sábado, 11 de abril de 2020

Guiné 61/74 - P20844: Os nossos seres, saberes e lazeres (385): Uma memorável visita ao mundo albicastrense (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Setembro de 2019:

Queridos amigos
Enquanto o viandante se encaminha para o esplendoroso Centro Cívico, um espaço assombroso de fruição e lazer no centro da cidade de Castelo Branco, dá-lhe para recordar o que era esta região há cerca de cinquenta anos, as chamadas acessibilidades eram mínimas, aqui se chegava de comboio ou de camioneta, atravessar o Zêzere só pela velha ponte filipina, vinha-se então por Cernache de Bonjardim. Contava-lhe o carpinteiro que lhe refizera a casa de Casal dos Matos, em Pedrógão Grande, que saía do Batalhão de Caçadores 6, aqui instalado, e para chegar a sua casa no lugar de Figueiró dos Vinhos era uma odisseia de boleias e caminhadas a pé por montes e vales. Como tudo mudou em cinquenta anos, felizmente, há sopros de interioridade, e são bem álgidos, ameaças de despovoamento, mas Castelo Branco é uma verdadeira pérola na Beira Baixa, há para aqui bons artífices de planeamento urbano e as imagens que se seguem são um hino à vida.

Um abraço do
Mário


Uma memorável visita ao mundo albicastrense (2)

Beja Santos

Custa sair do jardim episcopal, nova espiada, aproveita-se para tirar estas imagens, e depois atravessa-se para o jardim em frente. É um espaço de apaziguamento, para ser sincero o viandante acha tudo nos conformes para zona de lazer, mas terá uma surpresa, lá para o fundo aparece aquele belo poema de João Roiz de Castelo Branco, eram obrigatório na disciplina de Português dada a sua formosura estética e esplendor clássico:

“Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.”

Diversas obras de João Roiz, poeta quinhentista, constam do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Sabe bem encontrar este belo poema de devoção amorosa, que Amália Rodrigues tão bem cantou, num aprazível jardim de Castelo Branco.





No amplo espaço da Devesa temos o Centro Cívico, pontuado por verde, espaçosas esplanadas de cafés e restaurantes, como o tempo está contado, o viandante detém-se na fachada do Cineteatro Avenida, impossível não ir bisbilhotar depois o Centro de Cultura Contemporânea. Este cineteatro impressiona pelo seu traço moderníssimo. Inaugurado em 1954 foi devorado por um incêndio em meados dos anos 1980. Está requalificado, é este primor, já não é o cinema de antigamente mas não deixa de ser uma ativíssima casa de cultura.


Castelo Branco teve várias unidades militares, o viandante para frente ao portão do que foi o Regimento de Cavalaria 8, agora é um centro de atendimento, felizmente está bem conservado, os seus edifícios complementares estão devidamente ocupados. Dá-se a volta ao edifício para tirar uma imagem de bela azulejaria constante da entrada, alusiva aos atos de incorporação e de licenciamento.



Fica-se de boca aberta, o Centro de Cultura parece querer levantar voo, para lá caminha afanosamente o viandante, ainda por cima está anunciada uma exposição de Ângelo de Sousa. Toca a descer para depois subir.



Há uma frase do artista Ângelo de Sousa que se deve reter antes de usufruir dos seus trabalhos. Ele pretende “o máximo de efeitos com o mínimo de recursos, o máximo de eficácia com o mínimo de esforço e o máximo de presença com o mínimo de gritos”, seja no desenho, na pintura ou na escultura. A exposição a que se vem intitula-se “Ângelo de Sousa: Quase tudo o que sou capaz”, num programa de exposições e apresentação de obras da coleção de Serralves. Moçambicano por nascimento, foi no Porto que este artista fez a sua educação artística e construiu a sua obra. O que a exposição permite ver é despojamento, experimentalismo, depuração. Escreve-se na publicação alusiva à exposição: “Em termos estritamente iconográficos, Ângelo de Sousa sempre se socorreu daquilo que tinha à mão, mesmo à frente dos seus olhos, desenhando, pintando, fotografando e filmando objetos emotivos que todos vemos quotidianamente e a que já não prestamos demasiada atenção: plantas, flores, mãos, céus, nuvens. Nos seus desenhos pode observar-se esta vontade de trabalhar com elementos simples, nomeadamente uma declinação de signos primordiais sobre fundos neutros, que depois dará origem a exercícios abstrato-geométricos que correspondem à fixação de cores geometrizadas em formas fechadas ou à mera repetição de elementos essenciais do desenho, como linhas e pontos”.



Saudado o mestre, sobe-se e desce-se para gozar o esplendor das entranhas do edifício. O arquiteto catalão esmerou-se e ganhou a aposta, o viandante já se comprometeu consigo próprio na próxima visita, seja quando for (espera-se que seja em breve) aqui se sentará a contemplar, sem a pressão do tempo, esta escadaria que não tem rival.
E daqui se parte para o Museu de Francisco Tavares Proença Júnior.


(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20811: Os nossos seres, saberes e lazeres (384): Uma memorável visita ao mundo albicastrense (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20843: (Ex)citações (364): o amendoim e o caju, a maldição do colonialismo, em tempo de pandemia de COVID-19 (Manuel Luís Lomba, alcaide de Faria, Barcelos)

I. Comentário(s) de Manuel Luís Lomba ao poste P20829 (*)

Manuel Luís Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

(i) nasceu em Faria,  concelho de Barcelos, em 1 de Maio de 1942;

(ii) foi funcionário da construtora Soares da Costa onde alcançou o cargo de Director;

(iii) promoveu o renascimento e é presidente da Direcção do Grupo Alcaides de Faria

(iv) é autor dos dois volumes de Faria: "Terra-mãe da Nacionalidade":

(v) é autor dos livros:  “Guerra da Guiné: A Batalha de Cufar Nalu” (por Manuel Luís Lomba, Terras de Faria, Lda., 2012); "Da Senhora e Da Franqueira: Memórias das nossas Origens" (Barcelos,  edição de autor, 2019); 

(vi) tem cerca de 70 referências no nosso blogue; está na Tabanca Grande desde  17/9/2012 (**)


1. Em tudo o relativo à Guiné, nós, veteranos da sua guerra, não raro evidenciamos o romantismo ou o amor (platónico) àquela terra e gente.

Para introduzir a cultura do amendoim (mancarra, para os guineenses e alcaguita, para os alentejanos) e do caju ou "fruto falso", na economia da Guiné-Bissau, os nossos antepassados, inventores do "colonialismo", tiveram de descobrir o Brasil...

Na réplica do Cherno Baldé ao poste do Patrício Ribeiro está implícito um protesto: antes da chegada dos portugueses, do seu amendoim e do seu caju, já os guineenses eram auto-suficientes - morreriam de vírus, mas não morriam à fome!

A propósito da Guerra da Guiné, a ordem dos factores não é arbitral.

A sua iniciativa será "património imaterial" dos seus naturais e à custa dos "colonialistas portugueses". Consta-nos que Nuno Tristão e a sua malta andavam em turismo aquático (em demanda de "galinha à cafreal"?), os nalus montaram-lhe uma emboscada e ele "lerpou" com uma seta envenenada e sem dar um tiro. Nalús e balantas esperaram 500 anos e, à molhada (e sem fé em Alá, como animistas), atacaram o quartel de Tite - "património material", como o momento do início da Guerra da Libertação, que durou 11 anos para libertar seu território, mas vai para 60 anos que não liberta o seu Povo...

Será que o caju substituiu o amendoim?

A CUF (Casa Gouveia) fora sempre o maior comprador de amendoim e, acontecido o cessar-fogo, foi o primeiro "capitalista-monopolista" português a entender-se com o PAIGC em matérias de negócio. Ambas foram nacionalizadas. Ao desmantelar-se, a CUF generalizou a fome na península de Setúbal, um "bispo vermelho" emergiu à altura da situação (D. Manuel Martins); a Casa Gouveia e a sua organização foi reciclada em Armazéns do Povo e as suas prateleiras e armazéns vazios foram uma das razões para o golpe de Estado de 1980, em Bissau.

O modelo de "economia planificada" foi concebido e materializado pela "inteligência" do PAIGC, obra-prima do desconhecimento do país e povo, reforçada pela "inteligência" de outros de diferentes nacionalidades, entre os quais portugueses, militantes do nosso PREC e da sua falência. A Guiné-Bissau será um caso-vítima do tráfico da "Cooperação".

A dinâmica da fileira do amendoim assentava no micro-produtor e no comércio retalhista, que, pelo novo paradigma, passaram a "funcionários públicos", mas, em vez de o entregar aos Armazéns do Povo e à sua burocracia, passaram a contrabandeá-lo pelas fronteiras da Guiné-Conacri e do Senegal, o que provocará a ruptura dos fornecimentos à indústria portuguesa.

2. O comentário ao tema do Patrício Ribeiro-Cherno Baldé (*)  saiu-me longo, a culpa principal será imputável ao "terrorista" Covid 19 e a secundária ao alvoroço que sinto em comunicar com dois camaradas, com os pés e a vida no chão da minha nostálgica Guiné. Levo 4 semanas de confinamento, e, se escapei ao dito cujo, não escapei aos tormentos do ácido úrico e da tormento - a "gota".

O que acabo de dizer acerca da dinâmica da cultura do amendoim reflecte a auto-crítica do seu primeiro PR Luís Cabral na RTP, que disse também ter fundado uma fábrica de sumos, com a exportação garantida para um supermercado de Cascais (era o Pão de Açúcar) e que morreu sem funcionar (o destino do Complexo do Cumeré e das principais indústrias, que a sua "Economia planificada" instalou).

Quanto ao caju, a Guiné começou a sua exportação em 1966, ano do meu regresso, tendo saboreado o seu "falso fruto" em Buruntuma e em Camajabá, (bem maduro, senão queimava-nos a boca), que parou pós-independência. Foi retomada em 1984 e alcançou elevada massa crítica, como riqueza da Guiné-Bissau.

E, retomando o parágrafo inicial, do feitiço da Guiné aos ex-combatentes, o comandante Alpoim Calvão passou de "terrível", na guerra de libertação, a dedicado amante da Guiné, tendo alcançado o estatuto de maior empreendedor país, criando centenas de postos de trabalho na cultura e fabricas de caju.

Vou aproveitar o espaço para bicar o comentário do Luís Graça  [, que citou  São Jerónimo, padre da Igreja do séc. IV: um cristão, depois de batizado, não precisa de tomar banho] (*).

S. Jerónimo, campeão do assédio e das tentações do sexo oposto, terá razão. Se o baptismo lava a alma para sempre e,  sendo o corpo o invólucro da dita, logo também ficará lavado.

Depois das suas comissões em Jerusalém, em contacto com as civilizações e culturas de judeus e muçulmanos, os cavaleiros medievais regressados criaram grandes choques sociológicos nos seus países - haviam assimilado a higiene deles, aparavam a barba, lavavam-se, tomavam banho e... perfumavam-se!

Os Templários viviam com tal carga de piolhos que o combate era um lenitivo - as estucadas e as lançadas amenizavam-lhes a coceira...

Cuidem-se dos IN - invisíveis mas sentidos. (***)
Ab

Manuel Luís Lomba
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 8 de abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20829: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (11): Viagem a Mansoa e a Bafatá, onde estamos a levar a água potável aos hospitais... Este ano, muita gente vai morrer, não da COVID-19, mas de fome: o caju ninguém o vem cá comprar...


(***) Último poste da série >  30 de março de 2020 > Guiné 61/74 – P20791: (Ex)citações (363): Os conflitos e a dedicação do povo (José Saúde)

Guiné 61/74 - P20842: Tabanca dos Emiratos (3): Cacei aqui, em Abu Dhabi, às 14h15, de ontem, mais um número redondo, os 10 milhões de acessos ao nosso blogue... Votos de Santa Páscoa para a Tabanca Grande (Jorge Araújo)




Emiratos Àrabes Unidos > Abu Dhabi > 10 de abril de 2019 > Jorge Araújo, o régulo da Tabanca dos Emiratos  caçou, às 14h15, o nº (redondo) dos 10 milhões de visualizações de página, no caso do nosso blogue.

Fotos (e legenda): © Jorge Araújo (2020). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso coeditor Jorge Araújo, que está nesta altura em Abu Dhabi (*):

Data - 10 de abril de 2020, 15h52

Assunto - 10 milhões de visitantes desde maio de 2010


Luís, obrigado por me teres lembrado que hoje estava convocado para uma nova "Operação". O objectivo era caçar o "Dez Milhões", cento e dois anos depois do soldado "Milhões" (Aníbal Augusto Milhais) ter sobrevivido durante a «Batalha de La Lys» (7 a 29 de Abril de 1918).

E o objectivo foi conseguido, como se prova no registo em anexo.

Envio duas hipóteses... escolhe a melhor!




Junto, ainda, o primeiro dígito desta nova séria de centena de milhar, hoje atingida, obtido no dia 21 de Fevereiro de 2020, às 17h40.

Para o Fórum envio votos de SANTA PÁSCOA, acompanhado de um saco de "DEZ MILHÕES" de amêndoas.

Abraço, Jorge Araújo.


Nº de visualizações de páginas nos últimos 12 meses,por dia 
(Total=792 906) (Fonte; Blogger)

2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jorge, pelas tuas e nossas contas: desde 16/11/2019 até 10/4/2020, vão 146 dias... Nesse período de tempo tivemos 300 mil visualizações de página, grosso modo, visitas...O que dá uma média diária de 2050, o que está dentro da média do ano anterior (**).

 Ao fim destes anos (vamos fazer 16 anos de existência, em 23/4/2020), temos um total de 11,8 milhões de visualizações de página, quase 12 milhões, o que deverá ser atingido daqui a 3 meses.

Segundo as estatísticas do nosso servidor, nos últimos 12 meses, o nº de visualizações rondou os 800 mil (vd. infogafia acima), o que dá uma média diária de 2170.

Tivemos um maior nº de acessos período de outunbro de 2019 a janeiro de 2020: em 13/10/2019, antigimos o pico (16599). Nas últimas três semanas, correspondentes ao estado de emergência, em que estamos confinados em casa, parece haver uma ligeira  tendência para o aumento das visualizações. Em 19/3/2020, por exemplo, ultrapassamos as 8 mil.

Obrigado, em nome de toda a Tabanca Grande, pelo saco de amêndoas doces, que vão saber bem neste tempo amargo.

Guiné 61/74 - P20841: Parabéns a você (1785): Jorge Félix, ex-Alf Mil PilAv, Alouette III, da BA 12 (Guiné, 1968/70); Jorge Picado, ex-Cap Mil, CMDT das CCAÇ 2589 e CART 2732 - CAOP 1 (Guiné, 1970/72) e Manuel Marinho, ex-1.º Cabo At Inf do BCAÇ 4512 (Guiné, 1972/74)



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Nota do editor

Último poste da série de 9 de Abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20834: Parabéns a você (1784): Jorge Canhão, ex-Fur Mil Inf do BCAÇ 4612/72 (Guiné, 1972/74); Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art MA da CART 1659 (Guiné, 1967/68) e Cor PilAv Ref Miguel Pessoa, ex-Tenente PilAv da BA 12 (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Guiné 61/74 - P20840: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (7): Ervilhas de quebrar com chouriço de porco preto alentejano e arroz: receita da "Chef" Alice Carneiro... E recomendações (nutricionais) da Direção-Geral de Saúde, para grandes e pequenos, em tempo de confinamento por causa da pandemia de COVID-19




Ervilhas de quebrar com chouriço de porco preto alentejano com arroz: uma iguaria do Norte, confeccionada pela "Chef" Alice Carneiro...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Queridos/as amigos/as, é um momento duro, nas nossas vidas, aquele por que estamos a passar, em Portugal, no resto da Europa e do Mundo... De uma maneira ou doutra temos que nos animar uns aos outros... A solidão seria devastadora... E temos que nos alimentar. E cuidar da alimentação dos mais novos... e dos mais velhos.

Olhem, junto aqui umas fotos com as ervilhas de quebrar, com arroz e chouriço de porco preto alentejano, que a "Chef"Alice cozinhou ontem... Foi o nosso almoço... Ontem tivemos um reabastecimento de frescos... Há pequenas empresas aqui da Lourinhã a reinventar o seu negócio...e que fazem entregas em casa, de frutas e legumes...

A Alice, nortenha,  tem sido extraordinária: foram mulheres como ela, e tantas outras de Norte a Sul, que fizeram e aguentaram este pequeno país durante um milénio,, e inicialmente confinado aos vales do Sousa e do Tâmega... Alimentava a nobreza que fazia a guerra e o clero que rezava...

Não sei se temos futuro, enquanto país, acho que  sim, com a nossa extraordinária resiliência... mas temos um património, material e imaterial, fabuloso, incluindo as nossas "comidinhas"... 

Eu, que não sou dado a  grandes euforias nem  a grandes depressões, tenho um grande orgulho nela, por muito refilona que às vezes seja... Vamos ver como dobramos o "cabo Bojador" que vai ser a nossa Páscoa...

A Alice sempre viveu a Páscoa muito intensamente... Sempre passamos a Páscoa no Norte, aliás duas Páscoas: na Madalena, Vila Nova de Gaia, no domingo, e em Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, na segunda feira... A explicação é simples: o "compasso" leva dois das a percorrer as casas da antiga freguesia de Paredes de Viadores... Pelo o domingo de Páscoa na Quinta de Candoz é (ou era) sempre à segunda feira...

Este ano, pela primeira vez, em mais de quarenta anos, a Páscoa é vivida aqui no Sul, em terra de mouros, pouco cristãos e ainda menos... fiéis. O que quer dizer que não haverá o célebre anho assado com arroz de forno... Mas posso fornecer a receita, ou pelo menos mostrar as fotos dos outros anos... amanhã ou depois...

Pois é, amigos, este ano não há arroz pingado para ninguém... Vamos contentar-nos com o leitão do Carlos dos Leitões do Nadrupe, a terra onde a minha mãezinha me foi parir... (Ele aceita encomendas em modo... take away, que é como o pais está  a funcionar...).

E,  não havendo compasso,  também não há as tradicionais quadras pascais!... O poeta está  zangado com os santos que andaram distraídos e não nos alertaram a tempo para a maldita COVID-19 que aí vinha...  Mas também diz o povo: "Quando Deus não quer, os santos não podem"... E contra o poderoso céu o que é pode a pobre terra ?!...



Camaradas, não se esqueçam, na vossa dieta de confinamento, dos produtos frescos, frutas e legumes... Se puderem, comprem produtos da época, da nossa horta portuguesa: estamos na época nas ervilhas e favas, que eu adoro. E as bananas, se possível da Madeira.. Temos que ajudar os nossos agricultores...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa da brochura  "Vamos pôr a alimentação saudável em casa: cuidados alimentares e atividades para crianças em tempos de COVID.19" (edição da Direção Geral de Saúde, 2020, 26 pp.), 
disponível aqui em pdf.


A Roda dos Alimentos  (p. 5)

Uma refeição completa (p. 10)

Cortesia da Direção-Geral de Saúde (2020)

2. E já que falamos de "comes & bebes", fica aqui também uma sugestão: descarreguem esta brochura da Direcção Greal de Saúde, "Vamos pôr a alimentação saudável em casa: cuidados alimentares e atividades para crianças em tempos de COVID.19"...

Se calhar os nossos filhos e netos precisam do nosso conselho e sabedoria... Mas é bom também aprendermos mais... com os nossos nutricionistas... Veja-se o que recomenda a nossa Direção Geral de Saúde:


(..) Alimentação saudável em casa.

A rotina de milhares de crianças foi interrompida pela necessidade de evitar a propagação da COVID-19. Mais tempo de confinamento em casa, mais comida disponível a toda a hora e mais horas em frente ao ecrã podem potenciar o sedentarismo e o consumo de alimentos hipercalóricos de má qualidade nutricional. 

Nestas condições, o ganho de peso é uma possibilidade, não só para as crianças como para toda a família. Mas, também, podemos ver este momento como uma oportunidade para promover o consumo alimentar saudável no seio da família e promover a aquisição de competências de compra e confeção de refeições saudáveis que há muito podia estar adiada.

Estes são alguns dos motivos pelos quais, a Direção-Geral da Saúde, através do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável publica este breve manual destinado a todos aqueles que por estes dias têm crianças em casa. (...)

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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20833: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (6): Da Tabanca da Lapónia com amor (e humor): (i) bolo de papel higiénico: (ii) sopa de grão; e (iii) poncha aquecida... Só faltam as... "côbinhas" quentes lá das nossas berças! (José Belo)

Guiné 61/74 - P20839: Boas Memórias da Minha Paz (José Ferreira da Silva) (6): Bó Coelha, uma força da natureza, com 100 anos, está a resisitir ao Coronavírus

A centenária Bó Coelha


1. Em mensagem do dia 9 de Abril de 2020, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), enviou-nos esta Boa memória da sua paz, dedicada à senhora sua Mãe, uma centenária que parece ter vencido o terrível Coronavírus.


BOAS MEMÓRIAS DA MINHA PAZ

5 - Com 100 anos está a resistir ao Coronavírus!

Bó Coelha, essa força da natureza.

Faz hoje 62 anos que ficou viúva!

Por ter acusado sintomas de COVID 19, no dia 30 de Março deu entrada no Hospital S. Sebastião de St.ª Maria da Feira, a centenária Emília Delfina da Conceição, também conhecida por Emília Coelha. Foi medicada e fez os testes. No dia seguinte acusou positivo. Ficou no Quarto 540, no 5.º piso.

Reagiu muito bem, normalizou a temperatura, baixou o oxigénio e fez novos testes. O resultado deu Negativo. Hoje, dia 10 de Abril, vai fazer novos testes.

Como seu descendente, sinto uma alegria incontida e um orgulho enorme pela nossa Bó Coelha.

A Emília Coelha, nasceu a 11 de Dezembro de 1919, num pequeno lugar de Fiães, junto à Estrada Real, também conhecida como Via Romana

Filha de José Ribeiro e de Rita de Jesus. Ele, conhecido como Zé Linardo, trabalhava de Serrador e ela de Mulher à Jorna. Deste casamento, nasceram também o Noé (1927) e a Josefina (1933). Ambos já falecidos. Ele fez-se Soldado da GNR e ela de Empregada de Pensão e Mulher-a-dias.

Nasceu um ano depois de ter terminado a I Grande Guerra.

Como criança, sofreu os efeitos dessa guerra, acumulados com a crise política e social reinante até o fim da I República, em 1926.
Os primeiros anos da Coelha coincidem com o pior período da governação republicana. Basta referir que entre 1920 e o golpe de 28 de Maio de 1926, chefiado pelo General Gomes da Costa, passaram 23 Governos!

Com o triunfo dessa Ditadura Militar, abriu-se a formalização da Ditadura Nacional em 1928 e a formalização do Estado Novo em 1933.
Naqueles tempos difíceis, havia fases em que os homens chegavam a trabalhar quase só pela comida e as mulheres esforçavam-se também em serviços, especialmente naqueles para onde arrastavam os filhos/crianças, na esperança de alguma ajuda alimentar.

É neste ambiente de crise nacional, em que os pobres desesperam pela sobrevivência, que a Coelhinha ajuda os pais e os irmãos, sempre na procura de compensar, em serviços, em especial os apoios dos Senhorios de sua mãe, a “Mãe Rita”. Tanto a Rita como os seus irmãos Rafael, Mário, José, Vicente e Arminda, eram pessoas saudáveis e robustas. Saíam ao pai José que era da raça dos “Rusgas”. O “Zé Rusga” foi vítima de um tiro, disparado durante uma discussão, junto à loja da Ti Quitas, entre pretendentes das suas filhas. Viúva, a avó Albina, era acarinhada como “Mãe Bina”. (Aproveitamos para referir que o avô do Zé Linardo chegou aos 105 anos!).

Como adolescente, sentiu as limitações impostas pelo rigor do Estado Novo.
Tal como seus pais, a Emília não teve a possibilidade de frequentar a escola. Todavia, tal como os seus vizinhos, que assim pareciam viver felizes, não perdia as oportunidades festivas ou de lazer. Com toda a naturalidade, a Emília teve os seus namoricos. Apaixonou-se por um jovem Fianense, com quem esperava casar. Com 18 anos engravidou, sem que o namorado assumisse o casamento, tendo, até, fugido para o Brasil, por imposição de seus pais.
Desse amor, nasceu a Deolinda da Conceição (Junho de 1939).

Desgostoso com a situação criada, o Zé Linardo aproveitou a oferta de trabalho na zona transmontana do Barroso, para onde se deslocou, vindo a fixar-se em Boticas.


Com o passar do tempo, a Emília apercebeu-se de que essa sua relação amorosa havia terminado. E foi numa dessas festas tradicionais de carnaval em que o jovem Zé da Bia, ou Zé Pum, fixou a sua atenção naquela rapariga jeitosa, parecida com a Amália Rodrigues, ali mais recatada.

Esse namoro progrediu rapidamente, tendo dado origem a um casamento tão discreto como apressado.
Casaram sem boda, sem pais e sem padrinhos. Valeu-lhes o apoio da família “Avelino Caldeirada” que os orientaram e testemunharam o acto. E foi pelas oito horas da manhã, depois da primeira missa, daquele dia 18 de Julho de 1942, que o acto se consumou na Capela da Sr.ª da Conceição, em Fiães. Era Sábado e dizem que, a seguir, ainda foram trabalhar.
O Zé Linardo veio buscar a família, levando a pequena Deolinda e deixando a Emília e o Zé a viver numa casa dos Pixelos.
Seguiram-se anos de felicidade, daquela felicidade própria dos pobres que iam tendo algo que comer e onde dormir, em tempos de crise agudizada com as restrições impostas por um governo condicionado pelos efeitos da II Grande Guerra Mundial.

Nasceram sete filhos de enfiada e foi por isso que a Emília passou a ser conhecida por Coelha.

Em 1943 nasceu o Zeca e seguiram-se o Benjamim, o Fernando, a Guida, o Daniel, o Mário (que faleceu com 8 meses) e a Fernanda.
Foram anos difíceis, compensados por muito trabalho e alguma sorte na procura do volfrâmio. Foram os melhores.

Naquele mundo de analfabetos, até o pai Zé frequentou a escola nocturna. Porém, concluída a escola de cada um, lá estava o trabalho fabril à espera. Era preciso ajudar a criar o rebanho de irmãos que ia crescendo.

Aos 33 anos de idade o Zé foi acometido de grave doença. Foi-lhe diagnosticado uma cirrose no fígado que o fez sofrer imenso cerca de um ano. Não foi por causa de álcool nem de outro vício. Foi causada pela fome e das privações que sofreu em criança. Foi muito chocante assistir às visitas dos seus amigos, que não se continham com tanto sofrimento. Faleceu a 10 de Abril de 1958.

Com 6 filhos em casa, tendo o mais velho acabado de fazer 15 anos, a Emília viu-se ainda mais desesperada com o corte do abono de família.

Seguiram-se anos terríveis para a sustentação da família. O Zeca completara os 15 anos, o Benjamim 13 e os outros 4 eram crianças. Perdido o abono família, a Emília quase não dorme. Ela trabalha intensamente e inventa serviços que a possam ajudar. Além da fábrica do papel e das rendas de bilros, ela aproveita a prestação de serviços na funerária, na jorna e na apanha da lenha. Também vendia fruta, ovos e regueifa.

Nesta fase dolorosa, a Emília mantém a sua fé religiosa inabalável. Ela acredita que Deus nunca a abandonou. Foram anos de muita adoração. Devotada a N.ª Sr.ª de Fátima, passa a fazer-lhe promessas, para que os filhos se salvem da Guerra do Ultramar.

Regressaram sãos e salvos após a espinhosa missão patriótica. Foram para a guerra 3 filhos e 4 genros! Merecia bem uma condecoração:

- o Benjamim esteve em Angola
- o Zeca na Guiné,
- o Arnaldo, marido da Linda, na Guiné
- o Fernando da Nanda, Guiné
- o Armindo, marido da Margarida, na Guiné
- o Daniel em Angola
- o Fonseca, marido da Fernanda, em Angola

Os filhos

Os filhos foram casando, os netos foram aparecendo e a Bó Coelha recuperou a alegria de viver.

Os netos

Os bisnetos

Sempre ligada à Igreja, comungava das actividades religiosas, solidárias e recreativas. São muito lembradas as excursões que organizou, especialmente a partir da sua impossibilidade do cumprimento das promessas de “ir a Fátima a pé”.


Essas excursões eram muito populares e serviam de pretexto para bons passeios e para grandes convívios.

Teve alguns problemas de saúde, mas todos venceu com muita fé e gratidão religiosa.

Os filhos nunca se esqueceram dela, mas seguiram seus caminhos e criaram os seus descendentes. E quando tudo parecia agradavelmente harmonioso, a Coelha sentia-se cada vez mais só. Nem com a companhia de amigas a dormirem lá em casa se sentia bem. Também não se sentia à vontade na casa das filhas, que tanto a acarinhavam.

Começou a manifestar o desejo de ir para Cucujães, para o Lar Santa Teresinha nas Missões da Boa Nova, para onde muito corria levando coisas que angariava. Falava dos padres de lá e de outras pessoas, com muita amizade e admiração.

O Lar Santa Teresinha

Então, decidimos ir lá pedir a sua admissão no Lar. Não levou muitos dias a sua aceitação, com carinho e muita atenção.

O carinho no Lar

Já são sete anos de vivência no Lar. A Coelha confessa que está a passar os melhores tempos da sua vida. Cansada, mas feliz e sempre activa. Ainda recentemente, cantava e dançava. Como no casamento da Liana e Miguel, em que me obrigou a dançar com ela. E logo eu… que nunca aprendi tal coisa.

Ultimamente mexe-se menos


No dia 11 de Dezembro de 2019, festejámos o seu Centenário.

Foi um dia inesquecível! O Lar organizou uma linda festa que ficará na memória de todos seus descendentes.
A família, sempre dispersa, apareceu em cheio. E era uma quarta-feira. Foi feriado para todos. O amigo Emídio Sousa, Presidente da Câmara, também lá esteve.


Até dois grupos de ex-Combatentes vieram à festa: “O Conjunto Musical dos Periquitos da Tabanca de Matosinhos” e “O Bando do Café Progresso”.


A festa começou com uma missa na capela do refeitório, celebrada pelos padres ligados àquela grande obra social. Foi um óptimo ambiente, onde reinou a alegria, boas e lindas palavras e muito orgulho.
A Coelha sentia-se no Céu.
Abaixo transcrevo as palavras que lhe dediquei num breve discurso:

...Mãe, mais que guerreira, és uma vencedora!
Subiste ao mais alto da montanha da vida
Arrumaste as pedras do seu caminho
E plantaste nele as mais lindas flores!
Olha aqui os teus descendentes
São sangue do teu sangue
São todos coelhinhos!
Eles vêm mostrando a tua raça

No desporto, chegaram ao topo da Europa e ao topo do Mundo!
Herdaram a tua resistência impar!
Na escola chegaram a Professores, Doutores e Engenheiros.
Herdaram a tua sabedoria!
Na vida social, têm merecido o apreço da sociedade.
Herdaram a tua humilde simpatia!
Na vida familiar, têm sido bons pais e bons filhos.
Herdaram o teu exemplo!
Todos orgulhosos por descenderem de uma pessoa especial.

Uma mulher de excepção.
A nossa “Bó Coelha”!
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20831: Boas Memórias da Minha Paz (José Ferreira da Silva) (5): Op. Sarrabulho (com o covidis por perto) - II Parte

Guiné 61/74 - P20838: Esboços para um romance - I (Mário Beja Santos): Peço a Deus que tu regresses são e salvo (2)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2020:

Queridos amigos,
Trata-se de uma revisitação, no meu livro A Viagem do Tangomau, editado pelo Círculo de Leitores em 2012, falo da minha experiência na terra da bagacina, a terrível experiência de ter sido gerente de messe e a indignar desde o primeiro dia os senhores oficiais dando-lhes a comida mais barata, andava por ali o espetro de um anterior gerente de messe que pagava às prestações centenas de contos de prejuízo, felizmente que o Comandante do Batalhão, ele próprio amesendado com a família, me pôs rapidamente na rua.
Tive, nessas recordações do livro, circunstância para falar da descoberta da cidade e de quase toda a ilha, das amizades firmadas, sobretudo com o José Medeiros Ferreira, o casal que me recebeu e onde passava os fins de semana, a fabulosa festa de Natal, expediente encontrado para receber carinhosamente os instruendos marienses, as condições atmosféricas não tinham permitido que fossem passar o Natal à sua ilha, fez-se festa da rija nos Arrifes, com consoada organizada por muitas boas vontades.
O que aqui se conta tem laivos de revisitação, obedece a dois propósitos, homenagear uma amiga recentemente falecida, Cremilde Tapia e saborear uma porção de fotografias recentemente descobertas. Foram tempos que ficaram gravados no meu coração, guardo-lhes devoção e saudade.

Um abraço do
Mário


Peço a Deus que tu regresses são e salvo (2)

Mário Beja Santos

Adaptei-me facilmente à cidade de Ponta Delgada, uma escala perfeitamente humana, ganhei apreço ao basalto e às tonalidades cinza, como se fosse o espetro da lava, as belíssimas calçadas, empedrados perfeitos, passeios muitas vezes estreitos, mas na época o trânsito era reduzido. Regressávamos da instrução, e depois da higiene doméstica, cada um partia para o seu destino, só os continentais é que tinham que tratar de si, os oficiais micaelenses tinham as suas casas. Aluguei quarto na Rua de Lisboa, n.º 31, e era comensal junto do município, um café com porta giratória Arte Deco, o Nacional. Comensal significava que tinha direito a sopa, um prato de peixe ou carne, uma peça de fruta da região (eu pelava-me pelo ananás), havia por vezes uma entrada de queijo fresco com pimenta da terra. As contas bem controladas, um aspirante auferia cerca de 1100 escudos, havia que pagar o quarto, com tratamento de roupas, e as despesas de comensal. Não dava para uma vida estouvada. O Teatro Micaelense oferecia regularmente cinema e concertos com um ou dois solistas, regra-geral artistas em fase de arranque oriundos dos EUA e Canadá. Com bom tempo, ia para o Largo de São Francisco e lia até à hora de jantar. Com mau tempo, ia para o Café Gil onde à noite aparecia o José Medeiros Ferreira, tínhamos estado juntos na recruta e especialidade em Mafra, partiremos de Ponta Delgada para a Amadora, foi nos Açores que firmámos uma gratíssima amizade.

Largo do Município com a estátua de São Miguel Arcanjo, Ponta Delgada

Portas da cidade, Ponta Delgada

Esquina do Largo 2 de Março com vista do Palácio da Conceição, Ponta Delgada

José Medeiros Ferreira

A Avenida Marginal era muitíssimo mais reduzida do que é hoje, agora está totalmente rasgada pela nascente. Os primeiros passeios eram de pura exploração, contemplar a Matriz, manuelina de branca, barroca de negridão basáltica. Barroco é o que não falta em Ponta Delgada. Os antigos conventos do Campo de S. Francisco, o edifício do Museu Carlos Machado (antigo Convento de Santo André), a fachada jesuíta da Igreja do Colégio, ao tempo indisponível ao público, mas só a fachada dava para se ficar um bom tempo a saborear aquela composição paradoxalmente austera e voluptuosa. O século XIX deixou marcas indeléveis na arquitetura, basta pensar no Palácio de Santana.

Teatro Micaelense, Ponta Delgada

Largo de São Francisco, Ponta Delgada

O capelão dos Arrifes era o Padre Couto Tavares, que vivia no seminário. Intrigou-se por eu não ter ali nem família nem amigos, fez questão de me apresentar a um casal que habitava numa moradia na Rua Segunda de Santa Clara, n.º 2, ele, de nome Marino Teves Lemos, ela, Maria, a quem passarei a chamar a “mãe do oceano”. Impuseram que eu ali me fosse amesendar aos sábados e domingos, acedi inicialmente, até porque o Marino se ocupava de uma correspondência colossal com uma obra qualquer relacionada com cursos de cristandade, pôs-me o gira-discos à disposição, um cadeirão confortável, lia e ouvia música. É num desses sábados ou domingos que irrompe pela sala um vozeirão, uma mulher alta com um fato roxo, ia conhecer Maria Cremilde Morgado Tapia, será a madrinha da minha filha Glória, em sua casa, na Rua da Alegria 6A, bem perto da casa de Maria e Marino, elas passarão as férias de Verão, inesquecíveis.

Em casa de Maria e Marino Teves Lemos, na companhia da Maria Cremilde Tapia e José Braga Chaves

Dei duas recrutas no BII N.º18, a primeira com mancebos fundamentalmente de Santa Maria (mas havia gente da Graciosa e do Faial, pasme-se), começou em outubro e findou em cima do Natal, um dos mais belos natais da minha vida, voltarei a esse evento; a segunda, era exclusivamente composta por micaelenses. Ora um dos meus instruendos de Santa Maria, José Braga Chaves, de Vila do Porto, chamou-me rapidamente a atenção porque tinha o indicador da mão direita imobilizado, ou quase, fazia movimentos muito lentos, ele referiu-me ter tido um acidente em pequeno, ficara assim. Não me conformei. Pedi uma entrevista a uma das sumidades da terra, o Dr. Furtado Lima, se o podia operar, era inconcebível um homem ir para a guerra com tal limitação. Propôs-se fazer operação, coisa de somenos importância, havia que lancetar e corrigir, talvez um nervo ou um tendão, para o caso pouco importa, pediu-me uma importância, respondi-lhe que lhe pagaria todos os meses em prestações, aceitou. O Zé fez a convalescença em casa da Maria e do Marino, nessa altura também ali se aboletava uma professora do Liceu Antero de Quental, Isabel Bracourt.

Imagine-se a comoção que senti quando dei por este pequeno conjunto de fotografias dos três e os dois em casa dos nossos generosos anfitriões. O Zé foi para Moçambique, trocámos correspondência. Veio e ficou a viver em São Miguel, trabalhando na meteorologia do aeroporto, casou com a Fátima, já falecida. A vida separou-nos temporariamente, a ternura é intemporal. Perdi o rasto à Isabel Bracourt. A Maria e o Marino já partiram deste mundo, não me ocorre nenhum adjetivo satisfatório que expresse a minha gratidão pelo bem que me (e nos) fizeram. Quando regressava a Ponta Delgada ia visitar a neta, então a trabalhar na biblioteca da universidade. Um dos filhos do casal, Álvaro Teves Lemos, estava na Guiné na altura em que eu dava ali recrutas. Não descansámos enquanto não chegámos à fala, aqueles pais, o Álvaro compreendeu imediatamente, tinham tido um papel tão construtivo naqueles meses micaelenses que era impossível que ele não quisesse saber as histórias de todos aqueles tempos. Cremilde Tapia fazia questão de me ir mostrando os belos rincões da ilha. O primeiro passeio teve como itinerário S. Roque, a Praia do Pópulo, a Lagoa, a Serra da Água de Pau, e chegados aos Remédios fui confrontado com um testemunho único da natureza, a Lagoa do Fogo e depois o Pico da Barrosa, daqui tem-se uma vista simultânea das costas Norte e Sul, avista-se até à Ribeira Grande. Foi um passeio de estalo. A sedução pela ilha assentara raízes.

(continua)
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Nota do editor

Primeiro poste de 3 de Abril de 2020 > Guiné 61/74 - P20806: Esboços para um romance - I (Mário Beja Santos): Peço a Deus que tu regresses são e salvo (1)

Guiné 61/74 - P20837: Viagem de volta ao mundo: em plena pandemia de COVID 19, tentando regressar a casa (Constantino Ferreira & António Graça de Abreu) (7): a navegar agora no perigoso Mar Arábico, já no Golfo de Aden, com o Corno de África lá ao fundo à esquerda e o fantasma dos piratas da Somália a acrescentar às preocupações dos passageiros e tripulantes...


MSC - Magnífica > Cruzeiro de Volta ao Mundo >  Em navegação, oceano Índico > 10 de abril de 2020 ,sexta feira santa para os cristãos > Um rota perigosa...

Cortesia da página do faceboook de Constantino Ferreira. Foto reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Oeiras >Algés > Restaurante Caravela de Ouro > Tabanca da Linha > 42º Convívio > 21 de março de 2019 > À mesa, o Constantino Ferreira d'Alva e o António Graça de Abreu.

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Constantino Ferreira d'Alva, ex-fur mil art da CART 2521 (Aldeia Formosa, Nhala e Mampatá, 1969/71), membro da nossa Tabanca Grande desde 16 de fevereiro de 2016. Vai a bordo do MSC -Magnífica, que teve de apressar o seu regresso ao ponto de partida, devido à pandemia de COVID-19. Está a escrever o seu diário de bordo,  desde 23 de janeiro de 2020, disponível na sua página do Facebook. A ele junta-se o António Graça de Abreu, que também, está a escrever o seu diário de bordo...


Excertos do diário de bordo de Constantino Ferreira 

Sexta-feira, 10 de abril de 2020, 5h39


Estou a pensar, que a vida continua. Hoje, é Sexta-feira Santa e, vivemos a angústia do presente, pensando no passado.

Esse passado longínquo, que marcou estes últimos 2.020 anos. Um Homem-Bom, foi morto cruelmente em Jerusalém, por equívoco do povo e desleixo do “poder”!

Hoje, recordamos esse “equívoco”, com o pensamento contido na revolta. Mas, esse exemplo de compaixão e perdão, fica para sempre no pensamento da Humanidade.

Certamente que houve outro exemplos no Mundo, devemos olhar todos esses exemplos, com fé, nesta nossa Humanidade que hoje luta contra “esta” calamidade !

Hoje, a navegar aqui no Mar Arábico, já no Golfo de Aden, com o Corno de África lá ao fundo á esquerda, penso no futuro da Humanidade, na pessoa do meu neto Francisco, que nasceu ontem em Lisboa.

Um grande abraço, do tamanho do Mundo.


Quinta-feira, 9 de abril de 2020, 7h17

Alô!

Aqui Mar Arábico. Vamos praí a meio!

Mas, já vamos em alerta total contra os piratas da Somália, que com as suas boas lanchas rápidas, podem querer um bom resgate, destes 2.800 navegantes!

Mas também vamos a navegar uma rota sob vigilância das forças de Marinha Internacionais e, vigilância via Satélite!

Os desgraçados dos piratas, têm que ser muito “corajosos” ou muito parvos para nos atacarem !

Bom, o que eu estou em alerta é para assistir á entrada no Mar Vermelho e ver as duas margens !

Mas não vou deixar de olhar o Corno de África! Depois conto como foi !


Excertos do diário de bordo do  António Graça de Abreu 

[ ex-alf mil, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), membro sénior da Tabanca Grande, com 250 referências no nosso blogue; temos recebido as suas mensagens por correio eletrónico]

Oceano Índico, Golfo de Aden, 10 de Abril de 2020

Desde ontem e por mais dois dias, esquecemos o coronavírus, o problema serão os piratas. Estamos a navegar perto da ilha de Socotora, no Golfo de Aden, à entrada do Mar Vermelho. De um lado temos o Yemen, sempre em guerra, do outro a Somália, o corno de Africa, terras pobres habitadas por algumas gentes que utilizam todos os meios possiveis e quase mpossíveis para sobreviver. Um deles e o ataque a navios, pirataria pura e dura, com assaltos sobretudo a cargueiros, com a tomada de reféns e do próprio barco, e a exigência de avultados resgates.

Recebemos ontem um comunicado no camarote avisando-nos das medidas que o navio está a tomar para escapar aos piratas: luzes meio apagadas durante a noite, janelas dos camarotes com cortinados corridos, todo o conves do 7º andar que rodeia o Magnifica, e é excelente para caminhadas e passeios a pé,  estará fechado, com seguranças em lugares estratégicos, com binóculos perscrutando o mar que se mantem deslumbrantemente azul e prata, sereno e calmo. 

Talvez estas medidas sejam um exagero. Creio que nenhum navio foi atacado, nos últimos tempos. As grandes potências prepararam as respostas a estes actos de pirataria, franceses, norte-americaos, até chineses estão estacionados no Djibuti onde controlam, via satélite, o movimento das grandes e pequenas embarcacões que cruzam estas vastas regiões. 

Dizem-me que os norte-americanos tem drones militares que se deslocam a grande velocidade, carregados de potentes explosivos que podem, com toda a facilidade rebentar com os frágeis barcos utilizados pela pirataria. 

A vida tambem não está fácil para os piratas da Somalia e do mar Vermelho.

Colombo, Sri Lanka, 6 de Abril de 2020

Chegamos frente a Colombo, o navio parou, os arranha-ceus recentes, construidos com capitais chineses, alinhavam-se nsa tira do horizonte. Nós permanecemos no Magnifica, claro, de onde não saimos quase há um mes.

Estamos ancorados no mar, a uns quinze quilómetros da capital do Sri Lanka. Fui lá acima, ao 14. andar, tirar umas fotografias. Um rebocador aproximava-se. Calculei que trazia o piloto local. Não era verdade. Sete ou oito tripulantes do barco de apoio cingales vinham cobertos de largos fatos brancos, mascaras de plastico, luvas e botas estanques. Na plataforma lancada a estibordo pelo Magnifica, três ou quatro tripulantes do nosso navio vestiam tambem roupa de assustar, fatos completos em tons de azul, cobrindo totalmente o corpo, sobressaindo as máscaras e as luvas. Uma maca com uma senhora idosa deitada, ligada a uma botija de oxigénio entre as suas pernas, em cima do cobertor, era transportada com todo o cuidado desde o Magnifica para o rebocador. 

Um tripulante do nosso navio passou também para o barco cingalês e foi imediatamente desinfectado com um spray. Eles trouxeram uma equipe de televisão com um camaraman, todo equipado e artilhado como os restantes tripulantes, que filmou cuidadosamente o processo de evacuação. O rebocador acabou por acelerar os motores, deu meia volta e rumou em direcção ao porto de Colombo. 

Tera a velha senhora, nossa companheira de viagem, contraído coronavirus? Como vai ser tratada, o que lhe acontecera sozinha num hospital de Colombo?

Há pouco, já noite e com o navio a navegar para norte, o capitão Roberto Leotta informou, pela instalação sonora, que se procedera ao reabastecimento de gasóleo, que seguimos para o canal do Suez e que foi preciso evacuar uma passageira, a "necessitar de cuidados médicos urgentes." 

Não creio que a senhora tivesse coronavírus porque, se tal acontecesse teriamos o navio infectado, o que seria uma catástrofe para todos nós, mas o aparato da sua saída para um hospital na capital do Sri Lanka, foi um sufoco, um enorme susto.