quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Guiné 63/74 - P4891: Os nossos médicos (2): Tierno Bagulho e Pio de Abreu (Canchungo, 1971/73) (Luís Graça / António Graça de Abreu)



Capa e contracapa do livro de J. L. Pio de Abreu, Como tornar-se doente mental, 18ª ed, Lisboa, Dom Quixote, 2008. (Prémio Città delle Rose, 2006).



Fotos: © Luís Graça (2009). Direitos reservados.




Os nossos médicos (2): Tierno Bagulho e Pio de Abreu (Canchungo, 1971/73)

por Luís Graça e António Graça de Abreu


Os médicos que estiveram na Guiné, no tempo da guerra colonial, têm sido em geral parcos de palavras (escritas). Ainda não nos deixaram testemunhos (escritos), com uma excepção ou outra (por exemplo, Mário Ferreira, autor de uma obra de ficção, Tempestade em Bissau, que ainda não li) (*)... Que eu saiba, não temos ninguém equivalente ao António Lobo Antunes (**), que fez a guerra de Angola, e cujas filhas publicaram, em 2006, as cartas e os aerogramas que o pai foi escrevendo à mãe, entretanto falecida por doença.

É bem possível que ainda haja escritos (diários, cartas, aerogramas, relatórios, dossiês, etc.) nas gavetas de alguns dos nossos antigos camaradas médicos. Fotos, seguramente que há algumas, já amarelecidas, no velho baú lá do sótão de um ou outro. É possível, no entanto, que apareçam escritos, sobre a experiência da guerra colonial, da autoria dos nossos médicos, à medida que acabam as suas carreiras no Serviço Nacional de Saúde. No caso dos que foram mobilizados para a Guiné, logo na primeira metade da década de 1960, já estarão mais do que reformados, andando a maioria na casa dos 70-75 anos.

A verdade é que não têm chegado ao nosso blogue, nem os escritos nem as fotos dos médicos que passaram pelo CTIG. O que é pena: o seu ponto de vista, muito particular, sobre o nosso quotidiano na Guiné, é também uma peça importante do puzzle da nossa memória…

Nem sequer sabemos quem eles são (ou foram), quantos foram, por onde andaram e por onde param hoje. Em geral, havia um médico, miliciano, por batalhão. (Originalmente, houve companhias independentes, que tinham o seu próprio médico, como foi o caso foi da CCAÇ 675, Binta 1964/65, de que o nosso camarada JERO era o Fur Mil Enfermeiro) (***).

Julgo eu que fossem, a maior parte deles, de rendição individual. Em Bambadinca, entre 1969 e 1971, conheci no mínimo três, o David Payne, o Saraiva e o Vilar. Destes, o primeiro e o último tiraram depois a especialidade de psiquiatria. O Payne e o Sampaio pertenciam à CCS do BCAÇ 2852 (1968/70). O Vilar – também conhecido pela sua alcunha de caserna, o Drácula – integrava a CCS do BART 2917 (1970/72).

O David Payne, já falecido, foi aqui amiudadas vezes vezes evocado pelo Beja Santos. O Payne seu era amigo e padrinho de casamento (se não me engano). Infelizmente, também já não se encontra entre nós (***).

Os nossos alferes milicianos médicos eram mais velhos que os restantes oficiais e sargentos milicianos. O Lobo Antunes, por exemplo, foi para Angola já com 28 anos, casado… Eram mais velhos por razões óbvias: eram licenciados e, em princípio, tinham de já estar inscritos na Ordem dos Médicos para poderem exercer medicina em Portugal. Convém aqui recordar que as carreiras médicas, públicas, só existem em Portugal, desde 1971.

Não sei quais eram os critérios usados pelo Exército no recrutamento, incorporação, instrução e mobilização dos médicos, digamos, de campanha, que integravam unidades operacionais a nível de batalhão

Talvez alguém saiba e possa escrever mais alguma coisa sobre os serviços de saúde militar, a sua história, o corpo médico, etc. Enquanto estudantes de medicina, os futuros médicos deviam beneficiar de adiamento da incorporação. Mas, quando eram incorporados, não deviam ter ainda grande experiência clínica. A tropa e sobretudo o ultramar devem ter sido, também, para eles, uma grande “escola” (tanto do ponto de vista clínico como humano).

Na Guiné, para além do HM 241, em Bissau, não havia nenhum estabelecimento hospitalar digno desse nome, nem mesmo em Bafatá, a capital da zona leste… Os meios de diagnóstico e terapêutica eram escassos, o serviço de sangue bem como o de anestesia eram inexistentes, a farmácia estava limitada aos produtos do laboratório militar, etc., nos nossos postos médicos, no mato, preparados quando muito para prestar primeiros socorros (um rudimentar medicina de emergência pré-hospitalar) e fazer, quando alguma, algum pequena cirurgia ambulatória com ou em anestesia local...

Não é ofensa para ninguém reconhecer que a preparação dos alferes milicianos médicos (sem falar dos furriéis milicianos enfermeiros e dos 1ºs cabos auxiliares de enfermagem) era deficiente, tanto a nível clínico e terapêutico como epidemológico (conhecimento da etiologia e da distribuição das principais patologias que afectavam a população que serviam, os militares e os civis).

Tal como no passado, o que era sobretudo valorizado era a cirurgia militar, com as suas várias valências, capaz de responder aos casos, mais graves, de feridos em combate ou por acidente, muitos deles politraumatizados, com direito a evacuação Ypsilon (os tais trinta minutos de viagem de heli, de ida e volta, que podiam significar a diferença entre a vida e a morte).

Em geral, os nossos alferes milicianos médicos não nos acompanhavam em operações (a não ser em casos esporádicos como foi o caso do já citado Dr. Saraiva, apanhado pela Op Tigre Vadio, em Março de 1970). Eles pertenciam à CCS do respectivo batalhão e, tal como os capelões, faziam visitas periódicas às unidades de quadrícula (Xime, Mansambo e Xitole, no caso por exemplo do Sector L1, com sede em Bambadinca).

Dentro das limitações dos serviços de saúde militares da época e do país (que só tinha 3 faculdades de medicina, em Coimbra, Lisboa e Porto, e uns escassos 5 mil médicos… no final da década de 1950, número que duplicou na década seguinte!), fizeram-se milagres na Guiné, com a coragem, a competência e a abnegação dos nossos 1ºs cabos auxiliares de enfermagem, dos nossos furriéis milicianos enfermeiros, das nossas pára-quedistas enfermeiras, dos nossos alferes milicianos médicos, dos nossos médicos militares de carreira (que deveriam ser poucos) e, enfim, de todo o staff do HM241 (que, eu, felizmente, nunca conheci, por dentro…), sem esquecer na rectaguarda, na Metrópole, o Hospital Militar Principal, na Estrela, com o seu famigerado Anexo de Campolide, em Lisboa, e o Centro de Medicina de Reabilitação, em Alcoitão, Cascais, criado (em meados da década de 1960) e gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. (Em casos mais graves, que exigiam sofisticados cuidados de cirurgia plástica e reconstrutiva, Portugal tinha um acordo de cooperação com a Alemanha, um parceiro da NATO).

Alguns dos nossos camaradas médicos já não estarão vivos. Outros ainda aparecem nos convívios anuais das unidades a que pertenceram. É o caso, por exemplo, do Dr. Vilar, que foi médico do meu tempo em Bambadinca (CCS/BART 2917, 1970/72), mas também do Dr. Mário Fereira.

De que eu me lembre só temos dois antigos alferes milicianos médicos na nossa lista, de A a Z, dos membros da Tabanca Grande: o Amaral Bernardo e o Mário Bravo (ambos vivem e trabalham no Porto, o primeiro no Hospital de Santo António e o segundo no Hospital da Ordem do Carmo) (****). Não confundir com oficiais milicianos que, tendo sido operacionais, se formaram mais tarde como médicos, já depois do 25 de Abril. É o caso, por exemplo, do nosso querido amigo Victor Junqueira (que vive e trabalha em Pombal).

No descritor “Médicos” do nosso blogue, há já mais de três dezenas de referências. Temos inclusive varais histórias protagonizadas por médicos mas escritas por outros. Daí a ideia de darmos continuidade à série, ainda incipiente, dedicada aos nossos médicos.

É uma série (*****) que deve ser de recordação de (e de homenagem a) os nossos médicos militares que, em geral, eram milicianos, incluindo os que prestavam serviço no HM 241, em Bissau. Fica aqui o apelo para nos lembrarmos deles e eles de nós… Cada um de nós deve ter recorrido uma ou mais vezes aos seus serviços e, portanto, deve ter, no mínimo, uma história passada com eles.

Hoje começamos por evocar dois deles, através da escrita do nosso camarada e amigo António Graça de Abreu, Alf Mil, CAOP 1 (Canchungo, Mansoa e Cufar, Junho de 1972/Abril de 1974). São eles o Tierno Bagulho, na altura já com “trinta e tal anos” e o Pio de Abreu, mais novo. O primeiro (cirurgião) com mais experiência clínica e treino de que o segundo (que hoje é um conhecido psiquiatra). O Tierno Bagulho, infelizmente, já não nos poderá ler. O mesmo não acontece com o coimbrão J.L. Pio de Abreu, autor de um desconcertante e saudavelmente provocador livro sobre saúde mental.

O livro do António Graça de Abreu continua a ser, para mim, uma preciosa fonte de informação (factual e contextual) sobre o período final da guerra que eu já não vivi nem acompanhei (1972/74).

Há tempos perguntei ao Graça de Abreu se tinha mais recordações do Tierno Bagulho, para além das que constam no seu diário. Aqui fica a resposta:

(...) Perguntas-me pelo Bagulho, o médico, cirurgião de Teixeira Pinto. Falo nele no meu livro, conheci-o bem quando cheguei a Teixeira Pinto, em Junho de 1972. Estava lá com outro médico, outro grande senhor chamado Pio de Abreu que é hoje professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e um dos maiores especialistas portugueses em Psiquiatria. Foram duas pessoas que me orgulho muito de ter conhecido. Do Dr. Bagulho, filho do almirante Tierno Bagulho, sei que faleceu poucos anos depois de voltar da Guiné. Afinal tu conheces a viúva, a Raquel. Infelizmente não tenho nenhuma fotografia do Bagulho e do Pio de Abreu, apenas uma onde apareço com o outro médico, o Mário Bravo, que veio substituir um deles em Teixeira Pinto. Um abraço ao Mário Bravo. (...)

Canchungo, 22 de Julho de 1972

Fui hoje jantar com os dois alferes médicos no único tasco onde se pode comer cá na terra. Um bife duro, batatas mal fritas, um ovo estrelado, 45 escudos.

Os dois médicos são gente interessante, inteligentes, cabeças abertas para o mundo. Conversámos sobre a guerra, sobre as nossas vidas. O Bagulho tem trinta e tal anos, é já cirurgião em Lisboa, esteve detido em Caxias quando da crise académica de 1962. O Pio de Abreu ainda não tem trinta anos, é de Coimbra e faz parte daquele grupo de quarenta e nove estudantes da Universidade que, em 1969, na sequência das greves e desacatos na academia coimbrã, foram alistados coercivamente no exército.

Nenhum tem hoje qualquer actividade política nem de contestação do regime, mas carneiros não somos. É pena para mim – não para eles -, estarem em fim de comissão, só mais dois meses para o Bagulho.

São óptimos médicos, segundo a opinião de toda a gente. Dão consulta à população, com intérprete, tratam das milhentas doenças que afligem este povo manjaco e são os médicos militares, cuidam da tropa aqui estacionada e prestam assistência aos feridos em combate que chegam a Canchungo vindos directamente do mato.

Têm uma casa grande apenas habitada por eles, fora do quartel, na avenida principal em frente ao hospital. Uma casa bonita com uma sala de estar confortável, com móveis e tudo.
In: António Graça de Abreu: Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura. Lisboa: Guerra e Paz. 2007. pp. 31/32.

Sobre o Luís Tierno Bagulho, que morreria precocemente, de doença, no final dos anos 70, depois de ter à Guiné, já independente, como médico cooperante, deixando viúva a minha amiga Raquel, e três filhos (duas raparigas e um filho de tenra idade, o Luís, hoje também médico, devendo estar a acabar a sua especialidade em medicina interna, no antigo Hospital São José, em Lisboa), escreve ainda o António Graça de Abreu:

Canchungo, 6 de Agosto de 1972

Depois do jantar, estava no bar de oficiais com o Bagulho, o alferes médico, e chamaram-no de urgência ao hospital. Peguei no jipe e fui lá levá-lo.

Havia uma criança a nascer.

A primeira vez que entrei numa maternidade foi na barriga de minha mãe, a segunda foi hoje. Entrei curioso na pequena sala do hospital que funciona como maternidade no momento exacto em que o bebé nascia, saía coma placenta ensanguentada do ventre da mãe, a pele quase branca. O Bagulho fez rapidamente o seu trabalho de médico e deixou o recém-nascido ao cuidado da enfermeira negra. Pediu-me que o acompanhasse até uma sala mais pequena, do outro lado da parede.

Havia uma criança a morrer.

Um bebé de quatro meses agonizava. A mesma enfermeira que cuidava agora do recém-nascido, há umas horas atrás exagerara na distribuição do soro à criança doente cuja vida se extinguia diante dos nossos olhos. O Bagulho pediu-me para eu ir buscar uma botija de oxigénio. Mas a válvula da botija estava avariada, não regulava a distribuição do gás. O médico suava, eu também. Nada se podia fazer. Extinguia-se uma vida por doença, incompetência, falta de meios. O miúdo morria.

Sempre o supremo milagre: entre nascimento e morte, caminhamos sobre a terra
(p. 38).

(Esta cena fez-me recordar uma outra, passada em Bambadinca, em meados de 1970 – já não posso precisar o mês – em que o Dr. Saraiva, auxiliado pelo nosso querido Pastilhas, se não estou em erro, e mais uns tantos como eu, que só atrapalhavam, tentou desesperadamente salvar uma bebé de umas das nossas amigas do Bataclã de Bambadinca… Elas era de Bafatá (vinham de vez em quando fazer a Bambadinca uma farras) e uma delas tinha uma bebé, de meses, que dormia a um canto, embrulhada nuns míseros panos. A farra era grande, a música alta, íamos já pela noite dentro, quando a mãe – a Ana Maria ? a Fatumatá ? – deu conta de que a criancinha estava com dificuldades respiratórias…

Levada de urgência para o nosso posto médico, no quartel, o Saraiva fez tudo o que estava ao seu alcance para a salvar… Lembro-me dele esquartejar, com o bisturi, a perna da bebé à procura, desesperadamente da safena para lhe poder administrar o soro milagroso da vida… A criança acabou por morrer, já de madrugada… Cotizámo-nos para ajudar a mãe a fazer um funeral condigno… Foi o primeiro bebé que vi a morrer, à minha frente. Embora já calejados pela dureza da guerra, ficámos todos consternados pela morte daquele anjinho… De bisturi em punho, o Saraiva, nessa noite, atingiu, aos meus olhos, o estatuto do gigante humano lutando, num combate desigual, contra a prepotência dos deuses. Eu, que segurava a perninha da criança, não aguentei o combate até ao fim. Pronta e brutamente, o Saraiva dispensou os meus serviços e mandou-me apanhar ar, para a parada)…

Encontro, mais à frente no diário do A. Graça de Abreu, outra referência a médicos, desta vez ao Pio de Abreu:

Canchungo, 16 de Agosto de 1972

Hoje, o resultado das brincadeiras com as armas. Ouvi um tiro e gritos na caserna dos soldados do Batalhão [, BCAÇ 3863], aqui diante do meu quarto, a uns quarenta metros. Fui dos primeiros a chegar, a ver o sucedido. Um soldado, quando brincava coma espingarda, esfacelara o pé direito de outro soldado com um tiro de G3. Tiraram a bota ao pobre rapaz que guinchava de dores, e meu Deus, como estava o pé, destroçado, atravessado de lado a lado, com os ossos e os tendões despedaçados, tudo à mostra, escorrendo sangue. Estava convencido de que era pouco impressionável, mas tive uma tontura, vi tudo branco. Recuperei rápido e ajudei a levar o rapaz em braços para a enfermaria. O Pio, o médico, fez o que pôde. Uma hora depois uma DO evacuava o soldado para o hospital de Bissau.

Em Bafatá, caiu um das avionetas DO ao levantar voo, parece que por acidente, descuido do piloto, um alferes que eu não conhecia. Morreram o piloto e um cabo mecânico.
(pp. 43/4).

O Pio de Abreu ainda estava em Teixeira Pinto, em finais de Outubro de 1972, aquando a emboscada entre Pelundo e Có, a uns quinze quilómetros do Canchungo, a um coluna de cerca de 40 viaturas, e em que seguiam vários oficiais superiores, incluindo o comandante do CAOP1 (o famoso coronel Durão), e em que houve cerca de 10 feridos, alguns com gravidade,

Há uma referência à actuação do Alf Mil Médico Pio de Abreu [, da CCS do BCAÇ 3863, ] na tentativa de salvar a vida a um fuzileiro do PAIGC, atingido por estilhaços de uma bala de helicanhão.


Canchungo, 31 de Outubro de 1972

(…) Quando acontecem estas coisas, pedem-se logo os helicópteros de Bissau para a evacuação dos feridos e vem também o helicanhão que faz fogo sobre os itinerários de retirada do IN. Foi então abatido um guerrilheiro que veio de héli para aqui. Eu sabia que havia feridos e lá estava na pista. O fuzileiro do PAIGC chegou ainda vivo, com um uniforme azul manchado de sangue e um estilhaço na cabeça de bala de helicanhão. O médico e um furriel enfermeiro fizeram-lhe massagens no coração que de nada valeram, o homem morreu. Foi o primeiro guerrilheiro que vi, e logo agonizando numa maca de lona.
(p. 62)

Em Fevereiro de 1973, há outra referência a um intervenção do Pio de Abreu.


Canchungo, 1 de Fevereiro de 1973

(…) No regresso dos comandos [, da 38ª CCmds, enviados com o Cor Ricardo Durão, para lidar com um rebelião de militares guineenses do Bachilé, na sequência de um desafio de futebol que acabara mal], à entrada da vila rebentara uma caixa cheia de dilagramas – granadas disparadas pela G3 com um dispositivo especial – em cima de um Unimog onde vinham catorze homens. Dois mortos de imediato, os restantes feridos vinham a caminho. Corremos para o hospital. Os comandos chegaram. Como vinham, meu Deus! Um Furriel morria na sala de operações. A suas últimas palavras para o Pio, o médico, foram: “ Doutor, cuide dos outros, eu estou bem”. Nas macas, no chão de pedra do hospital jaziam feridos graves, corpos semi-desfeitos, barrigas, intestinos de fora e quatro rapazes só com alguns estilhaços. Não ouvi um queixume mas havia muitos homens a chorar.

Era preciso evacuar os feridos para o hospital de Bissau. Onze horas da noite, iluminámos a pista com os faróis das viaturas e com as mechas acesas de muitas garrafas de cerveja cheias com petróleo, distribuídas de dez em dez metros ao longo do campo de aviação. Aterraram quatro DO. Ajudei a transportar feridos entre o hospital e as avionetas, num dos nossos Unimogs. Dois deles iam muito mal, cravados de estilhaços, em estado de choque ou em coma, não sei se escaparão. (…)
(p. 74).

Dias depois, a 3 de Fevereiro de 1973, o António Graça de Abreu é, transferido, com o CAOP1, para Mansoa (que tem a grande desvantagem, em relação ao Cachungo, de “embrulhar uma vez por mês”, p. 73), e perdemos o rasto do Pio de Abreu, que, como já dissemos, pertencia à CCS do BCAÇ 3863, com sede em Canchungo (Teixeira Pinto).

Mobilizado pelo RI 1, o BCAÇ 3863, esteve sediado (o comando e a CCS) em Teixeira Pinto. A comissão de serviço na Guiné foi de 17/9/1971 a 16/12/1973. Foi comandado pelo Ten Cor António Joaquim Correia. Era composto pelas CCAÇ 3459 (Bassarel), 3460 (Cacheu) e 3461 (Carenque e Teixeira Pinto).

Presumo o que o J.L. Pio de Abreu tenha terminado a comissão na mesma altura que a CCS do BCAÇ 3863, ou até antes. Hoje ele é um dos mais conceituados nomes da psiquiatria portuguesa, sendo psiquiatra do Hospital de Coimbra e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, autor do best-seller Como tornar-se doente mental, 18ª ed, Lisboa, Dom Quixote, 2008. (Prémio Città delle Rose, 2006).

Teríamos muito gosto que ele nos lesse ou que este poste pudesse chegar ao seu conhecimento. O mesmo se passa com a nossa amiga Raquel e seu filho Luís Bagulho, ou até mesmo com as suas filhas (com quem cheguei a privar, quando adolescentes). Talvez a família Bagulho queira e possa acrescentar algo mais sobre este período da vida do nosso camarada que tanto o marcou, como pessoa e como médico, ao ponto de voltar à Guiné-Bissau, como cooperante, sempre generoso e slidário, já depois da independência. Nunca o conheci pessoalmente. A doença atraiçou-o precocemente, creio que já no final dos anos 70.


_____________

Notas de L.G.:

(*) 10 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2092: Antologia (61): Tempestade em Bissau (Mário G. Ferreira)

(**) 9 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)


Vd. também:

28 de Outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3375: (Ex)citações (5): Os nossos soldados eram miúdos, de 19, 20, 21 anos. Admiráveis. Iam matar e morrer (A. Lobo Antunes)

30 de Junho de 2008 >Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

23 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2205: Humor de caserna (1): A sopa nossa de cada dia nos dai hoje (Luís Graça / António Lobo Antunes)

(***) Vd. ppste de 29 de Agosto de 2009 >Guiné 63/74 - P4878: Histórias do Jero (José Eduardo Oliveira) (12): O nosso Alferes Médico na vida civil...


Vd. outras histórias sobre médicos (lista exemplificativa, não exaustiva), publicadas no nosso blogue:

2 de Novembro de 2006
Guiné 63/74 - P1238: David Payne Pereira, um gentleman luso-britânico e um grande médico em Bambadinca (Beja Santos)

8 de Agosto de 2007> Guiné 63/74 - P2036: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (11): Dr Brocas, o contador de estórias que era gago


11 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2523: Estórias de Guileje (7): Um capitão, cacimbado, e um médico, periquito, aos tiros um ao outro... (Rui Ferreira)


26 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2887: Em busca de...(27): José Alberto Machado, Alf Mil Médico (Carlos Marques Santos)

(***) Vd. postes de:

21 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2566: Em busca de ... (21): Malta de Bedanda, do futebol e dos serviços de saúde (Mário Bravo, Alf Mil Médico, CCAÇ 6, 1971/72)

23 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1457: Tertúlia: Apresenta-se o Alf Mil Médico Mário Bravo, CCAÇ 6, Bedanda (1971/72)

28 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1467: Bem vindo a Guileje, Doutor (Mário Bravo)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1517: Tertúlia: Com o António Graça de Abreu em Teixeira Pinto (Mário Bravo)

(*****) Vd. poste de 15 de Fevereiro de 2009 >Guiné 63/74 - P3899: Os nossos médicos (1): Alf Mil Médico José Alberto Machado (Nova Lamego)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Guiné 63/74 - P4890: Estórias do Fernando Chapouto (Fernando Silvério Chapouto) (2): As minhas memórias da Guiné 1965/67 – Escolta a barco para Farim

1. Do nosso Camarada Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 1426 (1965/67), Geba, Camamudo, Banjara e Cantacunda, publicamos neste poste a segunda parte das suas memórias. A primeira parte está no poste P4877 e é referente ao embarque da sua Companhia, no navio Niassa, e à sua tranquila 1ª patrulha em Bissau:


Escolta a um barco com géneros para Farim

Passados uns dias sobre a minha primeira patrulha sem incidentes fui chamado para o cumprimento de uma missão muito delicada, que segundo me foi comunicado era escoltar um barco e dois batelões carregados de géneros, destinados às tropas estacionadas na zona de Farim.

A escolta constava da minha secção com um enfermeiro, um cozinheiro e um radiotelegrafista.
O barco, lá seguiu a “dez à hora” na praia mar, porque na baixa-mar parava completamente. Entramos no rio Cacheu e começaram a surgir os problemas. O rádio não funcionava, talvez por falta de experiência do operador e os alimentos estavam todos estragados.

O arroz estava cheio de bicho, o feijão idem aspas, o azeite rançoso, etc. Além das rações de combate que obviamente não dariam para todo o percurso, restavam-nos em bom estado comestível algumas conservas e chouriços, que tivemos de começar a racionar, pois ainda faltavam muitos dias para chegarmos a Farim.

Quando chegamos à povoação do Cacheu pedimos que nos dessem pão, que nos foi fornecido em grande quantidade. Conseguimos contactar com Bissau, transmitindo que estava tudo a correr bem, excepto no tocante à alimentação. A resposta foi a que esperávamos, que nos desenrascássemos pois mais nada havia a fazer.

E lá fomos rio acima, ao sabor das marés, até S. Vicente, acompanhados de perto por uma lancha da marinha, que entretanto nos veio ajudar na escolta, e que ia e vinha, sempre de “olho” em nós.

Em S. Vicente, permanecemos um dia e meio à espera do barco patrulha, Durante esse tempo dedicamo-nos à pesca no rio e acabamos por pescar um peixe parecido com um tubarão (ou da sua família), que deu para uma ou duas refeições.

Regressado o barco patrulha, o comandante alertou-me para o perigo que íamos enfrentar rio acima.

Voltamos a seguir viagem de noite (o barco patrulha circulava para cima e para baixo) até que o inesperado aconteceu.

Estava eu a passar pelas brasas quando, de repente, ouvi umas rajadas de tiros, aprontei a G3, mas nada mais me chegou aos ouvidos. Um dos cabos chegou junto de mim e disse:

- Furriel que está aí a fazer? - Temos um ferido!

- Mas eles já se calaram! - disse eu.

- Não são terroristas, foi o “preto” (piloto do barco) que adormeceu e deixou o barco entrar pelo arvoredo dentro, e as árvores ao partirem é que pareciam rajadas de tiros. Temos um ferido.

O soldado feriu-se na roldana do mastro, que ao embater nas árvores se soltou e caiu-lhe em cima de uma perna partindo-a. Este soldado não pertencia à minha secção, ia para Farim cumprir mais uma comissão como voluntário.

Tirei o raio do homem do leme do barco e mandei para lá o meu 1º Cabo, que era de Portimão e tinha carta de navegação. Lá seguimos viagem até BINTA, onde deixamos o ferido, e continuamos até Farim, onde chegamos ao meio da manhã.

Depois de cumpridas todas as formalidades habituais, fui ter com o sargento de dia que era um furriel do meu curso, para nos dar uma refeição em condições, contando-lhe a história dos nossos alimentos.

Por ele, furriel, não havia entraves, mas o encrenca do oficial de dia só nos colocou problemas. Perguntei-lhe se era preciso ir falar com o seu comandante de batalhão, para ultrapassar o impasse.

Não foi preciso, lá se ultrapassou este “entrave”, mas perdi nesta “ultrapassagem” mais de uma hora. Acabamos por comer uns restos do tradicional prato da tropa - feijão com chouriço -, mas como a fome é “negra”, ninguém se queixou que era “feijão” como diziam na Metrópole e toca a comer.

Para nossa sorte, Farim tinha sido atacada na manhã anterior com morteiradas e bazucadas, que certamente estavam programadas para nós. Valeu-nos o atraso do tal dia, por causa do barco patrulha, e assim nos safamos desta.

No regresso tudo foi mais rápido, paramos em Binta para carregar os batelões de madeira, que decorreu célere com a ajuda da maré, após o que continuamos o nosso rumo à capital, sem mais problemas, até à entrada da barra.

Uma vez aí chegados, já noite, instalou-se uma grande tempestade, pois estávamos na época das chuvas, acompanhada de uma estrondosa trovoada e ondas de elevada altura que desamarraram os batelões. Com estes à deriva, permaneci no “meu” barquito com mais dois ou três soldados e a tripulação (constituída por nativos).

Bom, se não morrer de um tiro, morro afogado – pensei -, saber nadar nada me adianta aqui. Pensei que o meu fim tinha chegado, os nativos rezavam, aqueles minutos pareceram-me uma eternidade. Com o clarão dos relâmpagos via o lamaçal da margem, e só pensava como é que nos safamos se o barco se volta. Ficamos ali atolados e… de repente o pesadelo terminou. A tempestade passou.

Ao romper do dia, a primeira tarefa foi detectar e atrelar os batelões, que haviam ficado à deriva distantes um do outro. Os nativos lá os amarraram e fomos atracar no cais de Bissau.

Comuniquei a chegada ao comandante de companhia, que nos enviou viaturas com prontidão, mudamos homens e “tarecos”, para as mesmas, e ala que são horas e a fome já apertava. Um bom banho, mudar de roupa que o “perfume” ganho naqueles doze dias era óptimo, a banhos de balde, chuva e fome.

Conclusão, comecei apreensivo a perceber o que se me iria deparar pela frente, pois isto ainda era o início de uns longos meses de comissão.

Importa referir que este foi o primeiro abastecimento de barco a Farim desde o início da guerra na Guiné.

Pensei que parava por ali, no quartel, uns dias, mas bem me enganei pois fui destacado para mais uns patrulhamentos nos arredores de Bissau, a fim de contactar com as populações e detectar eventuais sinais de anormalidade, entre a buliçosa e animada população.

Militares que fizeram parte da escolta a FARIM. Da esquerda para a direita:
Em baixo: 1º Cabo Vitorino, 1º Cabo Enfermeiro Coimbra, 1º Cabo Alfredo, Soldados Costa e Guerreiro.
Em cima: Eu e os Soldado Matos, Radiotelegrafista, Cozinheiro Júlio, Paixão e Duarte. Na foto faltam dois Soldados, o Leonel e o Valter.

Um forte abraço do,
Fernando Chapouto
Fur Mil Op Esp/Ranger da CCaç 1426

Foto e legenda: © Fernando Chapouto Direitos reservados.
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Nota de MR:

Vd. último poste desta série, do mesmo autor, em:


Guiné 63/74 - P4889: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (15): Sobreviver no inferno da Guiné

1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, que foi Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos mais um texto do seu baú de memórias:

Camaradas,

No seguimento do envio das minhas estórias para publicação no blogue, seleccionei mais este texto do meu caixote das memórias, porque acho que é matéria do interesse geral e, mais especificamente, dos nossos Camaradas da Tabanca Grande, o qual intitulei de:

"SOBREVIVER NO INFERNO DA GUINÉ"

Na guerra, o factor sobrevivência de um soldado, depende muito da sua inteligência, astúcia, boas preparações física e psíquica, a que se deve juntar uma boa e adequada dose de instrução militar, aliadas a excelentes capacidades de perspicácia e reflexos naturais (ou sexto sentido), tudo isto bem protegido pelo elemento “esquisito”, que ninguém desdenha possuir e que designamos por sorte. Abreviando a ideia numa curta frase: Regressar vivo a casa!

O chamado instinto de sobrevivência é um dom natural propriedade de quase todos os seres vivos, a que o ser humano felizmente não escapa, em maior ou menor escala de valor em cada espécimen, no entanto não mensurável.

Bem se pode dizer que foi esta faculdade humana, que nós mais utilizámos dia-a-dia, na prática, para sairmos vivos das várias armadilhas, patrulhas, colunas, emboscadas, operações, etc. naquele inferno operacional que nos ditou o P.A.I.G.C., as doenças, as más condições alimentares, as condições adversas territoriais e o problemático clima da Guiné.

Depressa nos apercebíamos que a maioria dos “mandantes” na Guerra, preservavam as suas integridades físicas legando o seu mando nos oficiais de patente mais baixa, ou mais novos vulgo "Piriquitos", que operavam no terreno. Era a sua “lei” de sobrevivência.

Aprendemos então a adaptar-nos ao novo modo de viver – na guerra -, e, majoritariamente, a saber preservar a nossa integridade física e vida pessoal.

Tal no entanto, jamais poderia implicar, recorrer a actos de traição, fosse de que modo fosse, que implicassem a preservação da integridade física e vida pessoal do(s) nosso(s) outro(s) Camarada(s).

Ainda ouvi um dia alguém dizer: “Mais vale um covarde vivo que um herói morto”. Se calhar, digo eu, em caso muito limite, sem colocar em causa a integridade física de qualquer Camarada e se, o candidato a covarde, conseguir viver posteriormente com a sua consciência tranquila, o problema seria só dele e de mais ninguém!

Na minha opinião pessoal, cobardia, no nosso caso, era sonegar-se às vicissitudes da guerra por simples que fossem. Covardia era não ajudar um, ou mais Camaradas em dificuldades e abandoná-los à sua sorte. Em casos extremos, covardia poderia passar por não se lutar abnegadamente até ao último alento de vida, em defesa da nossa própria integridade e, ou, se necessário, da dos nossos Camaradas.

Claro que não somos todos iguais e cada um de nós, e no conjunto da sua unidade, regeu-se por um código de conduta, mais ou menos aguerrido e heróico conforme a sua educação intelectual.

Obviamente que o facto de se ser mais valente e ousado, nomeadamente debaixo de fogo IN, diminuía seriamente as probabilidades de se sobreviver.

Por exemplo, as tropas Comandos têm como seu lema: “A sorte protege os audazes”.

Mas a sorte muitas vezes era madrasta e os seus destemidos e agressivos Homens pereciam em combate.

Heróis sim mas a que custo!

Quem ingressava nas tropas especiais sabia, à partida, que o seu factor de sobrevivência, dependia muito de si e do espírito de corpo que era incutido à sua equipa, ao seu grupo e, em acções bélicas de maior envergadura e perigosidade, à sua companhia.

Quantas vezes os rasgos heróicos individuais, ou colectivos, de bravura e coragem custaram o mesmo número de mortos.

Para esta minha análise, não interessa se esses rasgos foram, ou não, involuntários e, ou, irreflectidos.

Depois havia aqueles que, em áreas muito massacradas pelo IN, que eram submetidos massiva e consecutivamente à provação do privação, sofrimento, dor e morte, que muito para além da ambição suprema – a manutenção da sua vida -, com o avançar do tempo e a deformação do seu melhor estado psíquico e físico, se deixavam apoderar por um estranho desprezo pelo risco e pelo perigo.

Este estado era tanto mais agravado com as doenças graves entre elas as mais temidas como o paludismo e as disenterias.

Em estrado terminal, haviam os que, atingido o seu mais alto nível de esgotamento psicológico, se suicidavam.

Muitos de nós que andávamos embrulhados nas hostilidades, que mal tínhamos tempo para poisar nos nossos bura… kos, só voltávamos a tomar algumas precauções e cuidados, ao aproximar-se o fim das comissões e o regressar dos sonhos de voltar a casa… vivos e incólumes fisicamente, porque, psiquicamente, meus amigos bem sabeis como andamos, ainda hoje, quase todos.

Resumindo e pesando tudo isto que acabei de vos dizer, no meu balanço e análise geral meramente pessoal, ao fim destes 35 anos sobre a conclusão do conflito na Guiné, creio, sinceramente, que nós, os ex-Combatentes desta contenda, salvo as devidas e raras excepções à “regra”, cumprimos escrupulosamente o que nos foi mandado, salvaguardando o nosso código de conduta, que foi sobreviver com honra, dignidade e respeito pelo nosso opositor.

Por isso, muito contribuiu, quando eram pedidos voluntários para qualquer missão, perigosa ou não, respeitarmos uma máxima muito bem delineada entre a malta da tropa “normal”, que todos conhecemos: “Voluntários?... Só para casa”.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art
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Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4888: Estórias do Jorge Fontinha (7): A nossa Casinha

1. Mensagem de Jorge Fontinha, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2791, Bula e Teixeira Pinto, 1970/72, com data de 28 de Agosto de 2009:

Caro vinhal.
Um grande abraço e me parece que já estava na altura de regressar.
Assim aí vai mais um contributo.

Um abraço para toda a tertúlia.
jorge fontinha


A NOSSA CASINHA

Vou aproveitar o facto de o Luís Faria se ter despedido de Binar e estar a chegar a Teixeira Pinto, para retomar as minhas Estórias, pois as dele e as minhas voltam a estar interligadas a partir desta fase. Aproveito também o facto de ele nesta altura ir de férias, para lhe preparar o terreno, pois quando ele regressar vou eu.

Quando finalmente, o resto da Companhia se junta a nós, em Teixeira Pinto, passámos efectivamente a uma acção mais envolvente e efectiva no apoio às Forças Especiais do CAOP 1: Comandos, Páras e Fuzileiros.

De início era apenas um Bi-grupo. O 2.º e o 4.º, e todo o staff da Companhia, com o Capitão Mamede de Sousa, o 1.º Sargento Guerreiro e os restantes Especialistas e os inestimáveis apoios logísticos, muito úteis para quem, dia sim, dia não, prestava apoio à abertura da estrada Teixeira Pinto/Cacheu, intervalado com Operações de grande envergadura ao Balangarez, com as referidas Companhias de Tropas Especiais do CAOP 1. O 3.º Grupo só se juntaria à Companhia, já em Bula, aquando dos Reordenamentos, e o 1.º ao fim de uns dois meses, em Teixeira Pinto, pois manifestamente dois Grupos começava a ser demasiado cansativo para os 2.º e 4.º Grupos. Como diria o Luís Faria, eles abusaram de nós, não sabíamos passar despercebidos!

Todavia este Grupo mais alargado de amigos e camaradas de outros carnavais, passou a ser mais unido e já com os 3 Grupos de Combate Operacionais a revezarem-se, o espaço dentro do quartel começou a ser mais reduzido, para as nossas mais frequentes folgas.

Assim nasce a nossa casinha.

De frente: Gaspar, Jorge Fontinha e Luis Faria. De perfil: Cap. Mamede Sousa. De costas: Chaves e Madaleno

A alguns metros do quartel, ao fundo da Av. Principal de Teixeira Pinto, eu mais um grupo de compinchas, alugámos uma vivenda, onde poderíamos passar umas horas de descompressão e de puro lazer.

Nessas instalações passou a realizar-se alguns momentos de boa degustação de belos camarões e ostras, mas também de amena cavaqueira entre camaradas de armas. Por vezes juntavam-se a nós alguns intrometidos locais, juntamente com alguns convidados, já por mim referenciados, noutras Estórias, como o Chefe de Posto Júlio e outros amigos.

Ali, não havia guerra apenas umas belas cervejas que curiosamente também eram bazucas.

Esta casa era uma espécie de multiusos. Como tinha, para além da sala e da cozinha, uma bela casa de banho, onde dava para refrescar várias vezes ao dia e 4 quartos, não era difícil arranjar ocupantes para eles. As nossas queridas bajudas e ou caboverdianas não se faziam rogadas.

Chaves, Freitas Pereira, Rebocho, Luis Faria, Jorge Fontinha e Guerra Madaleno

Por aquela casa, para além de nós e os nossos amigos, passaram também alguns convidados do Comando do CAOP da altura, alguns elementos semi-incógnitos do PAIGC e vários graduados e praças de todas as forças estacionadas em Teixeira Pinto: Comandos, Fuzas e Páras, para além da anfitriã CCAÇ 2791.

A ideia que nos norteou, ao alugar aquele espaço, foi tão só promover um lugar de convívio entre pessoas de bem e de paz.

Guerra era guerra, lazer era confraternizar sem perguntas.

Nunca houve o mais pequeno problema.

Jorge Fontinha e Antonino Chaves

Um abraço para a tertúlia.
JORGE FONTINHA
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 23 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4237: Estórias do Jorge Fontinha (6): O 4.º GCOMB / CCAÇ 2791, destacado no CAOP 1 - Teixeira Pinto

Guiné 63/74 - P4887: Em busca de... (87): Pessoal do Pel Mort 2138, Mampatá (1969/71) (José Teixeira / Bruno Ramos)

1. Mensagem do nosso tertuliano José Teixeira com data de 31 de Agosto de 2009:

Carlos
Reporter de serviço
Boa tarde
Junto mail de um filho de antigo combatente que pretende contactos sobre antigos combatentes em Mampatá.

No meu tempo não havia pelotão de morteiros, pelo que não conheci o pai do jovem que escreve.
Por favor põe no blogue.

Abraço fraterno do
José Teixeira


2. Mensagem de Bruno Ramos, filho do nosso camarada Hernâni da Silva Ramos, com data de 31 de Agosto de 2009:

Boa tarde,

Daqui é o Bruno Ramos, falo em nome do meu pai, ex 1º cabo Hernâni da Silva Ramos, do Pelotão de Morteiros 2138 que esteve na Guiné entre 1969 e 1971. O pelotão foi divido por várias localidades, e o meu pai esteve em Mampatá. Segundo o que pesquisei, o Batalhão (*) de Caçadores 2381, 2382, 2834 esteve na Guiné na mesma altura com o Pelotão de Morteiros 2138. Estou a contactar pelo seguinte, caso tenha conhecimento de algum camarada desse pelotão, ou até mesmo conheça o meu pai, por favor contacte ou então forneça algum tipo de contacto de qualquer camarada que julgue que tenha alguma informação importante.

Muito obrigado pela atenção,
Bruno Ramos

Telefone: 916 209 000
e-mail: b_ramos@portugalmail.pt


3. Em mensagem posterior, Bruno Ramos informou que criou um Blogue em nome de seu pai, pedindo a devida divulgação.

Aqui fica o endereço da página:

http://pelotaodemorteiros2183.blogs.sapo.pt/
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Notas de CV:

(*) CCAÇs 2381 e 2382, e BCAÇ 2834

Vd. último poste da série de 31 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4886: Em busca de... (86) Informação sobre Américo dos Santos Alves, Sold At NIM 2161/63, da CART 565 e BCAÇ 599 (Fernando Chapouto)

Guiné 63/74 - P4886: Em busca de... (86): Informação sobre Américo dos Santos Alves, Sold At NIM 2161/63, da CART 565 e BCAÇ 599 (Fernando Chapouto)


1. O nosso Camarada Fernando Chapouto, que foi Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 1426 (1965/67), Geba, Camamudo, Banjara e Cantacunda, enviou-nos o seguinte apelo em 29 de Agosto de 2009:

Camaradas,

Lanço-vos o seguinte apelo, solicitando qualquer informação sobre a morte de um militar nosso.


O seu nome era Américo dos Santos Alves Onde, era Soldado Atirador NIM 2161/63 e pertencia à CART 565 e BCAÇ 599.


Vivia em Ferrugende, freguesia de Friões no concelho de Valpaços.


Eu sou da mesma freguesia e como era da mesma idade do falecido, fomos no mesmo dia à inspecção.


Sei que ele morreu em 27/08/64, segundo consta em combate, e foi sepultado no cemitério de Bissau na campa nº 1058.


Nestas férias estive na aldeia com uns sobrinhos, que sabem que eu também estive na Guiné, e me perguntaram se eu sabia a causa da sua morte. Eu disse que não, pois ainda não tinha ido sequer para a Guiné, quando ele morreu.


Fiquei de lhes dar notícias, caso consiga alguma através deste nosso blogue.


Espero que alguém se recorde do sucedido e me informe para o e-mail: fchapouto@gmail.com

Desde já muito agradecido por qualquer esclarecimento prestado.


Um abraço,
Fernando Chapouto
Fur Mil da CCAÇ 1426
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Nota de MR:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P4885: Relembrando o nosso querido capelão, Arsénio Puim, no Xitole (David Guimarães)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > 1970 > O Alf Mil Capelão Arsénio Puim, capelão militar, de origem açoriana (à esquerda), com o furriel Guimarães da CART 2716 (à direita). Devido presumivelmente às suas homilías, o capelão do BART 2917 (Bambadinca , 1970/72) teve problemas com as autoridades do CTIG, acabando por ser detido em Bambadinca, em Maio de 1971, levado para Bissau e, ao fim de um semana, repatriado e demitido de capelão miliar. Terá havido outros casos: o caso talvez mais famoso foi o do Padre Mário da Lixa, também membro da nossa Tabanca Grande.

Até há três meses atrás, era a única foto que possuímos do nosso camarada, hoje enfermeiro reformado, a viver em Vila Franca do Campo, Ilha de São Miguel, Região Autónoma dos Açores, donde é natural (Ilha de Santa Maria).(*)
Por seu turno, , David Guimarães é o membro nº 3 da nossa Tabanca Grande, ex-Fur Mil At Atilharia e Minas, Xitole, sede da CART 2716 / BART 2917 (1970/72). Está reformado da Segurança Social e vive em Espinho.
Foto: © David Guimarães (2005). Direitos reservados.

1. Mensagem de L.G. dirigida ao David Guimarães, com data de 16 de Janeiro de 2008:

Convivi pouco com o capelão Puim. Já não ia missa nessa idade, e muito menos na Guiné, em Bambadinca. Além disso, a malta da CCAÇ 12 tinha uma intensa actividade operacional, ao serviço do comando do do batalhão, sobrando pouco tempo para conviver com a malta da CCS. Levei-o, a ele, Puim, uma vez, numa das nossas colunas logísticas ao Xitole, a ele e à mulher do Carlão... (Ainda me recordo de a ver, de camuflado, e de sapatos de salto alto, vermelhos, à guarda do angélico Puim... Não sei se te recordas: o Carlão era um dos alferes da CCÇ 12, estando na altura destacado no reordenamento de Nhabijões... Alguém se recusou, por razões de segurança, a levar a mulher do Carlão. Deve ter sido o comandante da coluna, um dos nossos alferes ou talvez o Beja Santos, do Pel Cal Nat 52, já não me recordo ao certo... Julgo que a coluna ia mesmo até ao Saltinho. Já não tenho a certeza se ela acabou por ir ou por ficar. O Puim foi dessa vez, e terá sido essa uma das quatro vezes que ele te visitou, no Xitole)...


E posteriormente, a 29 de Janeiro de 2008:

David: Foi nesta altura que conviveste mais com o Padre Puim... Ele ficou no Xitole, duas semanas...Vê se te lembras de mais pormenores, incluindo esta cena da mina e dos picadores de Mansambo... Vou perguntar também ao Humberto, que ia nesta coluna... Julgo que o Vacas de Carvalho também foi... Terá sido no 2º semestre de 1970... O BART 2917 chegou a Bambadinca em meados de 1970 (Junho), tinha a CCAÇ 12 já um ano...


2. Resposta do David Guimarães, com data de 29/1/2008, e até agora inédita:

E pronto, aqui está um problemazinho que nos diz respeito: foi há muito tempo... no tempo da guerra... mas foi, aconteceu. Aquela estrada Bambadinca-Xitole era fértil em tudo e até em minas... Contei há dias algo sobre a Coluna que nos reabasteceu nas alturas do primeiro Natal nosso... 10 de Dezembro de 1970, fixei-me em memória porque efectivamente estive presente na protecção desta e mais tarde no armadilhamento da Mercedes 322 que ficou com a parte da frente destruída quando caiu numa mina reforçada na ponte do Jacarajá e quando regressava a Bambadinca...

Efectivamente houve um com muita gravidade, o 1º Cabo Armindo, da CCS do BART 2917... Este história contei-a já, ainda estamos muitas testemunhas do facto e a apoiar esta informação incluindo os militares da CCaç 12 a que pertenciam o Carlão, o Humberto [Reis], o Henriques (Luís Graça) e tantos outros, claro... Mais testemunhas foram o Major de Operações do BART [2917, o major B.B.] e uma secção onde eu estava - que foi a responsável pela protecção por armadilhamento do que sobrou da Mercedes com três granadas defensivas com arames de tropeçar...

Tudo isto se passou como disse na ponte do Jagarajá - zona de raio de acção das CART 2716, aquartelada no Xitole, e da 2714, aquartelada em Mansambo. Apoiei-me agora em datas, não em factos porque os tenho bem de memória e estão confirmados pelo livro do BART 2917 e inserida esta acção nas pág. 41 de 75 HU-CAP II.

Também creio que não foi esta a coluna onde aconteceu esse guias terem lerpado enfim, na coluna que o nosso capelão seguia... e se deu para além da zona a que eu estava inserido, quer dizer que foi para lá do Jagarajá, quem do Xitole se desloca para Bambadinca...

Claro que, consultando o livrinho, ele poderá avivar, ela foi outra que não essa... mas a data será menos importante que o acontecimento...

A relação com o Capelão do Batalhão - o Padre Puim (**)...

Os quinze dias de convívio com o nosso capelão no Xitole foi importante naturalmente - o Padre Puim era uma pessoa que transmitia paz e segurança, era ouvido atento, conselheiro e amigo e camarada também...

Sei que na Cart 2716, durante aqueles 15 dias, ele foi pessoa bastante importante, o mensageiro da paz dentro da guerra e, curioso, aquela linda Capela que existia testemunhando decerto as nossa crença, foi nessa data usada para celebração de Eucaristia... Há boa maneira portuguesa e em honra a todas as aldeias que representávamos tivemos missa, no Xitole rezada pelo nosso Pároco afinal - o nosso querido Capelão...

Existe para aí uma foto em que eu estou com o Puim junto a uma bananeira - sim, será possivelmente a única foto que temos no blogue - mas é isso, ele procurou estar em todo o lado e esteve - tivemos dias diferentes...

Estava uma pessoa do Batalhão e que nos era querida a todos... Já tanto não seriam outras pessoas ligadas ao Comando, como é óbvio… que tomáramos nós vê-los sempre longe e muito longe - mas isso passou e o tempo ensinou-nos a isso e resta-nos dizer que a guerra era assim e por certo modo entender que efectivamente seria necessária aquela disciplina, mas isso é outra coisa...

O Puim foi uma pessoa que muito cedo se relacionou connosco... Colocados os quadros para formar Batalhão na Pesada 2 logo nos veio ter um Capelão...portanto logo começamos os quadros a relacionarmo-nos com o Padre Puim - curioso que não usávamos o termo Capelão... Creio também que nunca dissemos Meu Alferes, era o Sr. Padre e pronto...

Mas como dizia foi uma como que longa - a tropa era sempre muito - a nossa a estadia com o Padre Puim e portanto existia confiança e lealdade entre nós num relacionamento fraterno, menos militar e muito mais humano... Vi que a tropa aí era um acidente... Não a consegui reprovar contudo razões se impunham, talvez genéticas, sendo que contudo saberia que meu pai tudo faria para me livrar a atropa e ele era profissional - só por isso... Isso está escrito...

Assim o Padre Puim esteve na Pesada 2 (Vila Nova de Gaia), Viana do Castelo, um tempo largo e depois na Guiné... Ele e nós quadros do BART tivemos oportunidade de nos conhecermos muito bem e, como o IAO foi enorme, também os todos os militares que compunham o Batalhão o conheciam bem, a partir de Viana onde estivemos todos. Daí que houve uma grande e sã convivência entre todos - sendo que os Serviços religiosos, inúteis para a maioria, se tornavam essenciais quando apareciam Puims...

Teve o cuidado de visitar todas as Companhias, de ouvir toda a todos os cuidados e paciência de ouvir a todos e mais teve o cuidado de se fazer ouvir também... Assim esteve sempre perto de todos... Creio que se essa era a missão de um Capelão, pois se era ele cumpriu até ao fim, tempo em que deixou saudades a todo o Batalhão, como sabemos (**)...

E por ter sido apóstolo a tempo inteiro, os fariseus não lhe perdoaram...


Um abraço David Guimarães

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Notas de L.G.:

(*) Vd. postes de:

17 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1763: Quando a PIDE/DGS levou o Padre Puim, por causa da homília da paz (Bambadinca, 1 de Janeiro de 1971) (Abílio Machado)

5 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1925: O meu reencontro com o Arsénio Puim, ex-capelão do BART 2917 (David Guimarães)

16 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2444: Arsénio Puim, ex-Alf Mil Capelão, CCS/BART 2917, hoje enfermeiro reformado e um grande mariense (Luís Candeias)

18 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4372: Convívios (131): CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), com o Arsénio Puim e os filhos do Carlos Rebelo (Benjamim Durães)

19 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4378: Arsénio Puim, o regresso do 'Nosso Capelão' (Benjamim Durães, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72)


(**) Vd. postes de:

14 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4521: Memórias de um alferes capelão (Arsénio Puim, BART 2917, Dez 69/ Mai 71) (1): No RAP 2, V.N. Gaia, onde fez mais de 60 funerais

10 de Julho de 2009 >Guiné 63/74 - P4666: Memorias de um alferes capelão (Arsénio Puim, BART 2917, Dez 69/Mai 71) (2): De Viana do Castelo a Bissau

10 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4665: Memória dos lugares (33): A minha visita a Missirá, na passagem de ano de 1970, com o médico Mário Ferreira (Arsénio Puim)

domingo, 30 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4884: Estórias do Juvenal Amado (22): O que será na verdade a coragem

1. Mensagem de Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74, com data de 27 de Agosto de 2009:

Caros Carlos, Luis, Virginio. Magalhães e restante Tabanca Grande

Era para ser um comentário ao poste 4865 do camarada Carlos Adrião Geraldes que li e reli pois achei muito saborosa.
O Cabo Mqueiro Abel era na verdade aquilo que se pode chamar um desenrascado.

Lembrei-me dos ajuntamentos à volta da minha Berliet, onde os Maqueiros ou Enfermeiros tratavam alguma ferida mais ligeira de algum popular. Era comum aparecerem nas aldeias mais recondidas, mulheres e crianças com sarna que eram tratadas logo no local. Entretanto, nós trocavamos os comprimidos de sal por fruta. Eles ficavam contentes e nós ainda mais.

Um abraço para todos
Juvenal Amado


O que será na verdade a coragem

O André era de compleição robusta, transmontano de gema cedo puxou pelo físico nos campo e possivelmente na construção civil. Se bem me recordo, os baldes, em madeira e chapa de zinco, cheios de massa eram acartados ao ombro dos garotos serventes, que ainda em idade escolar tinham que ajudar os magros rendimentos das famílias. Muitos chegaram às fileiras do Exército só com as 2.ª e 3.ª classes do ensino obrigatório.

O peso dos baldes era hoje muito para a maioria dos adultos e estamos a falar de crianças.

Isto repetia-se por todo o País e não só na terra do André.

Quando chegaram à idade militar, uns foram utilizar essa força, construir as cidades de países já livres de disputas coloniais, que utilizaram os seus meios económicos para se modernizarem e darem bem estar ao seu povo.

De forma indirecta ajudaram a perpetuar com as suas remessas monetárias o regime e a guerra, que os obrigou a procurar sobrevivência por toda essa Europa livre.

Outros tiveram que utilizar a mesma força, incorporando os contingentes que foram sendo despejados em África nos principais teatros de operações.

Mas voltando ao André, quis a sorte que ele fosse escolhido para Maqueiro.

Penso que ele se sentia mais à vontade a usar a espingarda do que a seringa. Gostava da acção, e a provar foi a forma em como no ataque a Galomaro utilizou o morteiro 60 mm pondo a zona de onde o IN atacava a ferro e fogo.

Mas, os maqueiros tinham uma especialidade em que a primeira coisa a fazer era prestar socorro aos feridos, e mesmo debaixo de fogo, tentar ajudar quem deles precisava, esquecendo que também eles eram alvo das balas inimigas.

Era pois uma coragem em que se escolhia os outros primeiro.

Assim, 15 dias antes do ataque a Galomaro, o André esqueceu as possíveis minas e de um salto já estava ao pé do Teixeira que lançava gritos lancinantes de dor e de espanto.

Ninguém lá chegou primeiro que ele, tal era o seu espírito solidário.

Medicou, fez torniquetes e deu esperança ao nosso camarada gravemente ferido. Finalmente as lágrimas correram-lhe pelo rosto em sinal de revolta, quanto fechou aqueles olhos que já não viam.

O André quando regressou também emigrou e foi construir as cidades dos outros, cumpriu assim o destino luso.

Conseguiu o bem-estar, que até aí lhe tinha sido negado. Construiu na sua terra uma maison com garage e terá assim feito planos para que os filhos não passassem o mesmo que ele passou, quando finalmente regressasse.

Que outra maneira poderia ser?

Homem que não aprende com o passado não tem futuro.
Juvenal Amado

Pessoal de Saúde de prevenção no decorrer de uma Operação. Da esq. Fur Graça, Médico, André e Catroga

Tratamento em ambulatório - Cabo Enfermeiro Catroga

Vacinação

O Alf Vasconcelos e o Médico Vieira Coelho

O Alf Vasconcelos e o Médico Vieira Coelho

Furriel Graça com população

Fotos: © Juvenal Amado (2009). Direitos reservados.

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 23 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4854: Estórias do Juvenal Amado (21): O dia de Alcobaça e a Feira de S. Bernardo, dia 20 de Agosto

Guiné 63/74 - P4883: Notas de Leitura (19): Sobre o legado teórico de Amílcar Cabral (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos, ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70, com data de 27 de Agosto de 2009:

Camaradas,

Aqui vai uma recensão sobre uma obra que apareceu em 1974. Em correio separado, vou novamente enviar-vos, também com o pedido de publicação de um texto e imagem sobre uma edição igualmente histórica da obra política de Amílcar Cabral publicada em França, em 1970.
A seguir remeto-me ao silêncio, tereis notícias das minhas leituras em Setembro. Recebei a minha estima e elevada consideração.


Sobre o legado teórico de Amílcar Cabral

Imediatamente após o 25 de Abril de 1974, as Edições Afrontamento deram à estampa várias publicações alusivas à história dos movimentos de libertação operantes nas colónias portuguesas. No conjunto dessas iniciativas é de ressaltar uma antologia organizada pelo Luís Moita e Maria do Rosário Moita relativa ao pensamento de Amílcar Cabral: “Textos Políticos”, assim se intitula esta antologia abreviada que permitiu ao leitor português conhecer o pensamento do antigo secretário-geral do PAIGC.

É sobre essa raridade histórica que iremos à frente falar. A antologia aparece organizada em torno de três temas fundamentais: a história do movimento de libertação; a teoria que fundamentava a acção no movimento de libertação; e a natureza da política anti-colonial, na perspectiva das relações internacionais. No final, são transcritas longas passagens daquele que foi considerado o testamento político de Amílcar Cabral – o seu último discurso, a sua mensagem de ano novo em 1 de Janeiro de 1973.

Cabral foi reconhecidamente um dos maiores teóricos na luta anti-colonial, deixou um pensamento que pode ser ainda hoje explorado para múltiplas leituras nas dimensões política, social e cultural. Agrónomo especializado na erosão dos solos, aparece na Guiné nos anos 50, onde irá proceder a um recenseamento que lhe irá permitir um contacto profundo com todos os grupos étnicos guineenses, avaliar as potencialidades económicas da região e conhecer minuciosamente todas as suas infra-estruturas e equipamentos. Dirá mais tarde que não foi em vão que optou por vir trabalhar para a Guiné, ele que fora convidado para assistente no Instituto Superior de Agronomia.

De formação marxista, crente nas teses que então vigoravam sobre a integração económica na emancipação do continente africano, estava atento às questões tribais, à natureza específica de um proletariado rural que se devia aliar a uma minúscula burguesia, confinada aos pequenos centros urbanos.

Tentou na Guiné criar uma associação cívica, as autoridades de Bissau não autorizaram a constituição dessa associação, alegando que a maioria dos proponentes não pertencia à classe dos “civilizados”. Mais tarde, em 1956, será um dos fundadores na clandestinidade do PAIGC. Nos anos subsequentes, a Guiné Conacri e o Senegal tornam-se independentes, ateia-se o rastilho que vai possibilitar o apoio ao PAIGC, sobretudo a partir de Conacri.

Cabral, um político de visão, toma nota que a luta armada em que se vai envolver é num território que precisa de ter uma língua de coesão e uma atitude eminentemente libertadora e identitária, já que os líderes de Conacri não escondem o desejo da anexar o território da Guiné portuguesa para criar “a grande Guiné” e Senghor também não dissimula que pretende ter um papel director no novo país de língua portuguesa.

O PAIGC torna-se uma realidade no espectro político africano em 1961, ano em que se inicia a Guerra Colonial e se dá uma vaga de prisões de quadros do PAIGC. Cabral tudo estrutura, tudo organiza, tudo escreve, torna-se na figura emblemática do PAIGC, é o mais prestigiado líder dos movimentos de libertação. No final de 1962, apresenta-se numa comissão das Nações Unidas e apela para que acabe urgentemente a presença colonial portuguesa na Guiné e em Cabo Verde.

Em 1963, depois de ter rejeitado quaisquer alianças com outros movimentos libertadores da Guiné, inicia-se a luta armada, criou-se a cisão da influência territorial entre a potência colonialista e o movimento de libertação, em pouco mais de dois anos alterou-se radicalmente a forma de ocupação do território guineense, falando-se, em termos de propaganda do PAIGC, em zonas libertadas, zonas temporariamente ocupadas pelas tropas portuguesas e zonas em discussão. A aprendizagem da luta armada faz-se em tempo acelerado, entrou-se a sério numa guerra de guerrilhas, militar e socialmente muito violenta.

O líder do PAIGC não tem ilusões sobre o carácter da mobilização de massas para a luta da independência. Diz sempre que o colonialista português não se apropriou das terras da Guiné, não criou concentrações de colonos, não deslocou grandes massas de africanos para pôr no seu lugar colonos europeus, como aconteceu em Angola.

Na Guiné manteve-se a propriedade colectiva da aldeia, o que dificultou a sensibilização dos camponeses, demonstrando-lhes como eles eram explorados na própria terra. Influenciado por outros teóricos africanos, Cabral considerava que a África do tempo não era tribal, seria a luta para ter pão e viver com dignidade que iria rapidamente influenciar a coesão de todos os guineenses (como se sabe, não só esta base teórica era falsa como veio a propiciar equívocos tremendos de que a Guiné ainda não se libertou).

Onde o seu pensamento se revelou inegavelmente heterodoxo foi na sua leitura de classes, na natureza das alianças em tempo revolucionário, na ênfase dada ao papel da cultura e na argumentação utilizada para demarcar a luta anti-colonial da estima fraterna sentida pela população portuguesa.

Esta antologia, convém insistir, está marcada pela data em que apareceu no mercado português e pelo tempo da euforia da independência, logo em 1974. É um livro que fala mais do pensamento do lutador do que do visionário da construção da nação guineense.
Na época, ainda ninguém tinha coragem em desmascarar a inviabilidade de forçar a Guiné e Cabo Verde a coabitarem no mesmo Estado, sabendo-se, como já se sabia, que eram duas realidades completamente distintas, tanto na história do colonialismo, como na economia, educação, valores, religião, etc.

A antologia também por isso não acolhe a visão de Cabral sobre o modo de transformar a Guiné como país subdesenvolvido numa nação na senda do progresso. Vários estudiosos do pensamento de Cabral observam que a sua experiência sob o desenvolvimento estava condicionada pela organização das zonas libertadas, não deixou reflexão teórica sobre um estádio superior de desenvolvimento pós-colonial.

Esta é a antologia de 1974, nela palpita o pensamento e a visão de um lutador optimista, prestigiado e dotado de uma enorme capacidade de comunicação e humanismo. Lêem-se estes textos políticos à luz de um grande sopro libertador, pois para Cabral o mais importante era libertar o povo e confiar no homem.

Como ele escreveu “O homem sobreviverá às classes e continuará a produzir e a fazer história, porque não pode libertar-se do fardo das suas necessidades, das suas mãos e do seu cérebro, que estão na base do desenvolvimento das forças produtivas”.

Com um grande abraço de camaradagem,
Beja Santos
Alf Mil Cmdt do Pel Caç Nat 52
Imagem: © Beja Santos (2009). Direitos reservados.
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Nota de MR: