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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28243: O nosso blogue em números (115): 22 anos de existência, 22 milhões de páginas visualizadas


Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, criado em 23 de abril de 2004: como em qualquer projeto coletivo, houve sempre quem assumisse maiores responsabilidades editoriais e assegurasse a continuidade quotidiana do blogue. A esses camaradas é devida uma palavra especial de apreço e reconhecimento. Na impossibilidade de meter toda a gente numa "foto de família", lembramos aqui aqueles que figuram na badana (coluna) do lado esquerdo do blogue: editores (Luís Graça, Carlos Vinhal, Magalhães Ribeiro, Jorge Araújo, Virgínio Briote) e colaboradores permanentes (Beja Santos, Cherno Baldé, Hélder Sousa, Humberto Reis, João Crisóstomo, José Martins, José Teixeira,Luís Dias, Patrício Ribeiro, Pinto Carvalho).  É justo recordar outros camaradas que deram a cara, no passado, como coladoradores permanentes, três dos quais infelizmente já se despediram da Terra da Alegr
ia: Joaquim Mexia Alves, Jorge Cabral (1944-2021), José Manuel Matos Dinis (1948-2021), Miguel Pessoa, Torcato Mendonça (1944-2021).

Joaquim Mexias Alves e Miguel Pessoa dinamizam hoje a Tabanca do Centro. Além desta, outras tabancas e tertúlias apareceram, sob o "poilão" da Tabanca Grande: cite-se a Tabanca de Matosinhos, a Tabanca da Linha, a Tabanca dos Melros, a Tabanka da Maia (Malheiro), a Tabanca do Algarve, o Bando Café Progresso. Outras foram mais efeméras ou já se extinguiram por morte do "régulo" (Tabanca de São Martinho do Porto, Tabanca de Porto Dinheiro, Tabanca de Guilomilo)... Outras são ou foram tabancas de um "homem só" (Tabanca dos Emiratos, Tabanca da Lapónia)... Ou são-no "quando o régulo quiser": Tabanca de Candoz, Tabanca do Atira-te ao Mar, Tabanca da Ponta de Sagres - Martinhal, Tabanca da Senhora da Graça... Outras são apenas "virtuais": por ex., Tabanca da Diáspora Lusófona...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1.  22 milhões de páginas visualizada em 22 anos de existência: um marco de todos nós!

Em plena canícula, no início deste querido mês de agosto, o  blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné acaba de ultrapassar a marca dos 22 milhões de páginas visualizadas. Um milhão por ano  em média.

É um número simbólico, que coincide com outro: em abril passado celebrámos 22 anos de existência.  O que na Web é uma provecta idade!

O início, em 2004, foi modesto; nesse primeiro ano publicámos apenas quatro postes. Ninguém imaginaria então que este projeto (coletivo) chegaria tão longe e a tanta gente.

Ao longo destes anos publicámos quase 28 250 postes, o que corresponde a uma média próxima das quatro publicações por dia.

 Mantivemos sempre um compromisso singelo:  que não houvesse um único dia sem um novo poste. 

Esse compromisso só foi possível graças à dedicação dos editores, dos autores e dos muitos camaradas que, ao longo do tempo, aceitaram partilhar as suas memórias, fotografias, documentos, reflexões e afetos.

Hoje contamos com cerca de 880 seguidores e 917 membros registados na Tabanca Grande. O tempo, porém, não perdoa: cerca de um em cada cinco dos nossos camaradas já partiu. Continuam, no entanto, presentes nestas páginas, porque também elas são um lugar de memória.

Outro número fala por si: cerca  de 112 mil comentários, uma média de aproximada de quatro por cada poste publicado. 

É sinal de que este nunca foi apenas um repositório de textos e imagens, mas um espaço de conversa, de partilha, de reencontros, de debate sereno e de construção de uma memória coletiva.

As estatísticas têm o seu interesse, mas não explicam o essencial. O verdadeiro património deste blogue reside nas centenas, milhares, de pessoas que, ao longo de mais de duas décadas, lhe deram vida: antigos combatentes, familiares, amigos, investigadores, jornalistas,  e leitores, em Portugal, na Guiné-Bissau, na diáspora lusófona e em muitos outros países.

Como em qualquer projeto coletivo, houve sempre quem assumisse maiores responsabilidades editoriais e assegurasse a continuidade quotidiana do blogue. A esses camaradas é devida uma palavra especial de apreço e reconhecimento.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)


Flâmula da 26ª CCmds. O único representante desta subunidade na Tabanca Grande é, até agora, o Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', escritor,  autor de "Geração Afro" (sob o pseudónimo Reboredo) (2026)



1. Mensagem de José Macedo ( ten fuzileiro especial,  DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74); natural da Praia, Cabo Verde, vive nos EUA desde 1977; é jurista):




O Zeca Macedo, em 1971, quando frequentava o 1º ano da  Escola Naval 
(que não completou), tendo ingressado nos fuzileiros.



1.1. Data - quarta, 17/06/2026, 21:22
Assunto - Informações sobre um camarada morto em combate



Luis, mantenhas. Estive com um amigo e camarada da Escola Naval, engenheiro construtor naval, que me contou que o irmão mais velho, Luís Mário da Silva e Sá, alferes 'comando', foi morto em combate em 1970, na zona de Cacheu (*). 

Ele disse-me que o irmão pertencia à 26ª Companhia de Comandos.  (...)

Peço a tua ajuda para me dares os dados que haja sobre sobre a morte do Luís e o contacto de algum camarada que o conheceu na Guiné.

Um muito obrigado.


PS - Em breve te enviarei um pequeno post sobre a Eugénia Espirito Santos que conheci na Guiné
.


1.2. Nova mensagem do José Macedo (ou Zeca, conhecemo-nos desde 1971):

Data - 29/06/2026, 19:19

No nosso blogue "encontrei" o nome de um membro da 26ª Companhia de Comandos, à qual pertencia o alferes Luis Mário, irmão do meu camarada. Trata-se do escritor Angelino dos Santos Silva. Agradeço-te que, se possível, me des dês as informações para que o possa contactar.

2. Resposta do editor LG:

Zeca: como tu, de resto, já tinhas entretanto  dado conta,  há uma justa homenagem ao ex-alf mil inf 'cmd'  Luís Mário da Silva e Sá no portal UTW - Ultramar TerraWeb. Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, na série "Honra e Glória". Entretanto, já te pus em contacto  com o Angelino.

Eis alguns dados biográficos Luís Mário Silva e Sá (que deve ter nascido em 1948, tal como o Angelino): 

(i) natural de Panóias de Cima, Guarda; infelizmente não temos nenhuma foto dele (**):

(ii) foi alf mil 'cmd', tendo pertencido, de facto, à 26a. CCmds (1970/72), comandada pelo cap mil inf 'cmd' Alberto Freire de Matos:

(iii) com apenas 6 meses após a sua chegada ao CTIG, faleceu no dia 24 de setembro de 1970, no Hospital Militar 241, em Bissau, em consequência de ferimentos graves adquiridos em combate na mata de  Balenguerez, na região do Cacheu:

(iv) louvado e agraciado, a título póstumo, em 1971, coma  medalha de cruz de guerra de 2ª classe por feitos em combate; excerto do teor do louvor:

(...) "Porque, no dia 24 de setembro de 1970, na Província da Guiné, quando a força que comandava caiu debaixo de intenso fogo inimigo, conseguiu, a peito descoberto, manobrar e instigar o seu Grupo de Combate, estando sempre presente onde a sua acção era mais necessária, a ponto de, ao ver a urgência do uso de fogo de morteiro, não hesitou em colocá-lo em campo aberto, protegendo destemidamente com o corpo e sacrifício da própria vida a arma e o apontador, contribuindo, grandemente, para fazer gorar os intentos do adversário e que não resultassem mais perdas para as nossas tropas.

"Combatente de eleição e chefe estimado pelos superiores, camaradas e subordinados, evidenciou sempre o alferes Sá, em todos os contactos com o inimigo, dotes de excepcional coragem, sangue-frio, serena energia debaixo de fogo e gosto pelo risco, muito honrando os Comandos a que pertenceu e o Exército que tão devotadamente serviu."

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1970-1971). Lisboa, 1994, pp. 540/541.

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Notas do editor:


(**) Último poste da série : 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.

Um abraço do
Mário



A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial


Mário Beja Santos

Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.

A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.

Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.

Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.

A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.

É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.


Vista de Cacheu, cerca de 1850, gravura, coleção particular
Planta da Fortaleza de S. José de Bissau, século XVIII, imagem da Torre do Tombo
Entrada da Fortaleza de São José de Bissau, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista de Bissau em 1884, publicado em As Colónias Portuguesas
Rua Honório Pereira Barreto, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista do forte e da vila de Cacheu. Gravura da Histoire Générale des Voyages, século XVI
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Nota do editor

Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)

terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28124: Humor de caserna (277): Quem são os "ocupas" do histórico edifício dos CTT de Gabu ? Com o telemóvel, este "marco da civilização colonial" tornou-se obsoleto...



Guiné.Bissau  > Zona Leste >  Região de Gabú > Gabu >1998 > Edifício dos CTT do Gabu > Visita realizada por um grupo de ex-combatentes da CART 3494 à Guiné-Bissau. Em primeiro plano,  o Acácio Correia (ex-alf mil, CART 3494, Xime, 1972/74)...No letreiro que encima a imagem, pode ler-se: "Estação de Gabu. Telefone. Posto Público. Em qualquer momento"... 

Ainda não havia telemóveis. Os CTT ainda eram muito úteis. Perderam a sua função social. Hoje tornaram-se obsoletos. Toda a gente tem o mágico "telemóvel" que permite fazer "videochamadas" (coisa completamente impensável) há 30 anos.    Na inscrição ao alto do edifício pode ainda ler-se: "Estação dos C. T."... Já tinha caído o segundo T dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones).
 

Foto (e legenda): © Acácio Correia / Jorge Araújo (2015). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT... Ficava na tabanca de Bambadinca, nas imediações do quartel, já fora do arame farpado. 

Segundo recorda o Beja Santos, o nome da empregada dos CTT era a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). 

Sou dos que, a maioria, nunca lá foi telefonar, pelo que não me lembro da senhora. Presumo que  fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária local, a Dona Violante, e o chefe de posto (de quem também não me lembro o nome), nem o responsável da Casa Gouveia.

Lamentavelmente não convivivíamos, os civis e os militares. em Bambadinca, nomeadamente com a pequena comunidade cabo-verdiana, cristã. Havia racismo, não tenhamos medo das palavras. Havia preconceitos de parte a parte. As NT punham  em dúvida a lealdade dos cabo-verdianos em relação às autoridades portuguesas... Por outro lado, os comandos de batalhão tinham pouca ou nenhuma sensibilidade "sociocultural"... nem promovendo sequer a interação com a população civil.  Os comandos do batalhão eram uns burocratas que diziam mal da hora em que lhe calhou na rifa a "cova do lagarto" (crocodilo) (signifciado do topónimo Bambadinca, em mandinga). 

 Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão, o BCAÇ 2852).

Foto: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Junho de 2026 >  Antigo edifício dos CTT, agora transformado em balcão de uma casa de apostas mútuas desportivas, jogis de azar, etc, ("Bissau Games", com sede em Bissau).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem de LG:

Querido "embaixador" da Tabanca Grande em Bissau (*), o editor não pode ter "estados de espírito"... Mas o gajo que escreve este comentário, sim, pode rir-se, chorar, indignar-se, inquietar-se, emocionar-se, ou simplesmente sorrir perante estas fotos que nos mandaste no último domingo para o blogue... com legendas lacónicas. As fotos falam por si, ou talvez não: se calhar, falta o contexto ao texto...



Edifício dos CTT de Mansoa, foto de César Dias (c. 1969/71)
Nunca cheguei a ir a Nova Lamego (a 30 km da nordeste de Bafatá), com pena minha, mas ia a Bafatá, a "princesa do Geba", onde também havia "marcos da civilização", com uma estação dos CTT. E,claro, a Casa Gouveia. E até restaurantes como "A Transmontana" que servia o melhor bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Tudo por 20 pesos. 

Tal como edifícios dos CTT  noutras terras minimamente importantes, assinaladas nas cartas militares como sedes de circunscrição / concelho... da nossa "Guinezinha", como diria a Cilinha... Havia estação dos CTT em Bissau, a capital, Mansoa, Teixeira Pinto, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Catió, etc. Mas também em postos administratrivos como Bambadinca, Contuboel...

Eram terrinhas que podiam ter, algumas, apenas meia dúzia de brancos e "assimilados", mas tinham gente que escrevia e recebia cartas e encomendas postais, e até havia quem utilizasse o telégrafo e o telefone... Um ou outro comerciante, as missões católicas, os chefes de posto, etc., tinham endereço telegráfico e, antes da guerra, até telefone fixo, em casa ou no estabelecimento ou na missão. Coisas inúteis com a guerra.



Guiné-Bissau, Gabu, 2005. Antigo edifício, colonial,
dos CTT, agora recuperado.  Imagem: Tino Neves (1969/71)
..
O primeiro ato revolucionário do Amílcar Cabral foi mandar deitar abaixos os postes telefónicos. Não deitou abaixo os postes de eletricidade, porque ainda não existiam... Era um iconoclasta, o fudmador da Pátria. Queria construir um mundo novo, uma Guiné nova, um homem novo...

Eu fui sempre, como "expedicionário" naquela terra, "malgré-moi" (isto é, não-voluntário), um mau utilizador dos CTT. Nunca entrei lá dentro. Aliás, não utilizei, de todo, os CTT da Guiné. Nunca telefonei, nunca recebi ou mandei um telegrama... Como na maior parte das casas dos portuguesas, a casa dos meus pais náo tinham telefone...

E as poucas cartas que escrevi (e as que recebi), eram encaminhadas pelo Serviço Postal Militar (o famoso SPM), a única coisa de jeito que a tropa fez pelo bem-estar dos seus militares mobilizados para aquelas terras palúdicas...

Hoje sorrio, ao ver a outrora bela estação dos CTT de Nova Lamego, votada ao abandono, como mais uma das velharias da nossa presença histórica em África... No seu túmulo, o Amílcar Cabral também deve estar a dar umas voltas... Mesmo no eterno descanso, também há gente com insónias... e não devem ser pouca. 

Ele e os seus "cabra-matchu", sem esquecer o Aristides Pereira que era funcionário colonial dos  CTT de Bissau... Sem esquecer o Sarmento Rodrigues, o modernizador, o Teixeira Pinto, o "capitão-diabo", o Salazar, o "bota-de-elástico", o Spínola, o "Caco Baldé" e o Marcello (com dois "ll") Caetano, o "empata-f*das", e tantos outros...

Enfim, sem esquecer o homem que "descobriu" esta terra maravilhosa (que dava mancarra, coconote, madeiras exóticas, etc.)  e que foi o primeiro a "lerpar", o Nuno Tristão em 1446 (se bem me lembro do meu tempo de escolinha, não é preciso ir à Wikipedia espreitar  ou perguntar à IA; devia constar da lista dos mortos das guerras coloniais, ,mas esquceram-se dele).

Tal como na natureza, nas sociedadee humanas nada se perde, tudo se transforma... Já vi uma igreja (em Almada) transformada em taberna, outra que agora é livraria (em Óbidos)... Já vi um lazareto transformar-se em asilo de órfãos (em Porto Brandão) e depois bairro clandestino de cabo-verdianos e retornados...

Por que é que os fulas do Gabu não se lembraria também de fazer daquele belo recanto da "cidade" , a antiga estação dos CTT, um muito mais útil "balcão" para as apostas mútuas desportivas ?

Não sei se eles (a "Bissau Games", que deve ser uma manhosa empresa privada de "caça-níqueis" digital, jogos de azar, etc.) têm a "raspadinha"; se não têm, tem que copiar a ideia (genial) da "Santa" Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

 Portugal, país de baixa literacia financeira, é viciado em jogos comnpulsivos, como a "raspadinha" ... Porque é a Guiné-Bissau não imita as "coisas boas" (isto é, "lucrativas") que ainda tem o seu antigo país colonizador ?

Portugal regista níveis recorde de consumo em jogos de fortuna ou azar. A "raspadinha" da SCML é, há já largos anos, o jogo social do Estado mais lucrativo. 

Há quem se preocupe com este fenómeno que tem implicações ma saúde pública e económica devido à sua forte componente aditiva. Eis alguns números: (i) a "raspadinha" movimenta anualmente cerca de 1,9 mil milhões de euros, representando perto de 60% do total das receitas dos Jogos Santa Casa;  (ii) a média de gastos "per capita" atinge valores expressivos, com os portugueses a dedicarem uma parte considerável do seu rendimento a este e outros jogos como o Euromilhões; (iii) a adesão é transversal, mas regista uma prevalência muito significativa nas classes sociais mais baixas e faixas etárias seniores, muitas vezes alimentada pela falsa esperança de colmatar dificuldades financeiras imediaats: joga-se à "raspadinha" hoje para comprar o pão amanhã...

E no Gabu, como é ? 

O vício da raspadinha acarreta graves consequências, desde o isolamento social e  crises financeiras familiares, até situações extremas de criminalidade e violência doméstica.

Enfim,  que Deus, Alá e os bons irãs lhes perdoem, aos "ocupas" do Gabu (**)...Com tanta casa de alvenaria abandonada, depois da independência, sem dono nem usufruto, seria uma pena não se aproveitar estes "marcos da civilização", primorosamente desenhados e tirados a papel químico pelos senhores arquitetos do GAC - Gabinete de Arquitetura Colonial, que nunca puseram os pés no Gabu...

Um deles até era meu conterrâneo, o arquiteto Lucínio Guia da Cruz (1914-1999), do GAC: foi ele que desenhou o edifício dos CTT em Bissau, em 1953... Queria fazer um edifício para a CM de Bissau, saiu-lhe um mastodôntico edifício dos CTT. Feio, mas funcional. Tecnicamente bom, dizem os especialistas.


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Notas do editor LG:

(**) Último poste 22 de junho de 2026  > Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...

quinta-feira, 26 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27859: Fichas de unidades (40): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74), CCAÇ 3489 (Cancolim), CCAÇ 3490 (Saltinho), CCAÇ 3491 (Dulombo e Galomaro): Divisa: "O inimigo vos dirá quem somos"


Guião do BCAÇ 3872 (Galomaro, Sector L5, 1971/74)... Temos vários camaradas, na Tabanca Grande, que pertenceram a este batalháo:    Carlos Filipe Coelho (1950 - 2017), Juvenal Amado, Manuel Carvalho Passos, Rui Vieira Coelho  (CCS, Galomaro)  | Rui Baptista  (1949-2023), José António de Almeida Rodrigues (1950-2016) (CCAÇ 3489, Cancolim) | Joaquim Guimarães, António da Silva Batista (1950-2016) (CCAÇ 3490, Saltinho) | Luís Dias (CCAÇ 3491, Dulombi),  




1. A esta unidade, o BCAÇ 3872, pertenceram dois camaradas nossos que estiveram prisioneiros nas masmorras do PAIGC (Conacri, Boé e Boké), o António da Silva e o José Antóno de Almeida Rodrigues, espantosamente morreram os dois no mesmo dia, 23/3/2016, com a mesma idade (66 anos). 

O Batista, natural da Maia, pertenceu à CCAÇ 3490, que estava no Saltinho. Foi feito prisioneiro na sequència da emboscada no Quirafo, em 17 de abril de 1972.  Foi dado como morto, por erro na identificação dos cadáveres. Foi libertado em 14 de setembro de 1974.

O José António Almeida Rodrigues (1950-2016),natural da Régua,  conseguiu fugir do "campo de detenção" do Boé, do PAIGC, junto à margem esquerda do Rio Corubal, na parte ocidental da região do Boé, situado algures entre Gobige, Guileje e Madina do Boé, junto à fronteira, segundo as nossas estimativas.

O "campo de detenção", pelas descrições do Batista e do Rodrigues, só podia ser na região de Tombali, junto ao rio Corubal e à fronteira (sul) com a Guiné-Conacri (por razões de segurança e logísticas), ou seja, em zona considerada "libertada", segundo a terminologia do PAIGC, mas sujeita aos bombardeamentos da aviação portuguesa.

Depois da fuga do Rodrigues, em 7 de março de 1974, os prisioneiros foram levados para o outro lado da fronteira, já na República da Guiné, segundo o depoimento do Duarte Dias Fortunato, em 2000. Foi aí que receberam a notícia do 25 de abril de 1974.

A tragédia do Quirafo (um grande revés para as NT) mereceu, desta vez, uma menção em 7 linhas no livro da CECA sobre a atividade operacional na Guiné (1971/74):

(....)  Acção - 17Abr72: Nas proximidades de Contabane/Quirafo, L5, uma força constituída
por 1 GComb/CCaç 3490 e 1 Pel Mil (-), numa acção de patrulhamento, foi emboscada durante 15 minutos por uma força inimiga. As NT sofreram 10 mortos, 1 desaparecido e 2 mortos e 3 feridos da população. Foram ainda destruídos 1 viat "GMC" e 1 EIR "TR-28". Foram também danificados 1 viat "Unimog" e 1 E/R "AVP-l". (...)

Em honra dos nossos camaradas, falecidos há 10 anos (*),  e do seu batalhãpo, recordamos aqui o essencial da ficha da sua unidade (**)


Batalhão de Caçadores nº  3872

Identificação BCaç 3872

Unidade Mob: RI 2 - Abrantes

Cmdt: TCor Inf José de Castro e Lemos | 2.° Cmdt: Maj Inf José Carlos Moreira de Campos | OInfOp/Adj: Maj Inf Amélio Ventura Martins Pamplona

Cmdts Comp:

  • CCS: Cap SGE Jorge Araújo Mateus | Cap QEO Carlos Alberto de Araújo Rolin e Duarte | Ten SGE Mário da Encarnação Raposo
  • CCaç 3489: Cap Mil Inf Manuel António da Silva Guarda | Cap Mil Inf José Francisco Rosa
  • CCaç 3490: Cap Mil Inf Dário Manuel de Jesus Lourenço
  • CCaç 3491: Cap Mil Art Fernando de Jesus Pires

Divisa: "O inimigo vos dirá quem somos"

Partida: Embarque em 11Dez71; desembarque em 24Dez71 | Regresso: Embarque em 25Mar74

Síntese da Actividade Operacional

Após realização da IAO, de 27Dez71 a 22Jan72, no CMl, em Cumeré, seguiu em 23Jan72, com as suas subunidades, para o sector de Galomaro, a fim de efectuar o treino operacional e sobreposição com o BCaç 2912.

Em 11Mar72 , assumiu a responsabilidade do referido Sector L5, com sede em Galomaro e abrangendo os subsectores de Cancolim, Dulombi, Saltinho e Galomaro. 

Em 09Mar73, o subsector de Dulombi foi extinto e a sua área integrada no subsector de Galomaro. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional com vista à intercepção de grupos inimigos em direcção ao Boé através do rio Corubal, efectuando reconhecimentos ao longo das suas margens e patrulhamentos intensivos nos prováveis locais de instalação e zonas de refúgio do inimigo, sendo de destacar as reacções a ataques a Dulombi, Campata e Bangacia, que provocaram pesadas baixas e perdas de armamentos e outro material. 

A par disso, continuou a desenvolver acções de assistência sanitária e de contacto com as populações, promovendo o seu desenvolvimento sócioeconómico e dos trabalhos dos reordenamentos, nomeadamente em Contabane e Afiá.

Dentre o material capturado mais significativo, salienta-se: 1 pistola-metralhadora, 2 espingardas, 2 lança-granadas foguete e 42 granadas de armas pesadas.

Em 09Mar74, foi rendido no Sector L5 pelo BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CCaç 3489, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2699, desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Cancolim, em 11Mar72, com um pelotão destacado em Anambé até 22Set71.

Em 08Mar74, foi rendida no subsector pela 2ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu a Bissau para embarque.

***

A CCaç 3490, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2701, desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Saltinho em 11Mar72, tendo deslocado um pelotão para guarnecer o destacamento de Cansamba, este no subsector de Galomaro.

Em 07Mar74, foi rendida pela 3ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CCaç 3491, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2700 desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Dulombi em 08Mar72, tendo deslocado um pelotão para reforço da guarnição de Cancolim até 22Set72.

Em 09Mar73, por extinção do subsector de Dulombi e sua integração no subsector de Galomaro, foi transferida para esta localidade, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, então atribuído à CCS do batalhão. 

Entretanto, desde 04Mai73, cedeu um pelotão para reforço da guarnição de Piche, no sectordo BCaç 3883, o qual foi deslocado, a partir de finais de Ago73, para Nova Lamego, ficando então em reforço do BCav 3854 e depois do BArt 6523/73.

Em 08Mar74, foi rendida pela 1ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nª  95 - 2ª Div/4ª  Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 159 -160

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

(**) Último poste da série >  4 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27490: Fichas de unidades (39): CART 6250/73 (Cumeré, Caboxanque e Ilondé, mai/out 1974)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27765: As nossas geografias emocionais (61): Boé, do Cheche a Lugajole: uma missão de três meses dos Médicos Sem Fronteira, em 1987 (Ramiro Figueira, ex-alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu



Foto nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiro Figueira, acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista. (Partimos de Lisboa num dia que não recordo, em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística.)



Foto nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >  "Cambança" do rio Corubal em jangada



Foto nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé >  Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos acompanhou, decidiu tomar um banho...


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé  > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos



Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Béli e Lugajole  (destino final)



Foto nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança?)



Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu >  Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > A paisagem árida, semidesértica, perto de Béli, a caminho de Lugajole.  Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.



Foto nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajole. A Missão não passou por Madina do Boé (em 1987 ainda minada!)



Foto nº 10A  e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole >  Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região andam pela cota  50,  100, 150, máximo  200/300 metros; Orre Fello tem 200 metros).


Foto nº 11A e 11 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da Guiné -Bissau em 24 de setembro de 1973, segundo o guia local.

Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Antigo mapa geral (1961) (Esacala 1/500 mil) > Percurso a amarelo seguido pela missão dos MSF, em setembro de 1987 (Gabu - Canjadude - Cheche - Béli - Lugajole). O rio Corubal corre no sentido nordeste-sudoeste. A estrela a vermelho assinala o ponto Orre Fello (cota 200 metros). Vd. carta de Béli (1959).

Infografia: Ramiro Figueira / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé >  Posição relativa de Cheche (no rio Corubal), Madina do Boé, Tiankoye (já na Guiné-Conacri, corredor do ataque a Madina do Boé em 10/11/1966 em que morreram Domingos Ramos e muitos outros combatentes do PAIGC), Beli, Lugajole, Vendu Leidi (e perto de Lugajole, Orre Fello) e, por fim, Lela, também já do outro lado da fronteira. 

Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).  



Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).


1. Mensagem de Ramiro Figueira:

Data -  Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto -  Boé

Boa tarde

Como de costume, espreito diariamente o blogue da  Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.

Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969. 

Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre, que  constavam da memória de toda a gente na Guiné.

Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.

Essa circunstância se deveu ao facto de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações fronteiriças.

Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese, dado ter sido amputado por uma mina). 

De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe ​​​​e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.

Pelo caminho de Canjadude a Chche, ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.

Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados ​​​​estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas. 

No que não fiquei sozinho, comigo na equipa ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro  e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.

Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados. 

Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de exploração Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador. 

Foi num desses prédios que instalámos a nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e o depósito de medicamentos.

Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.

Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973
 [Orre Fello]. (**)

Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhos terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá. 

Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o  Kassifo garantia como tendo sido a morança  de Amílcar Cabral. 

Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões. 

Ainda tentei que me levassem ao [antigo] quartel de Madina do  Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”. 

Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.

Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos;  LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (e que se prolongou até dezembro, não?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.

Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969). A sul do rio Corubal, no Boé, deixa de flutuar a bandeira verde-rubra.

E, de facto, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação" (guineense)... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas. Nem sei ainda há testemunhas  diretas ou atores desse evento, os "históricos" já terão morrido todos (com exceção de algum cabo-verdiano ou outro, Manecas dos Santos, Pedro Pires; a Amélia Araújo, a "Maria Turra", essa, acaba de morrer).

E a IA hoje  só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta onde foi o "berço da Nação". Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão, muito o menos em arquivos.  
Só trabalha com a "papinha feita" pelos humanos. Documentos em acesso livre. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe tudo, "canibaliza" o que os humanos produzem, e só atrapalha as vezes. E recorre muito ao nosso blogue, quando se fala da guerra na Guiné. Enfim, pode ser (ou é) útil, desde que usada com... inteligência humana.

O assunto ainda é polémico. Ou talvez não, afinal estamos a discutir o "sexo dos anjos". O nosso blogue levantou a questão pelo menos em 2009: o Patrício Ribeiro esteve lá, em Lugajole, em 2005, com a equipa da televisão (SIC). E levantou a dúvida: os historiógrafos (a começar pelos "tugas") replicam a propaganda do PAIGC. O que é feio, ou pelo menos não é bonito para um historiógrafo (que não é exatamente a mesma coisa que um historiador).

Passados mais de 50 anos, ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em "Madina do Boé". Para muitos guineenses (e cabo-verdianos) que nunca foram em visita ao "berço da Nação", Boé e Madina do Boé é tudo igual. É como o "Pulo do Lobo" no "Alentejo profundo": nunca ninguém lá tinha ido, exceto o prof Cavaco Silva, em 1994 (se não erro). (Por acaso já lá fui, tive curiosidade, e não queria morrer estupido: fica no limite do concelho de Mértola com o de Serpa no Parque Natural do Vale do Guadiana.)

Já temos muita documentação sobre o Boé, mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.

Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.

A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até à fronteira (sul).

Há umas semanas, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles.  Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. O toca-toca não vai até Cheche, Béli, Lugajole, Vendu Leidi, Madina do Boé. E se for,  leva uma pequena fortuna.

É gente, estes netos  de Amilcar Cabral,  com alguma escolaridade, a suficiente para poderem  trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental de um hospital na Europa.

Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido. 
Um alfabravo. 
Luis

PS - Ramiro, recordo (para os nossos leitores) o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):
(...) Conforme o mapa, o local  [Orre Fello] situa-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau.
(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência, nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.

Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)


quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)


(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir, dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi,  subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)