sábado, 31 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18473: XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 5 de Maio de 2018 (2): Quem dá boleia ao nosso camarada Mário Gaspar, que vive em Lisboa, na zona do Campo Grande?

1. Mensagem de Mário Gaspar:


[foto atual à esquerda; ex-fur mil at art, minas e armadilhas, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68; e, como ele gosta de lembrar, Lapidador Principal de Primeira de Diamantes, reformado; e ainda cofundador e dirigente da associação APOIAR; tem tem c. 100 referências no nosso blogue]

Data: 26 de março de 2018 às 23:41

Assunto: XIII ENCONTRO NACIONAL DA TABANCA GRANDE

Mário Vitorino Gaspar
Rua Alberto de Oliveira, 19 – 2.º Direito
1700-018 Lisboa
mariovitorinogaspar@gmail.com


Lisboa, 26 de Março de 2018

Caros Camaradas

Pretendo inscrever-me no XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande. Palace Hotel de Monte Real no dia 5 de Maio.

Sucede que tenho dificuldades no transporte. Se existir um lugar vago num carro de um camarada, agradeço. Moro junto à Praça de Alvalade, Lisboa, mas posso deslocar-me para um local a combinar.

Um abraço para a Tabanca Grande.

Mário Vitorino Gaspar
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P18472: (De)Caras (106): Os 7 bravos da Tabanca de Matosinhos (...mais um, o Evaristo) com quem almocei na 4ª feira passada (Luís Graça) - Parte I


Matosinhos > Tabanca de Matosinhos > 28 de março de 2018 > Almoço semanal, à 4ª feira > Apareceu o editor do blogue da Tabanca Grande, de surpresa (, só o Zé Teixeira é que sabia, de véspera...). Éramos nove os convivas, na foto falto eu, que fui o fotógrafo, e o Evaristo, que foi fumar um cigarro à rua... Da esquerda para a direita: Carlos Louro (7), Leite Rodrigues (6), Zé Manel ("Josema")(5), Vitorino (4), Zé Teixeira (régulo da Tabanca) (3), José Ferreira (2) e Rodrigo (1).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


 (De)Caras (105): Os 7 bravos da Tabanca de Matosinhos (...mais um, o Evaristo) com quem almocei na 4ª feira passada (Luís Graça) - Parte I


(i) Mensagem de Luís Graça para o Zé Teixeira, depois do almoço na Tabanca de Matosinhos:

Data / hora: 29 de março de 2018 20:56:17
Para: José Teixeira
Assunto: Os 7 bravos da Tabanca de Matosinhos

Zé: Não estava à espera de tanto... Vocês foram gentis, hospitaleiros, bons camaradas,,, Ainda estive com a "tuna rural de Custóias" até às 20h!... E tiveram a gentileza, o Matias, de me levarem até casa, na outra banda, na Madalena!,,, Quis pagar o "táxi", mas não me aceitaram... No ensaio, fiz muitos vídeos, que me autorizaram a partilhar...

Olha, junto uma foto para tu poderes acrescentar os nomes da malta toda...

Boa e santa Páscoa!... Luís


(ii) Resposta do José Teixeira:

Data/hora: 30 de março de 2018 às 10:27

Assunto: Re: Os 7 bravos da Tabanca de Matosinhos

Bom dia,  Luís

Ainda bem que gostaste de estar connosco.

Tu, para nós és uma referência, porque ousaste pegar no clarim e pôr os combatentes a pensar Guiné - o tempo que tanto nos marcou e teimávamos a fechar dentro da mente. Talvez hoje, muitos dos que têm passado pela Tabanca Grande, Tabanca Pequena de Matosinhos e tantas outras que se foram abrindo por esse Portugal,  não estivessem tão bem do foro psicológico. Pois ler, escrever e partilhar as alegrias, as dores e sofrimento, no fundo os acontecimentos que passamos numa guerra que não nos dizia nada e não queríamos fazer, e que teimavam em ficar retidos na mente,  fez-nos muito bem a todos.

Não só as tabancas que se foram instituindo, mas também as que pontualmente se foram criando e logo desapareceram, isto é, foi-se gerando dentro dos combatentes a necessidade de falarem do passado, graças à ação natural e espontânea daqueles que foram atingidos pelas nossas tabancas e começaram a falar de Guiné, quando encaravam com outros ex-combatentes.

Sobretudo criaram-se laço de amizade profunda, tiraram muitos ex-combatentes das quatro paredes da sua casa e puseram-nos a viver a vida de forma mais comunitária, em ambiente onde nos entendemos bem, onde nos sentimos irmanados.

O que tu chamas "Tuna rural de Custóias" também é, de algum modo uma tabanca, pois ali se acoitam vários ex-combatentes da Guiné, para tocar e cantar e para umas petiscadas de vez em quando. Fico feliz por saber que te sentiste bem. Eu, moro ali ao lado e vou até lá muitas vezes.

Lamento que tenham estado tão poucos convivas na Tabanca de Matosinhos. O período Pascal não ajudou, pois a média de presenças anda pelos vinte convivas. Na fotografia tens, da direita para a esquerda: Carlos Louro (7), Leite Rodrigues (6), Zé Manel (5), Vitorino (4), Zé Teixeira (3), José Ferreira (2) e Rodrigo (1).

Com votos de Boa Páscoa, dá um beijinho à Alice e aos filhotes

Um grande abraço para ti do Zé Teixeira

Boa e santa Páscoa!... Luís


(iiii) Resposta do Luís Graça:

Data / hora: 30 de março de 2018 11:08




Zé: Obrigado pelas tuas palavras amigas. E, como amor com amor se paga, já sabes que tens, deste lado, um amigo, uma casa, uma tabanca... Ainda estou pela Madalena, devo ir mais logo para Candoz... Penso regressar 3ª feira a Lisboa.

Obrigado pela legenda da foto... As que não foram tiradas por mim, ficaram tremidas... Na foto, falta o Evaristo... Sabes-me dizer qual é o apelido dele ? É uma história triste, a que me contaste, a seu respeito...

Vou mandar os vídeos que fiz, são mais de 8 GB... Estás interessado em ficar com uma cópia ? Eu e o Júlio  [, que toca violino, a par do Zé Ribeiro,]  temos em comum dois cunhados, que são cunhados dele e meus. O Júlio casou com uma rapariga que é irmã de uma cunhada e de um cunhado da Alice...Mesmo sendo eu "mal casado" aos olhos da malta cá de cima (, foi o primeiro casamento civil, no Marco de Canaveses, em 1976, em 7 de agosto de 1976...), são meus cunhados também...

Um xicoração, Luís


(iv) Resposta do José Teixeira


Data / hora: 30 de março de 2018 12:10




Luís: Obrigado pela tua amizade que já vem de longe.

Creio que ninguém sabe o apelido do Evaristo [que esteve na Guiné, na Marinha]. Apareceu há cerca de três anos e creio que somos os únicos amigos que ele tem. À quarta feira é sempre o primeiro a chegar e nunca falha. A cabeça é que parece já estar um pouco gasta. Creio que se separou e abandonou (ou foi abandonado por) a  família na sequência da "infiltração" da religião através da mulher que lhe tirou tudo quanto tinham poupado. Vive da reforma que nos parece ser razoável, ao menos isso.

Abraço, Zé.

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sexta-feira, 30 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18471: Tabanca Grande (459): João Schwarz, novo grã-tabanqueiro, nº 768


João Schwarz da Silva, nosso novo grã-tabanqueiro, nº 768..
É o autor da página Des Gens Intéressants,
onde tem perpetuado as memórias de amigos e familiares.
Tem já uma dezena de referências no nosso blogue.


1. Mensagem do João Schwarz, com data de hoje, enviada às 09:29


Olá,  Luís. Aqui vai a fotografia.

Quanto à autoapresentação,  proponho um texto com pequenas recordações da Guiné. Não são duas ou três linhas mas são elementos de uma vida.

Nasci em Alcobaça em 1944, e fui para a Guiné pela primeira vez com 4 anos. Depois da morte do meu avô Samuel Schwarz em Lisboa [, em 1953,] voltei para Bissau onde frequentei o Colégio Liceu Honório Barreto até à minha vinda para a universidade, em Lisboa, em 1960. 

Éramos sete na turma a terminar o 7° ano do Liceu. Destes sete, três vieram para a Universidade em Lisboa. Os outros três desapareceram para o Senegal ou para a Guiné Conakri. Durante muitos anos o reitor do Liceu de Bissau era o Sr. Pequito que toda a gente chamava Sr. Periquito. 

Homem de muita idade, o Sr. Pequito não podia conceber que os rapazes tivessem um certo interesse pelas raparigas. Nos intervalos das aulas os rapazes do pavilhão de baixo iam ver as meninas do pavilhão de cima brincar. Um belo dia o Sr. Pequito viu que havia rapaziada a mais e mandou um berro que entrou para a história: "Saias para cima,  calças para baixo". Acho que não teve outra solução se não  a de demitir-se depois de uma tal bronca.

Com os meus pais [Clara Schwarz e Artur Augusto da Silva,]  visitei toda a Guiné numa época em que só havia 60 km de estrada alcatroada entre Bissau e Mansoa. Passávamos as férias do Natal e da Páscoa em Varela,  no hotel do Sr. Pireza. 

No Natal pendurávamos "neve artificial" nas casuarinas en frente do hotel. Havia um conjunto de casas que tinham sido construídas por varias instituições nas quais eram albergados os amigos deste ou daquele. Para evitar qualquer potencial conflito de interesses,  o meu pai comprou um terreno onde mandou construir uma casota de férias. Lembro-me de assistir ao desembarque, na praia de Varela, de centenas de tartarugas,  o que nos levava a fazer omeletes gigantescas de ovos de tartaruga com sabor a peixe. 

A partir de Varela íamos muitas vezes a Ziguinchor [, no Senegal,]  comprar "coisas modernas" tais como iogurtes. Em Varela lembro-me também de assistir à prospecção de petróleo por uma companhia americana que, quando se foram embora,  deixaram por todo o lado frigoríficos, barcos de fundo chato e material de transporte. O meu pai comprou um desses frigoríficos que era tão bom que só foi reformado em 2014, ou seja,  com 60 anos de serviço. O conceito de obsolescência programada não tinha ainda integrado o mundo industrial. 

Em 1958, com 14 anos, os meus pais decidiram mandar-me em visita à família no Canadá e nos Estados Unidos. Com um passaporte emitido em Bissau e um visto americano concedido em Dakar, lá parti em viagem. Chegado a Chicago, vindo de Montreal, a polícia decidiu entrevistar-me durante umas boas horas pois não sabiam onde era a Guiné.

No meu melhor inglês expliquei que a Guiné era em África e até pedi um mapa do mundo para melhor explicar a situação.Tanto olharam para aquele passaporte que perdi o avião para São Francisco. A polícia não fazia a minima ideia sobre a existência de um continente além do continente americano. 

Em 1968 fui de férias a Bissau onde tirei a carta de condução num dia. Lembro-me que tive que responder à pergunta "O que se faz quando a cancela do comboio esta baixada?". Várias vezes fomos a Dakar de carro com passagem por Bathurst [, hoje Banjul, capital da Gâmbia], uma verdadeira expedição tantos eram os percalços durante o percurso, com travessias em múltiplas jangadas.

Num dos regressos a Bissau, vindos de Dakar, demos boleia ao Amilcar Cabral.

Mais tarde em 1976, com o Luís Cabral como presidente, voltei à Guiné onde trabalhei durante seis meses como perito das Nações Unidas. Dava aulas de matemática ao pessoal do emissor de Nhacra, e fiz um plano para uma rede de rádio FM que cobria toda a Guiné.

Tempos formidáveis onde se concebia o futuro de ânimo leve. A exceção eram os momentos em que havia um problema de saúde. Entre os médicos russos e cubanos que lá estavam lembro-me que os únicos que tinham mesmo cara de ser médicos eram os Cubanos.

Um grande abraço

João


2. Comentário do editor LG:

O convite,  para o João ingressar na nossa Tabanca Grande, tem dois dias (*):

"Gostava que o João se sentasse à sombra do poilão da Tabanca Grande, no lugar nº 768... Não é um lugar físico, é penas simbólico... Somos já 767, entre vivos e mortos, os amigos e camaradas da Guiné, formalmente registados na nossa comunidade virtual...

"Como sabe, exercemos aqui o direito e o dever de memória... A Guiné é o nosso traço de união. O João é um construtor de pontes tal como o Carlos. E, se aceitar o nosso convite, passamos a tratar-nos por tu, à boa maneira romana, dá mais jeito... Só gostaria de ter,eventualmente, uma foto sua, atual, e duas linhas de autoapresentação.".

Obrigado, João, "quem bebeu a água do Geba", fica com o bichinho da Guiné, vacinado contra muitas doenças e sobretudo protegido contra alguns vícios dos filhos dos cavaleiros do apocalipse:  a estupidez, a intolerância, a arrogância, o racismo...

Obrigado, João, pela bem humorada e pessoalíssima apresentação à Tabanca Grande onde se reúnem amigos e camaradas da Guiné. Os camaradas tratam-se por tu, encurtando eventuais distâncias e facilitando a comunicação.  O João, filho da Clara e do Artur, mano do Pepito, está à vontade para me tratar por tu. Por mim, é uma honra acolhê-lo, a partir de agora, nesta comunidade que é mais do que virtual: a Tabanca Grande é a mãe de todas as tabancas, incluindo a Tabanca de São Martinho do Porto.. Pode ser que, com o João, a gente ainda volte lá em dia, em agosto, para homenagear os nossos grã-tabanqueiros, a Clara e o Pepito. (**)

Enfim, para os novos grã-tabanqueiros, costumamos sugerir a leitura, por alto, das 10 regras da política editorial do blogue...
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Notas do editor:


(**) Último poste da série > 26 de março de  2018 > Guiné 61/74 - P18461: Tabanca Grande (458): António Joaquim Alves, natural da Malveira, Mafra, a viver no Carregado, Alenquer: ex-sold at cav, CCAV 8351, "Os Tigres de Cumbijã", destacado no COMBIS, Bissau, 1972/74... Senta-se à sombra do nosso poilão no lugar n.º 767

Guiné 61/74 - P18470: História de vida (46): O meu saudoso mano mais novo, Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014) (João Schwarz da Silva) - III (e última)


Foto nº 1 > O "Pepito", com cerca de  5 anos em frente do carro Nash que o paiArtur  tinha comprado na América.


Foto nº 2 > O "Pepito" com a avò materna Ágata


 Foto nº 3 > O "Pepito" com o avô materno Samuel.



Foto nº 4 > O "Pepito", ainda bebé


Foto nº 5A > Algures, s/d, o "Pepito", com cerca de 12 anos, e o pai, Artur.


Foto nº 5 > Algures, o "Pepito" com o pai, Artur


Foto nº 6 > Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Ica [, Hwenrique,]   e Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (, nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos...

Fotos (e legendas): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



III (e última parte) da publicação do texto do João Schwarz da Silva sobre o seu malogrado mano mais novo, membro da nossa Tabanca Grande, que nos deixou há 4 anos atrás. e que tem por título Carlos Schwarz (Pipito).

As fotos nºs 1 a 4 foram ontem enviadas pelo João que, por sua vez, aceitou o nosso convite para integrar a nossa Tabanca Grande, o que muito nos apraz registar e anunciar.

Carlos Schwarz da Silva, Lisboa, 6/9/2007.
Foto de Luís Graça
O Pepito tem mais de 220 referências no nosso blogue. Continua a fazer parte da nossa Tabanca Grande, tal como a sua mãe, Clara Schwarz (1915-2016). Os seus exemplos de vida foram (e continuam a ser) inspiradores.  Vejo o Pepito,  nascido em Bissau,  sobretudo como um construtor de pontes, entre o passado e o futuro, entre os nossos dois povos, entre a África e a Europa.  A sua paixão pela Guiné levou-o a uma morte precoce, aos 63 anos. Veio morrer à terra da sua muito querida mãe, veio morrer em Lisboa,  quatro dias depois de celebrar os 99 anos da  Clara. Morreu em 18 de fevereiro de 2014. Para nós, é agora um "bom irã" que vive connosco no poilão da Tabanca Grande, a que se vem juntar, com muita alegria minha, o João, seu mano do meio: vou apresentá-lo, ainda hoje, aos amigos e camaradas da Guiné. (LG)
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Nota do editor:

Vd. postes anteriores da série:

Guiné 61/74 - P18469: Notas de leitura (1053): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (28) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Novembro de 2017:

Queridos amigos,

O conflito prolongado que foi a II Guerra Mundial teve inevitavelmente impactos nas transações e na vida económica da Guiné, envolvendo, claro está a metrópole. O que aqui se relata tem a ver fundamentalmente com as necessidades acrescidas do Senegal, tudo irá mudar com os desembarque dos aliados no Norte de África em 1943, porão em causa, as novas forças em Dakar, o entendimento entre os comerciantes da Guiné e os aliados do Eixo. Segundo o gerente de Bissau, a bonança veio rápida e o comércio prosseguiu de vento em popa, a metrópole a fornecer quantidades colossais de fazendas e outras mercadorias.

Não é a primeira, nem será a última vez, que o gerente de Bissau, tece densa filosofia política em torno da agricultura guineense. Mas desta vez deixa claro que o modo de trabalhar do indígena guineense é um sério entrave à prosperidade agrícola, tão sério entrave como os calamitosos e inconsequentes investimentos feitos em projetos agrícolas que deram com os burrinhos na água. Se estivermos atentos, foi uma constante histórica. O que justifica a observação de Amílcar Cabral que o colonialismo português na Guiné não ficou marcado pela posse efetiva da terra.

Um abraço do
Mário



Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (28) 

Beja Santos 

A África Ocidental francesa ganha acuidade durante a II Guerra Mundial. Veja-se este apontamento constante do relatório da agência de Bissau referente ao primeiro semestre de 1943:

“A vizinha colónia do Senegal, por motivos de guerra, viu-se quase abastecida da sua metrópole e sem possibilidades de ser abastecer daquilo que mais necessitava.

Durante largo período, foi-se bastando com os stocks que tinham quando a fazenda e recebendo auxílio de Marrocos, quanto a subsistências.

As necessidades próprias da guerra esgotaram depressa as existências e o Senegal recorreu à nossa Guiné. Principiaram as exportações daqui para lá com fornecimentos de batatas; cebolas; algumas latarias; massa de tomate, de que o Senegal faz colossal consumo; queijos; manteiga e vinhos do Porto.

A falta de alguns destes géneros, na nossa própria colónia, paralisou tais exportações.
Veio então a procura de tecidos em relativa quantidade para consumo indígena, mas em quantidades enormes de zuartes e caquis destinados às tropas em luta.

Fizeram-se grandes negócios e lucros e os comerciantes da Guiné, certos da continuação do negócio, importaram maiores quantidades daqueles tecidos.

Dá-se o desembarque anglo-americano e a posição do Senegal mudou.

Enquanto as autoridades que estavam, viam com bons olhos os fornecedores da nossa Guiné, as autoridades que vieram consideram as anteriores como entendidas com o inimigo. E não só suspenderam as compras, porque os ingleses e os americanos passaram a trazer os seus tecidos para venda e fornecimento às tropas, como também não pagaram os fornecimentos que já tinham recebido dos comerciantes da Guiné. Dois males para estes ou, antes, para os fornecedores da metrópole.
Nem se venderiam facilmente os stocks existentes na colónia, quantidades invendáveis relativamente ao consumo próprio nem se saberia quando seriam pagos os fornecimentos feitos anteriormente. Daí resultou uma parte grande do comércio da colónia não poder honrar os seus compromissos, deixando protestar grande quantidade de letras. Na altura em que se ultima este trabalho, há esperanças de que o actual governo do Senegal se resolva a pagar o que deve.

Já o governo da colónia começou a ter interferência, o governo do Senegal tem aqui um depósito de 6 mil contos para fazer face a tais pagamentos que, pelas informações que dispomos, andarão pelos 12 mil contos.

Resolvido este caso, será paga uma grande parte das dívidas em atraso. E como já se pensa em exportar o excesso de tecidos existentes na colónia, desde que tal suceda, ficará o assunto resolvido. Nesta barafunda toda, tem o banco ganho bom dinheiro, e graças à nossa prudência não há um único real que se possa considerar comprometido”.



Uma preciosidade: as primeiras três ordens de serviço da agência do BNU em Bissau, 1918


No relatório anual desse mesmo ano de 1943 dá-se como notável o movimento de protestos, 162 letras protestadas num montante próximo dos 13 milhões de escudos, houve contudo liquidações, ajustamento de contas e o saldo do ano era de 59 letras protestadas num montante de 5 milhões. A explicação decorre um tanto do que acima se escreveu sobre as exportações para o Senegal e o comércio com o Norte de África:

“A razão de ser estes protestos foi só uma, a evolução das coisas relativas à guerra, no Norte de África. Antes da evacuação total das tropas alemãs e italianas, a África Ocidental francesa não tinha facilmente outra fonte de abastecimentos senão a Guiné Portuguesa. O nosso comércio fez o que era natural, aproveitando a oportunidade para vender muito e caro. Foi o que se fez e, no final das contas, tirando aborrecimentos que já passaram, os que o fizeram muito ganharam. As autoridades consulares inglesas mostraram indecisão, no princípio, ou não compreenderam a tempo que as toneladas e mais toneladas de tecidos que vinham da metrópole para a Guiné eram para se escoar para o chão francês. Porém, quando viram começar aqui o escoamento, lembraram-se de que os caquis e zuartes que iam para Dakar seriam destinados às tropas inimigas. Foi então que recusaram certificados de navegação para a vinda de mais fazendas da metrópole para a Guiné e entraram a fazer pressão sobre os comerciantes para que não fossem mais fazendas para o Senegal. A Guiné é toda cercada por terra francesa e a guarda-fiscal não chega à fronteira. Passou o que pode passar em contrabando, e muito passou regularmente. Foram alguns para a lista negra e tiveram dificuldades momentâneas, mas estas, por assim dizer, já lá vão. Subitamente, dá-se o desembarque americano no continente negro. Surgem novas personalidades em Dakar e nova política. Os americanos trazem consigo materiais, mercadorias e fazendas a preços melhores que os do comércio português. A razão política faz hesitar os novos mandantes de Dakar na análise dos negócios dos seus antecessores com o comércio da Guiné. Para uns, ausência total de culpas por parte dos nossos vendedores que, a título nenhum, podiam ser considerados como entendidos com os inimigos dos aliados, para lhe venderem fazendas. Para outros, culpas carregadas tinham os comerciantes de Bissau”.

O gerente de Bissau explana detalhadamente toda esta delicada questão e passa para outra, não menos delicada: a posse da terra, se os proprietários as podem agricultar e com que tipo de concurso dos indígenas. O gerente pega no primeiro volume da Obra “Guiné Portuguesa", da autoria do ex-governador Carvalho Viegas, escrita em 1936, cita a páginas 554, sob trabalho indígena: “Fizemos já ressaltar a inaptidão do indígena desta colónia ao trabalho assalariado” e a seguir, na página 565, formula outra citação: “Já dissemos em outro lugar que o indígena desta colónia, na sua maioria, tão grande que representa a quase totalidade da população, é absolutamente refractário a prestar serviços a particulares. Voluntariamente, não o fará. De forma que à atividade particular, nesta colónia fica vedada qualquer produção em que só a mão-de-obra indígena oferece garantia, embora seja retribuída, como ordena a lei". E passa para outra citação, nas páginas 567 e 568, assim: “A Guiné oferece aspectos de funcionamento social indígena tão diferente do das restantes colónias que a fixação do seu regime de trabalho – embora inconvenientemente baseado na doutrina internacional cuja justeza apreciamos – deve ser especialmente regulamentada de harmonia com as condições do seu meio social nativo”. E o gerente tece a sua conclusão lapidar: “Não há mão-de-obra na Guiné que permita explorações agrícolas organizadas”. E dá as seguintes justificações:

“O livro que se transcreve foi escrito em 1936. No fim de 1943 a situação é positivamente a mesma e o governa da colónia não pode alegar que a ignora.

Assim, como pode o estado vir condenar o proprietário que não agriculte – como, aliás, ele quer agricultar – sem ter mão-de-obra e sem que esteja em o diploma 1220, da harmonia com as condições do meio social nativo?

Não pode. Justa e honestamente, não deve.

E porque nem o proprietário tem culpa das circunstâncias especiais do meio e porque o Estado as não pode remediar ainda, parece desumano – e é mesmo – que seja esse mesmo estado que ataque o proprietário por não fazer o que se sabe que de facto não pode fazer. Daí o não dever receber tratamento punitivo quem não merece a punição.

O trabalhador indígena tem hábitos tão inveterados que há dezenas, senão centenas de anos, não se modificaram.

Até no trabalho diário para si próprio aplica umas escassas horas num labor que, favoravelmente, poderemos considerar intensivo, aplicando as restantes no descanso ou na discussão da sua complicada política.

Trabalhando (?) de conta alheia, espanta-se a sua mentalidade a tal ponto que nem percebe qual a necessidade que os outros têm da utilização do seu braço.

Mas, se condições excepcionais o forçam a assalariar-se, imediatamente, automaticamente, considera o trabalho como um fardo que aligeira trabalhando o menos que poder e produzindo, portanto, sob o aspecto económico, pouco ou nada.

Sem receio nenhum de contestação, garantimos serem estas as condições locais que, em boa verdade, não convém a ninguém. Tentar atenuar este mal convertendo trabalho à jorna e o trabalho à tarefa é imprensa duvidosa pois não sabemos onde encontrar uma massa útil de indígenas que aceite tal sistema.

Mas, nesta colónia, sob o aspecto de produção de trabalho é tão grande que nem se pode compensar em certos casos a falta de labor do homem com o recurso ao trabalho do animal, visto que este trabalho praticamente, infelizmente, não existe na colónia.

São todas estas dificuldades, de momento insuperáveis, que agravam a um ponto extremo o regime das propriedades que o Estado exige que se agricultem e, de facto, não podem ser agricultadas por falta de mão-de-obra”.

E finaliza toda esta análise das terras para agricultar perguntando:

“Quantas propriedades há na Guiné que estão bem aproveitadas pelas culturas indígenas, feitas sim por indígenas mas com a primitiva e mesmo actual ajuda e incitamentos dos proprietários?
Muitas. Talvez mais do que hoje se possa supor, a tantos anos da acção dos primitivos colonos que, por uma curiosíssima faceta primitiva da Guiné, deixaram atrás de si, a vincular a sua acção, um grupo de mangueiras; uns agrupamentos de coleiras; umas sebes de caju e por vezes algumas citrinas; tudo em volta de uma elevação de barro formada pelo desmoronamento da casa de adobe de lama em que o colono viveu, lutou, e se não morreu, deixou morrer em si toda a esperança de encontrar frutos no seu trabalho. Aos, que, hoje, passamos por tantos lugares com aquelas características certas, salta, na ligeireza de despreocupação pensar na ideia de que ‘ali foi uma ponta".

E acaba o seu documento para Lisboa com uma expressão muito amarga:

“Veja-se quantos e quantos milhares de contos estão enterrados por essa Guiné fora, em iniciativas agrícolas e iniciativas oficiais, nas granjas agrícolas do Estado. Todas faliram! Trabalho em pura perda! E quanto se tem legislado sobre agricultura!”.

(Continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 23 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18451: Notas de leitura (1051): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (27) (Mário Beja Santos)

Último poste da série 26 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18460: Notas de leitura (1052): “Guiné-Bolama, História e Memórias”, por Fernando Tabanez Ribeiro; Âncora Editora, 2018 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18468: Parabéns a você (1410): António Graça de Abreu, ex-Alf Mil Inf do CAOP 1 (Guiné, 1972/74); Benjamim Durães, ex-Fur Mil Op Esp do BART 2917 (Guiné, 1970/72) e Rosa Serra, ex-Alf Mil Enfermeira Paraquedista da BA 12 (Guiné, 1969)



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Nota do editor

Último poste da série de 27 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18462: Parabéns a você (1409): Armando Pires, ex-Fur Mil Enfermeiro do BCAÇ 2861 (Guiné, 1969/70); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732, (Guiné, 1970/72); Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Esp do BCAÇ 4612/74 (Guiné, 1974) e Maria Dulcínea, Amiga Grã-Tabanqueira do Porto que também morou em Bissorã

quinta-feira, 29 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18467: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 37 e 38: "Já não tens dinheiro no banco, a tua mulher porta-se mal”... Nunca mais li uma carta de um camarada, sem primeiro a ler só para mim.



Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CCAÇ / BART 6520/72 (1972/74) > Nota de 50 escudos (pesos), verso. O banco emissor era o BNU - Banco Nacional Ultramarino. Uma nota destas, em 1973, em Fulacunda, dava para comprar, na cantina do Zé Soldado, 12 cervejas e meia de 0,33l.  Nesta altura, um soldado, no mato, podia gastar entre 1/3 e 1/5 do seu pré...

Foto: © Sousa de Castro (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

  

  1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à direita] (*)

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje);

(ii) foi criado pela avó materna;

(iii) reside na Lixa, Felgueiras;

(iv) é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(v) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado;

(vi) completou o 12.º ano de escolaridade;

(vii) foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(viii) tem página no Facebook; é avô e está a animar o projeto "Bosque dos Avós", na Serra do Marão, em Amarante;

(ix) é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.

Hoje, 24 de março, ele e um grupo de avós e netos vão começar a replantar, às 10h00, a bela serra do Marão, criando assim o "Bosque dos Avós".

Sinopse:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da Via Norte à Rua Escura.

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau,

(vi) fica mais uns tempos em Bissau para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vii) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM parea Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos', os 'Capicuas", da CART 2772;

(viii) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(ix) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(x) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(xi) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xii) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda;

(xiii) ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogram as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xiv) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xv) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xvi) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xvii) começa a colaborar no jornal da unidade, e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, s pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo...

(xviii) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. capº 34º, já publicado noutro poste);

(xix) como responsável pelos reebastecimentos, a sua preocupção é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco.


2. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 37 e 38


[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]


37º Capítulo  > JÁ NÃO TENS DINHEIRO NO BANCO


Lembrava-me vagamente de ter sido acusado, por alguns colegas, de ter os artigos da cantina de graça, pelas funções que ocupava. Se assim fosse, nunca o diria, ou até, se calhar, gabava-me de lixar o exército. O caso é que, a partir daquele dia passei a ser o cantineiro. Afinal, confiavam em mim.

Falo nisto porque toda a gente dizia que no meu lugar, no fim da tropa, estaria rico.

Devido ao lugar onde nasci, tive sempre alguém que me acusou de ladrão. Na minha companhia, havia soldados naturais da minha própria aldeia e sei que tinham um pouco de inveja de mim. Sendo filho de quem era, e morando onde morava, o meu lugar devia ser andar no mato, como eles.

Provei que muitas vezes é nos pântanos mais nauseabundos que nascem belas flores. Orgulho-me de tudo que fiz na minha vida militar, mesmo as idiotices que tenho cometido. Vem isto a propósito do dinheiro que sempre foi a causa de muitos males e das informações que íamos recebendo de casa.

E comecei a ler cartas de colegas cujo dinheiro que mandavam para a Metrópole desaparecia.

O meu tio já me tinha escrito a dizer que a minha avó andava a emprestar o meu às minhas tias. Era chato mas a minha avó tinha-me criado e mantido 12 anos até eu ganhar o 1º salário, por isso, o dinheiro era mais dela do que meu.

Agora vocês experimentem ler uma carta dum pai para o filho, nesta situação.

O filho está num local rodeado de arame farpado com uma G3 na mão e granadas à cintura. Acabou de chegar duma missão, com as coxas e os pés em ferida, provocadas pelas micoses que o torturam.

Vá lá. Leiam-lhe as cartas. Ele não sabe ler e está à espera que lhe deem boas notícias depois daquela perigosa e longa operação. A água do cantil tinha acabado logo de manhã. A ração de combate foi diminuta. Até o leite achocolatado extra que levara se evaporara. Mas, em vez de comer ou beber, quando regressou ao quartel, o que deseja saber primeiro são notícias, pois ouvira, quando andava no mato, o barulho da avioneta.

O Zé Leal já lhe tinha separado o correio, uma única carta. Ele rasga o sobrescrito e passa-te a missiva para a mão. Depois das habituais saudações lês.

“Já não tens dinheiro no banco, a tua mulher porta-se mal”

Nunca alguém soube deste episódio. Continuei a ler e a escrever muitas cartas repletas de dramas. Esta nem foi das piores. Acompanhei durante algum tempo a vida civil deste amigo que, infelizmente, foi muito curta. (Faleceu no inicio dos anos 80.) Não infiro que este facto contribuísse para isso mas sei que sofreu muito.

Nunca mais li uma carta sem primeiro a ler só para mim.


38º Capítulo > MAR DE ROSAS 


Nem acredito que disse aquilo, quando fui trabalhar na cantina. Aqui vai o meu pedido de desculpas a todos os ex Serrotes de Fulacunda por no dia 13 de Janeiro ter escrito que eram uma cambada de 140 (Enharras) (estúpidos, parvos, camelos, em crioulo).

O nome Os Serrotes, como não podia deixar de ser, deu-se devido ao culto da personalidade do comandante. Capitão Serrote.

Comprei um rádio para melhor passar o tempo na cantina, que permanecia seis horas aberta e, embora só existisse uma emissora, dava muita música que muitos colegas passaram a vir escutar comigo, principalmente os discos pedidos. Foi muito divertido o 1º que me foi dedicado pela minha prima. Mar de Rosas dos The Fever. Em que rico Mar de Rosas vivíamos, prima Mila.

Este aparte serve um pouco para desanuviar. Não andarei longe da verdade se disser que foi ali, como cantineiro, que aprendi a viver como hoje vivo. Bem em metade do mês, e mal na outra metade. Que se lixe viver o mês todo mais ou menos.

Ter bebidas frescas foi a minha primeira prioridade. Os frigoríficos a petróleo não eram muito fiáveis. Pelo que li agora, quando recebíamos o pré (Ordenado), o consumo triplicava. Teria que ter, durante alguns dias, uma média de 250 embalagens de bebidas frescas diariamente.Com dois frigoríficos pequenos como eram aqueles, foi complicado.

Uma coisa lhes garanto: para os camaradas que estavam em serviço, ou que vinham de operações, as bebidas frescas nunca falharam. Leio aqui que, infelizmente, para outros tal não foi possível. O meu pior serviço era para os que queriam bazucas; ocupavam muito espaço, eram difíceis de refrescar e, por isso, havia sempre poucas. A bazuca era uma das nossas boas armas de guerra. Na gíria, referíamo-nos também a “bazuca”, designando uma cerveja de litro, devido à configuração da garrafa.

Infelizmente, o dinheiro acabava depressa e o consumo diminuía drasticamente.

Uma coisa é certa e estranha. No dia anterior houvera festa nas tabancas.

“Meu bem ontem houve aqui festa nas tabancas, pois iniciou-se o ano Muçulmano, portanto para aqueles que em vez de Deus, adoram Alá foi o primeiro dia do ano, isto porque a religião deles não é igual à nossa eles são muçulmanos e nós cristãos”

Escrevi mesmo isto? De facto está aqui bem explícito, o que só demonstra a minha ignorância, então.

Talvez não seja tanto assim, pois em muitos aspectos, acho que me reduzi intelectualmente. Por exemplo, só recentemente voltei a escrever e se não fosse o computador corrigir os meus erros, daria mais que há 45 anos atrás e nem um inútil acordo ortográfico me ajuda.

Que coincidência! No aerograma seguinte falo de Camões e de poesia lírica. Que lindo texto escrevi no dia 17/1/73. Vou reler mais um parágrafo.

“ Alma minha gentil que te partis-te… Estes pequenos versos que compõe o soneto que te envio, referem-se à sua amada, que morreu afogada quando ele vinha da Índia, e sofreu um naufrágio, tendo salvo as folhas dos Lusíadas”. “Eu sei que nem qualquer pessoa gosta de poesia. Eu gosto”
Voltando ao início e como a reforma não chega para um mês, tal como os nossos salários na Guiné, vivo metade do mês bem e a outra metade mal-

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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18454: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 35 e 36: "Capturaram um turra, trouxeram-no aqui para o quartel. O tipo tem mesmo cara de bandido, se eu pudesse dava-lhe uma rajada de G3 que ele nunca mais nos voltava a atacar.”

Guiné 61/74 - P18466: História de vida (45): O meu saudoso mano mais novo, Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014) (João Schwarz da Silva) - Parte II


Alcobaça > São Martinho do Porto > 13 de Agosto de 2011 > Convívio da Tabanca de São Martinho do Porto > Os facebook..eiros Isabel, Pepito e Alice...

Foto (e legenda):© Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados [ Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Alcobaça, São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 11 de agosto de 2012 > 3ª edição do convívio anual da Tabanca de São Martinho do Porto > O anfitrião do encontro e régulo da Tabanca, Pepito,  diretor executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento, de férias em Portugal. Sempre otimista (mesmo em relação ao futuro do seu país, onde nada funcionava até então, a nível da administração pública...), falou-me com grande entusiasmo do novo projecto em que a AD estava envolvida, "Cacheu, caminho de escravos"...

Foto (e legenda): © Luis Graça (2012). Todos os direitos reservados. [ Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do texto do João Schwarz da Silva sobre o seu malogrado mano mais novo, membro da nossa Tabanca Grande, que nos deixou há 4 anos atrás. e que tem por título Carlos Schwarz (Pipito), 

Revisão / Fixação de texto / Subtítulos / Fotos: LG (*)


O meu saudoso mano mais novo, Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014) (João Schwarz da Silva) - Parte II



Entrada para o Instituto Superior de Agronomia, 
em Lisboa, em 1966

No período 1961-1967, passei pelo Técnico e pela faculdade de Ciências mas o que mais me divertia era o processo de contestação em vigor. Os dias de luto estudante seguiam-se a outros dias de manifestações e a corridas a fugir da polícia de choque. O Pipito entrou para Agronomia em 1966 e antes só o víamos nas férias em São Martinho.

No verão de 1967, depois de ter sido convocado a apresentar-me no quartel onde me esperava uma carreira de paraquedista militar na Guiné, desapareci calmamente para o Canadá,  tendo assim deixado Portugal, como país de vida, para sempre.

Em fins de 1973 fomos passar uns dias a Ayamonte (Espanha) onde os meus pais dispunham de uma apartamento emprestado na Isla Canela. O Carlos, a Isabel e a pequena Pepas [,Cristina,] lá apareceram. Lembro-me de passeios na praia apesar do frio natalício.

Mais tarde e ainda como residente no Canadá, respondendo a um anóncio da UIT [, União Internacional de Telecomunicações,] fiz um pedido para trabalhar na Guiné como perito em radiodifusão. Passei seis meses em Bissau em 1976, em condições de sonho, pois tinha um carro posto à disposição pelas Nações Unidas, vivia em casa do Pipito, tinha um local de trabalho no edifício dos correios onde estava situada a rádio e vivia um período de renascimento da Guiné onde tudo parecia possível.

Grande admirador dos filmes do Charlot

Foi um época extraordinária com a Guiné a atravessar um período revolucionário onde tudo ou quase tudo resultava do contributo de cada um. As barreiras sociais caíram, éramos todos camaradas. Assim quando era preciso descarregar um barco apelava-se à presença de voluntários. Nessa altura as lojas pouco ou nada vendiam e, quando chegava uma remessa de um bem qualquer, ele desaparecia imediatamente dos Armazéns do Povo. Foi assim que um dia vi alguém sair dos Armazéns do Povo tendo, à cabeça, dezenas de rolos de papel higiénico, ou seja todo o stock do que estava disponível.

No cinema da UDIB,  e graças a acordos com outros países revolucionários, havia festivais de cinema nomeadamente argelino, com a projecção de filmes tais como “Chronique des années de braise” e “Le vent des Aurès”.

A propósito de cinema, o Pipito grande admirador de Charlie Chaplin,  tinha uma colecção de filmes do Charlot muito completa. Na casa onde ele vivia, na Rua Vitorino Costa, assisti a numerosas sessões de projecção de filmes do Charlot com o projector instalado em cima do muro exterior da casa e com o ecrã na varanda da casa. Os miúdos que viviam ali ao pé, vinham aos montes assistir às sessões de cinema a tal ponto que começaram a aparecer miúdos que aproveitavam a sessão de cinema para vender mancarra. Lembro-me que o filme mais apreciado pela miudagem era o Charlot Policia que fazia as delicias de todos.

As ilusões revolucionárias perdidas...
mas não a necessidade de continuar a lutar
por uma sociedade mais justa

Ao jantar em casa do Pipito tínhamos muitas vezes discussões de natureza politica. Ele nessa altura continuava a ser um marxista-leninista convicto, guiado que era pela necessidade de resolver com iniciativa, trabalho e abnegação os problemas sociais e económicos do país. Lembro-me nomeadamente de discussões épicas sobre o papel de Mao na China e sobre os resultados a que se tinha chegado neste país. As vezes eu tinha a audácia de mencionar os “ilustres feitos” do camarada Enver Hodja, da Albânia revolucionária, mas o Pipito não admitia que se pudesse pôr em causa a utopia na qual ele acreditava. Eu tentava proclamar que o marxismo-leninismo era obsoleto, e o Carlos afirmava que eu era um adversário e inimigo do proletariado e da revolução.

Penso que mais tarde perdeu as ilusões revolucionárias sem no entanto perder o fundamental, ou seja,  a necessidade de lutar para uma sociedade justa, sem prepotências, sem abusos, sem uma dominação financeira. Acreditava no esforço próprio, na liberdade, na necessidade de evoluir experimentando e na disciplina individual e colectiva. Era um radical determinado mas praticava uma radicalidade sem prepotência.

Anos mais tarde, ainda eu estava no Canadá, penso que devia ter sido em 1980, voltei no Natal à Guiné e fomos todos com os meus pais acampar em Varela. O Pipito levou o material de campismo, os mantimentos, o frigorífico e o gerador eléctrico pois em Varela já não havia hotel e luz eléctrica muito menos. Passámos um fim do ano formidável e até houve fogo de artificio.

Em 1981 apareceu uma oportunidade de trabalho nas Nações Unidas em Genebra. Candidatei-me sem muitas esperanças e, em 1982, deixei o Canadá para sempre. Passei nove anos em Genebra. O Carlos aparecia de vez em quando, pois ia a Genebra tratar de vários assuntos com o Conselho Ecuménico das Igrejas que financiava as múltiplas iniciativas do Carlos na Guiné.


As férias em São Martinho do Porto...
e as suas últimas horas de vida na casa da nossa mãe 

Quando íamos de férias a Portugal, passávamos uma parte do verão em São Martinho do Porto sempre na mesma casa que pouco a pouco se foi tornando muito pequena, pois as crianças iam crescendo. A casa tinha sido oferecida aos meus pais pelo meu avô [, Samuel,] quando os meus pais se casaram. A barafunda quando lá estávamos todos era gigantesca a tal ponto que,  depois da morte do nosso pai, em 1983, decidi mandar construir uma casa ao lado da casa dos meus pais.

A partir dai a nossa relação sofreu uma distanciação que nunca aceitei. O Carlos por razões que era difícil explicar, era capaz de pôr um termo a uma relação de um dia para o outro. Ainda durante a vida do nosso pai,  o Carlos deixou de lhe falar durante uns tempos, muito simplesmente o Carlos não aceitava, nem a brincar, que se pudesse criticar, mesmo a sorrir, o comportamento dele. Eu cometi o erro de lhe falar da “valise en carton” [, "mala de cartão",] que ele levava quando ia a Paris. Não gostou da piada e a partir dai nunca mais teve uma conversa aberta comigo.

Em 2014, horas antes da morte do Carlos, ainda ele estava em casa da minha mãe, fui vê-lo deitado na cama. Todos sabíamos que a partida do Carlos estava para breve. Falei-lhe nas cassetes dos cursos de direito do nosso pai na escola de Direito de Bissau, que eu tinha descoberto. No fim perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Sorriu com tristeza e baixou a cabeça de cansaço ou de dor. Repousa hoje no cemitério de Bissau na mesma campa que os meus pais e o meu irmão Henrique [, o Ica].

6 dez 2017 14:28

Texto: © Joao Schwarz da Silva (2017). Todos os direitos reservados
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Nota do editor:


Guiné 61/74 - P18465: (Ex)citações (332): Comentário do historiador Armando Tavares da Silva ao Poste 18460: Notas de leitura (1052) de Mário Beja Santos



Beja Santos faz uma leitura e uma interpretação incorrectas do que está escrito em "A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)". Nunca aí se disse ter havido na Guiné “uma espécie de luta de classes entre o Governo/administração e os comerciantes”, ou mencionado algo que pudesse ser considerado uma tal “luta de classes”. Quanto a “alguns levantamentos”, faço-lhe ainda notar uma diferença que convém ter bem presente: o que “aconteceu na luta armada” é uma coisa, e o que “motivou a luta armada” é uma coisa totalmente diferente.

Mas vejamos o que está escrito na obra mencionada. O que nela se escreve, por exemplo, pela mão de Manuel Maria Coelho, é que uma “chamada política da colónia” tinha separado em dois grupos os seus habitantes, “nativos ou emigrados, quer da metrópole, quer principalmente de Cabo Verde, compreendidos os funcionários públicos e até os militares”. Podiam classificar-se “simplesmente [por] patriotas e antipatriotas”.

Acrescenta Manuel Maria Coelho:  

“Aqueles eram os que se sentiam orgulhosos por que a Guiné seja, efectivamente e inegavelmente uma colónia inteiramente portuguesa; e estes – os antipatriotas – os que se sentiam morder de raiva por a nação portuguesa, o governo, não continuarem à mercê das condescendências e das tolerâncias de quem exercia na Guiné um poder tão extenso e tão profundo, que as vidas dos cidadãos, e principalmente das autoridades, estavam pendentes das intrigas, dos ódios e das aspirações desordenadas desses ambiciosos sem escrúpulos”.

No relatório da sindicância de que tinha sido incumbido por António José de Almeida (1917), na qual que se incluía a abertura de um “rigoroso inquérito sobre a vida pública da província para assim se esclarecerem tantas e tão variadas queixas que chegavam ao Ministério das Colónias”, o mesmo Manuel Maria Coelho escreve que no decorrer dessa sindicância apercebera-se do clima de intriga política e de interesses das várias facções de que se compunha a sociedade guineense. Verificara que a presença do elemento cabo-verdiano desempenhava aí grande influência. Era o pano de fundo sobre o qual tudo se tinha passado e que em parte o explicava (as operações de Teixeira Pinto em Bissau em 1915 e o seu rescaldo, incluindo as acusações que a este foram dirigidas). Entre esta presença Manuel Maria Coelho ressalta a do secretário-geral, Sebastião José Barbosa. E escreve:  

“Sebastião Barbosa é de Cabo Verde, ilha do Fogo [...] e como quase todos os cabo-verdianos, do Fogo, principalmente, não têm o menor amor a Portugal, procurando todos os que pela Guiné se encontram, com raras excepções, tomar conta desta província, de cuja administração se apoderaram e que querem conservar em seu poder como colónia de Cabo Verde, porque a não consideram colónia portuguesa”.

Vejamos ainda o que disse o governador Oliveira Duque relativamente às operações em Bissau em 1915: para as iniciar teve de “lutar fortemente contra más vontades, que encontrei até em funcionários altamente colocados, más vontades que atribuía e ainda atribuo ao desejo de que as coisas se mantivessem no pé de soberania fictícia em que estavam, e outras provenientes de animosidades pessoais conta o capitão Teixeira Pinto”.

E sobre as acusações que a este foram dirigidas, escreve Oliveira Duque:  

“A reputação de cada um está na Guiné à mercê dos nossos inimigos Cabo-verdianos, Guineensese e também índios que, conjuntamente com alguns, raros, europeus pretendem fazer da Guiné um feudo para seu exclusivo usufruto, o que vejo com pesar que cada vez mais se aproxima do seu desiderato”.

Mas recuemos a 1891 e vejamos o relato dos graves acontecimentos de Bissau desse ano, das diligências tendentes a compreender e explicar a sua origem e a subsequente procura da paz e harmonia, relato que está cheio de referências a “intrigas”, e procuremos a sua razão de ser. Estes acontecimentos foram precedidos e desenrolaram-se no clima de hostilidade entre as duas tribos papeis da ilha de Bissau, Intim e Antula.

Ora o governador Gonçalves dos Santos estava convicto de que estas hostilidades se deviam às ”intrigas dos habitantes da praça” , que “formando dois partidos” entre os beligerantes ”alimentavam a guerra”. O mesmo governador dirá que “o gentio branco e mulato (filhos da ilha do Fogo, principal colónia em Bissau) estão [...] mancomunados com os gentios e grumetes para nos desrespeitarem e desacatarem a autoridade; e os estrangeiros colaboram neste vil procedimento”, fim para que se serviam de “intrigas de toda a ordem”. E na procura de nomes dos instigadores do clima de desconfiança, um grumete afirma que “se fossem só portugueses e não do Fogo os que estavam na praça, não havia nunca guerra, nem com os grumetes, nem com Intim”. Pode perguntar-se: houve aqui algum “levantamento”?

A terminar mencionemos as palavras de Vellez Caroço no seu relatório de 1921-22 referindo-se aos problemas e dificuldades que teve de enfrentar para fazer “o saneamento” da província. Com a “compreensão nítida do presente” e a “visão segura do futuro” escreve Vellez Caroço:
“Cairei, prestando um serviço ao meu país, sacrificar-me-ei servindo a República, porque o embuste, a falsidade e o despotismo jamais voltarão a imperar na Guiné, e a obra metódica e persistente da desnacionalização desta rica província, que dia a dia se ia afirmando, teve aqui o seu termo. Como governador assim o espero, e como patriota assim o desejo”.

Vellez Caroço tocava aqui num ponto que outros que o antecederam já tinham sentido: a tentativa surda de afastamento da colónia da esfera de influência portuguesa. Ainda no mesmo relatório escreve Vellez Caroço:  

“Hoje já é vulgar ouvir na Guiné, entre o elemento cabo-verdiano, que nós somos estrangeiros”.

E pergunta: O que seria se “por qualquer motivo esta colónia amanhã deixasse de estar debaixo do domínio português?”

Por considerar que “a obra de desnacionalização [da] colónia era lenta, mas era contínua e persistente”, tornava-se necessário actuar para que não se continuasse a dizer que a Guiné portuguesa era “uma colónia de Cabo Verde”. E para isso era preciso mais atenção dos “compatriotas metropolitanos”, para que para a Guiné “lancem as suas vistas […] e para aqui venham trabalhar”.

E, a propósito, nota que “o nativo da Guiné tem tantos direitos como o natural de Cabo Verde, e na sua colónia, até tem mais. Auxiliemo-los, pois, nesta simpática empresa. Façamos do guineense um cidadão português com plena consciência dos seus direitos e correlativos deveres”. Era um desejo patriótico do governador, porventura difícil de atingir.

Para finalizar e voltando às considerações de Beja Santos em que refere o “projecto de independência de que Amílcar Cabral foi a bandeira”, creio poder dizer ter esse projecto terminado com os acontecimentos de 14 de Novembro de 1980. É bom perguntar-se: que motivação esteve na base destes acontecimentos e quais foram as suas consequências?

E os “grandes comentadores” que dislates é que cometem? É preciso é não ir atrás deles...

Armando Tavares da Silva

PS: Veja-se o meu Post P17819 de 3-10-2017[1] no qual estas questões são afloradas e se constata que Beja Santos nos comentários à obra acima referida resumiu a duas linhas a presença de Manuel Maria Coelho na Guiné, na prática olvidando um período de tempo e de acção reflectidos em quase dois capítulos desta obra.
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Notas do editor

[1] - Vd. poste de 3 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17819: Historiografia da presença portuguesa em África (95): A intriga política na Guiné, 1915-1917 (Armando Tavares da Silva, historiador)

Último poste da série de 10 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18400: (Ex)citações (331): Os problemas no CTIG logo em 1963: memórias de cá e de lá (Jorge Araújo)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Guiné 61/74 - P18464: Bibliografia de uma guerra (87): Walt, por Fernando Assis Pacheco (1937-1995), jornalista, tradutor, escritor e poeta (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2017:

Queridos amigos,
Convém recordar que os primeiros anos após o 25 de Abril foram marcados seja por uma literatura irreverente, de um quase folguedo e bota-abaixo, seja por não pouca documentação de vingança, ajustes de contas e até assassinatos de caráter, como tudo era permitido, não faltaram insultos e calúnias, acreditava-se na impunidade.
É nessa paisagem que Walt precisa de ser redimensionado, arrancou com grande sucesso e hoje não se vislumbra, lamentavelmente, qualquer referência a este vistoso testemunho. Fernando Assis Pacheco socorreu-se de uma camuflagem óbvia, salta à vista desarmada que nenhum leitor confia tratar-se do Vietnam, acresce que o próprio escritor desvela o postiço da encenação, o desencontro dos nomes, toda aquela algazarra nem guerra mete é o início da viagem, ainda em terra, ali se condena a guerra, e mais bizarra que a missão que lhes está reservada é a bizarria das histórias que por ali se contam.

Um abraço do
Mário


Walt, niilismo e camuflagem na literatura da guerra colonial

Beja Santos

Foi um verdadeiro sucesso quando surgiu no final da década de 1970, Walt, por Fernando Assis Pacheco (1937-1995), jornalista, tradutor, escritor e poeta. Percebia-se à vista desarmada que não era a guerra do Vietnam a razão de ser daquela mirabolante noveleta, como ele próprio confessa:
“Este livro é uma prosa acerca dos malefícios da guerra entendidos no tempo do Inefável Marcial Caneta, quando se falava no Vietnam por coisas da causa. Causa que ninguém desposava; coisas que ficaram, alarves, para a gente conhecer enfim como puderam ser, e porquê. Não tenho por isso nenhum remoroso de estilo. Eu queria apenas dizer ‘Gare Marítima de Alcântara’, ‘Lisboa’, num ano qualquer entre 1961 e 1974.
Meto na prosa soldados, civis, incivis, chulos e putas, eu próprio estou lá, disfarçado de narrador-alferes, choro à bruta, gozo como um cabinda, narro, minto, finto o leitor, apetecia-me mandar o país Portugal ao tota, mas em segunda leitura sou um tipo baixo de moral e paro a meio palmo do traço proibido – ternuras!
O coração em brasa pelos indefesos, xandras incluídas, vem do tempo em que eu aprendia jornalismo. Atenção à Brenda, esse pedaço de coxa! E ao Joe Louis, afilhado inevitável! Bebi em todas as barras de zinco de Lisboa até encostá-los ao peito.
Viva o Português de 400 calhoadas ao minuto, que é por onde respiro”.

O barco que os aguarda chama-se Apocalypse. “Vejo claramente visto que já não é nova, a besta, mas para irmos aonde vamos qualquer traineira servia, qualquer caca inventada à pressão pelos altos poderes sereníssimos, desde que flutuasse. Atrás de mim, e de que partem vozes, o pelotão alinhado.”

As senhoras do Movimento Nacional Feminino são tratadas por Women of America: “Uma é alta, magra, ventas caiadas a batom, espalmada porém de mamas, a outra gorda e baixa, de um gordo e baixo de toucinho rançoso”. Andam a distribuir maços de cigarros sacados de uma bolsa de plástico. Inevitável, uma colisão com os gajos da PM, trava-se uma conversa hilariante, ali ao lado há uma alta vozearia que mete acusação de roubo de vários haveres, um chuleco arrepende-se. Aparece um major, não irá para a guerra do Vietnam, mas recapitula histórias do passado. Muitos a fazer pergunta: os senhores vão para o Vietnam? A resposta era sempre a mesma: Saigão. Conviria, para efeitos melhor entender esta prosa niilista, que joga com absurdos, nomes de militares do narrador-alferes transmutados em norte-americanos, dá conta de que tudo se passa à beira do cais, é o exato momento em que se avultam recordações, por exemplo daquilo que no passado se chamavam as meninas e as senhoras de mau porte, logo Brenda, assim desenhada: “Brenda de cabelo ruivo, ruivo pouco natural, atentas as tintas. O indicador direito castanho dos cigarrómetros. Mamas caídas, que se adivinhavam e eu depois tive tempo de analisar com a paixão do entomologista. Quarentas bem medidos, ou como ela metaforizou no minuto do chuveiro:
“Desculpa lá, pareço uma cafeteira toda rota”.
“Pareces nada”.
“Pareço. Precisava de dez pingos de solda para não dar barraca. Olha, deixa andar”.

Também se fazem previsões astrológicas, o narrador dá a sua data de nascimento, 1 de Fevereiro, nascido às seis da tarde, signo do Aquário.
A vidente responde:  
“É um signo muito especial, masculino e aéreo. O planeta dominante é Urano. Os nativos deste signo têm uma natureza tranquila, paciente, fiel e perseverante, geralmente são filósofos, refinados e ambiciosos”.
E depois vem a sentença:  
“Os nativos do signo do Aquário eliminam do caminho a maioria dos incidentes conflituosos, de sorte que o meu fraco préstimo se limita a desejar ao meu alferes dois anos de comissão muito frutuosos no Vietnam, como cumpre. Agradecia que o meu alferes pagasse antes em notas de dólar para eu ter trocos para outras consultas mais breves.

Prossegue o contingente de apresentações, as histórias de estúrdia, há para ali engatadores, aldrabões, chico-espertos, muitos copos, muita conversa ligeira, e volta-se a falar da Brenda, no fundo é uma das heroínas que fica em terra mas que aliviou muita tensão antes de se subir no Apocalypse para aquela inesquecível viagem: 
“A Brenda tem quarenta-zi, crava as pessoas, dá duas de conversa sem grande estilo, cheira mal do sovaco, usa uma roupa interior de cores idiotas, besunta o travesseiro com batom, não leu mais nada nos últimos cinco anos depois de uma porcaria de John O’Hara que saiu em filme, tem os dentes todos estragados dos chocolates, é um bocado estrábica, acorda de noite a falar do tempo, pinou-me um lenço com as iniciais do meu padrinho bordadas, pinou-me uma fita da boina para recordação”.

Aproxima-se o momento da partida, até parece que aquela orgia palavrosa vai ser metida na ordem, pois escreve-se:
“Soava ao meio-dia na torre de uma igreja deste fuso horário e ordens foram transmitidas à gare marítima para os oficiais terem os pelotões prontos daí a cinco horas. Partida às 17 prefixas, havendo feito de feição”.
Mas é puro engano, os relatos delirantes ganham outra dimensão, há para ali gente que anda na tropa a um horror de tempo, gente que confessa que sabe bem o que é que vai fazer até ao Vietnam, aquele pelotão tem gente de todos os estados norte-americanos, brancos, pretos e índios e outros descendentes de outras colorações, contam-se nas histórias naquela gare marítima com um vasqueiro monumental que aqueles três mil homens da expedição fizeram à passagem de uma carrinha da PM. Voltam a aparecer senhoras do Women of America, novo diálogo hilariante, a roçar o truculento, e nisto soa a sirene do Apocalypse, cada um pega na bagagem e sobe o portaló, nosso alferes recomenda que se suba com a espinha direita. "A viagem para Saigão vai começar e ficamos a saber qual é o nome do nosso alferes, é Walt".

Não mais, neste vastíssimo baú da literatura da guerra colonial, se voltou a escrever com tanta profusão este carrocel anarca, tão vistosa camuflagem para encenar o que lhes ia na alma, na Gare Marítima de Alcântara.

Resta dizer que Fernando Assis Pacheco foi fazer a sua guerra em Angola.
E disse.
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18441: Bibliografia de uma guerra (86): “África, Quatro Ases e uma Dama”, por Fernando Farinha, Daniel Gouveia, Conde Falcão, Pedro Cunha e Maria Morais; Programa Fim do Império, Âncora Editora, 2017 (Mário Beja Santos)