sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19264: Notas de leitura (1128): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (63) (Mário Beja Santos)

Selo Comemorativo do I Centenário do BNU


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2018:

Queridos amigos,

Estamos pois em 1961, na China formam-se os jovens quadros do PAIGC, em Conacri Amílcar Cabral teria a escola-piloto, acolhe aqueles que Rafael Barbosa envia para a luta armada, há grande tensão com outros partidos e grupos hostis ao PAIGC, gente que consegue apoio e granjeia simpatias junto de acólitos de Sekou Touré. 

No Senegal, as simpatias de Senghor não apontam para o PAIGC, os Manjacos do Movimento de Libertação da Guiné [MLG]têm carta livre para agir, e vão mesmo agir, ao longo do segundo semestre de 1961, a correspondência do gerente de Bissau isso certifica.

Em março de 1962, o PAIGC dentro da Guiné sofre um grande abalo, alguns dos melhores quadros são apanhados com a boca na botija. O gerente de Bissau prevê um período de apaziguamento, está redondamente enganado, a subversão do Sul vai pôr a vida das pessoas em bolandas, nunca mais o Sul será o mesmo.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (63)

Beja Santos

1961 marca o início das hostilidades na Guiné, o Movimento de Libertação da Guiné  (MLG), orientado por Manjacos, muitos deles a residir no Senegal, procuram antecipar-se ao PAIGC, o seu grande rival. Temos notícias dos acontecimentos por carta confidencial dirigida ao governo do BNU pelo gerente de Bissau em 21 de julho:

“Por informações fidedignas, colhidas em meio competentes, informamos V. Exas. de que na madrugada de ontem se verificou um assalto à povoação de S. Domingos, que dista 130 km de Bissau, visando especialmente o edifício onde está instalado um pelotão de tropas europeias e indígenas.

Pela escuridão da noite, não foi possível calcular o número de assaltantes. Supõe-se que tenham sido cerca de 50, pela diversidade de pontos por onde partiam os disparos. Os bandoleiros usavam caçadeiras de zagalotes e apenas por este facto ficaram feridos 3 soldados, um com gravidade.

O ataque foi prontamente repelido. Não se conseguiu fazer qualquer prisioneiro, nem apurar o número de feridos ou mortos, porque os bandoleiros levaram-nos para o território vizinho, certamente para não serem identificados eles ou a família. São, todavia, portugueses, pelas frases que foram ouvidas alguns, quando atingidos pelas balas dos nossos soldados.

Uma hora depois da refrega, tudo voltou à normalidade, mas foram imediatamente enviados reforços. Não se nota que o criminoso acto tenha tido qualquer reflexo na população indígena ou europeia, que se mostra confiante.

As autoridades redobraram de vigilância, especialmente junto à fronteira, mas estranha-se que o miserável ataque tenha partido de um território com quem mantemos relações de amizade, e não da fronteira da Guiné de Sekou Touré”.

O Movimento de Libertação da Guiné andou dias depois a praticar vandalismo em Susana e Varela, deu sinais de atividade nos meses seguintes, queimando pontões, incendiando armazéns. No acervo documental do Arquivo Histórico do BNU encontra-se um interessante relatório relativo ao saque e incêndio de Guidaje, tem a data de 18 de novembro de 1961 e foi elaborado pela gerência da Sociedade Comercial Ultramarina em Bissau.

Leia-se a introdução, abona alguns dados relevantes:

“Começadas em Julho as incursões no norte da Província, na sequência já conhecida de S. Domingos, Varela e Susana, e a relativa falta de apoio militar naquela zona, o nosso encarregado de Ingoré apresentou-se em Bissau dada a insegurança da área, que está guarnecida apenas com um pelotão indígena, do qual uma secção era destacada para servir Bigene, e do qual dois ou três soldados tinham desertado levando consigo as espingardas.

Após conversa com V. Ex.ª o Governador que garantiu ao signatário que o Ingoré acabara de ser fortemente reforçado e que na véspera não houvera qualquer incidente, enviámos um empregado para o Ingoré, acompanhado do Sr. Manuel de Figueiredo que levou instruções e plenos poderes para decidir em face da situação sobre a atitude a tomar. Analisada localmente a situação, o Sr. Figueiredo determinou a continuação da actividade com abaixamento de stock.

Em conversa havida anteriormente com Sua Ex.ª o Governador, este chamou a nossa atenção para absoluta necessidade de se manter a vida normal da Província a todo o custo, não se deviam diminuir os stocks, ao qual lhe respondemos que os montantes de stocks nada tinham como movimento comercial dada a existência sempre de quantidades de mercadoria em depósito durante a época das chuvas, que de qualquer modo não valia a pena arriscar.

Em 9 de Agosto, fomos apresentar cumprimentos, nas instalações do BNU, ao Sr. Dr. Castro Fernandes, nosso Exm.º Presidente da Mesa da Assembleia Geral, que aproveitou a oportunidade para reafirmar a necessidade expressa por sua Ex.ª o Governador, preconizando mesmo que o Governo da Província estabelecesse sanções severas contra qualquer das firmas grandes que reduzisse a sua actividade, fechando sucursais, por motivos da situação existente, dadas as perturbações que daí poderiam advir. Disse S. Ex.ª também que não devíamos reduzir os stocks. Por outro lado, afirmou da necessidade dos indivíduos se manterem na Província com as suas famílias, mulheres e crianças, mantendo-se o regime normal de vida anterior aos incidentes. Declarou-nos que estava disposto até a vir todos os meses estar na Província com a sua esposa e filha”.

O que se vai seguir no relatório é um caso exemplar de suspeição por rumor ou boato ou mesmo ajuste de contas, bem típico de uma atmosfera em que os protagonistas sentem que a paz vivida abriu fissuras, e que se temem traições ou graves infidelidades.

O gerente da Sociedade desloca-se a Farim onde fizera concentrar os empregados de Bigene e Guidage, procura dar apoio moral e dar conhecimento da orientação a seguir, determinando que certas mercadorias seriam transferidas para Bissau através de Farim. Estamos em 15 de agosto e o Governador chama de novo o gerente da Sociedade à noite. O Chefe de Gabinete do Governador mostrou ao gerente um telegrama acabado de receber do Administrador de Farim pedindo a transferência do encarregado da Sociedade em Guidage, “dada a colaboração que vinha fazendo com o inimigo, vendendo-lhe arroz, gasolina, etc., recebendo em casa as autoridades da localidade senegalesa de Tanafe, promovendo reuniões noturnas, etc.”. O gerente reage apontando os inconvenientes de tal transferência. E o gerente é convidado a ir averiguar os factos a Guidage, o gerente contesta. A 16 de agosto chega um telegrama de Farim transmitindo o pedido do Administrador para transferir o empregado de Guidage. Nova conversa com o Governador, é sugerido que o empregado venha a Bissau imediatamente para se ajuizar da sua boa ou má-fé, seria a PIDE a proceder a averiguações.

A 18 de agosto o empregado de Guidage chegou a Bissau.

“Demos-lhe conhecimento das suspeitas que a seu respeito tinham sido levantadas e procurámos inteirar-nos da situação. Nada de concreto pudemos apurar do empregado, a não ser o que já sabíamos, que comprara durante a campanha cerca de 400 toneladas de mancarra. O empregado mostrou-se alarmado, declarou que as afirmações feitas eram redonda mentira com excepção evidente da parte das vendas por quanto não recebera ordens de ninguém para deixar de vender aos clientes que se apresentavam ao balcão, ainda que soubesse que viviam além-fronteiras. Se estes ultrapassavam a fronteira, nada lhe podiam imputar uma vez que não é a ele que lhe compete a vigilância da fronteira. Quanto a fazer reuniões nocturnas em sua casa e ausentar-se de Guidage durante a noite, desafiava quem quer que fosse a prová-lo. Quanto a receber em sua casa indivíduos do lado de lá da fronteira, sendo a única casa da localidade com condições e até dada a ausência de outros comerciantes, como sempre, a quem lhe apareceu para comer qualquer coisa ou que vindo a Guidage e que consigo contactara, dera comida ou oferecera um uísque. Na realidade, entre essas pessoas contava-se até o enfermeiro de Tanafe que viera a Guidage ver um doente ou até mesmo fazer uma autópsia e que teve de dormir em sua casa”.

Este imbróglio terá novos desenvolvimentos, desconfiança de um, desconfiança de outro, até o irmão do empregado de Guidage acabará por ser ouvido, entretanto haverá saque e incêndio em Guidage, os assaltantes, diz o relatório, eram Manjacos, Mandingas e Balantas-mané, estavam armados com carabinas de calibre militar de 7,7 mm e espingardas de caça calibre 12.

Em 16 de março de 1962 a confidencial enviada de Bissau para Lisboa refere dados que são bem conhecidos e historicamente relevantes:

“Levamos ao conhecimento de V. Exas. que na madrugada de terça-feira, dia 13, agentes da PIDE em colaboração com os Serviços Secretos do Exército assaltaram uma casa num dos bairros indígenas da cidade, prendendo os principais responsáveis na Guiné, do chamado ‘Partido Africano Independente da Guiné e Cabo Verde’, célula comunista dirigida e orientada por Amílcar Cabral, refugiado em Conacri.

Eram cinco os dirigentes que se encontravam reunidos, conseguindo um deles iludir a vigilância dos guardas e evadir-se de forma audaciosa, rompendo por um cordão de caçadores especiais que estabeleciam o dispositivo de segurança em redor da casa.

Nos dias imediatos sucederam-se várias prisões, entre elas a do contínuo do nosso Banco, Inácio Soares de Carvalho, que foi ontem detido, dia 15, pelas 8,15 horas.

Vário material subversivo foi apanhado, que conduzirá à detenção de mais elementos, tanto residindo nesta cidade como espalhados pela Província. Envolvidos no assunto encontram-se alguns régulos, cuja detenção ainda não foi feita.

Do material apreendido constam:

- Um plano de ataque a organismos oficiais e casas comerciais, a fazer por elementos disfarçados djilas transportando balaios contendo armas;
- Plantas do Quartel de Santa Luzia, aeroporto, Associação Comercial, Pastelaria Império, cinema, BNU, Casa Gouveia, Sociedade Comercial Ultramarina, Barbosas e Ctª., Alfândega, etc.;
- Uma planta do local ainda não identificado onde se encontram escondidas algumas armas;
- Ficheiro contendo nomes e fotografias;
- Máquinas de escrever, arquivos, etc.;
- Vária correspondência de Amílcar Cabral, contendo instruções e normas de orientação.

O material apreendido permite supor que esta célula comunista levou, pelo menos, dois anos a organizar-se.

A sua descoberta e eliminação afasta, também, por muito tempo, o perigo de qualquer actividade terrorista, sendo difícil reorganizarem-se por estes tempos mais próximos.

Entre os detidos figuram alguns polícias indígenas da PSP, nenhum deles, porém, fazendo parte da Esquadra que fornece os efectivos de vigilância e defesa do edifício do Banco.

Juntamos o crachá utilizado pelos elementos do Partido, que nos foi cedido pela PIDE.

Deverão ser longas as diligências da PIDE para a conclusão do caso, mas logo que estejamos na posse de mais informes, transmiti-lo-emos a V. Exas.”

Enganava-se o gerente de Bissau quanto ao afastamento de perigo nos tempos mais próximos devido à prisão dos dirigentes do PAIGC no interior da Guiné. Em 26 de junho de 1962 vai dar notícia de que o Sul está em plena efervescência.

(Continua)



Imagem retirada do livro 'Portugal no Ultramar', 1954, Edições Sotramel - Sociedade de Comércio e Propaganda, Lda com o apoio na cedência de fotos da Agência Geral do Ultramar.


Imagem retirada do livro 'Portugal no Ultramar', 1954, Edições Sotramel - Sociedade de Comércio e Propaganda, Lda com o apoio na cedência de fotos da Agência Geral do Ultramar. 


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Notas do editor:

Poste anterior de 30 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19246: Notas de leitura (1126): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (62) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de > Guiné 61/74 - P19253: Notas de leitura (1127): “Lineages of State Fragility, Rural Civil Society in Guinea-Bissau”, por Joshua B. Forrest; Ohio University Press, 2003 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19263: Em bom português nos entendemos (20): "Partir mantenhas"... (Virgínio Briote)


Amadora > Academia Militar > Campus Amadora > 1963... O Virgínio Briote foi aqui aluno... Não seguiu a carreira das armas, mas fez a guerra da Guiné, em 1965/67; trabalhou depois como quadro superior numa multinacional farmacêutica... E é nosso editor, jubilado. Tem mais de 200 referências no nosso blogue e textos notáveis como os publicados na série Guiné, Ir e Voltar...

[Sobre esta foto: recorde-se que a Academia Militar toma esta designação em 1959, e tem o seu antecedente histórico na Escola do Exército, fundada em 12 de Janeiro de 1837 pelo Marquês de Sá da Bandeira. A sua sede é no Paço da Rainha ou Palácio da Bemposta, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, com um polo na Amadora, desde 1959. No Campus Amadora,  sito na Amadora
Na Amadora, na Avenida Conde Castro Guimarães, situa-se hoje a parte significativa do corpo de alunos, nomeadamente os alunos internos, os serviços académicos, e parte proporcional dos serviços de apoio e administração.

O município da Amadora, por sua vez,  foi criado em 11 de setembro de 1977, por secessão das freguesias da Amadora e da Venteira, do nordeste do concelho de Oeiras. Entre os seus símbolos, contam-se o Aqueduto das Águas Livres, bem como os campos de aviação que tiveram tanta importância na emergência da aviação em Portugal, sendo que ainda hoje o Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa se situa no concelho, na freguesia de Alfragide. Na foto acima, vêem-se os primeiros prédios da Reboleira, a célebre Reboleira do J. Pimenta, mais tarde freguesia, hoje extinta com a reforma administrativa de 2013, tendo  a parte Norte da freguesia sido anexada à freguesia da Venteira, e a parte Sul, para a recém-criada freguesia de Águas Livres].

Foto: © Virgínio Briote (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



I. Mais um exemplo de um vocábulo, desta feita do crioulo da Guiné-Bissau e de Cabo Verde,  "mantenhas",  que vem grafado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sendo citado o seu uso (na expressão "partir mantenhas") no nosso blogue (Luís Graça & Camaradas da Guiné) (*)

mantenhas

2ª pess. sing. pres. conj. de manter
fem. pl. de mantenha

man·ter |ê| - Conjugar
(latim vulgar manutenere, de manus, -us, mão + teneo, -ere, ter, segurar)

verbo transitivo e pronominal

1. Deixar ou ficar em determinada posição ou estado.

2. Conservar; defender; observar.

3. Guardar.

4. Dar ou obter o necessário para viver. = Alimentar, Sustentar

verbo pronominal

5. Alimentar-se.

6. Conservar-se, permanecer. [...]

 man·te·nha

(da locução portuguesa [que Deus te] mantenha)

substantivo feminino

[Cabo Verde Guiné-Bissau] Saudação, cumprimento, lembrança (ex.: mantenhas nesta casa).

"mantenhas", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/mantenhas [consultado em 06-12-2018].



II. Uso na expressão "partir mantenhas" no nosso blogue:


Partir mantenhas (**)
Virgíno Briote,
Seatlle,Washington,
 EUA, julho de 2014


Por Virgínio Briote

[ex-aluno da Academia Militar; ex-alf mil, CCAV 489, Cuntima e alf mil 'comando', cmdt Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67; nosso coeditor, jubilado]


Temos aqui um guia apanhado aos terroristas e outro daqui, um caçador nativo, bom conhecedor da região e homem da nossa confiança, o tenente-coronel de óculos chegados à ponta do nariz, cócegas no mapa com o pingalim.

Deixaram Aldeia Formosa pelas 15 horas daquela tarde, dois grupos de combate de uma companhia de caçadores atrás, mais um pelotão de milícias, uma Fox à frente, outra a fechar a coluna.


Estava prevista a chegada à base de ligação, Saala Delta, pelas 18h30, deixar aí o apoio, e começar a progressão rumo ao objectivo, que deveria ser alcançado ao alvorecer. Segundo a ordem de operações, os grupos de combate da companhia de apoio deveriam estacionar, emboscados na estrada, frente a Nhantafará. 

Paragens, algumas demoradas, devidas a problemas com uma das viaturas e alguns atascamentos atrasaram a caminhada. Saala Delta só foi atingida pelas duas da madrugada.  Pararam, chamaram o intérprete, falaram com um guia, depois com o outro. O guia IN dizia não conhecer a estrada, o caçador que estávamos mesmo, mesmo, em Saala Delta, um soldado das milícias que já passou, que talvez seja para trás. Melhor esperar pelo acordar do dia, progredir depois. 

Por volta das cinco, o grupo reiniciou a progressão, companhia para trás, emboscada. A certa altura, de um momento para o outro, o tal guia apanhado aos terroristas ajoelhou-se e não quis continuar. Bem se insistiu, tentou saber-se o que se passava, nada. Embora tivessem perdido tempo a tentar resolver o assunto, não ficaram com dúvidas que estavam no rumo certo, que o objectivo estava próximo. Prosseguiram com cautelas redobradas até que avistaram, recortadas na neblina, duas ou três barracas. 

Duas equipas destacaram-se com o guia, o tal caçador da inteira confiança do comandante do batalhão. Enquanto os dez homens procuravam dispor-se em linha, com os olhos no acampamento, deixaram de prestar atenção ao caçador. E, quando o soldado guineense que o acompanhava se lembrou dele,  ainda o viram, mas a desaparecer entre as casas de mato.

Na mesma altura, como se estivesse tudo combinado, aparece o PCV às voltas em cima deles, a solicitar indicação de posição. Uma rajada foi disparada sobre os intrusos. Ataque imediato à tabanca mesmo em frente, alguns guerrilheiros com armas nas mãos e população a correrem, cada um para seu lado, todos misturados, mulheres e crianças aos gritos.

Os atacantes a recolherem as crianças, as mães, os anciãos e o IN a esgueirar-se de qualquer maneira, a disparar sobre aquela gente toda, sem contemplações. Nada mais havia a fazer, só tirar dali as pessoas e procurar abrigo. A pouco mais de cem metros, foram disparados roquetes para a zona do abarracamento. E, pelo mesmo caminho, com os civis à frente, dirigiram-se ao reencontro da companhia de apoio. Uns quilómetros depois ainda se ouviram alguns rebentamentos, vindos da mata do acampamento que tinham deixado a arder.

Quatro mulheres, 6 crianças, 3 velhos, uma pistola Seska, cinco calças de caqui, duas camisas, um par de polainitos, três barretes, seis bornais, três almotolias de óleo, três centenas de cartuchos de calibres diversos, caixas de fósforos do Ghana, suspensórios, recipientes de material de limpeza, portas-cartucheiras Simonov, calças civis, prospectos "Faúlha", documentos em marabú, uma revista francesa sobre África, quatro exemplares de "O nosso primeiro livro de leitura", cadernos escolares de Augusto Sanco, exemplares de jornais "Libertação", foi tudo, meu tenente-coronel.

Uma aselhice que, afinal, acabou por trazer algum benefício ao batalhão. Sem que ninguém se apercebesse, as duas equipas a organizarem-se para o ataque, e o guia de toda a confiança do tenente-coronel a ir “partir mantenhas” (#) com os parentes que tinha no acampamento do PAIGC. 

Alguém do batalhão disse mais tarde que o comandante tinha recebido a informação que o guia morrera durante a fuga, nas proximidades do acampamento. 

A Fox à frente, luzes no máximo, os picadores a pé a abrirem caminho à coluna, o regresso interminável a Buba, os olhos a fecharem-se-lhes de cansaço e sono, uma sensação de frustração que nem visto. Depois, no cais, em Buba, continuaram a dormitar, à espera da lancha para Bolama.

Chegaram já quase à noite, àquela cidade do passado. Parada nos tempos, mesmo assim uma beleza.

(#) Cumprimentar
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19262: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LIV: O aquartelamento de Piche, ao tempo da CCAV 1662


Foto nº 5


Foto nº 4


Foto nº 3

Foto nº 2

Foto nº 1


Foto nº 11


Foto nº 10


Foto nº  9


Foto nº 7


Foto nº  9


Foto nº 6

Foto nº 6A

Guiné > Região de Gabu > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) (*)


CTIG - Guiné 1967/69 - Álbum de Temas:
T029 – O AQUARTELAMENTO DE PICHE


I - Anotações e Introdução ao tema:

Junto mais algumas fotos para o Blogue, para postar das quando houver espaço, para a malta que não sabe, conhecer um pouco de Piche – que agora alguns escrevem Pitch.

Dizem respeito a Piche – Sector de Nova Lamego – L3 – nos anos de 67/68.

Durante a minha estadia em Nova Lamego – 21set67 a 26fev68 – fiz muitas deslocações e saídas as diversos aquartelamentos, em missões de comando de colunas de reabastecimentos, e outras na minha função de controlo e fiscalização das contas das Companhias sob o nosso comando, eram no total 17 Unidades independentes. Não fui a todas, mas a algumas

Cortesia da página do Facebook
"Guerra Colonial Portuguesa 1961-1974"
Uma delas tem a ver com Piche, fui lá umas 3 a 4 vezes no total, no tempo da CCAV 1662.

[Sobre a  CCAV 1662:  (i) mobilizada pelo RC 7, partiu para o CTIG em 1/2/1967 e regressou em 19/11/1968;  (ii) esteve em Nova Lamego e Piche; (iii) cmdt: cap mil art António de Sousa Pereira; (iv)  em 6 de abril de 1967,  rendendo a CCAÇ 1586, assumiu a responsabilidade do subsector de Piche com um pelotão em Nova Lamego,  tendo de seguida sido deslocado para Madina do Boé, onde a 4 de novembro foi substituído, seguindo para Bissau para regressar.]

As viagens eram por estrada de terra batida, não eram boas nem más, e alguns troços eram mesmo de picadas.

Para Piche nunca fui a comandar nada, eram colunas já grandes, comandadas por oficiais ditos operacionais, não sei nem me lembro de nenhum, porque enfiava-me nos camiões e não queria saber do resto, ia tirando umas fotos. Nunca houve qualquer percalço, apenas me ficou na mente a morte do Alferes [Augusto Manuel Casimiro] Gamboa, num dia em que eu devia ter ido nessa coluna, que sofreu a emboscada fatal.

Assim, tirando essa fatalidade, tenho recordações de um jovem que não conhecia os perigos, nem estava para aí virado, não era essa a sua missão.

II – Legendas e fotos do tema


As fotos aqui inseridas, dizem respeito apenas a uma deslocação a Piche, a primeira, onde se encontrava na altura a CCAV 1662, cujos nomes do Comandante e outro pessoal não me lembro.

As seguintes estão inseridas noutros temas, misturados com outros assuntos. Todas as fotos aqui reproduzidas são do mês de Novembro – não sei o dia certo – do ano de 1967, tinha eu nessa altura quase 2 meses de Guiné.

F01 – Saída de uma coluna de Nova Lamego para Piche, dentro, da caixa, de um Unimogue.  Virgílio Teixeira ao centro, Alferes capelão [Carlos Augusto Leal] Moita, à esquerda, e Alferes Mesquita,  das TSM.

F02 – Sentado na caixa do Unimogue, com uma Bazuca, ao lado o Capelão Moita.

F03 – Junto a um templo fula, na zona da CCav 1662, em Piche, com o seu zelador, o homem vestido à civil, que me pareceu ter visto recentemente noutro poste, e noutra zona.  Ao lado o capitão da companhia, ao centro o médico Lema Santos [, irmão do Manuel Lema Santos,], e do outro lado, outro militar que tendo eu tantas fotos dele, nem sei o nome, nem, o que fazia no Batalhão.

F04 - Junto ao templo fula, o comandante da Companhia[, a CCAV 1662], o Alferes Mesquita e eu.

F05 – Uma foto do autor, junto ao templo fula [", mesquita"].

F06 – O almoço do dia, com o comandante da CCAV 1662, o capelão Moita, o Mesquita, o Teixeira e outros.

F07 – Uma foto do autor, dentro do aquartelamento da CCAV1 662, num dia normal.

F08 – Uma foto do autor, junto ao mastro e bandeira dentro do aquartelamento.

F09 – Uma foto do autor, dentro de um jeep, na estrada para Canquelifá, mas ficamos pelo caminho e voltamos para trás.

F10 – Uma coluna de Piche ao Curval, dentro de um Unimogue, numa mata cerrada.

F11 – Uma coluna de Piche ao Curval, num Unimogue, mata dentro.

«Propriedade, Autoria, Reserva e Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano do SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BCAÇ 1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

NOTA FINAL DO AUTOR:

# As legendas das fotos em cada um dos Temas dos meus álbuns, não são factos cientificamente históricos, por isso podem conter inexactidões, omissões e erros, até grosseiros. Podem ocorrer datas não coincidentes com cada foto, motivos descritos não exactos, locais indicados diferentes do real, acontecimentos e factos não totalmente certos, e outros lapsos não premeditados. Os relatos estão a ser feitos, 50 anos depois dos acontecimentos, com material esquecido no baú das memórias passadas, e o autor baseia-se essencialmente na sua ainda razoável capacidade de memória, em especial a memória visual, mas também com recurso a outras ajudas como a História da Unidade do seu Batalhão, e demais documentos escritos em seu poder. Estas fotos são legendadas de acordo com aquilo que sei, ou julgo que sei, daquilo que presenciei com os meus olhos, e as minhas opiniões, longe de serem ‘Juízos de Valor’ são o meu olhar sobre os acontecimentos, e a forma peculiar de me exprimir. Nada mais. #

Acabadas de legendar, hoje,

Em, 2018-12-05

Virgílio Teixeira
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 27 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19238: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LIII: As fontes e as lavadeiras de Nova Lamego

Guiné 61/74 - P19261: Pelotões Independentes em Gadamael: A Memória (Manuel Vaz, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 798) (1): 1 - O contexto operacional e 2 - Os Pelotões de Reconhecimento que estiveram em Gadamael

1. Começamos hoje a publicar um trabalho sobre os Pelotões Independentes que estacionaram em Gadamael, da autoria do nosso camarada Manuel Vaz (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 798, Gadamael Porto, 1965/67), há muito prometido e que finalmente está pronto. 
Confiou-nos o Manuel Vaz que foram imensas as horas de pesquisa e de contactos, com algumas alegrias e algumas frustrações. 

Em princípio vamos ter uma periodicidade bimensal e estender-se-á por seis, mais um, postes.

Desde já aqui deixamos o nosso agradecimento ao Manuel Vaz por mais este trabalho, que terá a qualidade de outros similares da sua autoria, já publicados nosso Blogue. 

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Nota do editor

Vd. último poste do trabalho anterior do ex-Alf Mil Manuel Vaz de:

11 de setembro de 2015 Guiné 63/74 - P15105: Como Tudo Aconteceu (Manuel Vaz, ex-Alf Mil da CCAÇ 798): Parte V - A Guiné a ferro e fogo

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19260: Historiografia da presença portuguesa em África (139): As tribos da Guiné Portuguesa na História, pelo Padre A. Dias Dinis (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Maio de 2018:

Queridos amigos,
Atendendo aos conhecimentos da época (o trabalho foi escrito em 1946, no âmbito das comemorações do V Centenário do Descobrimento da Guiné) temos que tirar o chapéu à laboriosa investigação deste padre franciscano, consultou o que na nossa historiografia e na francesa era demais relevante acerca de Felupes, Baiotes, Banhuns, Cassangas, Manjacos, Brames ou Mancanhas, Papéis ou Pepéis, Biafadas ou Beafadas ou Beafares, Mandingas, Fulas e as respetivas subdivisões, Balantas, Nalus, Bijagós, e um pouco mais.
Trata-se de um trabalho consciencioso de alguém que viveu seis anos na Guiné e se rendeu ao fascínio daquele inextrincável mosaico étnico, uma das pujanças e deslumbramentos da Guiné.

Um abraço do
Mário


As tribos da Guiné Portuguesa na História, pelo Padre A. Dias Dinis (1)

Beja Santos

Em quatro números da publicação “Portugal em África, Revista de Cultura Missionária”, com datas de 1946 e 1947, o padre franciscano Dias Dinis, que viveu alguns anos na colónia, deu à estampa um seu trabalho sobre as etnias da então Guiné Portuguesa. Diz à partida tratar-se de um despretensioso trabalho, um simples registo de notas, se bem, de acordo com a bibliografia apresentada, fique claro que consultou o que então era cientificamente mais válido e que constitua atualidade, caso de O Manuscrito “Valentim Fernandes”, edição da Academia Portuguesa de História, 1940, Guiné Portuguesa, de Luís António de Carvalho Viegas, 1936, Babel Negra, de Landerset Simões, está a par de diferentes publicações francesas, leu claramente André Alvares de Almada, Duarte Pacheco Pereira, Guiné. Apontamentos Inéditos, pelo General Dias de Carvalho, 1944, e muito mais.

Como é evidente, a antropologia, a etnologia e etnografia guineenses evoluíram muito, cuide o leitor de que há inexatidões e pontos desatualizados, mas o ponto central era o estado dos conhecimentos, a visão do missionário ocidental rendido à curiosidade de naquele território com pouco mais de 36 mil quilómetros quadrados ali coexistirem etnias como Felupes, Baiotes, Banhuns, Manjacos, Mancanhas, Biafadas, Papéis ou Pepéis, Mandingas, Fulas e suas derivações, Balantas, Nalus, Bijagós e outras. Observa, citando um trabalho do professor Mendes Correia que não estava ainda esclarecido o problema das origens e afinidades raciais de todos os grupos étnicos guineenses. Estudiosos como Deniker tinham tentado categorizar, Deniker adotou a seguinte classificação: Fulas e Mandingas provenientes de uma mistura de Etíopes e de Nigríticos (negros sudaneses e nilóticos); as demais tribos constituiriam o grupo dos Nigríticos litorais ou guineenses, que usam línguas bantos.

Em termos etnográficos, antes da chegada dos portugueses à Guiné, ali residiam populações indígenas autóctones e outras adventícias e é inquestionável a existência de grupos étnicos bastante diferenciados, o que demonstra sucessivas imigrações. Das populações autóctones, algumas sofreram influências islâmicas, outras não. O autor apresenta-se perante os seus leitores dizendo que a recolha a que procedeu assenta, essencialmente, na Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, de Zurara, nas Navegações do veneziano Luís de Cadamosto, no Manuscrito «Valentim Fernandes», no Esmeraldo "de situ orbis" de Duarte Pacheco Pereira. Estes autores são invocados porque nalgumas das suas obras nem sempre figuram as diferentes etnias guineenses. E escreve mesmo: “Nem todas as tribos citadas por Valentim Fernandes e Duarte Pacheco Pereira estão representadas na Guiné Portuguesa de hoje. Algumas desapareceram, fundiram-se com outras ou mudaram de nomes". E vai passar em revista, sempre a insistir que são notas ligeiras, as etnias que conheceu e que são objeto deste estudo.

Logo os Felupes, instalados entre o Atlântico e os rios do Arame, de Casamansa e Cacheu. Valentim Fernandes situa os Felupes nas margens de um braço do rio Casamansa dizendo que no vestir, adorar e comer, os Felupes podem-se equiparar aos Balantas. O mesmo autor trata-os por grandes guerreiros, possuidores de canoas em que remavam 50 a 60 homens e eram governados por um Mansa, dependente do Imperador. Era uma majestade verdadeiramente selvagem, punha e dispunha da vida dos seus súbitos, chegava a praticar atrocidades. André Alvares de Almada chamava os Felupes “pretos muito negros”. Francisco de Azevedo Coelho, comerciante nas margens do rio Buba no século XVII fala também dos Felupes, entre outros autores. Landerset Simões diz que pertencem à família dos Djolas.

Quanto aos Baiotes, estariam confinados entre o Cacheu, os Felupes, os Banhuns e a fronteira. Em tudo idênticos aos Felupes, tinham dialeto próprio. O Padre Marcelino Marques de Barros considerava tratar-se uma subdivisão dos Felupes.

Passando para os Banhuns, Valentim Fernandes dedicou-lhes muita atenção. Eram gente pacata que aceitou a chegada dos cristãos mercadores. Tinham uma feira semanal a cerca de 7 léguas do rio Casamansa, que atraía muito gentio. Eram idólatras. Valentim Fernandes descreve como sagravam os seus deuses, que eram simples forquilhas, implantadas no terreno, com longo e custoso cerimonial. Duarte Pacheco Pereira não teve conhecimento direto da tribo dos Banhuns que localiza, tanto quanto parece, entre o Geba e o Cabo da Verga. Adianta o Padre Dias Dinis que no século XVII trabalharam ativamente no território dos Banhuns os missionários franciscanos.

Temos agora os Cassangas, limitada territorialmente pelos Banhuns, pela fronteira, pelo rio Cacheu e supõe-se que pelo rio Abul, a leste. O rei vivia na povoação de Brucama, aqui se efetuava uma grande feira onde se vendiam escravos, produtos da terra e outras mercadorias. Era um chefe não eleito pelos seus súbitos, era nomeado de entre as pessoas da Casa Real e às vezes o novo chefe era imposto pelas armas. A terra era segura para os mercadores portugueses. Coisa que ali se perdesse logo sabia o rei dela e entregava ao seu dono. Os indígenas criavam abelhas em colmeia. Nas guerras, usavam azagaias, frechas, adargas, facas, espadas curtas e até paus. Belicosos, viviam em casas boas. Reverenciavam ídolos que eram “uns paus fincados no chão, de baixo de alguma árvore grande e sombria”. A estas Chinas ofereciam vinho de palma e de milho, ofereciam comida e vinho aos seus defuntos.

Segundo o autor, os Balantas habitavam principalmente os territórios das circunscrições de Mansoa e Bissorã, a zona média do rio Cacheu e o estuário dos rios Geba-Corubal. A primeira notícia que temos dos Balantas é dada por Valentim Fernandes, provavelmente escrita ainda no século XV, ele descreve os seus usos e costumes, como se vestem, o que cultivam, o gado que criam, as suas armas, a expressão da sua idolatria, a sua habitação. André Alvares de Almada, Duarte Pacheco Pereira referem-nos, Almada refere-se aos Balantas quando trata dos Brames do Geba e da ilha de Bissau. Os Balantas dão-se a si mesmos o nome de Brásà, ainda não se sabe o motivo. O desfile étnico vai prosseguir, logo com os Manjacos e com os Mandingas.

(Continua)

Povo Nalu – Aldeia de Cacine – Guiné-Bissau – África Ocidental
Foto: Jose Valberto Teixeira Oliveira – abril de 2010, retirado do site http://www.povonalu.com/, com a devida vénia.

Imagem retirada de Independent, com a devida vénia.
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19217: Historiografia da presença portuguesa em África (137): Relatório Anual da Circunscrição Civil dos Bijagós, 1935 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19259: (D)o outro lado do combate (39): Vídeo de 2/3/2008 com entrevista a antigo guerrilheiro do PAIGC, contemporâneo do cerco a Darsalame, em julho de 1962, pelo grupo de combate da CCAÇ 153, comandado pelo cap inf José Curto (Luís Graça)



Guiné-Bissau > Seminário Internacional de Guiledje, 1-7 de março de 2008 > Visita, no dia 2, ao Cantanhez, na região de Tombali. Reconstituição do antigo acampamento ("barraca") Osvaldo Vieira. O nosso saudoso Pepito (1949-2014) fala com um antigo guerrilheiro do PAIGC, sentado à sua esquerda,  sobre o início da luta aramada em 1962.

Vídeo Guné. Cantanhez. Acampamento Osvaldo Vieira5. Alojado no You Tube > Nhabijoes (*)

Vídeo (4' 52 ''): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guné]


1. Guiné-Bissau, Região de Tombali,  Mata do Cantanhez, Acampamento Osvaldo Vieira, nas proximidades de Madina do Cantanhez, na picada entre Iemberém e Cabedu... Visita no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje, domingo, de manhã, 2 de março de 2008... Visita guiada e animada por antigos guerrilheiros e população local, à Baraca  (acampamento) Osvaldo Vieira, outro dos momentos surpreendentes da nossa viagem à pátria de Amílcar Cabral.

Neste vídeo (**), um dos homens grandes da região conta como foram os primórdios da luta aramda... Trata-se de um excerto, há informação que perdi...  Infelizmente não consegui fixar o nome do entrevistado. Creio que é nalu. 

"Entrou no mato", como ele diz, em 1962. Ou seja: passou à clandestinidade, depois de aderir a (ou ser aliciado por) o PAIGC, ainda antes do início das hostilidades... Recorde-se que, para o PAICC e para a historiografia portuguesa, a guerra começa oficialmente com o ataque  Tite a 23 de janeiro de 1963.

A designação deste acampamento corresponde à verdade fática, histórica, não é  apenas uma homenagem, póstuma, a um dos heróis (, de resto, controversos...) do PAIGC, o Osvaldo Vieira  (cujos restos mortais repousam na Amura, a antiga fortaleza colonial de Bissau transformada em panteão nacional)... Ao que parece, o Osvaldo Vieira não actuou só na região do Óio (Frente Norte), também terá andado pelo Cantanhez (Frente Sul).

"Quando começou a mobilização, quando entre no mato, foi em 1962. Éramos só sete nessa altura. O comandante do grupo era o José Condição. Ficámos no mato de Caboxanque, aqui perto. Numa barraca, parecida com esta"...

O entrevistado fala num crioulo difícil. O Pepito vai traduzindo. Vê-se que nem sempre percebe o que diz ou quer dizer o entrevistado...

E a narrativa continua: 

"Até que chegou à região de Tombali o Capitão Curto".  (Aqui o  Pepito acaba por baralhar a audiência, maioritariamente estrangeira, ao falar em dois capitães Curto,  um dos quais teria andado a espelhar o terror no chão manjaco; ora, o capitão a que o antigo guerrilheiro se referia era o cap inf José Curto, comandante da CCAÇ 153, com sede em Fulacunda, e reportando ao BCAÇ 236, que estava em Tite.)

Na mesma altura apareceu o Nino. O tal Cap Curto cercou Darsalame, entrou aos tiros na tabanca, mandou toda a gente pôr as mãos na cabeça, ninguém podia dar um passo… Das cinco da tarde às cinco da manhã, a aldeia esteve cercada e as pessoas foram interrogadas… Alguns mais novos conseguiram-se escapar e pedir socorro ao grupo do Nino, que estava na "barraca".

O Nino ficou muito preocupado e quis saber o que se passava. Reuniu os camaradas, entre eles o Mão de Ferro, com a missão de ir a Darsalame saber o que se estava a passar e tentar ajudar o povo. Não deixou ir o José Condição. "Tu não vais. Vão lá saber o que se passa com a populaçãi"...

Quando os camaradas lá chegaram, o cap Curto já não estava lá. Foram informar o Nino. Foi também nessa altura que o grupo, que tinha aumentado, já não cabia em Caboxanque. “Este mato é pequeno. Não vamos ficar aqui, disse eu… E foi então que fomos para o mato de Cantomboi” (um dos catorze actuais matos do Cantanhez)…

2. O vídeo, ou pelo menos este excerto, é omisso sobre a data em que acorreu o cerco de Darsalame, e suas consequências em termos de baixas (mortos, feridos ou prisioneiros). Mas tudo indica que tenha sido em julho de 1962 e que foi na mesma ocasião em que, às tantas da madrugada, houve mortos entre um grupo de alegados simpatizantes e militantes do PAIGC, entre eles o 'comandante' Victorino Costa (1937-1962). (Já cadáver,  terá sido reconhecido por um cipaio ou guia que acompanhava o grupo de combate do cap Curto.)

Enfim, não tive, no Cantanhez, e em Bissau, em 2008, oportunidade de confirmar esta história  dos "anos de chumbo", em que se cometerem muitas arbitrariedades e ações de terror de um lado e do outro... Também não achei apropriado o momento, que era de festa e de reconciliação, entre homens que tinham combatido de um lado e do outro, para aprofundar a história (macabra) da cabeça do Vitorino Costa que terá sido levada para Tite.

Por outro lado, tanto o Nuno Rubim como o José Martins me confirmaram, na altura, em 2008, que no TO da Guiné, em 1961/63,  só havia um oficial com o apelido Curto....

Escreveu-me então o Nuno Rubim:

 "Só há dois [ com esse apelido,] que poderão ter comandado companhias: (i) José dos Santos Carreto Curto, oriundo de Infantaria, mais tarde com o curso de EM [Estado Maior,], promovido a Major em Jul 1966; e (ii) Luís Manuel Curto, Cap de Artilharia, promovido a este posto em Ago 1969. (...) 

Quanto à "companhia manjaca do Bachile", o José Martins esclareceu o seguinte:

(...) "A unidade que esteve em Bachile foi a CCAÇ 16, criada em 04Fev70 com elementos Manjacos enquadrados por graduados e praças especialistas metropolitanas. Em Bachile colocou 2 pelotões em substituição da CCAÇ 2658 em 04Mar70. Em 30Abr70 assumiu e responsabilidade do subsector, então criado. Em 26Ago74 entregou o quartel de Bachile ao PAIGC recolhendo a Teixeira Pinto, sendo extinta a 31 desse mês. Não consta nenhum Capitão de nome Curto, no seu historial." (...).

Sobre o cap Curto, falecido há dias (com o posto de ten gen reformado), escreveu  ainda o seu camarada George Freire (radicado na América há 5 décadas e meia, e membro da nossa Tabanca Grande desde 29/12/2008):

(...)  Formei-me na Academia Militar, (nesses tempos com o nome Escola do Exército), no ano de 1955. Servi na Guiné de 26 de maio de 1961 a 26 de maio de 1963 (...) A companhia de que originalmente fiz parte quando partimos para a Guiné, no dia 26 de maio de 1961, foi criada em Vila Real de Trás-os-Montes, onde eu ainda tenente, segundo comandante, e o capitão Curto, comandante, (do curso um ano mais velho do que o meu), passámos semanas a organizar a companhia.

(…) Comecei em Fulacunda como Tenente na Companhia 164 [, deve ser  153, e não 164], comandada pelo capitão Curto. Passados dois meses, fui promovido a capitão e segui para Bissau como comandante de uma Companhia de nativos. Daí passei para Nova Lamego (Gabu), como comandante de uma Companhia mista de nativos e tropas brancas. Nos últimos 6 meses estive em Bedanda como comandante da 4ª CCaç  [, Indígena, mais tarde, CCAÇ 6].  Foi nessa altura que as coisas começaram a aquecer de verdade" (...)
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(...) De acordo com as coordenadas do GPS do Nuno Rubim (...), tiradas no centro da clareira onde decorreu a cerimónia, este sítio fica a 11º 12' 46" N - 15º 03' 10" W, ou seja, à esquerda da picada que vai de Iemberém para Cadique (a oeste) e Cabedu (a sudoeste), nas proximidades de Madina do Cantanhez, entre Iemberém e Cachamba Sosso... Uma das linhas de fuga do acampamento, que ficava numa pequena elevação, ia dar directamente ao Rio Bomane, afluente do Rio Chaquebante, este por sua vez afluente do Rio Cacine, desaguando justamente frente a Cacine, perto de Cananime (onde iremos almoçar nesse domingo).(...)


(***) Vd. postes de:

11 de janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3724: História de Vida (13): 2ª Parte do Diário do Cmdt da 4ª CCaç (Fulacunda, N. Lamego, Bedanda): Abril de 1963 (George Freire)

10 de janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3717: História de Vida (12): Completamento de dados (George Freire)

29 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3681: Tabanca Grande (106): George Freire, ex-Comandante da 4ª CCaç (Fulacunda, Bissau, N. Lamego, Bedanda). Maio 1961/Maio 1963)

12 de janeiro de  2009 > Guiné 63/74 - P3726: Em busca de... (61): O Capitão Curto, que esteve no cerco de Darsalame, em 1962

Guiné 61/74 - P19258: Parabéns a você (1534): José Pereira, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 5 (Guiné, 1966/68) e Manuel Carvalho, ex-Fur Mil Armas Pesadas Inf da CCAÇ 2366 (Guiné, 1968/70)


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Nota do editor

Último poste da série de 2 de Dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19251: Parabéns a você (1533): Herlânder Simões, ex-Fur Mil Art das CART 2771 e CCAÇ 3477 (Guiné, 1972/74)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19257: Agenda cultural (661): "Voando sobre um ninho de Strelas", livro de memórias de António Martins de Matos, ten gen pilav ref. Sessão de apresentação: 11 de dezembro, 3ª feira, 18 horas, no Hotel Travel Park, na Av. Almirante Reis 64, Lisboa (metro Anjos). Estamos todos convidados.


Guiné > Nova Lamego > 1 de fevereiro de 1974 > O António Martins de Matos, então ten pilav, ao comandos de um Fiat G-91. Era o nº 2, na escala hierárquica da Esquadra  121 (Fiat G-91, T-6 e D0-27, tendo 6 pilotos de Fiat, "Os Tigres" (que voavam também um dos outros aviões), e mais 14 pilotos, milicianos (alferes e furriéis) que voavam indistintamente o T-6 e o DO-27.  Foto reproduzida, a preto a branco, no livro, pág. 245)


Guiné > Bissau > Bissalanca > BA 12 Um grupo de bravos da BA 12, Bissalanca, 1972/74, posando junto de um Fiat G-91, e tendo por trás um "radar-fantasma", que ficou inoperacional por volat de 1970 (foto reproduzida no livro, pág. 184).



Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. 1972/74 > "Em dia de São Avião": o Nord-Atlas (foto reproduzida, a preto e branco, no livro, pág.  50)


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c- 1972/74 > O DO-27 que o António Martins de Matos (, nome de guerra, "Batata",)  também pilotou muitas vezes, sobretudo no primeiro ano da comissão. (Foto reproduzida a preto e branco, pág. 107).



Capa do livro, "Voando Sobre um Ninho de Strelas", de António Martins de Matos (Lisboa: BooksFactory, 2018,   375 pp.)


Fotos (e legendas): © António Martins de Matos (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem, com data de ontem, do António Martins de Matos, ten gen ref, 73 anos feitos há um mês atrás, ex-ten pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, membro da Tabanca Grande, de longa data, com mais de 80 referências no nosso blogue, em especial na série FAP:

Caros amigos da Tabanca Grande, da Tabanca do Centro e do blogue dos Especialistas da BA 12 (Bissalanca, 1965/74):

A uma semana do lançamento do meu livro, “ Voando sobre um ninho de Strelas”, está na altura de me ajudarem a divulgar o evento.

Mando-vos algumas fotos, a ideia não é utilizarem-nas na totalidade, apenas uma ou outra que acharem por bem publicar a acompanhar a notícia. E até podem ser outras que entendam…

Recordando, o lançamento será na Terça Feira,  11 de Dezembro pelas 18 horas, no Hotel Travel Park, na Av. Almirante Reis 64 (, do lado que sobe para a Praça do Chile; metro Anjos).

Desde já o meu Muito Obrigado  pelo vosso apoio.

Abraços

AMM


Hotel Travel Parque, na Av. Almirante Reis, 64, Lisboa

2. Comentário do editor LG:

Recorde-se que o livro teve a sua sessão de lançamento, no mês passado,  no Estado Maior da Força Aérea (EMFA), em Alfragide, com a presença do Chefe do EMFA, gen Manuel Teixeira Rolo (*), sendo a obra apresentada pelo maj gen Campos Almeida, que foi colega de curso na Academia Militar, do autor (tal como outros colegas ilustres, o Virgílio Varela, do 16 de Março, e o Salgueiro Maia, do 25 de Abril, sem esquecer o 'strelado' Miguel Pessoa, também nosso mui querido grã-tabanqueiro).

Recorde-ser também que foi preocupação imediata do autor fazer um apresentação do livro para  os "amigos e camaradas da Guine" (**)... Confirma-se então que essa sessão vai realizar-se na  data e locais previstos, e que na mesa de honra irão estar presentes além do autor, os representantes dos 3 blogues que se têm dedicado a este tema, a saber:

- Luís Graça, fundador, administrador e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné;

- Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro;

- Vitor Barata,  fundador, administrador e editor do blogue Especialistas da Base Aérea 12.

Contamos com a presença de todos/as, em especial, dos ex-camaradas do ex-ten pilav António Martins de Matos (BA 12, Bissalanca, 1972/74), dos três ramos das Forças Armadas. (***). Divulguem pelos contactos. Ontem como hoje, "um por todos, todos por um"...

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 15 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19197: Agenda cultural (659): O António Martins de Matos ,"Voando Sobre um Ninho de Strelas", sente-se agora totalmente realizado por, depois de ter plantado duas árvores, e dado o seu contributo para fazer dois filhos, acaba de publicar um livro, que é muito da sua história de vida, e em especial como piloto da FAP, mas também um bocado das nossas vidas de ex-combatentes...

(**) Vd. poste de 14 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19193: Agenda cultural (658): sessão de apresentação, ao público, em geral, e aos ex-camaradas do CTIG, em particular, do livro do ten gen ref António Martins de Matos, "Voando sobre um Ninho de Strelas", no dia 11 de dezembro de 2018, terça-feira, às 18h00, no Hotel Travel Park Lisboa, Av. Almirante Reis 64.

(***) Último poste da série > 3 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19255: Agenda cultural (660): Lançamento do livro "O Homem do Cinema", por Lucinda Aranha Antunes; editora Alfarroba, levado a efeito no passado dia 18 de Novembro na FNAC do CC Vasco da Gama, em Lisboa

Guiné 61/74 - P19256: Blogoterapia (290): Um combate algures na Guiné (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf)

Guiné >Cacheu > CCAÇ 3 > Cacheu > Barro (1968) > Os "jagudis" montando uma emboscada 
Foto: © A. Marques Lopes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1690


1. Em mensagem do dia 3 de Dezembro de 2018, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), enviou-nos este relato de um combate algures na Guiné, ocorrido sob o seu comando, ou não. Verdade para nós antigos combatentes, ficção para os mais novos que tiveram a sorte de crescer sem a ameaça de terem de participar na guerra.


UM COMBATE ALGURES NA GUINÉ

Francisco Baptista

O pelotão seguia pela estrada de terra batida, como já acontecera tantas vezes, para ir fazer segurança a uma coluna de reabastecimento. Nos últimos dias era frequente verem pegadas estranhas, possivelmente de guerrilheiros que atravessavam a estrada. Enfim teriam reactivado um carreiro na zona da companhia, que podia trazer complicações. Faziam sentir a sua existência em ataques frequentes de armas pesadas ao quartel mas nunca tinha havido um confronto directo, com armas ligeiras no mato, entre uns e outros.

O alferes seguia à frente dos militares brancos e à frente dele seguiam quatro soldados milícias africanos. De repente dá-se conta que o soldado milícia da frente recua e lança um olhar aterrorizado para trás. De imediato dispara uma rajada de G3 para a mata em frente e os soldados seguem-lhe o exemplo. Da mata respondem as costureirinhas e outras armas e durante alguns minutos o silêncio da floresta é substituído pela barulheira infernal da batalha. Atrás do alferes está um cabo armado com o lança-granadas aflito porque não consegue fazer fogo com a arma. Está aflito e medroso porque não consegue reagir para se defender e defender o grupo e manifesta isso repetidamente ao comandante que só lhe diz que se resguarde e que tenha calma. Com receio de que as munições se esgotassem, pela rapidez com que os homens disparavam manda moderar a intensidade do fogo e nesse entretanto olha para o lado e vê o soldado milícia mais próximo com o rosto pousado sobre a terra. Sem ter tempo para se condoer, a hora era de acção, somente pensou, este já "lerpou", sem pensar sequer se aquela bala lhe poderia ser destinada. O soldado africano da frente, o que tinha dado o alarme, de cara assustada, morreu também. Sente uma adrenalina furiosa que o empurra para a vingança, para um ajuste de contas com o inimigo pela perda desses dois homens.

Os mortos do nosso grupo, seja qual for a sua origem, cor ou religião deixam-nos a alma marcada com cicatrizes negras que jamais desaparecem.

O tiroteio terminou, a calma voltou à mata e à bolanha próxima, os macacos-cães calam-se e as árvores da floresta choram silenciosamente a perda das vidas de dois filhos da Guiné. Entre os combatentes do outro lado não soubemos se houve perdas Acabou por não se saber se os guerrilheiros se preparavam para aguardar a coluna e atacá-la, pôr minas na estrada, emboscar o pelotão ou simplesmente iam passar, hipótese mais plausível.

Porque a nossa missão ainda não terminara, fazer segurança à coluna auto, que vinha a caminho e porque a perseguição ao inimigo podia acarretar outros perigos e mortes, o alferes procura refrear o seu instinto guerreiro que não conhecia e o surpreende.

Foi neste troço de estrada retratado na foto, um pouco mais à frente ou um pouco mais atrás, que aconteceu este combate entre o meu pelotão e os guerrilheiros do PAIGC. Ficava situado na estrada entre Buba e Nhala, a poucos quilómetros de Buba, antes da Bolanha dos Passarinhos.

Foto: © Francisco Baptista

Contra os desmentidos do Estado Novo e posteriormente dalguma opinião pública, que a quis negar, porque não quis compreender o abandono desses territórios, a guerra existiu, com muitos feridos e mortos, na Guiné com muito barulho de armas ligeiras, pesadas com bombas potentes da artilharia dum lado e do outro e bombas de avião.

Nos dias seguintes o capitão diz ao alferes para nomear alguns militares do pelotão para serem louvados. Todos os homens reagiram com coragem e disciplina a essa situação de combate imprevista. O alferes que o antecedeu e que morreu num acidente ao pisar uma mina anti-pessoal , alguns meses depois de estarem na Guiné, sendo um jovem de acção e motivado para o combate, tanto em Portugal como na Guiné, tinha-lhes dado uma formação agressiva e guerreira.
Todos mereceriam um louvor mas como só alguns o podiam obter resolve nomear seis que ao longo dos meses, sob o seu comando lhe pareceram os melhores. Não indica o cabo cujo lança granadas se encravou que se irá queixar disso quando ele já nada pode fazer. Um louvor dar-lhe-ia muito jeito, já que pensava ir para a GNR ou para a PSP depois da tropa. Mais uma mágoa menor que não esquece, a juntar às outras.

É uma estória de guerra real ou fictícia porque os ex-combatentes só falam destas memórias em dias de convívio com outros camaradas ou em dias cinzentos com algum desconhecido ou um barman e podem descrevê-las com realismo ou fantasiar porque a sociedade civil nunca lhes deu muito crédito, como se fossem caçadores ou pescadores mentirosos.

Terá acontecido na área do batalhão ou da outra companhia independente onde estive ou algum camarada ma contou.

São factos que aconteciam por toda essa terra de água e florestas, martirizada pela guerra, de que ninguém se orgulhava e dos quais os protagonistas têm dificuldade em falar.
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Nota do editor

Último poste da série de 29 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19145: Blogoterapia (289): Aquele toque a finados é uma coisa que me arrepia... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19255: Agenda cultural (660): Lançamento do livro "O Homem do Cinema", por Lucinda Aranha Antunes; editora Alfarroba, levado a efeito no passado dia 18 de Novembro na FNAC do CC Vasco da Gama, em Lisboa


No lançamento de "O Homem do Cinema"

Dia 18 de Novembro, passado, na Fnac[1]


A mesa foi composta por Andreia Salgueiro da Editora Alfarroba, que abriu a sessão, dando a palavra ao escritor Tony Tcheka, que apresentou o livro. 

A assistência ficou suspensa das suas palavras ao reviver a magia do cinema, a personalidade complexa do "Manel Djoquim", figura querida e respeitada na Guiné colonial a merecer que a sua memória não se apague. 

Em seguida, falou a autora, Lucinda Aranha Antunes, destacando a dificuldade com que se debateu ao escrever sobre um passado próximo, mas já longínquo, obrigando-a a recorrer, em grande parte, a fontes orais. 

Por fim, deu a palavra ao público, tendo Vital Sauane emocionado a assistência ao contar como o cinema o obrigou a frequentar a escola portuguesa. 

O lançamento terminou com a habitual sessão de autógrafos.








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O HOMEM DO CINEMA
Romance

Autor - Lucinda Aranha Antunes
Editor - Alfarroba
ISBN - 978-989-8888-27-3
Formato - 21x14cm
Número de páginas - 168
Capa mole
1.ª edição - 11-2018
Preço - 12,50€

A busca por uma vida melhor
O encontro com a aventura e o desconhecido
A liberdade de uma nova terra
Os encontros e desencontros de uma vida amorosa

Com a devida vénia à Editora Alfarroba
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Notas do editor

[1] - Vd. poste de 11 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19186: Agenda cultural (657): Convite para o lançamento do livro "O Homem do Cinema", por Lucinda Aranha Antunes; editora Alfarroba, 2018, a levar a efeito no próximo dia 18 de Novembro na FNAC do CC Vasco da Gama, em Lisboa

Último poste da série de 15 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19197: Agenda cultural (659): O António Martins de Matos ,"Voando Sobre um Ninho de Strelas", sente-se agora totalmente realizado por, depois de ter plantado duas árvores, e dado o seu contributo para fazer dois filhos, acaba de publicar um livro, que é muito da sua história de vida, e em especial como piloto da FAP, mas também um bocado das nossas vidas de ex-combatentes...