné 61/74 - P22235: Parabéns a você (1967): Fernando Andrade Sousa, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 e CCAÇ 6 (Buba e Bedanda, 1971/73)


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Nota do editor

Último poste da série de 28 de Maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22229: Parabéns a você (1966): António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e CCAÇ 17 (Bula e Binar, 1973/74)

sábado, 29 de maio de 2021

Guiné 63/74 – P22234: (Ex)citações (385): Recordando as minhas lavadeiras (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo CAR da CART 3493/BART 3873)

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Março de 1973 > As lavadeiras no lavadouro público
© Foto de Francisco Gamelas, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73)


1. Mensagem do nosso camarada António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493/BART 3873, MansamboFá Mandinga e Bissau, 1972/74) com data de 28 de Maio de 2021:

Amigo Carlos
Uma vez mais a conversa do costume, que te encontres de boa saúde. Que mais podemos nós desejar depois do tempo que já passou. Poder ambicionar mais podemos, mas nunca devemos esquecer que quando a saúde falta o resto pode ter pouco valor.

Recebe um abraço
António Eduardo Ferreira


Recordando as lavadeiras

Depois de muito ter ouvido falar acerca das lavadeiras que tínhamos na Guiné, nem sempre pelos mesmos motivos, hoje decidi falar das duas que tive durante o tempo que passei em Mansambo. A primeira foi a Califa, uma menina ainda muito nova. A esta distância no tempo já não me lembro como foi que ela apareceu como minha lavadeira, talvez já desempenhasse esse serviço para os condutores que nós fomos substituir, apesar da sua idade… era muito responsável. Passados alguns meses da nossa companhia estar naquele local, a Califa deixou Mansambo e foi casar com um homem bastante mais velho que ela. Foi mais um acontecimento que me causou algum espanto… o que era normal para quem não tinha nenhum conhecimento da vida e das tradições daquele povo, como era o meu caso… ver uma menina com tão pouca idade ir casar com um homem muito mais velho, que diziam… já ter mais algumas a quem ela se ia juntar!

Depois da partida da Califa… a minha lavadeira passou a ser outra de quem já não me recordo o nome, mas não esqueci que era alguém bela elegante e muito calma, sempre bem vestida mais parecia uma menina identificada com outro tempo!... Apesar de ainda nova já tinha um filho que trazia sempre consigo quando vinha buscar ou entregar a roupa. Pouco tempo antes da nossa saída de Mansambo para Cobumba, um dia estava eu sozinho no abrigo, como acontecia muitas vezes, quando ela lá apareceu levar-me a roupa com o seu menino ainda pequeno às costas, como era hábito das mães… andarem com os filhos, sentou-se na minha cama com o semblante carregado próprio de quem estava a sentir-se perturbada e disse-me, António estou grávida. Notava-se que tinha vontade de falar… não sei se seria com todas as pessoas… estivemos algum tempo a conversar em que foi ela quem mais falou, entre outras coisas, disse-me que o pai do seu filho e daquele que vinha a caminho… também era tropa e naquela altura estava em Bambadinca. Depois de termos estado algum tempo a falar, quando abalou as lágrimas bailavam-lhe nos olhos, o que me deixou por momentos algo perturbado. Das mulheres com quem tive oportunidade de falar e de ouvir durante o tempo que estive na Guiné, atendendo ao tempo que por lá andei não foram muitas… era aquela alguém diferente de todas as outras!...

Em Cobumba não tive lavadeira, nem ouvi falar que houvesse por lá alguém que tivesse. A roupa que eu lá trazia vestida também era pouca, apenas uns calções e nos pés uns chinelos de plástico sem peúgos. Só durante a noite quando estava de serviço, a fazer reforço, que fazia todas as noites, algumas vezes vestia o camuflado. A minha falta de jeito para lavar roupa, apesar de ser pouca a que tinha de lavar, ajudou a valorizar ainda mais o serviço das lavadeiras que tive em Mansambo. Espero que ainda por lá estejam… e que a vida lhe tenha corrido o melhor possível.

António Eduardo Ferreira
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Nota do editor

Último poste da série de 22 DE MAIO DE 2021 > Guiné 63/74 – P22219: (Ex)citações (384): As crianças de Mansambo e de Cobumba - Que jamais esquecerei (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo CAR da CART 3493/BART 3873)

Guiné 61/74 - P22233: Os nossos seres, saberes e lazeres (453): A estação de Metro dos Anjos, Maria Keil intemporal, a obra como ela a deixou (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Abril de 2021:

Queridos amigos,
Dentre a variedade de gostos com que cada um de nós é dotado, confesso publicamente o meu fascínio por azulejo, foi-me inculcado por uma tia que igualmente reparava e colecionava leques, habituou-me a olhar as artes decorativas não como uma subalternidade ou uma menoridade face às artes plásticas mas como um qualquer rasgo de génio já que a própria palavra decoração tem o valor amplo de que qualquer manifestação artística não prescinde. E por isso me passeio nas estações de Entrecampos, Colégio Militar ou Alameda, com a mesmíssima devoção com que contemplo o trabalho maravilhoso de Maria Keil, que chegou às artes do Metro depois de um longo percurso pela publicidade e outras artes gráficas, conhecedora da pintura e sua praticante (mas que cedo descobriu no seu lampejo modernista era um registo equivalente a tantos outros e por isso parou), habituando-se a ligar o azulejo à arquitetura.
Na homenagem que o Museu Nacional do Azulejo lhe prestou em 1989 começa por dar a interpretação do que é para ela o azulejo: "É essencialmente uma presença, um brilho. Liso ou trabalhado, de extrema simplicidade ou de extrema riqueza, é sempre perturbante. Para mim, o bom azulejo é uma grande arte difícil". Trabalhou no Metro a partir de 1958, contou com a Fábrica Viúva Lamego e com a ajuda de um grande artista, Jorge Barradas. Sabia que não podia socorrer-se da figuração, no seu lastro de experiência usara sobrearticulações e explorações geométricas, irá aplicá-las metodicamente, todas as estações serão diferentes umas das outras. Destruíram-se os seus azulejos em duas estações de Metro, Saldanha e São Sebastião. No final da entrevista, diz algo de muito belo: "Um viajante do século XVIII que passou por Lisboa, escreveu nas suas memórias de viagem que Lisboa era uma cidade onde havia casas de loiça. Gostei muito da imagem".

Um abraço do
Mário


A estação de Metro dos Anjos, Maria Keil intemporal, a obra como ela a deixou

Mário Beja Santos

Ainda no século passado (1996), o Metropolitano de Lisboa homenageou a artista que de 1959 a 1972 azulejou as estações do Metro então existentes. Foi então entendido que a estação Anjos devia ser integralmente preservada, ficaria ali a memória de uma época. Foi durante aquele período de 1959 a 1972 que se tomou a decisão de revestir as paredes das estações com azulejos decorativos. No leme do projeto arquitetónico estava Francisco Keil do Amaral e escolheu-se Maria Keil que já tinha vasto currículo no desenho publicitário, nas artes gráficas, na ilustração e que ao longo da década de 1950 se iria notabilizar na azulejaria como forma de arte urbana. Os seus estudiosos ainda hoje pasmam como ela obteve um tão constante equilíbrio entre a tradição e a modernidade. O grande segredo talvez resida no recurso a uma enorme variedade de tonalidades, ao jogo de círculos e formas polifacetadas com a incorporação de padrões plurais, gerando sinuosidades e a ilusão de planos avançados e recuados. Foi sempre diferente nas 19 estações que decorou. Ficou ligada ao primeiro ciclo de construção do Metropolitano de Lisboa e à valorização plástica de todo o espaço público do transporte urbano mais frequentado da capital. A estação Anjos foi a 15.ª a ser construída, inaugurada em 1966 quando o comprimento da linha foi ampliado para 8,5 quilómetros, a partir dos 7 quilómetros que tinha, quando atingiu a estação Rossio. A estação não escapou à regra até então seguida de pequenos átrios nas duas extremidades do cais, estações construídas a profundidades relativamente reduzidas. A estação Anjos tem cerca de 200 metros de comprimento total. Houve depois uma segunda fase de obras em que colaborou outro artista, Rogério Ribeiro, em 1976.
Autorretrato
Capa de Maria Keil para uma publicação do SNI
Os Pastores, Maria Keil, Museu Nacional do Azulejo
Painel da Avenida Infante Santo, Maria Keil

Em 1989, o Museu Nacional do Azulejo apresentou uma exposição sobre os azulejos de Maria Keil. Na introdução do catálogo refere-se que a artista se estreou nas artes gráficas em 1936, colaborou com outros artistas como Fred Kradolfer e Cândido Costa Pinto, assim foi descobrindo a economia dos elementos utilizados, a ausência de retórica, a procura da leitura direta. Não é difícil encontrar nestes seus primeiros projetos de artes gráficas uma das matrizes da sua arte azulejar, é o caso da sobrearticulação de planos e a exploração de efeitos de num espaço aparentemente monótono introduzir uma variante. Foi indiscutivelmente uma artista polifacetada, compôs cenários, aventurou-se na arte do mobiliário, foi pintora durante algum tempo. O seu autorretrato mereceu o Prémio Sousa Cardoso.
No catálogo da exposição em sua homenagem, escreve algo que abona para o currículo da futura decoradora do Metropolitano. Fala-se nas primeiras tentativas de renovação do azulejo português na década de 1930 a que estiveram ligados artistas como Bernardo Marques, Carlos Botelho, Fred Kradolfer, Paulo Ferreira e Tom e mais tarde Jorge Barradas. É neste meio que Maria Keil emerge na produção de azulejaria moderna. Começa pelo uso da figura e a sua articulação com o padrão, nasce o sentido da geometria, da organização reticular e a sobreposição é evidente no seu painel de azulejo Os Pastores, datado de 1955. Amadureceu, parece que subtraiu o azulejo aos processos da pintura e da estilização de formulários antigos, encontrou sentido para uma nova dimensão ótica e espacial, que permite passear o olhar entre a figura e o padrão. Está, pois, preparada para enfrentar a tarefa de dar pele às paredes do Metro.
Em 1956 encontra uma solução espantosa para revestir uma das paredes escadeadas de um bloco habitacional, projeto do arquiteto Alberto Pessoa, na Avenida Infante Santo, em Lisboa. É sem margem para dúvidas uma obra-maior do azulejo contemporâneo. Está tudo pronto para a multiplicação de revestimentos azulejares, encontrar soluções cenográficas simples nas dinâmicas, em função dos ritmos de utilização, ascendente e descendente, dos lances das escadas, do revestimento dos átrios, superando habilmente os tons quase monocromos, suscitando uma intensa animação de retalhos, incorporando cartelas. Daí os contrastes de várias dimensões de um mesmo padrão, ruturas com estilizações modernizantes de motivos antigos. E não me coíbo de uma citação: “Na estação Anjos, as barras de arremate dos prédios do início do século são deslocadas para uma notável ação de mobilidade entre os círculos da padronagem, como se arrastados no rodopio imparável de uma estrela cadente, até desaparecerem no humor de uma linha, visível quando o passageiro dá os primeiros passos na plataforma da estação”.
Numa conversa com uma programadora da exposição, explicou as técnicas que utilizou: “O ostracismo a que o azulejo tinha sido votado no século XIX tinha arrastado consigo algumas técnicas e usos tradicionais. Diante daquelas possibilidades de criar novos padrões para as estações do Metro, surgiu a possibilidade de também recuperar algumas técnicas. Os dirigentes da Fábrica Viúva Lamego puseram nisso os seus conhecimentos, o seu entusiasmo, ensinaram-me, ajudaram-me. Assim, na estação Intendente, foi usada a técnica da corda seca; na estação Anjos reviveram-se as barras que decoram os prédios do princípio do século; nos Restauradores fez-se uma ligação de motivos do século XVIII com um padrão moderno…”. E dirá mais adiante: “Eu só fiz parte de um movimento que começava. Estava-se num tempo de reconquista. Isto é, da tal reabilitação”.
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Nota do editor

Último poste da série de 22 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22218: Os nossos seres, saberes e lazeres (452): Lembranças para Gonçalo Ribeiro Telles (2) (Mário Beja Santos)